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quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

Comparativo: Lydie pel' A Seita e Arte de Autor e pela Norma Editorial

E como não há duas sem três, esta semana ainda vos trago um terceiro comparativo entre edições da mesma obra de banda desenhada.

Desta vez, foco-me na edição portuguesa e na edição espanhola do livro Lydie, da autoria de Zidrou e Jordi Lafebre, do qual já falei aqui no Vinheta 2020. Aconselho, aliás, a (re)leitura desse artigo, onde dou conta do quanto a obra me tocou. Este é um lindo livro, onde a escrita e argumento de Zidrou são verdadeiramente inspirados e onde, mais uma vez, o trabalho de Jordi Lafebre impressiona. E não tenho nem uma dúvida de que Lydie merecia ser editado em Portugal!

Por esse motivo, e mesmo já tendo na minha coleção pessoal a versão espanhola da obra, pela Norma Editorial, foi com enorme satisfação que soube que este livro iria ser publicado em Portugal através da parceria formada pelas editoras A Seita e Arte de Autor.

Esta é, aliás, a primeira obra que Zidrou e Jordi Lafebre fizeram em colaboração, ainda antes da belíssima série Verões Felizes, por cá publicada também pela Arte de Autor.

Passarei agora, então, a analisar as diferenças entre as edições portuguesa e espanhola deste Lydie.

E, desta vez, por muito que eu tenha sempre um especial carinho pelas edições portuguesas em detrimento das edições estrangeiras - porque, caramba, mesmo que eu consiga ler bem em inglês, espanhol e, mais ou menos, em francês, prefiro sempre ler em português, a minha língua mãe e, portanto, aquela onde se consegue maior profundidade na real captação dos significados, por vezes, complexo das palavras e expressões - por uma questão de honestidade intelectual, tenho que dizer o óbvio: em quase todas as valências, a edição espanhola supera a edição portuguesa.

Até porque, convenhamos, eu tinha a versão especial espanhola, o que pode, por si só, desnivelar um pouco este comparativo.

Mesmo assim, também há algumas coisas na edição portuguesa que superam, quanto a mim, a edição espanhola.

Em primeiro lugar, as duas edições têm capas diferentes. E, neste ponto, a edição portuguesa vence facilmente. A capa portuguesa da obra é muito mais apelativa, não só em termos de ilustração como, até mesmo, ao nível do grafismo do arranjo gráfico. A capa portuguesa vende por si só... a capa espanhola, não. Portanto, neste ponto, tenho que dar os parabéns às duas editoras portuguesas.

Ainda no grafismo das obras, refira-se que também na contracapa, a obra portuguesa é mais bonita. Para mim, pelo menos.


Mas, olhando para as duas capas, há também uma outra coisa que salta à vista: o formato dos dois livros. A edição espanhola é substancialmente maior em relação à edição portuguesa. E, neste ponto, mantenho-me firme no que sempre digo: prefiro sempre que as edições tenham a dimensão maior possível (salvo raras e concretas exceções), embora também não ache que uns cms a mais, ou a menos, arruinem a experiência de leitura. Não é isso que me faz deixar de comprar uma edição. Portanto, preferindo a edição maior, também é verdade que não me sinto ultrajado pela edição relativamente mais pequena portuguesa.

Imagino que, como o plano das duas editoras portuguesas é lançarem uma coleção de obras de Zidrou, tenham tido a ideia de estandardizar as dimensões dos vários livros. Pelo menos, o Emma G. Wildford, já lançado pel' A Seita e pela Arte de Autor, tem a mesma dimensão deste Lydie. Portanto, goste-se ou não, pelo menos parece haver uma certa lógica nesta opção da dimensão dos livros.


Quanto ao tipo de papel utilizado, volto a preferir a escolha feita pela edição portuguesa da obra que opta por um papel baço em detrimento de um papel brilhante. 

Acho que certos tipos de traços, bem como certos tipos de histórias, funcionam melhor num papel baço. E é o caso deste Lydie.


