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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Análise: O Nome da Rosa - Volume 2

O Nome da Rosa - Volume 2, de Milo Manara - Gradiva

O Nome da Rosa - Volume 2, de Milo Manara - Gradiva
O Nome da Rosa - Volume 2, de Milo Manara

Foi neste mês de fevereiro que a Gradiva publicou o segundo e último tomo da adaptação para banda desenhada, por parte de Milo Manara, de O Nome da Rosa, célebre obra da autoria de Umbero Eco. Em França, este livro saiu no final de janeiro, pelo que a editora portuguesa esteve bem ao não perder muito tempo até nos fazer chegar o final desta muito aguardada obra.

E apesar da espera de quase três anos entre o primeiro e segundo tomo, posso dizer-vos que a espera valeu a pena. De facto, estamos perante um dos maiores mestres da banda desenhada europeia que, mesmo na casa dos oitenta anos, continua a ter uma abordagem artística sublime e inteiramente diferenciada. Falo de Manara, claro.

Neste segundo tomo, continuamos a acompanhar a história que nos é narrada por Adso de Melk, já idoso, e que vai relembrando os acontecimentos vividos quando jovem noviço ao lado do frade franciscano Guilherme de Baskerville. À medida que vários monges vão aparecendo assassinados no mosteiro, em circunstâncias cada vez mais estranhas, cresce o clima de medo e superstição, e Guilherme assume o papel de detetive, utilizando a razão e a observação para tentar descobrir quem é o responsável por tão nefastos crimes.

O Nome da Rosa - Volume 2, de Milo Manara - Gradiva
Este segundo tomo dá, pois, continuidade direta aos acontecimentos do primeiro volume, aprofundando o clima de suspeita, clausura e tensão que envolve o mosteiro beneditino. Ao mesmo tempo, confirma a ambição de Milo Manara em ser fiel ao espírito e à estrutura do texto original de Umberto Eco. Com efeito, Manara respeita, tanto quanto possível, os diálogos, os episódios centrais e a complexa teia de referências históricas e teológicas presentes em O Nome da Rosa. Essa fidelidade procura preservar a densidade intelectual e o ambiente erudito que tornaram o romance tão popular, fazendo-nos sentir perante uma transposição cuidadosa e respeitosa, que evita simplificações excessivas.

Contudo, lá está, essa mesma fidelidade levanta alguns problemas à obra, pois acredito que certos elementos da obra original talvez pudessem ter sido retirados ou, pelo menos, condensados nesta adaptação, pois não acrescentam assim tanto ao mistério que envolve o mosteiro. Em banda desenhada, onde o ritmo e a economia narrativa são fundamentais, algumas passagens e diálogos acabam por pesar no desenrolar da ação, diluindo momentaneamente a tensão policial que sustenta a intriga. Já no primeiro volume isso tinha-se sentido - se calhar até mesmo com mais força - e volta a sentir-se neste segundo tomo.

Mesmo assim, e isto é uma boa notícia, este segundo volume revela-se, porventura, mais focado do que o anterior, notando-se uma maior concentração do enredo nos acontecimentos decisivos e na progressiva revelação dos segredos que conduzem à identificação do culpado pelos assassinatos que assolam o mosteiro. A narrativa ganha, portanto, alguma fluidez e intensidade face ao primeiro volume. 

Não obstante, e reflexão teológica presente no romance original recebe aqui demasiada atenção por parte de Manara. E, bem vistas as coisas, essa componente teológica até não é tão importante assim para a história, mas mais para lhe dar alguma camada intelectual. Por esse motivo, acredito que essa parte poderia ocupar menos páginas, o que também teria permitido  que houvesse menos balões sobrecarregados de texto. Que os há.

E não esqueçamos que embora esta seja uma obra que decorre no seio do clero e mergulhe profundamente em debates religiosos e filosóficos, o seu apelo principal é o mistério e a investigação. Estamos, no fundo, perante um policial histórico e o prazer do leitor advém sobretudo da tentativa de acompanhar as deduções, os indícios e as revelações que conduzem à descoberta final.

É claro que, mesmo assim, a adaptação cumpre bem o seu propósito. O encadeamento dos acontecimentos, a escalada de mortes e a revelação final são apresentados com clareza e impacto. O ritmo narrativo, sobretudo neste segundo volume, reforça a vertente de thriller intelectual que caracteriza a obra de base.

O Nome da Rosa - Volume 2, de Milo Manara - Gradiva
Já o desenho continua exímio e mostra bem porque é que Milo Manara é considerado um dos grandes mestres da banda desenhada europeia. A sua linha elegante, o cuidado no detalhe arquitetónico e a expressividade das personagens conferem uma dimensão visual rica e imersiva à história. O próprio mosteiro surge quase como uma personagem autónoma, labiríntica e opressiva, refletindo o enigma que o habita.

