Mostrando postagens com marcador Anita Ekberg. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Anita Ekberg. Mostrar todas as postagens

agosto 29, 2025

******* FELLINI: MEMÓRIAS, SONHOS e FANTASIAS

 



“Sou apenas um contador de histórias,
e o cinema é o meu meio. Gosto dele
porque recria a vida em movimento,
amplifica-a. Está muito próximo
da criação milagrosa da vida.”
FEDERICO FELLINI 
 Oito e Meio
 
 
Um dos grandes diretores italianos, criou um estilo cinematográfico inimitável, combinando surrealismo com crítica social incisiva.  Explorou em 23 filmes suas obsessões com o circense, a decadência social, a redenção espiritual e as mulheres, gerando influências em diversos cineastas, como o siciliano Paolo Sorrentino ou o norte-americano Martin Scorsese, que diz rever “Oito e Meio” (1963) todo ano. FEDERICO FELLINI (1920 – 1993. Rimini / Itália) colocou a própria biografia em sua criação cinematográfica. Na realidade, aos dezenove anos deixou a provinciana cidade natal, transferindo-se para Roma. Seu primeiro emprego foi na revista humorística “Marc’Aurelio”. Na Itália semidestruída pela II Guerra Mundial, oscilou de um emprego a outro. Depois de trabalhar como repórter, locutor de rádio e escritor de fotonovelas, o famoso ator Aldo Fabrizi o contratou para escrever esquetes para espetáculos de uma companhia teatral ambulante. Com ela, o futuro cineasta correu a Itália, aprendendo a técnica de contar histórias a partir de pequenos incidentes dramáticos ou cômicos.
 
A guerra estava acabando. No meio dos destroços, entre bombas e fuzilamentos, o cinema italiano voltava a brilhar. Era o começo do neorrealismo, uma arte verdadeira, sem glamour e sem estrelas, que mudaria o panorama do cinema mundial. E ele fazia parte desse movimento. Seu primeiro trabalho em filmes foi em um roteiro para o lendário Roberto Rossellini, contando o episódio verídico do fuzilamento de um padre pelos nazistas. “Roma, Cidade Aberta / Roma Città Aperta” (1945) transformou-se em um clássico. Começava aí uma das carreiras mais exuberantes da sétima arte. A colaboração com o cinema se intensificou e alguns dos seus roteiros foram pontos altos do neorrealismo: “O Moinho do Pó / Il Mulino del Po” (1949), de Alberto Lattuada; “O Caminho da Esperança / Il Cammino della Speranza” (1950), de Pietro Germi; “Milagre em Milão / Miracolo a Milano” (1951), de Vittorio de Sica, entre outros. Em 1950, co-dirigiu com Alberto Lattuada “Mulheres e Luzes / Luci del Varietà”. O segundo filme, “Abismo de um Sonho / Lo Sceicco Bianco”, veio em 1952 e teve péssima recepção.
 
Um ícone da fantasia com uma visão pessoal acerca da sociedade, ele ressignificou suas lembranças da infância-juventude e seus sonhos, traduzindo-os em obras magistrais. O cinema se tornou, para o diretor, um espaço de interpretação de fantasias e desejos, de reconciliação com situações de tempos passados. Brincou sem limites entre o real e o imaginário, o ficcional e o biográfico, alta e baixa cultura, cinema de autor e de entretenimento, num universo onírico copiado mundialmente. A grande virada foi “A Doce Vida”, de 1960. Sucesso de bilheteria e condenado pela Igreja Católica, este filme insólito abandona o que poderíamos chamar de uma representação mais crua, buscando se aproximar de um mundo simbólico, estilizado. A partir deste momento decisivo, sua obra, que ele descrevia como “sonhos em celuloide”, funda um estilo próprio, no qual mescla memória e sonho, quase sempre não deixando claro onde termina um e começa o outro. Seu cinema barroco, delirante e pessoal torna sua filmografia uma das mais premiadas e envolventes de todos os tempos. 
 