De resto, em termos de encadernação e impressão, ambas as edições têm uma boa qualidade onde nenhuma se destaca em relação à outra.

E chegados a este ponto deste comparativo, até poderão achar que, além da questão do formato da obra, eu até gostei mais da versão portuguesa de Lydie, pois gostei mais da capa portuguesa, bem como do papel utilizado. 

No entanto, há algo que a edição espanhola tem e que, infelizmente, a edição portuguesa optou por não ter: um muito generoso e completo dossier de extras onde há textos sobre a obra e muitos e belos esboços do autor Jordi Lafebre. Um verdadeiro mimo.

Acho que, neste ponto, a A Seita e a Arte de Autor perderam a oportunidade de incluir estes belos extras e de tornar a sua edição em algo muito mais especial.

Também é verdade que o preço da edição portuguesa é relativamente inferior ao da edição espanhola - o que é sempre uma boa notícia para os leitores portugueses - mas, mesmo assim, julgo que, mesmo que o preço do livro português fosse ligeiramente superior ao que é, seriam muitos os portugueses a apreciar tão belo dossier de extras na edição portuguesa, como partilho convosco mais abaixo.







Resumindo e concluindo, sim, A Seita e a Arte de Autor dão-nos uma bem conseguida edição da totalmente recomendada obra Lydie, de Zidrou e Jordi Lafebre, mesmo que, comparando com a edição da espanhola Norma Editorial desta mesma obra que eu já detinha na minha coleção, a oferta em português não seja superior em termos qualitativos.

quarta-feira, 12 de abril de 2023

Análise: Gentlemind

Gentlemind, de Juan Díaz Canales, Teresa Valero e Antonio Lapone - Norma Editorial

Gentlemind, de Juan Díaz Canales, Teresa Valero e Antonio Lapone - Norma Editorial
Gentlemind, de Juan Díaz Canales, Teresa Valero e Antonio Lapone

Começo este texto com uma questão: como é possível que o livro Gentlemind, da autoria de autores consagrados como Juan Díaz Canales (Blacksad e Corto Maltese), Teresa Valero (Contrapaso) ou Antonio Lapone (Greenwich Village) ainda não tenha sido publicado em Portugal? Andarão as editoras portuguesas distraídas ou já estarão os direitos para esta obra assegurados?

Espero que sim, mas é algo de que, infelizmente, não tenho qualquer confirmação. Bem sei que há muita coisa para editar e que as editoras precisam de fazer as suas escolhas com cabeça, tronco e membros. De qualquer maneira, acho que é justo dizer: Gentlemind é um dos melhores livros de banda desenhada que pude ler nos últimos meses.

Gentlemind, de Juan Díaz Canales, Teresa Valero e Antonio Lapone - Norma Editorial
O argumento é verdadeiramente soberbo, oferecendo-nos uma história de amores e desamores, de sucessos e insucessos numa América em ebulição, em termos económicos e sociais, após o crash da bolsa de 1929, onde os emigrantes porto-riquenhos ocuparam uma importância maior do que aquela que, habitualmente, os livros de história lhes concedem. Mas se o argumento é bom, que dizer das ilustrações de Antonio Lapone que são frescas, originais, estilizadas e verdadeiramente impactantes? Sim, este livro deveria (mesmo) ser editado por cá. Os leitores portugueses de banda desenhada merecem-no.

O livro que tive oportunidade de ler, e que comprei na livraria Cult, é, na verdade, um integral, em castelhano, publicado pela Norma Editorial, que reúne os dois volumes que foram originalmente lançados em separado. São 150 páginas de um argumento bem intrincado e congeminado por Díaz Canales e Teresa Valero.

