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quarta-feira, 15 de outubro de 2025

Citation

Assisti Citation (2020) de Kunle Afolayan na Netflix. Esse filme está na lista dos que vão expirar. Ele fica disponível até 5 de novembro. É um filme desnecessariamente longo, mas muito importante. É livremente inspirado no documentário Sex For Grade da BBC Africa Eye onde jornalistas se infiltraram como universitários pra denunciar os abusos sexuais por professores que trocavam prazeres por notas.

O filme conta a história fictícia de Moremi, uma excelente aluna universitária que desejava ser uma integrante da ONU. Temi Otedola arrasa. Chega um professor igualmente brilhante, com currículo internacional de Jimmy Jean-Louis. Ele vai fisgando a jovem com o interesse da ONU, leva o grupo em uma viagem ao Senegal, enfim, vai jogando a teia. Até que tenta estupra-la, mas ela consegue fugir.
Ela leva o caso então ao conselho da universidade, já que ele começa a reprová-la sistematicamente e deixa claro que vai impedir ela se formar. O filme passa o tempo todo entre as lembranças e o "tribunal". Uma boa edição ajudaria bastante. 

No Brasil também há denúncias de assédio sexual em universidades. No filme, ficam claras as diferenças culturais dos dois países. O professor pede que Moremi o chame pelo primeiro nome, ela diz que estão na Nigéria, que então vai continuar chamando formalmente. No Brasil, a informalidade pode confundir como convite. E nos dois casos, a jovialidade juvenil, os sonhos, também podem confundir. Muito horrível usar dos sonhos dos jovens para tirar a força favores sexuais.
Beijos,
Pedrita

quarta-feira, 6 de março de 2024

Americanah de Chimamanda Ngozi Adichie

Terminei de ler Americanah (2013) de Chimamanda Ngozi Adichie da Companhia das Letras. Eu queria muito ler esse livro depois de um comentário de um conhecido, só que lendo descobri que ele falava de outro livro, acho que ele confundiu o autor. Mas amei a obra! Eu comprei esse na pandemia, na Festa do Livro da USP virtual, com 50% de desconto. Demorei pra ler porque a obra é muito extensa, 513 páginas em letras pequenas. Eu já tinha lido dela Hibisco Roxo, que comentei aqui e tinha gostado muito! Americanah foi vencedor do National Book Critics Circle Award. E eleito entre os melhores livros do ano pela NYTimes Book Review.
 

O marcador de livros é da exposição Tim Burton no MIS

Obra Chinaza (2022) de Ganiyat Abdulazeez

 A obra é uma saga com a vida da nigeriana Ifemelu. Ela é de classe média, se apaixona na escola por Obinze. Na universidade, há conflitos políticos no país e por isso muitas greves de professores. Como a tia de Ifemelu estava nos Estados Unidos, ela consegue o visto e vai estudar lá. Obinze fica de encontrá-la depois. Ele nunca consegue o visto. O livro começa com Ifemelu nos Estados Unidos se organizando pra voltar a Nigéria. Está estabelecida, trabalhando, estudando, com namorado, mas ela quer voltar.

Obra Shantavia Beale de Kehinde Wiley

É nos Estados Unidos que Ifemelu conhece o racismo. É lá também que passa a escrever em um blog e acompanhamos alguns textos. Ela relata fatos que presenciou, questões curiosas que viu. Ela não nomeia as pessoas que menciona, mas os separa em categorias. Negro americano, negro não americano, e vai mostrando as diferenças. O blog dela fica muito conhecido e ela passar a dar palestras. Ela comenta que o negro americano sempre acha que seus descendentes foram reis e rainhas, porque desconhecem os seus antepassados, já que foram escravizados. Ela já conhece seus descendentes que em geral são pessoas comuns, como seus pais. O texto do livro é muito inteligente. Em alguns momentos até eu me incomodava com uns comportamentos meus que ela relata no blog, falando de uma dona de casa de uma casa em que ela trabalhou. Na Nigéria Ifemelu não trabalhava, só estudava. Nos Estados Unidos ela precisa trabalhar para se sustentar no país, enquanto estudava, trabalha como babá e alguns outras funções. O racismo nos Estados Unidos é parecido com o do Brasil. Embora aqui sempre teve casamentos e envolvimentos interraciais, desde a escravidão, muitas questões vividas por Ifemelu acontecem aqui. Obinze consegue ir para a Inglaterra, mas depois de um tempo é deportado algemado por ser imigrante ilegal.
Obra Pão Nosso de Cada Dia de Grace Ighavbota