E se, no tomo anterior, a presença feminina quase não tinha acontecido - embora tenha surgido no final do livro para nos deixar em suspenso - este segundo volume abre logo com a famosa cena em que Adso é seduzido pela bela mulher. É mais uma cena fantástica, carregada de erotismo, onde Manara revela que não perdeu o jeito para o desenho do corpo feminino. E mesmo que todas as mulheres desenhadas por Manara possam parecer demasiadamente semelhantes entre si - e isso é um facto, admitamo-lo - parece que sempre queremos voltar a dar de caras com estas belíssimas mulheres. O pobre Adso que o diga.

Mas também a representação de todas as outras personagens masculinas está muito bem executada, com destaque para Guilherme de Baskerville, inspirado - talvez um pouco em demasia? - em Marlon Brando. Além disso, também os espaços interiores, as bibliotecas, os corredores e as celas são representados com uma atmosfera densa, quase sufocante, que reforça o tom sombrio da narrativa. 

Nota ainda, muito positiva, para a presença de um outro estilo de desenho em que, para certas partes mais histórias, o autor recorre a uma técnica que lembra a gravura. Isso deixa-me até com a ideia de que Milo Manara se divertiu bastante a fazer este livro devido a nele haver espaço para pôr em prática todas estas nuances artísticas.

Como ponto menos positivo, tenho que referir, novamente, que as passagens em latim, sem qualquer legenda, são em maior número do que o aceitável. Embora isso não seja culpa da edição portuguesa - uma vez que as outras edições se apresentam de igual forma -, a ausência de tradução acaba por criar algum distanciamento para o leitor que não domina a língua. Se no início ainda dei comigo a tentar perceber o que quereria dizer cada expressão, mais para a frente já quase desprezava os balões em latim. É uma opção que privilegia a autenticidade histórica, bem sei, mas que poderia ter sido acompanhada por notas ou discretas traduções de apoio.Mas, de resto, essa questão já se colocava no primeiro volume, pelo que não constitui surpresa neste segundo tomo. 

A edição da Gradiva é em capa dura brilhante, com bom papel brilhante no miolo. O trabalho de encadernação e impressão também é bom e há ainda, no final, espaço para um breve caderno de esboços, com três páginas, que é muito bem-vindo. A edição da Gradiva assume-se, deste modo, como bastante digna para uma obra que também o merecia, diga-se.

Em suma, O Nome da Rosa - Volume 2 é uma adaptação muito convincente, que respeita o romance de Umberto Eco, valoriza-o visualmente e confirma o talento extraordinário de Manara enquanto narrador gráfico. Com pequenos excessos herdados da matriz literária da obra original, mas amplamente compensados pela qualidade artística e pela força do mistério, este segundo tomo encerra a história de forma sólida e memorável. É um belo livro que não deve faltar na coleção de um apreciador da obra de Milo Manara!


NOTA FINAL (1/10):
9.3


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O Nome da Rosa - Volume 2, de Milo Manara - Gradiva

Ficha técnica

O Nome da Rosa - Volume 2
Autor: Milo Manara
A partir da obra original de: Umberto Eco
Editora: Gradiva
Páginas: 72, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Fevereiro de 2026



terça-feira, 19 de agosto de 2025

TOP 10 - A Melhor BD lançada pela Gradiva nos últimos 5 anos!



Hoje é dia de vos trazer as melhores bandas desenhadas editadas pela Gradiva nos últimos cinco anos!

Permitam-me, desde já, agradecer por todas as mensagens positivas que muitos leitores me têm enviado a propósito desta iniciativa do TOP 10 com a melhor BD publicada por cada editora nos últimos 5 anos.

Hoje falo-vos, como dizia, das melhores bandas desenhadas que a Gradiva editou entre o período de 2020 a 2025, período de atividade aqui do Vinheta 2020. E são, naturalmente, muitas as boas obras lançadas por esta editora que, não obstante, tem demonstrado alguma volatilidade na sua assiduidade editorial. Se em 2021/2022 a Gradiva lançou muitas BDs, nos últimos dois anos, esse número caiu drasticamente.

Faço, por isso, votos para que a editora regresse com um fulgor renovado ao lançamento de (boa) banda desenhada.

Convém relembrar que este conceito de "melhor" é meramente pessoal e diz respeito aos livros que, quanto a mim, obviamente, são mais especiais ou me marcaram mais. Ou, naquela metáfora que já referi várias vezes, "se a minha estante de BD estivesse em chamas e eu só pudesse salvar 10 obras, seriam estas as que eu salvava".

Faço aqui uma pequena nota sobre o procedimento: considerei séries como um todo e obras one-shot. Tudo junto. Pode ser um bocado injusto para as obras autocontidas, reconheço, e até ponderei fazer um TOP exclusivamente para séries e outro para livros one-shot, mas depois achei que isso seria escolher demasiadas obras. Deixaria de ser um TOP 10 para ser um TOP 20. Até me facilitaria o processo, honestamente, mas acabaria por retirar destaque a este meu trabalho que procura ser de curadoria. Acabou por ser um exercício mais difícil, pois tive que deixar de fora obras que também adoro, mas acho que quem beneficia são os meus leitores que, deste modo, ficam com a BD que considero ser a "crème de la crème" de cada editora.

