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outubro 03, 2014

******************* SALA VIP: “...E o VENTO LEVOU”

clark gable e vivien leigh


Os fãs norte-americanos de E o VENTO LEVOU / Gone with the Wind (1939) puderam apreciar novamente o filme, vencedor de 10 prêmios Oscar, nas comemorações de 75 anos de seu lançamento, com exibições especiais nas salas de cinema dos Estados Unidos. Nos dias 28 de setembro e 1º de outubro, quase 650 salas de cinema do país exibiram o filme em seu formato original, com uma apresentação especial por iniciativa do canal Turner Classic Movies (TCM), que preparou para a ocasião um DVD/Blu Ray especial de aniversário. O filme de 224 minutos de duração, adaptação do livro de mesmo nome de Margaret Mitchell, vencedor do prêmio Pulitzer, foi exibido pela primeira vez na cidade de Atlanta (Geórgia) em 15 de dezembro de 1939 e, desde então, foram nove relançamentos. A história de Scarlett O'Hara durante a conturbada Guerra de Secessão recebeu 10 estatuetas do Oscar, incluindo o primeiro prêmio da Academia para uma atriz afro-americana, Hattie McDaniel, vencedora na categoria Melhor Atriz Coadjuvante pelo papel da aia Mammy. Segundo o site especializado Box Office Mojo, E o VENTO LEVOU ostenta o recorde de filme mais rentável de todos os tempos, com US$ 1,6 bilhão (reajustados de acordo com a inflação), à frente de Guerra nas Estrelas / Star Wars (1977), que arrecadou US$ 1,45 bilhão.

Associado ao TCM, o Harry Ransom Center da Universidade do Texas, em Austin, que abriga os arquivos do produtor independente David O. Selznick, apresenta desde o início de setembro e até 4 de janeiro de 2015 uma exposição sobre a história do filme. O vestido confeccionado com uma cortina verde de Scarlett e o vestido vermelho que ela usa no aniversário de Melanie, ambos de Walter Plunkett, estão entre os destaques da mostra. A exposição conta ainda com páginas do roteiro, que mostram que a famosa resposta final de Rhett Butler - Frankly, my dear, I don`t give a damn (Francamente, minha querida, eu não dou a mínima) - quase foi alterada pela frase Eu não me importo porque a frase original em inglês tem um impacto mais profundo do que pode ser traduzido. A exposição recorda que Talullah Bankhead, Paulette Goddard, Susan Hayward, Lana Turner e Jean Arthur estavam entre as estrelas da época que fizeram testes para o papel de Scarlett, que finalmente acabou com Vivien Leigh. Cadiz, em Ohio, cidade natal de Clark Gable, que teve a casa transformada em museu, e a localidade vizinha de New Philadelphia, também celebrarão o aniversário na próxima semana com uma exibição do filme e o leilão de objetos relacionados com o longa-metragem.

olivia de havilland

DUAS ou TRÊS COISAS sobre ...E o VENTO LEVOU

Símbolo máximo do romantismo, duelo entre o cinismo do galã e o mau-caratismo da mocinha, E o VENTO LEVOU, um dos clássicos mais populares da história do cinema, dirigido oficialmente por Victor Fleming e produzido por David O. Selznick, tem nos papéis principais Vivien Leigh como Scarlett O’Hara, Clark Gable como Rhett Butler, Olivia de Havilland como Melanie Hamilton e Leslie Howard como Ashley Wilkes. Trata-se de um suntuoso épico com a Guerra de Secessão (1861 - 1865) como pano de fundo - conflito armado entre os estados confederados (sul) e abolicionistas (norte), um dos mais sangrentos dos Estados Unidos, com 620 mil soldados mortos. Enquanto fortunas e famílias são destruídas, acompanhamos o percurso de altos e baixos da determinada Scarlett: juventude luxuosa e mimada; a paixão não correspondida; o falecimento da mãe e a loucura do pai; pobreza e fome; casamentos oportunistas; união interesseira com um aventureiro, numa relação de amor e ódio; a morte da filha etc. Mocinha egoísta e sem escrúpulos, Scarlett defende sua terra, Tara, a qualquer custo.
 