No final do livro ela retornou a Nigéria, muito tempo depois. Nos Estados Unidos ela teve relacionamentos. Na Nigéria Obinze está casado. Fiquei só curiosa como Ifemelu vai lidar com o trabalho de Obinze. Ele enriqueceu porque entrou em esquemas fraudulentos no setor imobiliário. Ifemelu tem dificuldade de se readaptar, tanto que entra em um grupo de nigerianos que voltaram ao país. A sensação de não-pertencimento, seja nos Estados Unidos e na Nigéria são bem aflitivos. O texto é incrível, vários olhares, pontos de vista. Um livro e tanto.
Beijos,
Pedrita

segunda-feira, 22 de agosto de 2022

Amina

Assisti Amina (2021) de Izu Ojukwu na Netflix. Amina era uma princesa de Zazzau. Teria nascido em 1553. Depois de ver o filme fui ler sobre essa guerreira muito cultuada na Nigéria. O mais interessante que até há dúvida se ela existiu. Amina tornou-se uma lenda, muitas mulheres e lugares levam o seu nome. Mas tudo sobre a sua vida é difícil de saber.

O filme procura contar uma dessas versões começando com a infância de Amina e mostrando a sua coragem desde cedo. Ela vê injustiça em uma luta. E salva uma jovem que voltaria a escravidão. O guerreiro que a salvaria vence a luta, mas não aceitam, então a jovem não seria livre. Amina liberta a jovem e impede que o guerreiro seja morto. Também pede ao seu pai para que ela e a irmã sejam treinadas como guerreiras. O pai reluta, a sociedade não gosta por ela ser mulher, mas ela consegue ser treinada por um grande guerreiro e torna-se uma grande guerreira.
São povos com muitas lutas, conflitos e traições. Amina consegue tornar-se rainha, a primeira rainha, reunou por 35 anos e falam que ela ampliou os seus territórios, que fazia abrirem poços, que era uma grande líder. Belíssima Lucy Ameh.
É muito interessante como a história é contada, quase mesmo como uma contação de histórias. É um estilo de diálogos pausados, interpretativos, próximo ao teatro. As lutas parecem danças. Gostei muito!


 

Beijos,
Pedrita

quinta-feira, 28 de abril de 2022

Cidadã de Segunda Classe de Buchi Emecheta

Terminei de ler Cidadã de Segunda Classe (1974) de Buchi Emecheta da Dublinense. Eu amo essa autora! O primeiro que li foi No Fundo do Poço que comentei aqui.

O marcador de livros é um tapete.
 

Obra Have You Heard II (2010) de Bruce Onobrakpeya

O anterior que li é a continuação desse. A autora escreveu primeiro o outro e depois esse. Com o distanciamento, eu até questionava porque amava tanto a autora. No primeiro parágrafo lembrei o motivo, que escritora, que texto. A história desse consegue ser pior que a outra, como se isso fosse possível. Buchi conta a história de uma personagem, Adah, que se mistura com a sua, ficção e realidade. Ela não é muito crítica aos horrores dos costumes da sua terra, mas nós ficamos aterrorizados, o machismo é nocivo como no Brasil, com algumas características diferentes.

Obra Competition V (2010) de Ndidi Dike

Aos 11 anos Adah fica órfã e vai morar com outros parentes que ficam muito felizes, já que ela vai fazer todos os afazeres domésticos, muito parecido com o que acontece no Brasil. Como ela estudava e amava estudar ela dá um jeito de conseguir bolsas de estudos pra continuar estudando, mas não poderia jamais deixar de fazer tudo o que mandavam na casa. Depois a única saída daquele inferno era casar, então aos 16 ela se casa. A vida melhorou consideravelmente, ela conseguiu um bom emprego e como costume, sustentava o marido e os sogros. Os três que decidiam tudo. Tudo o que ela desejava, os três se reuniam e depois ela era informada da decisão. Mesmo ela sustentava todo mundo, ela era submissa a eles, como era o costume. Ela convence o marido que seria bom viver na Inglaterra, a Nigéria ainda era posse da Inglaterra. A família se reúne sem ela, concorda, mas o marido iria primeiro. O marido iria estudar lá e a esposa iria sustentá-lo como já fazia Na Nigéria.
Obra Triplas (2020) de Olaoluwa Smith

Na Inglaterra a situação se agrava. Adah agora tem dois filhos e grávida do terceiro. Continua trabalhando e sustentando a casa. Como no Brasil, é muito difícil alugar quartos quando se tem crianças. O marido só estuda, o que até isso eu duvido. Ele passa a espancá-la, manipulá-la. Ela só consegue se libertar dele bem depois e descobre que está grávida do quinto filho. A história segue então no livro que mencionei aqui.

Obra Dançarinos Africanos (1963) de Ben Enwonwu

Trecho de Cidadã de Segunda Classe de Buchi Emecheta:

“Adah rompeu em prantos. Por quê? Qual era o problema?, quis saber o grande homem. Os médicos chegaram a conclusão de que era depressão pós-parto. Adah não conseguia parar de chorar. Não queria parar porque poderia cair em tentação de contar a verdade a eles. Poderia cair em tentação de lhes contar que pela primeira vez na vida detestava ser quem era. Por que ela não podia ser amada como um indivíduo, do jeito que a mulher composta estava sendo amada, amada pelo que era, e não apenar por ser capaz de trabalhar e passar adiante o dinheiro, como uma criança comportada? Por que ela não podia ser abençoada com um marido como o daquela mulher que tivera de esperar dezessete anos pela chegada do primeiro filhinho? O mundo inteiro parecia desigual, tão injusto. Algumas pessoas eram criadas com todas as coisas boas prontinhas à espera delas, outras apenas como enganos”.

Beijos,
Pedrita

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

No Fundo do Poço de Buchi Emecheta

Terminei de ler No Fundo do Poço (1972) de Buchi Emecheta da Dublinense Editora. Eu fui no stand da editora na Feira de Livros da USP procurar um livro, os vendedores ótimos, logo perceberam os meus gostos e me indicaram essa autora nigeriana que era a "Chimamanda deles". Depois eu descobri que foi a Chimamanda que indicou essa autora. É uma bela edição com ilustrações de Luiza Zardo.

O marcador de livros é magnético e parte de uma obra de Tomie Ohtake

Buchi Emecheta (1944-2017) escreve parte da sua história nesse livro de nome original Na Vala, misturada a ficção. Conta a história que viveu em um condomínio miserável na Inglaterra com seus 5 filhos. Vala era o buraco no colchão que um filho ficava no apartamento anterior que era lotado de ratos. Um assistente social consegue outro apartamento. As vizinhas acham o lugar ruim que ela iria, mas ela fica muito feliz com o apartamento porque agora tem um banheiro. O anterior o banheiro era coletivo. Imagine usar um banheiro coletivo com 5 crianças.
Obra de Joseph Eze

O estilo da autora é impressionante, que qualidade de texto. No condomínio ela trabalhava de dia em um museu e estudava sociologia à noite. A assistente social a procura, os vizinhos reclamam que ela deixa os filhos sozinhos. E claro, o preconceito e a curiosidade fazem eles quererem saber o que ela faz toda noite. A autora acaba falando muito de preconceito, miséria. Ela não queria largar o emprego e viver do dinheiro social, queria ter dignidade, trabalhar, mas as regras na Inglaterra a impedem. Ela sente que nunca mais vai sair daquele lugar de dependência e miserabilidade. A assistente social arranja jovens pra cuidar dos filhos dela à noite.

Obra de Akpokiere Karo.

Apesar da hostilidade inicial dos vizinhos, ela acaba se adaptando e tendo apoio. Quando o condomínio vai ser desativado ela reluta demasiadamente em se inscrever para outros apartamentos. Buchi fala muito da situação da mulher. Ela casou aos 16 anos e foi viver com o marido na Inglaterra, vieram os cinco filhos e a separação. Ela se vê sozinha para criar os filhos e estudar. O olhar sociológico, dos estudos, estão em seu texto, há um olhar aprofundado dos fatos que é muito impressionante. É daquelas obras que eu fico querendo que todo mundo leia, por ser tão fundamental.
Obra de Rufus Ogundele

Trecho de No Fundo do Poço de Buchi Emecheta:

“A polícia não podia fazer muito por uma esposa espancada. Às vezes parecia que o matrimônio, além e ser uma maneira dos homens conseguirem sexo gratuito quando quisessem, também uma forma legalizada de cometer agressões e sair impunemente”.

Os pintores são nigerianos como a autora.


Beijos,
Pedrita

quinta-feira, 28 de junho de 2018

Exposição Ex-África

Vi a exposição Ex-África no Centro Cultural Banco do Brasil São Paulo. Eu queria muito ir nessa mostra desde a inauguração, só consegui agora e gostei muito. A curadoria é do alemão Alfons Hug que traz expressões artísticas da África Moderna. São 90 obras de fotos, instalações, pinturas e vídeos, de 20 artistas, 18 de países africanos, como Gana, Senegal e Zimbábue, e dois brasileiros. As imagens desse cartaz são do senegalês Omar Victor Diop que retrata 9 africanos notáveis fora de seu continente. Um deles é inspirado em Jean-Baptiste Belley, senegalês, que foi escravizado e levado para as Antilhas Francesas. Em 1793, durante a Revolução Francesa, foi eleito deputado e membro do Clube Jacobino. Tornou-se o primeiro deputado francês negro, representando a colônia francesa de Saint-Domingue.


Já essas imagens ao lado vem do Zimbábue, por Kudzanai Chiurai que mistura referências e personagens do colonizador ao colonizado na série Gênesis.

O nigeriano J. D. 'Okhai Ojeikere mostra em fotografias cortes de cabelos. A mostra Ex-África é gratuita e fica em cartaz até 16 de julho.

Beijos,
Pedrita

quarta-feira, 14 de março de 2018

Hibisco Roxo de Chimamanda Ngozi Adichie

Terminei de ler Hibisco Roxo (2003) de Chimamanda Ngozi Adichie da Companhia das Letras. Queria muito ler esse livro, quando ganhei um vale presente não relutei e que capa linda. Chimamanda é da Nigéria e antes de começar a ler fui pesquisar o país. A Nigéria é praticamente dividida em duas religiões, a muçulmana e a católica. Um pequeno percentual é de nigerianos que ainda mantém suas tradições e religiões nativas. Foi na Nigéria que sequestraram aquelas centenas de meninas nas escolas para serem estupradas, e recentemente novamente praticaram o mesmo ato hediondo.

Obra de Joseph  Eze

Hibisco era a flor da minha infância, tinha na casa alugada da minha avó. E é a flor da casa da tia da protagonista. A tia era universitária, e universitários criaram em laboratório o Hibisco Roxo, já que em geral a cor natural é rosa ou mesmo rosa avermelhada. 

Hibisco Roxo é um livro difícil de ler. O pai da protagonista é um monstro. Enquanto ele posa de bom homem para a comunidade católica, em casa espanca todos, põe chá fervendo nos pés das crianças, espanca a esposa até ela abortar duas crianças. E da onde vem tanto dinheiro? Todos em casa tem atividades escritas, tudo é milimétrico, cada obrigação tem hora, insuportável. Não há alegria, só há medo. O pai proíbe contato com o avô porque ele mantém suas tradições. O avô passa necessidades, o filho diz que dará muito dinheiro, carro, casa, se o pai se converter. É uma arrogância achar que a sua fé é superior a dos outros. E praticar muitas, mas muitas maldades em nome de uma religião.

Obra de Akpokieri Karo

O catolicismo é tão prepotente na Nigéria, que as crianças que vão ser batizadas ou crismadas precisam trocar seus nomes para nomes ingleses. Como se o nome nativo do país não tivesse valor, só o inglês.

É na casa da tia que os irmãos tem um pouco de paz. Lá que eles começam a ter mais contato com o avô, mas o pai tem sempre chilique quando descobre que as crianças dormem no mesmo teto que o avô. O avô está velho e doente, mas o pai das crianças está preocupado com a fé do pai. A própria neta por medo está preocupada em dormir sob o mesmo teto que um "pagão" e pelo medo, não consegue perceber que teria que abandonar os horrores da proibição e ter um pouco de compaixão e empatia por um velho doente. 

Fotografia de J.D. ' Okhai Ojeikere

A autora coloca também as incoerências humanas. O pai é um industrial e tem um jornal, se opõe ao governo opressor, é admirado por suas ideias. 

Na casa da tia tudo é difícil, ter combustível, água, luz, tudo que é essencial falta. Não há água para banhos como na casa do parente rico. As comidas estragam na geladeira, mas eles reaproveitam colocando muito tempero. Tudo trágico e desumano. Em muitas questões, corrupção, falta de saúde pública, inúmeras greves, lembrou muito o Brasil.

Tanto os artistas plásticos bem como o músico são nigerianos. Uma personagem adorava ouvir Fela Kuti. A família católica proibia rádio e televisão. Também proibia o idioma nativo.

Beijos,
Pedrita