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outubro 16, 2016

***** A IMPORTÂNCIA de SER CATHERINE DENEUVE




Entrevista que fiz no auditório da FNAC, 
Barcelona, Espanha, em 2002
publicada em jornais e revistas do Brasil e Portugal
faz parte do livro “ArtePalavra – Conversas no Velho Mundo”.


Perturbado, entre a comoção e o nervosismo, observei atentamente a estrela madura e elegante, que um dia a revista “Look” batizou como “a atriz mais bela do mundo”, concluindo que ela conserva intacto o fascínio aristocrático. Respirei fundo, seguindo seus movimentos e esperando a hora de iniciar a conversa. O local do nosso encontro estava lotado de jornalistas, fotógrafos e muitos convidados. A impressão é que estava diante de um monumento vivo, um monumento de rara beleza. Debutando no cinema em 1957, aos 14 anos, CATHERINE DENEUVE projetou-se em 1963 como a co-protagonista de “Vício e Virtude / Le Vice et la Vertu, do seu pigmalião e amante Roger Vadim (ex-Brigitte Bardot e futuro Jane Fonda). Nascida em Paris, 1943, filha de atores de teatro e irmã da também atriz Françoise Dorléac, que morreu num acidente de carro aos 25 anos, ganhou duas vezes o prêmio César de Melhor Atriz, obteve uma nomeação ao Oscar de Melhor Atriz e levou um prêmio no Festival de Veneza.

Construiu uma carreira arriscada, selecionada, sólida e brilhante, filmando com grandes cineastas como Jacques Demy, Roman Polanski, Luis Buñuel, Mario Monicelli, François Truffaut e André Téchiné, entre outros. Admirada no mundo inteiro, a atriz é um ícone. Resguardada, durante a entrevista limitou-se aos cumprimentos de gentileza e às respostas curtas e contundentes. O corpo é pequeno, enxuto. Os passos curtos e rápidos, equilibrados em saltos altíssimos. Vestida em um Saint-Laurent negro e adornada por uma manta de pele, CATHERINE DENEUVE conserva a beleza em cada linha do rosto, na sofisticação natural, no porte de diva.

Gérard Depardieu disse que a senhora é a mulher que ele queria ser, e na verdade muita gente compartilha esse desejo com ele.

Não exagere, mocinho. De qualquer forma, não gosto de ser modelo de ninguém, porque creio que ninguém deve ser modelo de quem quer que seja. Cada um deve parecer consigo mesmo. Mas Gérard, como o senhor, são muito gentis. De qualquer forma, não creio que mereça ser copiada, não sou feliz, embora tenha vivido muitos momentos felizes. Tenho um caráter melancólico.

São admiradores da personalidade notável e da beleza intacta que ilumina as telas e capas de revistas desde o final dos anos 1950.

Estou cansada da minha suposta beleza em primeiro plano, principalmente da dita “beleza fria”, que pouco tem a ver comigo. A beleza pode ser um grande fardo, pode ter certeza. Felizmente nunca me consideraram uma estúpida. O consolo que tenho na maturidade, ao perder a beleza física, é que finalmente lembraram a boa atriz que sempre fui.

O seu talento é reconhecido desde “A Bela da Tarde”... Em relação ao que desabafou, fiquei surpreso com a assumida melancolia.

Tenho uma tendência grande para a melancolia, principalmente quando o passado me vem à memória. Sei que fui muito mimada pela vida, construí uma bela carreira, mas não creio que exista a felicidade. Existem momentos felizes que passam rápidos.

Eu a imagino como uma artista focada em sua profissão, e como ela é muito bem sucedida, acredito que dificilmente algo abala o seu bem-estar.

Não é bem assim. A carreira nunca esteve em primeiro plano na minha vida. Sempre me preocupei mais com meus amigos e família, principalmente meus filhos. Nunca hesitei em deixar de lado uma boa oportunidade profissional por uma questão pessoal, íntima. Eu gosto do mundo do cinema. É o meu trabalho, e faço o melhor que posso, mas a felicidade encontro nos meus filhos, nos meus amores e nos amigos.

catherine e marcello mastroianni
É conhecida por preservar a intimidade. Nunca fala dos seus romances com Truffaut, Vadim, Mastroianni ou David Bailey. Tampouco sobre seus filhos.

