Mostrando postagens com marcador Howard Hughes. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Howard Hughes. Mostrar todas as postagens

outubro 25, 2025

*************** AVA GARDNER - FILMES e AMORES

 

 

O animal mais belo do mundo.
JEAN COCTEAU
(1889 – 1963. Maisons-Laffitte / França)
 
Sou uma mulher extremamente bonita
em qualquer idade.
AVA GARDNER
 
apelido: Snowdrop e Angel
altura: 1,68 m
cabelos: negros
olhos: verdes
Algumas estrelas ficaram na história privada de Hollywood como devoradoras de homens. Entre elas, Clara Bow e Louise Brooks, ainda no cinema mudo; Joan Crawford, Vivien Leigh, Lana Turner, Marilyn Monroe, Grace Kelly, Natalie Wood, Jayne Mansfield e Ava Gardner. Suas vidas amorosas estamparam manchetes de jornais e colunas de fofocas, colecionando escândalos mundo afora. A deslumbrante AVA GARDNER (1922- 1990. Grabton, Carolina do Norte / EUA) foi uma espécie de Warren Beatty (grande conquistador até se casar com Annette Bening) de saias. Na sua lista amorosa, sem contar os maridos oficiais – Mickey Rooney, Artie Shaw e Frank Sinatra -, constam o bilionário Howard Hughes, o presidente John F. Kennedy, o ditador Fidel Castro, o cineasta John Huston, o toureiro Luiz Miguel Dominguin e os atores Robert Mitchum, Robert Taylor, George Raft, David Niven e Steve McQueen, numa intimidade tema de inúmeros livros e documentários. Em sua passagem pelo Brasil, em 1954, assediou o cantor Carlos Augusto, da Rádio Nacional, famoso na época. Só que ele era gay.

Disposta a tudo pelos homens que desejava, ela eventualmente enfrentou rivais. Em 1958, uma notória saída noturna em Roma, em amores com Anthony Franciosa, casado então com Shelley Winters, terminou em uma batalha feminina. A esposa do ator não gostou nem um pouco da infidelidade e as duas se esbofetearam publicamente em um hotel. O ator George C. Scott também frequentou seus lençóis durante as filmagens de
“A Bíblia / The Bible in the Beginning...” (1966). Protagonizavam uma relação não exatamente pacífica, costumando resultar em tapas violentos. Antes de ser severamente espancada por ele, ela declarou: “A gente se ama. Ele me bate porque me ama”. Ela bebia vorazmente uísque, conhaque, tequila e o que mais aparecesse. Independente e impetuosa, seus tórridos romances alimentaram o mito de mulher fatal. Em 1955, no auge do sucesso, mudou-se para a Espanha, tornando-se musa de festas intermináveis e de toureiros. O interesse surgiu antes, em 1950, ao filmar “Pandora / Pandora and the Flying Dutchman” (1951), de Albert Lewin, em Tossa de Mar, na Catalunha.

A atriz se encantou com a vida noturna espanhola, a cultura romântica e os sensuais toureiros, estabelecendo uma sincera e duradoura identificação com o país. No bonito filme de Albert Lewin, Pandora destrói tudo e todos a seu redor, até que surge em sua vida o Holandês Voador, personagem enigmático que James Mason dota de aura mística. Na tumultuada visita ao Brasil, no lançamento do icônico “A Condessa Descalça” (1954), foi manchete mundial. Bêbada, em um acesso de fúria, quebrou a mobília e jogou objetos de decoração pela janela do então luxuoso Hotel Glória. Por onde passou, o alcoolismo e as aventuras sexuais deixaram um rastro de excessos. A bebida e o cigarro foram sempre companheiros fiéis. Dizia que morreria com um cigarro na mão e um uísque na outra. Envolveu-se com o toureiro Mario Cabré, que arriscou a vida por ela nas arenas. Em 1953, rodando na África “Mogambo” – sua única indicação ao Oscar – descobriu estar grávida de Frank Sinatra. Ao abortar em Londres, uma escala em Madri a levou aos braços de Dominguín, outro famoso toureiro.

