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março 31, 2022

******************** ANATOMIA do CINE JAPONÊS

“a face do outro”


No início do século 20, o Japão fundou sua própria indústria cinematográfica retratando aventuras de época sobre samurais injustiçados. Enquanto no mundo inteiro o cinema ainda era mudo, os japoneses produziam filmes parcialmente sonorizados, com a presença do benshi, um profissional que reproduzia os diálogos, interpretando as vozes dos vários personagens (uma espécie de dublador ao vivo). A primeira produção importante surgiu em 1913: “Os 47 Ronins / Chushingura”. Com o fim da Primeira Guerra Mundial, o Japão abriu-se ao Ocidente, sendo influenciado por Hollywood. Nasce um cinema de inspiração ocidental, que valoriza os filmes históricos. A partir de 1937, com a guerra sino-japonesa, e em particular depois do bombardeamento de Pearl Harbor em 1941, o CINEMA JAPONÊS se põe a serviço da propaganda oficial.
 
kenji mizoguchi
Depois da Segunda Guerra Mundial, surgiriam diretores renovadores e uma cinematografia de qualidade que não parou de espantar o mundo. Em 1949, o mercado cinematográfico local tinha cerca de duas mil salas e quatro poderosos estúdios que dividiam a produção e distribuição de filmes: Toho, Shochiku, Daiei e Shin Toho (atual Toei). A Daiei especializou-se em dramas militares, de violência e sexo. A Shochiku produzia comédias, filmes de yakuza (gangsteres) e musicais. A Toho fez história com filmes de época.

Em 1951, “Rashomon / Idem”, de Akira Kurosawa, levou o Leão de Ouro no Festival de Veneza. Pela primeira vez a Europa consagrava a cinematografia do país do sol nascente. Dois anos depois, “Portal do Inferno” receberia dois Oscars. A partir daí, obras de Kenji Mizoguchi (1898 – 1956. Hongo, Tóquio / Japão), Akira Kurosawa (1910 – 1993. Shinagawa, Tóquio / Japão) e Yasujirō Ozu (1903 - 1963. Fukagawa district / Japão), entre outros, atingiram uma popularidade inédita no estrangeiro. O magnífico Kenji Mizoguchi iniciou-se no cinema ainda no período mudo. Inicialmente dedicado a filmes de samurais ou melodramas, tornou-se famoso pelo olhar poético com que trata os seus heróis atormentados, com uma especial dedicação às mulheres, figuras centrais na sua obra. Akira Kurosawa é o mais conhecido dos realizadores orientais. Com inspiração que podia ir de William Shakespeare a John Ford, seus personagens dramáticos estão prontos a desafiar a ordem estabelecida muito além das consequências.
 
akira kurosawa
Outros autores se destacaram nos anos 1950, conhecido como Era Dourada do CINEMA JAPONÊS. É o caso de Kaneto Shindô (1912 – 2012. Saeki District, Hiroshima / Japão), Kon Ichikawa (1915 – 2008. Ise, Mie / Japão), Masaki Kobayashi (1916 – 1996. Otaru, Hokkaido / Japão) e Mikio Naruse (1905 – 1969. Yotsuya, Tóquio / Japão). A produção tornou-se mais provocadora, incluindo filmes de evidente tendência neo-realista.

Nos anos 1960 e 1970 assistiu-se ao advento de realizadores influenciados por novas linguagens cinematográficas. Esta geração, conhecida como “Nova Vaga”, inclui Nagisa Oshima (1932 – 2013. Tamano, Okayama / Japão), Shohei Imamura (1926 – 2006. Cidade de Tóquio / Japão) e Seijun Suzuki (1923 – 2017. Nihonbashi / Tóquio, Japão). Os seus filmes quebram com a tradição e modernizam a temática, com abordagens sexuais, criminalidade, minorias e anti-heróis, utilizando o surrealismo ou narrativas pouco convencionais. Fã de carteirinha desta cinematografia, selecionei dez títulos imperdíveis. Confira.

