Mostrando postagens com marcador Marcello Mastroianni. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Marcello Mastroianni. Mostrar todas as postagens

agosto 29, 2025

******* FELLINI: MEMÓRIAS, SONHOS e FANTASIAS

 



“Sou apenas um contador de histórias,
e o cinema é o meu meio. Gosto dele
porque recria a vida em movimento,
amplifica-a. Está muito próximo
da criação milagrosa da vida.”
FEDERICO FELLINI 
 Oito e Meio
 
 
Um dos grandes diretores italianos, criou um estilo cinematográfico inimitável, combinando surrealismo com crítica social incisiva.  Explorou em 23 filmes suas obsessões com o circense, a decadência social, a redenção espiritual e as mulheres, gerando influências em diversos cineastas, como o siciliano Paolo Sorrentino ou o norte-americano Martin Scorsese, que diz rever “Oito e Meio” (1963) todo ano. FEDERICO FELLINI (1920 – 1993. Rimini / Itália) colocou a própria biografia em sua criação cinematográfica. Na realidade, aos dezenove anos deixou a provinciana cidade natal, transferindo-se para Roma. Seu primeiro emprego foi na revista humorística “Marc’Aurelio”. Na Itália semidestruída pela II Guerra Mundial, oscilou de um emprego a outro. Depois de trabalhar como repórter, locutor de rádio e escritor de fotonovelas, o famoso ator Aldo Fabrizi o contratou para escrever esquetes para espetáculos de uma companhia teatral ambulante. Com ela, o futuro cineasta correu a Itália, aprendendo a técnica de contar histórias a partir de pequenos incidentes dramáticos ou cômicos.
 
A guerra estava acabando. No meio dos destroços, entre bombas e fuzilamentos, o cinema italiano voltava a brilhar. Era o começo do neorrealismo, uma arte verdadeira, sem glamour e sem estrelas, que mudaria o panorama do cinema mundial. E ele fazia parte desse movimento. Seu primeiro trabalho em filmes foi em um roteiro para o lendário Roberto Rossellini, contando o episódio verídico do fuzilamento de um padre pelos nazistas. “Roma, Cidade Aberta / Roma Città Aperta” (1945) transformou-se em um clássico. Começava aí uma das carreiras mais exuberantes da sétima arte. A colaboração com o cinema se intensificou e alguns dos seus roteiros foram pontos altos do neorrealismo: “O Moinho do Pó / Il Mulino del Po” (1949), de Alberto Lattuada; “O Caminho da Esperança / Il Cammino della Speranza” (1950), de Pietro Germi; “Milagre em Milão / Miracolo a Milano” (1951), de Vittorio de Sica, entre outros. Em 1950, co-dirigiu com Alberto Lattuada “Mulheres e Luzes / Luci del Varietà”. O segundo filme, “Abismo de um Sonho / Lo Sceicco Bianco”, veio em 1952 e teve péssima recepção.
 
Um ícone da fantasia com uma visão pessoal acerca da sociedade, ele ressignificou suas lembranças da infância-juventude e seus sonhos, traduzindo-os em obras magistrais. O cinema se tornou, para o diretor, um espaço de interpretação de fantasias e desejos, de reconciliação com situações de tempos passados. Brincou sem limites entre o real e o imaginário, o ficcional e o biográfico, alta e baixa cultura, cinema de autor e de entretenimento, num universo onírico copiado mundialmente. A grande virada foi “A Doce Vida”, de 1960. Sucesso de bilheteria e condenado pela Igreja Católica, este filme insólito abandona o que poderíamos chamar de uma representação mais crua, buscando se aproximar de um mundo simbólico, estilizado. A partir deste momento decisivo, sua obra, que ele descrevia como “sonhos em celuloide”, funda um estilo próprio, no qual mescla memória e sonho, quase sempre não deixando claro onde termina um e começa o outro. Seu cinema barroco, delirante e pessoal torna sua filmografia uma das mais premiadas e envolventes de todos os tempos. 
 
Ele descrevia seu método criativo afirmando que a invenção para suas tramas se dava a partir de suas experiências, memórias, esperanças,
“uma mistura de emoções pessoais, alterações, as cores da escuridão que vivem em mim”. Condecorado com quatro estatuetas no Oscar, um recorde na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, seu legado é visto como um divisor de águas, rendendo um novo adjetivo no vocabulário cinematográfico: o termo felliniano. O cineasta teve como principais colaboradores, a atriz e esposa Giulietta Masina, o ator Marcello Mastroianni, o compositor Nino Rota, o produtor Angelo Rizzoli, o roteirista Ennio Flaiano e o editor Ruggero Mastroianni. Ele, pessoalmente, nos deixou em 1993. Seu cinema singular, de melancolia mágica, jamais nos deixará. É eterno. Cento e cinco anos após seu nascimento, FEDERICO FELLINI ainda se destaca como um gigante do cinema. Este post é um tributo a um artista criativo e livre, que inventou um universo cinematográfico próprio: uma visão mágica do mundo.
 
