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quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Análise: Batman - Grant Morrison - Volumes 4, 5 e 6


Batman - Grant Morrison - Volumes 4, 5 e 6, de Grant Morrison, Tony Daniel, Lee Garbett, Frank Quitely, Philip Tan, Cameron Stewart, Scott Kolins, Andy Kubert, David Finch, Andy Clarke e Chris Sprouse 

A Devir tem continuado ativa na edição de livros dedicados a Batman e, em particular, à saga desenvolvida por Grant Morrison. Hoje falo-vos dos três volumes mais recentes desta famosa run do autor.

E estes números 4, 5 e 6 que hoje vos trago representam uma fase particularmente ambiciosa da longa saga que o autor construiu para o Cavaleiro das Trevas. Depois dos acontecimentos de Batman R.I.P. e da aparente morte de Bruce Wayne em Crise Final, que fecham o 4º volume da saga, Morrison afasta-se deliberadamente da abordagem tradicional ao mito de Batman para explorar questões de legado, identidade e continuidade. O resultado é uma obra que continua a distinguir-se pela enorme densidade conceptual e pela capacidade de transformar décadas de histórias dispersas numa narrativa surpreendentemente unificada. Quer dizer, mais ou menos unificada. Porque embora haja um esforço hercúleo do autor em atar muitas das pontas soltas da célebre franquia, isso também acaba por ser feito à custa de uma densidade narrativa que, por vezes, pode ser assoberbante e desconexa. Mas já lá irei.

Antes disso, reconheço que grande parte do fascínio desta obra de Morrison reside precisamente na forma como o argumentista parece encarar Batman não como um único homem, mas como uma ideia, um conceito capaz de sobreviver à ausência do seu criador. Um homem pode morrer sem que a sua ideia morra, certo? E a substituição temporária de Bruce Wayne por Dick Grayson dá força a este ponto, revelando-se uma opção corajosa. Em vez de procurar um mero imitador de Batman, Grant Morrison explora como diferentes personalidades podem encarnar o mesmo símbolo sem que este perca a sua força.

Esta nova dinâmica ganha particular relevância através da relação entre Dick Grayson e Damian Wayne. Morrison já havia introduzido Damian nos primeiros volumes, mas é aqui que, quanto a mim, a personagem encontra verdadeiramente o seu espaço. A inversão dos papéis clássicos da dupla Batman e Robin, com um Batman mais leve e acessível a contracenar com um Robin agressivo, arrogante e imprevisível, dá-nos alguns dos melhores momentos dos três volumes.

Ao mesmo tempo, Grant Morrison continua a demonstrar uma impressionante capacidade para expandir o universo da série. Talvez até em demasia, diria eu. Gotham deixa de ser apenas uma cidade dominada pelo crime e transforma-se num palco onde coexistem conspirações seculares, organizações internacionais, vilões extravagantes e até mesmo algumas reflexões metafísicas sobre o próprio conceito de heroísmo. É um guisado com muitos ingredientes. 

Por esse motivo, nestes três volumes volta a consolidar-se, por um lado, aquela que considero ser a grande virtude da escrita de Morrison em Batman: a criação de um universo rico em camadas. Quase todas as personagens parecem possuir múltiplas dimensões, motivações contraditórias e ligações inesperadas a acontecimentos anteriores. Não existem apenas heróis e vilões. É este grau de complexidade que torna a leitura especialmente estimulante para quem aprecia narrativas mais exigentes.

Por outro lado, essa mesma complexidade constitui também o principal obstáculo da obra. Morrison parece por vezes tão fascinado pelas possibilidades do seu próprio universo que acaba por sacrificar a clareza narrativa. Existem momentos em que as histórias avançam através de associações simbólicas e referências internas que nem sempre produzem uma recompensa emocional proporcional ao esforço exigido ao leitor. Sim, se aquele que me lê procura mergulhar pela primeira vez em Batman, talvez os livros de Grant Morrison não sejam a melhor porta de entrada. Pelo contrário, considero que esta saga se destina bem mais ao fã mais conhecedor de Batman.

Esta sensação torna-se particularmente evidente na enorme quantidade de subtramas que atravessam os três volumes. Conspirações internacionais, identidades secretas, mistérios ligados a várias personagens, o regresso de Bruce Wayne, os planos de organizações criminosas e os conflitos familiares sucedem-se a um ritmo quase vertiginoso. Embora seja admirável a forma como Grant Morrison tenta articular todas estas peças, nem sempre é bem-sucedido.

Na verdade, uma das conclusões a que cheguei durante a leitura destes três livros é que quantidade de subplots nem sempre é qualidade de subplots. Algumas ideias parecem existir porque contribuem para a arquitetura geral do projeto de Morrison, mas não porque sejam verdadeiramente cativantes enquanto histórias autónomas. 

Ainda assim, é impossível não admirar a capacidade do autor para planear histórias a longo prazo. Elementos introduzidos centenas de páginas antes regressam com novo significado, personagens secundárias ganham importância inesperada e referências aparentemente insignificantes revelam afinal uma função precisa dentro do conjunto. E isso é riqueza narrativa, claro.

No plano gráfico, estes três volumes mantêm um nível qualitativo muito elevado. A alternância de artistas continua a conferir diversidade visual à série, mas sem comprometer muito a identidade global do projeto. Há um equilíbrio interessante entre espetacularidade, ação, atmosfera e caracterização das personagens. Sendo talvez injusto sublinhar o trabalho de alguns desenhadores - tendo em conta que todos eles são bons - tenho que referir que apreciei especialmente os contributos de Frank Quitely, pela conhecida originalidade do traço, e de Philip Tan, pela grandiosidade do seu desenho.