Ele descrevia seu método criativo afirmando que a invenção para suas tramas se dava a partir de suas experiências, memórias, esperanças,
“uma mistura de emoções pessoais, alterações, as cores da escuridão que vivem em mim”. Condecorado com quatro estatuetas no Oscar, um recorde na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, seu legado é visto como um divisor de águas, rendendo um novo adjetivo no vocabulário cinematográfico: o termo felliniano. O cineasta teve como principais colaboradores, a atriz e esposa Giulietta Masina, o ator Marcello Mastroianni, o compositor Nino Rota, o produtor Angelo Rizzoli, o roteirista Ennio Flaiano e o editor Ruggero Mastroianni. Ele, pessoalmente, nos deixou em 1993. Seu cinema singular, de melancolia mágica, jamais nos deixará. É eterno. Cento e cinco anos após seu nascimento, FEDERICO FELLINI ainda se destaca como um gigante do cinema. Este post é um tributo a um artista criativo e livre, que inventou um universo cinematográfico próprio: uma visão mágica do mundo.
 
Oito e Meio
DEZ FILMES para CONHECER FELLINI
(por ordem de preferência)
 
01
A DOCE VIDA
(La Dolce Vita, 1960)

elenco: Marcello Mastroianni, Anita Ekberg, Anouk Aimée,

Yvonne Furneaux, Magali Noel, Alain Cuny,
Annibale Ninchi, Valeria Ciangottini e Laura Betti

Um dos maiores filmes do cinema. Impulsionou a carreira do cineasta italiano ao sucesso internacional - ironicamente, ao oferecer uma crítica contundente à cultura do estrelato. Um olhar sobre o vazio existencial por trás do estilo de vida sedutor dos ricos e glamorosos de Roma, acompanha um notório jornalista de celebridades (um Marcello Mastroianni sublimemente icônico) nas periferias dos holofotes. Mordaz, foi incisivo sobre a decadência da Europa contemporânea e forneceu um vislumbre premonitório de quão obcecada por fofocas e fama nossa sociedade se tornaria. Cunhou o termo paparazzo, mas seu verdadeiro mérito reside no cinismo com que disseca uma cidade.
 
Indicado ao Oscar de Melhor Direção
Palma de Ouro (Melhor Filme) no Festival de Cannes
David di Donatello de Melhor Diretor
Melhor Filme Estrangeiro do Círculo
dos Críticos de Cinema de Nova Iorque

 
02
AMARCORD
(Idem, 1974)
 
elenco: Magali Noel, Bruno Zanin, Puppella Maggio,
Armando Grancia, Ciccio Ingrassia e Maria Antonietta Beluzz

O realizador retorna à paisagem provinciana de sua infância com esta reminiscência, recriando sua cidade natal, Rimini, nos estúdios da Cinecittà e retratando seu cotidiano como um circo de rituais sociais, desejos adolescentes, fantasias masculinas e subterfúgios políticos. Esboçando uma galeria de caricaturas cômicas, evoca com carinho um mundo desaparecido, aureolado pelo brilho da memória, ao mesmo tempo em que satiriza um país embrutecido pelo fascismo. Entrelaça com maestria a cinematografia vibrante de Giuseppe Rottuno, os figurinos e cenários extravagantes de Danilo Donati e a trilha sonora nostálgica de Nino Rota. Talvez seja o filme mais pessoal do diretor.
 
Indicado ao Oscar de Melhor Diretor
Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
David di Donatello de Melhor Filme e Melhor Diretor
Nastro d´Argento de Melhor Diretor
Melhor Filme Estrangeiro do National Board of Review
Melhor Filme e Melhor Diretor do Círculo dos Critícos
de Cinema de Nova Iorque

 
03
NOITES de CABÍRIA
(Le Notti di Cabiria, 1957)

elenco: Giulietta Masina, François Périer, Dorian Gray

e Amedeo Nazzari

 
Ascensão, queda e recuperação de uma prostituta, num ambiente de rua, exploração, milagres e trapaceiros. Grande consagração popular do cineasta, apresentando uma das personagens mais inesquecíveis de todo o cinema: Cabiria (magnífica Masina), uma trabalhadora sexual irreprimível e ferozmente independente que, enquanto se move por Roma, em meio à adversidade e à tristeza, precisa confiar em seu próprio espírito indomável para se manter de pé. O filme encerrou a fase inicial do diretor, de influência neorrealista, com um final sublimemente comovente, porém esperançoso, que incorpora a mistura do amargo e do doce que define sua recorrente visão de mundo. Obra-prima.
 
Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
David di Donatello de Melhor Diretor
Nastro d´Argento de Melhor Diretor

 
 
04
Os BOAS VIDAS
(I Vitelloni, 1953)

elenco: Alberto Sordi, Franco Fabrizi, Franco Interlenghi,

 Leopoldo Trieste, Leonora Ruffo, Paola Borboni,
Lída Baarová e Vira Silenti

 
A segunda criação solo do diretor rendeu seu primeiro sucesso comercial: um retrato lúcido de cinco jovens mergulhados em um limbo provinciano, sonhando com aventuras e uma fuga de sua pequena cidade costeira. Baseando-se em memórias entre a nostalgia cômica de
“Amarcord” e a ressaca da cidade grande de “A Doce Vida”, cria um filmaço semiautobiográfico com personagens afiados: Fausto, o galã, forçado a se casar com uma moça que engravidou; Alberto, o filho perpétuo; Leopoldo, um escritor sedento de fama; e Moraldo, a consciência do grupo. A crônica cinematográfica captura a lassidão e o anseio de seus protagonistas com nostalgia, perspicácia humorada e compaixão.
 
Nastro d´Argento de Melhor Diretor
Leão de Prata no Festival de Veneza
 
05
FELLINI OITO e MEIO
(8½, 1963)

elenco: Marcello Mastroianni, Anouk Aimée, Claudia Cardinale,

Sandra Milo, Rossella Falk, Barbara Steele,
Madeleine Lebeau e Caterina Boratto

 
Considerado por muitos o seu melhor trabalho. Marcello Mastroianni interpreta Guido Anselmi, um cineasta cujo novo projeto está desmoronando ao seu redor, junto com sua vida. Um dos filmes mais aplaudidos pela crítica, teve um primeiro título provisório,
“A Bela Confusão”, e é exatamente isso: um sonho cintilante e um número de mágica. Códice para decifrar a obra felliniana, essa alucinação transgressora tem sido imitada desde sempre. Mastroianni substitui o próprio diretor em suas fantasias surreais sobre o bloqueio artístico, a infância que volta feroz, a cavalgada de mulheres que ele decepcionou, inseguranças, música e a certeza absoluta de que a vida é um circo.
 
Indicado ao Oscar de Melhor Diretor
Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
Nastro d´Argento de Melhor Diretor
Grande Prêmio no Festival de Moscou
Melhor Filme Estrangeiro no National Board of Review
Melhor Filme Estrangeiro no Círculo

dos Críticos de Cinema de Nova Iorque
 
06
A ESTRADA da VIDA
 (La Strada, 1954)

elenco: Giulietta Masina, Anthony Quinn e Richard Basehart

 
Uma decadente companhia de diversões ambulante percorre as estradas da Itália. O primeiro sucesso internacional do diretor. Ponte entre seu passado neorrealista e a fantasia lírica que está por vir, repleto de símbolos amargos e referências à commedia dell'arte. Com este drama inovador, o diretor retrata uma visão pessoal e poética da vida como um carnaval agridoce. A expressiva Masina registra tanto a maravilha infantil quanto o desespero de partir o coração como Gelsomina. A obra possui a pureza e a ressonância atemporal de uma fábula e continua sendo uma das visões mais comoventes do cinema sobre a humanidade lutando para sobreviver diante das crueldades da vida.
 
Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
Nastro d´Argento de Melhor Diretor
Melhor Filme Estrangeiro no Círculo dos Críticos
de Cinema de Nova Iorque
Leão de Prata no Festival de Veneza

 
07
SATYRICON de FELLINI
(Fellini – Satyricon, 1968)

elenco: Martin Potter, Hiram Keller, Salvo Randone,

Magali Noel, Capucine, Alain Cuny,
Lucia Bosè e Gordon Mitchell

 
A carreira do realizador atingiu novos patamares de excentricidade e brilhantismo com esta notável, controversa e extremamente livre adaptação da sátira romana clássica de Petrônio, escrita durante o império de Nero. Uma enxurrada episódica de licenciosidade sexual, violência profana e grotesco cativante, acompanha as façanhas de dois jovens pansexuais - o belo estudioso Encólpio e seu amigo vulgar e insaciavelmente lascivo Ascilto - enquanto se movem por uma paisagem de excessos pagãos de forma livre que remete ao sexo libertário moderno. Criando um caos aparente com controle primoroso, o diretor constrói um mundo antigo impactante e estranho que parece ficção científica.
 
