Mostrando postagens com marcador Mauritz Stiller. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Mauritz Stiller. Mostrar todas as postagens

março 07, 2020

*********** EMIL JANNINGS, um ATOR NAZISTA



 
Altura: 1,83 m
Cabelos: castanhos


Ele foi um dos atores mais importantes do cinema mudo, desfrutando de um enorme sucesso internacional, antes de emprestar seus serviços ao Terceiro Reich. Durante muitos anos EMIL JANNINGS (1884 – 1950. Rorschach / Suíça) foi considerado o maior ator europeu, além de ser um dos mais bem pagos de sua época. Expressando magnificamente os medos e dúvidas de homens orgulhosos e de bom coração que são enganados. Foi premiado com o primeiro Oscar de Melhor Ator em 1927-1928. Seu pai, um empresário norte-americano bem-sucedido, morreu precocemente quando ele era criança. Mudou-se com a mãe para Leipzig e depois para Görlitz, no extremo leste da Alemanha. Aos 16 anos fugiu de casa para se tornar marinheiro, mas rapidamente decidiu que ser ator. Sua primeira chance aconteceu na companhia de teatro do lendário Max Reinhardt, em Berlim, 1906. Terminaria se estabelecendo como um dos maiores talentos da indústria cinematográfica, estrelando filmes aclamados como “A Última Gargalhada” (1924) - que Alfred Hitchcock descreveu como “um filme quase perfeito”.  
 
emil e sua esposa gussy holl
Ao assinar contrato com a produtora UFA, brilhou em “Os Olhos da Múmia” (1918) e “Madame DuBarry” (1919), ambos com a estrela Pola Negri. Em 1925 interpretou o imperador Nero na fascinante superprodução ítalo-alemã “Quo Vadis?”, filmada em Roma com um elenco internacional, incluindo Lilian Hall-Davis e Rina de Liguoro. Corpulento, projetando uma presença enorme na tela, EMIL JANNINGS era a figura trágica ideal. Graças ao sucesso, a Paramount Pictures o contratou por três anos, apesar da fama de ataques histéricos e de roubar cenas dos colegas. O contrato lucrativo incluía controle sobre roteiros, papéis e escolha de diretores.

Nos EUA fez seis filmes mudos, alguns perdidos para sempre. Instalou-se com a esposa Gussy Holl na Hollywood Boulevard, em uma suntuosa réplica de uma mansão sulina, onde viveu cercado de cachorros da raça Chow, papagaios e pássaros. Era um anfitrião divertido, com sua ironia mordaz, brincadeiras eróticas e excessos gastronômicos. Adaptou-se facilmente ao turbilhão social de Hollywood - há fotos dele na intimidade com Greta Garbo de maiô -, mas para alguns era um tirano mal-humorado. Evelyn Brent, sua parceira em A Última Ordem” (1928), disse que era temperamental e mimado: “Podia ficar aborrecido com insignificâncias”. No entanto, reconhece que era “um ator esplêndido”.
 
evelyn brent e emil
Em um artigo de abril de 1929, no “Los Angeles Times”, o crítico de cinema Edwin Schallert descreveu-o como “o rei das estrelas do cinema europeu”. Na época, por interpretar um grão-duque em A Última Ordem” e um funcionário do banco em “Tortura da Carne” (1928), venceu o Oscar de Melhor Ator. Com o cinema falado, seu forte sotaque germânico foi rejeitado e ele regressou à Alemanha, onde protagonizaria o excelente “O Anjo Azul” (1930), ao lado de Marlene Dietrich, ganhando aplausos ao interpretar um professor idoso que é destruído por sua paixão pela cantora de cabaré Lola-Lola. A diva Dietrich o odiava e costumava chamá-lo de “presunto velho”.

