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junho 29, 2018

************************ RACISMO em HOLLYWOOD

eartha kitt

 
No princípio da história do cinema, os atores negros eram excluídos das telas. A discriminação racial constrangedora resultava em um tratamento ofensivo. O épico “O Nascimento de Uma Nação / The Birth of a Nation” (1915), do pioneiro D.W. Griffith, considerado uma obra capital no desenvolvimento da sétima arte, responsável pela estrutura do cinema moderno tal como ele é hoje, apresenta conteúdo despudoradamente racista, enaltecendo a Ku Klux Klan, sinistra organização criada para aterrorizar e trucidar negros que viviam no Sul dos Estados Unidos. Anos depois, o cineasta admitiria que o filme “cria um sentimento de repulsa em pessoas brancas, especialmente mulheres brancas, contra os homens de cor”.

Na época, os personagens negros eram interpretados por brancos pintados de preto. A partir dos anos 1920, quando a defesa dos direitos humanos proliferou nos EUA, os atores negros começaram a aparecer com frequência, embora desempenhando pequenos papéis, geralmente criados, escravos, vagabundos, músicos ou figuras engraçadas. De relevante nesta fase, dois musicais, ambos com elenco totalmente negro: o célebre “Aleluia / Hallelujah” (1929), de King Vidor, e “Uma Cabana no Céu / Cabin in the Sky” (1943), de Vincente Minnelli, que revelou a bela e talentosa Lena Horne. De realmente importante na luta contra o racismo aconteceu em 1939, quando Hattie Mc Daniel ganhou o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por sua simpática Mammy em “... E o Vento Levou / Gone with the Wind”. Foi uma vitória histórica.

harry belafonte e dorothy dandridge
em “carmen jones”
A Segunda Guerra Mundial permitiu mudanças na sociedade. O negro passou a ser representado como valente soldado, como no documentário produzido pelo exército norte-americano “The Negro Soldier” (1944), de Stuart Heisler. No final dos anos 1940 e nos 1950, surgiram libelos contra o racismo, entre eles “O Mundo Não Perdoa / Intruder in the Dust” (1949) de Clarence Brown, “O Que a Carne Herda / Pinky” (1949) de Elia Kazan, “O Clamor Humano / Home of the Brave” (1949) de Mark Robson, e “Acorrentados / The Defiant Ones” (1958) de Stanley Kramer. Os personagens negros deixaram de serem de segundo escalão, dando espaço para estrelas como Dorothy Dandridge e Sidney Poitier.

Dandridge afirmava que a cor de sua pele era sempre levada em conta quando se pensava em seu nome para um papel importante. Ela confessou sua frustração por ser obrigada a convencer os estúdios de sua capacidade como atriz, somente pelo fato de ser negra. Poitier, o primeiro negro a ganhar o Oscar de Melhor Ator, em sua autobiografia revela o constrangimento para conseguir um dos papéis principais de “Adivinhe Quem Vem Para jantar / Guess Who's Coming to Dinner, comédia que questiona preconceitos raciais. Ele foi convidado a jantar com Spencer Tracy e Katharine Hepburn, protagonistas do filme sobre um negro que namora uma branca. Na verdade, um teste em uma “reunião social de brancos”. Até Tracy e Hepburn, conhecidos como sem preconceitos, preferiram não assumir riscos em suas vitoriosas carreiras.

FONTE
Slow Fade to Black: The Negro in Americam Film, 1900 - 1942 
 de Thomas Cripps

SETE GRANDES ATRIZES NEGRAS

CICELY TYSON
(1933. Nova Iorque / EUA)

Indicada ao Oscar de Melhor Atriz graças à sua performance no drama “Lágrimas de Esperança / Sounder” (1972), também se consagrou por “O Pássaro Azul / The Blue Bird” (1976) e a minissérie de grande sucesso “Raízes / Roots”, produzida em 1977 pela ABC. Ganhou três prêmios Emmy: dois em 1974 e o último em 1994. Esposa do trompetista e compositor de jazz Miles Davis. Começou em peças off Broadway, alcançando o sucesso como Portia no longa “Por que Tem que Ser Assim? / The Heart Is a Lonely Hunter (1968). Fez poucos filmes, recusando interpretar papéis que não valorizavam a mulher negra. Ela é uma das mais talentosas atrizes que já apareceram na tela.

