Terminei de ler
A Distância entre Nós (2006) de
Thrity Umrigar da Coleção Folha Mulheres na Literatura. Eu paguei R$ 19,90 na banca, mas não posso sugerir que comprem na Livraria da Folha porque ela não existe mais. O livro já foi publicado por outra editora, mas atualmente só é achado em sebo. Que livro difícil e triste, como foi duro continuar a ler diante de tanta infelicidade.
A autora é indiana, a realidade das mulheres na Índia beira o insuportável, mas acho que o pior foi a semelhança com as violências às mulheres no Brasil. O livro conta duas histórias de mulheres, a patroa e a empregada, mas não pense você que a patroa tem só privilégios e a outra as durezas da vida. As duas tem vidas pavorosas repletas de violência física, emocional, financeira, com muito desrespeito, intolerância, manipulação e maldade.
Obra de Hema Upadhway
Nós já ouvimos falar da divisão de castas na Índia, hoje em dia não é tão acentuado como ouvimos, mas ainda é cultural. A empregada acha que é amiga da patroa, elas sentam juntas diariamente para tomar o chá e conversar, uma no chão com seus próprios pertences, não pode usar as louças do patrão porque é de outra casta e a outra na cadeira. Apesar dessa diferença, não é muito diverso do Brasil. No Brasil as pessoas que trabalham em serviços domésticos em residências ficam em pé, quanto os patrões ficam sentados. Os funcionários não podem sentar a mesa, no máximo em alguma mesa específica para funcionários. Sofá, cadeiras da sala, dos quartos, nem pensar. Só se estiver cuidando de algum idoso.
Obra de Mamata Banerjee
O livro me lembrou sempre uma frase muito usada também no Brasil: "como se fosse da família". Essa frase é na verdade uma grande armadilha, é como se fosse da família quando convém, quando obedece, quando faz o que queremos, mas basta uma única suspeita, deixa de ser da família para sempre, sem nunca ter sido efetivamente. Não é diferente com a obra. Achamos porque são da família até porque usam nossas roupas usadas, aquelas que íamos jogar fora ou dar para algum outro pobre. Dar presentes novos, ah, nem pensar, dar o que não quer mais e acha que isso é presente, é generosidade. Sim, por que não doar o que não quer mais? Mas achar que doar algo que não quer é o máximo que pode fazer a alguém em "como se fosse da família", essa pessoa não é da família. Familiares ganham presentes novos, não o que não queremos mais.
Obra de Godawari Dutta
O livro é todo entrecortado no tempo, com muitas idas e vindas e a história vai tragicamente e insuportavelmente se contando. A vida das duas mulheres é insuportável. O machismo as assolam, devoram, destroem corpos, dignidade. O livro começa com cada uma tendo uma grávida em casa. Uma é a neta que está esperando um filho e a outra a filha. Uma precisa abortar pra tentar retomar a faculdade e ter outro destino e a outra é casada. Aos poucos vamos conhecendo a história da avó e da esposa. Trágicas histórias repletas de violência doméstica, miséria e desrespeito. Livro dificílimo.
Beijos,
Pedrita