DEZ FILMES JAPONESES
 
01
CONTOS da LUA VAGA
(Ugetsu monogatari, 1953)

direção de Kenji Mizoguchi
elenco: Machiko Kyô, Mitsuko Mito, Kinuyo Tanaka e Masayuki Mori
 

Nas margens de um lago, no século XVI assolada pela guerra civil, vivem dois casais ambiciosos. Eles rumam à cidade para vender seus produtos. Um dos maridos consegue dinheiro e parte em busca de fama, deixando a esposa cair na prostituição. Quanto ao outro, fica na cidade, enviando a mulher e o filho para casa. Mas esta é morta por bandidos, enquanto ele se deixa seduzir por um fantasma. Um jidai-geki (drama histórico do tempo dos samurais) tendo por base contos fantásticos de Akinari Ueda, de 1776. Entre o realismo histórico e a fantasia, o resultado é uma história comovente. Por ela passa todo um universo onírico. Fazendo uso de um tempo remoto, guerras, sentidos de honra e hierarquia, funciona como um conto de fantasmas ou uma alegoria a algo tão próximo como a ambição desmedida, as ilusões e valorização da aparência.
 
02
ERA UMA VEZ em TÓQUIO
(Tokyo Monogatari, 1953)

direção de Yasujiro Ozu
elenco: Chishu Ryu, Chieko Higashiyama e Setsuko Hara

 
Um casal de idosos viaja para Tóquio para visitar os filhos. Eles não são bem recebidos, em um misto de indiferença e ingratidão. Obra-prima de grande sucesso, chamou a atenção no exterior para Ozu.  O estilo do diretor é inconfundível e, de uma certa maneira, anti-hollywoodiano. Realista, ancorado no quotidiano, nos pequenos acontecimentos. Causa um estranhamento inicial, mas, uma vez que aderimos ao universo do cineasta, dificilmente deixaremos de apreciar a beleza da sua arte. Não há sentimentalismo, nada que seja excessivo. Mesmo assim, toca profundamente. Esse é um dos trabalhos mais sentimentais do diretor, um filme que permanece, mesmo quando acaba. Ele nos habita por muito tempo, nos faz refletir sobre a efemeridade da vida, sobre os relacionamentos, sobre o tempo que passa, sobre a morte.
 
03
PORTAL do INFERNO
(Jigokumon, 1953)

direção de Teinosuke Kinugasa
elenco: Machiko Kyô, Kazuo Hasegawa e Isao Yamagata

 
Após a reprimida revolta de 1159 no Japão, samurai é chamado pelo imperador para ser recompensado. Ele pede como prêmio a mão da dama de companhia da irmã do imperador. Só que ela é casada com outro samurai. No entanto, o pretendente não desiste, usando todos os expedientes ao seu dispor para procurá-la, afrontar seu marido ou até tentar obter os seus fins através do crime. Um filme marcante pelo uso da cor, planos de rara beleza e riqueza cromática. Começando em cenário de guerra, com ação e tensão, logo investe na lentidão, onde a guerra é simplesmente interior. As vontades dos personagens são movidas por sentimentos de honra e dever. Tragédia sem possibilidade de redenção, recebeu Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1954, e ganhou dois Oscars: Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Guarda-roupa de Filme a Cores, bem como prêmio de Melhor Filme do Círculo dos Críticos de Cinema de Nova York.
 
