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novembro 01, 2017

******* As PERNAS que ABALARAM HOLLYWOOD

cyd charisse e gene kelly

 
Em uma famosa cena de “Cantando na Chuva / Singin’ in the Rain” (1952), a câmera mostra as coxas longas e carnudas de Cyd Charisse, com Gene Kelly aos seus pés. Nascia uma estrela com uma poderosa arma feminina. Por muito tempo, ela foi considerada a dona das pernas mais belas do mundo e fez seguro milionário desta parte do corpo responsável por sua fama e fortuna - em sua biografia disse que foi uma jogada de marketing da Metro-Goldwyn-Mayer. Cyd dançava muito bem, mas não tinha talento dramático. Quando os musicais perderam o prestígio no final dos anos 1950, findou-se sua carreira. Não foi a única. Esther Williams e Mitzi Gaynor tiveram de aposentar lindas coxas com o fim injusto deste gênero. Não só as estrelas que dançavam tinham pernas estonteantes, quando Kim Novak aparecia nas telas a plateia ficava estatelada. Em “Kismet / Idem” (1944), Marlene Dietrich causou furou ao revelar magníficas pernas pintadas de dourado. Elas foram colocadas no seguro por um milhão de dólares.

Os registros hollywoodianos dizem que a pin-up Betty Grable, em 1940, foi a primeira atriz a conseguir uma apólice de suas pernas. Conhecida como a dona das coxas de dinamite, a estrela fez escola. Depois seria a vez de Silvana Mangano, Angie Dickinson e outras privilegiadas. As coxas de Marilyn Monroe também são imortais, competindo com o resto do impecável corpo. A sequência do vestido esvoaçante em “O Pecado Mora ao Lado / The Seven Year Itch” (1955) é clássica e levou muitos marmanjos ao delírio.
A super estrela Ava Gardner tinha um imbatível par de pernas, assim como Raquel Welch, que deixou muitos de queixo caído ao levantar a saia em “Homem e Mulher Até Certo Ponto / Myra Breckrindge” (1970). Pensando nestes lampejos carnais eróticos, selecionei treze atrizes do tempo em que o cinema ia melhor das pernas.

ANGIE DICKINSON
(1931. Dakota do Norte / EUA)

ANN MILLER
(1923 - 2004. Texas / EUA)

AVA GARDNER
(1922 - 1990. Carolina do Norte / EUA)

BETTY GRABLE
(1916 - 1973. Missouri / EUA)

CYD CHARISSE
(1922 - 2008. Texas / EUA)

ESTHER WILLIAMS
(
1921 - 2013. Califórnia / EUA)

JANE RUSSELL
(1921 - 2011. Califórnia / EUA)

MARILYN MONROE
(1926 - 1962. Los Angeles, Califórnia / EUA)
     

KIM NOVAK
(1933. Chicago, Illinois / EUA)

MARLENE DIETRICH
(1901 - 1992. Berlim / Alemanha)

MITZI GAYNOR
(1931. Chicago, Illinois / EUA)

RAQUEL WELCH
(1940. Chicago, Illinois / EUA)
  

RITA HAYWORTH
(1918 - 1987. Nova Iorque / EUA)

setembro 09, 2012

************** “CASABLANCA”: o MELHOR FILME



 
O drama romântico de Michael Curtiz, CASABLANCA, ficou no topo da seleção dos melhores filmes de todos os tempos deste blog.  A pesquisa foi realizada entre mais de sessenta leitores. Clássico absoluto, a escolha reflete que os cinéfilos parecem não ser tão ligados em filmes que se esforçam para ter um grande potencial artístico, como “Rashomon / Idem” (1951) de Akira Kurosawa; mas sim, a trabalhos que têm um significado pessoal maior. CASABLANCA arrebatou 15 votos. Entre os mais votados não espere encontrar sucessos de bilheteria recentes. O filme mais novo é “O Poderoso Chefão / The Godfather” de Francis Ford Coppola, lançado em 1972. Todos os vencedores são produções norte-americanas. Do Brasil, foi lembrado apenas “Cidade de Deus” (2002), de Fernando Meirelles e Kátia Lund. Da Europa, entre os dez mais votados, “Morangos Silvestres / Smultronstallet” (1955) de Ingmar Bergman, com 9 votos, e “Fellini Oito e Meio / 8 1/2” (1963) de Federico Fellini, com 7 votos. Veja o resultado:

