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quinta-feira, 22 de agosto de 2024

Análise: A Minha Mamã está na América e encontrou o Buffalo Bill

A Minha Mamã está na América e encontrou o Buffalo Bill, de Jean Regnaud e Émile Bravo - ASA - LeYa

A Minha Mamã está na América e encontrou o Buffalo Bill, de Jean Regnaud e Émile Bravo - ASA - LeYa
A Minha Mamã está na América e encontrou o Buffalo Bill, de Jean Regnaud e Émile Bravo

Têm sido várias as boas surpresas de banda desenhada que a editora ASA tem lançado junto de nós no último par de anos e, em particular, neste ano de 2024. E uma dessas boas surpresas foi esta recente editada obra intitulada A Minha Mamã está na América e encontrou o Buffalo Bill, que foi originalmente lançada em França há quase 20 anos. Tendo em conta a idade avançada da obra, considero óbvio que a aposta neste lançamento por parte da editora portuguesa se deve - para além da clara qualidade da obra, está claro - ao sucesso que a magnífica incursão do autor Émile Bravo na personagem de Spirou, recentemente editada pela mesma editora, tem recolhido junto do público e crítica portuguesa.

Émile Bravo é um nome maior da banda desenhada franco-belga e ver mais algumas das suas obras a serem finalmente editadas em Portugal é motivo de regozijo. 

A Minha Mamã está na América e encontrou o Buffalo Bill, de Jean Regnaud e Émile Bravo - ASA - LeYa
Este livro cujo título é, na verdade, uma frase, assume-se como uma obra autobiográfica sobre o início de vida do seu argumentista, Jean Regnaud, e oferece uma visão sensível e comovente da infância. A história é contada na primeira pessoa, sob o ponto de vista de Jean, uma criança que, no começo do livro, se prepara para o seu primeiro dia de aulas na escola primária. Fica óbvio para o leitor, logo nas primeiras páginas da obra, que Jean perdeu a sua mãe. Não sabemos se morreu, mas é claro que a mãe se encontra ausente. A partir daí, Regnaud faz-nos entrar na mente ingénua de uma criança que, com toda a sua imaginação e inocência, ainda não consegue compreender em que lugar está a mãe. Nem qual é a razão para o seu desaparecimento.

A narrativa segue a vida de Jean, que vive com o pai, com o irmão mais novo e com uma governanta, que acaba por ser a presença adulta mais constante na vida destas crianças. Com a mãe ausente, Jean revela-se incapaz de compreender completamente a situação, e acaba por ser levado a acreditar que a sua mãe se encontra em viagem. A história avança com Jean a tentar entender o que aconteceu com a sua mãe, enquanto lida com as mudanças na sua vida quotidiana e com as emoções confusas que surgem alimentadas por essa ausência maternal.

A Minha Mamã está na América e encontrou o Buffalo Bill, de Jean Regnaud e Émile Bravo - ASA - LeYa
É então através da sua vizinha, uma criança um pouco mais velha, que o pequeno Jean começa a receber cartões-postais escritos pela sua mãe (?) que lhe vão dando alento e ânimo para lidar com o seu dia-a-dia, onde é notória o vazio maternal - e, já agora, o paternal, já que o seu pai, mesmo estando presente, não deixa de estar ausente no dia a dia dos seus filhos.

Um dos temas centrais do livro é a infância e como as crianças lidam com as situações complexas do mundo adulto. A ausência da mãe é o ponto de partida para uma exploração da dor, do luto e do crescimento pessoal. A narrativa é permeada por um tom de melancolia, mas ao mesmo tempo, é carregada por uma doçura inocente que torna a leitura deveras tocante.

Outro tema importante que este livro traz consigo é a forma como as crianças preenchem lacunas de informação com imaginação. Jean transforma a ausência e o mistério em torno da sua mãe em aventuras, acreditando nas histórias fantásticas que ela supostamente vive. Isso não só revela a criatividade infantil, mas também como a mente de uma criança pode tentar proteger-se da dura realidade.

A escrita de Jean Regnaud é simples e direta, refletindo a perspectiva de uma criança. No entanto, essa simplicidade esconde camadas de complexidade emocional, que vão sendo desvendadas à medida que a história progride. A história é, pois, terna e bela, num tom agridoce que tenta aquecer-nos o coração. 

A Minha Mamã está na América e encontrou o Buffalo Bill, de Jean Regnaud e Émile Bravo - ASA - LeYa
O estilo de ilustração é bem ao jeito daquilo que podemos encontrar nos álbuns do Spirou assinados por Émile Bravo: um desenho "fofinho", que agrada a crianças e que tem o poder de levar os adultos para destinos nostálgicos embrenhados na sua própria infância de outrora. A planificação da obra não é de todo convencional, havendo muita dinâmica e opções diversificadas de prancha para prancha.

Por falar nisso, embora este seja um livro de banda desenhada onde há algumas páginas que obedecem aos cânones clássicos do género, outras há em que o livro se aproxima mais de um álbum ilustrado, por nos apresentar ilustrações sem os limites das vinhetas e sem balões de fala. Pessoalmente, considero que esta opção funciona bem, não só porque torna o livro mais original, como permite que o relato que nos é dado na primeira pessoa - em voz off e com pouco lugar a diálogos - seja feito de uma forma mais escorreita. 

Falando nos diálogos, outra ferramenta que Émile Bravo utiliza com especial leveza e sensibilidade, é a opção por balões de fala em que, em vez de colocar texto, o autor coloca uma ilustração que procura demonstrar ao leitor aquilo que está a ser dito por cada uma das personagens. Não é algo que me pareça muito simples de se fazer de forma bem sucedida, mas Bravo, com a sua capacidade gráfico-narrativa, consegue superar-se.

