Não. Porque quando a gente grava é um registro da época, da sonoridade,
daquele momento específico. Não é o registro de um repertório, aquilo
ali não vai ser reproduzido, não vai virar "tema" nem um "clima"
obrigatório, que tem que ter em todo show. A gravação tem o mesmo
espírito do ao vivo, a gente grava tocando junto, como se fosse um show e
sem se impor nada.
O som do MarginalS é experimental. Se você faz uma coisa que você já
conhece, não é uma experiência. Isso pode soar bobo, mas não é. A música
experimental é aquela que te força/permite/instiga a tentar coisas
novas todos os dias. Não significa que é um lance de cientista maluco
num laboratório cheio de tubo de ensaio, é no sentido mais puro (talvez
ingênuo) da expressão. Se num momento dum groove pesado, denso, que
seria óbvio eu usar o sax eu troco e pego a flauta, eu tô
experimentando. Não se repetir é a graça da parada, senão não tem
desafio e você engessa o processo. A ideia é deixar a coisa sempre
solta, sem forma ou nenhuma obrigação, e é o que nos mantém instigados a
continuar fazendo esse som. Na verdade não é tão difícil não se repetir
porque, por mais que eu reutilize uma ideia de um show passado, o
Cabral e o Tony podem entender aquilo de outra forma e levar pra um lado
completamente diferente. E ao contrário das escolas mais tradicionais,
em que o improviso fica focado em escalas e arpejos, a gente tem muitos
outros elementos pra usar além desses, como dinâmicas, texturas,
barulhos, timbres... Ou seja, a repetição não chega a ser uma neura.
Por que Mulatu Astatke e não Kenny G?
Pô, essa é a pergunta mais rasa ou mais profunda do mundo, porque a
resposta pode ser um mero "porque sim", baseado no meu gosto pessoal, ou
pode ser uma pequena enciclopédia, que passa por mil questões, da
estética à política. Ou porque o Kenny G tá na comedinha romântica
hollywoodiana da Julia Roberts e o Mulatu tá no filme do Jarmusch.
Porque o mundo não é cor-de-rosa, eu não sou um babaca com cara de capa
de caderno, não prego o bom-mocismo-bunda-mole, não sou água com açúcar,
não faço "música boa pra gente bonita", porque eu tenho pavor do clichê
do saxofonista gato "tocando um blues" na janela. Eu sou fruto do
terceiro mundo, da imperfeição, do incômodo e da inquietação. A arte tem
que propor a reflexão, tirar da zona de conforto, incitar discussões,
aguçar a sensibilidade, enriquecer a alma e a mente do ser humano.
Bicho, isso vai longe. Agora, se o mano sabe que a música dele toca no
elevador, se ele compõe uma canção-jingle que vai ser esquecido daqui a 6
meses e ele dorme tranquilo à noite, parabéns.
Você
toca e já tocou com diversos novos artistas e em projetos que são bem
vistos para público e critica. Tu se sente responsável em ter colocado
novamente o sax em destaque de uma maneira positiva na música
brasileira? O sax ficou meio queimado depois do Kid Abelha...
Não acho que é culpa do Kid Abelha, até porque, antes disso, o saxofone
já não era muito presente no universo da canção. Assim como muitos
outros instrumentos, ele é ligado fortemente a um estilo específico
(jazz, no caso) e você começa a estudar dentro de um padrão rígido. Eu
aprendi que o saxofone era um instrumento de solo, por isso, a forma de
se relacionar com a canção seria se em algum momento da música, houvesse
espaço pra fazer um solo. Tirando uma intro ou um final, ocasionais
frasezinhas de naipe de metais, é o que é designado ao instrumento.
Desde sempre eu quis fugir disso, sempre gostei de canção, quando era
adolescente, ouvia tudo o que encontrava mais a mão: Tom, Elis, Gil,
João Gilberto, João Bosco, Chico Buarque (eu não saia muito nessa época,
93, 94, não sabia o que rolava na rua). Em casa, tocando junto com os
discos, eu ficava sempre tentando dar um jeito de tocar a música
inteira, porque era o que eu queria: tocar a música toda, como parte da
banda, não como o forasteiro que aparecia pra fazer o solo, depois
sumia. As coisas que rolam no Metá Metá, de tocar junto com o violão,
junto com a voz, fazendo contrapontos, abrindo vozes, eu faço desde
sempre, intuitivamente. Só que todo mundo odiava! As cantoras brigavam
comigo "você tá roubando a atenção da voz!", ou "isso não é jazz pra
você ficar tocando a música inteira!", mas eu sabia que era isso que eu
queria fazer e que uma hora alguém entenderia. Não vejo nenhum
instrumentista de sopro fazendo algo do tipo. Acho ruim no sentido de
que as pessoas não se questionam, não buscam caminhos pra criar seus
próprios diálogos com a música. Agora, o que eu faço ou deixo de fazer
para A Música Brasileira, putz... Sei lá. Se você tá falando...