Filmando na Itália
“A Condessa Descalça”, aprofundou sua relação com Dominguín através de maratonas de sexo. Ao comprar um casarão em La Moraleja, em Madri, estabeleceu um quartel general para festas que duravam um final de semana e incluíam corridas de touros e apresentações de flamenco. Representado o que os ainda provincianos espanhóis censuravam – uma mulher sozinha, sem religião e, além disso, atriz -, passou a ser tratada como uma ameaça para as famílias respeitáveis, sendo vetada em lugares como o Hotel Ritz. Parceira de Ernest Hemingway na farra espanhola (ela protagonizou três adaptações de sua literatura, “Os Assassinos”, “As Neves de Kilimanjaro” e “E Agora Brilha o Sol”), em 1959 visitou Cuba, hospedando-se na casa do escritor, onde se banhava na piscina totalmente nua. Ao conhecer o ditador Fidel Castro no Havana Hilton, se deu muito bem. Castro a tratou com extravagante galanteria e a levou para um passeio em sua moradia. Sentaram-se na varanda com vista para a cidade, beberam Cuba Libre, conversaram sobre a revolução e foram para a cama.

Sempre com a amante e tradutora do ditador de Cuba, Marita Lorenz, em alerta máximo, a atriz começou a cortejar Castro, e as duas mulheres tiveram um confronto violento no saguão do Hilton. Ébria, acusou Lorenz, a quem chamava de
“vadiazinha”, de esconder seu chefe. Então a seguiu até um elevador e lhe deu um tapa no rosto. Um guarda-costas sacou uma arma e a partir daí Castro decidiu se livrar da sedutora turbulenta arranjando um amante bonitão para AVA GARDNER, que a satisfazia em uma suíte no Hotel Nacional, como cortesia de Cuba. Em 1961, aos 39 anos, depois do suicídio do amigo “Papa”, Nobel de literatura, do fracasso da produção “La Maja Desnuda / The Naked Maja” (1958) e de um acidente que deixou incômodas sequelas, a formosa estrela findou a escandalosa e apaixonada relação com a Espanha, mudando-se para o Reino Unido. Por lá ficou até morrer em 1990. Sempre irreverente e atrevida, era, nas palavras de seu segundo marido, Artie Shaw, “a criatura mais linda que já vi”. Ela também era, de acordo com sua colega britânica Deborah Kerr, “engraçada, afetuosa e humana”.

De espírito aventureiro, teve uma existência repleta de luxúria, amores e travessuras noturnas. Nasceu na Carolina do Norte, em uma fazenda de tabaco, filha de agricultores humildes. Aos 18 anos, uma foto sua colocada na vitrine do estúdio fotográfico do seu cunhado, em Nova York, chamou a atenção de um caça talentos da Metro-Goldwyn-Mayer, que a contratou por sua estonteante beleza. Em 1946, emprestada à Universal Pictures, estrelou o clássico policial noir “Os Assassinos” e sua carreira começou a brilhar. Em “Mogambo”, contracenou com Clark Gable e Grace Kelly, tornando-se uma das poderosas estrelas de sua geração. Participou de mais de 40 filmes, passando seus últimos anos reclusa em um apartamento em Londres com a governanta de longa data, Carmen Vargas, e o amado cão Welsh Corgi, Morgan. Dois derrames em 1986 a deixaram parcialmente paralisada. “Estou tão cansada”, disse pouco antes de morrer de pneumonia aos 67 anos. Vargas levou seu corpo para a Carolina do Norte, em um enterro privado. Nenhum de seus ex-maridos compareceram, mas o seu grande amor Frank Sinatra chorou por horas por não estar naquele momento com ela.

PRIMEIRO CASAMENTO: MICKEY ROONEY
(1942 - 1943)

Contratada pela Metro-Goldwyn-Mayer, onde ficaria até 1958, em seu segundo dia em Hollywood ela foi levada para conhecer os estúdios onde trabalharia. Num deles, o astro Mickey Rooney filmava a comédia “Calouros na Broadway / Babes on Broadway” (1941), vestido como Carmen Miranda. Ao vê-la, correu em sua direção com saltos altos. “Tudo em mim parou”, ele escreveria em suas memórias, “Meu coração. Minha respiração. Meu pensamento.” Ao se apresentar, ela se sentiu lisonjeada. Era o astro de maior bilheteria da meca do cinema desde 1939.  Depois de se fazer de difícil por um tempo, AVA GARDNER aceitou um encontro com o ator carismático e persistente. Cinco meses depois eles se casaram com o apoio do produtor Louis B. Mayer em uma cerimônia discreta e sem publicidade, na pequena igreja branca em Ballard, Califórnia, em 10 de janeiro de 1942. Ela usou um tailleur azul, com um buquê de orquídeas Cattaleya em vez de um típico vestido de noiva. Os únicos convidados presentes no casamento foram a irmã de Ava, Bappie, os pais de Mickey e Les Petersen, o assessor pessoal do astro.

