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quinta-feira, 18 de julho de 2024

Análise: Presas Fáceis - Abutres

Presas Fáceis - Abutres, de Miguelanxo Prado - Ala dos Livros


Presas Fáceis - Abutres, de Miguelanxo Prado - Ala dos Livros
Presas Fáceis - Abutres, de Miguelanxo Prado

A Ala dos Livros lançou, há pouco mais de um mês, o novo livro de Miguelanxo Prado, intitulado Presas Fáceis - Abutres, que é o segundo volume da série Presas Fáceis, protagonizada pelos agentes Tabares e Sotillo, depois de um primeiro volume já por cá editado pela editora Levoir, numa das suas coleções de Novelas Gráficas lançadas em parceria com o jornal Público.

Se o primeiro volume de Presas Fáceis dava conta de como os idosos podem ser "carne para canhão", num mundo ávido por fraudes económicas que procura retirar de cada indivíduo os poucos euros que restam das suas reformas e poupanças, este segundo volume de Presas Fáceis, Abutres, foca-se no tema das crianças e de como as mesmas são vulneráveis a um mundo onde os predadores - os abutres - estão ao virar da esquina. Importante a reter é que, embora estejamos a falar de uma série, protagonizada pela mesma dupla de agentes, cada livro tem uma história independente e autocontida.

Presas Fáceis - Abutres, de Miguelanxo Prado - Ala dos Livros
Conhecido pela sua habilidade em criar histórias gráficas que combinam profundidade narrativa com arte expressiva, Prado apresenta-nos uma nova obra que clama pelo perigo das novas tecnologias aliadas à pedofilia.

Assim, e à boa maneira dos livros e filmes policiais, a história deste Presas Fáceis - Abutres arranca praticamente com a morte de uma adolescente, de nome Irina, mal nos dando tempo, em páginas, para que descubramos bem esta personagem. Descobri-la-emos melhor depois, mas ao longo da investigação que a sua morte suscita. 

Estranhamente, Irina aparece morta na sua cama. E, ainda por cima, o quarto até estava trancado por dentro. Primeiramente, as autoridades concluem que se tratou de um suicídio, encerrando desta forma o caso. Porém, a Inspetora Olga Tabares e o seu parceiro adjunto Sotillo começam a remexer no caso, pois há algo que aparenta não fazer sentido. Pelo menos, aos seus olhos, já que o chefe de Tabares considera que esta está apenas a perder tempo desnecessário com um caso de simples resolução.

Presas Fáceis - Abutres, de Miguelanxo Prado - Ala dos Livros
A investigação leva Tabares e Sotillo ao contacto com um tablet que pertencia a Irina e que continha fotos suas íntimas, em que aparece toda nua, bem como uma ligação a um fotógrafo especializado em fotografia erótica. Entretanto, o caso vai-se ramificando cada vez mais, levando a chocantes descobertas que chegam até a causar um certo mal estar no leitor. A pornografia infantil, a sua proliferação pela internet e o consumo involuntário de drogas são temas que surgem nesta história que se vai tornando mais e mais alarmante. Não que isso aconteça devido a elementos gráficos da obra, mas sim por causa do tema pesado e sombrio que é a pedofilia e a ideia de que há muitos agentes ativos - porque até a passividade pode ser uma forma de ação - que nela circulam.

À medida que vamos avançando na leitura, vamos ficando mais "enjoados" com o assunto. E não que Prado instrumentalize o tema de forma a chocar gratuitamente o leitor. Não, nada disso. Torna-se por demais evidente que o autor procura trazer à luz um tema por vezes tabu, para o qual a sociedade gosta de fazer vista grossa, mas que é de extrema relevância e que importa adereçar. Até porque, não esqueçamos, Prado revela-nos, no texto incluído no livro, que a obra não se baseia numa história real, de forma direta e linear, mas reúne, ainda assim, partes de várias histórias reais. O que, repito, se torna arrepiante e deprimente. Não me cabe a mim, num texto de opinião a um livro de banda desenhada, tecer mais comentários ou dissertações sobre a pedofilia ou as motivações dos pedófilos, mas não posso deixar de dizer que ainda é das coisas que, pessoalmente, mais me incomoda, tendo em conta não só a perversidade de tais crimes, como, mais grave ainda, os danos físico-emocionais que persistem nas vítimas - que, relembro, não passam de meras crianças - de tais aberrantes ações.

