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outubro 11, 2025

************ A LEI do CACAU: SANGUE e LOUCURA


 

Olhe o sol. Vê meu sangue, minhas feridas,
meu lodo - é tudo teu. Te ofereço o que sou.
Não minha vida que não tem valor,
mas minha vontade de matar
que não tem preço.
OTHON BASTOS 
como Sete Vezes
 
Sob a inspiração do teatro da crueldade,
esta alegoria do desengano em terras
periféricas ganha um teor apocalíptico
muito próprio e agressivo.
ISMAIL XAVIER
(1947. Curitiba / Paraná)
“Os Deuses e os Mortos: Maldição dos Deuses
ou Maldição da História?” (1997)

 
 
Esquecido durante décadas, recordado por poucos, inclusive no próprio Sul da Bahia onde foi filmado, bonito pedaço de mundo onde nasci à sombra da Mata Atlântica e beirando o Rio Cachoeira, Os DEUSES e os MORTOS (1970) dialoga com as alegorias de Glauber Rocha, em um universo mágico-religioso exaltando o poder e a decadência, a violência e a insanidade, numa parábola sobre a ambição. Ouvi falar dele nos anos 80, em uma publicação da extinta Embrafilme. Tentei ansiosamente vê-lo, escrevendo ao seu diretor, Ruy Guerra, e ele respondeu que infelizmente seria impossível, não havia cópia à disposição, nem mesmo os produtores (um deles, o ator Paulo José, então casado com Dina Sfat, que faz parte do elenco) tinham os negativos. “É da maior importância e tem uma fotografia extraordinária de Dib Lutfi”, contou-me poucos anos depois Othon Bastos, o ator baiano protagonista desse faroeste tropical, como o classificou o jornal “The New York Times”, em 1972, tecendo conexão ao emblemático italiano “Três Homens em Conflito / Il Buono, il Brutto, il Cativo (1966), de Sergio Leone, com Clint Eastwood.
 
O roteiro escrito por Guerra, Flávio Império e Paulo José, centra-se na Bahia dos anos 1930, na disputa entre duas famílias tradicionais, os Santana da Terra e os D’Água Limpa, por matas para a plantação de cacau. Othon representa um forasteiro enigmático, sete vezes baleado, que após se recuperar da chacina, rude como os seus algozes, num sentimento de vingança, se intromete violentamente nesse conflito entre clãs de coronéis pela posse da terra e do cacau. Segundo o teórico Ismail Xavier, ele é “a figura suja, contaminada, que emerge como que da terra, trazendo no corpo as marcas de uma tradição local associada ao sangue, à lama”. Espécie de morto-vivo, esse papel bizarro foi fundamental na brilhante carreira de Othon Bastos, resultando em um trio de excelentes filmes que fez no Cinema Novo – os outros dois, “Deus o Diabo na Terra do Sol” (1964) e “São Bernardo” (1972). Escolhido para o seco personagem Sete Vezes, Walmor Chagas pegou hepatite e foi substituído em cima da hora por Othon, que na ocasião fazia a telenovela “Super Plá”, de Bráulio Pedroso, na Tupi.
 
Nos anos 70, em pleno Regime Militar aceito por milhões de brasileiros, multiplicaram-se os filmes nacionais. O cinema dito de esquerda alimentava-se das verbas públicas do Instituto Nacional de Cinema e, depois, na Embrafilme. Além de financiar a maior parte da nossa cinematografia, o governo federal distribuía os prêmios Coruja de Ouro – uma espécie de Oscar subdesenvolvido, com dinheiro e troféu. Muitos comunistas ganharam grana fácil, enquanto criticavam os milicos. Como acontece ainda hoje. Nessa mescla de paternalismo e mecenato, a glória do cinema oportunista. Somente em 1970 foram produzidos 82 filmes. O problema (o mesmo de hoje) era a exibição. Os artistas enchiam os bolsos e seus filmes toscos não eram lançados e, quando exibidos, ficavam uma ou duas semanas em cartaz, rejeitados pelo público. Fazendo turismo com o dinheiro do nossos impostos, eles corriam o mundo em festivais de cinema. Exatamente como em 2025. Nada de novo no front. Os DEUSES e os MORTOS se apresentou no Festival de Berlim, concorrendo ao Urso de Ouro (Melhor Filme) e provocando mal-estar.
 