Oito e Meio
DEZ FILMES para CONHECER FELLINI
(por ordem de preferência)
 
01
A DOCE VIDA
(La Dolce Vita, 1960)

elenco: Marcello Mastroianni, Anita Ekberg, Anouk Aimée,

Yvonne Furneaux, Magali Noel, Alain Cuny,
Annibale Ninchi, Valeria Ciangottini e Laura Betti

Um dos maiores filmes do cinema. Impulsionou a carreira do cineasta italiano ao sucesso internacional - ironicamente, ao oferecer uma crítica contundente à cultura do estrelato. Um olhar sobre o vazio existencial por trás do estilo de vida sedutor dos ricos e glamorosos de Roma, acompanha um notório jornalista de celebridades (um Marcello Mastroianni sublimemente icônico) nas periferias dos holofotes. Mordaz, foi incisivo sobre a decadência da Europa contemporânea e forneceu um vislumbre premonitório de quão obcecada por fofocas e fama nossa sociedade se tornaria. Cunhou o termo paparazzo, mas seu verdadeiro mérito reside no cinismo com que disseca uma cidade.
 
Indicado ao Oscar de Melhor Direção
Palma de Ouro (Melhor Filme) no Festival de Cannes
David di Donatello de Melhor Diretor
Melhor Filme Estrangeiro do Círculo
dos Críticos de Cinema de Nova Iorque

 
02
AMARCORD
(Idem, 1974)
 
elenco: Magali Noel, Bruno Zanin, Puppella Maggio,
Armando Grancia, Ciccio Ingrassia e Maria Antonietta Beluzz

O realizador retorna à paisagem provinciana de sua infância com esta reminiscência, recriando sua cidade natal, Rimini, nos estúdios da Cinecittà e retratando seu cotidiano como um circo de rituais sociais, desejos adolescentes, fantasias masculinas e subterfúgios políticos. Esboçando uma galeria de caricaturas cômicas, evoca com carinho um mundo desaparecido, aureolado pelo brilho da memória, ao mesmo tempo em que satiriza um país embrutecido pelo fascismo. Entrelaça com maestria a cinematografia vibrante de Giuseppe Rottuno, os figurinos e cenários extravagantes de Danilo Donati e a trilha sonora nostálgica de Nino Rota. Talvez seja o filme mais pessoal do diretor.
 
Indicado ao Oscar de Melhor Diretor
Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
David di Donatello de Melhor Filme e Melhor Diretor
Nastro d´Argento de Melhor Diretor
Melhor Filme Estrangeiro do National Board of Review
Melhor Filme e Melhor Diretor do Círculo dos Critícos
de Cinema de Nova Iorque

 
03
NOITES de CABÍRIA
(Le Notti di Cabiria, 1957)

elenco: Giulietta Masina, François Périer, Dorian Gray

e Amedeo Nazzari

 
Ascensão, queda e recuperação de uma prostituta, num ambiente de rua, exploração, milagres e trapaceiros. Grande consagração popular do cineasta, apresentando uma das personagens mais inesquecíveis de todo o cinema: Cabiria (magnífica Masina), uma trabalhadora sexual irreprimível e ferozmente independente que, enquanto se move por Roma, em meio à adversidade e à tristeza, precisa confiar em seu próprio espírito indomável para se manter de pé. O filme encerrou a fase inicial do diretor, de influência neorrealista, com um final sublimemente comovente, porém esperançoso, que incorpora a mistura do amargo e do doce que define sua recorrente visão de mundo. Obra-prima.
 
Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
David di Donatello de Melhor Diretor
Nastro d´Argento de Melhor Diretor

 
 
04
Os BOAS VIDAS
(I Vitelloni, 1953)

elenco: Alberto Sordi, Franco Fabrizi, Franco Interlenghi,

 Leopoldo Trieste, Leonora Ruffo, Paola Borboni,
Lída Baarová e Vira Silenti

 
A segunda criação solo do diretor rendeu seu primeiro sucesso comercial: um retrato lúcido de cinco jovens mergulhados em um limbo provinciano, sonhando com aventuras e uma fuga de sua pequena cidade costeira. Baseando-se em memórias entre a nostalgia cômica de
“Amarcord” e a ressaca da cidade grande de “A Doce Vida”, cria um filmaço semiautobiográfico com personagens afiados: Fausto, o galã, forçado a se casar com uma moça que engravidou; Alberto, o filho perpétuo; Leopoldo, um escritor sedento de fama; e Moraldo, a consciência do grupo. A crônica cinematográfica captura a lassidão e o anseio de seus protagonistas com nostalgia, perspicácia humorada e compaixão.
 