A história começa por nos apresentar Navit (Gina Majolie) e Arch. Ele é ilustrador e ela é dançarina de cabaret. Eventualmente, os seus caminhos acabarão por separá-los. Estamos em 1939, com a Segunda Guerra Mundial a eclodir na Europa. Nos Estados Unidos o ambiente é outro. São muitos os emigrantes, vindos de todas as partes do mundo, que tentam estabelecer-se nas mais diversas áreas possíveis. Nomeadamente nas artes e no jornalismo. As revistas mantêm uma grande relevância na vida dos americanos, pois são fonte de entretenimento, conhecimento e do contacto dos leitores com as novidades.

Gentlemind, de Juan Díaz Canales, Teresa Valero e Antonio Lapone - Norma Editorial
Uma dessas revistas é Gentlemind. No seu início, esta até era uma revista de baixa qualidade, mas quando a morte do seu proprietário, Horace Powell, coloca a revista nas mãos da sua jovem viúva, Navit / Gina Majolie, tudo parece mudar para a revista, já que Gina tem grandes planos para a mesma. Começa então uma forte remodelação com o intuito de dar aos leitores, não só os temas que estes procuram, mas, também, produzir conteúdos com cariz artístico, através da publicação de texto ficcional e fotografia e ilustração de autor. Mais do que uma revista de trivialidades, Gina procura que a sua Gentlemind seja um retrato da América do momento, mas também um meio que veicule a criação artística.

Deixem-me dizer-vos que embora Gina tenha passado de dançarina de cabaret a esposa de milionário e, consequentemente, diretora de uma proeminente revista, esta mulher jovem não esquece a história de amor que viveu com Archer Parker. O destino e as opções de vida de cada um afastou-os um do outro, mas os seus percursos ainda se vão cruzar muitas vezes. E atormentá-los até mais não.

Gentlemind, de Juan Díaz Canales, Teresa Valero e Antonio Lapone - Norma Editorial
Entra também em cena Waldo Trigo, um hábil e inteligente advogado (que não o queria ser, mas que o seu pai o “obrigou” a ser) de Porto Rico, que não só se torna no braço direito de Gina, a vários níveis, como simboliza o retrato da situação dos imigrantes Porto-riquenhos nos Estados Unidos. Os americanos consideravam-nos estrangeiros, por um lado, e os seus conterrâneos consideravam-nos pouco Porto-riquenhos, por outro, contribuindo para que estes imigrantes não se sentissem como pertencentes a lado nenhum.

A revista Gentlemind começa então a ter muito sucesso, rivalizando com a revista Esquire e acompanhando as mudanças político-sociais que vão acontecendo durante 30 anos nos Estados Unidos, a partir da cidade de Nova Iorque.

E, claro, à medida que vamos conhecendo os vários elementos da redação, vamos começando a nutrir um gosto especial pelas suas vidas. No entanto, tal como os acontecimentos deste período histórico, também a vida destas personagens e, especialmente, o seu passado mal resolvido, vai acabar por mudá-las, marcando-as profundamente e, consequentemente, alterando a própria revista Gentlemind. Não necessariamente de um modo positivo.

Gentlemind, de Juan Díaz Canales, Teresa Valero e Antonio Lapone - Norma Editorial
O fulgor narrativo é muito bem pensado e construído pelos argumentistas, acrescentando vários níveis de interpretação, pois estas não são personagens lineares e isso leva o leitor a moldar a sua perceção das mesmas, à medida que vai lendo o livro. Esta é, afinal de contas, uma autêntica novela (no bom sentido da palavra) em que as paixões, as desilusões amorosas, as traições, os ciúmes, os egos, os orgulhos marcam a forma como a trama se vai movimentando. Por isso, não é de admirar que quando fechamos o livro, fiquemos com pena de deixar estas personagens impactantes. A vontade que dá é recomeçar a ler o livro, garanto-vos.

No final, e pesando tudo aquilo que estas personagens viveram, é difícil não conter uma certa comoção após o magnífico fim do livro. Em termos de argumento, está tudo bem feito, da primeira à última página do álbum.