Os trabalhos falam por si. Você tocou no Nó na Orelha (dito um dos discos do ano de 2011), toca com o Romulo Fróes e participou do Labirinto em Cada Pé,
ainda tem dois belos trabalhos com o MarginalS. Tem o Metá Metá
com Kiko Dinucci e Juçara Marçal, que querendo ou não, tirou um pouco da
"frescura" ou da "divindade" do samba, já que deixou ele um pouco mais
sujo. Metal Metal só piora a situação pro samba. Sambazo traz
muita coisa em um disco só, de África a América Latina. Apenas aqui,
citei projetos que circulam pelo hip hop, rap, samba, gafieira, MPB,
rock, instrumental, improviso, jazz, experimental, afrobeat, pop, entre
outros. Ou seja, versátil você é com toda a certeza, criativo também. Eu
sei que você é humilde, mas é sério que você não se vê como alguém que
está mudando um pouco da história do sax na música brasileira atual?
Fala um pouco dos processos nos trabalhos com outros nomes, você cria
neles também?
Man, não é questão de humildade, é questão de ponto de vista. Se você
conhece todos esses trampos que eu participo, com certeza eu ocupo uma
parcela grande do tempo que você passa ouvindo música. Mas tem muita
gente que não faz ideia quem eu sou, tem gente que nunca ouviu o Criolo,
o que dirá o MarginalS. Tá tudo em aberto, acontecendo. Se eu achasse
que já tivesse feito alguma coisa, que já conquistei, eu podia parar por
aqui, e eu acho que tá só começando.
Em
todos esses trabalhos eu participo como criador, porque é o que me
interessa. Nunca fui e nunca quis ser músico de naipe, o cara que chega e
lê o arranjo. Sempre gostei de me envolver e de ter liberdade pra tocar
do meu jeito. Estando à vontade é que saem os melhores resultados, e eu
só toco com toda essa galera porque essa é uma premissa em comum. O que
muda na prática, de um trabalho pra outro, é o estágio em que a gente
contato com a coisa. Por exemplo, no Metá, às vezes o Kiko chega com uma
composição nova, só um groove de violão, eu tenho bastante liberdade
pra interferir, sendo só nós dois tocando. No
Bahia Fantástica,
o Rodrigo já tinha as músicas bem desenhadas quando apresentou pra
gente, e como haviam várias pessoas envolvidas no processo, cada música
foi de um jeito, às vezes eu esperava os caras definirem o groove de
baixo/bateria pra depois pensar em alguma coisa, ou ia criando algo em
cima do violão do Rodrigo. Pro Sambanzo, algumas músicas eu já tenho bem
definidas, groove, estrutura; outras, saia tocando e deixava cada um
chegar à sua própria conclusão, depois a gente amarrava as idéias.
Varia, mas a gente sempre tenta falar o mínimo possível e fugir das
soluções óbvias e "pressetadas" (se não existia isso em português, agora
existe!), tipo, tocar o samba "como o samba deve ser", ou um funk, ou
cumbia, enfim...
Pra você, quantos por centos de
nato é criatividade e quanto é adquirido (seja pelo simples conhecimento
do instrumento ou expansão mental por cultura)?
(isso dá uma tese de doutorado) alguma coisa a gente tem na genética,
alguma inclinação pra fazer o que faz, mas não passa disso, uma
inclinação. O resto é ralação, todo o resto se aprende, ainda mais hoje,
que o artista não tem mais o aparato duma gravadora pra se ocupar só de
fazer música. O instrumento é a porta de entrada pra música, daí vem um
monte de outras coisas, como compor, arranjo, produção, fazer trilha,
mil coisas que você toma conhecimento bem depois de começar a tocar. Eu
mudo muito de opinião sobre esse assunto, pra responder essa pergunta,
cada hora eu pensava numa coisa. Ao mesmo tempo em que acredito muito
nessas coisas invisíveis que nos cercam, não gosto de pensar que algo
vai acontecer sem você correr atrás, sem esforço.
Você
já falou que tem feito trilhas. Eu queria saber se muda muito o
processo criativo e de composição para seus projetos em bandas e trilha.