“Causou impacto por causa da crueza. Tem uma cena em que muitas pessoas fechavam os olhos: o Nelson Xavier começa a escorregar e eu o amparo com uma navalha, cortando o seu corpo. Aquele ambiente, aquela sujeira da cidade. É muito épico, de grande força. Ele é um libelo tremendo. Na época, não houve protesto, nem vaia. Era de beleza extraordinária. Feito com amor, muita luta, numa época do auge do cinema”, recorda o ator principal. Cineasta de altos e baixos, Ruy Guerra deixou fitas ruins ao longo do caminho cinéfilo mundo afora, mas será lembrado por “Os Cafajestes” (1962), “Os Fuzis” (1964) e “A Queda” (1976). Dos 16 filmes que fez, “Os Fuzis” é o seu melhor momento. Depois de restaurado pela Cinemateca Brasileira, finalmente assisti Os DEUSES e os MORTOS, experimentando o passado grapiúna. Numa mistura de decadência e insanidade, a obra experimental, de um sincretismo sem contorno claro, reúne um elenco de primeira qualidade, o mestre Dib Lufti como diretor de fotografia e o mineiro Milton Nascimento na autoria da soturna trilha sonora de conotação litúrgica.
 
A música tema, mística e ritualista, “Matança do Porco, composta por Wagner Tiso, faz parte do álbum homônimo de estreia da banda Som Imaginário, daquele mesmo ano, e passaria para o repertório de Milton no disco “Milagre dos Peixes”, de 1973. O cantor também atua no longa-metragem, interpretando o pistoleiro Dim Dum. O elenco ainda inclui a participação especial do sambista Monsueto Menezes. Nos bastidores, diversos casos descontraídos: Milton trancado num quarto pelo cineasta até que compusesse o “Tema dos Deuses”. O roubo de um pato para a equipe esfomeada cozinhar. E, após fazer amizade com um dos figurantes, Milton ganhando para alegria de muitos um engradado de cachaça ruim. Na época, o tema da decadência de famílias ligadas à propriedade da terra ganhou relevo no cinema brasileiro. “Os Herdeiros” (Carlos Diegues, 1969) focaliza a crise dos barões do café; “A Casa Assassinada” (Paulo César Saraceni, 1971) traz a crônica patriarcal no interior de Minas Gerais, e “O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (Glauber Rocha, 1969) inclui o declínio dos coronéis do sertão.
 
dina sfat
Inspirado em “Terras do Sem-fim” (1943), da fase cacaueira de Jorge Amado, Os DEUSES e os MORTOS retrata uma luta de interesses econômicos na zona dos cacauais. Uma corrida-do-ouro que atrai aventureiros, jagunços, sertanejos fugitivos da seca, prostitutas, vigaristas. Entre diálogos longos, um drama violento, com banhos de sangue, mortos no chão e pendurados nas árvores. Uma cultura sanguinária, cruel. Ruy Guerra inicialmente tentou filmar o romance amadiano, mas os direitos autorais estavam cedidos a um produtor norte-americano. Rodado em Itajuípe, Ilhéus e arredores, expõe o exótico nacional sob uma influência do barroco, vê-se como uma tripe psicodélica (em que muitos leram o esgotamento das fórmulas impopulares do próprio Cinema Novo), na qual se juntam uma audácia formal e político-poética. O crítico literário Antônio Houaiss o definiu como representante do neo-barroquismo (ao lado de “Azyllo Muito Louco”, 1970, de Nelson Pereira dos Santos; “Pindorama”, 1970, de Arnaldo Jabor; e “Prata Palomares”, 1972, de André Faria).
 