Se o argumento é exímio, os desenhos com que Antonio Lapone nos brinda, são verdadeiramente sensacionais. Em primeiro lugar, porque são ilustrações muito originais e que não são nada comuns de encontrar em banda desenhada. Lembram os desenhos clássicos dos anos 40 e 50 das publicidades, moda e publicações ilustradas americanas. O que faz, aliás, todo o sentido, visto que estamos perante a história de uma dessas revistas. 

Admito que não seja um estilo de desenho que possa agradar a toda a gente. Com formas super estilizadas, com as personagens a apresentarem traços faciais muito geométricos, imagino que nem todos consigam apreciar estes desenhos convenientemente. Mas, quanto a mim, estes são desenhos fabulosos em que Lapone nos enfeitiça ao longo da leitura com todas as suas possibilidades gráficas. Em certos momentos, o estilo de Lapone até me lembrou o igualmente fabuloso trabalho de Darwyn Cooke na série Parker.

Gentlemind, de Juan Díaz Canales, Teresa Valero e Antonio Lapone - Norma Editorial
O próprio desenho das muitas capas da revista Gentlemind, que vão acompanhando e contando a história, são maravilhosos do ponto de vista estético e gráfico. E isto já para não falar nas belíssimas cores, em aguarela, que dão ainda mais classe e personalidade às belas pranchas que habitam neste livro. Outra coisa onde as ilustrações de Lapone brilham é no facto de conseguirem captar plenamente o espírito e vida de Nova Iorque.

Se há uma única(?) coisa de que me posso queixar neste livro é que como as personagens têm traços simplistas e "cartoonizados", por vezes são confundíveis entre si. Não as personagens principais masculinas, que têm características distintivas mais demarcadas, mas algumas das personagens femininas e/ou secundárias.

A edição da Norma Editorial é de excelente qualidade. Com capa dura brilhante, o livro apresenta papel brilhante de boa qualidade e uma boa impressão e encadernação. Há ainda um prefácio que nos dá uma bela introdução ao período que a América vivia durante a altura em que a história acontece. Nota de destaque para o grande caderno de extras, com 24 páginas, onde podemos observar vários dos esboços e estudos de ambientes e personagens de Antonio Lapone. Uma verdadeira pérola!

Em conclusão, confesso ter sido apanhado de surpresa com este Gentlemind. O nome consagrado dos autores, o tema da história e as ilustrações originais do livro foram as três coisas que me levaram a querer ler este livro. Mesmo assim, posso dizer-vos que estava (bem) longe de encontrar nesta obra um livro de banda desenhada tão bem feito, a todos os níveis, que o tornam único e um livro indispensável para qualquer amante de boa banda desenhada. Esperava algo bom, mas não tão bom!


NOTA FINAL (1/10):
9.8


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Gentlemind, de Juan Díaz Canales, Teresa Valero e Antonio Lapone - Norma Editorial

Ficha técnica
Gentlemind (Integral)
Autores: Juan Díaz Canales, Teresa Valero e Antonio Lapone
Editora: Norma Editorial
Páginas: 176, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 23,5 x 31
Lançamento: Abril de 2022

quarta-feira, 22 de setembro de 2021

Análise: Lydie

Lydie, de Zidrou e Jordi Lafebre - Norma Editorial

Lydie, de Zidrou e Jordi Lafebre - Norma Editorial

Lydie, de Zidrou e Jordi Lafebre

Lydie é um álbum da autoria dos autores Zidrou e Jordi Lafebre – dupla criadora da fantástica série Verões Felizes, publicada em Portugal pela Arte de Autor - e que foi originalmente lançado em 2010. Mais tarde, em 2016, a editora espanhola Norma Editorial lançou uma nova edição com alguns extras. 

E foi esse a edição que tive a oportunidade de ler. E que fantástica sensação foi essa de ler mais um excelente livro por parte destes autores! Que merece, sem qualquer dúvida, uma edição em português. Olhando, aliás, para o catálogo da Arte de Autor, que para além de Verões Felizes também já publicou o fantástico e maravilhoso álbum a solo de Jordi Lafebre, Apesar de Tudo, diria que Lydie há-de agradar a todos os fãs – que não são poucos - dessas duas apostas da editora portuguesa.

