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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

A Força da Idade de Simone Beauvoir

Terminei de ler A Força da Idade (1960) de Simone de Beauvoir da Nova Fronteira. Esse é o segundo livro autobiográfico da autora. O primeiro, Memórias Uma Moça Bem Comportada eu comentei aqui. O primeiro vai até os 19 anos da autora, quando ela já conhecia Sartre. É uma tradição todo início do ano eu pegar um livro grande a ler, esse tem 574 páginas em letras pequenas, é uma bela edição mas comete o erro de ter anotações minúsculas ilegíveis. Em geral tenho pouco trabalho em janeiro, o que por sorte não aconteceu, então a leitura demorou um pouco mais que o habitual.

Por coincidência acabei escolhendo o mesmo marcador de livros. Tenho vários de Paris que uma amiga me trouxe, mas acabei escolhendo o mesmo.

Desde os 19 anos, Beauvoir já escrevia mas não publicava. Sartre publicava muito desde 1936. Beauvoir tinha vários livros que pensava, escrevia pedaços, só com o tempo é que A Convidada foi se definindo. Ela e Sartre eram professores. Beauvoir se instala em Paris, cidade que se apaixona. Os dois eram contratados pra escrever em publicações. Eu li tem muitos anos A Convidada, foi o primeiro livro que li da autora e gostei muito. Foi interessante relembrá-lo pelas escolhas que a autora faz e fala do livro nessa biografia. Acho que li de um clube do livro que fui sócia por pouco tempo, não era um sistema vantajoso pra mim. Na época o ideal eram as bibliotecas que foram companheiras por muitos anos. Interessante que é Sartre que sugere que Beauvoir escreva autobiografias. Sartre gostava muito dos textos de Beauvoir, eles liam muito os textos um do outro, comentavam. E Beauvoir falava muito dos personagens, conosco também, e falava das escolhas até que Sartre sugere que ela escreva sobre ela porque é um personagem muito mais interessante que os que ela cria. É graças a Sartre que temos essas preciosidades de obras.
Foi no livro que descobri que a irmã de Beauvoir era uma renomada artista plástica, Hélène de Beauvoir. Volte e meia a escritora se encontra com a irmã, fala da irmã. Simone gostava muito de caminhar. Ela levava pouca coisa, um pequeno farnel, e passava dias caminhando, dormindo ao relento. Foi um pouco antes da guerra, imagino que ela deveria ter visto algo que deixou de existir depois. Ela, Sartre e os amigos achavam que o comunismo e o livre pensamento ia suplantar o fascismo que começava a surgir na Alemanha. Muito triste imaginar que eles estava completamente enganados. 

Na obra Beauvoir fala muito de seus amigos e de Sartre. Como a intempestiva Olga, depois Lise apresenta o escultor Alberto Giacometti. Beauvoir também tem proximidade com Picasso. Eu amei que Beauvoir lê muito e fala muito dos livros que lê na obra. Adorei que o preferido do Faulkner é exatamente o meu preferido, Luz em Agosto. Ela já leu Virgínia Woolf.  Gosta muito de Proust que eu adoro. Ela fala muito dos livros de Sartre. Eu só li um único livro do autor que gostei muito, O Muro e li há muitos anos de uma biblioteca.

Obra A Mulher Chora (1937) de Picasso

A guerra começa a chegar. Inicialmente a Alemanha ataca a Polônia e eles acham que logo vai acabar. Sartre é preso e Beauvoir fica em Paris tentando notícias até que ele foge. Os dois ouvem falar de O Estrangeiro de Camus, leem, gostam. Nessa época sem poder publicar seus livros, Sartre e muitos escritores ingressam no teatro. É quando Sartre conhece Camus que envereda pelo mesmo caminho. A peça As Moscas de Sartre é um retumbante sucesso. Após a publicação de A Convidada, Beauvoir recebe várias críticas elogiosas, como ela mesma diz, nem todas, mas fica muito satisfeita com a repercussão.