Em março de 1933, quando Adolf Hitler assumiu o controle da Alemanha, Joseph Goebbels foi nomeado ministro da Propaganda do Reich. Ele escolheu EMIL JANNINGS como o ator emblemático do regime nazista e seu veículo propagandístico oficial. O primeiro filme desta união foi “Alma Mascarada / Der Alte und der Junge König - Friedrichs des Grossen Jugend”, de 1935, retratando o rei prussiano Friedrich Wilhelm I, numa cinebiografia histórica destinada a exaltar o conceito de obediência cega ao líder. 
 
emil e o oscar
Embora não fosse membro do partido, o ator era um defensor entusiástico da ideologia nazista. Autorizado a ter total controle sobre seus próprios filmes, foi o principal responsável por Ohm Kruger (1941), um dos longas mais caros da época. O popular diretor Veit Harlan, que passou a ter grande conceito com Goebbels ao se divorciar da atriz judia Dora Gerson (morta em Auschwitz, em 1943, com sua família), dirigindo EMIL JANNINGS no drama “Crepúsculo / Der Herrscher”, de 1937. 
 
Os laços estreitos entre ator e o Führer foram selados quando fez campanha para Hitler nas eleições de 1938. A Tobis Films, nas mãos do governo, tinha EMIL JANNINGS como membro do conselho, além do celebrado Gustaf Gründgens. Em 1941, foi agraciado como Artista do Estado (Staatsschauspieler), a maior honraria alemã concedida a um artista. Também recebeu o “Anel de Honra do Cinema Alemão”. Anos antes, em 1937, por “Crepúsculo”, venceria a Taça Volpi de Melhor Ator no Festival de Cinema de Veneza. Sua lealdade ao nazismo rendeu uma vida luxuosa e sucesso na carreira.
 
greta garbo, emil e gussy holl
Fritz Hippler, que pilotava o departamento de cinema do Ministério da Propaganda e dirigiu o anti-semita “O Eterno Judeu / Der Ewige Jude (1940), publicou o livro “Contemplations on Filmmaking” em 1942, tendo EMIL JANNINGS como autor do prefácio. O historiador Frank Noack, que escreveu sua biografia em 2012, diz que a mãe russa dele, que morava em Berlim, tinha origem judaica. Ele especula que manter a mãe protegida foi fundamental para o ator trabalhar com os nazistas.

No final da II Grande Guerra, quando as tropas aliadas tomaram Berlim, o ator mostrou sua estatueta, gritando: “Não atire, eu venci um Oscar!”. Não foi preso, mas sua reputação estava em frangalhos. Oficiais militares britânicos que o interrogaram rejeitaram as alegações de que havia trabalhado com relutância para o regime nazista. As filmagens do seu último filme, “Wo ist Herr Belling?” (1945), foram interrompidas e ele oficialmente proibido de fazer outro filme ou atuar no teatro. O homem que foi considerado o maior ator do mundo nunca mais atuou.
 
joseph goebbels e emil jannings
Passou a morar numa fazenda na Áustria, onde foi entrevistado pelo jornal novaiorquino “The Rochester Democrat and Chronicle”. A entrevista foi realizada pelo escritor Klaus Mann e publicada em 1945. Quando Mann perguntou sobre seu envolvimento com os nazistas, ele respondeu: “Resistência aberta significaria um campo de concentração”, garantindo que foi ordenado por Goebbels para fazer os filmes de propaganda. Em sua autobiografia “Life and Me”, de 1951, praticamente ignora sua conexão nazista.  

Os últimos dias de vida foram dolorosos. Convertido ao catolicismo, nada parecia lhe trazer paz. Passou a beber muito, falecendo de câncer de fígado em 1950, aos 65 anos. “Ele morreu sozinho, amargo e em desgraça”, disse seu biógrafo. EMIL JANNINGS foi casado com as atrizes Hanna Ralph, Lucie Höflich e Gussy Holl. Todos os casamentos terminaram em divórcio. No seu túmulo está escrito: “Tudo termina, as alegrias e as infinitas tristezas”. Seu Oscar está no Museu de Cinema de Berlim. Em 1960 foi homenageado com uma estrela na Calçada da Fama de Hollywood.

emil jannings em “a última gargalhada”

18 FILMES de EMIL JANNINGS
(por ordem de preferência)

01
A ÚLTIMA GARGALHADA
(Der Letzte Mann, 1924)

direção de F. W. Murnau
elenco: Maly Delschaft

02
FAUSTO
(Faust: Eine Deutsche Volkssage, 1926)

direção de F. W. Murnau
elenco: Gösta Ekman e Camilla Horn

03
O ANJO AZUL
(Der Blaue Engel, 1930)

direção de Josef von Sternberg
elenco: Marlene Dietrich

04
QUO VADIS?
(Idem, 1925)

direção de Gabriellino D'Annunzio e Georg Jacoby
elenco: Elena Sangro, Rina De Liguoro, Lillian Hall-Davis e Andrea Habay

