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sábado, 9 de março de 2024

Açúcar

Assisti Açúcar (2017) de Sérgio Oliveira e Renata Pinheiro na Brasiliana TV. Descobri esse canal no Now, em Canais. É novo! E achei esse filme, eu adoro a Maeve Jinkings.


 

Que filme desconcertante, cheio de símbolos metáforas! Muitas cenas são surreais e fantásticas! E que locação! Foi realizado em um engenho pernambucano. A protagonista chega de barco que anda pela terra. Incrível como foram gravadas as cenas, parece mesmo que o barco está na água. Como chegaram os colonizadores. E sim, é uma decadente fazenda de cana-de-açúcar.

Ela fica na casa grande caindo aos pedaços. Linda a casa, tudo antigo e detonado. Aos poucos entendemos um pouco. Ela não pagou a energia, não tem dinheiro, está falida. Um morador fala que os donos da casa grande estão com inúmeros processos trabalhistas na justiça. E ela comenta com a tia que os antigos funcionários tiveram a posse de um pedaço de terra, provavelmente pra pagar as dívidas deles. E pelo jeito não foi suficiente porque tem muitos processos trabalhistas ainda. O ódio que elas, a dona da casa grande a a tia, dos que ganharam por direito a terra é assustador. Os novos donos do pedaço de terra criaram um centro cultural e recebem dinheiro da Europa pra cultivar "plantas exóticas". Eles então conseguem com esses trabalhos ter renda, manter a terra produtiva. Os da casa grande só conseguem ter dívidas. A dona da casa grande contrata uma funcionária pra limpar a casa. É abominável como ela trata a moça. Reclama do preço, acha que a moça ter que fazer mais do que lhe é designado sem pagar adicional. Em uma briga ela diz que eles, os funcionários, deviam ser gratos, porque a família sempre deu teto e comida. Isso mesmo, acham que podem explorar a mão-de-obra só porque a pessoa vive na terra do outro, e isso tem nome né? A ótima Dandara de Morais é a funcionária. O outro vizinho é Zé Maria.
É tudo sutil e com poucos diálogos. A tia comenta do empréstimo pra plantar chuchu. Isso mesmo, a proprietária achou que poderia ter lucro com chuchu. Eles não sabem o que fazer com a terra. Ela não tem horta, nada pra a subsistência, não tem dinheiro, mas acha que algo milagroso vai acontecer. Que não pode abrir mão do pedaço de terra que sobrou, mesmo não sabendo o que fazer com ele. A tia é a maravilhosa Magali Biff, ela canta em alguns momentos, não tinha ideia que cantasse tão bem. A trilha sonora é incrível. Tem inclusive algumas músicas de Mário de Andrade. É um filme desconcertante!


Eu descobri o Brasiliana TV por um acaso. Não tão acaso assim já que tem um tempo que não assisto mais a programação na hora que passa. Faço como na Netflix, vou ao streaaming e escolho. O Brasiliana TV é um produto do Canal Curta! Será gratuito por três meses e tem uma acervo nesse momento de 87 filmes brasileiros. E séries. Em séries estão programas de entrevistas e vários sobre o segmento. Boa parte dos filmes eu já vi, tem Dona Flor e Seus Dois Maridos, Bye Bye Brasil, Quatrilho, Marvada Carne, Inocência, entre outros. Há vários documentários, esses não vi vários, mas vejo pouco documentário. Ao todo serão 340 produtos. Não sei se todos já estão lá, se contaram todos os segmentos. Pra assistir tem que ir no Now, em Canais, que o Brasiliana TV está lá, sem custo adicional, com os outros canais. 

Beijos,
Pedrita

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

Rota 66: A Polícia que Mata

Assisti a série Rota 66: A Polícia que Mata (2022) de Philippe Barcinsky e Diego Martins na Globoplay. Sabia que não seria fácil já que tinha lido há muito tempo o livro. A série é muito bem realizada. Humberto Carrão está muito bem como o Caco Barcellos. A adaptação é de Maria Camargo e Teodoro Poppovic.

