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março 15, 2026

* SERVIÇO COMPLETO: os RAPAZES da GASOLINEIRA

scotty bowers
 


Não havia nada de culpado,
não havia nada de sujo.
Foi a coisa mais natural
e maravilhosa do mundo.
HENRY WILLSON
(1911 – 1978. Lansdowne, Pensilvânia / EUA)
agente de atores

Scotty era uma figura central
no underground gay de Hollywood
e serviu como um cafetão de confiança
de seus clientes quando eles não tinham
alternativa a não ser viver nas sombras.
MATT TYRNAUER
(Los Angeles, Califórnia / EUA)
cineasta


Acabei de ler
“Full Service: the Secret Sex Lives of Hollywood's Stars” (2012), as memórias de SCOTTY BOWERS (1923 – 2019. Ottawa, Illinois / EUA), no qual revela como ele e seus jovens e belos prostitutos tiveram como clientes, durante décadas, atores, atrizes, produtores, diretores e demais profissionais da chamada Era de Ouro de Hollywood. Interessei-me pela leitura depois de ver a minissérie “Hollywood”, de apenas sete capítulos, em que a Cidade dos Sonhos dos anos 40 e 50 é retratada. Garoto simplório, nascido numa fazenda, na infância o autor seduzido manteve um caso com o fazendeiro vizinho, amigo de seu pai, casado e pai de dois filhos. Começa aí a sua saga sexual, que passou mais tarde, em Chicago, quando adolescente, a fazer dinheiro satisfazendo senhores respeitáveis e até mesmo padres. Isso seria abuso aos olhos de todos, menos aos dele. E tudo sem que a mãe ou os irmãos desconfiassem. Ele foi para a guerra, se alistando na Marinha, lutando na Batalha de Iwo Jima, no Oceano Pacífico, e perdendo no sangrento conflito um irmão e dois amigos muito próximos.

Nessa época, homens e mulheres gays forçados a ser marginais sexuais eram publicamente evitados e muitas vezes perseguidos, ou pelo menos forçados a viver vidas duplas. A indústria cinematográfica mantinha em segredo a verdadeira identidade sexual de muitas de suas maiores estrelas, como Ramon Novarro ou Greta Garbo. A comunidade LGBTQ+ não tinha muitos lugares seguros para se conectar na década de 40. A homossexualidade foi ilegal na Califórnia até os anos 1970. Quando a divisão de narcóticos do Departamento de Polícia de Los Angeles –
“a Gestapo sexual”, como era conhecida – invadia um bar gay, os frequentadores corriam o risco de serem presos, extorquidos, internados em um hospício e possivelmente lobotomizados. Esses policiais tinham como alvo a elite de Hollywood porque tinha carreiras a proteger e dinheiro de sobra para suborná-los. Foi nesse contexto que o fuzileiro naval SCOTTY BOWERS veio de anos de guerra para morar em Los Angeles, em 1946, cidade que conheceu nas folgas da Marinha e onde, obviamente, viveu aventuras eróticas de farda.

o posto de gasolina bordel
Aos 23 anos, em 1946, ele rapidamente começou a trabalhar em um posto de gasolina em Hollywood, como atendente,
indicado por um amigo da Marinha. O Richfield Oil ficava em 5777 Hollywood Blvd., na esquina da Van Ness Avenue. Sua beleza atraiu a atenção de Walter Pidgeon, astro canadense da Metro-Goldwyn-Mayer, que o convidou para dar uma volta em seu luxuoso carro Lincoln Continental. O loiro de covinhas topou sem vacilar, marcando sua entrada para a alta sociedade local. O assédio rendeu banho de piscina, sexo e 20 dólares de gorjeta, um valor considerável na época. O mais importante desse encontro erótico foi o início de uma carreira paralela do veterano de guerra, que passou a oferecer seu corpo e os de ex-combatentes em dificuldades financeiras para as estrelas de cinema. Pidgeon recomendou o nome do amante a um círculo de amigos — e logo ele estava intermediando encontros para ele ou uma rede de profissionais do sexo. A demanda era tão alta, que teve que encaminhá-los para uma sala de espera — que, na verdade, era só um trailer estacionado.