1º 
(15 votos)
CASABLANCA

2º 
(13 votos)
Um CORPO QUE CAI

3º 
(12 votos)
CIDADÃO KANE

4º 
(11 votos)
E o VENTO LEVOU 
(Gone With the Wind, 1939)

O PODEROSO CHEFÃO

5º 
(10 votos)
CREPÚSCULO dos DEUSES 
(Sunset Boulevard, 1950)



CASABLANCA
Título original: CASABLANCA
País: EUA
Ano de lançamento: 1943
Duração: 102 minutos
Direção: Michael Curtiz
Produção: Hal B. Wallis (Warner Bros.)
Roteiro: Julius J. & Philip G. Epstein e Howard Koch,
baseado na peça de Murray Burnett e Joan Alison
Elenco: Humphrey Bogart (“Rick Blaine”), Ingrid Bergman (“Ilsa”), Paul Henreid (“Victor Lazslo”), Claude Rains (“Capitão Louis Renault”), Conrad Veidt (“Major Heinrich Strasser”), Sydney Greenstreet (“Señor Ferrari”), Peter Lorre (“Ugarte”), S. Z. Sakall, Dooley Wilson (“Sam”), Helmut Dantine, Marcel Dalio (“Croupier”) e Curt Bois
Fotografia: Arthur Edeson
Edição: Owen Marks
Trilha Sonora: Max Seiner
Cenografia: Carl Jules Weyl
Figurino: Max Steiner

Um dos mais populares filmes da história do cinema, ganhou três Oscars da Academia, o de Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Roteiro. Concorreu também aos Oscars de Melhor Fotografia, Trilha Sonora, Edição, Ator (Bogart) e Ator Coadjuvante (Rains). A crítica da época elogiou as performances carismáticas de Bogart e Bergman, junto à profundidade das caracterizações, a fotografia poética, a sagacidade do roteiro e do impacto emocional do trabalho. A história se passa durante a Segunda Guerra Mundial, em Casablanca, capital do Marrocos. Rota obrigatória de quem fugia das atrocidades dos nazistas, será em Casablanca que Rick Blane (Humphrey Bogart), dono de um  bar local, irá reencontrar Ilsa Lund (Ingrid Bergman), anos depois de terem se apaixonado em Paris. Ela surge acompanhada pelo marido, o herói da resistência tcheca Victor Laszlo (Paul Henreid). Um enredo comovente e uma trama empolgante. Inesquecível.

A Warner Bros. comprou os direitos por US$ 20.000, o preço mais alto já pago por uma peça que não havia sido encenada. As filmagens começaram em 25 de maio de 1942 e terminaram em 03 de agosto do mesmo ano, atingindo um custo de produção de US$ 1.039 milhões. 

O roteiro teve alguns problemas quando Joseph Breen, um membro da censura da indústria de Hollywood, expressou sua oposição ao personagem do capitão Renault (Claude Rains), que pedia favores sexuais homossexuais em troca de vistos, e a cena em que Rick e Ilsa dormem juntos em Paris. Ambos os pontos, no entanto, praticamente desapareceram na versão final. Criado em cima de um caos absoluto, o roteiro foi finalizado em plena locação, na noite anterior em que as cenas seriam gravadas, confundindo os atores, que não sabiam o resultado final da história que se contava. Feito sem ambições artísticas e dirigido por Michael Curtiz, um especialista em sucessos de aventuras, de filmografia mediana, contrariou todas as expectativas, tornando-se um clássico e um dos maiores triunfos do cinema.

O primeiro cineasta convidado para dirigir o drama, o fantástico William Wyler (“Ben-Hur / Ben-Hur”, 1959), no auge do prestígio, declinou ao convite. Hedy Lamarr foi escalada para Ilsa Lund, mas recusou o acordo financeiro oferecido. George Raft descartou fazer Rick Blaine, abrindo caminho para o estrelato de Bogart e para sua decadência. 