Esforço-me para preservar a intimidade e não me arrependo. Eu tenho dificuldades em revelar-me, inclusive nas telas. Há na construção de cada personagem um mistério, uma imagem lutando para não se entregar por inteiro ao público sedento da verdade imediata. Revelar-me é sempre um desafio. Não é o que prefiro, mas é o que aceito quando é decisivo para a construção do personagem. Estou disponível para isso, embora comece com uma certa relutância.

Ainda se lembra do seu primeiro sucesso?

Evidente que lembro, mesmo passados quase 40 anos. Eu era bastante nova, tinha uns 21 anos e tive a felicidade de atuar em “Os Guarda-Chuvas do Amor”, premiado com a Palma de Ouro em Cannes... Ah, bons tempos, Demy era único.

É o seu diretor favorito?

Filmei com grandes cineastas. Demy, como Truffaut, não era apenas diretor de filmes, mas também um lutador de posições fortes. Eles fazem falta no cinema atual.

catherine e roger vadim
Vi recentemente “Os Ladrões” e fiquei impressionado com sua Marie.

Téchiné é um diretor que procura a alma dos personagens. “Os Ladrões” é um filme difícil, que fala da solidão, da incomunicabilidade dos sentidos, dos jogos do desejo. A Marie é tocada pela tragédia, transfigurada pelo desejo, e quando já não há desejo, é mesmo o fim de tudo. É um personagem dramático e solitário.

Acaba de filmar “A Vingança do Mosqueteiro”. Significa que finalmente resolveu trabalhar em Hollywood?

 
Na época de “Fome de Amor” recebi propostas tentadoras para atuar em superproduções hollywoodianas, e preferi continuar filmando na Europa. Muitos disseram que era uma decisão irracional, mas foi sensata. Lá jamais me ofereceriam um papel ousado como o de “Os Ladrões”. Com a idade que tenho, caso estivesse no cinema norte-americano, não me ofereceriam trabalho, e se o fizessem não seriam papéis dignos.

Qual o seu papel na comédia de sucesso “Oito Mulheres”?

as irmãs françoise 
dorléac e catherine
Tudo se passa numa distante mansão, às vésperas do Natal. Faço Gaby, a esposa do proprietário que foi assassinado e uma das suspeitas do crime. François (Ozon) desejava filmar “As Mulheres”, o clássico de Cukor somente interpretado por atrizes, e como não foi possível, agarrou-se com unhas e dentes ao texto teatral de Robert Thomas. Neste filme ele presta um tributo às estrelas dos anos 50. O meu personagem tem um toque de glamour e vulnerabilidade resgatado de Lana Turner.
O elenco conta com Fanny Ardant, Isabelle Huppert, Emmanuelle Béart, Danielle Darrieux... Não houve problemas nas filmagens nessa junção de tantas estrelas?

Felizmente não. As filmagens foram tranquilas. Sem atos invejosos, ciumeiras ou atritos. Houve uma extraordinária dinâmica de grupo e não tive a sensação de estar comprometendo as companheiras com a minha atuação. O mesmo aconteceu com todas as atrizes. Afinal, não tínhamos do que reclamar, pois todos os personagens são ricos, fortes, cheios de referências e com seu momento de destaque.

Obrigado por sua atenção e gentileza.

Vai ficar para a exibição de “Oito Mulheres”? Espero que aprecie.


  DEZ FILMES de CATHERINE DENEUVE
(por ordem de preferência)

01
O ÚLTIMO METRÔ
(Le Dernier Métro, 1980)

direção de François Truffaut 
elenco: Gérard Depardieu, Jean Poiret, Andréa Ferréol,
Paulette Dubost e Heinz Bennent

02
Os GUARDA-CHUVAS do AMOR
(Les Parapluies de Cherbourg, 1964)

direção de Jacques Demy
elenco: Nino Castelnuovo e Anne Vernon

03
TRISTANA, uma PAIXÃO MÓRBIDA
(Tristana, 1970)

direção de Luis Buñuel
elenco: Fernando Rey e Franco Nero

04
REPULSA ao SEXO
(Repulsion, 1965)

direção de Roman Polanski
elenco: Ian Hendry, John Fraser e Yvonne Furneaux

05
A BELA daTARDE
(Belle de Jour, 1967)

direção de Luis Buñuel
  elenco: Jean Sorel, Michel Piccoli, Pierre Clémenti,
Geneviève Page, Francisco Rabal e Françoise Fabian

06   
INDOCHINA
(Indochine, 1992)

direção de Régis Wargnier
elenco: Vincent Perez, Linh Dan Pham, Jean Yanne
e Dominique Blanc