Lydie, de Zidrou e Jordi Lafebre - Norma Editorial

Lydie
foi a primeira colaboração de Zidrou e Jordi Lafebre. E, diga-se, começaram logo muito bem. Afinal de contas, esta é uma história terna, com múltiplas mensagens agridoces sobre a perda e como colmatar essas ausências indesejadas na nossa vida. Um conto fabuloso onde Zidrou prova porque é que tem conquistado, cada vez mais, um lugar de primazia e de respeito entre os melhores argumentistas de banda desenhada devido aos originais argumentos que, plenos de emotividade, nos tocam no âmago do nosso ser.

Camille é a personagem central desta história, que se passa numa pequena localidade a que, divertidamente, os habitantes batizaram como que “Beco Sem Saída do Bigode”, devido a uma estranha publicidade, que mostrava um bebé a usar bigode e que ali tinha sido exposta há vários anos. E o nome pegou. Camille é uma daquelas pessoas a que, jocosamente, a sociedade costuma dizer “não bate bem da cachola” ou “tem um parafuso a menos”. Gosto mais do termo “diferente” pois apresenta comportamentos que se afastam da norma e daquilo que consideramos mais expectável. E, talvez por isso, quando Camille dá à luz um bebé sem vida e o seu mundo (naturalmente) desaba, esta sente a vontade - voluntária ou involuntária - de fazer com que Lydie – seria esse o seu nome – continue a viver. Mesmo não estando fisicamente presente.

Ao princípio, esta atitude que demonstra uma Camille em negação, causa algum espanto e risos na pequena localidade onde vive. Mas, gradualmente, a população do “Beco Sem Saída do Bigode” começa a perceber que talvez não custe assim tanto entrar no jogo e fazer a vontade a Camille, passando a reagir como que Lydie existisse mesmo. Porque mesmo sendo uma mentira, é uma mentira piedosa que não custa nada fazer para deixar feliz esta mãe desesperada. 

Lydie, de Zidrou e Jordi Lafebre - Norma Editorial

Este ambiente de camaradagem “de aldeia” e da aceitação do outro, remeteu-me, em muito, para Armazém Central, de Loisel e Tripp, que, curiosamente, também é editado em Portugal pela Arte de Autor, o que me faz sublinhar, mais uma vez, o quão certeira e lógica seria a adição deste Lydie ao catálogo da editora portuguesa. Esta reminiscência com Armazém Central, especialmente ao nível de como se cria uma familiaridade quotidiana entre indivíduos de uma pequena localidade é, pois, uma coisa que, para mim, é de logo muito positiva, tendo em conta o carinho e admiração que tenho por Armazém Central. Mas, claro, Lydie tem a sua própria personalidade.

Do ponto de vista narrativo, destaque ainda para a forma singular como a história nos é contada. Quem narra a história é uma santa padroeira do local, uma pequena estatueta de Nossa Senhora colocada num dos prédios da rua. Isto permite ao autor um conjunto de boas reflexões e tiradas. Sempre de forma muito inspirada. E, como se não bastasse, o autor ainda eleva a história a um outro patamar que nos coloca a refletir muitas vezes: será esta apenas uma história em que um conjunto de pessoas aceita viver e alimentar uma mentira piedosa para acalentar a dor de uma mãe que perdeu a filha? Ou estará Zidrou a apimentar o argumento com considerações metafísicas do foro da existência? Será possível uma existência real ainda que em espírito apenas? Quando as colegas de escola fazem um desenho de Lydie as características desta são muito semelhantes. Como é, então, isso possível? A construção teórica que fazemos de algo é suficiente para lançar as bases de um mito de algo que passa a ser percepcionado como tal, ainda que não tenha existência física? E que dizer da forma como o livro termina que não vou revelar para não estragar o prazer da leitura a ninguém?

