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outubro 11, 2025

************ A LEI do CACAU: SANGUE e LOUCURA


 

Olhe o sol. Vê meu sangue, minhas feridas,
meu lodo - é tudo teu. Te ofereço o que sou.
Não minha vida que não tem valor,
mas minha vontade de matar
que não tem preço.
OTHON BASTOS 
como Sete Vezes
 
Sob a inspiração do teatro da crueldade,
esta alegoria do desengano em terras
periféricas ganha um teor apocalíptico
muito próprio e agressivo.
ISMAIL XAVIER
(1947. Curitiba / Paraná)
“Os Deuses e os Mortos: Maldição dos Deuses
ou Maldição da História?” (1997)

 
 
Esquecido durante décadas, recordado por poucos, inclusive no próprio Sul da Bahia onde foi filmado, bonito pedaço de mundo onde nasci à sombra da Mata Atlântica e beirando o Rio Cachoeira, Os DEUSES e os MORTOS (1970) dialoga com as alegorias de Glauber Rocha, em um universo mágico-religioso exaltando o poder e a decadência, a violência e a insanidade, numa parábola sobre a ambição. Ouvi falar dele nos anos 80, em uma publicação da extinta Embrafilme. Tentei ansiosamente vê-lo, escrevendo ao seu diretor, Ruy Guerra, e ele respondeu que infelizmente seria impossível, não havia cópia à disposição, nem mesmo os produtores (um deles, o ator Paulo José, então casado com Dina Sfat, que faz parte do elenco) tinham os negativos. “É da maior importância e tem uma fotografia extraordinária de Dib Lutfi”, contou-me poucos anos depois Othon Bastos, o ator baiano protagonista desse faroeste tropical, como o classificou o jornal “The New York Times”, em 1972, tecendo conexão ao emblemático italiano “Três Homens em Conflito / Il Buono, il Brutto, il Cativo (1966), de Sergio Leone, com Clint Eastwood.
 
O roteiro escrito por Guerra, Flávio Império e Paulo José, centra-se na Bahia dos anos 1930, na disputa entre duas famílias tradicionais, os Santana da Terra e os D’Água Limpa, por matas para a plantação de cacau. Othon representa um forasteiro enigmático, sete vezes baleado, que após se recuperar da chacina, rude como os seus algozes, num sentimento de vingança, se intromete violentamente nesse conflito entre clãs de coronéis pela posse da terra e do cacau. Segundo o teórico Ismail Xavier, ele é “a figura suja, contaminada, que emerge como que da terra, trazendo no corpo as marcas de uma tradição local associada ao sangue, à lama”. Espécie de morto-vivo, esse papel bizarro foi fundamental na brilhante carreira de Othon Bastos, resultando em um trio de excelentes filmes que fez no Cinema Novo – os outros dois, “Deus o Diabo na Terra do Sol” (1964) e “São Bernardo” (1972). Escolhido para o seco personagem Sete Vezes, Walmor Chagas pegou hepatite e foi substituído em cima da hora por Othon, que na ocasião fazia a telenovela “Super Plá”, de Bráulio Pedroso, na Tupi.
 
Nos anos 70, em pleno Regime Militar aceito por milhões de brasileiros, multiplicaram-se os filmes nacionais. O cinema dito de esquerda alimentava-se das verbas públicas do Instituto Nacional de Cinema e, depois, na Embrafilme. Além de financiar a maior parte da nossa cinematografia, o governo federal distribuía os prêmios Coruja de Ouro – uma espécie de Oscar subdesenvolvido, com dinheiro e troféu. Muitos comunistas ganharam grana fácil, enquanto criticavam os milicos. Como acontece ainda hoje. Nessa mescla de paternalismo e mecenato, a glória do cinema oportunista. Somente em 1970 foram produzidos 82 filmes. O problema (o mesmo de hoje) era a exibição. Os artistas enchiam os bolsos e seus filmes toscos não eram lançados e, quando exibidos, ficavam uma ou duas semanas em cartaz, rejeitados pelo público. Fazendo turismo com o dinheiro do nossos impostos, eles corriam o mundo em festivais de cinema. Exatamente como em 2025. Nada de novo no front. Os DEUSES e os MORTOS se apresentou no Festival de Berlim, concorrendo ao Urso de Ouro (Melhor Filme) e provocando mal-estar.
 