A notícia de um jovem fuzileiro naval bonito, discreto e desinibido espalhou-se como fogo nos bastidores de Hollywood. SCOTTY BOWERS percebeu que a
“Cidade dos Sonhos” era, na verdade, uma cidade de desejos reprimidos. Para atender à demanda, ele recrutou cerca de 20 veteranos de guerra, bonitos, atléticos e discretos que, assim como ele, precisavam de dinheiro para sobreviver. Estabeleceu uma tabela fixa: 20 dólares por serviço. Diferente de um cafetão tradicional, ele não ficava com uma comissão sobre os rapazes, seu lucro vinha das gorjetas e da gratidão das estrelas, que o via como um cafetão de confiança. Esses rapazes eram enviados as mansões mais exclusivas de Beverly Hills. O posto de gasolina tornou-se a fachada perfeita: enquanto os estúdios vigiavam os passos das suas estrelas, elas abasteciam seus carros e davam um bilhete com um endereço ou colocavam um acompanhante no banco de trás. Com os anos, o gigolô passou a trabalhar como barman em festas privadas de elite, onde levava seus garotos para servir as bebidas e, mais tarde, atender aos desejos dos convidados.

tyrone power
A sua lista de clientes não fazia distinção de gênero: homens e mulheres, astros e estrelas, de galãs másculos a divas intocáveis, figuras lendárias que confiavam a um ex-fuzileiro naval os segredos que poderiam destruir suas carreiras. Entre os nomes citados em seus relatos, que foram para cama com ele ou seus pupilos, destaca-se uma lista extensa, muito extensa: Tyrone Power, Cary Grant, Bette Davis, James Dean, Charles Laughton, George Cukor, Vivien Leigh, Spencer Tracy, Lana Turner, Laurence Olivier, Rex Harrison, Gore Vidal, Montgomery Clift, Cole Porter, Tennessee Williams, Ava Gardner, Randolph Scott, Vincent Price, Raymond Burr, Gloria Swanson, Alan Ladd, Farley Granger, Bob Hope, Merle Oberon, Tom Ewell, Judith Anderson etc. A confiança realmente impulsionou seu trabalho. Nessa epopeia sexual, SCOTTY BOWERS não passava um dia sem transar. Operou seu esquema do posto de gasolina de 1946 até 1950, mas o serviço completo se estendeu muito além disso, seguindo até o final da década de 1970, atendendo muitos dos grandes nomes da indústria cinematográfica que iam fazer sexo com ele ou com outros indicados por ele.


Administrar um bordel clandestino, frequentado principalmente por gays, em um posto de gasolina, não foi nada fácil. O seu livro conta detalhes dessas peripécias. É uma publicação cativante para quem gosta de cinema e, principalmente, para quem gosta da velha e charmosa Hollywood com seus galãs e estrelas que nos faziam sonhar. O autor justificou a publicação pelo fato dessas pessoas não estarem mais neste mundo, é assim se sentiu à vontade para botar a boca no trombone. Ele desnuda mitos. Um deles, o tal romance que se supunha romântico entre Spencer Tracy e Katherine Hepburn, por exemplo. Segundo ele, mentira inventada para promover os filmes da dupla. E mais: Tracy, embora casado, transou diversas vezes com SCOTTY BOWERS, ao mesmo tempo em que Hepburn preferia
“moças jovens e morenas para a sua cama”. Todas arranjadas por ele. Outra história interessante é a transa a três com Cary Grant e um Rock Hudson ainda desconhecido, além de ter feito um ménage à trois com Lana Turner e Ava Gardner na casa de Frank Sinatra, então marido da deusa Ava. Nossa!

O livro é recheado com nomes, locais, datas e acontecimentos. Embora tenha parado de trabalhar no posto onde o povo do cinema abastecia o carro (e a cama), continuou suas atividades nas festas dos magnatas de Hollywood – e seus contatos e sua fama se intensificaram. Ele afirma que sentia prazer em realizar as preferências sexuais das pessoas numa época tão conservadora. Alguns tacharão o livro de pura fofoca e um compêndio de futilidades. Outros, como eu, vão encarar com um sorriso, pois, como SCOTTY BOWERS mesmo afirmava,
“nada mais natural neste mundo do que o sexo”. Interrogado se seu comportamento sexual seria um “distúrbio” por ter sido assediado tão cedo pelo fazendeiro amigo de seu pai, respondeu que não. Tudo para ele tinha sido muito bom e guardava lembranças agradáveis daquele senhor que o iniciara. Apesar do negócio sexual, ele era discreto, e sabia que, dessa maneira, blindava seus clientes e tornava o trabalho mais lucrativo. Alguns deles desenvolveram uma relação de confiança. E toda essa discrição e confiabilidade tornaram suas confissões mais bombásticas.

scotty powers e seus garotos de programa
Seus outrora segredos são picantes, como quando ele fez sexo com um dos diretores mais marcantes da história do FBI, J. Edgar Hoover — que estava vestido de drag queen. Todavia, o seu maior cliente era o compositor Cole Porter. Diversas orgias foram organizadas por ele a convite do músico. Além disso, a vida sexual do cafetão foi objeto de estudo do sexólogo Dr. Alfred Kinsey, que estava determinado a saber profundamente sobre a sua pansexualidade.
Ele o surpreendeu ao revelar que experimentou todos os atos sexuais de sua lista. Tinha feito de tudo diversas vezes. Com seus olhos azuis penetrantes, cabelos espessos e uma juventude irradiante, é fácil imaginar por que era popular. Revelou não ter arrependimento por passar a maioria das noites na cama de outra pessoa. Mas admite francamente que sua única verdadeira paixão era o dinheiro. Fazer sexo com celebridades por US$ 20 era um trabalho fácil e lucrativo. Era um cafetão – mas também um cara sexualmente liberado que cuidava paternalmente de seus prostitutos e facilitava sexo satisfatório para clientes célebres em uma época enrustida. 


