| tallulah bankhead |
A vida privada das estrelas de cinema sempre alimentou especulação e fofocas. Nas décadas de 1930-40-50, algumas atrizes fizeram parte do chamado “círculo da costura”, uma gíria gay supostamente inventada pela diva Alla Nazimova, descrevendo encontros discretos lésbicos, salvaguardando o segredo sexual (maridos ausentes ou gays cooperavam para a freqüência dessas reuniões). Impedidas de revelarem sua sexualidade, essas mulheres famosas - com diferentes graus de sigilo - se relacionavam amorosamente ou sexualmente entre elas.
Com a aplicação do conservador Código Hays, na década de 1930, a repressão aumentou e o cast hollywoodiano teve sua intimidade ainda mais controlada. A situação levou lésbicas a recuarem cada vez mais para dentro do armário, namorando ou se casando com homens, a fim de parecerem heterossexuais. O chamado “casamento perfumado”, termo cunhado na Hollywood clássica para descrever núpcias entre astros gays e estrelas lésbicas. Viviam uma existência pública de casal, enquanto, na intimidade, habitavam quartos separados e dormiam com amantes do mesmo sexo.
| marlene dietrich |
A abertamente bissexual Marlene Dietrich e a insaciável sedutora Tallulah Bankhead pareciam não se preocupar com os rumores em torno da sua sexualidade, inclusive procurando incentivá-los. A imagem pública de La Dietrich e a de alguns dos seus filmes incluem fortes conotações lésbicas. Seus casos amorosos são parte do folclore da meca do cinema. Andrógina, tinha predileção por roupas masculinas (ternos, cartolas, etc), representando uma ambiguidade sexual audaciosa, atraente e lendária.
Ao longo dos anos, os buxixos de lesbianismo ou bissexualidade persistem em torno de várias atrizes - como Lillian Gish, Marie Dressler, Louise Brooks, Jean Arthur, Constance Bennett, Joan Crawford (segundo Marilyn Monroe, ela tentou seduzi-la a todo custo), Barbara Stanwyck, Katharine Hepburn, Annabella (casou-se com o galã gay Tyrone Power), Hattie McDaniel, Arletty, Elsa Lanchester, Judy Holliday, Capucine, Sandy Dennis, Catherine Deneuve, Debra Winger, Helen Hunt, Queen Latifah, Clea DuVall e as brasileiras Norma Bengell, Florinda Bolkan e Carla Camuratti, entre dezenas de outras. Elas nunca confirmaram o falatório.
| marlene dietrich e claudette colbert |
Entre dezenas de casos, listo uma cineasta e doze atrizes lésbicas. As informações vieram principalmente dos livros “The Lavender Screen: Gay and Lesbian Films — Their Stars, Makers, Characters and Critics” (1993) e “Hollywood Lesbians” (1996), de Boze Hadleigh; e “The Girls: Sappho Goes to Hollywood” (2001), de Diana McLellen. Seus autores levantaram o véu da intimidade através de sólidos depoimentos de alcova, correspondência privada e arquivos do FBI.
AGNES MOOREHEAD
(1900 - 1974. Clinton, Massachusetts / EUA)
Estilo esnobe e traços marcantes. Coadjuvante de luxo, ao longo da carreira apareceu em mais de 60 filmes, incluindo a estréia em “Cidadão Kane / Citizen Kane” (1941), de Orson Wellles. Recebeu várias indicações ao prêmio da Academia, mas provavelmente é mais lembrada pela Endora, mãe de bruxa Samantha no seriado de televisão “A Feiticeira”, dos anos 1960. Teve um longo romance com a estrela de “Cantando na Chuva / Singin' in the Rain” (1951), Debbie Reynolds.
ALLA NAZIMOVA
(1879 - 1945. Yalta / Ucrânia)
Sua homossexualidade era conhecida na comunidade cinematográfica, apesar do envolvimento duradouro com o ator gay Charles Bryant. No final da década de 1910, tornou-se uma das estrelas mais populares de Hollywood. Depois do fim do contrato com a Metro, fundou sua produtora, lançando a versão gay (mas financeiramente desastrosa) de “Salomé / Salome” (1923), de Oscar Wilde. Teve romances com a milionária Mercedes de Acosta, a atriz Eva Le Gallienne e a cineasta Dorothy Arzner.
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CLAUDETTE COLBERT
(1903 - 1996. Saint-Mandé / França)
Estrelou várias peças da Broadway e se iniciou no cinema com Frank Capra em 1927. Uma das atrizes mais bem pagas da década de 1930, atuou em épicos, comédias e dramas. Recebeu o Oscar de Melhor Atriz por seu papel de herdeira excêntrica em “Aconteceu Naquela Noite / It Happened One Night” (1934). Exigente com os câmaras e os iluminadores, ela sempre insistia para que seu rosto fosse fotografado do lado esquerdo. Conhecida na intimidade como “Tio Claude”, um dos seus casos mais divulgados aconteceu com a musa germânica Marlene Dietrich.
DOROTHY ARZNER
(1897 - 1979. São Francisco, Califórnia / EUA)
Por algum tempo a única diretora dos estúdios de Hollywood. Realizou 17 longas, sendo o último o anti-nazista “Crepúsculo Sangrento / First Comes Courage” (1943), com Merle Oberon. Durante muitos anos viveu com a premiada figurinista Edith Head.
GRETA GARBO
(1905 - 1990. Estocolmo / Suécia)
Reinou na Metro-Goldwyn-Mayer nos anos 1930 com uma série de clássicos. Devia seu sucesso ao diretor de fotografia William H. Daniels, cuja iluminação transformou seus traços angulosos, quase masculinos, na personificação da beleza. Nunca se casou, referindo-se aos seus assuntos com mulheres como “segredos excitantes”. Discreta, sabe-se de seus casos com Mercedes de Acosta e Eva Le Gallienne. Em suas memórias, a estrela do cinema mudo Louise Brooks assumiu que namorou Garbo.
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JANET GAYNOR
(1906 - 1984. Filadélfia, Pensilvânia / EUA)
Primeira ganhadora do Oscar de Melhor Atriz, reservada, nem ao menos frequentava os “círculos da costura” da sua época. Seus colegas sabiam do seu romance com a atriz da Warner, Margaret Lindsay, e depois com Mary Martin. Para abafar o caso, casou-se com o figurinista Adrian (da M-G-M) e Mary com um decorador de interiores. Durante anos o quarteto morou no Brasil, numa fazenda no interior de Goiás.
JUDITH ANDERSON
(1897 - 1972. Adelaide / Austrália)
Reconhecida como excelente atriz shakespeariana, marcou a história do cinema como a sinistra governanta da mansão Manderley em “Rebecca, a Mulher Inesquecível / Rebecca” (1940), que revela intenções lésbicas. Especializada em papéis densos, o seu romance mais conhecido foi com a famosa atriz teatral Beatrice Lillie.
KAY FRANCIS
(1905 - 1968. Oklahoma / EUA)
Consolidou-se como uma das mais glamurosas estrelas, com um corpo perfeito e sempre portando modelos da alta costura. Trabalhou com os melhores diretores e fez dezenas de filmes durante os anos 1930, até que sua popularidade declinou nos anos 1940.
LIZABETH SCOTT
(1922 - 2015. Scranton, Pensilvânia / EUA)
Loura e belíssima, voz rouca e sensual, trabalhou como modelo, estreando no cinema em 1945. Vendida como nova Lauren Bacall, não se tornou estrela devido aos sucessivos fracassos de bilheteria. Nos anos 1950, a revista “Confidential” revelou seu lesbianismo, contando sobre seu romance com a diva de teatro Tallulah Bankhead e sobre sua persona como inspiração do personagem de Anne Baxter em “A Malvada / All About Eve” (1950). Com o tempo, transformou-se em uma atriz cult.
MARJORIE MAIN
(1890 - 1975. Indianápolis, Indiana / EUA)
Coadjuvante de luxo da M-G-M, seu papel mais popular foi o de Ma Kettle, interpretado em dez filmes. Famosa por personagens durona ou esposa autoritária, teve um longo affair com Spring Byington, ótima coadjuvante que encarnava mães frágeis e carinhosas.
ONA MUNSON
(1903 - 1955. Portland, Oregon / EUA)
Lembrada pela prostituta Belle Watling de “... E o Vento Levou / Gone with the Wind” (1939), sua estréia no cinema ocorreu em 1928. Também trabalhou na Broadway. Casada três vezes, vivia em conflito com sua sexualidade. Cometeu suicídio aos 51 anos de idade, tomando uma overdose de barbitúricos. Deixou uma nota: “Este é a única maneira que eu conheço de ser livre novamente... Por favor, não me sigam.”
TALLULAH BANKHEAD
(1902 - 1968. Huntsville, Alabama / EUA)
Alcançou enorme sucesso na Broadway. Trabalhou no cinema e televisão. Teve inúmeras parceiras amorosas: Nazimova, Marlene Dietrich, Greta Garbo, Dorothy Arzner, Lizabeth Scott, além das atrizes de teatro Katharine Cornell, Laurette Taylor, Sybil Thorndyke e Beatrice Lillie. Ela afirmou ter levado Barbara Stanwyck para a cama. Seu último trabalho foi no seriado “Batman”, interpretando a vilã Viúva Negra. Morreu em 1968.
THELMA RITTER
(1902 - 1969. Nova Iorque / EUA)
Indicada seis vezes ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante, não recebeu em nenhuma das ocasiões. Atriz de teatro e rádio, estava com 42 anos quando estreou no cinema. Sua especialidade, personagens de língua ferina ou desiludidas. Faleceu de ataque cardíaco em 1968, logo após uma aparição no programa de televisão de Jerry Lewis.