Em termos de edição, o trabalho da Devir está bastante bom em todos os livros. As capas são duras, com detalhes a verniz; o papel é brilhante e de bela qualidade; e a edição, impressão e acabamentos também são muito bons. No final do volume 4, há cinco capas alternativas e um texto que procura fazer um ponto de situação da história de Grant Morrison até esse ponto. Já nos volumes 5 e 6, o conteúdo extra ainda se torna mais interessante, com 10 páginas dedicadas a explicar-nos, por texto, o trabalho de prospeção e execução das capas, dos visuais das personagens, do desenho do batmobile, incluindo vários esboços e estudos. Belas edições.

Em suma, os volumes 4, 5 e 6 reforçam aquilo que já me parecia evidente nos livros anteriores: Grant Morrison criou uma das interpretações mais complexas, ambiciosas e intelectualmente estimulantes de Batman alguma vez publicadas. Contudo, também permanece a sensação de que, por vezes, o autor se deixa seduzir em demasia pela complexidade da sua própria construção. Nem todas as subtramas justificam o espaço que ocupam e nem todos os mistérios possuem um desfecho à altura das expectativas criadas. Ainda assim, mesmo quando tropeça nos seus próprios excessos, Morrison continua a oferecer uma visão singular e fascinante de Batman que vale a pena conhecer.


NOTA FINAL (1/10):
8.2


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Fichas técnicas
Batman - Grant Morrison - Volume 4
Autores: Grant Morrison, Tony Daniel e Lee Garbett
Editora: Devir
Páginas: 176, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 18 x 27 cms
Lançamento: Outubro de 2025


Batman - Grant Morrison - Volume 5
Autores: Grant Morrison, Frank Quitely, Philip Tan e Cameron Stewart,
Editora: Devir
Editora: Devir
Páginas: 152, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 18 x 27 cms
Lançamento: Fevereiro de 2026


Batman - Grant Morrison - Volume 6
Autores: Grant Morrison, Cameron Stewart, Tony Daniel, Frank Quitely, Scott Kolins, Andy Kubert, David Finch, Andy Clarke e Chris Sprouse 
Editora: Devir
Páginas: 188, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 18 x 27 cms
Lançamento: Abril de 2026

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Análise: Joker

Joker, de Brian Azzarello e Lee Bermejo - Devir - DC Pocket


Joker, de Brian Azzarello e Lee Bermejo - Devir - DC Pocket
Joker, de Brian Azzarello e Lee Bermejo

Inserido no arranque da nova Coleção DC Pocket, da Devir, estava - além do fantástico Batman - Cavaleiro Branco, de Sean Murphy - este Joker, de Brian Azzarello e Lee Bermejo. Tal como o livro de Sean Murphy que refiro, também este já havia sido previamente publicado em Portugal pela editora Levoir... duas vezes.

Originalmente publicado em 2008, este Joker propõe-nos uma visão sombria e realista do mais famoso inimigo de Batman. A história decorre fora da continuidade principal do universo DC e acompanha o regresso do Joker às ruas de Gotham após uma misteriosa libertação do Asilo Arkham. Em vez de apresentar o vilão como uma figura quase caricatural, a obra procura retratá-lo como um criminoso brutal e imprevisível. E credível. E aqui, o verdadeiro protagonista é mesmo Joker. Batman aparece, sim, mas tem um papel menor nesta narrativa.

Quem nos conta a história é Jonny Frost, um pequeno criminoso que se torna motorista e acompanhante de Joker. E acho que isso é um grande trunfo utilizado pelo argumentista Brian Azzarello. É que, ao olhar para os acontecimentos pelos olhos de alguém fascinado pelo poder e pelo carisma do vilão, o leitor é conduzido para o interior do submundo de Gotham, sendo colocado próximo do caos que Joker representa. E isto tudo dá um sentido de tensão latente que se vai experienciando ao longo de todo o livro. 

À medida que a narrativa avança, Joker tenta recuperar a influência que perdeu durante o tempo em que esteve internado, com a história a transformar-se numa guerra pelo controlo da cidade, culminando numa reflexão amarga sobre a natureza destrutiva do próprio Joker e sobre aqueles que se deixam seduzir pela sua personalidade. 

Joker, de Brian Azzarello e Lee Bermejo - Devir - DC Pocket
Um dos aspetos menos conseguidos da obra, quanto a mim, sente-se na construção da narrativa em determinados momentos. É que, apesar de a história assentar numa premissa relativamente simples - o regresso de Joker ao topo da hierarquia criminosa de Gotham -, Azzarello introduz por vezes algumas dinâmicas entre as várias figuras do submundo que tornam o enredo desnecessariamente complexo. Certas alianças, conflitos e movimentações entre personagens secundárias acabam por não acrescentar grande coisa ao tema central, criando momentos em que a leitura perde alguma fluidez ou que aparente não saber para onde ir. Já tinha lido o livro há uns anos - e tinha gostado muito - mas agora que o voltei a ler, senti esta fraqueza da obra mais presente.

Não obstante, um dos grandes méritos deste Joker é a forma como Brian Azzarello desconstrói a "romantização" da personagem, respondendo diretamente à tendência de muitos fãs - eu incluído - para admirarem o Joker como um rebelde carismático. Aqui, Joker apresenta essa rebeldia, mas de um modo demasiado extremo, mostrando-se profundamente perturbado, cruel e incapaz de sentir empatia por quem quer que seja.

Azzarello também demonstra um excelente domínio do subgénero criminal. Gotham é apresentada menos como uma cidade de super-heróis e mais como um território controlado por gangues, corrupção e interesses criminosos. Lembra-me, com as devidas diferenças, a abordagem noir de Ed Brubkaer nos seus Criminal ou Reckless, que tanto admiro.