A Minha Mamã está na América e encontrou o Buffalo Bill, de Jean Regnaud e Émile Bravo - ASA - LeYa
De resto, o estilo de ilustração de Émile Bravo combina a suavidade das linhas e o uso eficaz das cores, conseguindo transmitir as emoções do protagonista de forma visualmente envolvente. As expressões faciais, os cenários e os detalhes subtis nas ilustrações complementam o texto e enriquecem a narrativa.

O relato é sensível e singelo, podendo ser lido por uma criança, claro, mas sendo claramente direcionado para um público maduro. Daí que a designação de "banda desenhada infanto-juvenil", que tenho lido em vários locais, talvez não seja a mais ajustada, quanto a mim.

De qualquer maneira, uma coisa é certa: este é um belo e emotivo livro que nos faz - a nós, adultos - sair do nosso mundo desprotegido para mergulhar na tão densa e artificialmente protegida bolha que criamos para as nossas crianças, onde as escudamos de tudo o que é nocivo ou de difícil digestão emocional. Quando sobrecarregamos as crianças de eufemismos e respostas latas, estaremos a protegê-las ou simplesmente a adiar o drama inevitável que sempre acaba por nos bater à porta?

A edição da ASA é em capa mole baça com badanas. No interior, o papel é espesso e baço, o que funciona bem no estilo de ilustração de Émile Bravo. A impressão e a encadernação são de boa qualidade, também.

Em suma, A Minha Mamã está na América e encontrou o Buffalo Bill é uma obra que se destaca pela sua sensibilidade ao tratar de temas difíceis através dos olhos de uma criança. A obra é capaz de envolver tanto crianças, quanto adultos - embora possivelmente impacte mais os adultos do que as crianças - oferecendo uma experiência de leitura que ressoa em diferentes níveis. Para as crianças, pode ser uma história sobre a saudade e a imaginação, enquanto que para os adultos, é uma lembrança do quão marcante e formativa pode ser a infância, especialmente diante da ausência e do luto.


NOTA FINAL (1/10)
8.4

Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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A Minha Mamã está na América e encontrou o Buffalo Bill, de Jean Regnaud e Émile Bravo - ASA - LeYa

Ficha técnica
A Minha Mamã está na América e encontrou o Buffalo Bill
Autores: Jean Regnaud e Émile Bravo
Editora: ASA
Páginas: 120 páginas, a cores
Encadernação: Capa mole com badanas
Formato: 172 x 244 cm
Lançamento: Junho de 2024



quarta-feira, 15 de maio de 2024

Análise: Spirou - A Esperança Nunca Morre… - Quarta Parte

Spirou - A Esperança Nunca Morre… - Quarta Parte, de Émile Bravo - ASA LeYa

Spirou - A Esperança Nunca Morre… - Quarta Parte, de Émile Bravo - ASA LeYa
Spirou - A Esperança Nunca Morre… - Quarta Parte, de Émile Bravo

A ASA acaba de publicar o quarto e último volume da série Spirou - A Esperança Nunca Morre…, de Émile Bravo, e que bom que foi poder mergulhar nesta história original e iniciática de Spirou e Fantásio, que coloca estas personagens a que nos fomos habituando num sem número de aventuras que acompanharam a nossa juventude, naquele que será o mais impactante momento das suas vidas: a Segunda Guerra Mundial, com toda a crise de valores e humanidade que a mesma levantou e a consequente invasão da Bélgica pelas tropas nazis.

Neste quarto volume, que termina a história - sendo o mais curto dos álbuns, com apenas 45 páginas - a narrativa de todo o arco – incluindo até o próprio Diário de Um Ingénuo - é fechada, deixando ficar no ar a ideia de que o propósito deste quarto volume foi mesmo essa, a de resolver a história e os desígnios que a sorte(?) deixou para cada uma das personagens com que Spirou se foi cruzando ao longo desta densa e marcante aventura imaginada por Émile Bravo.

Conforme já escrevi a propósito dos livros um, dois e três, Bravo tece uma trama complexa, repleta de intriga, suspense e momentos de intensa emoção. A profundidade psicológica dos personagens é explorada de maneira convincente, adicionando camadas de complexidade à história.

Spirou - A Esperança Nunca Morre… - Quarta Parte, de Émile Bravo - ASA LeYa
Esta é uma série de qualidade superior, que nos faz rir, chorar e, acima de tudo, refletir sobre aquilo que, há não tanto tempo assim, era a realidade político-social na Europa “supostamente” desenvolvida, bem como aquilo que, nos dias de hoje, e com o devido distanciamento, poderemos desejar e/ou temer para o nosso presente e futuro. É pois, um livro sério, maduro, que nos faz engolir em seco inúmeras vezes.

É, igualmente, uma obra com belos desenhos, que nos remetem para a escola de Hergé, que mesmo podendo parecer ser ilustrações orientadas para um público mais infanto-juvenil, quando olhadas através do ponto de vista do conjunto do argumento e dos desenhos, acabam por trazer uma reflexão profundamente madura e, portanto, mais alcançável por mentes mais adultas. 

Não posso deixar de lamentar por ter que dizer adeus a estas personagens, pelas quais fomos construindo um laço. E talvez seja mesmo por isso que, de alguma forma, este quarto e último volume da série saiba a pouco. Não sei se será por ser um livro muito curto, mas é verdade que quando fechado o mesmo, nos apetece voltar à primeira página do primeiro volume ou, com mais rigor, à primeira página de Diário de Um Ingénuo, onde começou a ser construída a visão de Bravo para esta personagem tão emblemática da banda desenhada mundial como é Spirou. 

Não obstante, se o final é belo, a minha única queixa é que me parece algo apressado a certo nível. Talvez certas decisões narrativas precisassem de mais algumas páginas/vinhetas para melhor ficarem resolvidas.