Os produtores pensaram também em Ronald Reagan, Ann Sheridan e Dennis Morgan para os papéis protagonistas. Finalmente optaram por Bogart, um contratado do estúdio que vinha dos sucessos “O Falcão Maltês / The Maltese Falcon (1940)  e “O Último Refúgio / High Sierra” (1941), e Ingrid Bergman, sueca da trupe de David O. Selznick. Ingrid, no esplendor da sua beleza, comove o espectador com sensibilidade discreta. Humphrey Bogart, cínico e aparente frio, constrói um personagem que repetiria inúmeras outras vezes. A química entre ambos é total, levando a plateia às lágrimas quando um Bogart apaixonado abre mão do seu amor para que ela siga ao lado do marido, dizendo: “Nós sempre teremos Paris”. Ainda no elenco, poderosos coadjuvantes: o eslovaco Peter Lorre, os alemães Conrad Veidt e Curt Bois, os ingleses Sydney Greenstreet e Claude Rains, o francês Marcel Dalio, o italiano Paul Henreid e o tcheco S. Z. Sakall. Em 2005, CASABLANCA foi nomeado um dos 100 melhores filmes dos últimos 80 anos pela revista “Time”. Foi também reconhecido várias vezes pelo American Film Institute (AFI) em suas listas.


Um CORPO que CAI
Título original: VERTIGO
País: EUA
Ano de lançamento: 1958
Duração: 129 minutos
Direção: Alfred Hitchcock
Produção: Alfred Hitchcock (Paramount Pictures)
Roteiro: Alec Coppel e Samuel Taylor,
baseado no romance de Pierre Boileau e Thomas Narcejac
Elenco: James Stewart (“John 'Scottie' Ferguson”), Kim Novak (“Madeleine Elster/Judy”), Barbara Bel Geddes (“Midge”), Tom Helmore, Ellen Corby e Lee Patrick
Fotografia: Robert Burks
Edição: George Tomasi
Trilha Sonora: Bernard Herrmann
Cenografia: Hal Pereira e Henry Bumstead (d.a.); 
Sam Comer e Frank McKelvy (déc)
Figurino: Edith Head

Baseado no livro D'Entre les Morts, de Pierre Boileau e Thomas Narcejac, escrito especialmente para Hitchcock, após os autores tomarem conhecimento de que o diretor tentara adquirir, sem sucesso, os direitos de adaptação de outro livro deles, “Diabolique”, fala de um detetive aposentado, John 'Scottie' Ferguson (James Stewart), que sofre de um terrível medo de alturas. Certo dia, ele encontra um antigo conhecido, dos tempos de faculdade, que pede que vigie sua esposa, Madeleine Elster (Kim Novak). John aceita a tarefa e a segue por toda a cidade. Ela demonstra atração por lugares altos, levando o detetive a enfrentar medos e a acreditar que ela é louca, com tendências suicidas.

Hitchcock queria a atriz Vera Miles para o papel de Madeleine, mas ela ficou grávida pouco antes das filmagens. Ele e Novak não se deram bem e nunca mais voltaram a trabalhar juntos. O diretor aparece no filme aos onze minutos, vestindo terno cinza e caminhando no estaleiro. Um CORPO que CAI esteve inacessível ao público em geral durante muitos anos. Isto porque o diretor comprou de volta os direitos de cinco de seus longa-metragens e os deixou de legado para sua filha. Estes filmes receberam o apelido de "os cinco filmes perdidos de Hitchcock" e voltaram ao alcance do público em 1984, quando foram relançados. Os demais do pacote eram “Festim Diabólico / Rope” (1948), “Janela Indiscreta / Rear Window” (1954), “O Terceiro Tiro / The Trouble with Harry” (1955) e “O Homem Que Sabia Demais / The Man Who Knew Too Much” (1956). 

Considerado a mais complexa obra de Hitchcock, a história parece banal quando é resumida em uma sinopse. Só que de convencional, esse filme não tem nada, e percebemos isso desde a abertura de Saul Bass, psicodélica e onírica. Filmado em VistaVision, a resposta da Paramount ao CinemaScope da Fox, foi idealizado para ser exibido em um formato grande de tela. Tirando vantagem disso, Hitch filmou sequências grandiosas, preenchendo a tela com suntuosos  enquadramentos, que mostram os pontos de São Francisco onde se passa a trama. O interessante dessas tomadas é que não parecem cartões postais, e sim retratos deprimentes, com espaços vazios, deixando claro como os personagens se sentem – em busca de algo que não vão obter.