Caco Barcellos pesquisou por muito tempo as inúmeras mortes pela polícia da Rota 66, uma polícia altamente letal. A investigação mostrou que dos 4200 mortos, 2200 eram inocentes. Infelizmente a pena de morte continua por alguns policiais, que sem ao menos saber quem é a pessoa que está na frente deles, julga, sentencia e mata em segundos, em uma grande maioria das vezes sem nem mesmo as pessoas estarem armadas como o caso da família que ia ao batizado ou da comerciante que tentou interferir na violência da polícia com suspeitos desarmados e pisaram no pescoço dela. Além de inúmeros outros casos. O livro fala da investigação do jornalista que teve vários processos por calúnia e difamação, Caco Barcellos foi inocentado de todos. 

A série mostra as pessoas, as famílias, a vida pessoal do jornalista que foi sistematicamente ameaçado e intimidado. Assustadora a hostilização armada no dia do lançamento do livro. O personagem do Aílton Graça era um policial da Rota 66, até que seu filho é executado quando ia comemorar sua formatura em direito. O elenco é incrível, muito corajosos os atores que aceitaram interpretar os monstros da Rota 66: Rômulo Braga, Ricardo Gelli e Rafael Lozano.
A série fala das mortes pelos olhares das mães, esposas, avós que passam a procurar seus parentes desaparecidos, ou a conviver com a denúncia de que eram bandidos. É muito doloroso ver o sofrimento dessas mulheres e das crianças. A série mostra a difícil trajetória de reconstrução de suas vidas e histórias, após essas tragédias. O elenco é incrível: Lara Tremonoux, Juan Queiroz, Wesley Guimarães, Adriano Garib, Magali Biff, Naruna Costa, Ariclenes Barroso, Gabriel Godoy, Nizo Neto, Adriana Lessa, Ana Cecília Costa, Virgínia Rosa e Augusto Madeira. Participam: Martha Meola e Maria Manoella.
Eu tinha me esquecido que o Caco Barcellos tinha feito a cobertura no massacre do Carandiru. A tropa de choque entrou e impediram familiares e a imprensa de entrar no local. Só conseguiram entrar depois. Recentemente tentaram perdoar os policiais do massacre, por sorte reverteram essa arbitrariedade e impunidade A série mostra mais o Humberto Carrão como repórter, no final que aparecem alguns trechos de matérias da época com o Caco Barcellos.

Beijos,
Pedrita

quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

Mar de Dentro

Assisti Mar de Dentro (2020) de Dainara Toffoli no TelecinePlay. Tinha tempo que queria ver esse filme. É muito delicado e fala de mães solo.

A protagonista se envolve com um colega de trabalho. Logo depois descobre que está grávida. Ela não acha que é um bom momento, está em ascensão profissional. Ele está muito feliz e acaba contagiando-a. A relação vai amadurecendo e eles resolvem morar juntos.
A vida muda e ela passa a ser mãe solo. O instagram do filme @mardedentro.filme fala que são 11 milhões de mães solo no Brasil. Ela não tem identificação com os avós do pai da criança. Então prefere se organizar com pessoas que pensem mais parecido. Mar de Dentro não romantiza a maternidade. O final emociona! Muito lindo e poético! Monica Iozzi é a mãe, Rafael Losso, o pai. Os avós Magali Biff e Zé Carlos Machado. Alguns outros do elenco são: Gilda Nomacce, Nani de Oliveira, Klarah Lobato, Marcelo Airoldi e Fabiana Guggli.

Beijos,
Pedrita

sábado, 10 de abril de 2021

Amor de Mãe

Assisti a novela Amor de Mãe (2019-2020-2021) de Manuela Dias na TV Globo. A direção foi de José Luiz Villamarim. Que belíssimo trabalho, que roteiro! Essa novela foi atropelada pela pandemia, pararam as gravações. Fizeram um esforço de guerra pra retomar e fechar a história da forma que fosse possível e infelizmente algumas tramas ficaram sufocadas, mas nada tirou a maravilha que foi essa novela. Inesquecível! A trama entrelaça a história de três mulheres, incrível no final que entendemos a relação delas desde que foram mães. Vitória (Taís Araújo), uma famosa advogada, tinha sido uma jovem estudante grávida que dá o seu filho. Lurdes (Regina Casé) que tem seu filho vendido pelo marido para a mesma mulher que recebe o filho da Vitória. E Thelma (Adriana Esteves) que compra o filho dessa mesma mulher. Todas maravilhosas, que atrizes. Gostei de falar de co-responsabilidade. O quanto nossos atos podem interferir ou promover crimes, o quanto cada um de nós é responsável pelo todo.