Conhecendo os bastidores de Hollywood como ninguém, ele foi um gigolô bem-sucedido, vivenciando em primeira mão a dualidade sexual de lendas do cinema cuja imagem pública não correspondia à sua realidade íntima. Para uma figura famosa, SCOTTY BOWERS não estava interessado no negócio do entretenimento. Ele nunca quis ser um ator ou envolvido no cinema em qualquer atividade profissional. Estava contente com sua vida como ela era. Esse desinteresse era parte do que o fez tão bem-sucedido em seu trabalho. Ele não tinha desejos de estrelato ou fama. Tampouco nunca se importou com a imprensa. Em várias ocasiões recusou pagamentos em troca de informações da intimidade de celebridades. A sua carreira teve um fim no auge da AIDS, nos anos 80. Nesse período se casou. Ele havia permanecido em silêncio por décadas, até 2012, quando lançou suas memórias, intituladas
“Full Service: My Adventures in Hollywood e Secret Sex Lives of the Stars”. Este best-seller foi seguido por um documentário de 2017, “Scotty and the Secret History of Hollywood”, dirigido por Matt Tyrnauer.

scotty e suas profissionais do sexo
O autor esperou que todos os seus clientes falecessem antes de abrir a boca. Muitos deles foram gratos pela lealdade, dando presentes generosos. O ator Beach Dickerson deixou três casas para SCOTTY BOWERS, e o premiado diretor de fotografia Nestor Almendros lhe deu a estatueta do Oscar que ganhou por
“Cinzas do Paraíso / Days of Heaven” (1978). Mas o lançamento do seu livro, aos 89 anos de idade, foi um escândalo. De imediato, críticos e biógrafos oficiais o acusaram de ser um velho mentiroso em busca de atenção. Janet Maslin, no “The New York Times”, considerou o conteúdo da obra como “supostas verdades”, enquanto Lewis Jones, do “The Telegraph”, desafiou os leitores a digeri-lo “como ficção”. No entanto, a descrença durou pouco. Historiadores, jornalistas e pesquisadores começaram a investigar cada detalhe minucioso de seus relatos e o resultado foi chocante: tudo batia com a realidade. As datas em que ele dizia ter organizado festas coincidiam exatamente com as folgas de filmagem das estrelas. Amigos próximos e seus antigos garotos confirmaram os esquemas do posto de gasolina.

Em 2019, SCOTTY BOWERS morreu aos 96 anos, deixando uma história na mitologia hollywoodiana que, por muito tempo, passou despercebida. Ele partiu deixando a Cidade dos Sonhos um pouco menos misteriosa e muito mais humana, evidenciando que, por trás do glamour e moralidade fabricado pelos estúdios, existiam pessoas reais com desejos que nenhuma censura foi capaz de silenciar.
 
“As necessidades de todos eram atendidas.
Tudo o que os astros e estrelas queriam, eu tinha.
Eu podia realizar todas as suas fantasias sexuais.”

SCOTTY BOWERS
 
spencer tracy e katharine hepburn
DEZ CLIENTES de SCOTTY BOWERS
 
CARY GRANT
(1904 – 1986. Bristol / Reino Unido)
“Ele era íntimo de um ator especializado em faroestes, Randolph Scott. Eu passei um fim de semana com eles. Nós três aprontamos todo tipo de travessuras sexuais juntos. Eu gostava muito deles, e era óbvio que eles também gostavam muito um do outro. Não sei se as respectivas esposas deles chegaram a descobrir o que estava acontecendo entre eles. O cowboy Scott era o amor da vida de Grant. Viveram juntos por 12 anos.”
 
CECIL BEATON
(1904 – 1980. Hampstead, Londres / Reino Unido)
“Preparava seu chá, deitava ao seu lado, fazia uma massagem, alisava sua testa e o guiava para uma longa sessão de sexo até que ele adormecesse como um bebê.”
 
DUQUE e DUQUESA de WINDSOR
(1894 – 1972. White Lodge, Richmond / Reino Unido)
(1896 – 1986. Blue Ridge Summit, Pensilvânia / EUA)

“Eles eram homossexuais e viviam uma farsa como um casal. Eddy também gostava, de vez em quando, de sexo a três com uma garota, e outras vezes queria uma mulher a sós. Mas sua clara preferência era por garotos. Certa noite, eu trouxe para Wally uma gracinha magra e esbelta, e quando voltei mais tarde para buscá-la e levá-la para casa, ela me disse, animada, que nunca em toda a sua vida havia gostado tanto de sexo. Ela nem conseguia se lembrar de quantos orgasmos teve naquela noite.”
 