DIAHANN CARROLL
(1935. Nova Iorque / EUA)

De família pobre, ela abandonou os estudos para seguir a carreira de cantora. Tornou-se uma das raras modelos negras que se destacaram nos anos 1950, foi amante de Sidney Poitier por dez anos, gravou vários discos, estrelou com sucesso a sitcom “Júlia” (1968 - 71), fez em “Dinastia” (1984 - 87) a primeira vilã negra das séries norte-americanas e interpretou Norma Desmond na Broadway no musical “Sunset Boulevard”. Ganhou em 1962 o prêmio teatral Tony por “No Strings”. Foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz por “Claudine / Idem” (1974). No cinema, brilhou em “Carmen Jones / Idem” (1954), “Porgy e Bess / Porgy and Bess” (1959), “Paris Vive à Noite / Paris Blues” (1961) e “O Incerto Amanhã / Hurry Sundown” (1966). Recentemente lançou sua autobiografia.

DOROTHY DANDRIDGE
(1922 - 1965. Cleveland, Ohio / EUA)

Conhecida pela beleza e sensualidade, foi a primeira atriz negra indicada ao Oscar de protagonista - por sua atuação em “Carmem Jones”. Estreou no cinema aos 15 anos, na comédia “Um Dia Nas Corridas / A Day at the Races (1937), contracenando com os irmãos Marx. Amante do diretor Otto Preminger, nos anos 1950 viveu o auge de sua carreira, soberba em Ilha nos Trópicos / Ilha nos Trópicos (1957) e “Porgy e Bess” (1959). Investimentos malsucedidos levaram-na a afundar em dívidas e no álcool. Quando a encontraram morta por overdose de barbitúricos, em seu apartamento na West Hollywood, sua conta bancária registrava apenas US$ 2,14. Tinha apenas 42 anos. 

ETHEL WATERS
(1896 - 1977. Chester, Pensilvânia / EUA)

Cantora de blues, em 1933 participou em um curta satírico intitulado “Rufus Jones para o Presidente / Rufus for President”. Em 1942, repetindo o papel nos palcos, fez Petúnia no musical de sucesso “Uma Cabana no Céu”, da Metro-Goldwyn-Mayer. Com “O que a Carne Herda” foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante. Em 1950, ganhou o New York Drama Critics Award por sua performance na peça “Cruel Desengano / The Member of the Wedding”. Repetiu o papel na versão cinematográfica de 1952, dirigida por Fred Zinnemann. Depois estrelou a série de televisão “Beulah” (1950-51). Fez outros bons filmes, como “Seis Destinos / Tales of Manhattan” (1942) e “A Fúria do Destino / The Sound and the Fury” (1959), mas reclamava dos papéis degradantes que os negros eram obrigados a fazer. Depois que perdeu joias e economias em um assalto, teve a saúde abalada. Morreu aos 80 anos, vivendo de favor na casa de um casal que cuidava dela.

HATTIE McDANIEL
(1895 - 1952. Wichita, Kansas / EUA)

Personagens alegres, leais e assexuados. Apareceu em mais de 300 filmes, tendo seu nome nos créditos de apenas 80 deles. Quase sempre interpretando empregadas, certa vez disse: “Por que devo reclamar ganhando 700 dólares por semana sendo uma empregada nas telas? Se não fosse assim ganharia sete dólares por semana sendo uma de verdade.” Em “A Mulher que Soube Amar” (1935) enfureceu o público branco racista pelo papel de uma atrevida e desbocada empregada doméstica. Por um personagem parecido, o de Mammy em “… E o Vento Levou”, que recebeu o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante, tornando-se a primeira negra a receber tal honra. Sua performance em “Nascida Para o Mal / In this Our Life” (1942) é lembrada por sua forte interpretação, o de uma dona de casa cujo filho é acusado injustamente de um atropelamento. Destacou-se em “Desde Que Você Partiu Since You Went Away (1944) e “A Canção do Sul / Song of the South” (1946). Lésbica, teve romances tórridos com duas estrelas belíssimas: Tallulah Bankhead e Claudette Colbert. McDaniel faleceu aos 57 anos. Desejava ser enterrada no Cemitério de Hollywood, juntamente com alguns dos parceiros do cinema, mas o dono se recusou a permitir que uma negra fosse enterrada em seu cemitério.