Por agora, deixo-vos com o TOP 10 da melhor BD publicada pela Gradiva:

terça-feira, 13 de maio de 2025

Análise: Verão Índio e El Gaucho

Verão Índio e El Gaucho, de Hugo Pratt e Milo Manara - Ala dos Livros

Verão Índio e El Gaucho, de Hugo Pratt e Milo Manara - Ala dos Livros
Verão Índio e El Gaucho, de Hugo Pratt e Milo Manara

Hoje trago-vos uma dose dupla que junta dois autênticos Mestres da banda desenhada mundial: Hugo Pratt e Milo Manara. Estes nomes indispensáveis da 9ª arte juntaram esforços para, a partir do ano 1983, produzirem uma primeira obra conjunta: Verão Índio. E, em 1991, voltaram a fazê-lo com El Gaucho. São duas obras que, acredito, já grande parte dos leitores portugueses conhecem, até porque os dois livros já por cá foram editados mais do que uma vez. De qualquer forma, e devido à sua qualidade e experiência formativa, no que à banda desenhada diz respeito, considero que em boa hora a editora Ala dos Livros optou por dotar o mercado nacional destas duas belas obras que há algum tempo se encontravam extintas das livrarias portuguesas.

Verão Índio e El Gaucho, de Hugo Pratt e Milo Manara - Ala dos Livros
Sendo duas obras diferentes, têm em comum a colaboração conjunta de Pratt e Manara, o que as torna, de algum modo, indissociáveis uma da outra. Hugo Pratt, conhecido e celebrado pelo seu estilo literário e histórico, e Milo Manara, mestre do erotismo, oferecem-nos em Verão Índio e em El Gaucho dois trabalhos que se ambientam em contextos coloniais distintos, mas que compartilham uma crítica feroz ao poder, à hipocrisia e à violência da dominação europeia.

Em Verão Índio, somos transportados para a Nova Inglaterra do século XVII, em plena altura em que a tensão entre colonizadores e indígenas se fazia sentir com mais força. Já El Gaucho situa-se no início do século XIX, durante a invasão britânica ao Rio da Prata, focando-se no impacto do colonialismo europeu na América do Sul.

Pratt, que nestes dois livros assegura apenas o papel de argumentista, subverte os arquétipos históricos. Em Verão Índio, os puritanos, que deveriam representar a moral e a civilização, são mostrados como figuras cruéis, racistas e hipócritas, enquanto que os indígenas, embora marginalizados, aparecem como portadores de uma dignidade que a sociedade europeia parece ter perdido. Em El Gaucho, Pratt investe na crítica ao imperialismo e à traição política, evidenciando as contradições entre os discursos de libertação e os interesses económicos e sexuais que movem os colonizadores. 

Verão Índio e El Gaucho, de Hugo Pratt e Milo Manara - Ala dos Livros
Manara, com o seu traço detalhado e carregado de fluidez, imprime sensualidade até mesmo nas cenas mais brutais, criando um contraste inquietante entre forma e conteúdo.

A sua arte ganha especialmente um espaço de destaque em Verão Índio, onde o erotismo não é apenas um adorno, mas uma linguagem através da qual se denuncia a opressão e a hipocrisia. A representação da nudez feminina, longe de ser meramente fetichista, surge-nos como um símbolo de liberdade e de resistência. Em El Gaucho, o erotismo também está presente, mas é menos central. Aqui, Manara oferece-nos cenas de batalha, ambientes urbanos repletos de multidões e figuras militares com fardas pormenorizadas, o que mostra bem a versatilidade do autor, que vai além do conhecido erotismo das suas mulheres.

E embora me pareça que Verão Índio até é mais celebrado e adorado do que El Gaucho, olhando para as duas obras a frio, devo dizer que El Gaucho me parece claramente superior nos dois principais vetores das obras: quer no argumento, quer nas ilustrações.

Verão Índio e El Gaucho, de Hugo Pratt e Milo Manara - Ala dos Livros
O argumento de Verão Índio revela-se por vezes algo difuso, deixando algumas pontas soltas, enquanto que em El Gaucho, toda a história se apresenta mais bem estruturada e desenvolvida. Parece que, em El Gaucho Hugo Pratt já sabia muito bem para onde - e de que forma - levar a história e que, em Verão Índio, o autor se deixou levar um pouco ao sabor da corrente.

Também em termos de ilustração, Manara se sente mais solto e com uma técnica (ainda) mais aprimorada em El Gaucho, oferecendo-nos desenhos belíssimos e que hoje, passadas várias décadas, ainda detêm um verdadeiro charme que é difícil imitar ou reproduzir. 

