Por quase todos os ângulos, há uma fratura que não cessa de se refazer. Sonhos são sem história. Contratos são assinados por mãos trocadas. A cidade fantasma, em escombros, é atravessada por uma multidão de mesmos. A natureza, anunciada pelo vento, mostra-se como ela é: indiferente. Essa fratura que se reinstaura a cada encontro fracassado com o outro, faz quem olha preferir recuar diante do mundo. Porém, nesse recuo, a recusa de estar com os outros faz da solidão um ponto de vista. Se nada muda um passo a mais ou a menos, um passo atrás permite ver o que o cerca. Nesse mundo em que o trabalho não constrói nada e em que nossa vida é o trabalho, nesse mundo Sem Calor Nem Cor, G. Paim nos faz acompanhar o olhar sobre um tempo que se estende sem mudar, a despeito dos dias. Contudo, o cenário melancólico, com ares da poesia de fins do século XIX, não é feito só de palavras. A melancolia, aqui, é cantada, é música. Assim, o tempo que não passa é conflituosamente descrito em canção, arte que produz temporalidade rítmica e que tem duração cronológica – isso sem falar da temporalidade dos gêneros musicais mobilizados no álbum, do pós-punk ao noise e o eletrônico, bem como dos instrumentos elétricos e digitais, dando origem a outra camada temporal, histórica. O som, com isso, acaba por traduzir palavras numa tensão: ritmo, melodia e história produzem recortes no tempo que os versos afirmam estender-se sempre igual. O que se produz nessa tensão é o que nos fará cantar sozinhos, juntos, que não conseguimos entender...
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sexta-feira, 16 de junho de 2023
G. Paim - Sem Calor Nem Cor (2023)...
Download: Sem Calor Nem Cor (2023).rar
Por quase todos os ângulos, há uma fratura que não cessa de se refazer. Sonhos são sem história. Contratos são assinados por mãos trocadas. A cidade fantasma, em escombros, é atravessada por uma multidão de mesmos. A natureza, anunciada pelo vento, mostra-se como ela é: indiferente. Essa fratura que se reinstaura a cada encontro fracassado com o outro, faz quem olha preferir recuar diante do mundo. Porém, nesse recuo, a recusa de estar com os outros faz da solidão um ponto de vista. Se nada muda um passo a mais ou a menos, um passo atrás permite ver o que o cerca. Nesse mundo em que o trabalho não constrói nada e em que nossa vida é o trabalho, nesse mundo Sem Calor Nem Cor, G. Paim nos faz acompanhar o olhar sobre um tempo que se estende sem mudar, a despeito dos dias. Contudo, o cenário melancólico, com ares da poesia de fins do século XIX, não é feito só de palavras. A melancolia, aqui, é cantada, é música. Assim, o tempo que não passa é conflituosamente descrito em canção, arte que produz temporalidade rítmica e que tem duração cronológica – isso sem falar da temporalidade dos gêneros musicais mobilizados no álbum, do pós-punk ao noise e o eletrônico, bem como dos instrumentos elétricos e digitais, dando origem a outra camada temporal, histórica. O som, com isso, acaba por traduzir palavras numa tensão: ritmo, melodia e história produzem recortes no tempo que os versos afirmam estender-se sempre igual. O que se produz nessa tensão é o que nos fará cantar sozinhos, juntos, que não conseguimos entender...
domingo, 20 de setembro de 2020
G. Paim - Idiomático (2020)...
Download: Idiomático (2020).zip (ou vá em Ouça)
Novo álbum do músico e produtor paranaense G.Paim, lançado pelo selo meia vida...
quarta-feira, 19 de julho de 2017
G.Paim - Sharpest Knife (2017)...
Download: Sharpest Knife (2017).zip
A estrutura eletrônica instalada em “Sharpest Knife” consome o ouvinte ao criar paradoxos que se adaptam estranhamente na vertigem. O que é contado como procedimento variado – a guitarra na primeira música (embora eu não esteja inteiramente convencido de que se trata de uma guitarra) ou a ambientação meio deep house na quarta faixa, “Kill Box” – advoga pela impossibilidade do Uno. Ainda assim, como dito, é formidável como o “clima” do disco resiste, apesar de operações superficialmente divergentes. É, portanto, no efeito “estranho” que, totalitariamente falando, “Sharpest Knife” possa ser executado como um disco, como uma peça Una. Ainda assim as situações nas faixas sempre crescem exponencialmente e por isso determinam que o acúmulo de procedimentos é na verdade o método original de composição. O que é muito difícil e a execução de Paim (G. Paim é o músico Gustavo Paim, de Curitiba) neste sentido é formidável (por exemplo, a forma com que as vozes entrecortadas soam ora no fone esquerdo ora no fone direito, às vezes nos dois, no início de “Quase Réptil”).... VIA
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