JUANITA MOORE
(1914 - 2014. Greenwood, Mississippi / EUA)

Nomeada para o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante pela segunda versão de “Imitação da Vida / Imitation of Life (1959), começou a atuar na década de 1950. Fez mais de 30 filmes, entre eles “Uma Viúva em Trinidad / Affair in Trinidad” (1952), “Testemunha do Crime / Witness to Murder” (1954) e “Abby / Idem” (1974), além de inúmeras séries para a TV. Apareceu pela última vez no cinema na comédia “Duas Vidas / The Kid” (2000).

LOUISE BEAVERS
(1902 - 1962. Cincinnati, Ohio / EUA)

Antes de estrear no cinema, era governanta de Leatrice Joy, estrela do cinema mudo. Apareceu em mais de 160 filmes, dos anos 1920 até a década de 1950, na maioria das vezes como um estereótipo de criada bondosa, matrona, subserviente e com grandes risadas. Sua mais notável interpretação foi Delilah Johnson, a governanta da primeira versão de “Imitação da Vida / Imitation of Life” (1934). A história trata da relação fraterna entre duas mulheres, uma branca e outra negra, e os problemas que elas enfrentam com suas respectivas filhas. Filme do mestre John M. Stahl historicamente significativo, na época a discriminação racial era muito forte. Nunca mais Louise Beavers conseguiu outro papel de destaque. Morreu de um ataque cardíaco aos 60 anos.

GALERIA de FOTOS



outubro 03, 2014

******************* SALA VIP: “...E o VENTO LEVOU”

clark gable e vivien leigh


Os fãs norte-americanos de E o VENTO LEVOU / Gone with the Wind (1939) puderam apreciar novamente o filme, vencedor de 10 prêmios Oscar, nas comemorações de 75 anos de seu lançamento, com exibições especiais nas salas de cinema dos Estados Unidos. Nos dias 28 de setembro e 1º de outubro, quase 650 salas de cinema do país exibiram o filme em seu formato original, com uma apresentação especial por iniciativa do canal Turner Classic Movies (TCM), que preparou para a ocasião um DVD/Blu Ray especial de aniversário. O filme de 224 minutos de duração, adaptação do livro de mesmo nome de Margaret Mitchell, vencedor do prêmio Pulitzer, foi exibido pela primeira vez na cidade de Atlanta (Geórgia) em 15 de dezembro de 1939 e, desde então, foram nove relançamentos. A história de Scarlett O'Hara durante a conturbada Guerra de Secessão recebeu 10 estatuetas do Oscar, incluindo o primeiro prêmio da Academia para uma atriz afro-americana, Hattie McDaniel, vencedora na categoria Melhor Atriz Coadjuvante pelo papel da aia Mammy. Segundo o site especializado Box Office Mojo, E o VENTO LEVOU ostenta o recorde de filme mais rentável de todos os tempos, com US$ 1,6 bilhão (reajustados de acordo com a inflação), à frente de Guerra nas Estrelas / Star Wars (1977), que arrecadou US$ 1,45 bilhão.