Presas Fáceis - Abutres, de Miguelanxo Prado - Ala dos Livros
E mesmo quando fica claro para o leitor quem foi responsável pela morte de Irina, falta ainda aos agentes Tabares e Sotillo provar essa suspeita. Uma coisa é tornar-se óbvio que foi alguém que cometeu um crime, outra coisa é conseguir provar verdadeiramente isso. Aqui, a obra assume um tom real, embora um tanto mais burocrático e processual. Mesmo assim, esta abordagem também permite uma segunda leitura aos intentos do autor, pois revela depois a complexidade do sistema jurídico e  profundidade da corrupção, aos mais variados níveis, que assola as sociedades ditas modernas e ocidentais.

Como se trata de uma história de investigação, com alguns plot twists, não quero correr o risco de cometer algum spoiler e, portanto, fico-me por aqui em relação à história.

Sobre a mesma, posso dizer ainda, e por último, que está muito bem congeminada por parte de Miguelanxo Prado. Esta veia policial do autor não é um daqueles talentos superficiais, pois fica bem claro que o autor soube dividir bem o enredo em várias camadas, de forma a gerir bem o interesse do leitor e algumas revelações da história. Tal como se faz nos bons policiais, diga-se. Com efeito, até diria que este livro daria um filme muito coeso e interessante. E a trama e as personagens estão tão bem arquitetadas que temos neste livro um filme pronto a ser filmado. Falta apenas arranjar os atores e depois só será necessário seguir o livro, tal como se fosse um storyboard.

Presas Fáceis - Abutres, de Miguelanxo Prado - Ala dos Livros
Sem o revelar, posso apenas dizer que achei o final um pouco anticlimático. É claro que isso aproxima a história de verosimilhança, mas afasta-a, quanto a mim, de ser mais impactante ou inolvidável. 

O desenho de Prado continua aquilo a que o autor já nos habituou: absolutamente fabuloso! Com o seu traço carregado de "signature style", o autor oferece-nos belíssimos desenhos onde o desfile da beleza do seu traço é uma constante. As expressões faciais, os olhares que tanto contam, a linguagem corporal das personagens, com posturas que parecem captadas diretamente a partir de fotografias, tal não é a sua natureza real, tudo é feito de forma exímia. As cores também assumem uma bela importância, pois permitem criar uma textura cromática que faz com que os desenhos fiquem ainda mais impactantes, superando o preto e branco do anterior Presas Fáceis que, embora já bom, não conseguia ser tão belo quanto este Abutres.

A edição da Ala dos Livros também é extremamente boa. A capa dura baça (e adornada com verniz localizado) e a lombada em tecido fazem deste livro um objeto verdadeiramente requintado, digno e apetecível. No miolo, o papel é brilhante, de boa qualidade, e o trabalho de impressão e encadernação é imaculado. No final da obra há ainda, conforme já referido, uma nota final do autor e uma página com esboços das personagens.

Concluindo, desde há muito que Prado é um dos meus autores preferidos de banda desenhada e este Presas Fáceis - Abutres, mesmo não sendo o seu trabalho que mais me fascinou, é, ainda assim, uma obra de tom demarcadamente policial bastante bem esculpida e arquitetada e, ao mesmo tempo, portadora de desenhos sublimes, como, aliás, é apanágio do autor espanhol.


NOTA FINAL (1/10):
9.0



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Presas Fáceis - Abutres, de Miguelanxo Prado - Ala dos Livros

Ficha técnica
Presas Fáceis 2 - Abutres
Autor: Miguelanxo Prado
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 88, a cores
Encadernação: Capa dura, com lombada em tecido
Formato: 235 x 310 mm
Lançamento: Maio de 2024

quarta-feira, 29 de maio de 2024

Ala dos Livros lança nova BD de Miguelanxo Prado!



A Ala dos Livros acaba de lançar o novo livro de Miguelanxo Prado que dá pelo nome de Presas Fáceis - Abutres

Este livro volta a trazer-nos as personagens que conhecemos no primeiro livro de Presas Fáceis, que foi lançado em Portugal pela editora Levoir.