Passaram a lua de mel no Del Monte Hotel, perto de Carmel, na Península de Monterey. Logo após, ela o acompanhou em uma turnê de guerra que incluiu paradas em Boston, Nova York, Fort Bragg e Washington DC. A nova Sra. Mickey Rooney ainda estava nos estágios iniciais de sua carreira, então era ele a estrela em todos os lugares que iam.  AVA GARD
NER tinha apenas 19 anos quando se casou com Mickey Rooney, de 21, e o casamento rapidamente fracassou e começou a ruir. Mesmo apaixonado pela esposa, ele parecia se esquecer que era casado, e tinha diversos casos com outras mulheres. Ela não suportou por muito tempo as constantes infidelidades do marido e, depois de pouco mais de um ano, pediu o divórcio, que foi oficializado em 21 de maio de 1943.

SEGUNDO CASAMENTO: ARTIE SHAW
(1945 - 1946)
Pouco tempos depois, conheceu o músico de jazz Artie Shaw, acreditando ser o amor de sua vida. O artista era culto e podia falar de qualquer coisa com profundo conhecimento, encantando a amada por essa característica. No entanto, ele resolveu transformá-la numa erudita. Se ela não acompanhasse seus assuntos, a humilhava em frente a seus amigos. Assim, a relação não tardou a ter problemas. Ao conhecê-lo, ele havia acabado de retornar da Segunda Guerra Mundial e era um músico popular. Ela depois escreveria em sua autobiografia, “Ava: Minha História”: “Meu Deus, que homem lindo! Artie era bonito, bronzeado, muito seguro de si e não parava de falar. Era tão caloroso e charmoso que me apaixonei por ele. Foi o primeiro intelectual que conheci, e ele me conquistou.” Os dois namoraram por vários meses, antes dela se mudar para a casa dele em Beverly Hills, no verão de 1944. Na época, AVA GARDNER ainda fazia pequenos papéis e tinha tempo para viajar com ele e sua banda pelo país. Aos 22 anos, e ele, aos 35, casaram-se em 17 de outubro de 1945 na mansão em Beverly Hills, na Bedford Drive.

O quinto casamento dele. Em outro casamento modesto, ela usou um terninho azul com um buquê de orquídeas. Passaram a lua de mel no Lago Tahoe por uma semana. Embora brigassem muito, também tinham muito romance. Ele a incentivou a ler e aprender sobre temas que iam da literatura ao xadrez. Para agradá-lo, ela matriculou-se em cursos na UCLA e estudava durante o tempo livre. No fim das contas, o desejo dele de transformá-la em uma intelectual azedou o romance. Ele tentou despertar nela um interesse duradouro por literatura, arte, música clássica, filosofia e política. Ela ficou magoada e se mudou de casa. Então se divorciaram no México e ele logo se casou com sua sexta esposa, a escritora Kathleen Winsor. Eles ficaram casados por um ano. Segundo ela,
“Artie foi uma das dores mais profundas da minha vida. Eu estava apaixonada, eu o venerava, e acho que ele nunca entendeu o dano que causou ao me menosprezar... Mesmo assim, permanecemos próximos. Ele me ensinou a estudar, a pensar, a ler... É impossível conviver com ele, mas é um homem extraordinário.”

TERCEIRO CASAMENTO: FRANK SINATRA
(1951 - 1957)

A lendária história de amor de AVA GARDNER e Frank Sinatra começou no outono de 1949. Casado e bêbado, ele a convenceu, igualmente embriagada, a deixar uma festa em Palm Springs oferecida pelo chefe do estúdio, Darryl F. Zanuck. Eles encheram a cara noite adentro, até chegarem à pacata cidade de Indio. Depois de alguns amassos, ele sacou uma arma e atirou em postes de luz. Excitada, ela juntou-se a ele e atirou na vitrine de uma loja de ferragens. Terminaram em uma delegacia, que depois seria subornada pelo estúdio. Ambos se apaixonaram perdidamente um pelo outro, em um relacionamento intenso, com brigas públicas e privadas. O que começou com uma aventura extraconjugal, tornou-se um escândalo que as revistas de mexericos estampavam nas manchetes. Quando Frank e Nancy Sinatra iniciaram um longo processo de divórcio, AVA GARDNER foi acusada de “destruidora de lares”, recebendo ameaças do público enfurecido. Finalmente livres em outubro de 1951, não perderam tempo e se casaram em 7 de novembro de 1951 na Filadélfia, Pensilvânia. 