Spirou - A Esperança Nunca Morre… - Quarta Parte, de Émile Bravo - ASA LeYa
A edição mantém-se fiel aos outros livros da coleção: apresenta capa dura braça, bom papel brilhante e um bom trabalho ao nível da edição e da impressão. Não costumo falar muito do preço dos livros, mas desta vez parece-me que a editora poderia ter baixado ligeiramente (nem que fosse 1 ou 2 €) o preço do livro. Apenas e só porque se trata de um livro com quase um terço das páginas do volume 3 que, curiosamente, também apresenta o mesmo preço de 19,99€. Por outro lado, e olhando para o “copo meio cheio” também é verdade que, dessa vez, em que o livro tinha 114 páginas a cores e em capa dura, talvez o preço fosse mais barato do que o expectável. Ambas as interpretações serão válidas. De qualquer maneira, deixo a minha nota.

Seja como for, tenho que aplaudir a decisão da ASA em lançar esta série que, pela sua qualidade e pertinência, merecia (há muito!) ter uma versão em português. Faço até votos para que a editora se mantenha neste caminho de aposta em banda desenhada de qualidade inequívoca. Com sinceridade, e passados alguns anos de inconcebível letargia editorial no que à banda desenhada diz respeito, parece-me legítimo afirmar que a ASA vive dos melhores momentos da última década em termos de qualidade de BD editada. Que assim se mantenha!

Em suma, e voltando a este A Esperança Nunca Morre…, está é uma série absolutamente imprescindível. O que distingue esta obra de todos os outros livros de Spirou – e até mesmo da quase totalidade das séries clássicas de BD franco-belga - é a abordagem adulta, sombria e de reflexão que emana da obra. Porque em vez de se concentrar nas aventuras leves e cómicas características de Spirou, Bravo mergulha nas profundezas de um dos mais relevantes conflitos bélicos na história da humanidade, explorando as consequências emocionais e morais da guerra. Muito bom!


NOTA FINAL (1/10):
9.6



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Spirou - A Esperança Nunca Morre… - Quarta Parte, de Émile Bravo - ASA LeYa

Ficha técnica
Spirou - A Esperança Nunca Morre... Quarta Parte
Autor: Émile Bravo
Editora: ASA
Páginas: 48, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 240 x 319 mm
Lançamento: Abril de 2024

sexta-feira, 3 de maio de 2024

Spirou - A Esperança Nunca Morre… chega ao fim!


Está a chegar esta semana às livrarias portuguesas o quarto e último volume da série Spirou - A Esperança Nunca Morre…, de Émile Bravo!

Esta é uma série de qualidade superior, altamente recomendada, que vê agora o seu fim, depois de uma acertada e lógica aposta da editora ASA!

Relembro que já foram escritas análises ao volume 1 e aos volumes 2 e 3 desta magnífica obra, aqui no Vinheta 2020.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.


Spirou - A Esperança Nunca Morre… Quarta Parte, de Émile Bravo

Embrenhados na tormenta da Segunda Guerra Mundial, Spirou tenta sobreviver mantendo-se fiel aos seus valores, e Fantásio liberta a Bélgica (com a ajuda dos Aliados)… 

Chega assim o final de uma tragicomédia humanista dividida em quatro volumes.

ÉMILE BRAVO nasceu em 1964, em Paris, de pais espanhóis. Cresceu a ler todo o panteão da BD franco-belga (Astérix, Spirou, Tintin, Lucky Luke…) e cedo se sentiu ligado a esse universo. Segue no entanto estudo técnicos. Próximo de vários autores importantes da Editora L ’Association, Émile Bravo distingue-se pelo grande respeito que nutre pela tradição e pelos cânones da BD de aventuras para jovens, nomeadamente pelos princípios da linha clara de Hergé, que contribui para reavivar.
É aliás nesse contexto que publica em 2008 o incontornável Diário de Um Ingénuo, onde imagina as origens do famoso paquete de hotel criado por Rob-Vel 70 anos antes. 

Esta aventura narra as aventuras do jovem Spirou no dealbar da Segunda Guerra Mundial e cativou tanto o público como a crítica, não só pela frescura gráfica e narrativa mas também pela sua virulenta e muito pedagógica crítica à guerra. 

O álbum recebe inúmeros prémios e distinções e o autor decide dar-lhe continuidade em L’Espoir malgré Tout, mais de 300 páginas divididas por 4 álbuns que descrevem as aventuras de Spirou durante a ocupação nazi da Bélgica.



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Ficha técnica
Spirou - A Esperança Nunca Morre... Quarta Parte
Autor: Émile Bravo
Editora: ASA
Páginas: 48, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 240 x 319 mm
PVP: 19,90€

terça-feira, 31 de outubro de 2023

Análise: Spirou - A Esperança Nunca Morre... - Segunda e Terceira Parte

Spirou - A Esperança Nunca Morre... - Segunda e Terceira Parte, de Émile Bravo - ASA - Leya

Spirou - A Esperança Nunca Morre... - Segunda e Terceira Parte, de Émile Bravo - ASA - Leya
Spirou - A Esperança Nunca Morre... - Segunda e Terceira Parte, de Émile Bravo

Em boa altura a editora ASA apostou no lançamento de Spirou de Autor. Essa aposta – que só pecou por tardia e que espero que possa ir além da publicação de álbuns de Émile Bravo – iniciou-se quando a editora lançou, no ano passado, Spirou - Diário de Um Ingénuo, de Émile Bravo. É um álbum fabuloso, do qual já aqui falei e que este ano acabou mesmo por vencer os Prémios de Banda Desenhada da Amadora para Melhor Obra Estrangeira. Distinção merecida.