Eu fiquei muito brava com um programa de fofoca de televisão que antes da novela começar já contou quem seria o filho de Lurdes (Chay Suede) e de sopetão, não deu nem ao trabalho de avisar que ia dar spoiler, quem não quisesse ouvir que zapeasse, bom, TVs não fazem isso, pedir pra pessoa sair do canal, então não dê spoilers. Sim, minhas amigas disseram que a novela deu várias pistas, mas antes da novela começar? Achei um desrespeito com o trabalho de todos os envolvidos. Um gosto por furo muito grosseiro. A cena da revelação foi emocionante! Pra novela poder ser realizada, todos tinham protocolos de segurança muito severos e eram testados periodicamente. Infelizmente todos os núcleos não poderiam voltar. Quanto menos elenco, cenas, equipes, mais seguro, mas valeu o esforço, foi lindo! Pena que alguns envolvidos não entendiam nada de protocolos. Acho que viviam em uma bolha porque em agosto já se sabia que não se sabia se a pessoa que tinha ficado contaminada não se contaminaria de novo. Achavam que poderia durar uns 5 meses, mas nada era certeza mesmo em agosto quando já se sabia também que dentro de casa não podem todos tirar as máscaras se vierem das ruas. A Lurdes poderia ter ficado na casa do Magno, e ter pouco contado com os jovens da casa e quando tivesse só por máscaras. Tirar as máscaras pra falar era muito assustador. Quando Sandro (Humberto Carrão) tira a máscara no hospital, local de contaminados, nem higienizando as mãos seria seguro, imagine sem higienizar como ele fez. Vitória também, depois de ficar com uma pessoa sem máscaras no carro, não ficou isolada em casa e nem fez teste pra se reaproximar da família. Já se sabia em agosto desses protocolos. E pior, foi na pior época de disseminação do vírus no Brasil. Colocaram em texto no final, mas eu acho que teria sido melhor em intervalos diferentes, uma pessoa, podia ser a ex-BBB Thelma, que é médica, explicar esses detalhes, já que há negacionista demais no Brasil. 
Lindo o amor de Penha (Clarissa Ribeiro) e Leila (Arieta Correa). A vida das duas foi se transformando na trama. Penha era a doméstica maltratada pela ricaça Lídia (Malu Galli). E Leila começou a novela em coma. Várias reviravoltas fazem as duas se unirem, se tornarem grandes bandidas e conseguiram fugir como no filme Thelma e Louíse, mas com final feliz. Por incrível que pareça eu torcia por elas.

Outro grande valor de Amor de Mãe foi ter chamado grandes atores não tão conhecidos da televisão. Como a talentosa Magali Biff como Nicette. Sua personagem acaba se misturando em quase todos os núcleos e tendo papel fundamental. Primeiro ela é mãe do homem (Paulo Gomes) que o Magno acha que matou. Magno namora sua filha Betina (Isís Valverde) que não sabe da história. Depois Nicette mora em Guapori, a região contaminada pela indústria de Álvaro, que depois descobrimos que Betina é irmã de Álvaro porque o pai dele abusou de sua mãe. Mas a teia continua, ela é avó do filho da mulher do Álvaro, que engravidou do filho dela. E Álvaro, um dos grandes vilões da trama, aceita o filho de outro homem da esposa, surpreendente. Outros personagens marcantes com atores pouco conhecidos da televisão foram interpretados por Démick Lopes, Dida Camero, Rodolfo Vaz, MC Cabelinho, WJ, Nando Brandão, Rodrigo Garcia, Isabel Teixeira, Giulio Lopes,  Aldene Abreu, Antonio Negrini, Stella Rabello e Mariana Nunes
A trilha sonora também era maravilhosa: Gal Costa, Gonzaguinha, Maria Bethânia, Cartola, Olodum, Chico Buarque, Clara Nunes, Elza Soares, Caetano Veloso, Elis Regina, Nina Simone, Jorge Benjor e Madredeus. Tem no spotify.
Amor de Mãe falou muito sobre questões sociais. Educação inclusive na personagem da Camila, da incrível Jessica Ellen. Professora de uma escola pública em lugar de vulnerabilidade, ela procura ajudar seus alunos a procurar um futuro diferente para as suas vidas. Inclusive vários de seus alunos tornam-se personagens importantes na trama como Cacá Ottoni, Dan Ferreira, Jennifer Dias, Dora Friend e Aisha Moura.
Foi uma novela de muitas perdas, estranhamente não por covid. E atores jovens como o belíssimo português Filipe Duarte e Léo Rosa que fez uma pequena participação como um jornalista.