Lydie, de Zidrou e Jordi Lafebre - Norma Editorial

Temos, portanto, um Zidrou extremamente inspirado e que nos oferece um fantástico argumento neste Lydie. Que nos deixa a fazer várias considerações. E uma delas é mesmo esta: que implicações poderá ter uma mentira piedosa quando essa mesma mentira é tida como verdade? Onde entra essa barreira entre o real e o irreal? Numa história de pouco mais de sessenta páginas Zidrou levanta muitas e interessantíssimas questões.

Na parte da arte ilustrativa, temos um Jordi Lafebre que, não estando, a meu ver, com um traço ainda tão cativante, detalhado e confiante como, por exemplo, em Verões Felizes ou em Apesar de Tudo, ainda assim nos dá um conjunto de desenhos muito bem conseguidos e completamente à sua imagem de desenhador. Ou seja, também aqui temos um fantástico conjunto de expressões das personagens, bem como uma maravilhosa capacidade para ilustrar momentos de ternura ou de intensa dor. Porque é essa a principal valência do autor – e bem que Zidrou o parece saber. 

Lydie, de Zidrou e Jordi Lafebre - Norma Editorial

Sendo certo que, em termos de cenários, também temos alguns exemplos da excelência técnica do autor, considero que, pelo menos nesta obra, não será nesse ponto que Lafebre mais brilha. Ao invés disso, é especificamente na construção e desenvolvimento das personagens que o autor é sublime. Aí, Lafebre é mesmo dos melhores da atualidade. Um traço muito franco-belga, a remeter para a escola Spirou e que eu, pessoalmente, tanto admiro. Em termos de cores, e tendo em conta que a história é ambientada nos anos 30, o autor optou por uma paleta com tons acinzentados e de sépia que incrementam o ambiente algo triste e melancólico que paira no ar enquanto se lê esta obra. Embora eu seja mais fã da luminosidade característica dos seus desenhos em Apesar de Tudo ou Verões Felizes, reconheço que Lafebre também brilha quando usa esta luz e cor mais monocromáticas.

A edição da Norma Editorial é muito boa, com capa dura, bom papel brilhante e boa encadernação. Confesso que gosto mais da ilustração da capa original, mas, em contrapartida, esta edição oferece-nos um bom dossier de extras que inclui um bonito texto de Lucie-Anne Quenon e muitas ilustrações e esboços de Jordi Lafebre.

Em suma, Lydie é uma obra fantástica e plena de significados e emoções. Dificilmente não tocará o leitor mesmo que a premissa possa parecer um pouco rebuscada à primeira vista. Porque, na verdade, não há nada de rebuscado ou de clichet neste livro. É de uma sensibilidade extrema, oferecendo-nos um conto inolvidável que nos demonstra o poder do amor, da amizade, da fé e da compaixão para com o próximo e que deve, tão depressa quanto possível, receber uma edição em português.


NOTA FINAL (1/10):
9.4


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Lydie, de Zidrou e Jordi Lafebre - Norma Editorial

Ficha técnica
Lydie
Autores: Zidrou e Jordi Lafebre
Editora: Norma Editorial
Idioma: Espanhol
Páginas: 72, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Janeiro de 2016

quarta-feira, 21 de abril de 2021

Análise: El Ángelus

El Ángelus, de Giroud e Homs - Norma Editorial


El Ángelus, de Giroud e Homs - Norma Editorial
El Ángelus, de Giroud e Homs

El Ángelus é uma obra da autoria de Frank Giroud (O Decálogo) e de José Homs (Shi) que foi originalmente publicada no ano de 2010 e 2011, em dois tomos, com o título Secrets – L'Angélus. A versão que li e na qual baseio a minha análise é a versão integral (e ampliada) espanhola, publicada pela Norma Editorial, com o título El Ángelus. Agradeço ao meu amigo Mário Freitas, da Kingpin, pelo incentivo nesta leitura. E que fantástica leitura é! Arte e argumento trabalham em simbiose para nos oferecer uma maravilhosa e marcante banda desenhada. Que merece receber publicação em português. Sendo um álbum em dois tomos, acho que faria sentido a publicação num integral. Algo parecido com o que, em Portugal, a Arte de Autor tem vindo a fazer nas suas coleções.

