Assisti ao documentário
Estou Me Guardando Para Quando o Carnaval Chegar (2019) de
Marcelo Gomes na sessão do festival
É Tudo Verdade no
Canal Brasil. Também é encontrado na
Netflix. O diretor quis voltar a Toritama em Pernambuco, cidade que ele passava, quando viajava com seu pai.
O diretor se deparou com a capital do jeans. 20% de todo o jeans produzido no Brasil vem de Toritama. Em um formato insano de trabalho, inúmeros autônomos ganham por produção. Com uma visão imediatista, eles preferem ser donos do próprio negócio e ganhar pelo que produzem.
Essa imagem só foi possível porque faltou luz e eles precisaram aguardar a energia voltar. Uma contou que ganha R$ 0,10 por bolso, que se fizer 100 bolsos no dia vai ganhar R$ 100,00 e que se fizer 1000 vai R$ 1.000,00. Cada zíper é pago R$ 0,20. Eu fiquei pensando quanto ela faria por dia, porque 1000 me parecia um sonho ou utopia, mas imagino que façam mais que 100 por dia.
Eles trabalham exaustivamente. Alguns começam às 7h e param às 22h. Outros começam às 5h. Aos domingos vão na feira vender os produtos. Quando descansam? Uma vez por ano no Carnaval. O diretor então resolveu esperar o Carnaval que é quando eles vendem tudo o que tem para ter dinheiro para viajar pra praia no feriado. Pensem, eles trabalham de forma desumana, mas não sobra dinheiro pra viajar pra perto ao menos uma vez por ano. Aí eles vendem tudo, moto, geladeira, celular. Quando voltam precisam trabalhar de modo insano de novo pra comprar os produtos que venderam.
A estrutura do documentário é muito inteligente. O diretor fala com as pessoas, mostra ass facções, como chamam as confecções, as construções de casas para mais facções. No Carnaval, a equipe pagou a viagem de uma família que não conseguiu levantar o dinheiro pra ir pra praia, e esse grupo ficou de filmar os passeios na praia. Então aparece um outro olhar, que vem dos próprios moradores de Toritama.

Eu fiquei pensando o que faz essas pessoas acharem que esse é um modo lucrativo e bom para se viver. Trabalhar de modo insano por alguns trocados, não ter folga. Sim, pode ser que eles estivessem passando até dificuldade em outro trabalho, ou sem trabalho e que talvez essa escravidão da função seja algo melhor. Mas eu não consigo imaginar o que faz esse grupo todo entrar nessa produção em massa por jeans, sem o direito mínimo de uma maior qualidade de vida. Qual seria o objetivo de tanta produtividade. Não consigo entender qual mecanismo que faz todos terem orgulho nessa função alucinada e não questionar qual o sentido de horas intermináveis de trabalho sem descanso. Fiquei pensando o que leva esses moradores de Toritama acharem normal esse modo de trabalho tão desgastante. Também fiquei pensando como estão agora no meio da pandemia, já que ganham por produtividade e não tem auxílio algum.

Eu sempre penso também que quando uma peça de roupa está barata demais é porque alguém está sendo explorado em alguma ponta. Mas também tem gente que cobra demais por um produto e mesmo assim explora a ponta que o produz. Sempre fico apavorada com a exploração doentia do ser humano por outro.
Estou Me Guardando Para Quando o Carnaval Chegar chamou a atenção por onde passou pelo mundo. Esteve na mostra Panorama do Festival de Berlim. Ganhou Prêmio da Crítica e Menção Honrosa no festival É Tudo Verdade.
Beijos,
Pedrita