Recordo que este livro foi publicado pouco tempo depois da atuação brilhante do ator Heath Ledger, enquanto Joker, no filme Batman - O Cavaleiro das Trevas, de Christopher Nolan. Pode-se, por isso, sentir que houve uma certa tentativa de cavalgar essa onda e esse hype da personagem, mas também não deixa de ser verdade que se procura criar uma narrativa tensa e memorável, por si só.

Joker, de Brian Azzarello e Lee Bermejo - Devir - DC Pocket
Se a escrita é poderosa, a arte de Lee Bermejo eleva a obra para outro nível. O artista adota um estilo hiper-realista impressionante, cheio de detalhes e texturas. Cada rosto, cicatriz ou expressão transmite uma sensação de autenticidade que torna os acontecimentos ainda mais perturbadores. E a representação visual de Joker é particularmente memorável, com Bermejo a apresentá-lo como um homem marcado física e psicologicamente, com um sorriso que parece uma ferida permanente e retorcida. A figura apresenta-se-nos simultaneamente repulsiva e fascinante, captando na perfeição a essência contraditória da personagem. 

Em termos de cores, a paleta é dominada por tons escuros, acastanhados e esverdeados, criando uma atmosfera decadente e sufocante. Além disso, a própria cidade de Gotham surge-nos como uma cidade suja e doente, refletindo o estado moral das personagens que a habitam.

A edição da Devir é em capa mole, com badanas, e num formato reduzido. No miolo, o papel é de boa qualidade. O livro apresenta o preço incrível de 10€, pelo que me parece uma bela forma de chegar a outros públicos, assegurando uma qualidade física bastante aceitável. No final, há ainda 4 páginas com estudos preliminares e ilustrações não utilizadas por Bermejo.

Em suma, Joker é uma das mais marcantes interpretações modernas do vilão mais vil de sempre. Brian Azzarello constrói um thriller criminal intenso e perturbador, enquanto Lee Bermejo oferece algumas das ilustrações mais impressionantes alguma vez associadas a esta personagem. O resultado é uma obra adulta, violenta e provocadora, que não procura tornar Joker em alguém mais simpático, mas sim mostrar, sem filtros, porque é que este continua a ser um dos vilões mais assustadores da banda desenhada.


NOTA FINAL (1/10):
8.8

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Joker, de Brian Azzarello e Lee Bermejo - Devir - DC Pocket

Ficha técnica
Joker
Autores: Brian Azzarello e Lee Bermejo
Editora: Devir
Páginas: 132, a cores
Encadernação: Capa mole, com badanas
Formato: 14,8 x 21 cm
Lançamento: Maio de 2026


terça-feira, 30 de junho de 2026

Análise: Absolute Batman: O Zoo

Absolute Batman: O Zoo, de Scott Snyder, Nick Dragotta e Frank Martin - Devir - Dc Comics

Absolute Batman: O Zoo, de Scott Snyder, Nick Dragotta e Frank Martin - Devir - Dc Comics
Absolute Batman: O Zoo, de Scott Snyder, Nick Dragotta e Frank Martin

Uma das coisas que mais temos visto as grandes editoras de comics americanos a fazer, é a apostar em obras que desconstroem os universos já pré-estabelecidos dos vários super-heróis, subvertendo-os de modo a permitir-nos olhar para as personagens que já todos conhecemos através de um novo ângulo. Por exemplo, o recentemente editado Batman - Cavaleiro Branco, de Sean Murphy, que coloca Batman como o vilão e Joker como o herói, fá-lo brilhantemente.

Este Absolute Batman: O Zoo, inicia um novo arco, arquitetado por Scott Snyder, que nos apresenta, mais uma vez, uma Gotham City reimaginada, em que Batman existe, sim, e é igualmente um lutador contra o mal, mas de um modo muito diferente. Bruce Wayne não é o multimilionário que conhecemos, mas um jovem de classe média, que se tenta sustentar com os trabalhos que aparecem até tirar um curso de engenharia, e que tem uma relação próxima com a sua mãe. Mesmo sendo diferente, há coisas em comum com o Batman que todos conhecemos, nomeadamente o facto de, neste caso, Bruce também ter perdido o seu pai na sua infância, que acabou assassinado numa visita de estudo ao jardim zoológico da cidade.

Absolute Batman: O Zoo, de Scott Snyder, Nick Dragotta e Frank Martin - Devir - Dc Comics
Além disso, Bruce Wayne mantém próximos os seus amigos de infância que são, nada mais, nada menos, do que algumas das personagens que nos habituámos a ver como vilões. Falo de Selina (a Catwoman), Harvey (o Duas-Caras), Ozzie (o Pinguin), Edward (o Enigma) e Waylon (o Crocodilo). Gostei bastante desta dinâmica e até acho que poderia ter sido mais bem explorada. Se bem que fiquei com a ideia que, futuramente, poderemos encontrar novos episódios com estas personagens. Sim, convém dizer-vos que embora possamos considerar este volume como uma história auto-contida, a série Absolute Batman continua noutros volumes, havendo já três deles publicados no mercado norte-americano.

Falando da história, mais em concreto, Gotham é aqui apresentada como uma cidade brutal e quase selvagem, onde o mundo do crime funciona como um ecossistema de predadores. Um dos elementos chave são os Party Animals - desinspiradamente traduzidos, na versão portuguesa, para "Animais da Festa" - que são um gangue violento e caótico que usa máscaras de caveiras negras, semeia o caos e comete crimes como se fossem espetáculos performativos. Bruce está ainda no início da sua carreira como Batman e decide investigar estes crimes enquanto tenta travar a escalada de violência na cidade. Para isso, recorre aos seus amigos de infância, já mencionados por mim acima, para obter mais informações na sua investigação.