Ainda que as duas obras tenham uma forte componente política, as personagens femininas desempenham, naturalmente, papéis centrais nas duas narrativas. Em ambas, são vítimas de um mundo masculino opressivo, mas também sujeitos ativos de mudança. A jovem Cécile em Verão Índio e a bailarina de El Gaucho são figuras que, mesmo subjugadas, recusam-se a ser apenas objetos da narrativa.

Verão Índio e El Gaucho, de Hugo Pratt e Milo Manara - Ala dos Livros
Em termos de edição, os dois livros apresentam-se muito apetecíveis, com capas duras baças com verniz localizado, bom papel brilhante no interior e excelente trabalho de impressão, encadernação e acabamentos. 

No caso de El Gaucho, encontramos ainda, no início do livro, um caderno de conteúdo extra que inclui esboços de Hugo Pratt e Milo Manara e textos introdutórios de Vincenzo Mollica e Michel Pierre.

Concluindo, Verão Índio e El Gaucho são duas obras indispensáveis para admiradores de banda desenhada. Embora separados por cerca de uma década, os dois livros parecem dialogar diretamente entre si. São como dois espelhos voltados um para o outro: um refletindo a América do Norte puritana e repressora, o outro a América do Sul tumultuosa e sensual. 

Juntos, constroem uma visão crítica e profundamente artística das Américas, conseguindo ser mais do que banda desenhada histórica ou erótica. São obras de arte complexas que desafiam o leitor a pensar sobre a colonização, o poder, o desejo e a liberdade.

NOTA FINAL (1/10):
Verão Índio: 9.0
El Gaucho: 9.5



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Verão Índio e El Gaucho, de Hugo Pratt e Milo Manara - Ala dos Livros

Fichas técnicas
Verão Índio
Autores: Hugo Pratt e Milo Manara
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 152, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 235 x 320 mm
Lançamento: Novembro de 2024

Verão Índio e El Gaucho, de Hugo Pratt e Milo Manara - Ala dos Livros

El Gaucho
Autores: Hugo Pratt e Milo Manara
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 144, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 235 x 320 mm
Lançamento: Abril de 2025

terça-feira, 12 de novembro de 2024

Ala dos Livros lança "Verão Índio" de Hugo Pratt e Milo Manara!


É um dos clássicos da célebre parceria entre os Mestres autores Hugo Pratt e Milo Manara e vai voltar a ter uma edição portuguesa!

E tendo em conta a qualidade das edições da editora Ala dos Livros - e, em particular, a da coleção "Obras de Pratt" - não tenho dúvidas que estaremos perante uma bela edição definitiva de colecionador.

O livro já se encontra em pré-venda no site da editora e deverá chegar às livrarias durante a próxima semana.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.


Verão Índio, de Hugo Pratt e Milo Manara
Massachusetts, 1625. 

Dois jovens índios encontram Shevah, a bela sobrinha do reverendo Black, nas dunas à beira mar. A violação da jovem rapariga quebra a convivência existente entre colonos e índios. Escondido na vegetação, Abner, que assiste a tudo, acaba por abater os dois jovens e recolher a jovem rapariga na cabana isolada onde vive com a sua família.

Mas os acontecimentos precipitam-se: os índios querem vingar a morte dos seus. 

Entretanto, começa a época do ano conhecida como o verão índio, que fica assim tingido pelo sangue da vingança e da morte.
Assinada por dois grandes mestres da Banda Desenhada Mundial, Hugo Pratt e Milo Manara, Verão Índio é uma história simultaneamente sensual e violenta, cuja acção decorre na América puritana dos primeiros colonos, e que a Ala dos Livros apresenta (de novo) aos leitores portugueses, alargando a Colecção Obras de Pratt a obras que o grande mestre veneziano efectuou com outros autores.
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Ficha técnica
Verão Índio
Autores: Hugo Pratt e Milo Manara
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 152, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 235 x 320 mm
PVP: 33,00€

quarta-feira, 26 de julho de 2023

Análise: O Nome da Rosa - Volume 1

O Nome da Rosa - Volume 1, de Milo Manara - Gradiva

O Nome da Rosa - Volume 1, de Milo Manara - Gradiva
O Nome da Rosa - Volume 1, de Milo Manara

Se A Bomba foi a grande surpresa editorial da Gradiva no ano passado, este O Nome da Rosa é a grande aposta em banda desenhada da editora portuguesa para este ano de 2023.

Até porque, à partida, esta parece ser uma obra destinada ao sucesso! Ou não reunisse dois nomes grandes da literatura e banda desenhada: Umberto Eco e Milo Manara. Se o primeiro é um dos escritores contemporâneos mais célebres, respeitados e bem sucedidos do mundo, Milo Manara é um dos grandes mestres da banda desenhada europeia, que é apreciado e celebrado em todo o mundo. Umberto já venderia bem, sem o nome de Manara, e Manara já venderia bem sem o nome de Eco. Imagine-se, por isso, o potencial desta obra!