Mas se Diário de Um Ingénuo funciona como um convite de entrada para o universo imaginado por Émile Bravo para a personagem de Spirou, este A Esperança Nunca Morre, uma mini-série com quatro volumes, que continua a história de Diário de Um Ingénuo, mergulha-nos num enredo (mais) adulto, (mais) pesado, (mais) triste e que nos deixa sem rede perante a forma como uma criança, ou um jovem, enfrenta a dura realidade. A Esperança Nunca Morre bem que podia chamar-se “Como Perdem os Jovens a Esperança no Mundo”. Sim, é bom que a esperança nunca morra, mas aos olhos dos crimes de guerra que a humanidade perpetra sobre si mesma, essa esperança vai sendo cada vez mais ténue. E nos dias que enfrentamos, não só com o conflito na Ucrânia, como também com os genocídios feitos na faixa de Gaza, livros como este A Esperança Nunca Morre lembram-nos da fase em que, na nossa adolescência, o mundo passou de um globo multicolorido e alegre, para uma esfera a preto e branco e demasiado triste.

Spirou - A Esperança Nunca Morre... - Segunda e Terceira Parte, de Émile Bravo - ASA - Leya
Seguindo os eventos decorridos na Primeira Parte desta tetralogia, Spirou e Fantásio fazem o que podem para sobreviver às tormentas inerentes à Segunda Guerra Mundial e a todas as privações, medos e inseguranças que a mesma traz consigo, numa Europa a experienciar a hora mais negra da sua história. Num quotidiano onde o medo está instalado e onde o bem e a moralidade parecem ter sido esquecidos, Spirou, em idade adolescente, ainda que esteja nutrido por essa ingenuidade e esperança que parece dotar todos os jovens e crianças – e aqueles que, mesmo durante a vida adulta permanecem crianças – começa, lenta mas gradualmente, a tomar consciência da realidade que o rodeia.

Assim, entre o teatro de fantoches que cria com Fantásio para entreter as crianças, entre o despoletar das paixões não correspondidas ou entre a tentativa de ajudar os mais necessitados, dando-lhes provisões para os tempos difíceis que se fazem sentir numa Bélgica ocupada pelos nazis, Spirou acaba por tomar parte e ação na Guerra, ajudando vários judeus que procuram contrariar um destino malfadado.

A história está carregada de vários pequenos momentos mundanos que procuram servir como tela para os eventos maiores e mais impactantes que, de uma forma ou de outra, acabam por surgir. Admito que, por vezes, talvez sintamos uma ligeira sensação de repetição, que pode tornar a leitura um pouco mais entediante do que aquilo que seria expetável. No entanto, estou certo que Émile Bravo o fez propositadamente. Para quê? Bem, para que a leitura possa ir embalando o leitor e, quando este menos espera, rapidamente sinta acercar-se dele um evento com a força de um terramoto emocional!

Acho particularmente louvável que o autor não tenha caído nos clichets habituais dramáticos deste tipo de histórias. Em vez disso, parece optar por nos oferecer um retrato esperançoso e positivo até. Todavia, quando se vive o que se viveu na Europa entre 1939 e 1945, até o quadro mais esperançoso e positivo é ineficaz perante toda a catástrofe de justiça, valores e moralidade, sem nexo e sem razão, que afetava a Europa. Portanto, lá está, sendo positivo e mascarando-se num aparente humor oriundo das peripécias onde Fantásio se mete, o tom da história acaba por ser infinitivamente triste. Estão a ver a abordagem que o igualmente fantástico filme A Vida é Bela, de Roberto Benigni, fez da Segunda Guerra Mundial? Com as devidas distâncias, claro está, este A Esperança Nunca Morre... também consegue fazer isso mesmo: parecer ser leve e suave e, ao mesmo tempo, ter uma força bruta que nos consome por dentro e que faz, qual ironia no título da obra, perder a esperança na humanidade.

Spirou - A Esperança Nunca Morre... - Segunda e Terceira Parte, de Émile Bravo - ASA - Leya
Sendo esta série uma abordagem única e ousada do universo do personagem Spirou, um dos ícones mais queridos da banda desenhada franco-belga, considero especialmente inspirada e, até mesmo, audaz, a forma como Bravo conseguiu juntar numa só história tanta coisa. E se Diário de Um Ingénuo é um daqueles livros que, como referi, pode e deve ser lido por miúdos e graúdos, com A Esperança Nunca Morre… a leitura torna-se inequivocamente para os mais velhos, dado o seu peso emocional. Até porque as questões morais levantadas e a abordagem narrativa madura e complexa, consegue aprofundar a história e a psicologia das personagens, tornando o conjunto muito mais sombrio e adulto do que as aventuras tradicionais de Spirou.

A caracterização das personagens também é uma das forças da série. Émile Bravo aprofunda a personalidade de Spirou, Fantásio e de outras personagens que orbitam à sua volta, mostrando as suas fraquezas e os seus dilemas pessoais. E isso, claro, torna essas personagens mais tridimensionais, fazendo com que os leitores se possam identificar mais com as mesmas. E não esqueçamos que a evolução das personagens ao longo da série também é notável, pois à medida que enfrentam os desafios da guerra e descobrem facetas ocultas de si mesmas, vão-se modificando. Com efeito, o Spirou do terceiro volume da série já é bem diferente do Spirou do primeiro volume ou de o Spirou de Diário de um Ingénuo. E estou certo que no próximo e último volume, ainda será mais diferente. Mas também assim somos todos nós. Não somos a mesma pessoa por muito tempo… evoluímos, mudamos, crescemos, sobrevivemos.

Spirou - A Esperança Nunca Morre... - Segunda e Terceira Parte, de Émile Bravo - ASA - Leya
Para além da belíssima e marcante história, o traço de Émile Bravo também é igualmente notável. O seu traço em linha clara – que muito lembra o Tintin de Hergé – apresenta-se rico em detalhes e expressividade, o que contribui para a imersão do leitor na atmosfera da Segunda Guerra Mundial. Bravo captura com maestria a ambientação da época, desde os trajes até aos cenários, proporcionando um visual autêntico que enriquece a narrativa.