Absolute Batman: O Zoo, de Scott Snyder, Nick Dragotta e Frank Martin - Devir - Dc Comics
À medida que o enredo avança, percebemos que a crescente criminalidade na cidade aparenta estar a ser manipulada por forças mais poderosas que os próprios "Animais da Festa", que pretendem desestabilizar Gotham e quebrar Bruce emocionalmente. Isto acaba por colocar os seus antigos amigos em risco, empurrando-os gradualmente para trajetórias mais sombrias. Assim, este Zoo não é só uma história de origem do Batman, mas também o início da transformação do seu próprio “grupo”, sugerindo como aqueles aliados podem vir a tornar‑se algumas das figuras mais perigosas da sua galeria de vilões. E foi esta a parte que mais apreciei neste livro. Uma vez que Scott Snyder consegue trazer para cima da mesa algo que tem pano para mangas.

E depois, há, claro, muita ação e violência. Por vezes, até me pareceu que essa violência era um pouco gratuita, uma vez que se "gastam" demasiadas páginas com cenas de ação que poderiam ter sido mais bem aproveitadas com o desenvolvimento do enredo, parece-me.

Sem ser uma leitura que considerei espetacular, reconheço que me diverti bastante a ler este livro e que o mesmo me entreteu enquanto o lia. Há boas ideias e bons diálogos, mesmo que, por vezes, possa parecer que o Scott Snyder se limitou a pegar nos estereótipos da série e a subvertê-los apenas, sem um real e mais complexo estudo das personagens ou das suas possibilidades. Pelo menos, por agora. Porém, funciona bem. É giro. Mas não é, aos meus olhos, algo fantástico ou que iremos recordar daqui a 10 anos.

Absolute Batman: O Zoo, de Scott Snyder, Nick Dragotta e Frank Martin - Devir - Dc Comics
Quanto aos desenhos de Nick Dragotta, estes apresentam-se como um dos grandes pontos fortes da obra. O trabalho do autor é muito sólido e cheio de personalidade, com composições dinâmicas, poses altamente estilizadas e várias imagens marcantes que ajudam a dar identidade própria a esta versão da personagem. Há vários momentos em que o desenho ganha um impacto especialmente icónico, nomeadamente, quando Batman surge em posturas amplas, dominando a página, e reforçando a ideia da sua força incrível e presença marcante. De resto, a narrativa visual é fluida, com páginas bem construídas que conseguem equilibrar ação com atmosfera, contribuindo para esse tom mais cru e físico que a série pretende transmitir. A planificação também é muito diversificada, havendo vinhetas de todos os tamanhos.

Ainda assim, não gostei particularmente da maneira exagerada, carregada de esteroides, como o corpo de Batman é representado. Dragotta opta por uma representação extremamente musculada, fazendo Bruce parecer quase um “tanque humano”, mais próximo de figuras como o Coisa, do Quarteto Fantástico, ou o Hulk do que do Batman tradicional. Essa fisicalidade extrema reforça a brutalidade do personagem, mas ao mesmo tempo afasta‑o da elegância e agilidade que associo ao Cavaleiro das Trevas. Um contraponto interessante surge, todavia, no capítulo desenhado por Gabriel Hernández Walta (autor que desenhou Senciente, de Jeff Lemire). Sendo esta parte da história um flashback, a diferença, por ventura abrupta, entre o estilo de Walta e Dragotta, até funciona bem, permitindo que a história pare um pouco para respirar.

De resto, as cores de Frank Martin funcionam bastante bem, encaixando-se bem no espírito da história e dos desenhos. Nota ainda para as ilustrações entre capítulos, de página dupla, que são verdadeiramente espetaculares, deixando-nos de queixo caído.

Em termos de edição, o trabalho da Devir é bastante bem-feito. Estamos perante um livro em capa dura baça, com bom papel brilhante no miolo e um bom trabalho ao nível da encadernação, impressão e acabamentos. Como material adicional, o livro inclui ainda uma galeria de capas alternativas (todas elas verdadeiramente espetaculares), estudos de personagem e um posfácio de José Castello-Branco.

Em suma, Absolute Batman: O Zoo revela-se uma abordagem interessante e competente dentro desta tendência de reinvenção dos grandes mitos dos super‑heróis, trazendo ideias frescas - sobretudo na relação entre Bruce e o seu círculo de amigos - e um ambiente mais cru e físico que resulta em vários momentos impactantes. Não sendo uma obra extraordinária ou particularmente memorável a longo prazo, é um arranque sólido, com identidade própria, que justifica a curiosidade para acompanhar o desenvolvimento desta nova visão de Batman.


NOTA FINAL (1/10):
8.2



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Absolute Batman: O Zoo, de Scott Snyder, Nick Dragotta e Frank Martin - Devir - Dc Comics

Ficha técnica
Absolute Batman: O Zoo
Autores: Scott Snyder, Nick Dragotta e Frank Martin
Editora: Devir
Páginas: 190, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 18 x 27,5 cm
Lançamento: Maio de 2026

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Devir vai lançar novo Batman!



A Devir prepara-se para lançar, a partir do próximo dia 15 de junho, um novo livro de Batman!

Desta vez, estamos perante Absolute Batman: O Zoo, de Scott Snyder, Nick Dragotta e Frank Martin.

Trata-se de uma reimaginação da personagem de Batman, num conceito que nos apresenta o Cavaleiro das Trevas - e toda a sua envolvente - de uma forma diferente.