O Nome da Rosa foi originalmente lançado em 1980 e, desde logo, se tornou num clássico da literatura. Foi depois adaptado para o cinema por Jean Jacques Annaud, com Sean Connery e Christian Slater nos papéis principais. Quer o livro, quer o filme, foram e são bastante marcantes. Trata-se de um romance histórico complexo e intrincado, que mistura elementos de investigação policial, teologia, filosofia e crítica social.

O Nome da Rosa - Volume 1, de Milo Manara - Gradiva
A história passa-se no século XIV e é-nos narrada pelo jovem franciscano Adso de Melk, que acompanha o seu mentor, Guilherme de Baskerville, um frade franciscano com experiência enquanto juiz do Tribunal de Inquisição, que – talvez por essa experiência - acaba por se revelar um fantástico detetive. E logo que Adso e Guilherme chegam a uma abadia beneditina, situada numa montanha do norte de Itália, deparam-se com uma série de misteriosos assassinatos que ocorrem sem razão aparente.

É uma obra especial por vários motivos. Por um lado, é de uma riqueza histórica grande pois retrata, de forma notável, o período medieval que, como sabemos, não é um tema tão comum assim. Por outro lado, é uma obra repleta de simbolismos, de questões teológicas e filosóficas, que nos fazem pensar e que colocam certos temas, como os dogmas da igreja, em cima da mesa. Finalmente, para além das componentes de reflexão e histórica, O Nome da Rosa é uma obra que consegue tornar-se aliciante de ler, por ter características de romance policial e de thriller, que poderiam figurar num qualquer romance de Agatha Christie. Esta é, afinal de contas, uma história onde se procura achar o assassino.

E não esqueçamos que a prosa de Eco é rica e elaborada, com a presença de inúmeros vocábulos em latim.

Portanto, e face a tudo isto, veja-se como é uma obra difícil de adaptar para banda desenhada. Mas, lá está, Milo Manara é um verdadeiro Mestre da banda desenhada e faz uma adaptação condigna à obra original. O Nome da Rosa não é apenas a banda desenhada do ano para a Gradiva, é também um dos grandes livros do ano em Portugal! Pelo menos, analisando a primeira de duas partes.

É verdade que a adaptação de Manara é difícil de ler em alguns casos. Com tantas expressões em latim e com diálogos intrincados em termos de linguagem, é frequente que tenhamos que voltar atrás no balão que acabámos de ler. Por falar em balão, também há um excesso de balonagem em alguns casos. Não sei até que ponto alguns diálogos poderiam - ou não – ter sido adaptados e/ou simplificados sem que isso, claro está, pusesse em causa a fidelidade em relação à obra original de Umberto Eco. Seja como for, esta característica será, por ventura, a menos positiva da obra. Sem que, reitero, seja necessariamente uma coisa objetivamente negativa. Se for algo negativo, é algo subjetivamente negativo.

O Nome da Rosa - Volume 1, de Milo Manara - Gradiva
Quanto ao desenho, Manara prova mais uma vez – como se isso fosse necessário – que é único e um dos grandes Mestres da banda desenhada mundial. Acaba por ser curioso que esta seja uma história onde praticamente só apareçam homens. Só mesmo já quase no final do livro é que aparece uma sensual mulher, bem na linha daquilo que poderíamos esperar do autor.

Mas, talvez mesmo por esse motivo da ausência de mulheres neste livro, é que o trabalho do autor se torna ainda mais admirável. Até porque apresenta um estilo de desenho muito diferente quando opta por recorrer à prática da gravura para nos dar a conhecer eventos históricos que antecedem ou justificam algumas das ações das personagens. A par deste fabuloso desenho no estilo da gravura/iluminura, o autor oferece-nos um desenho que relembra o seu trabalho recente em Caravaggio, em que o traço é realista e as cores nos remetem para um estilo clássico, já pouco utilizado na banda desenhada atual.

Falando na temática das cores, é verdade que este O Nome da Rosa apresenta cores um pouco pálidas e tristes, que tornam a estética do livro em algo que pode parecer pouco apelativo em termos visuais. No entanto, parece-me honestamente que foi algo propositado por Manara. Isto porque, quando penso no ambiente visual, quer do livro, quer do filme de Jean Jacques Annaud, também sou remetido para um ambiente algo sensaborão, sóbrio e sério. Afinal de contas, a ação decorre numa fria e séria abadia onde o próprio riso é critivável. Há, portanto, uma sensação de pertença que Manara parece captar na perfeição. Portanto, em matéria de cores, podem não ser as cores que mais aprecio num livro, mas são, quanto a mim, as cores certas e ajustadas para O Nome da Rosa.

O Nome da Rosa - Volume 1, de Milo Manara - Gradiva
Em termos de conceção de anatomia humana e das expressões das personagens, Manara é exímio na forma como as ilustra. E um detalhe curioso é que o autor se tenha inspirado – sem vergonha, tal não é parecença – em alguns atores famosos como Marlon Brando, na personagem de Guilherme de Baskerville, ou Geoffrey Rush, na personagem do Abade Abbone. Com efeito, são tantas as personagens masculinas presentes nesta história, que Manara também tem mérito na forma como as conseguiu diferenciar entre si. Mais depressa confundi os nomes das diferentes personagens, do que confundi as suas caras. Também os cenários são muito belos na forma como são ilustrados. Logo no início, quando acompanhamos a viagem de Adso e Guilherme até que estes cheguem à abadia, parece que estamos mesmo lá ao lado deles, num ambiente tão árido, frio e hostil.