A bela Kim Novak nunca chegou a se tornar uma grande estrela, mas neste filme ela está fenomenal, dando conta da aura enigmática de Madeleine e do sofrimento extremo de Judy. O veterano James Stewart está excelente, comovendo com a sua obsessão em recuperar um amor perdido. Por fim, a atriz da Broadway Barbara Bel Geddes cativa o espectador com suas piadinhas e sua paixão abafada por Scotty. Na época do lançamento, Um CORPO que CAI foi um fracasso de público e crítica. Talvez o tema refinado ou o clima sombrio não tenha sido aceito ou compreendido pela sociedade da época. Felizmente, hoje possui a fama que merece: a de um clássico do cinema.


CIDADÃO KANE
Título original: CITIZEN KANE
País: EUA
Ano de lançamento: 1941
Duração: 119 minutos
Direção: Orson Welles
Produção: Orson Welles (Mercury Production / RKO Radio Pictures)
Roteiro: Herman J. Mankiewicz e Orson Welles
Baseado na peça de Murray Burnett e Joan Alison
Elenco: Orson Welles (“Charles Foster Kane”), Joseph Cotten (“Jedediah Leland”), Dorothy Comingore (“Susan Alexander”), Everett Sloane (“Mr. Bernstein”), Ray Collins, George Coulouris (”Walter Parks Thatcher”), Agnes Moorehead (“Mrs. Kane”), Paul Stewart (“Raymond”), Ruth Warrick, Erskine Sanford e Fortunio Bonanova
Fotografia: Gregg Toland
Edição: Robert Wise
Trilha Sonora: Bernard Herrmann
Cenografia:  Van Nest Polglase e Perry Ferguson
Figurino: Edward Stevenson

Primeiro filme dirigido por Orson Welles, encontrou forte oposição por parte de William Randolph Hearst, pois ele julgava que a obra denegria sua imagem (publicamente, Welles negava qualquer identificação entre o seu personagem e o magnata do jornalismo), e fez história devido às inovações, sobretudo nas técnicas narrativas e nos enquadramentos cinematográficos. Começa com o protagonista já morto, mudando-se a cronologia dos fatos; e a cenografia mostra pela primeira vez o teto dos ambientes. Conta a trajetória de ascensão e queda de grande empresário da mídia e a jornada de um repórter para saber o significado da última palavra que disse pouco antes de morrer: Rosebud. Indicado ao Oscar nas categorias de Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator (Orson Welles), Melhor Cenografia, Melhor Fotografia, Melhor Montagem, Melhor Trilha Sonora e Melhor Som, venceu apenas na categoria de Melhor Roteiro Original. O filme é considerado, por parte da crítica especializada, como o maior da história do cinema, figurando durante em primeiro lugar na lista do American Film Institute (AFI).

Orson Welles era um jovem de apenas 24 anos em 1939, mas já carregava nas costas alguns anos de intensa experiência artística no teatro e no rádio. Sua adaptação de “Macbeth”, em 1936, somente com atores negros e quando tinha 20 anos, é até hoje um marco do palco norte-americano. Em 30 de outubro de 1938, Welles fez sua famosa narração no rádio da clássica obra de H.G Wells “Guerra dos Mundos”. A narração foi tão convincente que muitas pessoas realmente se assustaram achando que era um noticiário sobre uma possível invasão alienígena, e Welles, já reconhecido como uma espécie de prodígio, alcançou imediatamente fama nacional. 

Todas essas atribulações não passaram despercebidas pelo executivo George Schaefer, chefe da RKO Radio Pictures, na época um dos maiores estúdios de Hollywood. Schaefer faria uma série de propostas para Welles migrar para o cinema, sempre recebendo uma recusa como resposta. A cada negativa, Schaefer acrescentava algo para fazer o teimoso jovem mudar de ideia, até que o mais famoso e inimaginável acordo da história do cinema acabou sendo concretizado: Orson Welles, que nunca havia dirigido, receberia algo que até os mais famosos diretores raramente conseguem: poder absoluto. Teria direito a escrever, dirigir e produzir dois filmes, sujeitos a aprovação final da RKO. Poderia escolher seus atores e receberia entre 20 e 25% de toda a renda de suas obras. Ainda mais importante, ele poderia assistir as cenas filmadas em privacidade e poderia editá-las da maneira que quiser.