Ela tinha 28 anos e ele, 35. No seu terceiro e último casamento, ela usou um vestido lilás, um colar duplo de pérolas, brincos de pérola e diamantes, e um buquê natural de camélias e cravos em miniatura. Após a cerimônia, partiram para a lua de mel em Miami, procurando escapar dos fotógrafos. Sinatra sempre dizia que a única coisa que importava era sua música, mas quando encontrou AVA GARDNER, ela passou a ser o que ele precisava. Parecia o começo de um conto de fadas, mas logo, a relação começou a deteriorar. Na mira da imprensa internacional, foi um casamento marcado por brigas lendárias, bebedeiras, separações, tapas, drogas, infidelidades, três tentativas de suicídio dele e dois abortos – ela afirmava não querer trazer uma criança para um lar tão selvagem. Tiveram um romance turbulento e apaixonado, com muitos altos e baixos. Eram tensos, possessivos, ciumentos e propensos a explosões temperamentais. A pressão aumentou ainda por Frank Sinatra estar no ponto mais baixo de sua carreira. Ela emprestava dinheiro para ele, que estava falido, pagava até suas passagens aéreas.

Tudo mudou economicamente depois que ele ganhou o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante por sua atuação no premiado drama de guerra 
“A Um Passo da Eternidade / From Here to Eternity” (1953), de Fred Zinnemann.  Com o casamento em ruínas, eles decidiram se separar em 1953, embora o divórcio só fosse oficializado em 1957. Mesmo após a separação, os dois permaneceram amigos próximos pelo resto da vida. Ela o considerava o maior amor de sua vida. Ele lhe enviava um enorme buquê de flores todos os anos em seu aniversário e ficava de olho para que nada faltasse a sua amada.
10 FILMES de AVA
(por ordem de preferência)

01
A CONDESSA DESCALÇA
(The Barefoot Contessa, 1954)

direção de Joseph L. Mankiewicz
elenco: Humphrey Bogart, Edmond O'Brien,
Valentina Cortese e Rossano Brazzi

02
Os ASSASSINOS
(The Killers, 1946)

direção de Robert Siodmak
elenco: Burt Lancaster, Edmond O'Brien e Albert Dekker

03
A NOITE de IGUANA
(The Night of the Iguana, 1964)

direção de John Huston
elenco: Richard Burton, Deborah Kerr e Sue Lyon

04
MOGAMBO
(Idem, 1953)

direção de John Ford
elenco: Clark Gable e Grace Kelly

05
SETE DIAS de MAIO
(Seven Days in May, 1964)

direção de John Frankenheimer
elenco: Burt Lancaster, Kirk Douglas, Fredric March,
Edmond O'Brien, Martin Balsam e George Macready

06
E AGORA BRILHA o SOL
(The Sun Also Rises, 1957)

direção de Henry King
elenco: Tyrone Power, Mel Ferrer, Errol Flynn,
Eddie Albert, Gregory Ratoff, Juliette Gréco
e Marcel Dalio

07
AS NEVES de KILIMANJARO
(The Snows of Kilimanjaro, 1952)

direção de Henry King
elenco: Gregory Peck, Susan Hayward, Hildegard Knef
e Marcel Dalio

08
A ENCRUZILHADA dos DESTINOS
(Bhowani Junction, 1956)

direção de George Cukor
elenco: Stewart Granger e Bill Travers

09
55 DIAS em PEQUIM
(55 Days at Peking, 1963)

direção de Nicholas Ray
elenco: Charlton Heston, David Niven, Flora Robson,
John Ireland, Leo Genn, Robert Helpmann,
Paul Lukas, Massimo Serato e Jacques Sernas