Nota positiva, ainda, para a enorme panóplia de soluções gráficas que o autor utiliza neste livro. Desde desenhos mais surreais, desde cenas mais chocantes, desde pequenas e grandes ilustrações, o autor revela muitas opções, que tornam a leitura mais dinâmica.

O Nome da Rosa - Volume 1, de Milo Manara - Gradiva
Se O Nome da Rosa é tão apetecível, o único desgosto mais forte com que ficamos após findarmos a leitura, é mesmo o facto de esta ser a primeira parte da obra. Há que esperar pela segunda parte que, expetavelmente, deverá chegar-nos no próximo ano. Compreendo o apelo comercial para se lançar dois livros em vez de um. Mas, pondo-me do lado do leitor, como sempre tento fazer, penso que seria mais benéfico só lermos o livro de forma inteira e corrida, quando o mesmo estivesse pronto/acabado. Sublinho que esta crítica não é destinada à Gradiva, que se limitou a publicar aquilo que havia para publicar, mas sim ao editor original de Manara. Mas, lá está, compreendendo os meandros do mundo editorial, percebo que se opte por dois volumes. Simplesmente, isso não beneficia em nada os leitores.

Quanto à edição da Gradiva, o livro apresenta capa dura brilhante, bom papel brilhante e um bom trabalho a nível da impressão e encadernação. Devo dizer que, em termos de legendagem, quer o tipo de letra, quer o espaçamento entre linhas e entre palavras, deixam um pouco a desejar. Não pude comparar com a versão original, mas espanta-me se a mesma também tiver uma apresentação semelhante à da edição portuguesa, que me distraiu um pouco aquando a leitura. Nota positiva para um dossier de extras com seis páginas, nas quais nos são dados lindos esboços de Manara. A Gradiva está especialmente de parabéns por ter lançado a versão portuguesa muito próxima da edição original italiana, em termos temporais,  antecipando-se mesmo à edição da obra em francês.

Em suma, este é um livro com selo de qualidade. Manara prova que, apesar da sua idade, continua dono de um estilo único de desenho, que influenciou, influencia e continuará a influenciar gerações de leitores de banda desenhada. Resta-nos esperar pelo próximo livro para a conclusão devida de uma obra que, na primeira de duas partes, já faz muito e muito bem.


NOTA FINAL (1/10):
9.3



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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O Nome da Rosa - Volume 1, de Milo Manara - Gradiva

Ficha técnica
O Nome da Rosa - Volume 1
Autor: Milo Manara
Adaptado a partir da obra original de: Umberto Eco
Editora: Gradiva
Páginas: 80, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 21,50 x 30,00 cm
Lançamento: Maio de 2023

quinta-feira, 4 de maio de 2023

Gradiva lança a mais recente obra de Milo Manara!



A Gradiva prepara-se para lançar, a meio deste mês, a adaptação para BD, feita pelo mestre Milo Manara, do clássico O Nome da Rosa, de Umberto Eco!

Há que dizer que a editora portuguesa se adianta à versão francesa, que só deve chegar às livrarias no próximo mês de Setembro. E isso merece todos os louvores.

Este é o primeiro de dois volumes. É esperado que o segundo volume seja lançado em 2024, tal como acontecerá na versão original italiana.

Esta é, para já, a grande aposta do ano em BD, por parte da Gradiva!

Estou muito empolgado com este livro que deverá chegar às livrarias no próximo dia 16 de Maio e que já se encontra em pré-venda no site da editora.

Por agora, deixo-vos com a nota de imprensa da editora e com algumas imagens promocionais.


O Nome da Rosa - Volume 1, de Milo Manara

GRADIVA publica em Maio a adaptação do romance

A Gradiva lançará em Portugal no próximo dia 16 de Maio a adaptação para banda desenhada da obra-prima de Umberto Eco por Milo Manara, um dos mais reconhecidos desenhadores italianos. Já adaptado ao cinema pelo realizador Jean Jacques Annaud com Sean Connery no papel principal, o romance O Nome da Rosa foi editado pela primeira vez em 1980 tornando-se rapidamente num bestseller mundial.
Reconhecido sobretudo pelo seu trabalho erótico e pelas suas colaborações com Federico Fellini, Milo Manara inspirou-se na fisionomia de Marlon Brando para desenhar William de Baskerville, o frade franciscano que tenta descobrir com a ajuda do jovem beneditino Adso de Melk, quem é o responsável por uma série de mortes misteriosas que ocorrem em 1327 numa abadia medieval isolada, estruturada em torno de uma inacessível biblioteca.