EDITH PIAFF
(1915 – 1963. Paris, /França)
“Fizemos amor quase todas as noites durante as quatro semanas que ela passou em Hollywood. Ela também era bissexual.”
 
ERROL FLYNN
(1909 – 1959. Battery Point / Austrália)
“Errol Flynn me disse que estava procurando por novos talentos. Mas ele se referia às mulheres. Eu disse que faria o possível para agradá-lo. 'Que tipo de mulher você está procurando?', perguntei. 'Bem, digamos assim', disse ele, 'eu gosto de bebida velha e mulheres jovens. Muito jovens. Os dois formam uma combinação agradável, não acha?'.”
 
KATHARINE HEPBURN
(1907 – 2003. Hartford, Connecticut / EUA)
“Durante 39 anos apresentei à atriz mais de 150 mulheres para que pudessem explorar plenamente seu lesbianismo. Ela era lésbica, e eu não conseguia imaginar aquela mulher inegavelmente masculina tendo um caso com um homem, qualquer homem. Ela gostava de moças bonitas de cabelos escuros que não usavam maquiagem. O seu caso amoroso com o bissexual Spencer Tracy, amplamente divulgado pelos tabloides, era uma cortina de fumaça para suas ardentes aventuras homossexuais.”
 
LAURENCE OLIVIER
(1907 – 1989. Dorking / Reino Unido)
“Toda vez que eu mandava um casal para o quarto de hotel dele, ele pedia uma garota diferente, mas quase sempre o mesmo cara.”
 
SPENCER TRACY
(1900 - 1967. Milwaukee, Wisconsin / EUA)
“O grande Spencer Tracy era bissexual e um amante excelente. Após uma bebedeira daquelas, eu o despi, me despi também, deitamo-nos na cama e o abracei forte como uma criança. Ele babava, xingava e reclamava. Tinha bebido tanto que eu mal conseguia entender uma palavra do que dizia. Tentei acalmá-lo, mas ele não quis saber de nada. Pelo contrário, enfiou a boca no meu pau. Ele era o último homem no mundo de quem eu esperava tal iniciativa, mas eu deixei de bom grado Esse foi o primeiro de muitos encontros sexuais que tive com Spencer.”
 
TYRONE POWER
(1914 – 1958. Cincinnati, Ohio / EUA)
“Com seus gostos escatológicos, era escandalosamente bonito. As mulheres suspiravam por ele, e ele dormia com várias delas, mas preferia mais os homens. Ele me ligava com frequência e pedia que eu lhe enviasse um rapaz. Alguns de seus gostos sexuais eram bastante estranhos e excêntricos, mas nenhum dos rapazes parecia se importar.”
 
VIVIEN LEIGH
(1913 – 1967. Darjeeling / Índia)
“A estrela de “...E o Vento Levou” era uma mulher sensual. Muito sexual e muito excitável. Quando estava no clima, exigia satisfação completa e total. Transava como se a sobrevivência do planeta dependesse disso. Ela era estrondosa. Gritava, berrava e ria. Tinha orgasmo após orgasmo, cada um mais estrondoso que o anterior.”
 

CONVERSANDO com SCOTTY BOWERS em 2012
 
Em seu livro de memórias, “Full Service: My Adventures in Hollywood and the Secret Sex Lives of the Stars”, Scotty Bowers, de 89 anos, relata de forma gloriosa e honesta suas muitas lembranças de devassidão a Lionel Friedberg, que as organizou em um texto fascinante. Abrangendo sua juventude em uma fazenda em Illinois durante a Grande Depressão, os violentos combates na Segunda Guerra Mundial e casos amorosos com algumas das figuras mais famosas de Hollywood, a sua história é uma epopeia sensual.
 
O que acha como a família, o amor e o sexo eram retratados no cinema, em comparação como as estrelas viviam suas vidas pessoais?
 
Eu sentia que muitos levavam vidas duplas. O que fingiam fazer e o que realmente faziam eram coisas diferentes. Por outro lado, havia algumas pessoas muito certinhas e conservadoras. Mas em Hollywood, era possível realizar os desejos sexuais secretos, por causa do anonimato. Ninguém conhecia ninguém no mesmo quarteirão onde moravam.
 
Ainda sente isso em Hollywood? Como se pode explorá-la sexualmente?
 
Sim, de uma forma diferente. É mais aberto agora, as pessoas não são tão tímidas. Naquela época, havia gays assumidos, mas geralmente eram reservados e se sentiam sortudos quando conseguiam encontrar alguém em quem pudiam confiar.
 