Após alguns projetos abortados, Welles e o escritor Herman J. Mankiewicz resolveram criar um argumento baseado na vida William Randolph Hearst  (casado então com a atriz Marion Davies), com o título de “American”. Mankiewicz, prolífico roteirista que possuía sérios problemas com bebidas, escreveu um script com mais de 250 páginas que seria bastante alterado por Welles, inclusive seu título. Ambos disputariam até o fim os créditos do texto. Para interpretar, Welles chamou seus companheiros de confiança do teatro - o Mercury Theatre Group -, revelando para o cinema ótimos atores como Agnes Moorehead, Joseph Cotten e Everett Sloane. Em primeiro de maio de 1941, o filme foi lançado, mostrando nos seus 119 minutos uma série de técnicas, muitas já existentes, mas que nunca antes haviam sido reunidas com tanta eficácia. Sua fotografia profunda (do mestre Gregg Toland), seu uso fabuloso da luz, suas técnicas de flashback e de transição foram elogiados. Apesar das críticas positivas no lançamento, acabou causando prejuízo para a RKO devido as ações de Hearst, que buscou boicotar de todas as formas o filme, atacando-o constantemente em seus jornais.


Após CIDADÃO KANE, Welles decaiu. Foi dispensado da RKO, que cortou 43 minutos do seu segundo filme (“Soberba / The Magnificent Ambersons”, 1942), e se viu numa constante luta para financiar novos projetos. No Brasil filmou um documentário que não foi lançado. A história dos bastidores do seu emblemático clássico foi contada em “RKO 281” (1999), dirigido por Benjamin Ross e estrelado por Liev Schreiber (como Welles), James Cromwell, Melanie Griffith, John Malkovich e Roy Scheider.

abril 18, 2011

****************** O “GADO” HITCHCOCKIANO

kim novak

 
Sem papas na língua, uma das declarações polêmicas de ALFRED HITCHCOCK (1899 - 1990. Londres / Reino Unido) jamais foi esquecida: Os atores são gado, firmando seu perfil de figura excêntrica que implicava com atores. Ele nunca perdoo Ingrid Bergman por tê-lo abandonado por Roberto Rossellini, mas respeitava-a. Não guardava ressentimento de Grace Kelly, que deixou de filmar para se tornar princesa de Mônaco, mas lamentou sua escolha e durante muitos anos tentou recuperá-la. Não suportou dirigir Paul Newman e Julie Andrews em “Cortina Rasgada / Torn Curtain”, tampouco se sentiu satisfeito com Kim Novak (“Um Corpo que Cai / Vertigo”), Gregory Peck e Alida Valli (“Agonia de Amor / The Paradine Case”), Anne Baxter (“A Tortura do Silêncio / I Confess”), Ruth Roman e Farley Granger (“Pacto Sinistro / Strangers on a Train”), Priscilla Lane (“Sabotador / Saboteur”), Jane Wyman (“Pavor nos Bastidores / Stage Fright”) ou Joel McCrea e Laraine Day (“Correspondente Estrangeiro / Foreign Correspondent”). Seduzido por atrizes classudas, de sensualidade elegante – como Ingrid Bergman e Grace Kelly – e atores com personalidade forte como Cary Grant e James Stewart, declarou numa entrevista a François Truffaut: “O que é que me dita a escolha de atrizes sofisticadas? Procuro mulheres do mundo, verdadeiras damas que se transformam em putas no quarto de dormir. A pobre Marilyn Monroe tinha o sexo estampado por toda a sua figura, como Brigitte Bardot, e isso não é muito fino”.