Devo dizer que, em termos de planificação, que é (demasiado?) clássica, como a maioria das pranchas tem entre 12 a 16 vinhetas, talvez a leitura se vá ressentido um pouco dessa opção estética, tornando-se pouco dinâmica e mais repetitiva. Compreendo que foi algo pensado pelo autor que procurou, certamente, prestar homenagem a alguns clássicos da banda desenhada franco-belga. E nisso, foi bem sucedido, claro. No entanto, considero que a leitura poderia sair beneficiada se houvesse mais vinhetas de maior dimensão ou uma planificação não tão restrita que permitisse que a narrativa visual respirasse melhor. E a prova disto é que nos poucos exemplos em que Bravo opta por nos dar estas vinhetas maiores em dimensão, consegue sempre, sem exceção, momentos impactantes para o leitor. Mas são opções, claro.

A edição da ASA está bastante bem conseguida. Os livros apresentam capa dura baça, com bom papel brilhante no interior. A encadernação e a impressão também são boas em qualidade. Devo dizer que gostaria que houvesse espaço para a introdução de alguns esboços e informações adicionais sobre a obra. No entanto, tenho que admitir que, em termos de edição, a ASA dá-nos aqui um bom trabalho.

Em jeito de conclusão, posso dizer sem grandes pudores que esta é, de caras, a melhor série que a ASA tem no seu catálogo, neste momento. É obrigatória para todos os que apreciam uma bela, madura e marcante história, e consegue ser muito bem desenhada, também. No fundo, é obrigatória para todos os que gostam de banda desenhada. Por ventura, até mesmo para aqueles que não leem banda desenhada. Que venha depressa o quarto e último volume desta obra prima da banda desenhada!


NOTA FINAL (1/10):
9.7

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Spirou - A Esperança Nunca Morre... - Segunda e Terceira Parte, de Émile Bravo - ASA - Leya

Ficha técnica
Spirou - A Esperança Nunca Morre... - Segunda Parte – Um Pouco Mais Perto do Horror
Autor: Émile Bravo
Editora: ASA
Páginas: 92, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 240 x 319 mm
Lançamento: Março de 2023

Spirou - A Esperança Nunca Morre... - Segunda e Terceira Parte, de Émile Bravo - ASA - Leya

Spirou - A Esperança Nunca Morre... - Terceira Parte – Uma Partida para o Fim
Autor: Émile Bravo
Editora: ASA
Páginas: 116, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 240 x 319 mm
Lançamento: Outubro de 2023

quarta-feira, 11 de outubro de 2023

ASA lança a terceira parte de Spirou - A Esperança Nunca Morre!


Já se encontra nas livrarias a terceira parte de Spirou - A Esperança Nunca Morre..., do autor Émile Bravo.

Trata-se de uma série absolutamente magnífica e totalmente recomendada, publicada por cá pela editora ASA, que conta com quatro volumes. Está perto de atingir o seu fim, portanto.

Relembro que o autor é um dos nomes confirmados para o Amadora BD.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse e com algumas imagens promocionais deste terceiro volume.


Spirou - A Esperança Nunca Morre... - Terceira Parte, de Émile Bravo

Mergulhado na tormenta da Segunda Guerra Mundial, Spirou procura sobreviver mantendo-se fiel aos seus valores, enquanto Fantásio se envolve cegamente no combate…

A Esperança Nunca Morre é um verdadeiro romance que combina ação, humor, verdades históricas e reflexões filosóficas, e que coloca uma questão fundamental: "Como teríamos atravessado este período dramático? Com oportunismo, heroísmo... ou simplesmente humanismo?" 

Enquanto Fantasio faz de tudo para encontrar um sentido para a sua vida (e conquistar a mulher dos seus sonhos), Spirou tenta fazer o que está certo... correndo o risco de cometer actos heróicos.

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Ficha técnica
Spirou - A Esperança Nunca Morre... - Terceira Parte
Autor: Émile Bravo
Editora: ASA
Páginas: 116, a cores
Encadernação: Capa dura:
Formato: 240 x 319 mm
PVP: 19,90€

terça-feira, 21 de março de 2023

Spirou de Émile Bravo regressa hoje às livrarias!



Chega hoje às livrarias uma das melhores apostas de banda desenhada dos últimos anos, por parte da editora ASA!

Falo do novo Spirou de Émile Bravo. Esta é a segunda parte (de quatro) da mini-série A Esperança Nunca Morre...

Há poucos dias analisei aqui o primeiro volume e já tinha analisado também o primeiro álbum, intitulado Diário de um Ingénuo, que Émile Bravo fez para a célebre personagem de Spirou.

Esta é uma série extremamente bem feita e altamente recomendada!

Abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais da edição francesa.

Spirou - A Esperança Nunca Morre... - Segunda Parte, de Émile Bravo

A partir desta semana nas livrarias!

Embrenhados na tormenta da Segunda Guerra Mundial, Spirou tenta sobreviver mantendo-se fiel aos seus valores, enquanto Fantásio tenta salvar a pele…

Escrita por uma das figuras mais destacadas do atual panorama da banda desenhada em França, esta é uma obra de grande fôlego (sendo este volume o segundo de quatro), que constitui um verdadeiro romance literário em BD onde se misturam ação, humor, verdades históricas e reflexões filosóficas.

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Ficha técnica
Spirou - A Esperança Nunca Morre... - Segunda Parte
Autor: Émile Bravo
Editora: ASA
Páginas: 92, a cores
Encadernação: Capa dura
PVP: 19,90€

sexta-feira, 17 de março de 2023

Análise: Spirou - A Esperança Nunca Morre... - Primeira Parte


Spirou - A Esperança Nunca Morre... - Primeira Parte, de Émile Bravo

Se houve coisas boas que a editora ASA nos deu em 2022, a aposta na coleção de Spirou de Autor, mais concretamente nos livros de Émile Bravo, foi certamente o ponto mais alto.

Depois de lançar o brilhante Spirou – Diário de Um Ingénuo, a editora portuguesa não esperou muito tempo até lançar Spirou – A Esperança Nunca Morre… - Primeira Parte. Neste momento em que vos escrevo, a editora prepara-se até para lançar a Segunda Parte desta saga - que é composta por quatro partes - já neste mês de Março. E tudo isto são bons sinais da editora.