E Durval, ai o Durval, que personagem carismático do Enrique Diaz e todo errado, todo não, mas sim, foi um pai ausente. Eu me incomodei da filha (Duda Batsow) exigir muito dinheiro na pandemia pondo o pai em risco. Ele vai trabalhar de entregador de aplicativo, correndo o risco de morrer de covid. Se a filha e e a mãe (Clarissa Kiste) estivessem passando necessidade, é certo, mas não era o caso, ela poderia esperar a pandemia passar pra exigir a responsabilidade financeira do pai. E principalmente quando o reencontrou. Acho que na pandemia nós precisamos muito mais lidar com a empatia e com a compaixão. E quem trabalha com artes ficou totalmente sem emprego, devia ter exigido antes quando ele tinha como correr atrás. Foi bem mais inteligente quando ofereceram moradia pra ele que não tinha dinheiro nem pra alugar uma vaga em pensão. Atrapalhado como sempre foi, teria grande chance de ir morar nas ruas como muitos nesse período escuro. E apesar de todos os defeitos, Durval era um bom dono de casa, bem bagunceiro, mas cozinhava, cuidava da filha, seria uma forma de ajudar no orçamento tendo funções domésticas. Mas a autora reserva um respiro pra ele, e a trama promove momentos deliciosos com a Dona Unicórnia.

Gostei demais da atriz e cantora que interpretou a Verena, a Maria. Linda e talentosa. Fez par romântico com o personagem do gigante Irandhir Santos. Pena que foi bem pequena a parte da mãe biológica (Olívia Araújo) do Tiago. Muitas tramas pareciam já ter sido pensadas desde o começo, mas a pandemia encurtou as abordagens, mesmo assim foi uma linda cena. Uma pena também que não puderam definir o destino amoroso de Lurdes disputada pelos personagens dos grandes Luiz Carlos Vasconcelos e Nanego Lira. As crianças eram demais, já bem grandinhos um ano depois quando voltaram a gravar. E foram mais poupados, pouco apareciam. A bebê da Vitória então nem apareceu, mais seguro assim. Eram interpretadas por Clara Galinari e Pedro Guilherme. A lista de grandes atores é imensa: Vladimir Britcha, Murilo Benício, Erika Januzza, Tuca Andrada, Débora Lamm, Milhem Cortaz, Letícia Lima, Douglas Silva, Vera Holtz, Ana Flávia Cavalcanti, Camilla Márdila, Lucy Alves, Júlio Andrade, Alejandro Claveaux, Dan Ferreira, Eliane Giardini  e Fabrício Boliveira.

E a família da Dona Lurdes? Que personagens ricos, complexos, só grandes atores, que saudade já! Juliano Cazarré, Nanda Costa e Thiago Martins. Foi esperançoso no final todos sem máscaras falando que a vacina chegou pra todos, pena que não é realidade. Triste!




Beijos,
Pedrita

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Nos Países de Nomes Impronunciáveis

Assisti a peça Nos Países de Nomes Impronunciáveis no Sesc Ipiranga. A direção foi de Magali Biff, sua estreia na direção. Que peça! Estou ainda impactada com ela, inesquecível! É baseado no texto da Paula Autran. Eu coloquei o banner da peça que vai começar agora no Teatro Arthur Azevedo. Eu vi o último dia da temporada no Sesc.