Uma obra singular em que Milo Manara coloca no papel três estilos gráficos distintos que se cruzam em busca da perfeição visual. Através de cada um destes registos, Manara narra as diferentes dimensões do romance do célebre escritor italiano: as esculturas, os relevos dos pórticos e as maravilhosas e surreais iluminuras que acompanham os livros da biblioteca da abadia; a descoberta da sensualidade por Adso; a história dos frades dolcinianos considerados heréticos.

O Nome da Rosa de Manara amplia, pois, magistralmente a arquitectura literária do romance de Umberto Eco, como se de uma matrioska se tratasse, um romance que é também um livro sobre livros, que contém outros livros.

Esta adaptação não se trata, assim, de uma mera transcrição gráfica do romance mais célebre de um dos nomes maiores da literatura italiana, mas sim um trabalho de génio que lhe atribui um singular brilho visual.

À edição do primeiro volume do romance que celebrizou o semiólogo italiano pelo traço de um dos mais relevantes autores contemporâneos da banda desenhada, seguir-se-á a publicação do segundo volume em 2024 acompanhando o ritmo de publicação da editora original.

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Ficha técnica
O Nome da Rosa - Volume 1
Autor: Milo Manara
Adaptado a partir da obra original de: Umberto Eco
Editora: Gradiva
Páginas: 80, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato:  21,50 x 30,00 cm
PVP: 24,50€

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Análise: Caravaggio I e II



Caravaggio I e II, de Milo Manara 

Milo Manara é sobejamente conhecido pela sua obra, de cariz erótico, que tanto marcou milhões de leitores em todo o mundo. Mas nestes dois álbuns dedicados ao pintor renascentista Caravaggio, Manara está mais preocupado em contar-nos a história do pintor, cobrindo os principais acontecimentos da sua vida e dando-lhes cor com algum romance ficcional à mistura, do que, propriamente, em dar-nos episódios eróticos. Não obstante, e mesmo não sendo o principal destaque da obra, as lindas mulheres de Manara continuam a habitar estes livros, embelezando-o com a sua presença. 

O destaque da obra é todo ele atribuído a Michelangelo Merisi da Caravaggio, um pintor que poderia ser comparado a um rockstar, dado o estilo de vida que levou. Muitas festas, muito álcool, muitas mulheres, muitas provocações e muita luta. De facto, o nome do primeiro tomo O Pincel e a Espada não poderia ser mais bem escolhido. Se é verdade que Caravaggio foi um dos mais importantes pintores da história da arte, com um estilo que rompeu alguns padrões e técnicas da época, com particular destaque na produção de retratos e na utilização inteligente da luz; também é verdade que o pintor utilizava com mestria a sua espada, sempre que alguma situação o invocava. Muito irritável e um autêntico rufia, o pintor não resistia a qualquer provocação, por pequena que fosse, e envolvia-se em brigas e conflitos muito facilmente. Estes dois condimentos, atribuem automaticamente um interesse grande a esta obra de Manara. É que os livros não são apenas baseados nos feitos de Caravaggio enquanto pintor, mas também na sua vida, muito interessante e com muitos episódios dignos de uma história de cavaleiros. Ganha assim um equilíbrio muito interessante: não é um livro apenas recomendável para os admiradores da arte, ou da Renascença, ou de Caravaggio. É, igualmente, um livro bastante interessante para os adeptos da banda desenhada histórica, ou de época. Mais taxativamente até, diria que é uma obra recomendável a todos aqueles que apreciam uma história bem construída e bem desenhada. 


No meu 10º ano de escolaridade, lembro-me que tive um professor de história que nos dava as aulas com uma tal eloquência e dedicação, tornando aquilo que poderia ser chato em algo interessante e entusiasmante, que, naturalmente, captava a atenção de todos e fazia-nos estar vidrados nas suas palavras. E, de certa forma, olhando para a sua obra Caravaggio, Milo Manara assume essa função de professor cool. Conta-nos a história de forma cuidada e equilibrada, permitindo-nos um breve olhar às características inerentes ao pintor, à sua arte e às técnicas que aperfeiçoou e inovou mas, para além disso, revela-nos toda uma vida do pintor, bem constituída por encontros e desencontros, por sucessos e insucessos que moldaram a sua existência. Desde as suas origens até aos seus derradeiros momentos. Respeitando os pontos chave, embora adornando-os com um pouco de ficção que - qual Big Fish, de Tim Burton - torna qualquer história mais cativante. Se Manara é muito conhecido pelas suas ilustrações, devo dizer que onde esta obra me surpreendeu mais foi, curiosamente, na excelente construção do argumento. Com a dose certa de tudo aquilo que faz um bom argumento. 