04
TRONO MANCHADO de SANGUE
(Kumonosu-jô, 1957)

direção de Akira Kurosawa
elenco: Toshirô Mifune, Minoru Chiaki, Isuzu Yamada e Takashi Shimura

 
Instigado pela esposa e por ambição, samurai abre o caminho para o trono do castelo, inclusive matando aqueles que nele confiavam, e passando a viver atormentado pelo fantasma da traição. Kurosawa usou como inspiração a tragédia de Shakespeare, “MacBeth”, para construir uma história de paranoia, numa metáfora sobre o poder. Reina uma atmosfera irreal, de florestas encantadas, nevoeiros fantasmagóricos, espíritos malignos, espaços fechados e interpretações estilizadas. Destaca-se o mais visceral dos atores japoneses, Toshiro Mifune, que nos transmite, do seu modo único, toda a sua convulsão interior. Esta é provocada por aparições, sonhos, medos e ambições, em muito alimentadas pela esposa, uma interpretação inesquecível de Isuzu Yamada. Intenso e austero, tem sido elogiado por críticos, que o consideram uma das mais fortes adaptações da peça de Shakespeare, apesar das evidentes liberdades.
 
05
FOGO na PLANÍCIE
(Nobi, 1959)

direção de Kon Ichikawa
elenco: Eiji Funakoshi, Mantarô Ushio e Yoshihiro Hamaguchi

 
Nas Filipinas, no início de 1945, a ofensiva norte-americana obriga à retirada japonesa. Um soldado, entre tantos que estão sem rumo ou objetivo perante a derrota das suas tropas, expulso do seu batalhão como doente, erra por uma ilha, encontrando companheiros, partilhando ou disputando comida, e assistindo a modos ilícitos desta partilha, a medos e desesperos, crime, loucura e até canibalismo. A sua trajetória é cheia de eventos que o fazem perder a esperança no ser humano. Viagem pela loucura e pelo desespero da guerra. Filmado em cenários naturais e com fotografia que transmite extrema desolação, choca pelo realismo, pelo modo como não esconde os efeitos da guerra: doença, morte, escassez, fome, crime. Além disso, o desespero presente em cada rosto, em cada palavra, em cada gesto. Um dos mais realistas filmes de guerra, recebeu prêmios internacionais, e choca pela força do seu discurso e das imagens.
 
06
KWAIDAN - As QUATRO FACES do MEDO
(Kwaidan, 1964)

direção de Masaki Kobayashi
elenco: Rentaro Mikuni, Michiyo Aratama e Tatsuya Nakadai

 
Quatro contos adaptados de tradicionais fábulas japonesas. Conquistou uma indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro – algo raro para uma obra de terror. Os contos são sustentados pelo talento estético de Kobayashi, a trilha sonora, o design de produção e a montagem. Primeiro filme colorido da carreira do diretor, em momentos pontuais ele e seu fotógrafo aplicam filtros azulados na iluminação para representar a chegada de espíritos, alterando a intensidade dos focos de iluminação. Nesse cenário sobrenatural, de morte e fantasmas, três horas são investidas para apresentar o folclore japonês. Kobayashi é um grande cineasta e todos os segmentos são cativantes, inovadores e flertam com as quatro estações do ano, partindo do outono até o verão.
 
07
A FACE do OUTRO
(Tanin no Kao, 1966)

direção de Hiroshi Teshigahara
elenco: Tatsuya Nakadai, Machiko Kyô e Mikijirô Hira

 
Com uma riqueza estilística magistral, transpõe para a tela simbolismos que permitem várias interpretações. No enredo, um homem fica com o rosto desfigurado e sente desmoronar seu relacionamento com a esposa. Por isso, aceita experimentar a invenção de um cientista: uma máscara que se molda ao rosto. Então, com a cara nova, decide testar a fidelidade da esposa, e bola um plano para seduzi-la. Há uma trama paralela que se centra numa garota também com uma deformação no rosto. Solitária, ela tem uma transa incestuosa com seu irmão e a seguir se arrepende, tomando uma decisão radical. O filme questiona o quanto as pessoas colocam importância na aparência, quando o que mais importa é o que está no interior delas. As duas histórias defendem esse ponto. 
 