Então, era só uma questão de encontrar quem o aceitasse e o que queria?
 
Percebi com os anos que, ao conhecer alguém, uma das coisas que ela mais gosta é ser ela mesma, sem truques. As pessoas gostam disso.
 
Como seus amigos atores e famosos conciliavam os personagens que interpretavam na tela com as pessoas que realmente queriam ser?
 
Um ator é um ator, então ele pode se retratar de uma forma completamente diferente de quem é. Raramente dá para perceber quem ele realmente é. Mas é a vida. Também arranjei encontros sexuais profissionais discretos para centenas de pessoas comuns. Empresários, donas de casa, homens casados, enfim, todo tipo de gente.
 
Havia um certo nível de segredo emocionante na sua época de ouro?
 
Havia segredo, com certeza! Era por isso que as pessoas gostavam e confiavam em mim. Mas você pode dizer: “Se eles confiavam e gostavam, por que está fazendo isso agora?”. Bem, é triste, porque todos se foram. Me emociona pensar nas pessoas boas que eu conheci. Penso em Vincent Price, Randolph Scott, Cary Grant, todos gentis, cavalheiros. Gentileza, bondade, são a resposta. Pensando neles, em como eram doces, independentemente do que faziam na cama, eu publiquei esse livro.
 
Sua vida mudou. Como é se sentir mais estável agora?
 
Eu gostaria de ser mais jovem... e fazendo a mesma coisa.
 

FONTES
Ditadura e Homossexualidade: Repressão,
Resistência e a Busca da Verdade
(2014)
de James N. Green
 
Full Service: My Adventures in Hollywood
and the Secret Sex Live of the Stars
(2012)
de Scotty Bowers e Lionel Friedberg
 
randolph scott e cary grant
“Espero ter proporcionado tanto prazer
quanto o que eu mesmo recebi.
Em nenhum momento senti vergonha,
culpa ou remorso pelo que fiz.
Muito pelo contrário.”

SCOTTY BOWERS
 
 GALERIA de FOTOS
 



dezembro 27, 2022

****** FRED ZINNEMANN – Uma VIDA no CINEMA





entrevistador: DAVID GRITTEN
“Los Angeles Times”, 1992
eu fiz a tradução.
 
 
Há quase uma década, o veterano diretor FRED ZINNEMANN (1907 – 1997. Viena / Áustria), cuja assinatura está em alguns dos mais notáveis filmes de Hollywood, está em aposentadoria voluntária - descartado da indústria do cinema pelo veneno das críticas ao seu último filme, “Cinco Dias de Verão / Five Days One Summer”. Sua idade - ele tem 85 anos - e problemas de saúde contribuíram para a decisão, mas o julgamento perverso ao filme de 1983, uma aventura romântica ambientada nos Alpes franceses e estrelado por Sean Connery, deixou o diretor desanimado. “Não estou dizendo que foi um bom filme”, diz ele. “Mas havia um certo grau de crueldade nas críticas. O prazer que algumas pessoas tiveram em destruí-lo realmente doeu.” Ele tinha visto seu amigo, o falecido David Lean, passar pela mesma experiência. Lean ficou deprimido com a hostilidade a “A Filha de Ryan / Ryan's Daughter”, em 1970. Depois disso, Lean fez apenas mais um filme, “Uma Passagem para a Índia / A Passage to India”, lançado em 1984, embora estivesse trabalhando em “Nostromo”, de Joseph Conrad, na época de sua morte.
 
“Cinco Dias de Verão Five” será o canto do cisne de FRED ZINNEMANN no cinema. Mas a amargura permanece. “Sentimos que, mesmo que o filme não represente nada, temos direito a algum respeito”, se queixa. “Não mais do que isso.” O currículo do diretor seria elogioso se tivesse apenas “Espíritos Indômitos / The Men”, o primeiro filme de Marlon Brando, de 1950. Mas ele dirigiu também os clássicos “Matar ou Morrer”, “A Um Passo da Eternidade e “Júlia”, bem como outros filmes excelentes: o drama “Uma Cruz à Beira do Caminho”, com Audrey Hepburn, o simpático musical “Oklahoma! / Idem” (1955) e o tenso thriller “O Dia do Chacal”. Não ficou ocioso em sua aposentadoria. Nos últimos cinco anos, trabalhou meticulosamente em sua autobiografia pictórica, “Fred Zinnemann: A Life in the Movies”, recentemente publicada pela Scribners. As críticas têm sido excelentes. Frederic Raphael, no “London Sunday Times”, chamou o volume de fascinante e o descreveu como “um relato admiravelmente conciso de uma carreira de diretor que coincide com o período clássico de Hollywood”. “Ainda outro relato de uma vida no cinema, mas de alguma forma mais do que isso”, afirmou a “Entertainment Weekly”. O “Boston Globe” destacou a “riqueza de imagens como matéria-prima” do livro.
 