A verdade é que a ASA, mesmo sem nunca ter posto totalmente de lado a edição de banda desenhada - com o lançamento dos álbuns novos que vão saindo nas suas franquias mais rentáveis, como Astérix, Lucky Luke ou Blake e Mortimer - tinha vindo a descurar um pouco a banda desenhada nos últimos anos. A recente aposta no lançamento de curtas séries de banda desenhada com o jornal PúblicoPeter Pan de Loisel, Long John Silver, Rio ou O Grão-Duque serão bons exemplos – tem representado um bom sinal de rejuvenescimento editoral da ASA. Tal como tem sido um ótimo sinal esta aposta na coleção de Spirou de Autor que espero que vá além do lançamento dos 5 livros de Émile Bravo. Mas, para já, concentremo-nos neste livro que hoje vos trago. 

E embora este Spirou - A Esperança Nunca Morre... - Primeira Parte abra uma saga de quatro volumes, considero que este é o segundo álbum da minissérie criada por Émile Bravo. É lógico que não há uma ligação direta de Diário de Um Ingénuo para a saga A Esperança Nunca Morre, que podem ser lidos de forma separada, mas, tendo em conta a abordagem e o cariz da história criada por Bravo, bem como o facto de, cronologicamente falando, esta história começar a seguir à história de Diário de Um Ingénuo, quando se pega neste livro, tendo lido o outro, ganha-se bastante. Mais não seja por já se ter mergulhado e encantado com o primeiro livro de Spirou que este autor criou.

A ação decorre em Janeiro de 1940, já durante a Primeira Guerra Mundial. Em Bruxelas, os habitantes debatem-se com um inverno rigoroso, enquanto vão assistindo à, cada vez mais inevitável, chegada da Grande Guerra. Fantásio alista-se no exército belga e Spirou mantém-se como o paquete do Hotel Moustic.

Uma coisa em que Émile Bravo parece ser mestre, é na capacidade de nos contar uma história pesada, mas sem cair no dramatismo fácil. Pelo contrário, tentando desdramatizar o próprio drama das coisas difíceis, das coisas adultas, das coisas que são causa e efeito de um mundo amargurado e infinitamente triste que, tacitamente, escondemos das crianças que nos rodeiam. Tal como, quando éramos crianças, os adultos escondiam de nós. E também é por isso que este livro é nobre e belo. É que, aparentando ser para uma criança, esconde muitas mensagens adultas nas entrelinhas.

Por exemplo, quando o jovem Spirou conhece Felka e o seu marido, o pintor judeu alemão Félix, cuja obra foi condenada pelos nazis, está a tomar conhecimento com o tema dos judeus e com todas as complexidades político-sociais que este povo viveu durante (e após?) o longo período da Segunda Guerra Mundial. Por outras palavras, parecendo quase que o autor está a introduzir, de forma mundana e ligeira, mais duas personagens à sua história… a verdade é que está a introduzir temas complexos de forma simples. De um modo carregado de subtileza.

Faz lembrar O Principezinho, de Exupéry, mas também faz lembrar Tintin, de Hergé, pois há uma forma própria, pincelada com a aura da inocência da infância ou da pré-adolescência, de tentar perceber a razão das coisas serem como são. Com efeito, sem perceber o porquê dos tumultos que a guerra está a levantar na envolvente que o rodeia, a personagem de Spirou acaba por funcionar como catalisador para a compreensão de algo que qualquer pessoa sã diria que é incompreensível. Ao mesmo tempo, Bravo consegue que a personagem vá, gradualmente, amadurecendo a sua maneira de ver e perceber o mundo, abordando questões mais sombrias e adultas. Uma verdadeira beleza de character building, diria.

Há, pois, uma singular poesia na forma como Émile Bravo projeta as origens e vivências de Spirou. Há quem diga que, na criação de uma obra de arte, o mais difícil é conseguir fazer algo extraordinário que seja, ao mesmo tempo, simples. E, meus caros, é isso que o autor faz no seu Spirou. A ilustração é simples, a história é simples. Não há truques de encher o olho, mas há – e isso será, por ventura, o mais relevante – uma bela história que é atual e, ao mesmo tempo, clássica na abordagem e que, mesmo daqui a muitos anos, continuará refrescante.

Esta é uma história cheia de humanismo, compaixão pelo próximo e onde não falta uma boa dose de humor, também ele bastante simples e que, mais do que nos fazer rir à gargalhada, nos faz sorrir ternamente. Embora, convenhamos, neste livro, Fantásio quase me tenha levado às gargalhadas em algumas das suas mirabolantes peripécias.

Falando na personagem de Fantásio, até posso dizer que em Diário de Um Ingénuo a personagem não me conquistou muito, pois achei-a algo irritante. Contudo, neste livro a minha opinião já muda um pouco, pois são mais notórias e bem conseguidas as bases com que Bravo quer (re)construir esta personagem. Fez-me rir mais vezes e, ao mesmo tempo, pareceu-me mais relevante para a história.

Acredito que seja um livro onde a planificação poderá ser clássica, em demasia, para alguns leitores. Isto porque cada prancha tem sempre um bom conjunto de pequenas vinhetas, o que poderá tornar a leitura demasiado densa para alguns. Não é que os balões tenham muito texto, diga-se, mas concedo que há um bom número de diálogos. Mas se isso pode ser dissuasor para uns, também é nesses mesmos diálogos que está uma das forças da obra. O ritmo de ação é algo lento, sim, mas, mais uma vez, não é algo que me pareça ser fruto do acaso. É óbvio que o autor pensou e preparou muito bem esta história.