Nastro d´Argento de Melhor Diretor
Leão de Prata no Festival de Veneza
 
05
FELLINI OITO e MEIO
(8½, 1963)

elenco: Marcello Mastroianni, Anouk Aimée, Claudia Cardinale,

Sandra Milo, Rossella Falk, Barbara Steele,
Madeleine Lebeau e Caterina Boratto

 
Considerado por muitos o seu melhor trabalho. Marcello Mastroianni interpreta Guido Anselmi, um cineasta cujo novo projeto está desmoronando ao seu redor, junto com sua vida. Um dos filmes mais aplaudidos pela crítica, teve um primeiro título provisório,
“A Bela Confusão”, e é exatamente isso: um sonho cintilante e um número de mágica. Códice para decifrar a obra felliniana, essa alucinação transgressora tem sido imitada desde sempre. Mastroianni substitui o próprio diretor em suas fantasias surreais sobre o bloqueio artístico, a infância que volta feroz, a cavalgada de mulheres que ele decepcionou, inseguranças, música e a certeza absoluta de que a vida é um circo.
 
Indicado ao Oscar de Melhor Diretor
Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
Nastro d´Argento de Melhor Diretor
Grande Prêmio no Festival de Moscou
Melhor Filme Estrangeiro no National Board of Review
Melhor Filme Estrangeiro no Círculo

dos Críticos de Cinema de Nova Iorque
 
06
A ESTRADA da VIDA
 (La Strada, 1954)

elenco: Giulietta Masina, Anthony Quinn e Richard Basehart

 
Uma decadente companhia de diversões ambulante percorre as estradas da Itália. O primeiro sucesso internacional do diretor. Ponte entre seu passado neorrealista e a fantasia lírica que está por vir, repleto de símbolos amargos e referências à commedia dell'arte. Com este drama inovador, o diretor retrata uma visão pessoal e poética da vida como um carnaval agridoce. A expressiva Masina registra tanto a maravilha infantil quanto o desespero de partir o coração como Gelsomina. A obra possui a pureza e a ressonância atemporal de uma fábula e continua sendo uma das visões mais comoventes do cinema sobre a humanidade lutando para sobreviver diante das crueldades da vida.
 
Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
Nastro d´Argento de Melhor Diretor
Melhor Filme Estrangeiro no Círculo dos Críticos
de Cinema de Nova Iorque
Leão de Prata no Festival de Veneza

 
07
SATYRICON de FELLINI
(Fellini – Satyricon, 1968)

elenco: Martin Potter, Hiram Keller, Salvo Randone,

Magali Noel, Capucine, Alain Cuny,
Lucia Bosè e Gordon Mitchell

 
A carreira do realizador atingiu novos patamares de excentricidade e brilhantismo com esta notável, controversa e extremamente livre adaptação da sátira romana clássica de Petrônio, escrita durante o império de Nero. Uma enxurrada episódica de licenciosidade sexual, violência profana e grotesco cativante, acompanha as façanhas de dois jovens pansexuais - o belo estudioso Encólpio e seu amigo vulgar e insaciavelmente lascivo Ascilto - enquanto se movem por uma paisagem de excessos pagãos de forma livre que remete ao sexo libertário moderno. Criando um caos aparente com controle primoroso, o diretor constrói um mundo antigo impactante e estranho que parece ficção científica.
 
Melhor Filme Italiano no Festival de Veneza
 
08
A TRAPAÇA
(II Bidone, 1955)

elenco: Broderick Crawford, Richard Basehart, Giu
lietta Masina,
Franco Fabrizi e Lorella De Luca

 
Abandonando em parte os floreios poéticos das obras mais famosas do realizador, é um drama policial neorrealista sombrio, pouco conhecido, estrelado por um magistral Broderick Crawford como um dos personagens mais complexos do cânone do diretor: um vigarista profissional decadente que, tendo feito carreira explorando a ingenuidade de camponeses pobres, de repente descobre que seus caminhos tortuosos começaram a alcançá-lo. Entrelaçando magistralmente o realismo humano da história com elementos de humor, cria um retrato contundente de um homem lidando com as consequências de suas escolhas de vida, que o atinge com a força de uma profunda e fatal tragédia moral.
 
09
JULIETA dos ESPÍRITOS
(Giulietta degli spiriti, 1965)

elenco: Giulietta Masina, Sandra Milo, Mario Pisu,

Valentina Cortese, Valeska Gert, José Luis de Vilallonga,
Caterina Boratto e Sylva Koscina

 
Primeiro longa-metragem em cores do diretor. Caleidoscópio projetado na psique de uma mulher de meia-idade que atravessa uma crise mística. Baseando-se em cenas de sua vida pessoal, Giulietta Masina interpreta uma senhora refinada que se aventura no espiritualismo e cujo domínio da realidade começa a se esvair quando descobre que o marido está tendo um caso, o que a leva a uma jornada alucinatória de autodescoberta na qual memórias, sonhos e forças sobrenaturais se fundem. Com a cinematografia virtuosa de Gianni di Venanzo, o filme examina as preocupações centrais do diretor - sexo e amor, vida e morte, fantasia e realidade - da perspectiva do intimismo feminino.
 
Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro
Melhor Filme Estrangeiro do National Board of Review
Melhor Filme Estrangeiro do Círculo dos Críticos
de Cinema de Nova Iorque

 
10
ROMA de FELLINI
(Roma, 1972)

elenco: Britta Barnes, Peter Gonzales Falcon e Anna Magnani

 
Relato de viagem, memórias e espetáculo cinematográfico ultrajante da Cidade Eterna. Esta fantasia urbana entrelaça lembranças da juventude do diretor na era de Mussolini com um retrato impressionista da Roma contemporânea. Os prazeres materiais do sexo, da comida, da vida noturna e de um alucinante desfile de moda eclesiástica são permeados por vislumbres de um passado monumental: o Coliseu cercado pelo trânsito, afrescos antigos desenterrados em um túnel de metrô, uma estátua de César manchada por pombos. Com uma mistura estonteante de imediatismo documental e artifício extravagante, penetra no mito e na mística da histórica e maravilhosa capital da Itália.
 
FONTES
“Eu, Fellini” (1995)
de Charlotte Chandler
 
“Fellini. Vou Falar-te de Mim”
(1999)
de Costanzo Costantini

 
CADERNO de SONHOS
Nos anos 60, incentivado pelo analista junguiano Ernst Bernhard, FEDERICO FELLINI passou a registrar os próprios sonhos através de textos e ilustrações - atividade que manteve por cerca de 30 anos. Para isso, mantinha um caderno em sua mesa de cabeceira. Pela manhã, assim que abria os olhos, tentava reproduzir, usando canetas hidrográficas coloridas, o que chamava de “trabalho noturno”. Em 2008, as 500 páginas foram publicadas com o título de “The Book of Dreams”.
 

GALERIA de FOTOS


O CINEMA ITALIANO NESTE BLOG

 
01
ATIRE PRIMEIRO, MORRA DEPOIS: POLIZIOTTESCHI
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2024/06/atire-primeiro-morra-depois.html
 
02
ALIDA VALLI: a BARONESA ESTRELA de CINEMA
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2011/02/alida-valli-de-baronesa-namoradinha-da.html
 
03
O CINEMA POLÍTICO ITALIANO (1960 - 1979)
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2012/07/o-cinema-politico-italiano-1960-1979.html
 
04
LUCHINO VISCONTI: o CONDE CINEASTA
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2017/02/fragmentos-de-um-conde-cineasta-e.html
 
05
LUISA FERIDA e OSVALDO VALENTI: PAIXÃO e CRIME
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2025/05/luisa-ferida-e-osvaldo-valenti-paixao-e.html
 
06
MARCELLO MASTROIANNI: a ARTE da SEDUÇÃO
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2018/08/marcello-mastroianni-arte-da-seducao.html
 
07
O MELHOR do CINEMA ITALIANO: 30 FILMES
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2025/06/o-melhor-do-cinema-italiano-30-filmes.html
 

08
15 ATORES à ITALIANA do SÉCULO 21
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2025/07/15-atores-italiana-do-seculo-21.html
 
09
SANDRA MILO, a AMANTE de FELLINI
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2011/06/sandra-milo-amante-de-fellini.html
 
10
TELEFONE BIANCHI – o CINEMA FASCISTA ITALIANO
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2024/07/telefoni-bianchi-o-cinema-fascista.html
Satyricon de Fellini


junho 27, 2025

**************** MADEMOISELLE JEANNE MOREAU

 


 
Atuar lida com emoções delicadas.
Não é colocar uma máscara.
Cada vez que um ator atua,
ele não se esconde, ele se expõe.
 
O amor, o sofrimento e a felicidade
que vivencio na vida transparecem
nos meus filmes, tornam-se parte deles.
Quando assisto a um filme depois
de tê-lo feito, vejo minha vida diante de mim.
JEANNE MOREAU
 
Olhos: castanhos escuros
Cabelos: castanhos claros
Altura: 1,60 cm
Apelido: a Bette Davis Francesa

Ela podia ser quase feia e, segundos depois, ao virar o rosto, ficava incrivelmente atraente. Era ela mesma, uma atriz sem artifícios, de uma versatilidade incrível, capaz de transmitir tanto as sutilezas românticas bem como as trágicas. Uma lenda do cinema e do teatro que encarou a vida com absoluta liberdade e marcou época em todo o mundo. Eu conheci JEANNE MOREAU (1928 - 2017. Paris / França) na adolescência, em “Chamas de Verão” (1966), no “Corujão” da TV.  Amor à primeira vista. Nesse suspense psicológico, ela interpreta Mademoiselle, uma professora primária sexualmente reprimida que alivia suas tensões através de uma série de crimes chocantes. Um drama memorável, fundamental para o meu fascínio cinéfilo. O roteiro foi escrito pela magistral escritora Marguerite Duras, inspirado em história de Jean Genet. Depois reencontraria a atriz muitas outras vezes. Não há melhor momento do que aquele em que nos apaixonamos por um cineasta, um ator, uma atriz, um escritor. Foi o que aconteceu comigo com Jeanne. Eu comecei a procurar os seus filmes, assistindo um atrás do outro.
 
Tinha certeza de que estava diante de uma estrela fabulosa. Rendi-me definitivamente a seu talento vendo-a como Lídia em “A Noite” (1961). Tive um caso de amor com ela no papel de Catherine, em “Jules e Jim – Uma Mulher para Dois” (1962). Ela era diferente de todas as atrizes que já tinha visto até aquele momento. Uma beleza nada comum, uma voz rouca. Um cigarro na boca, um sorriso sutilmente debochado. Uma das maiores maravilhas do cinema europeu, JEANNE MOREAU é a personificação da feminilidade e da sensualidade. Sabe-se que se ela amasse uma ideia, lutava por ela. Portanto, teve uma carreira admiravelmente diversificada: foi uma magnífica atriz de teatro e cinema, cantora de prestígio, diretora de cinema, teatro e ópera, e lançou uma autobiografia. Combinou erotismo com personalidade forte em clássicos da Nouvelle Vague. Seu papel como a extravagante Catherine no sensacional “Jules e Jim – Uma Mulher para Dois”, um filme de época ambientado na Primeira Guerra Mundial, representa uma encantadora alma livre e é uma das maiores atuações da história do cinema.
 
Ao longo de sua trajetória profissional, com mais de 120 filmes e diversas séries de TV, trabalhou com realizadores do mundo inteiro, inclusive rodou um curioso filme no Brasil nos anos 70, “Joanna Francesa” (1973). Ela acreditou na ideia de Cacá Diegues e a financiou. Afirmava gostar de ser tratada como Mademoiselle Moreau e agarrava seus personagens de tal forma que parece que os engolia numa justeza arrepiante. Sempre pendia para os papeis complexos, que questionavam os padrões, mostrando as diversas facetas do feminino e abrindo as portas para criaturas donas da própria sexualidade e do próprio corpo. Sofreu com as críticas de uma imprensa que a chamava de feia. Depois passou a ser adorada pelos próprios algozes. JEANNE MOREAU foi a responsável pela criação da persona da mulher moderna, um ícone de fêmea que era dona de si e se entregava aos seus desejos e crenças, sem medo de ser firme e assertiva para ter as coisas feitas do seu jeito. Quem trabalhou com ela destaca a leveza e a sua abertura para novas ideias que a levassem ainda mais longe em sua arte.
 
Sua beleza sempre teve uma qualidade incrivelmente fatal. Ela é certamente, para mim, de beleza densa e inquieta, penetrante, criteriosa e, de certa forma, distante. Sempre parece que pode sair da tela e nos abandonar por outra história qualquer. Sua inteligência, seu ar de langor, de descontentamento, tudo se combina para torná-la mais adorável. O carisma, o pensamento, a sexualidade e a qualidade de estrela de JEANNE MOREAU criaram um novo espaço no cinema do pós-guerra para estrelas femininas que não eram apenas belas, mas também verdadeiras e complexas. Ela é, na verdade, um ícone de cinema. Seu pai, Anatole-Désiré Moreau, era dono de um restaurante em Montmartre, Paris. Sua mãe, Katherine Buckley, uma dançarina inglesa que frequentava o Folies Bergère. Cresceu morando entre Paris e Mazirat, a cidade natal de seu pai. Neste lugar, aprendeu a lição libertária da avó, chamada pelo carinhoso apelido de Memé, que disse para a neta ainda pequena: “Você não nasceu para ficar servindo um marido. Cuide para não se tornar uma idiota, viu?”.
 

Em Paris, ela frequentou o Liceu Edgar Quinet e descobriu seu amor pela literatura e o teatro. Quando seus pais se divorciaram no final da década de 1940 e sua mãe retornou à Inglaterra, permaneceu com o pai em Montmartre. Contrariando a vontade dele, se tornou atriz. Estudou teatro no Conservatório de Paris e estreou em 1947, no Festival de Avignon. Em 1948, com apenas 20 anos, tornou-se a mais jovem integrante em tempo integral da história da Comédie-Française, a companhia teatral mais prestigiada da França. Sua primeira peça foi “Um Mês no Campo”, de Ivan Turgenev, dirigida por Jean Meyer. Logo se tornou uma das principais atrizes da trupe, reconhecida pela crítica como uma importante atriz. Saiu da Comédie-Française em 1951, por considerá-la restritiva e autoritária, e ingressou no Théâtre Nationale Populaire, mais experimental. Nos anos 50, depois de pequenos papéis em alguns filmes, apareceu no soberbo thriller “Grisbi, Ouro Maldito / Touchez pas au Grisbi” (1953), com o veterano astro Jean Gabin, e no vibrante drama histórico “Rainha Margot / La Reine Margot” (1954).
 
Tinha quase 30 anos quando sua carreira cinematográfica realmente decolou, transformando-se em estrela de cinema, graças ao trabalho com o diretor estreante Louis Malle no clássico noir “Ascensor para o Cadafalso” (1958). No famoso suspense, ela é Florence Carala, a conspiradora casada que tem um plano assassino para enriquecer a si mesma e ao seu amante. A seguir atuou no controverso “Os Amantes” (1958), como Jeanne Tournier, uma esposa provinciana que abandona a família por um homem que acabara de conhecer. Sua interpretação realista, inteligente e sutil da adúltera causou escândalo. As cenas eróticas resultaram em reações indignadas e problemas de censura em todo o mundo, inclusive no Brasil. Os colunistas de fofocas norte-americanos a rotularam imediatamente como uma Brigitte Bardot mais intelectualizada – e ainda mais polêmica. O filme apresenta uma crítica ácida à burguesia e ao casamento. É nele que ela tem um orgasmo ao som de Brahms, uma das cenas mais sensuais do cinema. A maneira como Louis Malle a filmou é de uma sensibilidade absurda.
 
jeanne e marcello mastroianni em a noite
A partir daí, a imagem da atriz começou a ser associada a de uma mulher devassa, vagabunda mesmo. Porém, ela não se abalava com essas coisas e instantaneamente se tornou um símbolo sexual internacional. Malle e sua estrela se separaram na vida privada, mas profissionalmente fariam outros filmes juntos, incluindo o excelente “Trinta Anos Esta Noite” (1963). Com Jean-Paul Belmondo em “Duas Almas em Suplício / Moderato Cantabile” (1960), de Peter Brook, levou o prêmio de Melhor Atriz em Cannes e consolidou seu status de estrela. Sua atuação em “A Noite”, como a elegante esposa ferozmente inteligente e sensível de um romancista famoso e egoísta (Marcello Mastroianni) - uma mulher que luta para resgatar sua identidade no casamento - está entre as mais essenciais de todos os filmes do genial italiano Michelangelo Antonioni. Musa da Nouvelle Vague, redefiniu os padrões de beleza feminina, quebrando os paradigmas do star system de sua geração, dominado pelas formas voluptuosas. Consagrou-se em papéis nada convencionais, fortes, passionais e libertários – era chamada de “a Bette Davis francesa”.
 
Sua parceria com Brigitte Bardot em “Viva Maria!” (Idem, 1965) foi um dos maiores eventos midiáticos de 1965. Graças à química entre as duas principais estrelas francesas dos anos 60, essa comédia se tornou um sucesso internacional. Seis anos depois de “Jules e Jim – Uma Mulher para Dois”, ela trabalhou novamente com François Truffaut, como Julie Kohler, uma assassina gélida, na homenagem a Alfred Hitchcock em “A Noiva Estava de Preto” (1968). Foi dirigida por cineastas notáveis como Michelangelo Antonioni, Orson Welles, Joseph Losey, Jacques Becker, Luis Buñuel, Elia Kazan, Rainer Werner Fassbinder, Wim Wenders, Jean Renoir, Louis Malle, Jacques Demy, Theo Angelopoulos, Marcel Ophuls, André Téchiné e François Ozon. Seus sucessos no palco incluem “A Máquina Infernal” (1954), de Jean Cocteau; “Pigmalião” (1955), de Bernard Shaw; “Gata em Teto de Zinco Quente” (1956) e “A Noite do Iguana” (1985), de Tennessee Williams. Ganhou o Molière de Melhor Atriz (o equivalente francês ao Tony) em 1988 por “A Criada Zerlina”, de Hermann Broch, um enorme êxito teatral que excursionou por 11 países.
 
Amiga íntima de figuras importantes, entre elas Marguerite Duras, Jean Cocteau, Jean Genet, Pablo Picasso, André Gide, Ingmar Bergman, Henry Miller e Anaïs Nin. À medida que seus dias de protagonista começavam a diminuir, fez uma transição elegante para papéis coadjuvantes e usou seu prestígio impulsionando a carreira de jovens diretores como Bertrand Blier, em cujo longa de 1974, “Corações Loucos / Les Valseuses”, teve uma atuação memorável, e André Techiné. Em 1975, estreou como diretora em “Lumière” (1975), a história de várias gerações de atrizes. Também dirigiu “A Adolescente / L'Adolescente” (1978), um conto semiautobiográfico de uma menina enviada para morar com a avó em 1939, e “Lillian Gish” (1984), uma homenagem à estrela do cinema mudo. Foi a única atriz que presidiu duas vezes o júri do Festival de Cinema de Cannes (em 1975 e 1995). Ganhou uma série de honrarias, incluindo dois prêmios BAFTA, três Cesars (o Oscar francês), um Leão de Ouro no Festival de Veneza de 1991 e um prêmio pelo conjunto da obra da Academia Europeia de Cinema em 1997.
 

Em 1998, a Academia Americana de Cinema concedeu-lhe uma homenagem. Em 2000, estreou como diretora de palco em Genebra e Paris com a peça “Wit”, de Margaret Edson. No ano seguinte, estreou também como diretora de ópera com uma produção da Ópera Nacional de Paris, “Átila”, de Giuseppe Verdi. Considerada por Orson Welles como “a maior atriz do mundo”, ela gostava de ficar em casa, ler e cozinhar, raramente assistia a seus filmes concluídos ou ia a estreias. Primeira atriz francesa a aparecer na capa da “Time” (março de 1965), após o término de seu romance com o diretor Louis Malle, em 1959, manteve uma longa correspondência com Ingmar Bergman, que desenvolveu um detalhado projeto cinematográfico para ela, “L'Amour Monstre”, que nunca foi realizado porque ela não conseguia aprender sueco e ele não conseguia aprender francês. Uma pena, perdemos um grande filme. Ela também passeou pela música, mostrando que não é preciso de uma grande extensão vocal para cantar, mas sim de sentimento. Música é sentimento, e disso ela entendia muito bem.
 
A estrela atravessou gerações como um novo tipo de ídolo, cujo glamour não tinha brilho, cuja elegância não tinha pose. Entre um e outro filme, lançou vários álbuns musicais e se apresentou com Frank Sinatra no Carnegie Hall. Sua discografia contabiliza nove álbuns lançados entre 1960 e 2010, além de quase 30 singles gravados entre 1953 e 1987. Dentre as gravações avulsas da obra fonográfica de JEANNE MOREAU, há canções brasileiras. Protagonista do filme “Joanna Francesa”, gravou a canção-título composta por Chico Buarque para a trilha sonora do longa-metragem, editada em disco pela Philips em 1973. É uma bela gravação, feita com suntuoso arranjo de cordas. Quinze anos depois, entrou em estúdio com Maria Bethânia para participar do “Poema dos Olhos da Amada” (Paulo Soledade e Vinicius de Moraes). No disco, recita na abertura e no fim da gravação o poema de Vinicius, traduzido para o francês por ela própria com Dominique Dreyfus, registro que reitera o afeto da mitológica atriz pela música do Brasil. Um de seus últimos trabalhos musicais foi o disco de poesias cantadas de Jean Genet.
 
Uma grande dama sem arrogância ou preconceito. Sua grandeza não erguia muros ao seu redor, ampliava suas perspectivas, possibilitava aventuras, superava limites estreitos. JEANNE MOREAU parecia romper restrições exigentes com cada palavra que dizia, cada olhar que lançava, cada personagem que interpretava. Sem arrependimentos, ela recusou protagonizar importantes filmes, como “Spartacus / Idem” (1960), “Rocco e seus Irmãos / Rocco e i suoi Fratelli” (1960), “A Primeira Noite de um Homem / The Graduate” (1967), “Um Estranho no Ninho / One Flew Over the Cuckoo's Nes” (1965) e “A Professora de Piano / La Pianiste” (2001), entre outros. Além de Louis Malle, teve envolvimentos amorosos com François Truffaut, Lee Marvin e o estilista Pierre Cardin. Em 1967, Vanessa Redgrave pediu o divórcio do diretor inglês Tony Richardson, sob a alegação de adultério com a atriz francesa. Ela casou-se – e se divorciou – três vezes: com o ator e diretor Jean-Louis Richard (1949 - 1951), com o ator grego Teodoro Rubanis (1966 - 1967) e com o diretor de “O Exorcista”, William Friedkin (1977 - 1980).
 
A atriz é mãe de um pintor de sucesso, Jérôme Richard (1950), filho de Richard. No final da vida, participou no último filme do diretor português Manoel de Oliveira, “O Gebo e a Sombra” (2012). Faleceu aos 89 anos, de morte natural. Suas contribuições para as artes mostram que viveu com intensidade, e como disse em certa ocasião, “que eu seja incrível ou nada terá valido a pena”. As futuras gerações que fizerem uma expedição arqueológica pelo cinema dos anos de Guerra Fria, com certeza encontrarão – e se encantarão - JEANNE MOREAU entre as atrizes mais gloriosas do continente europeu.
 
gérard philipe e jeanne em as ligações amorosas
15 FILMES de JEANNE MOREAU
(por ordem de preferência)
 
01
ASCENSOR PARA o CADAFALSO
(Ascenseur pour l'échafaud, 1958)
 
direção de Louis Malle
elenco: Maurice Ronet e Georges Poujouly
 
 
02
 A NOITE
(La Notte, 1961)

direção de Michelangelo Antonioni
elenco: Marcello Mastroianni, Monica Vitti
e Bernhard Wicki
 
03
JULES e JIM – uma MULHER para DOIS
(Jules et Jim, 1962)

direção de François Truffaut
elenco: Oskar Werner e Henri Serre
04
TRINTA ANOS ESTA NOITE
(Le Feu Follet, 1963)

direção de Louis Malle
elenco: Maurice Ronet
 
05
CHAMAS de VERÃO
(Mademoiselle, 1966)

direção de Tony Richardson
elenco: Ettore Manni e Umberto Orsini
 
06
O PROCESSO
(Le Procès, 1962)

direção de Orson Welles
elenco: Anthony Perkins, Romy Schneider, Madeleine Robinson,
Suzanne Flon, Fernand Ledoux e Akim Tamiroff
 
07
Os VITORIOSOS
(The Victors, 1963)

direção de Carl Foreman
elenco: Albert Finney, Melina Mercouri, Maurice Ronet,
Romy Schneider e Elli Wallach
 
08
DIÁRIO de uma CAMAREIRA
(Le Journal d'une Femme de Chambre, 1964)

direção de Luis Buñuel
elenco: Georges Géret e Michel Piccoli
 
09
Os AMANTES
(Les Amants, 1958)

direção de Louis Malle
elenco: Alain Cuny e Jean-Marc Bory
 

Melhor Atriz no Festival de Veneza
 
10
As LIGAÇÕES AMOROSAS
(Les Liaisons Dangereuses, 1959)

direção de Roger Vadim
elenco: Gérard Philipe, Annette Stroyberg
e Jean-Louis Trintignant
 
11
A NOIVA ESTAVA de PRETO
(La Mariée était en Noir, 1968)

direção de François Truffaut
elenco: Jean-Claude Brialy, Miche Bouquet
e Charles Denner
 
12
A BAÍA dos ANJOS
(La Baie des Anges, 1963)

direção de Jacques Demy
elenco: Claude Mann
 
13
EVA
(Idem, 1962)

direção de Joseph Losey
elenco: Stanley Baker, Virna Lisi e Giorgio Albertazzi
 
14
O PASSO SUSPENSO da CEGONHA
(To Meteoro vima tou Pelargou, 1991)

direção de Theo Angelopoulos
elenco: Marcello Mastroianni
 
15
QUERELLE
(Idem, 1982)

direção de Rainer Werner Fassbinder
elenco: Brad Davis, Franco Nero e Laurent Malet
FONTES
“Jeanne Moreau – Le Tourbillon d´une Vie”
(2017)
de Marianne Gray
 
“Jeanne Moreau: l'impertinente”
(2019)
de Jocelyne Sauvard
 
“Jeanne Moreau, l'insoumise”
(2011)
de Jean-Claude Moireau
 
GALERIA de FOTOS