Beijos,
Pedrita

segunda-feira, 10 de março de 2014

O Tempo Redescoberto

Assisti em DVD O Tempo Redescoberto (1999) de Raoul Ruiz. Eu comprei esse DVD por aquela Coleção Folha Grandes Livros no Cinema. A capa desse filme na coleção é bem estranha, é a foto do John Malkovich, ele até tem um papel importante, mas quem interpreta o Marcel Proust é Marcelo Mazzarella. E eu não comprei pela capa e sim pelo título, já que amei Em Busca do Tempo Perdido de Proust que comentei aqui.

Raoul Ruiz é um diretor chileno, naturalizado francês. Ele se exilou na França na época da ditadura chilena. Seu estilo é poético, incríveis as cenas, os móveis andam, os personagens andam, algo que só vendo para ver a beleza. São pinceladas das obras de Proust. Trechos de frases e encontros da sociedade que foi tão bem relatada pelo escritor. As cenas parecem pinturas, a reconstituição de época é maravilhosa, belíssima direção de arte.

O elenco é incrível: Catherine Deneuve, Emmanuelle Béart, Vincent Perez, Chiara Mastroianni, Pascal Gregory e Elza Zylberstein. Como são muitas cenas, muitas festas e muitos ambientes, há um elenco extenso.

Beijos,
Pedrita

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

O Tempo Redescoberto

Terminei de ler O Tempo Redescoberto, publicado entre 1913 e 1927, de Marcel Proust. É o último livro do Em Busca do Tempo Perdido. Eu levei um ano para ter coragem de começar a lê-lo, porque tinha muita pena de terminar essa sequência de livros maravilhosos. No Caminho de Swann eu li há muitos anos emprestado de uma biblioteca. Levei um tempo para localizar o segundo, À Sombra das Raparigas em Flor, porque estava esgotado. Já tinha conseguido comprar os outros dois em uma livraria que colocou os livros a venda novos por somente R$ 10,00. Depois achei os outros dois no sebo. E esse último comprei baratíssimo novo na Fnac. Mas e o dó pra terminar essa sequência maravilhosa?

Obra de A Fonte (1856) de Ingres
Ler O Tempo Redescoberto tinha gosto de despedida e essa sensação só aumentou, porque o autor de uma certa forma começa a se despedir de nós. Ele se isolou para escrever esses livros, sabe que está mais doente do que antes, tem inclusive receio de não conseguir terminar essa obra. Portanto, O Tempo Redescoberto ele repensa todos os outros, toda a sua vida e escreve páginas e páginas sobre a velhice. Quando ele revê seus amigos, com suas rugas, cabelos brancos, ele reflete sobre o envelhecer. No início o pano de fundo muda muito. Antes, tranquilos, seus amigos se encontravam nos salões, nos teatros, com a chegada guerra, a sociedade começa a se dividir, trabalhar ou servir para lados diferentes. E Proust ainda debate muito sobre a arte de escrever, as escolhas sobre os temas. Uma aula maravilhosa sobre as escolhas literárias, textos de outros autores.

Obra Water Lilas (1899) de Claude Monet
Eu tive vontade de anotar vários trechos, teve momentos que tinha vontade de anotar o livro todo de tão fascinante. Realmente para sentir Proust na sua totalidade só lendo todas as suas frases e todas as suas obras.
Trechos de O Tempo Redescoberto de Marcel Proust:
“O dia inteiro, na mansão de Tansonville, um pouco rústica demais, com jeito de pouso entre dois passeios ou durante um aguaceiro, uma dessas casas cujas salas lembram caramanchões, e onde, nas paredes dos quartos, aqui as rosas do jardim, os pássaros das árvores ali, aproximavam-se e nos faziam companhia – cada um por sua vez -, porque as forravam velhos papéis, nos quais cada rosa se destacava tanto que poderia, se fosse viva, ser colhida, cada pássaro engaiolado e domesticado, sem nada das grandes decorações dos quartos de hoje, nas quais, sobre fundo prateado, todas as pereiras da Normandia se vêm perfilar em estilo japonês, para alucinar as horas que passamos na cama, o dia inteiro eu ficava em meu quarto, que dava para a folhagem verde do parque e os lilases da entrada, para as folhas verdes das grandes árvores à beira da água, brilhantes de sol, e para a floresta de Méséglise.”