“Causou impacto por causa da crueza. Tem uma cena em que muitas pessoas fechavam os olhos: o Nelson Xavier começa a escorregar e eu o amparo com uma navalha, cortando o seu corpo. Aquele ambiente, aquela sujeira da cidade. É muito épico, de grande força. Ele é um libelo tremendo. Na época, não houve protesto, nem vaia. Era de beleza extraordinária. Feito com amor, muita luta, numa época do auge do cinema”, recorda o ator principal. Cineasta de altos e baixos, Ruy Guerra deixou fitas ruins ao longo do caminho cinéfilo mundo afora, mas será lembrado por “Os Cafajestes” (1962), “Os Fuzis” (1964) e “A Queda” (1976). Dos 16 filmes que fez, “Os Fuzis” é o seu melhor momento. Depois de restaurado pela Cinemateca Brasileira, finalmente assisti Os DEUSES e os MORTOS, experimentando o passado grapiúna. Numa mistura de decadência e insanidade, a obra experimental, de um sincretismo sem contorno claro, reúne um elenco de primeira qualidade, o mestre Dib Lufti como diretor de fotografia e o mineiro Milton Nascimento na autoria da soturna trilha sonora de conotação litúrgica.
 
A música tema, mística e ritualista, “Matança do Porco, composta por Wagner Tiso, faz parte do álbum homônimo de estreia da banda Som Imaginário, daquele mesmo ano, e passaria para o repertório de Milton no disco “Milagre dos Peixes”, de 1973. O cantor também atua no longa-metragem, interpretando o pistoleiro Dim Dum. O elenco ainda inclui a participação especial do sambista Monsueto Menezes. Nos bastidores, diversos casos descontraídos: Milton trancado num quarto pelo cineasta até que compusesse o “Tema dos Deuses”. O roubo de um pato para a equipe esfomeada cozinhar. E, após fazer amizade com um dos figurantes, Milton ganhando para alegria de muitos um engradado de cachaça ruim. Na época, o tema da decadência de famílias ligadas à propriedade da terra ganhou relevo no cinema brasileiro. “Os Herdeiros” (Carlos Diegues, 1969) focaliza a crise dos barões do café; “A Casa Assassinada” (Paulo César Saraceni, 1971) traz a crônica patriarcal no interior de Minas Gerais, e “O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (Glauber Rocha, 1969) inclui o declínio dos coronéis do sertão.
 
dina sfat
Inspirado em “Terras do Sem-fim” (1943), da fase cacaueira de Jorge Amado, Os DEUSES e os MORTOS retrata uma luta de interesses econômicos na zona dos cacauais. Uma corrida-do-ouro que atrai aventureiros, jagunços, sertanejos fugitivos da seca, prostitutas, vigaristas. Entre diálogos longos, um drama violento, com banhos de sangue, mortos no chão e pendurados nas árvores. Uma cultura sanguinária, cruel. Ruy Guerra inicialmente tentou filmar o romance amadiano, mas os direitos autorais estavam cedidos a um produtor norte-americano. Rodado em Itajuípe, Ilhéus e arredores, expõe o exótico nacional sob uma influência do barroco, vê-se como uma tripe psicodélica (em que muitos leram o esgotamento das fórmulas impopulares do próprio Cinema Novo), na qual se juntam uma audácia formal e político-poética. O crítico literário Antônio Houaiss o definiu como representante do neo-barroquismo (ao lado de “Azyllo Muito Louco”, 1970, de Nelson Pereira dos Santos; “Pindorama”, 1970, de Arnaldo Jabor; e “Prata Palomares”, 1972, de André Faria).
 