05
A ÚLTIMA ORDEM
(The Last Command, 1928)

direção de Josef von Sternberg
elenco: Evelyn Brent e William Powell

06
VARIETÉ – A TRAGÉDIA de um ARTISTA
(Varieté, 1925)

direção de Ewald André Dupont
elenco: Maly Delschaft e Lya De Putti

07
Os OLHOS da MÚMIA
(Die Augen der Mumie Ma, 1918)

direção de Ernst Lubitsch
elenco: Pola Negri e Harry Liedtke

08
ANNA BOLENA
(Anna Boleyn, 1920)

direção de Ernst Lubitsch
elenco: Henny Porten e Paul Hartmann

09
TARTUFO
(Herr Tartüff, 1925)

direção de F. W. Murnau
elenco: Lil Dagover e Werner Krauss

10
MADAME DuBARRY
(Idem, 1919)

direção de Ernst Lubitsch
elenco: Pola Negri e Harry Liedtke

11
ALTA TRAIÇÃO
(The Patriot, 1928)

direção de Ernst Lubitsch
elenco: Lewis Stone e Florence Vidor

12
TORTURA da CARNE
(The Way of All Flesh, 1927)

direção de Victor Fleming
elenco: Belle Bennett

13
AMORES de FARAÓ
(Das Weib des Pharao, 1922)

direção de Ernst Lubitsch
elenco: Harry Liedtke, Paul Wegener e Lyda Salmonova

14
O GABINETE das FIGURAS de CERA
(Das Wachsfigurenkabinett, 1924)

direção de Paul Leni e Leo Birinsky
elenco: Conrad Veidt e Werner Krauss

15
RUA do PECADO
(Street of Sin, 1928)

direção de Mauritz Stiller
elenco: Fay Wray e Olga Baclanova

16
OTHELLO
(Idem, 1922)

direção de Dimitri Buchowetzki
elenco: Werner Krauss, Ica von Lenkeffy e Lya De Putti

17
DANTON
(Idem, 1921)

direção de Dimitri Buchowetzki
elenco: Werner Krauss, Ossip Runitsch e Maly Delschaft

18
Os IRMÃOS KARAMAZOFF
(Die Brüder Karamasoff, 1920)

direção de Carl Froelich
elenco: Bernhard Goetzke, Werner Krauss e Hanna Ralph

GALERIA de FOTOS



outubro 16, 2012

************** LISTÃO: 18 TESOUROS de CINÉFILO

desencontro”

 
Recebi e-mails de leitores deste blog pedindo sugestões de filmes clássicos para assistir. Sei que indicar filmes implica nem sempre acertar o alvo: um longa pode provocar-me impressões inesquecíveis e noutro cinéfilo passar em branco. Ainda assim, desejando a conexão que muitas vezes acontece entre cinéfilos, garimpei durante o feriado minha coleção de filmes clássicos, escolhendo dezoito preciosidades não tão conhecidas. Sugiro que assista cada um deles. Se já viu um ou outro, deixe o seu comentário. Todos eles são facilmente localizados na internet para dowload, com legenda em português. Não estou fazendo apologia da pirataria – inclusive, alguns dos filmes têm mais de 70 anos -, mas uma defesa da circulação de informação, furando a barreira quase impenetrável da divulgação maciça de produtos cinematográficos sem qualidade e relevância. Vamos lá! Eles valem a pena ser assistidos. Recomendo.

1919, Suécia
O TESOURO do SIR ARNE
(Herr Arnes Pengar)

direção de Mauritz Stiller
elenco: Mary Johnson, Erik Stocklassa e Hjalmar Selander

Considerado uma raridade, se passa na Suécia do século 16, com aventureiros, ambição, vingança e amor maldito. Três mercenários escoceses matam um fazendeiro e toda sua família para roubar um caixão coberto de ouro. Uma garota sobrevive ao massacre, mudando-se de cidade. Mais adiante, ela se apaixona por um dos assassinos dos seus familiares. Terá, então, que decidir entre seu amor por ele ou o desejo de justiça. Destaque para a bela cena final, que mostra o cortejo fúnebre sobre a neve, com o povo todo seguindo o caixão, recriada por Eisenstein no final da primeira parte do “Ivan, o Terrível – Parte I / Ivan Groznyv” (1944). Baseado em um conto de Selma Lagerlöff, tem na direção o notável Mauritz Stiller (que levou Greta Garbo para Hollywood e morreu jovem). Fique de olho na maravilhosa Mary Johnson, a “Lillian Gish sueca”.