“A mulher que amamos preenche raramente todas as nossas necessidades, e nós a enganamos com outra que não amamos.”

“Aqui, ao contrário dos conventos carmelitas, é graças ao vício que a virtude vive.”

“Daí a tentação grosseira para os escritores de escrever obras intelectuais.”
Proust fala de Ingres em sua obra, não como admirador, mas em uma observação. Claude Monet eu vejo como o maior representante de Proust na pintura. Albert Roussel (1869-1937) é um compositor francês.

Música do post: 18_-_Albert_Roussel-II.Poeme-P.de_Ronsard-A.Kechlibareva-Jeans-Yves_Gaudin-_flute





Beijos,

Pedrita

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

A Fugitiva

Terminei de ler A Fugitiva de Marcel Proust, publicado entre 1913 e 1927. É o penúltimo livro de Em Busca do Tempo Perdido. Esse comprei em um sebo por R$ 17,00 e pelo jeito nunca foi lido. As páginas estavam intactas. Só a lateral é que azulou em vez de estar na cor original, lilás, parece que ficou em uma prateleira por bastante tempo, mas nunca foi folheado.


Tela Boat at Giverny - Claude Monet

Nesse último livro, Albertine partiu. Nosso ciumento protagonista, depois de incomodar sua amada, praticamente enlouquece com sua partida. São incríveis os seus pensamentos sobre o ciúme, sobre a perda. Mas tudo fica muito pior quando ela morre em um acidente. Seu ciúmes só aumenta, ele deseja saber tudo o que sua amada fez escondido, sobre suas inúmeras traições com mulheres.

Tela Vida de Casada (1912) de Roger de la Fresnaye

Sempre ouço algumas pessoas comentarem que não lêem os clássicos porque são livros antigos e me surpreendo com tanta desinformação. Várias obras que li são profudamente revolucionárias e ousadas até mesmo para os dias de hoje. Em Busca do Tempo Perdido é uma dessas obras. Nosso protagonista nunca assume sua amada, vive com ela, mas por ela não ter uma posição social e financeira adequada, ele nunca enfrenta sua família. Está confortável viver com ela sem assumir, mas tem um ciúmes possessivo e avassalador. É doentio o desejo dele de saber detalhes das relações homossexuais da mulher com quem viveu. Depois de sua morte ele se aproxima das amantes da sua amada e pede que elas mostrem a ele como eram as carícias, pede inclusive que façam nele pra demonstrar.


Tela Oliver Tress de Georges Braque

Depois ele conhece uma mulher por quem se interessa, mas em sua confusão e ciúme, perde a possibilidade de casar. Há um relato complexo sobre a origem dessa moça, que é protegida e mudam seu nome, já que a família que descende tinha se envolvido em escândalos. Essa moça se casa e nosso protagonista fica inconformado de saber que o marido dessa moça é amante de um amigo seu e que só se casou visando o dote da moça. Relações complexas, com muita futilidade da alta sociedade da época.



Tela Três Mulheres (1921) de Fernand Leger

Trechos de A Fugitiva de Marcel Proust:

“A srta. Albertine foi-se embora! Como, em psicologia, o sofrimento vai mais longe do que a psicologia! Ainda há pouco, ao analisar-me, julgara que essa separação sem no termos visto outra vez era justamente o que eu desejava, e, comparando a mediocridade dos prazeres que Albertine me proporcionara com a riqueza dos desejos que me impedia de realizar, eu me achara sutil, e concluíra que não queria tornar a vê-la, que já não a amava.”

“Muitas vezes não prestamos bastante atenção, no momento, em coisas que já então podiam parecer-nos importantes; não ouvimos bem uma frase, não notamos um gesto, ou senão os esquecemos. E quando, mais tarde, ávidos por descobrir a verdade, remontamos em dedução, folheando nossa memória como uma coleção de testemunhos, chegamos a essa frase, a esse gesto, é impossível nos lembrarmos; recomeçamos vinte vezes o mesmo trajeto, mas inutilmente: o caminho não vai mais adiante.”

“Os homossexuais seriam os melhores maridos do mundo, se não representassem a comédia de amar as mulheres.”

Beijos,



Pedrita