A história do livro assenta na caminhada pessoal da personagem de Clóvis Chaumel. Clóvis tinha uma vida aparentemente pacata. Casado e com dois filhos, levava a vida que tantos milhões de pessoas por esse mundo fora levam. Rotineira, normal, expectável. Era uma vida calma e serena. Porém, e de forma bastante súbita, a sua vida sofre um abalo que o vai fazer ver toda a sua existência com outros olhos. E mudá-lo profundamente, fazendo com que não mais seja a mesma pessoa. E tudo isso é iniciado quando no Musée d'Orsay, em Paris, Clóvis dá de caras com o quadro L'Angelus da autoria do pintor francês Jean-François Millet. A visão deste quadro perturba profundamente o protagonista que decide investigar mais acerca da obra de Millet.

El Ángelus, de Giroud e Homs - Norma Editorial
E é quando se apercebe que também Salvador Dali tinha uma profunda obssessão pelo mesmo quadro de Millet, tendo feito variadíssimas interpretações do mesmo em seus conhecidos trabalhos, que Clóvis começa uma investigação ainda mais profunda sobre o que há por detrás do quadro de Millet e as suas implicações em Salvador Dali. E é depois dessa demanda que leva a cabo, que o protagonista consegue conhecer mais sobre o quadro e, consequentemente, conhecer-se a si próprio, embarcando numa viagem emocional ao centro de si mesmo: às suas memórias reprimidas, a segredos bem guardados, a um passado que parecia normal mas que tinha muitas sombras e verdades escondidas. Como se Clóvis não vivesse num repentino turbilhão ainda conhece Evelyne, a bonita professora de artes visuais do filho, que o ajudará na sua pesquisa inicial. Será ainda confrontado por todos os que o rodeiam, que não parecem estar a compreender esta nova pessoa em que Clóvis se transforma. Mas isso não o impedirá de continuar o seu próprio caminho. Custe o que custar.

Como é um livro que tem bastantes plot twists, ficar-me-ei por aqui, para não estragar o prazer de leitura aos que seguem o Vinheta 2020. De qualquer maneira, posso dizer que, relativamente ao argumento, aquilo que mais me agradou nesta obra fantástica foi a forma como a narrativa nos leva por uma viagem bastante profunda quando, à primeira vista, parecia “apenas” um argumento que incidiria sobre a procura de significados ocultos numa obra de arte. Isso já seria suficientemente interessante, na verdade. Mas parece-me que o grande trunfo, do ponto de vista do trabalho do argumentista Giroud, é pois a viagem, por si só, que o autor nos obriga a fazer sem que possamos prevê-la no início do livro.

El Ángelus, de Giroud e Homs - Norma Editorial
À medida que vamos avançando na história vamos sendo surpreendidos várias vezes. Nuns casos parece que a história vai por um caminho e, depois, vai por outro. E noutros casos, a história até acaba por nos dar algo que nem sequer tínhamos presente como alternativa possível. E claro, no fundo, quer o quadro original de Millet que despoleta toda esta procura, quer o próprio trabalho de Dali em relação à obra original, acabam por ser meros pretextos para a real e verdadeira demanda do protagonista da história. Assim sendo, o que desencandeia esta viagem ao fundo de si mesmo é um quadro mas poderia ser uma canção, um filme, um livro, qualquer coisa.