07
MINHA ESTAÇÃO PREFERIDA
(Ma Saison Préférée, 1993)

direção de André Téchiné
elenco: Daniel Auteuil e Marthe Villalonga

08
DANÇANDO NO ESCURO
(Dancer in the Dark, 2000)

direção de Lars von Trier
elenco: Björk, David Morse e Joel Grey

09
Os LADRÕES
(Les Voleurs, 1996)

direção de André Téchiné
elenco: Daniel Auteuil, Laurence Côte e Benoît Magimel

10
PLACE VENDÔME
(Idem, 1998)

direção de Nicole Garcia
elenco: Jean-Pierre Bacri, Emmanuelle Seigner e Jacques Dutronc

GALERIA de FOTOS

 
 
 
 
 

julho 09, 2012

********** A INTIMIDADE segundo ANDRÉ TÉCHINÉ

marie-france pisier e“barocco”

 
Sou apreciador de ANDRÉ TÉCHINÉ (1943. Valence / França), um dos grandes realizadores franceses vivos. Desde os anos 80, ele se revela um irrepreensível estudioso das relações amorosas. São dele “Hotel das Américas”, “Rendez-Vous” e “Rosas Selvagens”, excelentes melodramas feitos de imagens inesquecíveis. Depois de “Alice e Martin”, o cinema de Techiné, fundamental, por vezes ríspido, sempre de matriz clássica, perdeu um pouco de sua força. Em 2007, mostrou que ainda tinha algo a dizer com “As Testemunhas”, um vigoroso tratado sobre a Aids, reafirmando a singularidadede sua obra. O mesmo não se repetiu no seu longa mais recente, “Imperdoáveis / Impardonnables” (2011), onde um escritor (André Dussollier) se recolhe em Veneza para escrever e conhece uma agente imobiliária (Carole Bouquet) que lhe desvia a atenção da escrita. O seu envolvimento vai desenvolver-se num duplo sentido: lidando com a surpresa do amor e enfrentando as dúvidas sociais que a sua ligação suscita.
 
andré téchiné
O primeiro filme desse ex-crítico da revista “Cahiers du Cinéma” passou despercebido. Os três seguintes, sobretudo “Barocco”, um elegante exercício de estilo no qual a cor exerce um papel importante, provocaram muitos elogios. Para ANDRÉ TÉCHINÉ, o desenrolar de uma história deve ser concebido como justaposição de sequências fortes. Autor de filmografia sólida, tornou-se reconhecido ao vencer o prêmio de direção em Cannes 1985. 

Durante muito tempo alternou-se entre o teatro e cinema, ao mesmo tempo em que lecionava. Cineasta perfeccionista e surpreendente, atraído pelo melodrama, faz da sinceridade o princípio nada ingênuo, e até mesmo incômodo, da dramaturgia. Homossexual assumido, ele filma num tom que combina a crônica social e a contemplação mais íntima, de acordo com uma lógica melodramática que o coloca na linhagem de Max Ophuls, Jean Renoir, Douglas Sirk ou François Truffaut.
téchiné

A filiação do cineasta nesse espaço do melodrama, quer dizer, num sistema de narrativas em que as componentes afetivas se expõem sempre como elementos de uma complexa dinâmica social intimista, jamais beira o superficial ou o tosco. Afirmo isso, ao recordar o crítico português João Lopes: a degradação “telenovelesca” se exprime através de um contínuo desrespeito pelo classicismo melodramático cinematográfico. Assim, por exemplo, após o êxito das telenovelas, desde o mais banal senso comum até alguns discursos jornalísticos, a palavra melodrama passou a ser associada a um convencionalismo leviano e anedótico. Acima de preconceitos tolos, o melodrama nunca deixou de ter o seu espaço primoroso e o cinema de ANDRÉ TÉCHINÉ, íntimo e pessoal, prova isso.

  DEZ FILMES de TÉCHINÉ

01
BAROCCO 
(Idem, 1976)

elenco: Isabelle Adjani, Gérard Depardieu, Marie-France Pisier
e Jean-Claude Brialy

Jovem casal desloca-se para porto do norte da Europa, durante uma campanha eleitoral. Samson é assassinado. O assassino apaixona-se por Laure que termina por aceitá-lo, na condição de que ele se pareça e se comporte como o namorado dela que ele matou.

 02
As IRMÃS BRONTE 
(Les Soeurs Bronte, 1979)

elenco: Isabelle Adjani, Marie-France Pisier, Isabelle Huppert,
Pascal Greggory e Jean Sorel

Na Inglaterra do século XIX, três irmãs praticam assiduamente a escrita e seu irmão é um pintor de temperamento apaixonado. Uma delas é a única a conhecer o êxito literário, após ter visto morrer o irmão e depois suas irmãs.