Em tom de quase fábula, o roteiro faz uso de metáforas para explicitar a luta do homem contra o sistema. O som místico, quase etéreo, combina com o enredo fantasmagórico. Como se personificasse as vozes e imagens da loucura, ao lado do rosto deformado do personagem de Othon Bastos e das cenas repulsivas de sangue e lama. Outro aspecto importante em Os DEUSES e os MORTOS é o notável trabalho de elenco, com poderosas performances de Bastos, Dina Sfat, Ítala Nandi, Norma Bengell e Nelson Xavier. Sfat, uma das maiores atrizes do cenário artístico tupiniquim, fez 19 filmes e morreu de câncer, aos 50 anos, em 1989. Norma Bengell, talvez a nossa maior estrela de cinema, está magnífica como sempre. Outro aspecto importante é o trabalho de fotografia de Dib Luft, numa sucessão de planos-sequência marcados pelos movimentos de câmara-na-mão, zanzando em torno das malditas figuras que entram e saem de tela. Destaque para a cena dos jagunços perfilados na praça, com armas, à espera do confronto. A seguir, esses lutadores agonizam. Tudo sangue, poeira e gemidos.
 
Como se vê, esse processo cinematográfico sanguinário de exploração de uma terra para o cultivo do cacau, não é um épico fácil, ou gostamos ou odiamos a experimentação estilística, não há meio termo. É de um tempo em que a arte cinematográfica nacional tinha personalidade, se arriscava sem limites, além da clonagem atual da pouco fértil dramaturgia televisiva. Adianto que o cinema nacional do presente me deixa entediado. Anda sem identidade, com artistas mirando verbas fáceis e o oportunista discurso militante da petezada. Os DEUSES e os MORTOS teve estreia nacional em Ilhéus, a 12 de dezembro de 1970, e lançamento, no Rio de Janeiro, a 30 de agosto de 1971, em bom circuito, mas fracassou retumbantemente na bilheteria. Na epifania turística, participou nos festivais de Cannes e Berlim, sendo definido pelo alemão Werner Herzog, com quem Ruy Guerra viria a trabalhar como ator dois anos depois em “Aguirre, a Cólera dos Deuses / Aguirre, der Zorn Gottes (1972), como um dos melhores filmes de todos os tempos. Exageros à parte, é uma criação que merece sem dúvida ser redescoberta.
 
 TEMA dos DEUSES
(Canção de Milton Nascimento)
DEPOIMENTOS
 
PAULO JOSÉ
(1937 – 2021. Lavras do Sul / Rio Grande do Sul)
produtor

“Ruy Guerra vinha de um filme muito cabeça e de pouco público, realizado na Europa, chamado ‘Sweet Hunters’. Queria fazer um filme que atraísse boa bilheteria. Começamos a conversar. Pensamos em algo como um western brasileiro. Nossas referências foram ‘Yojimbo’, de Akira Kurosawa, uma espécie de western japonês, com uma briga sem fim entre duas famílias, e o italiano ‘Por Um Punhado de Dólares’, que Sérgio Leone realizou a partir do filme de Kurosawa. Resolvemos ambientar nosso filme nas plantações de cacau do sul da Bahia. Claro que o romance ‘Terras do Sem-Fim’, do Jorge Amado, foi uma de nossas leituras. Concluído, o longa-metragem foi lançado comercialmente. O resultado de bilheteria foi um desastre. Ficou uma ou duas semanas em cartaz”
 
RUY GUERRA
(1931. Maputo / Moçambique)
diretor

“Esse filme é talvez o passo mais importante desde ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’ para definir uma realidade cultural, religiosa e humana do brasileiro, que não depende apenas do situacionismo econômico e histórico, que não se restringe ao enquadramento de uma condição tangível no mapa e no barômetro da história oficial. O comportamento mágico aferido ao personagem central do filme, o Sete Vezes, interpretado por Othon Bastos, está infinitamente ligado com o fato dele não ser caracterizado em termos de passado, presente ou futuro, o que desindividualiza, o torna atemporal e alegórico; o desejo impessoal do poder. E o tema fundamental do filme é exatamente a tomada do poder a qualquer custo. William Shakespeare foi praticamente o co-roteirista desse filme”.
 