Eu sempre fico curiosa como a produção chegou nesse projeto, no texto do programa tirou essa minha dúvida. A atriz e produtora Stella Tobar dava aula em um CEU e se deparou com esse texto. Incrível como caminhos fazem a arte encontrar as pessoas. Às vezes há tanto malabarismo para chamar a atenção de um bom trabalho, e um encontro casual, faz essa obra se transformar nesse maravilhoso espetáculo. 

A peça Nos Países de Nomes Impronunciáveis traz a encenação de três cartas, com as três respostas. Minha amiga Liliane do blog Paulamar iria amar, ela ama obras de cartas. É genial! São três cartas de despedidas, os protagonistas foram para Países de Nomes Impronunciáveis. A carta da partida é cheia de adrenalina, esperança, empolgação com o que está por vir. As cartas dos que ficaram são cheias de sentimentos complexos como tristeza, raiva, rejeição, desprezo. Sentimentos tão controversos com a energia de quem parte. Fantástico!
As três cartas foram encenadas de modo original, seis cartas na verdade, e eu pensei: "o espetáculo vai acabar". Mas não, tem uma surpreendente reviravolta, que peça incrível, quanta genialidade. No palco estão os excelentes atores Stella Tobar e Antonio Salvador. Bruno Garcia é o músico que participa do espetáculo e em determinado momento o público também. Incrível! Gostei muito também de como a tecnologia está inserida no espetáculo, de modo fluido, quase uma extensão do elenco ou mais um personagem. Amei ainda os figurinos e cenários de Paula di Paoli, como o vestido da protagonista. Nos Países de Nomes Impronunciáveis fica em cartaz até 17 de junho. Os ingressos vão custar bem menos que o cinema, R$ 20,00 e meia entrada.
Beijos,
Pedrita

sábado, 5 de maio de 2018

Pela Janela

Assisti Pela Janela (2017) de Caroline Leone no Canal Brasil. Que filme lindo! Eu queria muito ver, passou em algumas mostras, fiquei muito frustrada de não ter conseguido e eufórica quando vi que ia estrear no canal.

Eu adoro a atriz Magali Biff, foi muito interessante ver ela em um personagem tão diferente do que estou acostumada. Magali Biff costuma interpretar personagens contundentes, muito fortes, foi muito surpreendente ver ela em uma personagem que pouco falava ou muito baixo, de hábitos cotidianos e muitos silêncios. Que atriz! Começa com a personagem trabalhando em uma fábrica. Ela é a primeira a chegar e a última a sair. Ela que coordena a produção e trabalha também com o grupo. Até que o chefe diz que uma empresa se fundiu a eles e que os novos sócios fizeram algumas exigências. Descobrimos que ela foi demitida. É de cortar o coração. A tristeza contida e silenciosa da personagem dói. 
Descobrimos que ela trabalhou 30 anos nessa empresa. Depois do trabalho ela fazia as tarefas domésticas. Ela vive com o irmão que fica chocado com o estado que a irmã se encontra, mas ele precisa ir para Buenos Aires levar um carro para a filha do patrão. Ele é motorista e descobrimos que igualmente como a irmã, trabalha a muito tempo no mesmo lugar. Ele tenta ver se o filho pode ficar com a tia, porque ele viaja no dia seguinte, mas não pode, então ele resolve levar a irmã na viagem. Me emocionei com ele arrumando a mala, separou até o bordado que ela fazia toda noite. O cuidado do irmão também emociona. Cacá Amaral também está incrível. Logo no começo da viagem ela pede que ele a leve de volta pra casa, mas ele se recusa. E o mundo vai se abrindo para essa mulher Pela Janela. Nossa, que filme delicado e lindo!
Eu fiquei muito curiosa pela escolha das locações, há entrevistas com a diretora e vou procurar matérias para saber como aconteceu. A fábrica eu consegui descobrir pelo uniforme da protagonista, é Dinatel, achei o site e descobri que é uma fábrica de Reatores e Ignitores de lâmpadas HID. Os dois vão passando por hotéis e por lugares na estrada. Fiquei encantada com a locação em Buenos Aires. São vários cômodos, moram famílias, o banheiro é coletivo. Os irmãos também fazem uma linda viagem pelas Cataratas do Iguaçu. Adorei a blusa que ela ganhou, muito lindo quando ela usa mesmo achando espalhafatosa. Mas tudo é econômico, nada é óbvio, tudo vai acontecendo e vamos partilhando. Queria uma continuação do filme, queria acompanhar e continuar acompanhando a vida desses dois irmãos. Queria ser amiga desses dois irmãos. Muito emocionada com essa história!