Associado ao TCM, o Harry Ransom Center da Universidade do Texas, em Austin, que abriga os arquivos do produtor independente David O. Selznick, apresenta desde o início de setembro e até 4 de janeiro de 2015 uma exposição sobre a história do filme. O vestido confeccionado com uma cortina verde de Scarlett e o vestido vermelho que ela usa no aniversário de Melanie, ambos de Walter Plunkett, estão entre os destaques da mostra. A exposição conta ainda com páginas do roteiro, que mostram que a famosa resposta final de Rhett Butler - Frankly, my dear, I don`t give a damn (Francamente, minha querida, eu não dou a mínima) - quase foi alterada pela frase Eu não me importo porque a frase original em inglês tem um impacto mais profundo do que pode ser traduzido. A exposição recorda que Talullah Bankhead, Paulette Goddard, Susan Hayward, Lana Turner e Jean Arthur estavam entre as estrelas da época que fizeram testes para o papel de Scarlett, que finalmente acabou com Vivien Leigh. Cadiz, em Ohio, cidade natal de Clark Gable, que teve a casa transformada em museu, e a localidade vizinha de New Philadelphia, também celebrarão o aniversário na próxima semana com uma exibição do filme e o leilão de objetos relacionados com o longa-metragem.

olivia de havilland

DUAS ou TRÊS COISAS sobre ...E o VENTO LEVOU

Símbolo máximo do romantismo, duelo entre o cinismo do galã e o mau-caratismo da mocinha, E o VENTO LEVOU, um dos clássicos mais populares da história do cinema, dirigido oficialmente por Victor Fleming e produzido por David O. Selznick, tem nos papéis principais Vivien Leigh como Scarlett O’Hara, Clark Gable como Rhett Butler, Olivia de Havilland como Melanie Hamilton e Leslie Howard como Ashley Wilkes. Trata-se de um suntuoso épico com a Guerra de Secessão (1861 - 1865) como pano de fundo - conflito armado entre os estados confederados (sul) e abolicionistas (norte), um dos mais sangrentos dos Estados Unidos, com 620 mil soldados mortos. Enquanto fortunas e famílias são destruídas, acompanhamos o percurso de altos e baixos da determinada Scarlett: juventude luxuosa e mimada; a paixão não correspondida; o falecimento da mãe e a loucura do pai; pobreza e fome; casamentos oportunistas; união interesseira com um aventureiro, numa relação de amor e ódio; a morte da filha etc. Mocinha egoísta e sem escrúpulos, Scarlett defende sua terra, Tara, a qualquer custo.
 
vivien leigh

Para os cinéfilos de plantão, uma obra obrigatória. Gostando ou não, ver E o VENTO LEVOU é uma experiência fundamental. Eu o assisti duas vezes, uma ainda menino, na tevê, dublado, e a segunda poucos anos atrás. Honestamente, não faz parte da minha lista de filmes favoritos. Inclusive, considero “O Morro dos Ventos Uivantes / Wuthering Heights”, do mesmo ano, superior. Admiro a fotografia espetacular, trilha sonora, cenografia, figurino, o esforço colossal do genial Selznick e as atuações de Clark Gable, Olivia de Havilland, Thomas Mitchell, Hattie McDaniel e Ona Munson, mas o argumento me parece arrastado e Scarlett é uma das anti-heroínas mais intragáveis do cinema – amo Vivien Leigh por interpretações futuras. Além disso nunca consegui engolir a substituição de George Cukor pelo inexpressivo Victor Fleming. Mas é uma questão de opinião. O evidente é que faz parte do imaginário coletivo e é amado por muitos.


ANTES das FILMAGENS

Margaret Mitchell, autora do romance no qual o filme se baseou, escreveu-o entre 1926 e 1929. Um mês após o seu lançamento, em 1936, o produtor Selznick comprou os direitos de filmagem por 50 mil dólares - a mais alta quantia paga até então pela adaptação do primeiro livro de um autor -, embora certa hesitação, motivada pelo tema (a Guerra Civil não garantia bilheteria) e a grandiosidade do projeto;

Sidney Howard (que morreu antes da estreia do filme) condensou as 1.037 páginas do futuro best-seller, mas o seu trabalho sofreria sucessivas alterações por outros roteiristas, entre os quais os famosos escritores F. Scott Fitzgerald e William Faulkner, todos procurando cumprir as exigências do produtor que ordenava extrema fidelidade ao texto original. Somente o nome de Howard figuraria nos créditos;