OTHON BASTOS
(1933. Tucano / Bahia)
ator

“O meu personagem tem uma cicatriz, uma ferida no rosto, uma ferida enorme. Se eu fosse filmar às seis horas da manhã, eu acordava às três para a maquiadora fazer a maquiagem toda. A maquiagem fedia que era uma loucura. E eu tinha que ficar o dia inteiro com aquilo, e o Ruy tinha mania de pegar lama e ficar colocando por cima da ferida. A Norma Bengell não sabia que o meu personagem tinha essa ferida e eu tinha uma cena de amor com ela, em cima do cacau, da semente de cacau. Uma cena linda, shakespeariana. Quando eu vou beijá-la, ela não aguenta, quase vomita de nojo e do cheiro daquela coisa. Quando cortou, a Norma xingou o Ruy, me xingou. Mas vendo o filme era um negócio impactante e todo improvisado no sentido da interpretação.”
 
othon bastos como sete vezes
ORAÇÃO de SETE VEZES
 
Não tenho nome, o que pouco ou nada importa
andei nas aventuras do mundo, o que também não basta
Na cabala dos sete eu levei agora o chumbo
que guardo na carne, não por vontade minha ou de Deus
mas por vontade do mais forte que manda no fogo e na ferida
Para quem traz as mãos nuas de ferro e sangue as ideias
se perdem no som das palavras de protesto
Sete Vezes me chamo até onde pode a memória
e de sete caminhos vou chegar a destino
que não aceito e não nego
Das misérias engoli a lama, esterco, urina
Guardei o corpo e o pensamento imaculado
como uma vestal- agora basta
De meus dez dedos vou fazer outros caminhos de vitória
As tatuagens de sangue que me deram os poderosos
são os sinos de minha bandeira
Não quero saber o porque
Se a lei é o sangue e o jogo é o ouro,
no sangue e no ouro vou buscar resposta.

 
ítala nandi como sereno
Os DEUSES e os MORTOS
(1970)
 
país: Brasil
duração: 100 minutos
Cor
produção: César Thedim e Paulo José 
(Daga Filmes e Produções Cinematográficas / Grupo Filmes / 
C.C.F.B. - Companhia Cinematográfica de Filmes Brasileiros / 
Companhia Cinematográfica Vera Cruz)
direção: Ruy Guerra
roteiro: Ruy Guerra, Paulo José e Flávio Império
fotografia: Dib Lutfi
edição: Ruy Guerra e Sérgio Sanz
música: Milton Nascimento
cenografia e vestuário: Marcos Weinstock
elenco: 
Othon Bastos (“Sete Vezes”), Norma Bengell (“Soledade”), 
Rui Polanah (“Urbano”), Ítala Nandi (“Sereno”), Dina Sfat (“A Louca”), 
Nelson Xavier (“Valu”), Jorge Chaia (“Coronel Santana”), 
Vera Bocayuva (“Jura”), Fred Kleemann (“Homem de branco”),
 Vinícius Salvatore (“Cosme”), Mara Rúbia (“Prostituta”), 
Monsueto Menezes (“Meu Anjo”), Milton Nascimento (“Dim Dum”), 
Gilberto Sabóia (“Banqueiro”) e José Roberto Tavares (“Aurélio”).
 
nota: *** (bom)
 
Melhor Filme, Diretor, Fotografia, Cenografia, Trilha Sonora,
Ator (Othon Bastos), Atriz (Dina Sfat) no VI Festival de Brasília
Prêmio Governador do Estado de São Paulo
de Melhor Atriz (Ítala Nandi)
Coruja de Ouro de Melhor Atriz (Ítala Nandi),
Ator Coadjuvante (Nelson Xavier) e Atriz Coadjuvante (Mara Rúbia)
Melhor Filme no V Prêmio Air France de Cinema
Melhor Filme, Direção e Fotografia
no Festival de Grenoble, França.
 
elenco e diretor no festival de berlim
FONTES
“Alegorias do Subdesenvolvimento: Cinema Novo,
Tropicalismo, Cinema Marginal”
(2012)
de Ismail Xavier
 
“História Ilustrada dos Filmes Brasileiros: 1929-1988”
(1989)
de Salvyano Cavalcanti de Paiva
 
“Revolução do Cinema Novo”
(2004)
de Glauber Rocha
 
“Ruy Guerra: Paixão Escancarada”
(2017)
de Vavy Pacheco Borges
 
“Os Sonhos não Envelhecem”
(1996)
de Márcio Borges

 

