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outubro 04, 2011

********* HELEN MIRREN e a IDADE da REFLEXÃO



 
A reflexão de que fala o título deve ser nossa, e não da atriz britânica nascida em 1945, famosa por sua ousadia e talento, sendo aplaudida por todo mundo interpretando “Cleópatra” no teatro Old Vic. Bela em seus 66 anos, e sem uma vida meditabunda, embora sábia justamente por causa de sua personalidade furtiva, recentemente ficou em primeiro lugar na lista dos corpos mais belos do ano, dentre famosas, eleita por uma rede de academias de ginástica dos Estados Unidos. HELEN MIRREN deixou para trás as mocinhas ou quase mocinhas Elle MacPershon, modelo australiana de 48 anos, e Kelly Brook, apresentadora de tevê britânica, de 31 anos. Caso raro de beleza e talento extremos, além da retromencionada ousadia que a levou a ficar deliciosamente nua em seus verdes anos, quando atuou ao lado do sempre impecável James Mason, em “A Idade da Reflexão / Age of Consent” (1969), dirigido pelo realizador inglês Michael Powell, dessa vez sozinho, e não ao lado de Emeric Pressburger, com quem filmou grandes sucessos, tais como “Narciso Negro / Black Narcissus” (1947) e “Sapatinhos Vermelhos / The Red Shoes” (1948), dentre outros.
 
"a idade da reflexão"
Poucos conseguirão esquecer sua presença no filme erótico “Calígula / Caligola” (1979), atribulada produção que começou com Tinto Brass no comando – os créditos o mencionam apenas em função de algumas tomadas – e terminou com os produtores assinando, definitivamente, a direção, além de roteiro do escritor americano Gore Vidal. HELEN MIRREN é “lotada” no Royal Court Theatre, mulher de teatro que fez imensa quantidade de personagens clássicos nos palcos ingleses. De repente, eis que a encontramos entre cenas explícitas de felatio e cunilingues. Ainda que não tenha participado diretamente dessas orgias romanas, saturnálias e lupercálias, a atriz, que ganhou o Oscar em 2006 por viver, com extremo equilíbrio, a Rainha Elizabeth II em “A Rainha / The Queen” (Stephen Frears), acaba por causar arrepios aos erotômanos justamente por ser a figura que é, elegante e madura, em meio a um elenco de modelos da Penthouse, acionado pelo fundador da revista masculina, Bob Guccione. Não há como não se excitar mais com seu corpo velado por vestidos longos do que com a exposição de mulheres com seios imensos e corpos delgados, engolindo espadas num circo de Bosch.
 
como caesonia em "calígula"
Em “A Idade da Reflexão”, HELEN MIRREN é uma jovem nativa de uma ilha deserta da Austrália. Vive em plena harmonia com a natureza: mergulha nua ou de roupa, anda sempre com vestes de menina descalça de praia, mas com um corpo imenso de garota devez: ancas largas da Vênus Calipígia e seios fartos, tudo regado a uma cor de pele rosada. Os gestos são sempre desmedidos e irresponsáveis. A imagem que ocorre mais facilmente é a de uma sereia, uma vez que a moça encanta a todos, mas principalmente o pintor americano sem inspiração, que buscou na ilha uma forma de voltar a executar suas telas com a mesma energia de outrora. Não contava ele com a presença perturbadora de uma mulher na flor da idade, cheia de mar e areia, com uma vitalidade de fazer inveja a comedores de marisco. Dessa forma é que o artista acaba propondo à moça pagá-la para ser sua modelo. Lembremos que o pintor vivido por James Mason está, no mínimo, na cinqüentena.  A história ganha mais força, se afastando do mero paisagismo erótico, em função da presença da avó da mocinha, espécie de preceptora, cuja ideia fixa é resguardar a castidade da vestal. As perseguições pela ilha são empolgantes e fazem refletir sobre a perda da liberdade, a partir da dicotomia natureza x cultura.

como elizabeth II em a rainha
Eu já era apaixonado por HELEN MIRREN quando assisti ao filme “Garotas do Calendário / Calendar Girls” (2003), comédia elegante e divertida, baseada em história real, com pitadas de erotismo, que conta a história de mulheres maduras que posam para um calendário do tipo oficina de mecânico. Tudo por uma boa causa. Mas quando assisti ao “A Idade da Reflexão”, pus-me a refletir: Como pode essa mulher ter uma idade?

texto de 
HENRIQUE WAGNER