O livro já se encontra em pré-venda no site da editora.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.
Absolute Batman: O Zoo, de Scott Snyder, Nick Dragotta e Frank Martin

O Cavaleiro das Trevas Absoluto

Um gangue de assassinos mascarados aterroriza as ruas de Gotham.

Um vigilante luta pela cidade, mas não é o Batman que conhecemos. O Universo Absoluto nasceu da batalha apocalítica da Liga da Justiça contra Darkseid e deu origem a um novo leque de realidades que reimaginam os seus heróis favoritos como nunca antes os viu.

Em Absolute Batman, conheça um jovem Bruce Wayne sem a Mansão Wayne, sem Alfred ao seu lado e pronto a dar uma machadada ao crime enquanto Cavaleiro das Trevas.

Uma criação de Scott Snyder e do artista Nick Dragotta, que inclui o artista convidado Gabriel Hernández Walta, numa história de origem imperdível.

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Ficha técnica
Absolute Batman: O Zoo
Autores: Scott Snyder, Nick Dragotta e Frank Martin
Editora: Devir
Páginas: 190, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 18 x 27,5 cm
PVP: 20,00€

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Análise: Batman - Cavaleiro Branco

Batman - Cavaleiro Branco, de Sean Murphy - Devir

Batman - Cavaleiro Branco, de Sean Murphy - Devir
Batman - Cavaleiro Branco, de Sean Murphy

Quando li pela primeira vez este Batman - Cavaleiro Branco, de Sean Murphy, em 2019, por alturas em que a Levoir publicou o livro pela primeira vez em Portugal, fiquei verdadeiramente impressionado com o que tinha em mãos: quer a história, quer a ilustração me deixaram rendido. Aliás, num dos primeiros artigos do Vinheta 2020, quando dei conta das minhas leituras de 2019, fiz menção a este livro. 

Portanto, quando soube que a Devir - numa nova aposta editorial intitulada DC Pocket  que nos traz alguns clássicos da DC Comics em pequeno formato - iria editar este Batman - Cavaleiro Branco, fiquei feliz. Certamente esperaria - e espero - que os outros livros desta mesma série de Sean Murphy, nomeadamente The Curse of White Knight e Beyond The White Knight, fossem/sejam por cá editados. No entanto, fiquei satisfeito por este Batman - Cavaleiro Branco receber novo destaque e poder chegar a um novo público.

Isto porque considero que há o grupo de livros de banda desenhada que deixam a sua marca e depois há o grupo de livros, mais raros, que, para além de deixarem a sua marca, chegam mesmo a mudar algo. Ou a fazer-nos reconsiderar tudo aquilo que achávamos saber sobre personagens que julgávamos conhecer de cor e salteado. Batman - Cavaleiro Branco insere-se nesta última categoria, pois é uma obra que não se limita a contar uma história, mas que questiona, desmonta e reconstrói o mito do Cavaleiro das Trevas com uma ousadia rara e uma inspiração profundamente fascinante.

A premissa é, desde logo, irresistível, diga-se! Após mais um confronto explosivo com Batman, Joker é capturado e, numa reviravolta surpreendente, acaba sujeito a um tratamento médico, baseado nuns comprimidos especiais, que aparentemente o curam da sua insanidade. Surge então Jack Napier, uma pessoa lúcida, serena e muito carismática. Um homem novo, portanto. Jack Napier é alguém que não só renega o seu passado, como decide virar-se contra o próprio Batman, expondo as falhas do Cavaleiro das Trevas.

Batman - Cavaleiro Branco, de Sean Murphy - Devir
Basicamente, o vilão transforma-se no herói e o herói transforma-se no vilão. E o que se segue é um jogo político e mediático de proporções épicas. Jack Napier torna-se numa figura pública que consegue conquistar a confiança dos cidadãos e das instituições de Gotham. Com inteligência, bom planeamento e com um discurso afiado e populista, Jack Napier/Joker consegue colocar Batman no banco dos réus da opinião pública, obrigando-nos a questionar: quem é, afinal, o verdadeiro herói desta história? E quem é o vilão?

Sean Murphy constrói esta narrativa com uma mestria notável. Há aqui uma clara segurança do autor na forma como a história se desenrola, contagiando o leitor desde as primeiras páginas. Tudo parece possível dentro deste universo e, pelo menos para mim, mais importante ainda: tudo parece credível. Mesmo quando estamos perante uma inversão tão radical como a redenção do Joker, nunca sentimos que o autor nos está a dar algo forçado e pouco credível. Pelo contrário, sentimos que estamos a descobrir uma verdade incómoda que sempre esteve ali, latente. E isso é absolutamente incrível e quase nos faz perguntar: "porque é que nenhum autor se lembrou disto antes de Sean Murphy?"

Mais do que uma história de super-heróis, este é um livro profundamente político. Há aqui uma intensa reflexão sobre ser-se vigilante e os problemas que isso pode acarretar para a sociedade. É um tema que já vimos debatido em vários livros de super-heróis, de Watchmen ao português Macho-Alfa, mas neste Batman - Cavaleiro Branco, essa reflexão é-nos dada com um cariz político muito adulto e pertinente, juntando à equação os subtemas da violência policial, das desigualdades sociais em Gotham e da manipulação da opinião pública através de discursos populistas. Afinal de contas, será que quando Batman persegue um vilão pelos telhados, destruindo bens públicos e privados, e pondo em risco de vida os cidadãos, não está ele próprio a ser uma ameaça e um malfeitor?