ASSISTA Os DEUSES e os MORTOS
https://www.youtube.com/watch?v=v52K0VNUBjU
 
norma bengell como soledade
CINEMA BRASILEIRO neste BLOG
 
01
ANATOMIA de uma AGONIA MILITANTE
 
02
CARMEN MIRANDA: VIVENDO de ALEGRIA
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03
CINEMA BRASILEIRO: GRITOS e SILÊNCIOS
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04
CONDENSANDO RITA ASSEMANY
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05
DINA SFAT, à FLOR da PELE
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06
FLORINDA: do CEARÁ para o MUNDO
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2016/10/florinda-do-ceara-para-o-mundo.html
 
07
GLAUBER ROCHA - os ÚLTIMOS DIAS de VIDA
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08
GLAUCE ROCHA: ILUMINANDO o CINEMA NOVO
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09
GRANDE OTELO: COMÉDIA e TRAGÉDIA
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2016/01/grande-otelo-comedia-e-tragedia.html
 
10
 JORGE AMADO no CINEMA
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2017/01/jorge-amado-no-cinema.html
 
11
MARÍLIA – TALENTO a TODA PROVA
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2017/02/marilia-talento-toda-prova.html
 
12
MEMÓRIA BRASIL: NOSSO CINEMA
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2025/02/memoria-brasil-nosso-cinema.html
 
13
NORMA BENGELL: O OCASO de uma MUSA
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2012/10/norma-bengell-o-ocaso-de-uma-musa.html
 
14
PEQUENA HISTÓRIA do CINEMA BRASILEIRO
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2016/10/pequena-historia-do-cinema-brasileiro.html
 
15
REGIME MILITAR no BRASIL: FILMES
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2019/03/o-regime-militar-brasileiro-no-cinema.html
 
16
VERA CRUZ: AMBIÇÃO e DECLÍNIO
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2011/08/vera-cruz-ambicao-e-declinio.html
 
17
A VIDA e os FILMES da BELA TÔNIA CARRERO
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2025/02/vida-e-os-filmes-da-bela-tonia-carrero.html
 
18
20 GRANDES ATORES do CINEMA BRASILEIRO
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2025/01/20-grandes-atores-do-cinema-brasileiro.html
 
GALERIA de FOTOS
 
   


fevereiro 15, 2025

***** A VIDA e os FILMES da BELA TÔNIA CARRERO



 

Era de tal beleza que encabulei 
e não consegui olhá-la nos olhos.
CARLOS DRUMMOND de ANDRADE
(1902 – 1987. Itabira / Minas Gerais)
 
A mulher bonita precisa ter certas qualidades 
para que sua beleza se torne menos esmagadora.
ANÍBAL MACHADO
(1894 – 1964. Sabará / Minas Gerais)
 
Votei e fiz campanha para José Serra na eleição presidencial em 2002. Não votei no Lula. Acho ele engraçadíssimo. Parece um ator cômico. Ele fala besteira, muitas gafes. Não tem cultura nenhuma. Diz que seu governo está preocupado com a fome, embora, verdade seja dita, não esteja resolvendo o problema da fome.
TÔNIA CARRERO
Folha de S. Paulo
agosto de 2004
 
Olhos: azuis
Cabelos: loiros
Apelidos: Mariinha e Tônica
 

 
Ela foi uma das mulheres mais bonitas do Brasil e durante décadas a nossa mais bela atriz. Sua beleza era um elixir, um bálsamo, um imã. Arrancava suspiros por onde passava. “Ela iluminava Ipanema, as salas, as praias, as ruas…”, escreveu Paulo Mendes Campos. Dona de formosura estonteante, batalhou para se tornar atriz respeitada. Não era levada a sério no início da carreira. Nasceu em uma família de militares. O patriarca, um intelectual, recebia em casa artistas famosos como Procópio Ferreira, Oscarito, Grande Otelo e Dulcina de Moraes. Casou-se cedo com o artista plástico e diretor de cinema Carlos Thiré, e tornou-se mãe de Cecil, futuro ator. Em seguida, TÔNIA CARRERO (1922 – 2018. Rio de Janeiro / RJ) estudou teatro na França com o lendário Jean-Louis Barrault, fazendo o curso “Éducation par le Jeu Dramatique”. Ao voltar de Paris, estreou aos 25 anos no filme “Querida Suzana”, ao lado de Anselmo Duarte e Nicette Bruno. Apadrinhada por Rubem Braga, é contratada por Fernando de Barros para os filmes “Caminhos do Sul” (1949) e “Perdida pela Paixão” (1950). 
 
O cinema é o primeiro palco da estrela. Em 1949 assiste Paulo Autran em cena, e o convida para seu lançamento no teatro em “Um Deus Dormiu lá em Casa”, de Guilherme Figueiredo. A bem-sucedida montagem e a alquimia entre os dois atores são o ponto de partida para diversos outros espetáculos.
A convite do empresário Franco Zampari, entra para a Companhia Cinematográfica Vera Cruz, o estúdio paulistano que alimentou o sonho de um cinema industrial nacional e lançou diversos nomes ao estrelato. Nele, ela protagoniza dois dramas, “Apassionata” (1952) e “Tico-Tico no Fubá” (1952), e a comédia “É Proibido Beijar” (1954). O segundo, dirigido por Adolfo Celi, foi um estrondoso sucesso de bilheteria e ganhou vários prêmios importantes. Trata-se de uma biografia romanceada do popular compositor Zequinha de Abreu (1880 – 1935). Um quarto filme na Vera Cruz, “Ana Terra”, baseado no romance de Érico Veríssimo, ficou incompleto com a falência do estúdio. 
 
Projetada como diva, TÔNIA CARREIRO recebeu convite para jantar – e aceitou! - com Getúlio Vargas, o ditador-presidente do Brasil à época, no Palácio do Catete. Em 1953, de volta ao palco, estreou no Teatro Brasileiro de Comédia (TBC) na comédia “Uma Certa Cabana”, com direção do italiano Adolfo Celi. Depois da Vera Cruz, nunca deixou de filmar, inclusive participando de produções internacionais, mas não fez grandes filmes em sua longa carreira. Resumindo sua trajetória cinematogáfica, o melhor deles foi o policial “Tempo de Violência”, de 1969, com Raul Cortez, Glauce Rocha, Mário Lago e Isabel Ribeiro no elenco. Interpreta Marta, a esposa de bancário que presencia o assassinato de um jornalista e é perseguido implacavelmente pelos criminosos. Separada de Thiré, se relacionou com Celi, que tinha um caso com Cacilda Becker, a primeira-dama do teatro brasileiro, gerando tensão no meio teatral. As duas só fizeram as pazes pouco antes da morte de Cacilda em 1969. Tônia já estava separada de Celi e Cacilda apaixonada por Walmor Chagas. Numa conversa franca, revelou que Cacilda era seu paradigma de atriz. Resolveram as diferenças. Em 1956, o casal mais Paulo Autran formaram a Companhia Tônia-Celi-Autran, estreando em “Otelo”, de William Shakespeare. Seu desempenho rendeu o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte de Melhor Atriz.  
 
nelson xavier e tonia em navalha na carne
Na década de 60, ela ingressa na Excelsior, na telenovela histórica
“Sangue do Meu Sangue” (1969), fazendo enorme sucesso como a atriz Pola Renon. Em 1967, como a prostituta Neusa Sueli de “Navalha na Carne”, desempenha um dos seus papéis mais emblemáticos. Abandona padrões de beleza e dá vida ao texto de Plínio Marcos. A peça marca o seu reconhecimento profissional, recebendo o Prêmio Molière de Melhor Atriz. Foi um dos espetáculos mais aplaudidos da temporada, além de divisor de águas em sua brilhante carreira no teatro, que inclui clássicos de Tchekhov, Albee, Sartre, Pirandello, Shaw, Shakespeare e Ibsen.
Entre outras, participou das telenovelas “Pigmalião 70” (1970) e “Água Viva” (1980), interpretando Stella Simpson, uma socialite excêntrica. Acompanhei essa última do início ao final, uma impactante criação de Gilberto Braga e Manoel Carlos. Pouco depois,
morei um ano e meio no Rio de Janeiro, fazendo amizades com artistas – Jorge Fernando, Antônio Cícero, Lauro Corona, Maria Sílvia, Edson Celulari, Elke Maravilha, Caíque Ferreira etc. - e figuração em programas de humor da Rede Globo. 
 