Inglês de rígida educação, marcada por forte repressão sexual, HITCHCOCK era obcecado pelas atrizes de seus filmes, mantendo com elas relações complicadas, muitas vezes meio sádicas. Ao mesmo tempo em que amava apaixonadamente algumas delas, com outras as coisas foram diferentes. Com Doris Day, ele foi  tão frio durante as filmagens que ela disse: Tive a impressão de que ele estava preso a uma atriz  que não queria". O mestre torturou Madeleine Carroll, Joan Fontaine, Eva Marie Saint e Janet Leigh, exigindo delas que encarnassem suas fantasias fetichistas. Janet, imortalizada na célebre cena do assassinato de Marion Crane na ducha, em “Psicose”, de 1960, ficou horas sob um chuveiro que nunca parava de jorrar água, a ponto de sentir que sua pele murchava. A mais hitchcockiana das loiras, Grace Kelly, nunca perdeu a majestade pelo que outros consideravam desaforo, e numa carta de desculpas ao cineasta, explicando por que, como princesa de Mônaco, não poderia voltar aos sets de filmagem para fazer “Marnie, Confissões de Uma Ladra”, assinou como “a mais devotada de suas vacas (the most devoted of your cows)”. Kim Novak, pelo contrário, foi uma vaca rebelde. Ela implicou com o figurino de “Um Corpo Que Cai / Vertigo”, mas ele não cedeu aos caprichos da estrela, comentando anos depois: Os atores, na maioria, são crianças burras. Por exemplo, Kim Novak. Na segunda parte de Vertigo, quando ela está morena e não parece tanto Kim Novak, até consegui que ela atuasse.

Teve graves conflitos com Tippi Hedren, que havia descoberto num comercial na televisão, e com a qual havia acariciado a idéia de fazer uma “nova Grace Kelly”. Desenvolvendo verdadeira tara pela atriz, isolava-a no set para que fosse somente sua. Não permitia que os atores a tocassem, exceto quando sua câmera estivesse filmando. Contava piadas sujas e versinhos pornográficos, especialmente depois de descobrir que Tippi detestava esse tipo de coisa. Ele não apenas a torturava fisicamente - as cenas de ataques dos pássaros levaram a lacerações reais -, como a humilhou no trabalho, exigindo que o tocasse nas partes íntimas. As atrizes foram os principais alvos da manipulação perversa do diretor. Com os atores era indiferente, e mesmo trabalhando com alguns diversas vezes, nunca estabelecia camaradagem. Listo cinco intérpretes com perfil essencialmente hitchcockiano.


CARY GRANT
(1904 - 1986. Bristol / Reino Unido)

John Aysgarth em
SUSPEITA
(Suspicion,1941)

Devlin em
INTERLÚDIO
(Notorious,1945)

John Robie em
LADRÃO de CASACA
(To Catch a Thief,1955)

Roger Thornhill em
INTRIGA INTERNACIONAL
(North by Northwest,1959)

GRACE KELLY
(1929 - 1982. Filadélfia, Pensilvânia / EUA)

Margot Wendice em
DISQUE M para MATAR
(Dial M For Muder, 1954)

Lisa Fremont em
JANELA INDISCRETA
(Rear Window, 1954)

Frances Stevens em
LADRÃO de CASACA
(To Catch a Thief,1955)


INGRID BERGMAN 
(1915 - 1982. Estocolmo / Suécia)

Dra. Constance Petersen em
QUANDO FALA o CORAÇÃO
(Spellbound,1945)

Alicia Huberman em
INTERLÚDIO
(Notorious,1945)

Lady Harrietta Flusky em
SOB o SIGNO de CAPRICÓRNIO
(Under Capricorn,1949)


JAMES STEWART
(1908 - 1997. Indiana, Pensilvânia / EUA)


Rupert Cadell em
FESTIM DIABÓLICO
(Rope,1948)

L. B. Jeffries em
JANELA INDISCRETA
(Rear Window,1954)

Dr. Ben MacKenna em
O HOMEM QUE SABIA DEMAIS
(The Man Who Knew Too Much,1956)

John “Scottie” Ferguson em
Um CORPO QUE CAI
(Vertigo,1958)


TIPPI HEDREN 
(1930. Minesota / EUA)

Melanie Daniels em
Os PÁSSAROS
(The Birds,1963)

Marnie Edgar em
MARNIE, CONFISSÕES de uma LADRA
(Marnie,1964)


grace kelly