Terminei de ler
Canção de Ninar (2016) de
Leïla Slimani da
Tusquets Editores. Eu queria muito ler esse livro, tanto que pedi de aniversário. Eu tinha visto várias matérias e entrevistas com a autora marroquina e queria muito ler, mesmo sabendo que seria uma leitura difícil. A autora baseia seu livro ficcional em um fato hediondo, uma babá que mata as crianças que cuidava, esse é o ponto de partida. A autora ganhou o
Prêmio Goncourt pela obra.
Obra de Mostafa Assadeddine
Após o capítulo da mãe chegando em casa e vendo as filhas mortas, o livro passa a contar a história deles por vários olhares, é ambientado na França, a patroa é uma imigrante e a babá é branca. O começo até parecia uma leitura mais linear, mas vai tendo desdobramentos inteligentes, um texto ácido sobre a condição das mulheres e de serviçais. A mãe tem dois filhos, parou de trabalhar, não está dando conta de cuidar da casa e das crianças, vive desleixada, cansada e não consegue controlar os filhos. Resolve voltar a trabalhar e contratar uma babá. Eu compreendo que na primeira semana devem ter ficado encantados com a babá, exaustos, sem vida própria, deve ter sido um alívio chegar em casa e ter tudo arrumado. A babá, sem pedirem, fazia faxina na casa também, as crianças limpas e na cama dormindo. Mas depois de 15 dias eu já tinha mandado essa mulher invasiva embora. Eu detesto pessoas que começam a mandar na casa, a serem autoritárias.
Obra Oil, Oil, Oil (2011) de Mounir Fatmi
Mas o casal também comete uma sucessão de erros, inclusive de não mandá-la embora aos primeiros sinais de autoritarismo. Adoram encontrar a casa limpa, mas nem pensam na exploração que fazem do serviço. Não procuram pagar por esse serviço, nem contratar uma faxineira para ajudar a babá. Aceitam o serviço gratuito de uma pessoa pobre com satisfação. A babá também comete o erro básico de viver a vida dos patrões. Ela ama e cuida dos filhos como se fossem seus, da casa como se fosse sua. Não cuida da casa dela, nem ao menos paga o aluguel. Aos poucos ela passa a dormir no trabalho e vai ficando. Muitos invejam essa família, a babá branca impecável, a maioria tinha babás de pele escura, essa babá que fazia tudo, estava sempre disponível, ninguém percebia os distúrbios. Não é normal um profissional abdicar da própria vida para viver a do outro. Quando o casal começa a perceber que eles têm medo de ofender a babá, que era grosseira sempre que os patrões não faziam o que ela determinava, que eles começam a agir só quando a babá não estava em casa, escondidos, com medo da reação da babá é que eles passam a pensar em mandá-la embora, mas por medo vão adiando. Assustador. Canção de Ninar acaba sendo muito psicológico. Fala de exploração de funcionário, imigrantes, de distúrbios familiares, maternidade, mundo feminino. Os capítulos são todos contatos por mulheres, em alguns momentos é a mãe que conta, outros a babá, mas há parágrafos com relatos da vizinha, da filha da babá, obra impressionante.

Beijos,
Pedrita