03
O SEGRÊDO do AMOR 
(Hôtel dês Amériques, 1981)

elenco: Catherine Deneuve e Patrick Dewaere

O primeiro trabalho do diretor com sua atriz preferida, Catherine Deneuve. Em Biarritz, tarde da noite, no contorno de uma rua, uma mulher cruza o caminho de um estranho. Ela conduz um carro. Ele atravessa a rua. E o acidente acontece, sem gravidade, sem outra consequência se não reunir dois mundos distantes. A partir do encontro, ele se entrega a uma busca obstinada para reencontrá-la, mas ela foge dele. O que se esconde por trás da beleza luminosa, dos silêncios constrangidos, das expressões distraídas desta desconhecida encerrada numa solidão?

04
RENDEZ-VOUS 
(Idem, 1985)

elenco: Lambert Wilson, Juliette Binoche, Wadeck Stanczak
e Jean-Louis Trintignant

Melhor Diretor no Festival de Cannes. Jovem atriz chega a Paris com sede de sucesso. Pelo caminho cruza com um empregado de uma agência imobiliária, que a ajudará a se instalar. Ela gostaria que a relação entre eles fosse fraternal, mas ele passa a nutrir por ela um um amor desmesurado. Outros homens surgem na vida da garota.

05
NÃO DOU BEIJOS 
(J’embrasse Pas, 1991)

elenco: Philippe Noiret, Emmanuelle Béart e Manuel Blanc

Jovem provinciano, ingênuo e inexperiente, muda-se para Paris em busca do sonho de ser um ator famosa e acaba se prostituindo.

06
MINHA ESTAÇÃO PREFERIDA 
(Ma Saison Préférée, 1993)

elenco: Catherine Deneuve e Daniel Auteuil

Um dos maiores sucessos de público e crítica da carreira do diretor. Um irmão e uma irmã se reencontram a partir do momento em que a mãe perde a lucidez e finalmente a vida. Entre a vertigem do encontro e a dor da separação vindoura, eles tomarão enfim consciência de seus verdadeiros lugares no mundo.

07
ROSAS SELVAGENS 
(Les Roseaux Sauvages,1994)

elenco: Élodie Bouchez, Gaël Morel e Stéphane Rideau

César de Melhor Diretor. Um dos filmes mais marcantes dos anos 90. Quatro adolescentes moram numa pequena cidade do sudoeste da França. Eles se preocupam com a guerra da Argélia e o vestibular. Nas margens do rio Garonne, no meio dos roseirais selvagens, expõem, com paixão, ideias políticas e sentimentais.

08
Os LADRÕES 
(Les Voleurs, 1996)

elenco: Catherine Deneuve, Daniel Auteuil, Laurence Côte
e Benoit Magimel

Reencontro do trio que fez “Minha Estação Preferida”: o diretor e os atores Catherine Deneuve e Daniel Auteuil. Tira se envolve com a namorada do irmão, um gângster que acabou de ser assassinado, e também com a amante dela, uma bela e madura professora. O filme provocou escândalo pelas cenas lésbicas de Deneuve.

09
ALICE e MARTIN 
(Alice et Martin, 1998)

elenco: Juliette Binoche, Alexis Loret, Mathieu Amalric
e Carmen Maura

 Um rapaz mata o pai. Para fugir ao escândalo, a família instaura a lei do silêncio. O crime é transformado em acidente. Ele se muda para Paris e conhece uma violinista. Com a ajuda dela evita as recordações do ato que cometeu. Vão viver juntos e são felizes, até o momento em que ela engravida e ele entra numa depressão profunda e começa a ser perseguido pelo passado. Poderá ela evitar que ele enlouqueça? 

10
As TESTEMUNHAS 
(Les Témoins, 2007) 

elenco: Michel Blanc, Emmanuelle Béart e Sami Bouajila

Jovem interiorano chega a Paris para reencontrar a irmã, estudante de canto lírico, e descobre os prazeres do sexo sem compromisso nos pontos gays. Conhece um médico de meia-idade, que se deixa seduzir pelos encantos do rapaz. Mas será com um policial que terá uma relação inesperada. Ele é casado com uma escritora de livros infantis que acabou de ter um bebê, e os dois têm vida sexual liberal. Contudo, quando o garoto descobre que tem o vírus da Aids, a vida de todos é abalada.