Batman - Cavaleiro Branco, de Sean Murphy - Devir
Batman passa então a deixar de ser um símbolo incontestável de justiça para ser uma figura ambígua, um vigilante que atua fora da lei. Há algo de profundamente perturbador nesta visão e, ao mesmo tempo, algo de incrivelmente honesto. E no centro de tudo isto está o Joker - ou melhor, Jack Napier. Sempre considerei o Joker o vilão mais fascinante da galeria de Batman - e de todos os comics já agora - e aqui ele atinge um novo patamar. A sua versão de homem curado é simultaneamente sedutora e inquietante. Napier é um estratega nato, um manipulador brilhante, capaz de moldar a opinião pública com um discurso populista que ressoa perigosamente com o nosso mundo real. Ele não convence pela força, mas pela narrativa. E isso torna-o, de certo modo, ainda mais perigoso. Onde é que já vimos isto no tempo atual, caros leitores?

A forma como Napier mobiliza Gotham contra Batman é um dos pontos altos do livro. Há uma tensão constante, uma sensação de que estamos a assistir a uma inversão de papéis em tempo real. E mesmo sabendo quem é o Joker, há momentos em que quase queremos acreditar nele. Quase.

Outro elemento que também merece destaque é a presença de duas Harley Quinn. Uma que afirma que o seu grande amor sempre foi pelo homem por detrás de Joker, Jack Napier, e outra que não tem problemas em admitir que o seu verdadeiro amor é pelo palhaço do crime. Essa versão mais retorcida de Joker. Esta escolha permite explorar uma dimensão mais emocional da relação das duas mulheres com o vilão. 

Os diálogos são também um dos grandes trunfos de Cavaleiro Branco. São afiados, inteligentes e carregados de subtexto. Há frases que ficam connosco, que ecoam muito depois de fecharmos o livro. Vê-se que há um respeito enorme pela obra de Batman, como um todo, unindo certas pontas narrativas e explorando oportunidades latentes.

É verdade que, já lá mais para o final do livro, há certos acontecimentos na trama que poderão ser um pouco mais forçados e exagerados, perdendo-se algum do realismo inicial da história. Se bem que, convenhamos, isso também é algo bastante típico em histórias de super-heróis em que há uma tentativa de resolver todas as side plots, o que pode soar a algo mais forçado. Apesar disso, e mesmo no final do livro, Sean Murphy consegue "resolver" bem a história.

Batman - Cavaleiro Branco, de Sean Murphy - Devir
Em termos de desenho, o trabalho apresentado por Sean Murphy é um verdadeiro deleite para os olhos! Um autêntico festim. Confesso-vos que, sendo já eu um grande fã do estilo de desenho do autor, me senti totalmente encantado com estas personagens, com este ambiente soturno de Gotham, com as cenas de ação, com as belas mulheres e com os sempre relevantes veículos de Batman que, especialmente nesta história, assumem particular relevância. É um livro que não se cansa de nos deixar de boca aberta perante tão belas ilustrações.

E depois ainda há a cor, em que o trabalho de Matt Hollingsworth é absolutamente exemplar. As tonalidades, os contrastes, a forma como a luz e a sombra são utilizadas para reforçar o tom da narrativa... tudo isso contribui para criar uma atmosfera imersiva e coerente. Tudo extremamente bem feito.

Quanto à edição, o livro apresenta capa mole baça, com badanas, e bom papel baço no miolo. A impressão e a encadernação são boas. 

O que tem causado algum repúdio junto de alguns leitores portugueses é o formato de apenas 14,8 x 21 cm. É um formato bastante pequeno, sim, igual ao formato maior dos típicos mangás da mesma editora como Monster, Sunny e outros. Naturalmente, é um formato mais pequeno do que aquilo a que estamos habituados. E tendo na minha coleção a edição da Levoir e da Devir, admito que prefiro a edição da Levoir em capa dura e num formato maior. 

No entanto, é importante perceber que a proposta da Devir é outra: com um preço de apenas 10€ - algo que já soa absurdo nos dias de hoje para um livro a cores com mais de 200 páginas e lançado de forma independente, sem ser em parceria com um jornal - esta coleção procura chegar a um outro público: àquele público, eventualmente mais jovem, que preza preço e portabilidade e que, por ventura, até não está muito familiarizado com alguns dos clássicos da DC Comics. É para esses que esta obra se destina. O que, claro está, não invalida que todos os outros possam e devam comprar esta obra, caso não a tenham ainda. Como tal, e ao contrário de muita gente, parece-me uma coleção bem urdida e que até pode vir a ter bastante êxito comercial. A ver vamos. 

No final de contas, Batman: Cavaleiro Branco vai muito além de ser apenas mais uma história do Batman. É um dos meus Batman preferidos de sempre e, mesmo quando há uns anos o li pela primeira vez, senti logo que estava perante um clássico que pode ombrear com algumas das histórias do Cavaleiro das Trevas mais aclamadas de sempre. É uma obra que desafia convenções, que nos obriga a pensar e que nos faz apaixonar novamente por algumas personagens que julgávamos estar esgotadas. Verdadeiramente imprescindível.


NOTA FINAL (1/10):
9.8


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Batman - Cavaleiro Branco, de Sean Murphy - Devir

Ficha técnica
Batman - Cavaleiro Branco
Autor: Sean Murphy
Editora: Devir
Páginas: 232 páginas, a cores
Encadernação: Capa mole
Formato: 14,8 x 21 cm
Lançamento: Maio de 2026


quinta-feira, 30 de abril de 2026

Bomba! Devir lança coleção "DC Pocket"!



A Devir acaba de anunciar que já no próximo mês de Maio nos vai trazer a sua nova coleçºao de banda desenhada que se intitula DC Pocket e traz-nos alguns clássicos da DC em formato reduzido! E também, já agora, em preço reduzido, visto que cada um destes livros custará apenas 10,00€. 