Pela Janela vem angariando muitos prêmios: 
46º International Film Festival Rotterdam 2017 – Seção Bright Future – Prêmio FIPRESCI (Prêmio da Crítica Internacional)
Habana Films Festival – Festival Internacional del Nuevo Cine Latinoamericano – Prêmio de Contribuição Artística
45º Festival de Gramado – Competição Oficial
41ª Mostra Internacional de São Paulo
Panorama Internacional Coisa de Cinema – Melhor Filme
X Janela Internacional de Recife
Festival East West Russia 2017
Malatya IFF (Turquia) – International Competition Films
12º Fest Aruanda do Audiovisual Brasileiro – Melhor atriz pra Magali Biff, Melhor ator coadjuvante para Cacá Amaral e Melhor Som


Beijos,
Pedrita

domingo, 30 de outubro de 2016

Deserto

Assisti no cinema Deserto (2016) de Guilherme Weber na Mostra Internacional de Cinema no MIS. Eu anualmente sempre tento ver um filme da mostra, ok, é muito pouco, mas em geral a mostra passa quando há efervescência cultural, então tenho que dividir os eventos. Esse fui ver por um acaso. O MIS é perto de onde eu moro. E atualmente dá pra comprar o ingresso pela internet, porque a mostra costuma ser sempre cheia. E a taxa da compra é razoável, uns 2 reais e o ingresso custava R$ 18,00. Na mostra também dá pra comprar vários tipos de pacotes para ver os filmes.

Deserto é livremente inspirado no livro Santa Maria do Circo, do mexicano David Toscana. É impressionante! Surreal! Poderia passar em qualquer cidade fantasma.  Foi realizado em uma cidade no sertão nordestino, mas poderia ser em qualquer cidade abandonada de qualquer país. Uma trupe de circo está a caminho de uma nova cidade. Na anterior uns 6 gatos pingados assistiram o grupo.

Só que na cidade que chegam é pior, ninguém mora mais lá. Acham uma fonte com água fresca e resolvem ficar. Vários atores estão velhos e cansados, resolvem cada um morar em uma casa abandonada e por lá viveram. É muito maluco tudo o que passa a acontecer.

Os poucos objetos abandonados viram verdadeiros tesouros, a privada de louça, a cama, a pintura na parede, o quadro com a foto da família. Eles tem a ideia insana de colocar em um chapéu funções de uma sociedade e sortear. É tudo surreal demais. Médico, cozinheira, puta, caçador, padre, militar e negro. Quem pega o papel da puta é um homem que passa a ser mulher e a ter clientes. O negro que não é negro passa a fazer as funções e a ser maltratado. São várias camadas, é impressionante, só assistindo mesmo.

Só atores incríveis no elenco: Lima Duarte, Everaldo Pontes, Cida Moreira, Fernando Teixeira, Márcio Rosário, Claudio Castro, Magali Biff e Pietra Pan. Dificílimos personagens, complexas interpretações, precisam de muito despojamento para entrarem nas loucuras. Magali Biff raspou o cabelo e as sobrancelhas, tinha feridas no rosto, Cida Moreira com um cabelo grisalho maltratado. Tudo muito cru e intenso. Tudo é maravilhoso, que belíssima fotografia de Rui Poças. Que figurinos incríveis de Kika Lopes. Os cenários também maravilhosos de Karen Araújo. Os objetos tão importantes na trama foram definidos por Ananias de Caldas. Espero que entre no circuito porque é incrível. 

Beijos,
Pedrita