1922, EUA
ROBIN HOOD
(Idem)

direção de Allan Dwan
elenco: Douglas Fairbanks, Wallace Beery, Enid Bennett
e Alan Hale

Um das produções mais caras dos anos 1920, com orçamento estimado em cerca de um milhão de dólares, ficou desaparecido por décadas, sendo dada como perdido, mas acabou redescoberto na década de 1960. Ótimo para conhecer um dos mais carismáticos astros do cinema  mudo: Douglas Fairbanks Jr. Há uma grande tentação em comparar o Robin Hood de Fairbanks com o de Errol Flynn. Embora os personagens sejam os mesmos, os filmes são totalmente diferentes em enredo, direcionamento e estilo. Flynn é um herói sedutor, mas ele é todo homem. Doug é viril, também, mas lembra personagens de contos de fada, tem algo de menino, de adolescente sapeca travestido de adulto. Luxuoso, com impressionantes cenários e vistosos figurinos, ainda ainda encanta. Beery, como o rei Ricardo Coração de Leão, muitas vezes rouba a cena.

1925, Alemanha
VARIETÉ – a TRAGÉDIA de um ARTISTA
(Varieté)

direção de Ewald André Dupont
elenco: Emil Jannings, Maly Delschaft e Lya De Putti

Um trapezista casado (o grande Emil Jemmings, o primeiro ator a levar o Oscar), que trabalha em um circo de um parque de diversões, apaixona-se por uma garota abandonada, foge com ela e reconstrói sua vida noutro circo, mas quando descobre que ela o trai, decide matá-la. Com movimentos de câmera ousados e meticulosos, planos inovadores e ângulos expressivos, trata-se de uma obra-prima.

1927, EUA
PAIXÃO e CRIME
(Underworld)

direção de Josef von Sternberg
elenco: George Bancroft, Evelyn Brent e Clive Brook

Dotado de extraordinário senso plástico e de um estilo que subordina o tema e a caracterização dos personagens às experiências com a sombra, a luz e a composição, o alemão Sternberg criou um cinema de ilusão e sensualidade, no qual a poesia e a pintura se unem para expressar a beleza. O filme conta a história de um gângster sentimental que se sacrifica pela amizade a um advogado e pelo amor da namorada, ambos apaixonados, mas reprimindo seus sentimentos por lealdade. Sente-se a total criação de Sternberg, cuja mise-en-scène caracteriza-se pela economia de meios, originalidade e disciplina. O êxito fez com que os executivos da Paramount mantivessem Sternberg ocupado por anos (quase sempre à disposição da musa e amada Marlene Dietrich).

1928, EUA
VENTO e AREIA
(The Wind)

direção de Victor Sjostrom
elenco: Lillian Gish, Lars Hanson e Montagu Love

Evoca o cinema de terror, o melodrama e o western. Realizado pelo sueco Victor Sjöström, foi Lillian Gish quem primeiro se apaixonou pelo romance de Dorothy Scarborough, desejando interpretar a comportada sulista que vai ao Texas para se casar, mas é violentada no trem por um desconhecido, acabando por matá-lo e por enlouquecer, em meio à tempestade de areia provocada pelo vento.  As filmagens foram das mais penosas. O calor do deserto era tanto que a película derretia dentro da câmera. A areia era lançada sobre Lillian por oito hélices de avião, junto com produtos sulfurosos que lhe queimavam a pele e quase a deixaram cega. Nesta fita muda, a constância do vento é tão marcante, os detalhes que revelam sua presença tão concretos que dá a impressão de ter assistido a um filme sonoro. Com atuação primorosa, Lillian Gish mostra porque é considerada uma das maiores atrizes da história do cinema.