O desenho é discreto, simples, clássico, em linha clara, remetendo, lá está, para o trabalho de Hergé no seu célebre Tintin. Muito em linha com o Diário de Um Ingénuo, naturalmente. Por esse motivo, e repescando algumas das palavras que escrevi sobre esse livro, posso dizer que, também em A Esperança Nunca Morreos desenhos do autor, em linha clara, remetem-nos para o clássico franco-belga, num estilo que já é bastante raro encontrar. À primeira vista, parece que estamos perante uma banda desenhada dos anos quarenta. A planificação é tradicional e algo rígida, com as páginas a terem praticamente sempre quatro tiras de vinhetas. Cada página é, pois, pontuada com, pelo menos, 12 vinhetas. Algo que hoje em dia é bastante raro de encontrar. Portanto, e também por isso, Émile aproxima-se mais de um Hergé do que de um Franquin na forma como planifica a sua história. Já para não mencionar que o tipo de desenho, nos remete para Tintin. Voluntária ou involuntariamente a verdade é que, prestando homenagem a Spirou, Émile Bravo acaba por também prestar homenagem a Tintin. No fundo, toda a ambiência visual (…) consegue a proeza de ser clássica no género, mas de forma atual, sendo, portanto, retro e moderna ao mesmo tempo.

Quanto à edição do livro, parece-me, toda ela, muito bem conseguida. A capa é dura e baça, o papel é brilhante e apresenta boa espessura, enquanto que a encadernação e a impressão são de boa qualidade. Gosto especialmente das capas desta série, que têm bastante personalidade e um estilo muito sóbrio, embora belo.

Concluindo, tudo aquilo que Émile Bravo tem feito por Spirou é verdadeiramente admirável! A maneira como o autor aborda esta icónica personagem, mergulhando profundamente nas suas origens, bem como nas célebres personagens que orbitam à volta do paquete de hotel mais famoso do mundo, é verdadeiramente única, bela e uma proposta irrecusável para qualquer amante de banda desenhada europeia. Imprescindível!


NOTA FINAL (1/10):
9.6



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Ficha técnica
Spirou - A Esperança Nunca Morre... - Primeira Parte
Autor: Émile Bravo
Editora: ASA
Páginas: 88, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 240 x 320 mm
Lançamento: Novembro de 2022

quinta-feira, 3 de novembro de 2022

ASA regressa com mais um Spirou de autor!




Depois da excelente aposta da ASA no excelente Spirou - Diário de um Ingénuo, de Émile Bravo, eis que a editora volta rapidamente ao lançamento de mais um Spirou de autor! E, desta vez, aposta numa obra em quatro volumes!

Spirou - A Esperança Nunca Morre... - Primeira Parte, traz-nos novamente o Spirou de Émile Bravo e deverá chegar às livrarias já na próxima semana! Por agora, o livro já se encontra em pré-venda no site da editora.

O que são ótimas notícias para todos os que são adeptos de boa banda desenhada! 

Depois de um ano editorial algo parco para a ASA, em termos de banda desenhada, este último trimestre está a ser muito interessante!
Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais da edição original francesa.


Spirou - A Esperança Nunca Morre... - Primeira Parte, de Émile Bravo

Janeiro de 1940. Um inverno particularmente rigoroso abateu-se sobre Bruxelas. Enquanto todos aguardam com apreensão a chegada iminente da guerra, Fantásio alista-se no exército belga. Colocado no forte de Ében-Émael, aguarda impacientemente o início dos confrontos com a certeza absoluta de que os exércitos francês e britânico esmagarão o exército alemão…
Quanto a Spirou, continua a ser paquete e a viver o mais normalmente possível. O seu encontro com Félix, um pintor judeu alemão cuja obra foi considerada degenerada pelos nazis, e Felka, a sua mulher, vai dar a conhecer a Spirou a questão judia e a complexidade da situação internacional.

Quando a guerra eclode, Fantásio tenta servir a pátria o mais heroicamente possível. Spirou, por seu turno, tenta compreender a complexidade da situação através de encontros com personagens profundamente humanas e procura tornar-se útil mantendo-se fiel aos seus valores.

Escrita por uma das figuras mais destacadas do atual panorama da banda desenhada em França, esta é uma obra de grande fôlego (sendo este volume o primeiro de quatro), que constitui um verdadeiro romance literário em BD onde se misturam ação, humor, verdades históricas e reflexões filosóficas.

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Ficha técnica
Spirou - A Esperança Nunca Morre... - Primeira Parte
Autor: Émile Bravo
Editora: ASA
Páginas: 88, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 240 x 320 mm 
PVP: 19,90€

terça-feira, 18 de outubro de 2022

Análise: Spirou - Diário de um Ingénuo

Spirou - Diário de um Ingénuo, de Émile Bravo - ASA

Spirou - Diário de um Ingénuo, de Émile Bravo - ASA
Spirou - Diário de um Ingénuo, de Émile Bravo

Começo, desde já, por dizer que Spirou - Diário de um Ingénuo é, sem margem para dúvidas, o melhor álbum de banda desenhada que a ASA lançará em 2022. E digo-o, corajosa mas não levianamente, sabendo que o ano ainda não acabou e ainda poderão surgir belos livros de bd por parte da ASA, até final do ano. Mas a qualidade deste livro é suficiente para eu me sentir seguro desta afirmação. Aliás, até vou mais longe e digo que este é um dos melhores livros de banda desenhada do ano.

Fazendo parte da coleção Spirou e Fantasio visto por, que nos traz livros dedicados a estas personagens, mas com uma abordagem diferente da considerada "clássica", este Spirou - Diário de um Ingénuo marcou o ingresso do autor Émile Bravo nesta coleção. Entretanto, o sucesso foi tanto – e merecido – que o mesmo autor já contribuiu para a mesma coleção com L’Espoir Malgré Tout, dividido em quatro (!) volumes.