A abrir esta coleção estão os títulos Joker, de Brian Azzarello e Lee Bermejo, e Batman - Cavaleiro Branco, de Sean Murphy, ambos já por cá publicados pela Levoir.

Acredito que esta coleção faz sentido, pois tem um caráter quase pedagógico de apresentar aos novos leitores alguns clássicos da DC e em preço reduzido. É claro que já estou a imaginar algum "choro" por serem obras já anteriormente publicadas em Portugal. No entanto, há que ter visão periférica e perceber a quem se destina a esta série, diria.

E, claro, se for possível a publicação futura de algum livro ainda não editado cá, melhor.

Mais abaixo, deixo-vos com a nota de imprensa da editora.


DC POCKET

A Devir lança em Portugal, em maio de 2026, os primeiros títulos da coleção de enorme sucesso internacional DC Pocket, uma linha editorial que reúne algumas das histórias mais emblemáticas da DC Comics num formato compacto, integralmente a cores, portátil e acessível, pensada para responder a novos hábitos de leitura.

JOKER de Brian Azzarello e Lee Bermejo, é um romance gráfico intenso e sombrio que apresenta o Joker numa abordagem crua e realista. Com uma narrativa direta e uma arte marcante, é um clássico contemporâneo da DC, pensado para leitores que procuram histórias mais adultas e psicológicas.
132 páginas • 10,00€


BATMAN: CAVALEIRO BRANCO de Sean Murphy é uma reinterpretação moderna e aclamada do universo Batman. Numa história completa e independente, os papéis invertem-se quando o Joker recupera a sanidade e questiona publicamente os métodos do herói, levantando um debate atual sobre justiça, responsabilidade e poder em Gotham.
232 páginas • 10,00€

sexta-feira, 10 de outubro de 2025

Análise: Batman - Grant Morrison - Volumes 2 e 3

Batman - Grant Morrison - Volumes 2 e 3, de Grant Morrison, Andy Kubert, J.H. Williams III e Tony Daniel - Devir

Batman - Grant Morrison - Volumes 2 e 3, de Grant Morrison, Andy Kubert, J.H. Williams III e Tony Daniel - Devir
Batman - Grant Morrison - Volumes 2 e 3
, de Grant Morrison, Andy Kubert, J.H. Williams III e Tony Daniel

Hoje falo-vos dos mais recentes volumes de Batman lançados pela Devir, editora que, convém relembrar, tem estado com um impressionante ritmo de lançamentos nas suas mais variadas séries. Algo que merece os meus aplausos, pois é forma de manter os leitores fiéis e satisfeitos.

Em termos de super-heróis da DC Comics, a Devir tem estado investida no lançamento de Batman de Grant Morrison, em que os leitores são convidados a mergulhar num dos períodos mais complexos e fascinantes da carreira do Cavaleiro das Trevas. 

Vamos por partes.

No Volume Dois, as histórias aí presentes levam Bruce Wayne a confrontar-se com um conjunto de desafios psicológicos e físicos que testam o seu limite e o conceito que tem de si próprio enquanto herói. Morrison introduz figuras que representam diferentes facetas do medo e da loucura, refletindo a ideia de que o próprio Batman é uma sombra multifacetada da cidade que protege. 

Morrison desenvolve também a ideia de que existem histórias esquecidas, memórias reprimidas e experiências quase míticas no passado de Batman, brincando com a noção de continuidade e com a própria história editorial da personagem, resgatando elementos dos anos 50 e 60 e recontextualizando-os dentro de um universo moderno e psicológico. Esta abordagem dá ao leitor a sensação de que tudo o que aconteceu com Batman, em qualquer época, pode ser real dentro da sua mente fragmentada.

Batman - Grant Morrison - Volumes 2 e 3, de Grant Morrison, Andy Kubert, J.H. Williams III e Tony Daniel - Devir
Morrison expõe o herói à solidão e ao desespero, mas sem nunca o afastar da sua determinação quase sobrenatural. O arco da Ressurreição de Ra’s Al Ghul envolve outras personagens do universo Batman, e mostra-nos um herói dividido entre o dever e a mortalidade, entre o legado e o sacrifício, preparando o terreno para a fase mais épica e simbólica do autor, ao conduzir o Cavaleiro das Trevas por um caminho espiritual e existencial, onde o confronto com o lendário vilão não é apenas físico, mas também uma luta entre a vida e a morte, entre o corpo e a alma. O retorno de Ra’s é, pois, tratado como um mito renascido e a relação entre mestre e inimigo atinge um pico de tensão. A ideia de herança e de continuidade - tão presente em toda a mitologia de Batman - ganha aqui um novo peso, mostrando que Morrison escreve a personagem de Batman mais como símbolo do que como simples homem. 

No entanto, é no Volume 3 que, a meu ver, o enredo pensado por Grant Morrison se começa a solidificar de forma mais coesa e envolvente. As histórias deste volume mergulham na mente de Bruce Wayne e revisitam o trauma da perda dos pais, mas agora de uma perspetiva quase metafísica. Morrison faz Batman confrontar o próprio criador do seu trauma e, ao fazê-lo, liberta o herói - e, lá está, o leitor - de uma narrativa repetida ao longo de décadas. A história torna-se, pois, mais intensa e surreal, com o autor a explorar as fronteiras entre sanidade e insanidade, realidade e ilusão. O mistério, as personagens secundárias bem desenvolvidas e o vilão carismático tornam este arco particularmente memorável.

Faço ainda um destaque para as histórias reunidas sob o arco Batman R.I.P., em que o autor atinge o clímax da sua visão, com a desintegração mental de Bruce Wayne a ser retratada de modo quase poético. Morrison cria um ambiente de paranoia e desconstrução, em que cada símbolo e cada frase escondem camadas de sentido. O vilão Doutor Hurt surge como uma das criações mais intrigantes do autor, representando não apenas um inimigo físico, mas a própria corrupção espiritual que ameaça consumir o herói. Gostei bastante.