1932, EUA
ZAROFF, o CAÇADOR de VIDAS
(The Most Dangerous Game)

direção de Ernest B. Schoedsack e Irving Pichel
elenco: Joel McCrea, Fay Wray, Leslie Banks
e Robert Armstrong

Um nobre russo insano, que costuma caçar humanos em sua remota ilha, “abastece-se” de vítimas provocando naufrágios, ao alterar as sinalizações que avisam onde estão os perigosos recifes de corais. O sobrevivente de um destes naufrágios (o formoso Joel McCrea) é um famoso caçador que, quando descobre como o vilão se “diverte”, revolta-se. O conde lhe propõe que os dois cacem os passageiros do próximo navio, mas diante da recusa ele decide simultaneamente caçar o mocinho e uma hóspede. Produzido nos estúdios da RKO Radio Pictures durante uma pausa nas filmagens de “King Kong / Idem” (1933), utiliza o diretor Ernest B. Schoedsack, o compositor Max Steiner e os atores Fay Wray e Robert Armstrong. Emocionante, lembra seriados de aventuras.

1936, EUA
AMOR e ÓDIO na FLORESTA
(The Trail of the Lonesome Pine)

direção de Henry Hathaway
elenco: Sylvia Sidney, Fred MacMurray e Henry Fonda

O primeiro filme a ser rodado em paisagens naturais em Technicolor em três cores. Baseado no romance de John Fox Jr., que já havia sido filmado em 1916 por Cecil B. DeMille, deu o estrelato a Henry Fonda, além de consolidar a carreira de Hathaway. Um engenheiro que vai para as montanhas do Kentucky, com o objetivo de levar os benefícios do transporte ferroviário para aquelas, envolvendo-se com duas famílias que estão em guerra há tanto tempo que ninguém sabe mais por quais motivos. A presença de Sylvia Sidney como June Tolliver fascina. Um drama terno e mágico.

1941, EUA
O ÚLTIMO REFÚGIO
(High Sierra)

direção de Raoul Walsh
elenco: Humphrey Bogart, Ida Lupino, Arthur Kennedy
 e Joan Leslie

Uma das primeiras parcerias de Bogart com o amigo John Huston (que aparece como roteirista). Ele ganhou seu primeiro papel principal somente porque Paul Muni e George Raft não encararam o bandido. Conta com locações na região californiana de Sierra Nevada, com imagens do Monte Whitney, o pico continental de maior altitude dos EUA. Na trama, após cumprir pena de oito anos por assalto a banco, bandido participa de um roubo num hotel, sendo perseguido pela polícia e acossado numa montanha. Refilmado como “Golpe de Misericórdia / Colorado Territory” (1949) e “Morrendo a Cada Instante / I Died a Thousand Times” (1955). No elenco, a excelente Ida Lupino.

1943, EUA
ESTA TERRA é MINHA
(This Land is Mine)

direção de Jean Renoir
  elenco: Charles Laughton, Maureen O’hara, George Sanders
 e Una O’Connor

Em meio à ocupação nazista na França, um tímido e inseguro professor (Laughton, em soberba atuação) muda seu comportamento ao se ver envolvido em ações da Resistência Francesa e ser acusado injustamente por um assassinato. Clássico do francês Jean Renoir, filmado nos EUA, tem momentos tocantes, como o discurso final de Laughton falando de liberdade, opressão, covardia e coragem. Imbatíveis em cena, Laughton e a coadjuvante de luxo Una O’Connor voltariam a trabalhar juntos em “Testemunha de Acusação / Witness for the Prosecution” (1957), de Billy Wilder.

1945, Inglaterra
DESENCANTO
(Brief Encounter)

direção de David Lean
elenco: Celia Johnson e Trevor Howard

Lean, o diretor de grandes épicos, filmou com dificuldades, em pleno auge da Segunda Guerra Mundial, na Inglaterra, este drama delicado, levando sua primeira indicação ao Oscar. Questionando a infidelidade e valorizando o amor proibido, sofreu certa rejeição por parte dos críticos que o condenaram por abordar assuntos que iam contra os valores morais da época. Repleto de cenas maravilhosas, não é exagero considerá-lo um dos melhores filmes românticos do cinema. Suave, sem exageros, sincero e melancólico, foge do convencional típico de Hollywood e conta com atuações esplêndidas.