Nessa época, soube de diversas verdades secretas da classe artística. Uma delas, sobre TÔNIA CARRERO, afirmava que era “um amor de pessoa”, mas bebia sem limites e costumava assediar sexualmente jovens atrizes. Não sei se é verdade, mas quem me confidenciou, um conhecido diretor de telenovelas, era sério. Vi a atriz em cena apenas uma vez, em 1999, no drama “Um Equilíbrio Delicado”, de Edward Albee, dividindo palco com Walmor Chagas, Ítala Nandi e Camila Amado, e comemorando meio século de ribalta. Com quase 80 anos, ainda bonita, chamava a atenção, roubando a cena. No entanto, parecia de pileque. Com atuações marcantes e uma ousada presença de palco, a diva permanece como uma referência na arte da interpretação. Heroína, vilã ou cortesã, personificou inúmeros tipos. Uma das maiores estrelas brasileiras do século 20, mulher de fibra e talento, despertou paixões arrebatadoras. Foi amante do cronista Rubem Braga, que dedicou inspiradas crônicas à amada. Inteligente, engraçada e irônica, tinha Paulo Autran, Clarice Lispector, Manuel Bandeira, Nelson Rodrigues, Villa-Lobos, Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos e Vinicius de Moraes como amigos da vida inteira.
 
No seu último filme, “Chega de Saudade” (2008), TÔNIA CARRERO interpreta dona Alice, frequentadora do clube de dança de salão que dá nome ao longa. Ela faleceu aos 95 anos, de parada cardíaca. Deixou um legado de 54 peças, 19 filmes e 15 telenovelas.
 

FONTES
“Tônia Carrero: O Monstro de Olhos Azuis” (1986)
de Tônia Carrero
 
“Tônia Carrero: Movida pela Paixão”
(2008)
de Tania Carvalho

 
“Eu acho que poderia ter sido uma boa atriz de cinema. O teatro iria me ajudar a ser uma atriz de cinema. Mas cinema no Brasil é quase impraticável. Cinema é indústria e precisa de dinheiro. Sem dinheiro, fica difícil. É claro que aqui acontece uma ou outra produção que acaba dando certo, mas, na maioria das vezes, não sai nada que preste.”
TÔNIA CARRERO
 
anselmo duarte e tônia
 

TODOS os FILMES de TÔNIA
 
QUERIDA SUSANA (1947)

direção de
Alberto Pieralisi

elenco: Anselmo Duarte e Nicette Bruno

CAMINHOS do SUL (1949)

direção de
Fernando de Barros

elenco: Maria Della Costa, Orlando Villar e Sadi Cabral
 
QUANDO a NOITE ACABA (1950)

direção de
Fernando de Barros

elenco: Roberto Acácio, José Lewgoy e Nídia Lícia
 
APASSIONATA (1952)

direção de Fernando de Barros

elenco: Anselmo Duarte, Alberto Ruschel, Ziembinski
e Paulo Autran
 
TICO-TICO no FUBÁ (1952)

direção de Adolfo Celi

elenco: Anselmo Duarte, Marisa Prado e Ziembinski
 
É PROIBIDO BEIJAR (1954)

direção de Ugo Lombardi

elenco: Mário Sérgio, Ziembinski, Otelo Zeloni
e Inezita Barroso
 
MÃOS SANGRENTAS (1955)

direção de
Carlos Hugo Christensen

elenco: Arturo de Córdova, Sadi Cabral e Dionísio Azevedo
 
ALIAS GARDELITO (1961)      

direção de
Lautaro Murúa

elenco: Alberto Argibay e Walter Vidarte
 
COPACABANA PALACE (1962)

direção de Steno

elenco: Sylva Koscina, Walter Chiari e Mylène Demongeot
 
ESSE RIO QUE EU AMO (1962)

direção de
Carlos Hugo Christensen

elenco: Agildo Ribeiro, Daniel Filho e Hugo Carvana
 
SÓCIO de ALCOVA (1962)

direção de
George Cahan

elenco: Jean-Pierre Aumont, Jardel Filho e Norma Bengell
 
TEMPO de VIOLÊNCIA (1969)

direção de
Hugo Kusnet

elenco: João Bennio, Raul Cortez, Hugo Carvana,
Glauce Rocha, Isabel Ribeiro, Mário Lago
e Rubens de Falco
 