À medida que estes volumes avançam, o universo criado pelo argumentista parece ganhar mais credibilidade e força. E o que, à partida, poderia parecer uma coleção de histórias independentes revela-se, na verdade, uma teia cuidadosamente entrelaçada. Cada arco dialoga com o anterior e prepara o seguinte, formando um verdadeiro épico sobre a identidade e a mitologia de Batman

Batman - Grant Morrison - Volumes 2 e 3, de Grant Morrison, Andy Kubert, J.H. Williams III e Tony Daniel - Devir
É verdade que nem sempre as histórias imaginadas por Morrison são lineares. A sua escrita densa, repleta de simbolismo e referências à história editorial de Batman, pode confundir o leitor menos familiarizado com a personagem. Por vezes, especialmente nas histórias desenhadas por J.H. Williams III contidas no segundo volume, a experimentação narrativa e visual torna-se, quanto a mim, excessiva, e certas sequências parecem mais preocupadas em desafiar o leitor do que em contar uma história clara. Ainda assim, essa ousadia faz parte da identidade do autor e do projeto maior que ele constrói.

E há que reconhecer que Morrison mostra que compreende Batman como poucos: não apenas o vigilante, mas o homem que sobrevive à própria morte, que transcende a loucura e o trauma para se tornar um símbolo de resiliência. 

Em termos visuais, o destaque vai claramente para o trabalho de Andy Kubert, cujo traço dinâmico, detalhado e expressivo confere às histórias uma energia cinematográfica, que adoro. Kubert domina tanto a ação frenética como os momentos de introspeção, tornando cada página visualmente impactante. No entanto, também merecem menção ilustradores como Tony Daniel e J.H. Williams III que contribuem com estilos distintos, acrescentando diversidade visual ao universo de Morrison.

A edição da Devir mantém-se muito apelativa e bonita. Cada livro apresenta capa dura baça, com belos detalhes a verniz. No miolo, o papel utilizado é brilhante e de boa qualidade, sendo que a encadernação e impressão também são excelentes. O terceiro volume inclui ainda quatro capas alternativas.

Em síntese, Batman - Grant Morrison - Volumes 2 e 3 parecem caminhar no sentido de tornar a visão que Grant Morrison tem para Batman mais clara e coesa, revelando um autor que domina o caos para transformá-lo em narrativa e mito. Ainda assim, é inegável que, por vezes, essa complexidade pode ser um pouco densa e desafiante para alguns fãs mais “soft” de Batman. Mesmo assim, trata-se de uma excelente aposta da Devir, que continua a trazer ao público português algumas das histórias mais ambiciosas e intelectualmente estimulantes já escritas sobre o herói de Gotham.


NOTA FINAL (1/10):
8.4



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020

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Batman - Grant Morrison - Volumes 2 e 3, de Grant Morrison, Andy Kubert, J.H. Williams III e Tony Daniel - Devir

Fichas técnicas
Batman - Grant Morrison - Volume 2
Autores: Grant Morrison, Andy Kubert, J.H. Williams III
Editora: Devir
Páginas: 176, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 18 x 27 cms
Lançamento: Julho de 2025

Batman - Grant Morrison - Volumes 2 e 3, de Grant Morrison, Andy Kubert, J.H. Williams III e Tony Daniel - Devir

Batman - Grant Morrison - Volume 3
Autores: Grant Morrison, Tony Daniel
Editora: Devir
Páginas: 182, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 18 x 27 cms
Lançamento: Setembro de 2025

segunda-feira, 11 de agosto de 2025

TOP 10 - A Melhor BD lançada pela Devir nos últimos 5 anos!


Depois de umas curtas férias, estou de volta para vos trazer mais um TOP 10 dedicado à melhor banda desenhada editada em Portugal nos últimos 5 anos que, como sabem, é o período de existência do Vinheta 2020.

E hoje o enfoque vai todo para a editora Devir!

Trata-se da editora portuguesa com o maior catálogo em obras mangá, mas nos últimos anos tem apostado também no alargamento da sua oferta editorial, com o lançamento de obras americanas e europeias e num conjunto de outras novas obras que, mesmo tendo como origem o Japão, se direcionam a um público mais maduro.

Por estes motivos, considero que a Devir se apresenta em grande forma no tempo mais recente.

Convém relembrar que este conceito de "melhor" é meramente pessoal e diz respeito aos livros que, quanto a mim, obviamente, são mais especiais ou me marcaram mais. Ou, naquela metáfora que já referi várias vezes, "se a minha estante de BD estivesse em chamas e eu só pudesse salvar 10 obras, seriam estas as que eu salvava".

Faço aqui uma pequena nota sobre o procedimento: considerei séries como um todo e obras one-shot. Tudo junto. Pode ser um bocado injusto para as obras autocontidas, reconheço, e até ponderei fazer um TOP exclusivamente para séries e outro para livros one-shot, mas depois achei que isso seria escolher demasiadas obras. Deixaria de ser um TOP 10 para ser um TOP 20. Até me facilitaria o processo, honestamente, mas acabaria por retirar destaque a este meu trabalho que procura ser de curadoria. Acabou por ser um exercício mais difícil, pois tive que deixar de fora obras que também adoro, mas acho que quem beneficia são os meus leitores que, deste modo, ficam com a BD que considero ser a "crème de la crème" de cada editora.

Assim sendo, deixo-vos, então, com o meu TOP 10 da melhor banda desenhada editada pela Devir nos últimos 5 anos: