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janeiro 16, 2016

******** STUDIO HARCOURT: a ARTE do RETRATO

romy schneider, 1960


Na França, ninguém é ator se não tiver sido
fotografado pelo Studio Harcourt.
ROLAND BARTHES
Mythologies 
1957


O retrato é um dos mais poderosos gêneros da história das artes visuais, com uma presença que se estende desde pelo menos o século 270 a.C. até os dias de hoje. O mais antigo exemplo de retrato em pintura sobre tela é uma madona de 1410. Em meados do século 19, a iniciante fotografia cresceu com o avanço tecnológico, possibilitando o registro de retratos fotográficos. Surgiram grandes estúdios, ajudando a transformar a fotografia num lucrativo negócio. Em Paris, França, 1934, nasceu o lendário STUDIO HARCOURTMemória pictórica de figuras artísticas, culturais e políticas. Um belo trabalho num jogo lúdico - e misterioso - de sombra e luz, retratando célebres nomes da sétima arte na França, estrelas como Brigitte Bardot, Alain Delon, Jean Gabin, Yves Montand e Simone Signoret, Marlène Dietrich, Jean Marais, Jeanne Moreau, Catherine Deneuve e Michèle Morgan. “Deixar uma imagem enaltecida, é essa a vocação da foto Harcourt.”, disse um dos proprietários, Francis Dagnan. 

Desde o início da empresa que a marca “Harcourt Paris”, qual selo hierático, assina o retrato. Transformado em mito, ganhou fama acreditando na “fotografia de arte”, enaltecendo o retrato fotográfico. A grife STUDIO HARCOURT, reconhecida em todo o mundo, inspira-se nas raízes glamourosas do cinema clássico preto e branco. São imagens inconfundíveis: muitas vezes um facho de luz corta o quadro, contornando a expressão, dando vida ao olhar, revelando texturas. E o fotografado ganha a dimensão de personagem, afirmando sua personalidadeHá um elo privilegiado entre a razão e o espírito mágico. O retrato tanto se entrega ao olhar do observador como o observa atentamente, o que pode ser ao mesmo tempo reconfortante e ameaçador.

cosette harcourt
Tudo começou graças a Cosette Harcourt. Com o nome verdadeiro de Germaine Hirschefeld, ela nasceu em Paris no ano de 1900, filha de comerciantes judeus alemães estabelecidos na França. Com o deflagrar da Primeira Guerra Mundial, a família imigrou para Inglaterra. Voltamos a encontrar Mademoiselle Harcourt em Paris, em 1930, aprendendo fotografia nos estúdios Manuel Frères. Em 1933, conheceu Jacques Lacroix. Ele e seu irmão, Jean Lacroix, tinham criado, em 1927, uma sociedade de imprensa, então em expansão.  Em 1928, a sua revista Guérir registra um enorme sucesso junto do grande público. Depois fundaram com Robert Ricci, filho de Nina Ricci, uma agência de publicidade, a Pro-Publicité. Após conhecer Cosette, Jacques Lacroix cria, com o seu irmão e Robert Ricci, o STUDIO HARCOURT, ficando a responsabilidade da organização com Cosette. Muito rapidamente, o renome se instala e o sucesso acontece. Toda Paris vem ampliar sua fama e imortalizá-lo.

Com o intuito de protegê-la dos nazistas, no início da Segunda Guerra Mundial, Jacques Lacroix se casa com a judia Cosette, em agosto de 1940. Eles se divorciam em 1946, mas permanecem juntos durante toda a vida. Então, Cosette deixa Paris, instalando-se no sul da França, depois na Inglaterra. O estúdio continua sua atividade, apesar de tudo. É a era dourada. Está em todo lugar: nos títulos de imprensa dos irmãos Lacroix, na Agência France Presse e em muitos cinemas, que exibem os retratos de atrizes e atores. Na década de 1950, tinha mais de mil clientes por mês, ou cerca de quarenta por dia. Eles talvez nao soubessem que as culturas ditas primitivas não deixavam de ter razão quando instruíam seus membros a evitarem a fotografia: não é só a aparência do fotografado que a máquina captura, mas também seu espírito, sua essência. O retrato é, assim, um constante exercício de psicologia social e individual.

marlene dietrich
Os irmãos Lacroix separam-se em 1969, ficando somente Jacques à frente dos negócios. Cosette Harcourt morre em 1976, e em 1980 Jacques Lacroix liquida o estúdio. Desde então, ele muda de mãos sucessivamente, oscilando entre a tradição e a modernidade. Por iniciativa de Jack Lang, então ministro da cultura francês, o acervo HARCOURT de negativos e arquivos foi adquirido pelo governo francês e depositado na Midiateca da Arquitetura e do Patrimônio, no forte de Saint-Cyr.

MOSTRA FOTOGRÁFICA

joséphine baker
yves montand
edwige feuillère
jean marais
michèle morgan
édith piaf
georges marchal
catherine deneuve
alain delon
jean-louis trintignant
viviane romance
ginette leclerc
danielle darrieux
martine carol
jean gabin
simone signoret
micheline presle
jean-paul belmondo
lino ventura
brigitte bardot
gérard philipe
jeanne moreau
louis jourdan
anouk aimée
arletty
serge reggiani
maría casares
annie girardot
henri vidal
jean-pierre aumont
juliette gréco

janeiro 09, 2016

********** GRANDE OTELO: COMÉDIA e TRAGÉDIA

grande otelo em macunaíma

 
 
No cinema, teatro ou televisão, ele sabia improvisar. Dono de uma consagrada expressão facial e corporal, seus personagens tinham apelo popular. GRANDE OTELO (1915 - 1993. Uberlândia / Minas Gerais) foi o primeiro artista negro a ocupar espaço de destaque no cinema e na televisão brasileira. Desde a infância tinha atração pelas manifestações populares, como o carnaval e as congadas. A comédia “O Garoto / The Kid” (1921), de Charles Chaplin, apareceu como uma influência decisiva no seu encantamento pela carreira artística. Considerado um menino prodígio, manifestou sua primeira experiência como ator aos sete anos, fazendo uma participação no circo que passava pela sua cidade natal. Na ocasião, Bastiãozinho, como era conhecido, apareceu vestido de mulher interpretando a esposa do palhaço, o que causou enorme comicidade.

Desde muito pequeno, em troca de moedas, cantava e dançava para hóspedes de um hotel. Com o passar do tempo, trocou de família diversas vezes, foi morador de rua e do Abrigo de Menores. Movido por uma extraordinária vocação artística, chegou ao Rio de Janeiro, de onde sua fama se espalharia pelo resto do país, brilhando na atmosfera exuberante do Cassino da Urca, com espetáculos mundialmente famosos; nas hilariantes chanchadas da Atlântida; no Cinema Novo e nas telenovelas da Globo. O teatro, sua primeira paixão, não deixaria de contar com suas marcantes interpretações. Entre 1946 e até o final de sua carreira, o artista participou de inúmeras peças. Entre elas, “O Homem de La Mancha” (1973), ao lado de Bibi Ferreira e Paulo Autran, e “Vivaldino, Criado de Dois Patrões (Arlequim)” (1976), com Ary Fontoura e Ítala Nandi. De uma vida intensa e controvertida, muitas vezes tatuada pelos preconceitos, viveu sempre na fronteira entre o profissionalismo e a boêmia - e fez de seu talento uma estratégia de sobrevivência. Mas a tragédia muitas vezes se fez presente na vida real.

Ele nunca conheceu o pai, que morreu esfaqueado em circunstância misteriosa. Quanto completou oito anos de idade, conseguiu um pequeno papel dentro do espetáculo de uma companhia de teatro mambembe que passava por sua cidade. Ao ver a habilidade do garoto diante da plateia, a diretora do grupo, Abigail Parecis, convenceu sua mãe a deixar o filho trabalhar em São Paulo como artista. Devido à sua voz de tenorino, um professor de canto julgou que um dia o menino cresceria e cantaria a ópera Otelo, de Giuseppe Verdi.  Então, pela estatura pequena (media 1,50 m.), foi apelidado de Pequeno Otelo. Insatisfeito, ele fugiu e passou um período nas ruas e outro sob a tutela do Juizado de Menores. Depois, foi adotado pela família de Antônio de Queiroz, um político influente. Ele o ajudou a se incorporar aos 10 anos de idade na trupe da Companhia Negra de Revistas, regida por Pixinguinha, apresentando-se em Santos, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Bahia. Em 1935, passou a atuar na Companhia Tro-lo-ló, de Jardel Jércolis, pai do ator Jardel Filho, e um dos pioneiros do teatro de revista.

otelo e carmen miranda
Ainda nesse mesmo ano, já como GRANDE OTELO, estreou no cinema em “Noites Cariocas”, dirigido pelo argentino Enrique Cadícamo para a produtora Cinédia. Curiosamente se cruzaria pela primeira vez com Oscarito nesse filme e mais tarde os dois se tornariam uma das duplas cômicas mais famosas e engraçadas do cinema brasileiro. Rio de Janeiro, a cidade maravilhosa, logo seria adotada como sua cidade. Apreciador da sua vida noturna, foi também um de seus atores, seja na famosa gafieira do Elite, no bar Vermelhinho ou nos bares da Lapa. 

No Rio dormiu em bancos de praça, hospedaria de mil-réis e até em pensão de corda (estabelecimento perto da Central do Brasil). Por sorte, o produtor norte-americano Wallace Dolney, que o conhecia das filmagens de “Noites Cariocas”, o convidou para atuar em “João Ninguém” (1936), com roteiro de João de Barros e direção de Mesquitinha. No mesmo ano, trabalhou Cassino da Urca até o seu fechamento em 1946, brilhando com Carmen Miranda e realizando diferentes espetáculos. Mesmo assim, era alvo de discriminação, recebendo salário menor que atores brancos de mesmo destaque e era a única estrela proibida de entrar pela porta de entrada.

joséphine baker
No Cassino da Urca, em 1939, ele contracenou com a famosa cantora e dançarina norte-americana Joséphine Baker, momento citado por ele como um dos mais importantes de sua carreira. Ao longo desta mesma temporada, compôs, em parceria com o amigo Herivelto Martins, o famoso samba “Praça Onze”, que faria muito sucesso no carnaval de 1942. No mesmo ano, o cineasta Orson Welles (famoso por dirigir “Cidadão Kane / Citizen Kane”, 1941) veio ao Brasil rodar o longa-metragem “It´s All True”, conhecendo GRANDE OTELO no Cassino da Urca. Contratou o ator, mas o filme ficou inacabado e diversas cenas filmadas foram destruídas posteriormente.

Nos anos 1940 e 1950, trabalhou em diversos programas de rádio e compôs uma variedade de sambas em parcerias com outros compositores. No cinema, foi uma das estrelas da Atlântida Cinematográfica, tendo protagonizado o primeiro sucesso da produtora, “Moleque Tião. Também na Atlântida, formou, ao lado de Oscarito, a dupla mais famosa e bem sucedida do cinema brasileiro, que estrelou campeões de bilheteria como “Este Mundo é Um Pandeiro” (1946) de Watson Macedo, “Três Vagabundos” (1952) de José Carlos Burle, e “Matar ou Correr”. GRANDE OTELO participou de 118 filmes, 17 deles com Oscarito, embora não fossem amigos na vida real. Em 1949, estrelou “Também Somos Irmãos”, ao lado de Ruth de Souza, denunciando o racismo, considerado o melhor filme nacional do ano pela crítica especializada.

oscarito e grande otelo
Em um momento de “Carnaval no Fogo” (1949), um Romeu bem pouco galante aparece em cena para pedir a presença de sua amada na sacada. Quando ela aparece, é GRANDE OTELO de peruca loura. O que se segue é uma das mais engraçadas cenas do cinema nacional. Nem parece que o ator tinha passado por uma tragédia: dois dias antes, sua mulher havia envenenado o filho de 6 anos e cometido suicídio com um tiro na cabeça. Lúcia Maria, a esposa, com quem era casado desde 1941, culpou em bilhete as bebedeiras e o ciúme do ator. Em 1954, se casou com Olga Vasconcelos de Souza, com quem teve quatro filhos. Ela morreu em 1983, devido a um acidente doméstico. Após deixar a Atlântida em 1955, participaria de inúmeros filmes, com destaque para o clássico “Rio, Zona Norte”, considerado a obra que inaugurou o Cinema Novo. Passou a atuar na televisão em emissoras como a TV Tupi do Rio e TV Rio.

Um resumo do cinema brasileiro e do próprio Brasil em um de nossos maiores artistas, GRANDE OTELO também fez sucesso formando dupla com o cômico paulista Ankito e com Vera Regina. Passou alguns anos sem muito destaque. Por volta de 1965, começou a participar de programas humorísticos na Rede Globo, iniciando com “Bairro Feliz”. Em 1969, protagonizou com Paulo José e Dina Sfat, “Macunaíma”, baseado no clássico de Mário de Andrade, interpretando o personagem título e ganhando prêmios importantes. Depois do filme, o ator voltou a ser manchete.

grande otelo, werner herzog 
e klaus kinski
Nos anos 1970 participou de diversos longas. Na TV, atuou em telenovelas badaladas como “Bandeira 2”, “Uma Rosa com Amor”, “Shazan Xerife e Cia”, “Bravo”, “Maria, Maria” e “Feijão Maravilha”. Nessa mesma época passou a ter um romance com a atriz Joséphine Hélène e após dez anos de uma relação tumultuada, resolveram selar a união em 1984. Três anos mais tarde, o casal foi parar nas páginas policiais dos jornais, quando numa discussão, Joséphine acabou dando um golpe de faca na barriga do ator. Na década de 1980, continuou participando em telenovelas - “Água Viva”, “Sinhá Moça”, “Mandala” etc. -, além do humorístico “Chico Anysio Show” e de filmes como “Fitzcarraldo”, de Werner Herzog, se indispondo com o temperamental Klaus Kinski.

Em 1985, recebeu do governo francês o título de “Commandeurs de L´Ordre des Arts e Lettres”, que foi entregue pelo ministro da Cultura francesa, Jack Lang. Na década seguinte, continuou fazendo cinema e TV. Participou do filme “Boca de Ouro” (1990), de Walter Avancini, baseado na peça teatral de Nelson Rodrigues, e em 1993 fez seu último trabalho na telenovela global “Renascer”, interpretando Seu Francisco Galvão, pai de Ritinha (Isabel Fillardis). Apesar de inúmeros êxitos, a carreira de GRANDE OTELO foi marcada por altos e baixos. Sua indisciplina e seu gosto pela farra noturna e pela bebida fizeram com que faltasse a ensaios e apresentações, ou fosse trabalhar de ressaca, o que gerou a fama de irresponsável. Ainda em 1993, aos 78 anos de idade, morreu na glória, de um ataque do coração, fulminante, numa escada rolante no Aeroporto Charles de Gaule, em Paris, onde seria homenageado no Festival de Cinema dos Três Continentes, em Nantes. Ano passado, em comemoração ao centenário do ator e a sua importância para a história da cultura nacional, a Caixa Belas Artes, em São Paulo e Rio de Janeiro, promoveu a mostra O Maior Ator do Brasil - 100 Anos de Grande Othelo. A exibição reuniu 23 filmes com a participação genial do notável mineiro.


FONTE
“Grande Otelo - Uma Biografia”
de Sérgio Cabral
 
 “Uma Interpretação do Cinema Brasileiro 
através de Grande Otelo” 
de Luis Felipe Hirano

grande otelo e oscarito em matar ou correr
FILMOGRAFIA SELECIONADA de GRANDE OTELO

IT'S ALL TRUE
(1942, inacabado)
direção de Orson Welles

MOLEQUE TIÃO
 (1943)
direção de José Carlos Burle

MATAR ou CORRER
(1954)
direção de Carlos Manga

RIO ZONA NORTE
(1957)
direção de Nelson Pereira dos Santos

ASSALTO ao TREM PAGADOR
(1962)
direção de Roberto Farias

MACUNAÍMA
(1969)
direção de Joaquim Pedro de Andrade

A ESTRELA SOBE
(1974)
direção de Bruno Barreto

LÚCIO FLÁVIO, o PASSAGEIRO da AGONIA
(1977)
direção de Hector Babenco

Os PASTORES da NOITE
(1979)
direção de Marcel Camus

FITZCARRALDO
(Idem, 1982)
direção de Werner Herzog

QUILOMBO
 (1984)
direção de Carlos Diegues

JUBIABÁ
(1987)
direção de Nelson Pereira dos Santos

GALERIA de FOTOS