Diário de um Ingénuo tem a valência de ser um álbum seminal da personagem, que procura responder a algumas questões que a leitura da série Spirou sempre nos fez indagar. Porque é que Spirou trabalha num hotel, enquanto paquete? Porque é que nunca tira a farda? Quem é Fantasio? Quem é Spip? Quais as origens do protagonista? Porquê o próprio nome "Spirou"?

Émile Bravo dá-nos respostas a estas questões – e a muitas mais – de uma forma harmoniosa e tão credível, que quase fica no ar a ideia de que este foi o primeiro álbum de Spirou de sempre! E acho até que será por esse motivo que este livro é tão agradável de ler. Porque, de forma natural e sem tentativas demasiado forçadas, Émile Bravo consegue trazer à tona da leitura, tudo aquilo que nos fez apaixonar pela banda desenhada franco-belga clássica quando ainda éramos crianças. A ingenuidade, a seriedade, a construção de uma personagem principal que encerra em si um conjunto de valores assentes em questões éticas – mesmo que de uma forma aparentemente ingénua – e, claro, sempre com um misto de aventura. Ler Spirou - Diário de um Ingénuo é mergulhar num passado feliz em que um livro de banda desenhada poderia ser o refúgio de uma criança solitária ou o destino dos sonhos de aventura de jovens com sede de viver.

Spirou - Diário de um Ingénuo, de Émile Bravo - ASA
É engraçado que este livro me tenha remetido tanto para os primeiros álbuns de Tintin que li. E quando falo nisto não me estou a referir à própria ligação direta que o autor faz na história, em que até coloca Spirou a vestir as roupas de Tintin e, consequentemente, a ficar idêntico a este. Não. Refiro-me mais ao tom suave, naïf, mas pleno de aventura, de aprendizagem e de humanismo com que o autor nos brinda.

Para além de responder às questões já referidas, Émile Bravo monta muito bem uma bela trama que, mesmo assumindo um tom ligeiro e mundano, tem como pano de fundo o período que sucedeu à ocupação nazi. Como tal, vamos assistindo a uma negociação no hotel onde Spirou trabalha, entre alemães e polacos que, eventualmente, culminará no avanço da guerra. Tudo feito com um doce e ligeiro humor, enquanto os momentos mais sérios e tensos também nos são dados com ligeireza. É tanta a ligeireza que diria que este Diário de um Ingénuo tem um quê de gourmet. Tudo é dado com subtileza e classe. Saibamos nós, enquanto leitores, detetá-la.

Subtileza também é tudo aquilo que emana do primeiro relacionamento amoroso do protagonista que, além de conhecer aqui a sua primeira paixão, também desenvolve com ela uma relação mútua de auto-conhecimento e consciencialização. Apenas a personagem Fantasio me deixou um pouco desiludido, pois parece-me que Bravo lhe deu um tratamento de pessoa sem escrúpulos e antipática que talvez não case tão bem com o Fantasio que os leitores da série se habituaram a conhecer.

Diário de um Ingénuo é uma oportunidade para adultos mergulharem no seu belo passado nostálgico de leituras de banda desenhada, mas, ao mesmo tempo, também é o presente certo para uma criança de 10, 15, 20, 30, 40, 50 ou 60 anos, que nunca leu uma bd, poder iniciar-se no género. E, portanto, sim, é uma banda desenhada essencial.

Spirou - Diário de um Ingénuo, de Émile Bravo - ASA
Talvez um leitor assíduo de banda desenhada se possa queixar de algumas coisas neste livro, como a planificação clássica e pouco dinâmica, o ritmo de ação algo lento e a tal ingenuidade aparentemente presente na própria maneira de contar a história. São factos presentes, concedo. E não podemos, naturalmente, gostar todos do mesmo. Não obstante, penso ser inegável a maturidade da obra – mesmo sendo também adequada, repito, para os mais novos.

Os desenhos do autor, em linha clara, remetem-nos para o clássico franco-belga, num estilo que já é bastante raro encontrar. À primeira vista, parece que estamos perante uma banda desenhada dos anos quarenta. A planificação é tradicional e algo rígida, com as páginas a terem praticamente sempre quatro tiras de vinhetas. Cada página é, portanto, pontuada com, pelo menos, 12 vinhetas. Algo que hoje em dia é bastante raro de encontrar. Portanto, e também por isso, Émile aproxima-se mais de um Hergé do que de um Franquin na forma como planifica a sua história. Já para não mencionar que o tipo de desenho, nos remete para Tintin. Voluntária ou involuntariamente a verdade é que, prestando homenagem a Spirou, Émile Bravo acaba por também prestar homenagem a Tintin.

No fundo, toda a ambiência visual deste Spirou - Diário de um Ingénuo consegue a proeza de ser clássica no género, mas de forma atual, sendo, portanto, retro e moderna ao mesmo tempo. E isso também está bem patente nas belas cores de Delphine Chedru que decoram as ilustrações de Bravo.

A edição da ASA é bem conseguida. Com capa dura, bom papel baço, boa encadernação e boa impressão, diria que tem uma edição bastante sólida, mesmo não tendo qualquer tipo de extra.

Em suma, e face à qualidade desta aposta editorial da ASA, o meu desejo só pode ser um: que a editora continue a apostar em banda desenhada desta qualidade editando, por exemplo, os restantes álbuns de Émile Bravo nesta série ou outros igualmente bons como La Lumière de Bornéo, de Zidrou e Frank Pé ou Fondation Z, de Filippi e Lebeault, como já havia referido anteriormente. Para isso também contará, certamente, que o público saiba reconhecer a qualidade deste livro, comprando-o. A ASA está de parabéns por esta aposta! Este é, afinal de contas, um álbum essencial!


NOTA FINAL (1/10):
9.5


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Spirou - Diário de um Ingénuo, de Émile Bravo - ASA

Ficha técnica
Spirou - Diário de um Ingénuo
Autor: Émile Bravo
Editora: ASA
Páginas: 80, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 319 x 237
Lançamento: Setembro de 2022