08
O GATO PRETO
(Yabu no Naka no Kuroneko, 1968)

direção de Kaneto Shindô
elenco: Kichiemon Nakamura, Nobuko Otowa e Kiwako Taichi

 
Duas mulheres são estupradas e assassinadas por um grupo de samurais em um local isolado. Retornando como espíritos, elas se vingam de toda a classe. Um jovem samurai, depois de violenta batalha, é convocado a exterminar a maldição. O texto é inspirado em contos de Rynosuke Akutagawa. Ao mesmo tempo que funciona como uma história de samurais é também uma aterradora narrativa de fantasmas. Tambores e música do Teatro Bunraku criam uma atmosfera macabra, nos preparando para o local onde os espíritos vivem. A construção é cuidadosa e pautada pelo silêncio. Como é típico no cinema japonês, o misticismo é tratado como uma das camadas da existência. Entrelaçando o espiritualismo shintô e o demoníaco, fez grande sucesso.
 
09
A BALADA de NARAYAMA
(Narayama Bushiko, 1983)

direção de Shohei Imamura
elenco: Mitsuko Baisho, Nijiko Kiyokawa e Ken Ogata

 
No fim do século XIX, em um vilarejo, o morador que completa 70 anos de idade deve subir ao topo de uma sagrada montanha e aguardar a morte. Aquele que se recusa a cumprir a tradição traz a desonra para sua família. Tal medida garantia que os mais novos se dedicassem aos seus afazeres diários ao invés de cuidar de seus idosos e também atenuar a escassez de alimentos durante o inverno. No entanto, senhora de 69 anos só aceita morrer quando o seu filho mais velho estiver casado. Duro e belo, nos reserva momentos brutais. Carregado de metáforas, aborda de forma sensível, mas também mordaz, a dualidade entre os sentimentos e o dever, a vida e a morte. Baseado no romance de Fukazawa Shichirō, ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes. 
 
10
TABU
(Gohatto, 1999)

direção de Nagisa Oshima
elenco: Takeshi Kitano, Ryûhei Matsuda e Shinji Takeda

 
O novo membro de uma unidade de milícia samurai causa distúrbios quando vários de seus colegas se apaixonam por ele, ameaçando perturbar o código rígido de seu esquadrão. Explorando a prática comum de wakashudo, em que um oficial samurai costumava levar seu jovem aprendiz como amante, Oshima descreve as emoções profundamente escondidas que surgem em um grupo de guerreiros, separados do resto do mundo, condenados apenas à sua própria companhia. O diretor trata de tabus morais relacionados à homossexualidade, traição e prostituição no passado. Mostra as consequências de quebrar certas regras ou proibições na esfera erótica. Diferente e bonito, com uma trilha sonora impressionante e uma fotografia maravilhosa, a maior parte do drama se passa em ambientes fechados, em interiores sem excessos e escassamente mobiliados. O resultado é uma estética austera, bela e muito masculina.
 

setembro 11, 2015

********** KUROSAWA, o IMPERADOR JAPONÊS



 
Descendente de um clã de samurais, AKIRA KUROSAWA (1910 - 1998. Shinagawa / Japão) trabalhou na juventude como ilustrador de revistas, desenhando anúncios publicitários. Em 1936, iniciou a carreira cinematográfica como roteirista e assistente de direção, até dirigir, em 1943, “A Saga do Judô / Sugata Sanshiro”. O sucesso se dá com um emblemático filme de época: “Rashomon” (1950), levando o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e impulsionando de maneira arrebatadora o ofício do cineasta. Filme divisor de águas do cinema japonês. Até vencer o Festival de Veneza de 1951, o Japão era uma nação exótica para o Ocidente. Foi ele quem abriu as portas para o cinema e, por que não, para a cultura do país. Nesta obra admirável e inovadora, brilha Toshiro Mifune, o rosto do cinema de Kurosawa. Considero o melhor filme do mestre.