GORDOS e MAGROS (1976)

direção de Mário Carneiro

elenco: Roberto Bonfim, Sérgio Britto, Hugo Carvana
e Carlos Kroeber
 
SONHOS de MENINA MOÇA (1988)

direção de
Tereza Trautman

elenco: Marieta Severo, Louise Cardoso, Zezé Motta,
Jofre Soares e Selma Egrei
 
A BELA PALOMERA (1988)

direção de Ruy Guerra

elenco: Ney Latorraca, Cláudia Ohana, Chico Díaz,
Dina Sfat e Cecil Thiré
 
FOGO e PAIXÃO (1989)

direção de Marcio Kogan e Isay Weinfeld

elenco: Mira Haar, Cristina Mutarelli, Carlos Moreno,
Fernanda Montenegro e Paulo Autran
 
O GATO de BOTAS EXTRATERRESTRE (1990)

direção de Wilson Rodrigues

elenco: Maurício Mattar, Zezé Motta, Carmem Silva
e Jofre Soares
 
VINICIUS (2005)

direção de Miguel Faria Jr.

 
CHEGA de SAUDADE (2008)

direção de Laís Bodanzky

elenco: Leonardo Villar, Cássia Kiss, Betty Faria
e Selma Egrei
 
“Tônia Carrero é uma lenda brasileira. Uma lenda que se deixou impregnar pela beleza, luta, o talento, o espírito de aventura, o obstinado trabalho, sua severa paixão.”
NÉLIDA PIÑON
(1937 – 2022. Rio de Janeiro / RJ)
 

QUINZE PEÇAS de TÔNIA CARRERO
 
CÂNDIDA
de Bernard Shaw
direção de Ziembinski
1954
 
ENTRE QUATRO PAREDES
de Jean-Paul Sartre
direção de Adolfo Celi
1956
 
OTELO
de William Shakespeare
direção de Adolfo Celi
1956
 
SEIS PERSONAGENS à PROCURA de um AUTOR
de Luigi Pirandello
direção de Adolfo Celi
1959
 
Os CORRUPTOS
de Lillian Hellman
direção de João Augusto
1967
 
NAVALHA na CARNE
de Plínio Marcos
direção de Fauzi Arap
1967
 
MACBETH
de William Shakespeare
direção de Fauzi Arap
1970
 
CASA de BONECAS
de Henrik Ibsen
direção de Cecil Thiré
1971
 
CONSTANTINA
de Somerset Maugham
direção de Cecil Thiré
1974
 

DOCE PÁSSARO da JUVENTUDE
de Tennessee Williams
direção de Carlos Kroeber
1976
 
QUEM TEM MEDO de VIRGÍNIA WOOLF?
de Edward Albee
direção de Antunes Filho
1978
 
A DIVINA SARAH
de John Murrell
direção de João Bethencourt
1985
 
QUARTETT
de Heiner Müller
direção de Gerald Thomas
1986
 
O JARDIM das CEREJEIRAS
de Anton Tchekhov
direção de Élcio Nogueira
2000
 
A VISITA da VELHA SENHORA
de Friedrich Dürrenmatt
direção de Moacyr Góes
2002
 
“Ser bom faz bem à alma, e à face, e nada envelhece mais que a mesquinharia gravado na cara; nada embeleza tanto quanto a doçura interior. Tônia é toda bela.”
RUBEM BRAGA
(1913 – 1990. Cachoeiro do Itapemirim / Espírito Santo)
 

A LISTA de TÔNIA CARRERO
 
GOSTO
Carlos Drummond de Andrade
Teatro
Dança
Bom papo
Júlio Iglesias
Dostoievski
Perfume
Crianças
Ingmar Bergman
Millôr Fernandes
Futebol
Champanha
Mar
Sol
Beijo demorado
 
DETESTO
Telefonemas longos
Cabelos maltratados
O som dos nossos cinemas
O sofrimento das crianças pobres
Ruas sujas
Dormir cedo
Falta de educação
Teatro vazio
Lula da Silva
Sentir medo
Amores curtos
Aperto de mão frouxo
Chiclete
Falta de responsabilidade
Tráfico intenso
 
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