vivien leigh

Para os cinéfilos de plantão, uma obra obrigatória. Gostando ou não, ver E o VENTO LEVOU é uma experiência fundamental. Eu o assisti duas vezes, uma ainda menino, na tevê, dublado, e a segunda poucos anos atrás. Honestamente, não faz parte da minha lista de filmes favoritos. Inclusive, considero “O Morro dos Ventos Uivantes / Wuthering Heights”, do mesmo ano, superior. Admiro a fotografia espetacular, trilha sonora, cenografia, figurino, o esforço colossal do genial Selznick e as atuações de Clark Gable, Olivia de Havilland, Thomas Mitchell, Hattie McDaniel e Ona Munson, mas o argumento me parece arrastado e Scarlett é uma das anti-heroínas mais intragáveis do cinema – amo Vivien Leigh por interpretações futuras. Além disso nunca consegui engolir a substituição de George Cukor pelo inexpressivo Victor Fleming. Mas é uma questão de opinião. O evidente é que faz parte do imaginário coletivo e é amado por muitos.


ANTES das FILMAGENS

Margaret Mitchell, autora do romance no qual o filme se baseou, escreveu-o entre 1926 e 1929. Um mês após o seu lançamento, em 1936, o produtor Selznick comprou os direitos de filmagem por 50 mil dólares - a mais alta quantia paga até então pela adaptação do primeiro livro de um autor -, embora certa hesitação, motivada pelo tema (a Guerra Civil não garantia bilheteria) e a grandiosidade do projeto;

Sidney Howard (que morreu antes da estreia do filme) condensou as 1.037 páginas do futuro best-seller, mas o seu trabalho sofreria sucessivas alterações por outros roteiristas, entre os quais os famosos escritores F. Scott Fitzgerald e William Faulkner, todos procurando cumprir as exigências do produtor que ordenava extrema fidelidade ao texto original. Somente o nome de Howard figuraria nos créditos;

A primeira convidada para o papel principal, a superstar da Metro-Goldwyn-Mayer, Norma Shearer, odiou o personagem. Bette Davis desistiu por achar que teria que contracenar com um ator que odiava, Errol Flynn, na ocasião o mais cotado para Rhett Butler;

Ficou famosa a disputa pelo papel de Scarlett. Mais de 1.400 atrizes foram entrevistadas, sendo que mais de 400 fizeram leitura filmada do roteiro. Dentre as atrizes testadas estão Paulette Goddard (que por pouco não ganhou o papel), Jean Arthur, Lucille Ball, Tallulah Bankhead,  Claudette Colbert, Miriam Hopkins, Joan Crawford, Katharine Hepburn, Carole Lombard, Barbara Stanwyck, Loretta Young, Joan Bennett, Lana Turner, Susan Hayward e Margaret Sullavan. Com as filmagens iniciadas sem protagonista, o irmão de Selznick, Myron, visitou os sets com Laurence Olivier e sua namorada Vivien Leigh, uma inglesa de 27 anos. A apresentação de Vivien por Myron tornou-se célebre: “David, quero que conheça Scarlett O’Hara”. A busca chegara ao fim;

Desde que leu o livro, Vivien Leigh sonhou com o papel de Scarlett. Chegou a dizer em 1937, ainda em Londres: “Eu serei Scarlett O’Hara. Esperem e verão”. Isto era, no mínimo, curioso, uma vez que ela era na ocasião uma desconhecida em Hollywood;

Chamada para o papel da irmã mais nova de Scarlett, Judy Garland terminou em “O Mágico de Oz / The Wizard of Oz” (1939), sendo substituída por Ann Rutherford;

Gary Cooper recusou interpretar Rhett Butler, alegando que o filme seria o maior fracasso da história de Hollywood. Errol Flynn e Ronald Colman também foram pensados para o papel, mas o público escolheu Gable por votação, em um concurso da revista Photoplay. A autora Margarert Mitchell queria Basil Rathbone. Gable, na verdade, nunca pensou em fazer o papel de Butler e levou muito tempo para ler E o VENTO LEVOU, lendo-o mais por insistência da esposa Carole Lombard e de amigos;

A fim de conseguir Gable, o produtor entrou em acordo com seu sogro Louis B. Mayer, que cederia o astro, mas em troca entraria com participação de metade do investimento previsto para a realização, faria a distribuição e receberia 50% dos lucros;

leslie howard

Para Ashley Wilkes, Selznick tinha em mente Leslie Howard desde sempre, embora Melvyn Douglas, Ray Milland e Lew Ayres chegaram a ser cogitados;

A contratação de uma atriz para a bondosa Melanie não tardou. Na lista de candidatas, Maureen O’Sullivan, Janet Gaynor, Geraldine Fitzgerald, Frances Dee e Joan Fontaine, mas venceu a irmã desta última, a rainha das matinês da Warner, Olivia de Havilland;

A competição para o papel de Mammy foi acirrada. A primeira dama dos EUA, Eleanor Roosevelt, escreveu para o produtor do filme pedindo que o papel fosse dado à sua empregada. Entretanto, Clark Gable queria Hattie para o papel, o que ajudou bastante;

Foram confeccionados 2.500 figurinos para a superprodução.



DURANTE as FILMAGENS

Foram rodados 113 minutos da primeira cena filmada, a do incêndio em Atlanta, queimando-se cenários de filmes (“O Rei dos Reis / The King of Kings”, 1927; “King Kong / Idem”, 1933, etc.). Contudo, o fogo provocado foi tão intenso que moradores próximos ligaram para os bombeiros, pensando que a RKO estivesse ardendo em chamas;

As filmagens propriamente ditas começaram em 26 de janeiro de 1939 por George Cukor, que dirigiu apenas 4% da fita, mesmo sendo amigo pessoal e homem de confiança de Selznick. Ele iniciou a sequência do baile de Atlanta e, logo depois, foi despedido devido ao tom intimista que imprimia à narrativa e a influência de Clark Gable, que entrara em choque com o caráter disciplinador do diretor e não queria ser dirigido por um homossexual bem próximo ao seu passado de garoto de programa;

Desejando uma narrativa épica, Selznick pensou até em convocar o pioneiro D. W. Griffith (“Intolerância / Intolerance”, 1916) para prestar consultoria;

Visando agradar Gable, Selznick forneceu uma lista de diretores disponíveis: King Vidor, Jack Conway, Robert Z. Leonard e Victor Fleming. Sem vacilar, o galã optou por um dos mais fracos, Fleming, que dirigiu aproximadamente 45% do filme;

Esgotado pelos aborrecimentos seguidos com Vivien Leigh (que, a exemplo de Olivia de Havilland, ia ensaiar, em sigilo, na casa de Cukor), e insatisfeito com as reclamações constantes do tirano Selznick, Victor Fleming sofreu um colapso nervoso;

Sam Wood assumiu a direção, com 15% de participação no filme. Quando Fleming se recuperou, os dois diretores continuaram na direção, mas em horários e sets diferentes. William Cameron Menzies e Sidney Franklin também dirigiram várias cenas;

Cerca de mil figurantes, misturados bonecos de cera, contribuíram para a sequência em que Scarlett caminha entre os corpos de sobreviventes da batalha de Gettysburg;

Vivien Leigh trabalhou nos sets de filmagem por 125 dias, recebendo a quantia de 25 mil dólares, já Clark Gable trabalhou por 71 dias e ganhou 120 mil dólares;

Ninguém na produção acreditava que Vivien Leigh fosse resistir ao charme de Gable. Na verdade, eles não se entenderam, pois ela considerava pouco profissional que ele deixasse o estúdio sempre às seis da tarde. Já ele achava um abuso oferecer um papel norte-americano a uma britânica. Os dois protagonizaram acesas discussões com a atriz ameaçando abandonar as filmagens;

Vivien odiava o hálito de seu parceiro – ele comia cebolas de propósito e bebia licor poucas momentos antes de gravar –, deixando-a com náuseas. Ele revelou que, quando a beijava, pensava em um bife. Na pele de Rhett Butler e Scarlett O'Hara ou na de Clark Gable e Vivien Leigh, eles jamais se entenderam;

As diferenças entre o produtor e o fotógrafo Lee Garnes culminaram com a demissão deste, sendo substituído por Ernest Haller, que nunca havia feito um filme colorido antes. Garmes queria tons suaves, mas Selznick insistia em cores artificiais de cartão-postal.

clark gable

DEPOIS das FILMAGENS

Em 1º de julho de 1939 terminaram as filmagens e Selznick tinha para editar cerca de 60.000 metros de filme, equivalente a 28 horas de projeção;

A trilha sonora é uma das mais longas concebidas para um filme. No mesmo ano, o vienense Max Steiner criou nada menos que outras 11 partituras;

Trancado dia e noite com o editor Hal C. Kern e seu assistente, James E. Newcom, o produtor montou a fita sem consultar nenhum dos diretores que nela tomaram parte e ordenou a filmagem de cenas adicionais, como a que Scarlett se esconde debaixo da ponte numa tempestade enquanto uma tropa da União passa sobre a mesma;

A produção custou pouco mais de cinco milhões de dólares e, quatro anos depois de seu lançamento, a renda obtida nas bilheterias superava a marca dos 32 milhões de dólares;

A famosa frase de Rhett: “Frankly, my dear, I don’t give a damn / Francamente, querida, eu pouco me importo”, foi censurada pelo Código Hays. “Damn” era considerado pesado, mas ao pagar a multa de 5 mil dólares, Selznick conseguiu a liberação;

ona munson

O filme idealiza a sociedade branca do velho sul dos Estados Unidos: os senhores de escravos são protetores benevolentes e a causa confederada uma nobre defesa da terra natal e de um modo de vida. Com isso, apresenta tendenciosamente uma visão positiva sobre a sociedade sulista ou o próprio conceito sulista sobre a Guerra Civil;

Enquanto uma multidão de um milhão de pessoas se acotovelava pelas calçadas e ruas de Atlanta – então com 300 mil habitantes -, na Geórgia, uma pequena carreata rumava lentamente ao cinema Loew’s Grand, com a fachada decorada como a mansão de Twelve Oaks. Nesta noite gelada de 15 de dezembro de 1939, os atores Vivien Leigh, Clark Gable e Olivia de Havilland receberam o público na cerimônia de estreia. “Foi o maior evento que presenciei no sul dos EUA, disse o ex-presidente Jimmy Carter;

O elenco negro sequer foi convidado para a première, devido as leis racistas da Geórgia;

No Brasil, a estreia de gala aconteceu no Rio de Janeiro, no Cine Metro, em 12 de setembro de 1940, às 20h45m, com os 1.400 lugares do cinema inteiramente ocupados. A primeira dama do país, Darcy Vargas, patrocinou o evento, leiloando exemplares da obra de Margaret Mitchell autografados pelos astros principais do filme. No mesmo dia, diretamente de Hollywood, numa transmissão da Hora do Brasil, Gable, Vivien Leigh e Selznick saudaram o evento e contaram alguns detalhes da filmagem. O filme permaneceu oito semanas em cartaz com casa cheia;

selznick, vivien e o oscar
Foi a primeira fita a cores a ganhar o Oscar de Melhor Filme. Levou também Oscar de Melhor Diretor (Fleming), Melhor Atriz (Leigh), Melhor Atriz Coadjuvante (Hattie McDaniel), Melhor Roteiro Adaptado (Sidney Howard), Melhor Fotografia a Cores (Ernest Haller e Ray Rennahan), Melhor Montagem (Hal C. Kern e James E. Newcom) e Melhor Cenografia (Lyle R. Wheeler), além de prêmios especiais. Concorreu ao Oscar de Melhor Ator (Gable), Melhor Atriz Coadjuvante (de Havilland), Melhor Trilha Sonora, Melhores Efeitos Especiais e Melhor Som;

Na mesma cerimônia da Academia em que E o VENTO LEVOU arrebatou o Oscar de Melhor Filme, o versátil Thomas Mitchell - que faz Gerald O’Hara, pai de Scarlett - ganhou o Oscar de Ator Coadjuvante por “No Tempo das Diligências / Stagecoach”, de John Ford, como o bêbado doutor Josiah “Doc” Boone. Neste mesmo ano, ele faria três outros clássicos: “Paraíso Infernal / Only Angels Have Wings” (Howard Hawks), “A Mulher Faz o Homem / Mr. Smith Goes to Washington” (Frank Capra) e “O Corcunda de Notre Dame / The Hunchback of Notre Dame” (William Dieterle);

Quarto de cinco filmes em que o diretor Victor Fleming e Clark Gable trabalham juntos. Os demais foram “Terra de Paixão / Red Dust” (1932), “A Irmã Branca / The White Sister” (1933), “Piloto de Provas / Test Pilot” (1938) e “Aventura / Adventure” (1945);

Nos 10 primeiros dos 100 Filmes de Todos os Tempos do American Film Institute (AFI);

Do elenco, ainda está viva Olivia de Havilland, aos 98 anos de idade;

Lady Vivien Leigh (1913 - 1967. Darjeeling / Índia), uma das maiores atrizes do teatro britânico, teve morte súbita por tuberculose aos 54 anos. Ao concluir “Os Desajustados”, O “Rei de Hollywood” Clark Gable (1901 - 1960) sofreu um infarto do miocárdio e morreu dez dias depois, em 1960.  Leslie Howard (1893 - 1943. Londres / Reino Unido) partiu para sempre durante a Segunda Guerra Mundial, aos 50 anos, quando o avião em que viajava de Lisboa para a Inglaterra foi abatido por aviões alemães. Hattie McDaniel (1895 - 1952. Wichita / Kansas) faleceu aos 57 anos, na Califórnia. Thomas Mitchell (1892 - 1962. Nova Jersey / EUA), um dos maiores coadjuvantes do cinema, aos 70 anos.
















dezembro 19, 2011

****** SALA VIP: “A FELICIDADE não se COMPRA”




Produzido e dirigido pelo cineasta de origem italiana Frank Capra (1897 - 1991. Bisacquino / Itália), mestre em comédias que apresentam mensagens reforçando os valores humanos, a exemplo de Do Mundo Nada se Leva / You Can’t Take It With You (1938), esta fábula fala de amizade, compaixão, solidariedade, amor e honestidade, contando a história de George Bailey (James Stewart), um sujeito de bom coração. Seu maior sonho é cursar uma faculdade, viajar pelo mundo, sair de sua pequena cidade. Porém, sua bondade e seu desejo de ajudar as pessoas vão sempre adiando a realização de seus sonhos. A cada oportunidade surgida, um novo obstáculo se interpõe no caminho de suas realizações. Com o passar dos anos, George se vê cada vez mais preso aos negócios sempre instáveis da empresa que herdou do pai. 

Ele é na verdade um realizador de sonhos. Através da pequena construtora herdada financia casas próprias para famílias pobres, cobrando juros tão baixos que mal consegue manter a sua própria família. Infelizmente, em virtude de grave problema financeiro, provocado por desonesto banqueiro (Lionel Barrymore, excelente), ele se vê prestes a perder a empresa, a reputação e a harmonia familiar. Na véspera do Natal, assumindo que fracassou, decide tirar a própria vida, saltando de uma ponte, mas é impedido pelo doce e atrapalhado aspirante a anjo, Clarence (carismático Henry Travers), que mostra o quanto ele é importante para todos da sua comunidade. 
 
Filme lendário, certamente o melhor já feito com o Natal como pano de fundo – ao lado de “De Ilusão Também Se Vive / Miracle on 34th Street” (1947) -, foi produzido pela Liberty Films, uma companhia independente recém-criada, cujos donos, o próprio Capra, William Wyler, George Stevens e Sam Briskin, pretendiam ter liberdade e independência totais sobre suas próprias obras, ao contrário do que acontecia nos filmes feitos para os grandes estúdios. Mas faliu quando este filme fracassou, não conseguindo cobrir seu alto custo de produção - cerca de US$ 3 milhões e 700 mil. 

Com o fim da Liberty Films, A FELICIDADE NÃO se COMPRA (It’s a Wonderful Life, EUA, 1946) não teve seus direitos autorais comprados por nenhum estúdio, e acabou deixando de ter copyright, tornando-se de domínio público, qualquer um poderia fazer qualquer coisa com ele (por mais estranha que possa parecer essa situação, ela é comum, aconteceu com vários filmes de Orson Welles, praticamente todos os de Charles Chaplin da fase muda e os da fase inglesa de Alfred Hitchcock, só para dar alguns exemplos). Por ser grátis, passou a ser um campeão de reprises nas tevês norte-americanas e do mundo afora – e, graças a isso,  reconhecido e amado por novas gerações. Tradição de Natal nos Estados Unidos, é hoje um dos filmes mais amados da história, criando assim sua reputação de clássico imperdível.
 
Com emoção, humor ingênuo, toques lúdicos, ritmo e inteligência, o longa discute várias questões: o que é melhor, ter amigos ou se aproveitar das pessoas para vencer na vida? Será que nossas ações passam despercebidas? Quando encontramos um amor devemos embarcar nele ou deixá-lo para trás com receio de problemas futuros? São temas discutidos de maneira leve e sentimental. Ao invés de um aprofundamento, as situações vão acontecendo e nos absorvendo. Ao final, o público está completamente emocionado com tudo o que passou na vida de George, e a mágica está na ligação entre a vida desse personagem fictício com nossa própria vida. 

O roteiro de Frances Goodrich, Albert Hackett e do próprio Capra, com diálogos adicionais de Jo Swerling, apresenta diversas ações sobre uma felicidade que o dinheiro simplesmente não pode comprar, como o romantismo de George e Mary Hatch passeando sob a luz do luar e se conhecendo. James Stewart, que já havia trabalhado com Capra em “Do Mundo Nada Se Leva” e “A Mulher Faz o Homem / Mr. Smith Goes to Washington” (1939), impõe o seu carisma, numa composição marcante. É uma das suas melhores atuações – ele que foi dirigido por Billy Wilder, George Stevens, Alfred Hitchcock, Otto Preminger, Ernst Lubitsch, George Cukor, John Ford e Anthony Mann. 
 
O curioso é que por pouco James Stewart não interpretou o generoso George Bailey, pois a primeira opção era Cary Grant, que recusou a excelente oportunidade, e ele queria descansar da Segunda Guerra, em que havia acabado de lutar, mas após muita insistência de produtor/diretor, aceitou o trabalho. Sua companheira de cena, Donna Reed, faz a mulher perfeita de tantos filmes hollywoodianos: compreensiva, amorosa e companheira em todas as situações. A química entre os dois atores é incrível e, se não funcionasse dessa maneira, o filme poderia cair na banalidade. 

Capra queria sua atriz preferida, Jean Arthur, para a composição de Mary, mas ela estava comprometida com uma peça na Broadway. Então resolveu dar a primeira chance de estrela para essa jovem atriz da MGM. Ela disputou a personagem com Ann Dvorak, Ginger Rogers e Olivia de Havilland. Lionel Barrymore, que faz o terrível vilão, e que na vida real era realmente paralítico, aceitou  fazer o filme sem ler o roteiro, mas Capra pensou também em Vincent Price, Claude Rains, Charles Coburn e Edgar Buchanan. Já para o papel do tio, feito por Thomas Mitchell, foram considerados Walter Brennan, Barry Fitzgerald, W.C. Fields e Adolphe Menjou. Outro destaque é a revelação de Gloria Grahame como Violet. Ela seria uma das principais femmes fatale do Film Noir e levaria o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por “Assim Estava Escrito / The Bad and the Beautiful” (1952). Neste filme, todos estão perfeitos, mas ninguém melhor do que a dupla central, em particular Jimmy Stewart, que faz o herói que vive numa cidadezinha qualquer sonhando em sair dela e viajar pelo mundo. Mas a vida nunca lhe permitiu.
 
Com inocência, ternura e sinceridade, A FELICIDADE NÃO se COMPRA é uma das mais belas e comoventes obras da história do cinema. E resistiu bem ao tempo, tanto por causa de sua mensagem humanitária, sua fé no homem comum e sua crença ingênua na bondade intrínseca do ser humano, como também pelo conjunto de talentos reunidos. Este foi o primeiro filme de Capra depois do período em que trabalhou na Guerra, documentando o conflito, e o que certamente marcou sua vida, mas não perdeu a confiança na humanidade. Tanto que preferiu voltar com esta fábula solidária. 

A história original de Phillip Van Doren Stern nasceu como um conto, “The Greatest Gift / O Maior Presente”, que o autor mandou imprimir 200 cópias, enviando-as para os seus amigos como presente de Natal. A RKO Radio Pictures gostou do argumento e comprou os direitos por US$ 10 mil. Escreveram três roteiros em cima dele, mas acabaram desistindo do projeto. Quando Capra leu o projeto, comprou-o pelo mesmo preço. Era o seu filme predileto tanto quanto de James Stewart. Em sua autobiografia, Capra escreveu: “Acho que foi o maior filme que eu fiz. Mais ainda, eu acho que é o maior filme que qualquer um fez. Ele não foi feito para os críticos ou os literatos. É meu tipo de filme para o meu tipo de público”. Apesar do fracasso de bilheteria, foi indicado ao Oscar de Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator, Melhor Montagem e Melhor Som. Não levou nada, foi o ano de “Os Melhores Anos de Nossas Vidas / The Best Years of Our Lives”, que arrebatou sete estatuetas. Ganhou o Globo de Ouro de Melhor Diretor.
 
gloria grahame
Votado pelo American Film Institute (AFI) como o filme que mais inspira as pessoas e o mais poderoso de todos os tempos, ficou em terceiro no gênero fantasia e décimo primeiro dentre os 100 melhores de todos os tempos. A fábula de Frank Capra a cada ano se torna mais e mais irresistível. Sem sentimentalismos, fala sobre a importância que cada pessoa tem no mundo. 

E nos faz pensar em como seria o mundo sem que nós estivéssemos nele. É um exercício interessante e imprescindível. Ele nos faz pensar, e o mais surpreendente de tudo, faz com que a gente queira se transformar em uma pessoa melhor.  É difícil não se emocionar com este filme, que embora siga uma fórmula de bondade e altruísmo pouco realista, o faz de forma tão convincente que não se pode escapar de suas armadilhas sentimentais. 

O segredo para que a fita seja universal, e preserve ao longo do tempo sua força de esperança e fé no ser humano, está na crença de que a bondade é possível e habita sempre o coração dos homens. Quando a dirigiu, Capra tinha em mente passar ao público a sensação de que a vida, apesar das tragédias, vale a pena, que o simples fato de estar vivo já é motivo para ser celebrado. Talvez os traumas da guerra recém-terminada tenham enevoado a compreensão da platéia, mas o fato é que, da década de 1960 para cá, A FELICIDADE NÃO se COMPRA galgou o imaginário popular e se estabeleceu como um dos filmes que mais conseguiu influenciar a maneira do público em encarar as situações difíceis do cotidiano. Ele é um daqueles longas necessários, que temos que assistir pelo menos uma vez na vida. Simplesmente Maravilhoso! Não importa quantas reprises a tevê exiba, não importa quantas décadas o atravessem, merecerá sempre os olhos lacrimejados de seus milhares de espectadores.
 
A FELICIDADE NÃO se COMPRA (It’s a Wonderful Life, EUA, 1946). Duração: 130 min; P & B; Produção e Direção: Frank Capra (Liberty Films); Roteiro: Frances Goodrich, Albert Hackett e Frank Capra; Fotografia: Joseph Walker e Joseph Biroc; Edição: William Hornbeck; Música: Dimitri Tiomkin; Cenografia: Jack Okey (d.a.), Emile Kuri (déc.); Vestuário: Edward Stevenson; Elenco: James Stewart (“George Bailey”), Donna Reed (“Mary Hatch”), Lionel Barrymore (“Henry F. Potter”), Thomas Mitchell (“Tio Billy Bailey”), Henry Travers (“Clarence”), Beulah Bondi (“Ma Bailey”), Ward Bond (“Bert”), Frank Faylen, Gloria Grahame (“Violet Bick”), H. B. Warner e Samuel S. Hinds.

Nota: ***** (ótimo)

Prêmios: Globo de Ouro de Melhor Direção

donna reed e james stewart