toshiro mifune
A parceria Kurosawa-Mifune seria uma das mais profícuas colaborações de diretor-ator da história do cinema, um exemplo de entrosamento hábil, estilo John Ford-John Wayne ou Bette Davis-William Wyler. Fizeram juntos 16 filmes. Infelizmente, a dupla chegaria ao fim em 1965: a filmagem de “O Barba Ruiva / Akahige”, o último filme em preto e branco do diretor, demorou dois anos, e Mifune não podia atuar em outros trabalhos durante a produção, o que o levou a dificuldades financeiras, e tinha suas próprias opiniões sobre a interpretação do personagem, surgindo daí a ruptura definitiva entre ele e AKIRA KUROSAWA. Fim de uma sociedade que se havia iniciado com “O Anjo Embriagado / Yoidore tenshi”, considerado por muitos como “o primeiro filme de Kurosawa”. O próprio diretor admitia que este era o primeiro que ele poderia chamar de “meu filme”.

Tempos depois, quando Toshiro Mifune obteve consagração mundial pelo Lord Yoshi Toranaga da minissérie televisiva “Shogun / Idem” (1980), uma co-produção Japão-EUA, comentários irônicos do diretor gelaram ainda mais a relação. Uma espécie de “reconciliação” ocorreria em 1993, durante os funerais de um amigo comum, após tímida troca de olhares, os dois se abraçaram com olhos marejados. A intimidade, porém, nunca mais seria retomada. A história desse rompimento artístico e humano inspirou um livro, The Emperor and the Wolf / O Imperador e o Lobo, de Stuart Galbraith IV. 

Oitavo e último filho de uma família de classe média de Tóquio, AKIRA KUROSAWA estudou artes plásticas e teve forte influência do irmão Heigo no gosto pela literatura e cinema – ele era narrador de filmes mudos no começo do século passado, mas com o advento dos filme sonoros, ficou desempregado e se suicidou, um episódio que deixou marcas no diretor. Ele disse diversas vezes que foi muito influenciado por cineastas norte-americanos como John Ford, William Wyler, Frank Capra, Howard Hawks e George Stevens. Chegou a citar o italiano Michelangelo Antonioni, mas não como uma influência e sim como “um diretor muito interessante”. No que diz respeito a influências japonesas lembra enfaticamente Kenji Mizoguchi, dentre todos os seus conterrâneos. Mizoguchi cria um mundo puramente japonês, afirmou Kurosawa.

toshiro mifune em os sete samurais” 
Apesar do diálogo amplo com a literatura mundial, Kurosawa tem uma voz extremamente própria. Dono de uma visão universal e essencialmente teosófica, ele resgata a tradição dos samurais e reflete sobre a dor humana, enquanto aborda a ética e a justiça nas relações sociais. A natureza, e a sua preservação, são outra constante em sua obra. Cada filme era para ele um novo desafio, e raramente era fácil. Utilizando um clássico de Dostoiévski, realizou “O Idiota / Hakuchi” (1951). No ano seguinte, lançaria o sensível e triste “Viver”, para alguns o seu melhor trabalho.

Ainda na década de 1950, “Os Sete Samurais” (1954) popularizou mundialmente os valentes samurais. É o título mais lembrado de AKIRA KUROSAWA, e considerado um dos 100 maiores filmes de todos os tempos. Três anos depois, ele adaptaria o denso “Macbeth”, de Shakespeare, que renasce no Japão feudal de maneira brilhante em “Trono Manchado de Sangue”. Em 1958, fez o vibrante “A Fortaleza Escondida”, inspiração de George Lucas em “Guerra nas Estrelas / Star Wars” (1977). 


O grande sucesso “Yojimbo - O Guarda-Costas / Yôjinbô” (1961) foi reproduzido como o clássico faroeste “Por um Punhado de Dólares / Per Un Pugno di Dollari” (1964), de Sergio Leone. Aliás, esse filme provocou um processo judicial por plágio movido e ganho por Kurosawa. Certa vez perguntaram o que ele pensava das adaptações para faroeste de três de seus filmes – além do já citado, “Sete Homens e Um Destino / Magnificent Seven” (1960), onde John Sturges adaptou “Os Sete Samurais”; e “Quatro Confissões / The Outrage” (1964), quando Martin Ritt se inspirou em “Rashomon”. O cineasta respondeu: “Eu não tenho nada contra adaptações de meus filmes. Mas não acredito que possam ter êxito. O contexto básico é muito distinto. Filmes pastiche, de um tipo calculado, não podem nunca ser bons filmes... é, por exemplo, ridículo me imaginar dirigindo um faroeste de Hollywood. Porque eu sou japonês...”

No final da década de 1960, Kurosawa foi para Hollywood realizar um drama de guerra retratando o ataque a Pearl Harbour tanto do ponto de vista japonês quanto do norte-americano. Escreveu um roteiro que teria 4 horas, mas a Fox queria um filme de 90 minutos. Ele desistiu e o filme acabou saindo, dirigido por Richard Fleischer, Kinji Fukasaku e Toshio Matsuda, com o nome de “Tora! Tora! Tora! / Idem” (1970). Kurosawa, em crise emocional e criativa, tentou o suicídio.

Ele venceria pela segunda vez o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Desta vez, em 1975, com “Dersu Uzala”, exatos 25 anos após receber a mesma estatueta por “Rashomon”. É, sem dúvida, um dos seus mais belos filmes. Nos anos 1980, George Lucas e Francis Ford Coppola acabariam co-produzindo dois de seus épicos, “Kagemusha – A Sombra de Um Samurai / Kagemusha” (1980) e “Ran” (1985). “Kagemusha - A Sombra do Samurai” levou a Palma de Ouro em Cannes - prêmio dividido com “O Show Deve Continuar / All that Jazz (1979), de Bob Fosse. Com “Ran”, voltaria a Shakespeare. Uma obra grandiosa, indicada ao Oscar de Melhor Direção. O mestre elegeu Ran como a “obra de sua vida”Os seus últimos filmes (“Sonhos / Dreams”, 1990; “Rapsódia em Agosto / Hachi-gatsu no kyôshikyoku”, 1991; e “Madadayo / Idem”, 1993) são pinceladas intimistas sobre o tempo, a maturidade e a morte. 

Se conhecemos a cinematografia oriental, o maior responsável é AKIRA KUROSAWA. Ele abriu as portas do Japão para o mundo, revelando outros importantes cineastas (Yasujiro Ozu, Kenji Mizoguchi etc.). Curiosamente, os seus filmes sempre fizeram mais sucesso no mundo ocidental do que no seu país natal, onde os críticos viam seu estilo forjado em faroestes (ele tem muito de John Ford, e de “Os Brutos Também Amam Shane”, de George Stevens) e na obra de escritores europeus. Kurosawa transcendeu gêneros, épocas e nacionalidades, mas nunca deixou em segundo plano sua própria cultura, isso é percebido na movimentação dos atores, em sua obsessão por cenários autênticos e na influência do teatro Nô e Kabuki. 

george lucas, kurosawa 
e steven spielberg
Uma das suas características é perfeccionismo. Ele estava ligado justamente ao fato de participar de todas as etapas do processo de realização de um filme. Ele não apenas dirigia, mas também escrevia o roteiro, desenhava os personagens e as cenas de batalha - que servia como storyboard na rodagem -, ajudava na fotografia e no posicionamento da câmera.