zinnemann e grace kelly
Em uma tarde recente em seu escritório perto de Berkeley Square, em Mayfair, FRED ZINNEMANN admitiu que seu esforço de cinco anos foi “uma estrada longa e triste cheia de armadilhas”. “Um problema era o custo de ter tantas fotos. Os editores não entendiam por que tinha que haver tantas. E uma editora não tinha dinheiro, então fomos para outra. Mas eu pensei que sem as fotos seria inútil. Não sou um escritor. Tinha que haver ilustrações. Era preciso ver como Harry Cohn parecia para entender como ele se comportava”.
 
Existem agora 440 fotos no livro, algumas delas de valor inestimável. Há uma cena de um bêbado em um bar vazio, que foi cortada de “Matar ou Morrer”, e outra de Gary Cooper e Grace Kelly almoçando com a equipe. Lá está Brando visitando Zinnemann e Montgomery Clift no set de “A Um Passo da Eternidade”. O livro abrange os primeiros anos do cineasta em Viena, seguidos por períodos na escola de cinema em Paris e como assistente de cinegrafista em Berlim. Ele chegou aos Estados Unidos em 1929, trabalhou para o diretor Berthold Viertel e aprendeu seu ofício como aprendiz até sua estreia na direção em 1942, “Um Assassino de Luvas / Kid Glove Killer”, no qual Ava Gardner teve um papel de duas falas. Ele divide sua vida subsequente em capítulos que correspondem a seus filmes e usa suas experiências como trampolim para uma série de reminiscências. Se lembra vividamente do jovem Brando, entusiasmado com seu sucesso em “Um Bonde Chamado Desejo” na Broadway, fazendo um teste para ele e os produtores Stanley Kramer e Carl Foreman para o papel principal em “Espíritos Indômitos”. “Ele tinha uma intensidade real”, lembra FRED ZINNEMANN. “Era como um vulcão. Não era fácil de trabalhar. Suspeitava do pessoal de Hollywood e conservava suas próprias impressões.” Mas aceitou o papel, interpretando um veterano de guerra paraplégico em uma enfermaria de hospital cheia de ex-soldados paralíticos.
 
“Kramer e Foreman fizeram o filme de forma independente. Se alguém tivesse ido a um estúdio com um tema como este, não chegaria a lugar nenhum.” Fiel ao seu treinamento do método, Brando viveu em uma verdadeira enfermaria paraplégica por três semanas, ao final das quais apenas médicos e enfermeiras sabiam que ele não estava realmente paralisado. Embora alguns atores agora se preparem para papéis com tanta meticulosidade, esta foi sem dúvida a primeira vez que um ator de cinema se preparou com tanta profundidade. “Ele concebeu um personagem”, disse FRED ZINNEMANN. “Minha direção foi puramente a parte técnica. Não venho do teatro e não pretendo dizer aos atores como fazer algo. Conto a eles sobre o desenvolvimento do personagem, o que uma cena específica exige e é isso.” Montgomery Clift foi outro ator incrível que apareceu em dois filmes do diretor, “Perdidos na Tormenta / The Search” (1948) e “A Um Passo da Eternidade” (1953), como o soldado individualista que se recusa a ser controlado pelas duras regras do Exército.
 
O diretor discutiu com Harry Cohn quando insistiu que queria Clift na produção. “Ele achava que o filme era sobre boxe, e eu achava que era sobre o espírito humano”, diz. Cohn queria outro ator que, segundo ele, “está sob contrato, não trabalha há 10 semanas, seu salário está subindo, ele parece um boxeador e as garotas gostam dele”. Quando disse que preferia Clift, retrucou que ele “não era soldado, nem boxeador e provavelmente homossexual”. Acontece que Cohn estava certo em todos os aspectos, mas subestimou a capacidade de Clift de se colocar psicologicamente em um papel. FRED ZINNEMANN ameaçou desistir de um grande robusto se Clift não conseguisse o papel. Ele cedeu e, diz o diretor “quando Monty estava pronto para o papel, poderíamos jurar que ele era um soldado de primeira linha e um bom boxeador”. Deborah Kerr foi outra escolha complicada para a esposa adúltera do capitão. “Joan Crawford estava pronta para fazer o papel e, na verdade, já estava reclamando de seu guarda-roupa”, diz. “Mas então, quando Deborah foi sugerida, todos nós pensamos que seria uma excelente ideia contratar outra atriz. Naquela época, Deborah era vista quase como a rainha da Inglaterra, fria como um iceberg. Mas funcionou lindamente.”