Em tom de quase fábula, o roteiro faz uso de metáforas para explicitar a luta do homem contra o sistema. O som místico, quase etéreo, combina com o enredo fantasmagórico. Como se personificasse as vozes e imagens da loucura, ao lado do rosto deformado do personagem de Othon Bastos e das cenas repulsivas de sangue e lama. Outro aspecto importante em Os DEUSES e os MORTOS é o notável trabalho de elenco, com poderosas performances de Bastos, Dina Sfat, Ítala Nandi, Norma Bengell e Nelson Xavier. Sfat, uma das maiores atrizes do cenário artístico tupiniquim, fez 19 filmes e morreu de câncer, aos 50 anos, em 1989. Norma Bengell, talvez a nossa maior estrela de cinema, está magnífica como sempre. Outro aspecto importante é o trabalho de fotografia de Dib Luft, numa sucessão de planos-sequência marcados pelos movimentos de câmara-na-mão, zanzando em torno das malditas figuras que entram e saem de tela. Destaque para a cena dos jagunços perfilados na praça, com armas, à espera do confronto. A seguir, esses lutadores agonizam. Tudo sangue, poeira e gemidos.
 
Como se vê, esse processo cinematográfico sanguinário de exploração de uma terra para o cultivo do cacau, não é um épico fácil, ou gostamos ou odiamos a experimentação estilística, não há meio termo. É de um tempo em que a arte cinematográfica nacional tinha personalidade, se arriscava sem limites, além da clonagem atual da pouco fértil dramaturgia televisiva. Adianto que o cinema nacional do presente me deixa entediado. Anda sem identidade, com artistas mirando verbas fáceis e o oportunista discurso militante da petezada. Os DEUSES e os MORTOS teve estreia nacional em Ilhéus, a 12 de dezembro de 1970, e lançamento, no Rio de Janeiro, a 30 de agosto de 1971, em bom circuito, mas fracassou retumbantemente na bilheteria. Na epifania turística, participou nos festivais de Cannes e Berlim, sendo definido pelo alemão Werner Herzog, com quem Ruy Guerra viria a trabalhar como ator dois anos depois em “Aguirre, a Cólera dos Deuses / Aguirre, der Zorn Gottes (1972), como um dos melhores filmes de todos os tempos. Exageros à parte, é uma criação que merece sem dúvida ser redescoberta.
 
 TEMA dos DEUSES
(Canção de Milton Nascimento)
DEPOIMENTOS
 
PAULO JOSÉ
(1937 – 2021. Lavras do Sul / Rio Grande do Sul)
produtor

“Ruy Guerra vinha de um filme muito cabeça e de pouco público, realizado na Europa, chamado ‘Sweet Hunters’. Queria fazer um filme que atraísse boa bilheteria. Começamos a conversar. Pensamos em algo como um western brasileiro. Nossas referências foram ‘Yojimbo’, de Akira Kurosawa, uma espécie de western japonês, com uma briga sem fim entre duas famílias, e o italiano ‘Por Um Punhado de Dólares’, que Sérgio Leone realizou a partir do filme de Kurosawa. Resolvemos ambientar nosso filme nas plantações de cacau do sul da Bahia. Claro que o romance ‘Terras do Sem-Fim’, do Jorge Amado, foi uma de nossas leituras. Concluído, o longa-metragem foi lançado comercialmente. O resultado de bilheteria foi um desastre. Ficou uma ou duas semanas em cartaz”
 
RUY GUERRA
(1931. Maputo / Moçambique)
diretor

“Esse filme é talvez o passo mais importante desde ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’ para definir uma realidade cultural, religiosa e humana do brasileiro, que não depende apenas do situacionismo econômico e histórico, que não se restringe ao enquadramento de uma condição tangível no mapa e no barômetro da história oficial. O comportamento mágico aferido ao personagem central do filme, o Sete Vezes, interpretado por Othon Bastos, está infinitamente ligado com o fato dele não ser caracterizado em termos de passado, presente ou futuro, o que desindividualiza, o torna atemporal e alegórico; o desejo impessoal do poder. E o tema fundamental do filme é exatamente a tomada do poder a qualquer custo. William Shakespeare foi praticamente o co-roteirista desse filme”.
 
OTHON BASTOS
(1933. Tucano / Bahia)
ator

“O meu personagem tem uma cicatriz, uma ferida no rosto, uma ferida enorme. Se eu fosse filmar às seis horas da manhã, eu acordava às três para a maquiadora fazer a maquiagem toda. A maquiagem fedia que era uma loucura. E eu tinha que ficar o dia inteiro com aquilo, e o Ruy tinha mania de pegar lama e ficar colocando por cima da ferida. A Norma Bengell não sabia que o meu personagem tinha essa ferida e eu tinha uma cena de amor com ela, em cima do cacau, da semente de cacau. Uma cena linda, shakespeariana. Quando eu vou beijá-la, ela não aguenta, quase vomita de nojo e do cheiro daquela coisa. Quando cortou, a Norma xingou o Ruy, me xingou. Mas vendo o filme era um negócio impactante e todo improvisado no sentido da interpretação.”
 
othon bastos como sete vezes
ORAÇÃO de SETE VEZES
 
Não tenho nome, o que pouco ou nada importa
andei nas aventuras do mundo, o que também não basta
Na cabala dos sete eu levei agora o chumbo
que guardo na carne, não por vontade minha ou de Deus
mas por vontade do mais forte que manda no fogo e na ferida
Para quem traz as mãos nuas de ferro e sangue as ideias
se perdem no som das palavras de protesto
Sete Vezes me chamo até onde pode a memória
e de sete caminhos vou chegar a destino
que não aceito e não nego
Das misérias engoli a lama, esterco, urina
Guardei o corpo e o pensamento imaculado
como uma vestal- agora basta
De meus dez dedos vou fazer outros caminhos de vitória
As tatuagens de sangue que me deram os poderosos
são os sinos de minha bandeira
Não quero saber o porque
Se a lei é o sangue e o jogo é o ouro,
no sangue e no ouro vou buscar resposta.

 
ítala nandi como sereno
Os DEUSES e os MORTOS
(1970)
 
país: Brasil
duração: 100 minutos
Cor
produção: César Thedim e Paulo José 
(Daga Filmes e Produções Cinematográficas / Grupo Filmes / 
C.C.F.B. - Companhia Cinematográfica de Filmes Brasileiros / 
Companhia Cinematográfica Vera Cruz)
direção: Ruy Guerra
roteiro: Ruy Guerra, Paulo José e Flávio Império
fotografia: Dib Lutfi
edição: Ruy Guerra e Sérgio Sanz
música: Milton Nascimento
cenografia e vestuário: Marcos Weinstock
elenco: 
Othon Bastos (“Sete Vezes”), Norma Bengell (“Soledade”), 
Rui Polanah (“Urbano”), Ítala Nandi (“Sereno”), Dina Sfat (“A Louca”), 
Nelson Xavier (“Valu”), Jorge Chaia (“Coronel Santana”), 
Vera Bocayuva (“Jura”), Fred Kleemann (“Homem de branco”),
 Vinícius Salvatore (“Cosme”), Mara Rúbia (“Prostituta”), 
Monsueto Menezes (“Meu Anjo”), Milton Nascimento (“Dim Dum”), 
Gilberto Sabóia (“Banqueiro”) e José Roberto Tavares (“Aurélio”).
 
nota: *** (bom)
 
Melhor Filme, Diretor, Fotografia, Cenografia, Trilha Sonora,
Ator (Othon Bastos), Atriz (Dina Sfat) no VI Festival de Brasília
Prêmio Governador do Estado de São Paulo
de Melhor Atriz (Ítala Nandi)
Coruja de Ouro de Melhor Atriz (Ítala Nandi),
Ator Coadjuvante (Nelson Xavier) e Atriz Coadjuvante (Mara Rúbia)
Melhor Filme no V Prêmio Air France de Cinema
Melhor Filme, Direção e Fotografia
no Festival de Grenoble, França.
 
elenco e diretor no festival de berlim
FONTES
“Alegorias do Subdesenvolvimento: Cinema Novo,
Tropicalismo, Cinema Marginal”
(2012)
de Ismail Xavier
 
“História Ilustrada dos Filmes Brasileiros: 1929-1988”
(1989)
de Salvyano Cavalcanti de Paiva
 
“Revolução do Cinema Novo”
(2004)
de Glauber Rocha
 
“Ruy Guerra: Paixão Escancarada”
(2017)
de Vavy Pacheco Borges
 
“Os Sonhos não Envelhecem”
(1996)
de Márcio Borges

 

ASSISTA Os DEUSES e os MORTOS
https://www.youtube.com/watch?v=v52K0VNUBjU
 
norma bengell como soledade
CINEMA BRASILEIRO neste BLOG
 
01
ANATOMIA de uma AGONIA MILITANTE
 
02
CARMEN MIRANDA: VIVENDO de ALEGRIA
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03
CINEMA BRASILEIRO: GRITOS e SILÊNCIOS
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04
CONDENSANDO RITA ASSEMANY
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05
DINA SFAT, à FLOR da PELE
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06
FLORINDA: do CEARÁ para o MUNDO
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2016/10/florinda-do-ceara-para-o-mundo.html
 
07
GLAUBER ROCHA - os ÚLTIMOS DIAS de VIDA
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2011/03/glauber-rocha-os-ultimos-dias-de-vida_11.html
 
08
GLAUCE ROCHA: ILUMINANDO o CINEMA NOVO
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09
GRANDE OTELO: COMÉDIA e TRAGÉDIA
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10
 JORGE AMADO no CINEMA
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2017/01/jorge-amado-no-cinema.html
 
11
MARÍLIA – TALENTO a TODA PROVA
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2017/02/marilia-talento-toda-prova.html
 
12
MEMÓRIA BRASIL: NOSSO CINEMA
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2025/02/memoria-brasil-nosso-cinema.html
 
13
NORMA BENGELL: O OCASO de uma MUSA
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2012/10/norma-bengell-o-ocaso-de-uma-musa.html
 
14
PEQUENA HISTÓRIA do CINEMA BRASILEIRO
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2016/10/pequena-historia-do-cinema-brasileiro.html
 
15
REGIME MILITAR no BRASIL: FILMES
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2019/03/o-regime-militar-brasileiro-no-cinema.html
 
16
VERA CRUZ: AMBIÇÃO e DECLÍNIO
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2011/08/vera-cruz-ambicao-e-declinio.html
 
17
A VIDA e os FILMES da BELA TÔNIA CARRERO
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18
20 GRANDES ATORES do CINEMA BRASILEIRO
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2025/01/20-grandes-atores-do-cinema-brasileiro.html
 
GALERIA de FOTOS
 
   


março 24, 2019

************ REGIME MILITAR no BRASIL: FILMES

caio blat em “batismo de sangue”


 REGIME MILITAR vai de 1964 a 1985, período em que o país esteve sob controle das Forças Armadas (Exército, Marinha e Aeronáutica). Nesta época, os chefes de Estado, ministros e medalhões instalados nas principais posições do aparelho estatal pertenciam à hierarquia militar, sendo que todos os presidentes eram generais do exército. O cenário político do início dos anos 60 era corrupto, viciado e alheio às necessidades do país. O movimento militar surgiu para sanear a vida social, econômica e política, livrando a nação da ameaça comunista e trazendo de volta a ordem e a legalidade. 

jardel filho em “terra em transe”
A esquerda vende o peixe como anos de chumbo, caracterizados pela restrição à liberdade, predomínio da censura e da perseguição. Distante do submundo comunista-socialista, as recordações dos nossos familiares e conhecidos são bem diferentes. A propaganda institucional mapeava o país com os slogans “Ninguém segura este país” ou “Brasil, ame-o ou deixe-o”; a dupla Don e Ravel fazia sucesso em rádios e programas de televisão com o refrão: “Eu te amo, meu Brasil, eu te amo, ninguém segura a juventude do Brasil”; nas escolas, cantava-se “Este é um país que vai pra frente”; e o hino da Copa de 1970 emocionava com “Noventa milhões em ação, pra frente Brasil do meu coração”. Já a narrativa propagada por artistas, escritores e jornalistas é um show de invencionices e oportunismo.

Ao longo dos séculos, a arte sempre foi arma de arremesso contra o obscurantismo, tornando-se um grande catalisador da força da consciência. Precisamente, contrariando essa linha de pensamento, surgiram diversos filmes panfletários, tendenciosos, distorcendo os fatos e atacando o REGIME MILITAR. São longas com viés ideológico de esquerda. Alguns retratam eventos e/ou personagens reais mitificados; outros, ficção, mas ambos pregam inverdades. Selecionei uma ampla filmografia que tematiza o REGIME MILITAR BRASILEIRO. Vi a maioria, filtrei, refleti, pesquisei. Alguns foram difíceis de assistir, amparam-se unicamente no doutrinamento vermelho, mas considero válidos como documento de uma Nação sabotada por comunistas-socialistas.

O DESAFIO
(1964)

direção de Paulo César Saraceni
elenco: Isabella, Oduvaldo Vianna Filho e Luiz Linhares

Melodrama da perplexidade da burguesia intelectual face ao regime militar instalado no Brasil. Narra o romance entre a esposa de um industrial e um inconsequente estudante esquerdista. Provocou controvérsias e fracassou nas bilheterias.

A DERROTA
(1966)

direção de Mário Fiorani
elenco: Luiz Linhares, Glauce Rocha e Ítalo Rossi

Conta a história de um preso torturado por causa de uma confissão que se nega a prestar. Invertendo a situação de vítima, ele procura desesperadamente liquidar o bando que o aprisiona. Sucesso de crítica bem interpretado. Estreia do diretor.

TERRA em TRANSE
(1967)

direção de Glauber Rocha
elenco: Jardel Filho, Paulo Autran, José Lewgoy
Glauce Rocha e Mário Lago

Narra as desventuras políticas e existenciais de um poeta e político de esquerda, em crise por perceber tardiamente que sempre havia servido a políticos traidores e oportunistas. As poderosas imagens alegóricas, textos desencontrados, idas e vindas no tempo cronológico, a falta de preocupação em contar uma trama realista e linear, compõem uma espécie de ópera barroca sobre o Brasil.

JARDIM de GUERRA
(1968)

direção de Neville d’Almeida
elenco: Joel Barcellos, Hugo Carvana, Dina Sfat
e Glauce Rocha

Jovem amargurado e sem perspectivas se apaixona por uma cineasta e é injustamente acusado de ser terrorista por uma organização que o prende, interroga e o tortura.

A VIDA PROVISÓRIA
(1968)

direção de Maurício Gomes Leite
elenco: Paulo José, Dina Sfat e Joana Fomm

Jornalista vai à Brasília entrevistar um ministro, entregando a um membro do governo documentos comprometedores. Seguido e ferido, agoniza, recordando as mulheres que amou. Roteiro confuso e bons atores em cena.

O BOM BURGUÊS
(1979)

direção de Oswaldo Caldeira
elenco: José Wilker, Betty Faria, Christiane Torloni,
Jofre Soares, Nelson Xavier e Jardel Filho

Filme policial que retrata a luta armada no Brasil, inspirando-se livremente em personagem real. Na década de 1960, usando de artifícios contábeis, um bancário desvia cerca de dois milhões de dólares para a guerrilha que enfrenta o regime militar. Ele ficou conhecido na imprensa e entre os terroristas como “o bom burguês”.

PAULA – a HISTÓRIA de uma SUBVERSIVA
(1980)

direção de Francisco Ramalho Júnior
elenco: Armando Bogus, Marlene França e Helber Rangel

Um arquiteto é informado pela ex-esposa do desaparecimento da filha. O policial designado para as investigações anos antes efetuara a prisão do arquiteto e da sua amante, líder estudantil que optara pela luta armada. Banida do país, ela retorna e morre em um confronto com a polícia. O arquiteto faz um balanço da geração que pensou um dia transformar o país em uma ditadura comunista.

PRA FRENTE, BRASIL
(1982)

direção de Roberto Farias
elenco: Reginaldo Farias, Antônio Fagundes, Natália do Valle
e Elizabeth Savalla

Durante a Copa do Mundo de 1970, um trabalhador comum é confundido com um ativista político e desaparece. Sua família tenta encontrá-lo.  Melhor Filme em Gramado.

CABRA MARCADO para MORRER
(1984)

direção de Eduardo Coutinho

No início da década de 1960, um líder camponês é assassinado por ordem dos latifundiários do Nordeste. As filmagens de sua vida, interpretada pelos próprios camponeses, foram interrompidas pelos militares. Dezessete anos depois, o diretor procura a viúva Elizabeth Teixeira e seus dez filhos. O tema passa a ser a trajetória de cada um dos personagens que, por meio de lembranças e imagens do passado, evocam o drama de uma família de camponeses durante os anos do Regime Militar.

NUNCA FOMOS tão FELIZES
(1984)

direção de Murilo Salles
elenco: Cláudio Marzo, Roberto Bataglin e Suzana Vieira

Rodado no último ano do regime militar, fala de um rapaz retirado de um colégio interno por seu pai, que estava na prisão, após oito anos de estudos. Ele investiga o mistério que o cerca, em busca de uma identidade e descobre que o pai é um perseguido político.

CORPO em DELITO
(1989)

direção de Nuno César Abreu
elenco: Lima Duarte, Regina Dourado e Dira Paes

Médico legista frio e solitário, que presta serviços aos militares forjando laudos de morte natural para vítimas de tortura, apaixona-se por garota que trabalha numa casa noturna.

QUE BOM te ver VIVA
(1989)

direção de Lúcia Murat
elenco: Irene Ravache

Delírios e fantasias de uma anônima e os depoimentos de oito ex-presas políticas que viveram situações de tortura. Para diferenciar a ficção do documentário, gravou-se depoimentos reais em vídeo, com o enquadramento semelhante ao de retratos 3x4.

LAMARCA
(1994)

direção de Sérgio Rezende
elenco: Paulo Betti, Carla Camurati e Selton Mello

Crônica dos últimos anos de vida do capitão do exército Carlos Lamarca. Ele desertou das forças armadas e passou a fazer oposição, tornando-se um dos mais conhecidos líderes da luta clandestina. Boa atuação de Paulo Betti.

O QUE é ISSO, COMPANHEIRO?
(1997)

direção de Bruno Barreto
elenco: Alan Arkin, Fernanda Torres, Pedro Cardoso,
Cláudia Abreu e Selton Mello

Grupo terrorista MR-8 elabora plano para sequestrar embaixador norte-americano, planejando trocá-lo por presos políticos. Concorreu ao Oscar de Filme Estrangeiro.

AÇÃO entre AMIGOS
(1998)

direção de Beto Brandt
elenco: Leonardo Villar, Zécarlos Machado e Cacá Amaral

Em 1971, quatro amigos participam da luta armada contra o regime militar e quando tentam assaltar um banco acabam sendo presos e torturados. Vinte e cinco anos depois, em uma pescaria, um deles mostra uma foto de um encontro político em São Paulo, afirmando que uma das pessoas fotografadas foi o homem que os torturou. Decidem então matá-lo. Ao ser capturado, o torturador faz uma revelação surpreendente.

DOIS CÓRREGOS – VERDADES SUBMERSAS no TEMPO
(1999)

direção de Carlos Reichenbach
elenco: Carlos Alberto Riccelli,  Beth Goulart e Ingra Liberato

Duas adolescentes burguesas passam uma temporada numa fazenda e acabam convivendo com o tio de uma delas, um homem misterioso, clandestino no país.

CABRA-CEGA
(2004)

direção de Toni Venturi
elenco: Leonardo Medeiros, Débora Duboc e Jonas Bloch

Dois jovens militantes da luta armada sonham com uma revolução comunista no Brasil. Após ser ferido por um tiro, em uma emboscada feita pela polícia, um deles precisa se esconder na casa de um arquiteto simpatizante da causa. O fugitivo é o comandante de uma organização de esquerda, que está no momento debilitada e prepara um retorno à luta política. Ganhou cinco Candangos no Festival de Brasília, entre eles, Melhor Roteiro.

BATISMO de SANGUE
(2006)

direção de Helvécio Ratton
elenco: Caio Blat, Daniel de Oliveira e Cássio Gabus Mendes

No final dos anos 60, um grupo de frades dominicanos decide apoiar a luta armada contra o regime militar. Na mira das autoridades policiais, são presos, passando por torturas. Um deles é mandado para exílio na França, onde comete suicídio. Melhor Diretor e Melhor Fotografia no Festival de Brasília. Interpretações expressivas.

O ANO em que MEUS PAIS SAIRAM de FÉRIAS
(2006)

direção de Cao Hamburger
elenco: Michel Joelsas, Simone Spoladore, Caio Blat
e Paulo Autran

Em 1970, um garoto de 12 anos tem como maior sonho ver o Brasil tricampeão mundial de futebol. De repente, separado dos pais comunistas e obrigado a se adaptar a uma comunidade – o Bom Retiro, bairro de São Paulo, que abriga judeus, italianos, entre outras culturas. Cuidado pelo avô, que morre, o garoto se integra à comunidade judaica, além de conhecer militantes. Melhor Filme no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro.

ZUZU ANGEL
(2006)

direção de Sérgio Rezende
elenco: Patrícia Pillar, Daniel de Oliveira e Leandra Leal

Estilista de projeção internacional trava uma batalha contra as autoridades militares em busca do corpo do filho que participava da luta armada e foi morto. Boas atuações.

SONHOS e DESEJOS
(2006)

direção de Marcelo Santiago
elenco: Felipe Camargo, Mel Lisboa e Sérgio Morrone

Uma estudante, um professor de literatura e um guerrilheiro ferido - sempre com o rosto coberto - são militantes confinados em um apartamento em Belo Horizonte. Eles confrontam suas opções afetivas e políticas, envolvendo ideologia, lealdade e traição.

HOJE
(2011)

direção de Tata Amaral
elenco: Denise Fraga e César Troncoso

Ex-militante recebe indenização do governo pelo desaparecimento do marido. Com o dinheiro, ela pode comprar o tão sonhado apartamento próprio e libertar-se desta condição de suspensão em que viveu durante décadas, período em que não era sequer reconhecida oficialmente como viúva. No momento da mudança para o novo lar, porém, surge uma visita que a obriga a rever toda sua trajetória.

TATUAGEM
(2013)

direção de Hilton Lacerda
elenco: Irandhir Santos, Jesuíta Barbosa e Rodrigo Garcia

Brasil, 1978. O regime militar, ainda atuante, mostra sinais de esgotamento. Em um teatro/cabaré, localizado na periferia entre duas cidades do Nordeste do Brasil, um grupo de artistas provoca o poder e a moral estabelecida com espetáculos e interferências públicas. Uma trupe conhecida como Chão de Estrelas, juntamente com intelectuais e artistas, resiste através do deboche e da anarquia.

FONTES
“História Ilustrada dos Filmes Brasileiros – 1029-1988”
de Salvyano Cavalcanti de Paiva
 
“Enciclopédia do Cinema Brasileiro”
de Fernão Ramos e Luiz Felipe Miranda
 
“O Discurso Cinematográfico”, de Ismail Xavier