A linguagem cinematográfica de AKIRA KUROSAWA está profundamente interligada ao sentimento humano. Em seus filmes, o componente reflexivo, sempre está presente, focalizando o homem frente às escolhas éticas e morais. Clássico na forma e romântico na essência, eclético e denso, fundiu a alma japonesa e os valores universais, subordinando o ideal humanista à beleza que jorra em imagens esplêndidas criadas com notável senso plástico. Além de ser um dos melhores cineastas de seu país, influenciou - e influencia até hoje - a produção cinematográfica em todo o mundo. Considerado pela revista “Entertainment Weekly” como o 6º maior diretor de sempre, em 1990 recebeu da Academia um Oscar especial pelo conjunto da obra. O diretor ainda viveu bons momentos até seu último e póstumo filme, “Depois da Chuva / Ame Agaru, de 1999, que foi terminado por seu discípulo Takashi Koizumi. Ele jamais se aposentou. Conviveu até seus últimos dias com o cinema.

mieko arada em “ran” 

TOP 10 KUROSAWA
 (por ordem de preferência)

01
RASHOMON
(Rashômon, 1951)
Um estupro e um assassinato através de várias narrativas, partindo da lembrança de quatro testemunhas: o bandido, o samurai assassinado, a esposa do samurai e um lenhador. Refilmado em 1964 como “Quatro Confissões”, com Paul Newman, Laurence Harvey, Claire Bloom e Edward G. Robinson.

02
TRONO MANCHADO de SANGUE
(Kumonosu-jô, 1957)
Dois samurais têm uma visão de uma bruxa no meio de uma floresta. Depois que ela profetiza um ambicioso futuro para um deles, tomam atitudes que fazem com que o que foi profetizado se torne realidade, não importando o sangue derramado.

03
DERSU UZALA
 (Idem, 1975)
Velho caçador guia um explorador russo em uma missão pela floresta. Quando se reencontram, tempos depois, o explorador decide levá-lo para sua casa e cuidar dele, mas este sofre um forte impacto entre os padrões de vida da cidade e das montanhas.

04
A FORTALEZA ESCONDIDA
 (Kakushi-toride no San-akunin, 1958)
Um poderoso homem escolta uma princesa fugitiva, em pleno território inimigo, com a ajuda de dois medrosos desertores da guerra.

05
VIVER
(Ikiru, 1952)
Idoso com câncer de estômago, em estágio terminal, utiliza seus últimos dias de sua vida para viver intensamente e tornar melhor a existência alheia.

06
Os SETE SAMURAIS
(Shichinin no Samurai, 1954)
Uma humilde aldeia precisa se defender de ataques de bandidos. Seus moradores contratam ronins (samurais que não servem a um amo) para ensiná-los a guerrear. Maravilhoso do início ao fim, gerou uma refilmagem no faroeste, “Sete Homens e um Destino”, um clássico com Steve McQueen, Yul Brynner e Charles Bronson.

steve mcqueen e yul brynner
07
HOMEM MAU DORME BEM
(Warui Yatsu Hodo Yoku Nemuru, 1951)
No Japão do pós-guerra, jovem tenta se utilizar de sua posição numa empresa corrupta para investigar e expor os responsáveis pela suposto assassinato de seu pai. Obra-prima, um roteiro elegante e a bela música de Sato.

08
RAN
(Idem, 1985)
Chefe da família, já velho, decide dividir seus preciosos bens entre os três filhos, gerando uma sangrenta batalha entre eles.

09
RALÉ
(Donzoko, 1957)
Numa miserável pensão, com diversificados hóspedes, um triângulo amoroso se forma entre o dono da pensão, sua irmã e um ladrão.

10
CÃO DANADO
(Nora Inu, 1949)
Detetive perde a pistola e roda por toda Tóquio em seu encalço. A partir daí, a busca pela arma torna-se uma busca por si mesmo. No processo, acaba se identificando com o universo marginal. O filme denuncia o enfraquecido mundo do Japão pós-guerra, bem como a natureza de uma mente criminosa. 


STORYBOARDS de KUROSAWA





FONTES
O Cinema da Crueldade (1989)
de André Bazin 

O Imperador e o Lobo (2002)
de Stuart Galbraith IV

The Films of Akira Kurosawa (1986)
de Donald Richie

Akira Kurosawa (2007)
de Charles Tesson