Kerr e Burt Lancaster gravaram uma das cenas mais memoráveis ​​da história do cinema - um abraço explosivo na praia enquanto as ondas quebravam sobre eles. FRED ZINNEMANN observa ironicamente que os ônibus turísticos ainda param em Diamond Head, no Havaí, para apontar onde a cena foi filmada: “É uma curiosa contribuição que demos à cultura popular O faroeste “Matar ou Morrer” continua sendo o filme mais conhecido de Zinnemann e que rende várias interpretações para diferentes pessoas. Ele não concorda com a afirmação do roteirista Carl Foreman de que é uma alegoria do macarthismo. “Algumas pessoas até acham que é uma alegoria da Guerra da Coréia”, acrescenta. “Mas eu vejo como um homem lutando para salvar sua própria vida, um homem que deve tomar uma decisão de acordo com sua consciência.” 

 Ele gostou muito de dirigir o filme e trabalhar com Gary Cooper, que interpretou o corajoso xerife de uma pequena cidade. Mas diz que gostou igualmente do desafio de completar o faroeste dentro dos 28 dias previstos. Esse tipo de comentário levou FRED ZINNEMANN a ser visto por alguns críticos como um mestre da logística, e não como um diretor com uma visão autoral. Certamente, admite ter gostado dos problemas técnicos envolvidos na filmagem de “Oklahoma!”. E o que ele lembra melhor sobre “O Dia do Chacal” foi “ver se o suspense poderia ser mantido com o público sabendo o final – isto é, que o Chacal falhou em matar De Gaulle. Esse tipo de coisa me fascinava, tornou-se como um jogo de palavras cruzadas.”
 
A melhor e mais divulgada história sobre diretor é boa. Cerca de uma dúzia de anos atrás, com todos os filmes clássicos em seu currículo, ele foi persuadido a fazer uma reunião com um ousado e jovem executivo de um estúdio de Hollywood. “Então,” iniciou o executivo, destemido na própria ignorância, “nós nunca nos encontramos antes. Conte-me algumas das coisas que você fez. “Não, não”, disse educadamente. Você primeiro.” É verdade? Ele ri. “Há anos venho tentando repudiar essa história. Parece-me que Billy Wilder me contou sobre si mesmo.Quer a história seja verdadeira ou não, ela se encaixa. FRED ZINNEMANN, que ainda tem um forte sotaque austríaco, é educado e cheio da antiga cortesia vienense. Mas está impaciente com a nova Hollywood. Por mais que ele fale mal de Harry Cohn e daquela raça autocrática de chefes de estúdio, pelo menos conheciam filmes. “Eram gananciosos, e eu sentia desprezo pela forma como usavam o poder. Mas amavam o cinema - isso se poderia discutir com eles.”, diz ele.

marlon brando, zinnemann
e montgomery clift
Agora, como ele vê, tudo é diferente, contadores e advogados comandam o show. “Se falarmos com esses caras sobre o amor pelo cinema, não tenho certeza se eles saberão do que estamos falando”, diz ele. A virada que azedou o diretor ocorreu em 1969, quando a MGM cancelou sua versão do romance de Andre Malraux, “Man's Fate”, no qual ele vinha trabalhando há três anos. Sem motivo, o estúdio findou o filme três dias antes do início das filmagens em Londres. “Até aquele ponto”, diz com um suspiro, “havia uma certa honra de ladrão no negócio. Mas depois disso, um aperto de mão não era mais um aperto de mão.” Ainda assim, é um profissional sem rancor. Sua autobiografia é desprovida de amargura pessoal, não há contas sendo acertadas com velhos inimigos ou fofocas maliciosas. Sobre o fiasco de “Man's Fate”, se refere a um executivo da M-G-M com quem nunca mais falou - mas não o menciona no livro. Ele também se refere a rixa com a dramaturga Lillian Hellman, que escreveu o conto no qual “Júlia” foi baseado, mas nos poupa de detalhes.
 
“Não vejo para que serve revisar essas coisas”, diz. “Não estou prestes a julgar ninguém.” Mas ele admite que viu Hollywood “do ponto de vista de um verme. Vi pessoas se comportando mal. Aprendi muito sobre a natureza humana. Pode ser engraçado, mas com certeza não é interessante. Achei que a melhor maneira era rir disso.” A vida privada de FRED ZINNEMANN também não se intromete muito em seu livro. Renée, sua esposa há mais de 50 anos, recebe sua maior menção por meio de um pequeno papel que desempenhou em “Uma Cruz à Beira do Caminho”. “Bem”, diz, “há coisas que devem permanecer privadas. Algumas das coisas que as pessoas escrevem sobre suas próprias vidas são indecentes.” À sua maneira, ele nada contra a maré - apesar dos críticos que acusam seus filmes de serem conservadores e convencionais. Ele se lembra de ter lido “O Vermelho e o Negro”, de Stendhal, quando estudante. “Era sobre um jovem nadando contra a corrente o tempo todo, e isso influenciou a minha atitude.” E quando dirigiu seus próprios filmes, eles tendiam a ser sobre questões em debate. Seus filmes do pós-guerra, influenciados por cineastas neorrealistas italianos, abordaram temas como a situação dos veteranos de guerra, noivas de guerra estrangeiras e crianças deslocadas.