No primeiro livro, tomamos conhecimento de um jovem Caravaggio que chega a Roma com o intuito de se tornar o maior pintor de Itália. Mas os primeiros momentos não são fáceis e acaba por ser com a ajuda de amigos, que vai fazendo pelo caminho, que começa a estabelecer contactos pertinentes. Rapidamente todos ficam admirados pelos seus talentos de pintor mas, ao mesmo tempo, também faz inimigos com muita facilidade devido a ser uma pessoa bastante conflituosa. E é essa natureza conflituosa que o leva a praticar um acto irrevogável que fará com que abandone a cidade de Roma, no final do primeiro tomo. 


No segundo livro, O Indulto, continuamos a acompanhar as suas aventuras, em Nápoles, em Malta e Sicília. Caravaggio mantém-se com a capacidade de impressionar tudo e todos, com os seus dotes de artista, mas também continua a colecionar inimigos que, uma vez mais, o levarão a insucessos e desgraças. Com a sua veia de artista inovador, choca muita gente por utilizar mendigos e prostitutas nas suas criações de arte sacra. Ao longo do seu caminho, vamos conhecendo personagens – algumas delas, históricas – que estão muito bem construídas e desenvolvidas por Manara. 

Algo muito bem conseguido – e, possivelmente, de extremo interesse para os admiradores de Caravaggio – é que, ao longo de ambos os livros, vários dos quadros mais conhecidos e marcantes do pintor renascentista vão sendo introduzidos na narrativa, de forma a que possamos conhecer algumas das condições e experimentações com que as referidas obras foram produzidas. E isso está extremamente bem feito, aumentando o cariz didático da obra embora, fazendo-o, tal como o meu professor de história do 10º ano, de forma subtil. Estamos a aprender sem parecer que nos estejam a pedir para aprender. O melhor dos dois mundos, portanto. 


Quanto à arte ilustrativa, temos um livro maravilhosamente ilustrado pelo mestre Manara. Não será uma surpresa para ninguém, tendo em conta a qualidade do autor enquanto ilustrador mas, neste livro, seja pela excelente utilização das cores (para as quais Milo Manara contou com a ajuda e colaboração da sua filha, Simona Manara); seja pelos desenhos das personagens, cuidadosamente ilustradas com elegância; seja pelos locais, magnificamente bem ilustrados; esta é uma obra que carece de defeitos na ilustração. É praticamente perfeita. Não há – ou haveria – muito espaço para melhorá-la. 

As várias grandes vinhetas, que ocupam um terço da página, e que geralmente são utilizadas para nos apresentarem um novo local para onde Caravaggio rumou, merecem destaque pois são de uma beleza singular, parecendo, elas próprias, impressionantes frescos. 

E claro, ainda existem as mulheres que abundam na história. Fiel ao seu traço, Manara continua a criar mulheres com que os leitores sonham, dada a beleza, praticamente inatingível, que elas possuem. Será que Manara não consegue desenhar mulheres feias? Todas as que aparecem nesta história estão carregadas de erotismo e beleza que são a cereja no topo do bolo desta obra. 


Se há algo que me entristeceu nesta brilhante obra é que, quando cheguei ao final do segundo livro, a viagem histórica me pareceu rápida demais. Talvez em vez de ser um álbum duplo, pudesse ser um álbum triplo - ou quadruplo - , para que esta viagem não terminasse tão depressa? Estão a ver aquele filme magnífico que acaba depressa demais? E que apetece repetir? Ou que nos leva a desejar que demorasse mais tempo? É assim este Caravaggio, da Manara! São pouco mais de 100 páginas mas, com a qualidade multidisciplinar que aqui existe, bem podiam ser 200 ou 300 páginas. Mas, lá está, isto sou eu a divagar com uma crítica ínfima. O que nos é dado, está muito bem conseguido e é isso que importa. Podia ser mais comprido mas também não é curto. São dois livros, afinal. 

Este foi o primeiro livro que a editora Arte de Autor lançou em Portugal. Com uma edição de qualidade para uma obra tão boa, diria que a editora portuguesa não poderia ter entrado melhor no mercado da banda desenhada. A qualidade é, aliás, palavra de ordem desta editora, quer na escolha das obras, quer na edição dos seus livros. Não estranha por isso que, rapidamente, tenha conquistado o seu lugar como uma das melhores editoras do nosso país. 

Concluindo, não há muito mais a dizer sobre esta obra obrigatória para qualquer (“bom”) fã da 9ª arte. Os desenhos, as cores, os locais, os ambientes, as mulheres, os trajes, as personagens, as expressões, o argumento, a figura interessantíssima que é o pintor Caravaggio… enfim, tudo o que este livro nos dá, é de qualidade superior. Uma verdadeira obra de arte. 


NOTA FINAL (1/10):
9.4


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



Fichas técnicas 
Caravaggio- Primeira Parte: O Pincel e a Espada 
Autor: Milo Manara 
Editora: Arte de Autor 
Páginas: 64, a cores 
Encadernação: Capa dura 
Lançamento: Outubro de 2015 


Caravaggio – Segunda Parte: O Indulto 
Autor: Milo Manara 
Editora: Arte de Autor 
Páginas: 56, a cores 
Encadernação: Capa dura 
Lançamento: Janeiro de 2019