1949, EUA
SANGUE do MEU SANGUE
(Strangers in the House)

direção de Joseph L. Mankiewicz
elenco: Edward G. Robinson, Susan Hayward, Richard Conte
e Debra Paget

Rude imigrante italiano sobe na vida ao praticar uma série de atividades ilegais num banco fundado por ele. Quando é preso, três dos seus filhos se voltam contra ele, enquanto que apenas um deles decide defendê-lo. Refilmado como faroeste – “A Lança Partida / Broken Lance” (1954) –, sombrio e agressivo, tenso e belo, reafirma o talento do diretor-roteirista Mankiewicz (de “A Malvada / All About Eve”, 1950). As atuações de Edward G. Robinson e Richard Conte, dois atores fabulosos, são milagrosas. Susan, belíssima, já deixa evidente que seria uma das maiores estrelas dos anos 50.

1955, EUA
CONSPIRAÇÃO do SILÊNCIO
(Bad Day at Black Rock)

direção de John Sturges
elenco: Spencer Tracy, Robert Ryan, Anne Francis,
Dean Jagger, Walter Brennan, Ernest Borgnine
e Lee Marvin

Considerado por muitos críticos como a obra-prima de Sturges, não obedece aos códigos de nenhum gênero, misturando western, thriller, policial e filme de guerra. Tracy (num fabuloso trabalho que lhe valeria mais uma nomeação para o Oscar) chega a pequena cidade em busca de um certo Komako, mas todos os habitantes parecem se unir para tentar impedi-lo de encontrá-lo. A maioria silenciosa e o linchamento de Komako tem a ver com o linchamento moral a que o macarthismo vinha submetendo artistas e intelectuais suspeitos de atividades antinorte-americanas. Robert Ryan se destaca com mais um personagem asqueroso em sua filmografia. Admirável, o filme dura apenas 80 minutos, mas impõe personagens e situações, mantendo um clima de suspense magnificamente conduzido, partindo de um roteiro muito bem desenvolvido.

1958, Itália
A LONGA NOITE de LOUCURAS
(La Notte Brava)

direção de Mauro Bolognini
elenco: Rossanna Schiaffino, Elsa Martinelli, Laurent Terzieff,
Jean-Claude Brialy e Antonella Lualdi

Primeiro dos três filmes de Bolognini com roteiro de Pier Paolo Pasolini. Com um elenco atraente de novos talentos da Itália e da França, fala de gigolôs e prostitutas. Elas rodam bolsinha nos becos romanos, eles as exploram. Realista e comovente, prova o talento subestimado do diretor, que ficaria conhecido por exemplares reconstituições históricas e adaptações de grandes romancistas (Alberto Moravia, Italo Svevo, Vasco Pratolini etc.) e seria rotulado injustamente de mero imitador de Visconti.

1967, Canadá
APENAS uma MULHER
(The Fox)

direção de Mark Rydell
elenco: Sandy Dennis, Anne Heywood e Keir Dullea

Numa fazenda no interior do Canadá, duas garotas solitárias e apaixonadas têm seu relacionamento ameaçado com a chegada inesperada de um atraente estranho. É um dos primeiros filmes a tratar explicitamente o tema do lesbianismo. Considerado um clássico, inspirado na obra do inglês D. H. Lawrence, causou um profundo frisson à época de seu lançamento no Brasil, no final dos anos 60, em pleno vigor do AI 5.

1968, França
As CORÇAS
(Les Biches)

direção de Claude Chabrol
elenco: Stéphane Audran, Jacqueline Sassard  
e Jean-Louis Trintignant

Nunca lançado comercialmente no Brasil, “Les Biches” (que, em francês, pode ser tanto os animais como sinônimo de namoradeira) fala da história de amor e morte entre duas mulheres. Why (Jacqueline Sassard, impecável) é uma artista que desenha as corças do título na calçada. Frédérique (Stéphane Audran, musa e mulher do diretor na época, que com esse papel venceu o Leão de Prata de Melhor Atriz no Festival de Berlim), uma ricaça entediada, aproxima-se e deixa para ela, ao lado das moedas, uma nota de 500 francos. Tornam-se amantes. Com personagens inesquecíveis e impactantes, extraordinariamente bem interpretados, dando vazão a suas pulsões soturnas e indizíveis, o filme é incisivo e seco. Ambiguidade, crítica à burguesia com seus valores questionáveis, tensão sexual permanente, frivolidade e cinismo.