10
O GRANDE PECADOR
(The Great Sinner, 1949)

direção de Robert Siodmak
elenco: Gregory Peck, Melvyn Douglas, Walter Huston,
Ethel Barrymore, Frank Morgan e Agnes Moorehead    
FONTES
“Ava Gardner: The Secret Conversations” (2016)
de Peter Evans
 
“Ava Gardner: Love is Nothing”
(1990)
de Lee Server
 
“Ava – Minha História”
(1991)
de Ava Gardner
 
“Ava's Men: The Private Life of Ava Gardner”
(1990)
de Jane Ellen Wayne
 
“Conversations with Ava Gardner”
(2014)
de Lawrence Grobel

 
GALERIA de FOTOS



junho 28, 2022

***** KATHARINE HEPBURN – Uma SENHORA ATRIZ




Nunca fui vítima da época em que vivi. Na verdade, fui um sucesso. Meu estilo de personalidade se tornou o estilo da época. Eu era uma espécie de Nova Mulher.
KATHARINE HEPBURN
 
Altura:  1,73 m
Cabelos: ruivos
Olhos: azuis
Apelidos: Primeira-dama do Cinema, Kate, A Grande Kate e Kathy

 
 
Inteligente, classuda e nada convencional. Ela era estranha. Sardenta, magra e ambígua, mas sua determinação e talento a levaram longe, conquistando o respeito da indústria e o amor de seus fãs. Apesar do comportamento duro e por vezes temperamental, KATHARINE HEPBURN (1907 – 2004. Hartford, Connecticut / EUA) provou muitas vezes ser leal e de bom coração.  Grande atriz no drama e na comédia, ganhou quatro Oscars da Academia e recebeu outras oito indicações. Não se dobrava facilmente diante das tramoias da vida. Aos doze anos, encontrou o irmão Tom, três anos mais velho, enforcado no sótão. Respirou fundo, chorou, mas a vida tinha de continuar. Quase cinco décadas depois, em 1967, enfrentou outro golpe: Spencer Tracy, amado companheiro durante 25 anos, com quem viveu uma relação delicada (foi a outra na vida dele, o ator nunca se separou da esposa oficial, Louise), morreu de ataque cardíaco.
 

A atriz respirou fundo outra vez, chorou novamente, mas a vida tinha de continuar. E como continuou! Permaneceu lépida e fagueira. Sempre agitada, ganhou mais três Oscars e foi indicada a dois Tony Awards, em 1970 por “Coco” e em 1982 por “The West Side Waltz”. Em 1991 lançou a autobiografia “Me – Stories of my Life” e aos 84 anos costumava pedalar bicicleta pelo Central Park, em Nova Iorque. Na época, afirmou que não tinha tempo de temer a morte, “mas se ela chegar, vai ser um alívio”. Filha de um urologista e uma pioneira do feminismo, KATHARINE HEPBURN sempre teve personalidade forte. Sabia o que queria e, principalmente, fazia o que queria. Aos três anos atuava em espetáculos criados pela mãe, propagandeando a ideia do voto entre as mulheres. Aos nove, decidiu se transformar em menino, raspou a cabeça e disse que seu nome era Jimmy. A brincadeira acabou em pouco tempo, mas a postura masculina diante da vida perduraria para sempre.
 
Aos dezessete anos, entrou para a faculdade, pensando em estudar Medicina, e seus modos nada femininos chocaram colegas mais conservadoras. Começou no teatro aos 21 anos, fazendo pequena participação num espetáculo intitulado “Czarina”. Em seguida, ganhou outros papéis em peças montadas na Broadway. O pai não gostou, mas ela, obstinada, bateu pé firme e venceu. Além disso, casou-se com Ludlow Ogden Smith, da alta sociedade da Filadélfia e tornou-se dona do próprio nariz. O casamento não durou, mas a paixão pela arte de representar seria para sempre. Aos 25 anos, surgiu o primeiro expressivo papel no teatro e, logo em seguida, veio o convite para fazer cinema. Desinteressada, pediu um cachê astronômico. Os produtores, no entanto, aceitaram a proposta e ela estreou em “Vítimas do Divórcio / A Bill of Divorcement” (1932), dirigido por George Cukor. Dois filmes depois, atuando em “Manhã de Glória / Morning Glory” (1933), de Lowell Sherman, ganhou o primeiro Oscar de Melhor Atriz.
 