zinnemann e audrey hepburn
Logo foi procurado para dirigir filmes de grande orçamento. “As pessoas achavam que havia um certo tipo de história que eu gostava de fazer”, lembra ele. “Eu queria cada vez mais filmar histórias no local a que elas pertenciam. E isso me levou cada vez mais à Europa.” Ele insiste que nunca deu as costas a Hollywood, embora viva na Grã-Bretanha, que considera um país civilizado, há quase 30 anos. No entanto, admite alguma exasperação com o sistema estelar. “É uma coisa puramente pessoal”, refletiu. “Alguns diretores - Billy Wilder, John Huston, William Wyler - eram muito bons com estrelas, eram espirituosos, sabiam falar com elas e trabalhar com elas. Descobri que, a menos que se possa retirar esse elemento de estrelato do trabalho, haveria problemas. Para mim, foi mais fácil trabalhar com pessoas que podiam esquecer que eram estrelas.”
 
“Não apenas as estrelas custam muito dinheiro, mas psicologicamente os produtores, o estúdio, todo mundo sente que a estrela é a pessoa central e deve ser a história.” FRED ZINNEMANN descobriu que as demandas das estrelas podem ter um efeito desgastante sobre todos em um set de filmagem. Outros atores - menciona Vanessa Redgrave e Paul Scofield, de “O Homem que Não Vendeu sua Alma”, a quem descreve como um santo - são generosos e fornecem sustento para seus colegas. Ele sente que se divertiu e teve sorte. Tem uma filmografia que resiste ao teste do tempo. Hoje, recebeu um cartão de um amigo na Alemanha com citação de Schopenhauer, que diz: “Como é feliz no final da vida ver que sua obra não envelheceu com você”. O diretor se permite um sorriso irônico. “Não sou louco pelos alemães, mas eles são bons em citações. E essa é muito boa”.
 

DEZ FILMES de FRED ZINNEMANN
(por ordem de preferência)
 
01
A um PASSO da ETERNIDADE
(From Here to Eternity, 1953)

elenco: Burt Lancaster, Montgomery Clift, Deborah Kerr, Donna Reed, Frank Sinatra, Ernest Borgnine e Jack Warden
 
02
JÚLIA
(Idem, 1977)

elenco: Jane Fonda, Vanessa Redgrave, Jason Robards, Maximilian Schell, Hal Holbrook, Rosemary Murphy, Meryl Streep, Dora Doll e Cathleen Nesbitt
 
03
MATAR ou MORRER
(High Noon, 1952)

elenco: Gary Cooper, Grace Kelly, Thomas Mitchell, Lloyd Bridges, Katy Jurado, Otto Kruger, Lon Chaney Jr. e Lee Van Cleef
 
04
Uma CRUZ à BEIRA do ABISMO
(The Nun's Story, 1959)

elenco: Audrey Hepburn, Peter Finch, Edith Evans, Peggy Ashcrof, Dean Jagger, Mildred Dunnock e Beatrice Straight       
 
05
O HOMEM que NÃO VENDEU sua ALMA
(A Man for All Seasons, 1966)

elenco: Paul Scofield, Wendy Hiller, Robert Shaw, Leo McKern, Orson Welles, Susannah York, John Hurt e Corin Redgrave
 
06
A VOZ do SANGUE
(Behold a Pale Horse, 1964)

elenco: Gregory Peck, Anthony Quinn, Omar Sharif, Raymond Pellegrin, Paolo Stoppa, Mildred Dunnock, Daniela Rocca e Christian Marquand
 
07
O PEREGRINO da ESPERANÇA
(The Sundowners, 1960)

elenco: Deborah Kerr, Robert Mitchum, Peter Ustinov, Glynis Johns e Dina Merrill
 
08
O DIA do CHACAL
(The Day of the Jackal, 1973)

elenco: Edward Fox, Michel Auclair, Alan Bade, Derek Jacobi e Michael Lonsdale
 
09
A SÉTIMA CRUZ
(The Seventh Cross, 1944)

elenco: Spencer Tracy, Signe Hasso, Hume Cronyn, Jessica Tandy, Agnes Moorehead, Felix Bressart, Ray Collins e George Macready
 
10
ATO de VIOLÊNCIA
(Act of Violence, 1948)

elenco: Van Heflin, Robert Ryan, Janet Leigh, Mary Astor e Phyllis Thaxter