1971, EUA
A ÚLTIMA SESSÃO de CINEMA
(The Last Picture Show)

direção de Peter Bogdanovich
elenco: Timothy Bottoms, Jeff Bridges, Cybill Shepherd,
Ben Johnson, Cloris Leachman e Ellen Burstyn

Dois adolescentes passam seus dias bebendo e namorando em uma cidadezinha do Texas no início da década de 1950, época da guerra da Coréia. Eles têm como diversão apenas uma sessão semanal de cinema na única sala de exibição da cidade, além da iniciação sexual. Só que os dois se apaixonam pela mesma moça e aí a amizade entre eles se abala. Indicado para oito Oscars, venceu nas categorias coadjuvantes (os veteranos Ben Johnson e Cloris Leachman). Filmado em preto-e-branco, transmite uma sensação de desolação e melancolia. O romantismo de outros filmes feitos ou ambientados nos anos 50 não tem lugar aqui. Além das infidelidades, apresenta ainda momentos reveladores dos segredos escondidos naquela sociedade aparentemente perfeita. Há pedofilia, orgias particulares e até insinuações de homossexualismo. Tudo isso é apresentado de forma honesta. Bogdanovich, após uma vida tumultuada, sofreu reveses na carreira e hoje em dia é mais lembrado como historiador e comentarista de cinema. No elenco, Ellen Burstyn, que se tornaria uma das grandes atrizes dos anos 70.

1976, Brasil
GUERRA CONJUGAL

direção de Joaquim Pedro de Andrade
elenco: Lima Duarte, Jofre Soares, Carmem Silva,
 Ítala Nandi e Carlos Kroeber

Joaquim Pedro de Andrade foi um marco na cinematografia brasileira. É dele o célebre “Macunaíma” (1969), filme que ainda é reproduzido com frequência e debatido por todo o país. Mas toda a obra do diretor é fortemente expressiva. Em tempos de um cinema brasileiro diferente – data da notável década cinematográfica de 1970 – revela a sórdida vivência de homens e mulheres desprezíveis, imundos, mas nem por isso menos humanos. Baseado em um grupo de contos de Dalton Trevisan, traz o amor descontente e sádico de uma sociedade violenta que ri de sua própria desgraça. Traz homens e mulheres embalados pelo sexo agressivo, pelo machismo e pela solidão. A “civilização terno e gravata” é o cerne de todo o filme para mostrar o comportamento mesquinho e insensato dos pertencentes às camadas urbanas. Frases bem encaixadas durante os poucos 90 minutos de filme, deixam marcas do sarcasmo intenso de Trevisan. Um filme sobre as psicopatologias amorosas da urbe. Completo em sua acidez e azedo até mesmo nos cenários ridiculamente ligados ao interior dos personagens.

1986, EUA
A MANHÃ SEGUINTE
(The Morning After)

direção de Sidney Lumet
elenco: Jane Fonda, Jeff Bridges  e Raul Julia

Uma atriz decadente e alcoólatra, numa de suas habituais bebedeiras, acaba passando a noite com um famoso fotógrafo. Ao acordar na manhã seguinte, encontra o homem assassinado na sua cama. Incapaz de lembrar onde está e o que aconteceu, ela pede ajuda a seu cabeleireiro e ex-marido para se desfazer do corpo. A seguir,  conhece um ex-policial que acaba por ajudá-la a desvendar o mistério. Aos 49 anos, Jane Fonda vivia uma carreira brilhante, das mais brilhantes do cinema norte-americano, indicada nada menos que sete vezes ao Oscar, e vencido duas vezes. Por sua sensacional interpretação neste filme recebeu sua oitava indicação ao prêmio da Academia. Ela se inspirou, para compor o personagem de Alex, em Gail Russell (1924 - 1961), a atriz que, tímida, tornou-se alcoólatra e foi encontrada morta em seu apartamento, em meio a muitas garrafas vazias, aos 36 anos. Renegado pela crítica, esse thriller tem alguns furos na trama. De qualquer forma, vale a pena vê-lo por causa do talento de Lumet, dos personagens e das interpretações de Fonda e Bridges.