Mas, claro, como há significados ocultos na obra de Millet, o argumentista serve-se bem disso para, especialmente no primeiro tomo, andar a brincar um pouco com o leitor numa espécie de jogo de rato e gato. E, verdade seja dita, parece-me que o primeiro tomo deste álbum aponta para vários caminhos deixando, por vezes, a trama algo desprendida em si mesma. No entanto, é no segundo tomo que a história se torna mais profunda e começamos a mergulhar verdadeiramente no passado de Chaumel e no seu novo eu, que parece virar costas à sua vida antiga, e que começa a procurar novos caminhos e interesses para a sua existência.

Talvez eu tivesse gostado de um final mais fechado do que aquele que nos é dado mas não posso deixar de afirmar que a jornada da personagem é magnificamente bem construída pelo autor.

El Ángelus, de Giroud e Homs - Norma Editorial
Mas se o argumento é emocionante e muito bem construído, o que dizer da arte do espanhol José Homs? A arte é verdadeiramente soberba e original em todos os vetores possíveis! O desenho tem uma personalidade muito própria, sendo os cenários bastante realistas e as personagens semi-realistas, que apresentam uma beleza na concepção à qual é difícil ficar indiferente. O protagonista desta bd não muda apenas em termos de maneira de ser, ao longo do livro. Também vai mudando em termos de roupas e de aspeto. E acho que essa conceção da personagem também está muito bem conseguida por parte de Homs. E a professora de artes visuais, Evelyne, tem igualmente uma conceção fantástica, com o seu aspeto original e apelativo, que fica na nossa memória já depois de terminarmos a leitura da obra. Quer na composição das vinhetas, nas perspectivas e ângulos utilizados, na profundidade das ilustrações, o detalhe das personagens e dos objetos, e a expressividade artística que irradia das páginas de El Ángelus, tudo é feito ao mais alto nível por parte do autor.

El Ángelus, de Giroud e Homs - Norma Editorial
Em termos de luz e cor, esta também é uma verdadeira obra de arte. A paleta de cores que o autor utiliza embeleza cada cena, cada momento, cada gesto das personagens. E sabe também ser variada. Se é verdade que os tons amarelados são dos mais constantes ao longo do álbum, também é verdade que, a espaços, são utilizadas outras paletas de cores que encaixam que nem uma luva para sublinhar e reter a força dramática de uma cena.

Quanto à planificação até é verdade que esta é bastante clássica. Ainda assim, há alguns momentos sublimes em que o autor nos surpreende por arriscar mais. Em termos de dimensão de vinhetas, também há bastante diversidade, o que permite a utilização de planos de câmara mais cinematográficos, que enfatizam os sentimentos que, indubitavelmente, passam para o leitor. Na verdade, acho que se esta obra fosse adaptada ao cinema daria um excelente filme.

Olhando para a edição da Norma Editorial, há que reconhecer que estamos perante uma edição fantástica: capa dura e papel de boa qualidade e um dossier de extras espetacular, que nos mostra o making of da obra, com comentários do ilustrador Homs, que nos convida a conhecer como foi o processo da capa, os esboços das personagens, as capas das versões francesas, as técnicas utilizadas – quer no primeiro, quer no segundo tomo – e, no final, ainda temos como extra uma ilustração em anexo (vem dentro de um invólucro de plástico que é colado à parte de dentro da contracapa do livro). Um álbum duplo com inúmeros extras e ainda esta ilustração e com um preço de cerca de 25€, parece-me uma proposta irrecusável!

Em conclusão, El Ángelus é uma obra maravilhosa que nos serve tudo com um elevado grau de qualidade e profissionalismo: uma história comovente, profunda e surpreendente; uma arte visual verdadeiramente impressionante e soberba; e uma edição da Norma Editorial muito bem conseguida que gostaria de ver publicada por alguma das editoras portuguesas. Altamente recomendado e um dos melhores livros que lerei em 2021, estou certo.


NOTA FINAL (1/10):
9.7


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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El Ángelus, de Giroud e Homs - Norma Editorial

Ficha técnica
El Ángelus, Nueva Edición Ampliada
Autores: Frank Giroud e José Homs
Editora: Norma Editorial
Páginas: 144, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Dezembro de 2020