Muda, e varia com o processo. Por exemplo, o Kiko e eu fizemos uma
trilha pra um documentário, só sax e violão, improvisando assitindo as
imagens. Tem um outro doc, sobre a rivalidade entre as seleções
brasileira e cubana de vôlei feminino na década de 90, do Fábio Meira,
que ele usou as músicas do Sambanzo. Nesse caso, como as músicas já
estavam prontas, eu só ajudei encaixar. Também fiz uns trampos com o Gui
Amabis e com o Instituto, pra cinema e pra uma série da HBO. Há um
tempo, antes de começar a correria dos shows, fiz uns experimentos
filmando com o telefone e usando o MarginalS como trilha, me diverti
bastante. É um campo que me interessa quando dá pra gente trabalhar
assim, fazendo música, criando, gostaria de fazer mais. Jingle, com todo
respeito a quem faz, mas não me interessa.
E como é o Thiago França produtor? Interfere criativamente também?!
Antigamente, você tinha as funções muito bem definidas porque a música
era feita assim, havia um mercado e haviam empregos: um cara compõe,
alguém canta, alguém toca; um cara escolhe os músicos, alguém escreve o
arranjo, e o produtor era quem encomendava o "produto" ou transformava
em algo. O produtor encarregava de chegar pra um compositor e pedir uma
marchinha pro carnaval, pra fulano de tal gravar, enfim. Hoje, isso tudo
mudou, não existe mais o emprego, não existe função definida. O que
rola, como eu já disse, é que tanto a música quanto o mercado estão
mudando, um interfere na mudança do outro, e hoje a gente faz um pouco
de tudo, procuramos olhar o todo. Por exemplo: o Etiópia do Sambanzo
é um disco sem arranjo escrito, todo tocado, solto. A "produção" do
disco foi dizer pros caras ficarem à vontade, pra extrair ali a
personalidade de cada um. No Bahia Fantástica, todo mundo
assina como produtor, porque além de tocar cada música, todo mundo
pensou no todo. Eu via que já tinha rolado uma música com solo de sax,
na próxima eu fazia alguma coisa com a flauta, mais discreto. Cada som é
de um jeito.
Um adendo a entrevista original, junto aqui as 3 perguntas que fiz pro Thiago na época que ele tocou com o Tony Allen, também em 2013. O papo sobre essas músicas aconteceu antes do lançamento do "
Compacto SP", registro que reuniu ele, o metá metá e o Tony.
Para você, como foi tocar e compor com Tony Allen? Como foi criar com o cara? Como se deu tal contato?
Porra, man!!! "como foi"?! essa é a pergunta proibida!!! "ah, meu, tipo assim, foi mó emoção" (risos)
Conheci
o Tony em 2012, depois de um show do Criolo em Paris. Ele veio no
camarim e disse que tinha ficado impressionado, queria muito fazer
alguma coisa junto. Fiquei na maior expectativa e, em março, depois
dumas trocas de e-mail, recebi o convite pra produzir três faixas no
seguinte esquema: ele mandava os tracks de batera abertos e aqui, eu
faria o que quisesse.
Que foda. Então, são essas faixas? Vem dessa ideia ai?
(cronologicamente) a primeira foi "São Paulo No Shakin'", eu produzi
com o Marcelo Cabral e o Daniel Bozzio, um tema instrumental meu. O nome
faz menção ao disco "Lagos No Shaking" do Tony, preferido da rapaziada
aqui. A segunda, chamei o Kiko Dinucci e a Juçara pra gravar essa
cantiga, "Alakorô", que de vez em quando a gente tocava na versão trio
do Metá, bem diferente do que ficou. Foi a primeira experiência de
produzir algo do Metá que não fosse ao vivo, foi divertido, gostamos
muito do resultado. A terceira eu fiz com o Tejo Damasceno e vai sair no
disco do Instituto, fizemos só nós dois, eletrônica, bem pesada. As
três faixas tiveram contribuição do Maurício Bade na percussão.
Essas músicas vão pra uma compilação chamada Afrobeat Makers, vol 2,
do Comet, selo francês que lança as coisas do Tony. Todas as músicas da
compilação são produzidas da mesma forma, com músicos do mundo inteiro
dando seus pitacos sobre as bateras.
E sobre o Tony Allen, te influencia/influenciou? Qual tua relação com ele (antes de conhece-lo)?
O genial do Tony é que ele toca sempre uma força inesperada. Quando
toquei com ele em Fortaleza esse ano, conversei bastante e ele me
explicou um pouco como a cabeça dele funciona. Eu tinha a sensação (e
confirmei com ele) que sempre que ele senta na batera, ele descarta a
primeira ideia que vem na cabeça. Geralmente é algo óbvio, embasado em
algo que você já fez. Talvez, a influencia seja mais uma inspiração, no
meu caso.