A primeira convidada para o papel principal, a superstar da Metro-Goldwyn-Mayer, Norma Shearer, odiou o personagem. Bette Davis desistiu por achar que teria que contracenar com um ator que odiava, Errol Flynn, na ocasião o mais cotado para Rhett Butler;

Ficou famosa a disputa pelo papel de Scarlett. Mais de 1.400 atrizes foram entrevistadas, sendo que mais de 400 fizeram leitura filmada do roteiro. Dentre as atrizes testadas estão Paulette Goddard (que por pouco não ganhou o papel), Jean Arthur, Lucille Ball, Tallulah Bankhead,  Claudette Colbert, Miriam Hopkins, Joan Crawford, Katharine Hepburn, Carole Lombard, Barbara Stanwyck, Loretta Young, Joan Bennett, Lana Turner, Susan Hayward e Margaret Sullavan. Com as filmagens iniciadas sem protagonista, o irmão de Selznick, Myron, visitou os sets com Laurence Olivier e sua namorada Vivien Leigh, uma inglesa de 27 anos. A apresentação de Vivien por Myron tornou-se célebre: “David, quero que conheça Scarlett O’Hara”. A busca chegara ao fim;

Desde que leu o livro, Vivien Leigh sonhou com o papel de Scarlett. Chegou a dizer em 1937, ainda em Londres: “Eu serei Scarlett O’Hara. Esperem e verão”. Isto era, no mínimo, curioso, uma vez que ela era na ocasião uma desconhecida em Hollywood;

Chamada para o papel da irmã mais nova de Scarlett, Judy Garland terminou em “O Mágico de Oz / The Wizard of Oz” (1939), sendo substituída por Ann Rutherford;

Gary Cooper recusou interpretar Rhett Butler, alegando que o filme seria o maior fracasso da história de Hollywood. Errol Flynn e Ronald Colman também foram pensados para o papel, mas o público escolheu Gable por votação, em um concurso da revista Photoplay. A autora Margarert Mitchell queria Basil Rathbone. Gable, na verdade, nunca pensou em fazer o papel de Butler e levou muito tempo para ler E o VENTO LEVOU, lendo-o mais por insistência da esposa Carole Lombard e de amigos;

A fim de conseguir Gable, o produtor entrou em acordo com seu sogro Louis B. Mayer, que cederia o astro, mas em troca entraria com participação de metade do investimento previsto para a realização, faria a distribuição e receberia 50% dos lucros;

leslie howard

Para Ashley Wilkes, Selznick tinha em mente Leslie Howard desde sempre, embora Melvyn Douglas, Ray Milland e Lew Ayres chegaram a ser cogitados;

A contratação de uma atriz para a bondosa Melanie não tardou. Na lista de candidatas, Maureen O’Sullivan, Janet Gaynor, Geraldine Fitzgerald, Frances Dee e Joan Fontaine, mas venceu a irmã desta última, a rainha das matinês da Warner, Olivia de Havilland;

A competição para o papel de Mammy foi acirrada. A primeira dama dos EUA, Eleanor Roosevelt, escreveu para o produtor do filme pedindo que o papel fosse dado à sua empregada. Entretanto, Clark Gable queria Hattie para o papel, o que ajudou bastante;

Foram confeccionados 2.500 figurinos para a superprodução.



DURANTE as FILMAGENS

Foram rodados 113 minutos da primeira cena filmada, a do incêndio em Atlanta, queimando-se cenários de filmes (“O Rei dos Reis / The King of Kings”, 1927; “King Kong / Idem”, 1933, etc.). Contudo, o fogo provocado foi tão intenso que moradores próximos ligaram para os bombeiros, pensando que a RKO estivesse ardendo em chamas;

As filmagens propriamente ditas começaram em 26 de janeiro de 1939 por George Cukor, que dirigiu apenas 4% da fita, mesmo sendo amigo pessoal e homem de confiança de Selznick. Ele iniciou a sequência do baile de Atlanta e, logo depois, foi despedido devido ao tom intimista que imprimia à narrativa e a influência de Clark Gable, que entrara em choque com o caráter disciplinador do diretor e não queria ser dirigido por um homossexual bem próximo ao seu passado de garoto de programa;