Melhor Filme Italiano no Festival de Veneza
 
08
A TRAPAÇA
(II Bidone, 1955)

elenco: Broderick Crawford, Richard Basehart, Giu
lietta Masina,
Franco Fabrizi e Lorella De Luca

 
Abandonando em parte os floreios poéticos das obras mais famosas do realizador, é um drama policial neorrealista sombrio, pouco conhecido, estrelado por um magistral Broderick Crawford como um dos personagens mais complexos do cânone do diretor: um vigarista profissional decadente que, tendo feito carreira explorando a ingenuidade de camponeses pobres, de repente descobre que seus caminhos tortuosos começaram a alcançá-lo. Entrelaçando magistralmente o realismo humano da história com elementos de humor, cria um retrato contundente de um homem lidando com as consequências de suas escolhas de vida, que o atinge com a força de uma profunda e fatal tragédia moral.
 
09
JULIETA dos ESPÍRITOS
(Giulietta degli spiriti, 1965)

elenco: Giulietta Masina, Sandra Milo, Mario Pisu,

Valentina Cortese, Valeska Gert, José Luis de Vilallonga,
Caterina Boratto e Sylva Koscina

 
Primeiro longa-metragem em cores do diretor. Caleidoscópio projetado na psique de uma mulher de meia-idade que atravessa uma crise mística. Baseando-se em cenas de sua vida pessoal, Giulietta Masina interpreta uma senhora refinada que se aventura no espiritualismo e cujo domínio da realidade começa a se esvair quando descobre que o marido está tendo um caso, o que a leva a uma jornada alucinatória de autodescoberta na qual memórias, sonhos e forças sobrenaturais se fundem. Com a cinematografia virtuosa de Gianni di Venanzo, o filme examina as preocupações centrais do diretor - sexo e amor, vida e morte, fantasia e realidade - da perspectiva do intimismo feminino.
 
Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro
Melhor Filme Estrangeiro do National Board of Review
Melhor Filme Estrangeiro do Círculo dos Críticos
de Cinema de Nova Iorque

 
10
ROMA de FELLINI
(Roma, 1972)

elenco: Britta Barnes, Peter Gonzales Falcon e Anna Magnani

 
Relato de viagem, memórias e espetáculo cinematográfico ultrajante da Cidade Eterna. Esta fantasia urbana entrelaça lembranças da juventude do diretor na era de Mussolini com um retrato impressionista da Roma contemporânea. Os prazeres materiais do sexo, da comida, da vida noturna e de um alucinante desfile de moda eclesiástica são permeados por vislumbres de um passado monumental: o Coliseu cercado pelo trânsito, afrescos antigos desenterrados em um túnel de metrô, uma estátua de César manchada por pombos. Com uma mistura estonteante de imediatismo documental e artifício extravagante, penetra no mito e na mística da histórica e maravilhosa capital da Itália.
 
FONTES
“Eu, Fellini” (1995)
de Charlotte Chandler
 
“Fellini. Vou Falar-te de Mim”
(1999)
de Costanzo Costantini

 
CADERNO de SONHOS
Nos anos 60, incentivado pelo analista junguiano Ernst Bernhard, FEDERICO FELLINI passou a registrar os próprios sonhos através de textos e ilustrações - atividade que manteve por cerca de 30 anos. Para isso, mantinha um caderno em sua mesa de cabeceira. Pela manhã, assim que abria os olhos, tentava reproduzir, usando canetas hidrográficas coloridas, o que chamava de “trabalho noturno”. Em 2008, as 500 páginas foram publicadas com o título de “The Book of Dreams”.
 

GALERIA de FOTOS


O CINEMA ITALIANO NESTE BLOG

 
01
ATIRE PRIMEIRO, MORRA DEPOIS: POLIZIOTTESCHI
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2024/06/atire-primeiro-morra-depois.html
 
02
ALIDA VALLI: a BARONESA ESTRELA de CINEMA
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2011/02/alida-valli-de-baronesa-namoradinha-da.html
 
03
O CINEMA POLÍTICO ITALIANO (1960 - 1979)
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2012/07/o-cinema-politico-italiano-1960-1979.html
 
04
LUCHINO VISCONTI: o CONDE CINEASTA
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2017/02/fragmentos-de-um-conde-cineasta-e.html
 
05
LUISA FERIDA e OSVALDO VALENTI: PAIXÃO e CRIME
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2025/05/luisa-ferida-e-osvaldo-valenti-paixao-e.html
 
06
MARCELLO MASTROIANNI: a ARTE da SEDUÇÃO
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2018/08/marcello-mastroianni-arte-da-seducao.html
 
07
O MELHOR do CINEMA ITALIANO: 30 FILMES
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2025/06/o-melhor-do-cinema-italiano-30-filmes.html
 

08
15 ATORES à ITALIANA do SÉCULO 21
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2025/07/15-atores-italiana-do-seculo-21.html
 
09
SANDRA MILO, a AMANTE de FELLINI
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2011/06/sandra-milo-amante-de-fellini.html
 
10
TELEFONE BIANCHI – o CINEMA FASCISTA ITALIANO
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2024/07/telefoni-bianchi-o-cinema-fascista.html
Satyricon de Fellini


agosto 06, 2016

** CREPÚSCULO dos DEUSES: na MISÉRIA - Parte II



 
Publicado em 5 de junho de 2011, “Crepúsculo dos Deuses: Na Miséria - Parte I” lista alguns famosos do cinema que perderam tudo o que tinham e terminaram seus dias na pobreza. Na época, expressei o desejo de escrever uma segunda parte. Mais de cinco anos depois, o cinéfilo cearense ERALDO URANO faz a continuação, “honrando o convite que este meu amigo me dá pra escrever um texto pro seu blog, listando mais nomes que ficaram de fora no primeiro texto”.

ANITA EKBERG
(1931 - 2015. Malmo / Suécia)

Símbolo sexual da década de 1960, assim conhecida após sua aparição no clássico “A Doce Vida / La Dolce Vita” (1960). Eleita Miss Suécia em 1951, foi para os Estados Unidos representar o país no Miss Universo. Não venceu o concurso, mas ganhou um contrato em Hollywood. Depois do sucesso de “A Doce Vida”, ela permaneceu na Itália. Durante os anos 1970, os papéis tornaram-se menos frequentes e a imprensa noticiou que Anita estaria trabalhando como empregada doméstica. Nessa época, ela engordou muito. Culpava seu segundo marido, Rick van Nutter, de ter roubado grande parte de seus bens. Ela conseguiu emagrecer e voltou ao cinema como protagonista de um filme medíocre, “A Freira Assassina / Suor Omicidi” (1979). Em 2011, aos 80 anos, a ex-estrela de cinema teria se visto obrigada a pedir ajuda financeira à Fundação Fellini. Ela passou a viver então em uma residência para idosos, perto de Roma.

BELA LUGOSI
(1882 - 1956. Lugoj / Romênia)

Um ícone dos filmes de horror, esse ator húngaro ficou famoso interpretando o papel do vampiro em “Drácula / Dracula” (1931). Porém, estereotipado como Drácula, seus papéis foram diminuindo em importância gradativamente até ficar desempregado. Viciado em morfina e metadona e vivendo na semi-pobreza, terminou sua carreira trabalhando para o lendário pior diretor de todos os tempos, Ed Wood.

BOBBY DRISCOLL
(1937 - 1968. Cedar Rapids, Iowa / EUA)

Ator mirim, ganhou Oscar especial por sua atuação em “Ninguém Crê em Mim / The Window” (1949) e foi o primeiro ator criança a ter contrato exclusivo com os estúdios Disney. Com a diminuição das ofertas de trabalho, ele se envolveu com drogas, o que por fim arruinou sua saúde e o reduziu à pobreza. Anos de abuso severo de drogas enfraqueceram seu coração e ele morreu sozinho de um ataque cardíaco numa construção desocupada em Nova York, tendo sido sepultado numa sepultura comunitária.

GAIL RUSSELL
(1924 - 1961. Chicago, Illinois / EUA)

De rara beleza, essa morena de olhos azuis melancólicos foi preparada para ser uma das estrelas da Paramount nos anos 1940. Entretanto, durante as filmagens de “O Solar das Almas Perdidas / The Uninvited” (1944), adquiriu o hábito de ingerir bebida alcoólica para anular sua insegurança e medo de palco. O hábito tornou-se vício e seu contrato não foi renovado. Ficou com a reputação manchada: envolveu-se em um pretenso adultério com John Wayne e teve problemas com a lei por dirigir embriagada. Casou-se em 1949 com o belo galã Guy Madison, mas o divórcio veio em 1954. Quase sem encontrar mais trabalho como atriz, foi encontrada morta no pequeno apartamento alugado em que vivia, cercada de garrafas de vodka vazias. Desnutrida e envelhecida, não chegou a ver seu último filme, “The Silent Call” (1961), uma produção modesta.

LOUISE BROOKS
(1906 - 1985. Cherryvale, Kansas / EUA)

Lendária atriz do cinema mudo, teve uma carreira breve em Hollywood, participando de 24 filmes entre os anos 1925 e 1938. Sua imagem e atitudes permanecem, no entanto, como símbolo de uma época, e uma de suas características mais lembradas será sempre o corte de cabelo liso e curto, que lançou moda e tornou-se um ícone dos anos 1920.  Uma atriz à frente de seu tempo, era dona de uma beleza incomum e de uma personalidade fortíssima. Deixou Hollywood e entrou numa lista negra, viajando para a Europa, onde fez seus filmes mais memoráveis, dentre eles “A Caixa de Pandora / Die Büchse der Pandora” (1929). Com as portas fechadas em Hollywood decretou falência em 1932 e terminou sua carreira no cinema em 1938. Nos anos seguintes, esquecida, ganha seu sustento de várias formas, inclusive como vendedora da loja Sak's Fifth Avenue, por volta de 1946, recebendo 40 dólares por semana, e como “escort”. Na década de 1950, seus filmes foram redescobertos. Seu status como uma das grandes atrizes e beleza do cinema permanece até hoje.

MARIE PREVOST
(1898 - 1937. Sarnia / Canadá)

Popular estrela do cinema mudo, com o advento do som sua carreira entrou em declínio. Problemas pessoais levaram-na à depressão, com um aumento de peso crescente e alcoolismo. Morreu aos 38 anos, de uma combinação de alcoolismo agudo e desnutrição extrema, sem dinheiro e vivendo em um apartamento em ruínas. Sua morte foi descoberta dois dias depois, quando os vizinhos reclamaram de latidos de seu cachorro.

MARISA MELL
(1939 - 1992. Graz / Áustria)

Figura “cult” de filmes italianos B dos anos 1960, a bela austríaca Marisa Mell é conhecida por “Perigo: Diabolik / Diabolik” (1968), de Mario Bava. No final dos anos 1980, os papéis no cinema foram desaparecendo e ela voltou para a Áustria. Morreu de câncer de garganta, em situação de pobreza, com poucos amigos presentes no seu funeral.

OLIVE BORDEN
(1906 - 1947. Richmond, Virgínia / EUA)
 

Considerada uma das mais belas atrizes do cinema mudo, era uma das beldades (“bathing beauties”) de Mack Sennett aos 15 anos e atingiu o auge de sua carreira em 1926, quando ela fez 11 filmes da Fox Studios e ganhou US $ 1.500,00 por semana. Apelidada “A Garota da Alegria”, viveu um estilo de vida luxuoso, com mansões, criados e uma dúzia de casacos de peles. Em 1927, ela deixou a Fox depois de uma disputa salarial. Como muitas estrelas do cinema mudo, ela teve dificuldade em fazer a transição para os “talkies”. Seu último filme foi feito em 1934. Durante a Segunda Guerra Mundial, trabalhou como enfermeira. Com a idade de 41 ela era uma alcoólatra sem um tostão. Morreu de uma doença do estômago num lar para mulheres carentes em Los Angeles.

TROY DONAHUE
(1936 - 2001. Nova Iorque / EUA)

Ídolo adolescente no final dos anos 1950 e início dos anos 1960, atingiu o estrelato em “Amores Clandestinos / A Summer Place” (1959), com Sandra Dee. Outros filmes destacados em sua carreira foram “No Vale das Grandes Batalhas / Parrish” (1961), com Claudette Colbert e “Candelabro Italiano / Rome Adventure” (1962), com Suzanne Pleshette. Troy e Suzanne se casaram, mas a união só durou nove meses. Seu belo rosto, de cabelos loiros e olhos azuis, aparecia frequentemente nas capas de revistas de cinema. Em poucos anos, sua carreira entrou em declínio e Donahue começou a abusar de drogas e álcool. Ele declarou falência em 1968 e perdeu sua casa. Arruinado financeiramente, passou a viver em apartamentos miseráveis e chegou a passar uma temporada como sem-teto no Central Park. Ele disse que vivia num arbusto e mantinha tudo o que tinha numa mochila. Com quatro casamentos fracassados, procurou ajuda para seu uso de bebida e drogas, juntando-se aos Alcoólicos Anônimos. Continuou a atuar em filmes, em pequenos papéis ou filmes de baixo orçamento. Morreu de um ataque cardíaco. Vivia com a noiva num modesto prédio de apartamentos.

CONFIRA

Parte I
CREPÚSCULO dos DEUSES: na MISÉRIA