Indomada, ela não se submetia à ditadura dos executivos dos estúdios, que determinavam como as estrelas deveriam se comportar. Fazia tudo o que irritava os chefões: não suportava os caçadores de autógrafos, mantinha a vida particular em segredo (escondeu o relacionamento com o bilionário Howard Hughes, com quem viveu alguns anos) e, mais grave para os rígidos padrões morais da época, não abria mão das calças compridas, que usava publicamente.
 
As histórias começaram a vazar. Falava-se de seu comportamento arrogante e sua recusa em jogar o jogo de Hollywood, sempre usando calças e sem maquiagem, nunca posando para fotos ou dando entrevistas. O público terminou chocado com seu comportamento nada convencional e seus filmes deixaram de fazer sucesso. Em 1939, apaixonada pelo papel de Scarlett em “... E o Vento Levou / Gone With the Wind”, submeteu-se aos testes para a escolha da protagonista, mas foi recusada. Rotulada de “veneno de bilheteria”, voltou a Broadway em “The Philadelphia Story” (1938). Foi um sucesso. Ela comprou os direitos da peça e os vendeu para a M-G-M, assumindo o papel principal. A sofisticada versão cinematográfica foi um êxito de bilheteria, e a atriz ganhou sua terceira indicação ao Oscar.
 
Em 1942, juntou-se a Spencer Tracy pela primeira vez, em “A Mulher do Ano”, e assim começou um dos maiores pares românticos na história do cinema - e um dos mais controversos casos de amor fora das telas. Ele era o par perfeito para aquela mulher inteligente, dura e peculiar. A abordagem dela mais cerebral das coisas era o oposto dos métodos naturais e instintivos de Spencer. Sua atuação sutil a deixou impressionada. Ela a princípio o desconcertou, mas depois o seduziu com sua lealdade, e caráter firme. Protetora, mantinha o ator atormentado longe da bebida, incentivando-o a superar o vício. Ele desfrutaria de alguns dos mais longos períodos de sobriedade sob sua vigilância.

spencer tracy e kate
O fato de que forças tão opostas da natureza e amantes improváveis devam se unir é um mistério em si. De alguma forma, os dois se apaixonaram, e seu caso fora e na tela durou 25 anos. Foi um caso, já que Spencer era casado com Louise Treadwell desde 1923. KATHARINE HEPBURN não foi seu primeiro flerte extraconjugal, nem seria o último, e os mesmos demônios que o enviaram continuamente em busca de refúgio na garrafa também o levaram a pular de cama em cama. O certo é que ela foi uma fonte de conforto. Quando Spencer desaparecia por até meses, ela estava pronta para cuidar dele quando voltasse.
 
Muitos historiadores afirmam que KATHARINE HEPBURN era lésbica e que o relacionamento com Spencer não passava de um estratagema para encobrir suas preferências sexuais. Em contrapartida, os amigos íntimos descrevem os altos e baixos do casal, sua devoção um ao outro e o profundo e permanente amor. No livro “Serviço Completo - A Secreta Vida Sexual das Estrelas de Hollywood”, de Scotty Bowers e Lionel Friedberg, um famoso cafetão de Hollywood garante que a atriz era uma lésbica insaciável, e que ao longo dos anos levou cerca de 150 jovens mulheres para ela. Segundo ele, Spencer era bissexual e o affair apenas uma bonita amizade. Acho até possível a atriz apreciar mulheres, ela tem todas as ferramentas para isso, mas creio no romance com Spencer Tracy. Uma coisa não impede a outra. Eles fizeram nove filmes e ela estava com ele na noite em que morreu. O ator havia se levantado no meio da noite para pegar um copo de leite. Ela ouviu um vidro se estilhaçar e depois um baque forte. Encontrou Spencer morto na cozinha. Havia sofrido um ataque cardíaco fulminante.
 
Na década de 1950, com “Uma Aventura na África”, recebeu sua quinta indicação ao Oscar. Suas performances no cinema diminuíram nos anos 60, dedicando o seu tempo ao parceiro enfermo. Por uma de suas aparições na tela, em “Longa Jornada Noite Adentro”, recebeu sua nona indicação ao Oscar. Nos anos 1970, fez bons filmes para a TV, entre eles “Algemas de Cristal / The Glass Menagerie” (1973), “Um Amor Entre Ruínas / Love Among the Ruins” (1975) e “O Coração Não Envelhece / The Corn Is Green” (1978). No cinema brilhou em “Justiceiro Implacável / Rooster Cogburn(1975), com John Wayne, e “Num Lago Dourado / On Golden Pond” (1981), com Henry Fonda, rendendo sua quarta vitória ao Oscar.
 
Seu último longa foi “Segredos do Coração / Love Affair” (1994), com Warren Beatty e Annette Bening, e seu derradeiro filme para TV, “O Poder do Natal / One Christmas” (1994). Com a saúde em declínio, aposentou-se, morrendo aos 96 anos. Além do marido e de Spencer Tracy, teve como amantes Howard Hughes, Humphrey Bogart, John Ford e o empresário Leland Hayward. De acordo com biógrafo A. Scott Berg, “A Mulher que Soube Amar / Alice Adams” (1935) e “Longa Jornada Noite Adentro” eram seus filmes favoritos. Suas atrizes preferidas, Bette Davis e Vanessa Redgrave. Adorava Vanessa e dizia que ela era uma emoção de se ver e ouvir. De fato, KATHARINE HEPBURN sempre se recusou a ser rotulada, constrangida ou predeterminada por quaisquer estatutos sociais sobre o “comportamento feminino convencional”. Ela foi uma das poucas estrelas de Hollywood que não fez nenhuma tentativa de adoçar sua verdadeira personalidade, claramente anti-glamour, sincera e mal-humorada. Além de extraordinária atriz, era ótima jogadora de golfe, tenista e nadadora. Realmente, uma mulher original.

cary grant e kate em “núpcias do escândalo”
DEZ FILMES de KATHARINE HEPBURN
(por ordem de preferência)
 
01
NÚPCIAS do ESCÂNDALO
(The Philadelphia Story, 1940)

direção de George Cukor
elenco: Cary Grant, James Stewart e Ruth Hussey
 
02
De REPENTE, no ÚLTIMO VERÃO
(Suddenly, Last Summer, 1959)

direção de Joseph L. Mankiewicz
elenco: Elizabeth Taylor, Montgomery Clift, Albert Dekker e Mercedes McCambridge
 
03
Uma AVENTURA na ÁFRICA
(The African Queen, 1951)

direção de John Huston
elenco: Humphrey Bogart e Robert Morley
 
04
QUANDO o CORAÇÃO FLORESCE
(Summertime, 1955)

direção de David Lean
elenco: Rossano Brazzi e Isa Miranda
 
05
A COSTELA de ADÃO
(Adam's Rib, 1949)

direção de George Cukor
elenco: Spencer Tracy, Judy Holliday, Tom Ewell e Jean Hagen
 
06
As TROIANAS
(The Trojan Women, 1971)

direção de Michael Cacoyannis
elenco: Vanessa Redgrave, Genèvieve Bujold e Irene Papas
 
07
LONGA JORNADA NOITE ADENTRO
(Long Day's Journey Into Night, 1962)

direção de Sidney Lumet
elenco: Ralph Richardson, Jason Robards e Dean Stockwell
 
08
LEVADA da BRECA
(Bringing Up Baby, 1938)

direção de Howard Hawks
elenco: Cary Grant, Charles Ruggles e Barry Fitzgerald
 
09
A MULHER do DIA
(Woman of the Year, 1942)

direção de George Stevens
elenco: Spencer Tracy, Fay Bainter e William Bendix
 
10
O LEÃO no INVERNO
(The Lion in Winter, 1968)

direção de Anthony Harvey
elenco: Peter O´Toole, Anthony Hopkins e Timothy Dalton
 
ENTREVISTANDO KATHARINE HEPBURN
Barbara Walters,1981
 
Hepburn: “Eu não vivi como mulher. Eu vivi como um homem... Acabei fazendo o que eu queria e ganhei dinheiro suficiente para me sustentar. E não tenho medo de ficar sozinha.”
Walters: “É por isso que você também usa calças?”
Hepburn: “Não, eu só uso calças porque são confortáveis.”
Walters: “A propósito, você já usou saia?”
Hepburn: “Eu tenho uma.”
Walters: “Você tem uma?”
Hepburn: “Vou usá-lo no seu funeral.”

 
GALERIA de FOTOS