Desejando uma narrativa épica, Selznick pensou até em convocar o pioneiro D. W. Griffith (“Intolerância / Intolerance”, 1916) para prestar consultoria;

Visando agradar Gable, Selznick forneceu uma lista de diretores disponíveis: King Vidor, Jack Conway, Robert Z. Leonard e Victor Fleming. Sem vacilar, o galã optou por um dos mais fracos, Fleming, que dirigiu aproximadamente 45% do filme;

Esgotado pelos aborrecimentos seguidos com Vivien Leigh (que, a exemplo de Olivia de Havilland, ia ensaiar, em sigilo, na casa de Cukor), e insatisfeito com as reclamações constantes do tirano Selznick, Victor Fleming sofreu um colapso nervoso;

Sam Wood assumiu a direção, com 15% de participação no filme. Quando Fleming se recuperou, os dois diretores continuaram na direção, mas em horários e sets diferentes. William Cameron Menzies e Sidney Franklin também dirigiram várias cenas;

Cerca de mil figurantes, misturados bonecos de cera, contribuíram para a sequência em que Scarlett caminha entre os corpos de sobreviventes da batalha de Gettysburg;

Vivien Leigh trabalhou nos sets de filmagem por 125 dias, recebendo a quantia de 25 mil dólares, já Clark Gable trabalhou por 71 dias e ganhou 120 mil dólares;

Ninguém na produção acreditava que Vivien Leigh fosse resistir ao charme de Gable. Na verdade, eles não se entenderam, pois ela considerava pouco profissional que ele deixasse o estúdio sempre às seis da tarde. Já ele achava um abuso oferecer um papel norte-americano a uma britânica. Os dois protagonizaram acesas discussões com a atriz ameaçando abandonar as filmagens;

Vivien odiava o hálito de seu parceiro – ele comia cebolas de propósito e bebia licor poucas momentos antes de gravar –, deixando-a com náuseas. Ele revelou que, quando a beijava, pensava em um bife. Na pele de Rhett Butler e Scarlett O'Hara ou na de Clark Gable e Vivien Leigh, eles jamais se entenderam;

As diferenças entre o produtor e o fotógrafo Lee Garnes culminaram com a demissão deste, sendo substituído por Ernest Haller, que nunca havia feito um filme colorido antes. Garmes queria tons suaves, mas Selznick insistia em cores artificiais de cartão-postal.

clark gable

DEPOIS das FILMAGENS

Em 1º de julho de 1939 terminaram as filmagens e Selznick tinha para editar cerca de 60.000 metros de filme, equivalente a 28 horas de projeção;

A trilha sonora é uma das mais longas concebidas para um filme. No mesmo ano, o vienense Max Steiner criou nada menos que outras 11 partituras;

Trancado dia e noite com o editor Hal C. Kern e seu assistente, James E. Newcom, o produtor montou a fita sem consultar nenhum dos diretores que nela tomaram parte e ordenou a filmagem de cenas adicionais, como a que Scarlett se esconde debaixo da ponte numa tempestade enquanto uma tropa da União passa sobre a mesma;

A produção custou pouco mais de cinco milhões de dólares e, quatro anos depois de seu lançamento, a renda obtida nas bilheterias superava a marca dos 32 milhões de dólares;

A famosa frase de Rhett: “Frankly, my dear, I don’t give a damn / Francamente, querida, eu pouco me importo”, foi censurada pelo Código Hays. “Damn” era considerado pesado, mas ao pagar a multa de 5 mil dólares, Selznick conseguiu a liberação;

ona munson

O filme idealiza a sociedade branca do velho sul dos Estados Unidos: os senhores de escravos são protetores benevolentes e a causa confederada uma nobre defesa da terra natal e de um modo de vida. Com isso, apresenta tendenciosamente uma visão positiva sobre a sociedade sulista ou o próprio conceito sulista sobre a Guerra Civil;

Enquanto uma multidão de um milhão de pessoas se acotovelava pelas calçadas e ruas de Atlanta – então com 300 mil habitantes -, na Geórgia, uma pequena carreata rumava lentamente ao cinema Loew’s Grand, com a fachada decorada como a mansão de Twelve Oaks. Nesta noite gelada de 15 de dezembro de 1939, os atores Vivien Leigh, Clark Gable e Olivia de Havilland receberam o público na cerimônia de estreia. “Foi o maior evento que presenciei no sul dos EUA, disse o ex-presidente Jimmy Carter;

O elenco negro sequer foi convidado para a première, devido as leis racistas da Geórgia;

No Brasil, a estreia de gala aconteceu no Rio de Janeiro, no Cine Metro, em 12 de setembro de 1940, às 20h45m, com os 1.400 lugares do cinema inteiramente ocupados. A primeira dama do país, Darcy Vargas, patrocinou o evento, leiloando exemplares da obra de Margaret Mitchell autografados pelos astros principais do filme. No mesmo dia, diretamente de Hollywood, numa transmissão da Hora do Brasil, Gable, Vivien Leigh e Selznick saudaram o evento e contaram alguns detalhes da filmagem. O filme permaneceu oito semanas em cartaz com casa cheia;

selznick, vivien e o oscar
Foi a primeira fita a cores a ganhar o Oscar de Melhor Filme. Levou também Oscar de Melhor Diretor (Fleming), Melhor Atriz (Leigh), Melhor Atriz Coadjuvante (Hattie McDaniel), Melhor Roteiro Adaptado (Sidney Howard), Melhor Fotografia a Cores (Ernest Haller e Ray Rennahan), Melhor Montagem (Hal C. Kern e James E. Newcom) e Melhor Cenografia (Lyle R. Wheeler), além de prêmios especiais. Concorreu ao Oscar de Melhor Ator (Gable), Melhor Atriz Coadjuvante (de Havilland), Melhor Trilha Sonora, Melhores Efeitos Especiais e Melhor Som;

Na mesma cerimônia da Academia em que E o VENTO LEVOU arrebatou o Oscar de Melhor Filme, o versátil Thomas Mitchell - que faz Gerald O’Hara, pai de Scarlett - ganhou o Oscar de Ator Coadjuvante por “No Tempo das Diligências / Stagecoach”, de John Ford, como o bêbado doutor Josiah “Doc” Boone. Neste mesmo ano, ele faria três outros clássicos: “Paraíso Infernal / Only Angels Have Wings” (Howard Hawks), “A Mulher Faz o Homem / Mr. Smith Goes to Washington” (Frank Capra) e “O Corcunda de Notre Dame / The Hunchback of Notre Dame” (William Dieterle);

Quarto de cinco filmes em que o diretor Victor Fleming e Clark Gable trabalham juntos. Os demais foram “Terra de Paixão / Red Dust” (1932), “A Irmã Branca / The White Sister” (1933), “Piloto de Provas / Test Pilot” (1938) e “Aventura / Adventure” (1945);

Nos 10 primeiros dos 100 Filmes de Todos os Tempos do American Film Institute (AFI);

Do elenco, ainda está viva Olivia de Havilland, aos 98 anos de idade;

Lady Vivien Leigh (1913 - 1967. Darjeeling / Índia), uma das maiores atrizes do teatro britânico, teve morte súbita por tuberculose aos 54 anos. Ao concluir “Os Desajustados”, O “Rei de Hollywood” Clark Gable (1901 - 1960) sofreu um infarto do miocárdio e morreu dez dias depois, em 1960.  Leslie Howard (1893 - 1943. Londres / Reino Unido) partiu para sempre durante a Segunda Guerra Mundial, aos 50 anos, quando o avião em que viajava de Lisboa para a Inglaterra foi abatido por aviões alemães. Hattie McDaniel (1895 - 1952. Wichita / Kansas) faleceu aos 57 anos, na Califórnia. Thomas Mitchell (1892 - 1962. Nova Jersey / EUA), um dos maiores coadjuvantes do cinema, aos 70 anos.