Presas Fáceis - Abutres foi originalmente lançado no início de 2024 e tem agora a sua versão portuguesa. 

Aproveito para informar que o autor estará em Portugal, na Feira do Livro de Lisboa e no Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja, para apresentar este livro nos próximos dias 8 e 9 de Junho.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.

Presas Fáceis 2 - Abutres, de Miguelanxo Prado

Desta vez, os inspectores Tabares e Sotillo vão assumir a investigação da morte da jovem Irina, filha adoptiva de um casal espanhol. O que parece um simples caso de suicídio pode afinal revelar-se muito mais complexo, com ramificações que vão abalar a estrutura da própria sociedade.

A investigação vai levá-los a conhecerem a dura realidade do submundo da pornografia infantil cujo alcance pode ir muito para além do esperado.

Este é um livro que nos leva a pensar sobre os perigos escondidos nas novas tecnologias e como estes podem ter efeitos imprevisíveis.

Com a reconhecida excelência de argumento e desenho de Miguelanxo Prado, e pouco tempo depois do seu lançamento original, a Ala dos Livros edita “Presas Fáceis – Abutres”, o regresso do autor à sua série policial. Agora a cores, a fantástica arte de Miguelanxo Prado transporta-nos para o ambiente da narrativa, lado a lado com os investigadores.

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Ficha técnica
Presas Fáceis 2 - Abutres
Autor: Miguelanxo Prado
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 88, a cores
Encadernação: Capa dura, com lombada em tecido
Formato: 235 x 310 mm
PVP: 28,00€

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

Análise: Ardalén

Ardalén, de Miguelanxo Prado - ASA - Leya

Ardalén, de Miguelanxo Prado - ASA - Leya
Ardalén, de Miguelanxo Prado

Fazendo já mais de 10 anos desde que esta obra da autoria de Miguelanxo Prado foi originalmente publicada, voltei a pegar nela para uma nova leitura atenta, passados vários anos desde que a li pela última vez. Lançada em Portugal pela editora ASA no ano de 2013, esta é uma obra de enorme fulgor. Possivelmente uma das melhores obras do autor – ou, por ventura, a melhor!

Sendo Miguelanxo Prado um autor bastante multifacetado, as suas histórias têm apresentado vários estilos diferentes. E neste Ardalén, tal como já tinha acontecido no igualmente brilhante Traço de Giz, o autor volta a uma história mais íntima e pessoal, que nos convida a uma profunda reflexão sobre aquilo que nos faz humanos e sobre a forma como a memória representa para todos nós o limite do nosso próprio ser.

Ardalén, de Miguelanxo Prado - ASA - Leya
Esta é, aliás, uma história que assenta no tema da memória, pois é ela que nos diz quem somos, o que vivemos e o que sentimos. Além de que a memória não é algo que seja objetivo. Pelo contrário, a própria vai sendo alterada ao longo do tempo, reconstruindo a nossa própria noção do mundo e daquilo que vivemos. Ou que achamos ter vivido. Afinal de contas, quantas vezes não verificámos, em conversas com outras pessoas, que nos lembramos de formas diferentes dos mesmos acontecimentos que experienciámos em conjunto com alguém?

Em Ardalén, acompanhamos a procura da personagem de Sabela que, chegada a uma pequena localidade na Galícia, procura reconstruir parte da história do seu avô – e, por conseguinte, da sua própria história - que, de algum modo, parece destinada a um vazio. E é através de Fidel, um antigo companheiro do seu avô, e das ténues (?) memórias que o mesmo guarda, que Sabela procurará acrescentar peças perdidas ao puzzle da sua vida.

Mas a memória de Fidel já é fraca e os seus relatos parecem, por vezes, desconexos e inverosímeis. E, às tantas, surge, quer em Sabela, quer no leitor, a dúvida se Fidel ainda estará dono das suas plenas capacidades. Mas, como já disse acima, serão as memórias factos frios e imutáveis ou um conjunto de vivências e perceções que temos de algo que experienciámos em tempos? E não será a própria experiência humana algo subjetivo e que muda de pessoa para pessoa? Onde está a verdade nas nossas memórias?

Ardalén, de Miguelanxo Prado - ASA - Leya
A trama é permeada por elementos de fantasia e realismo mágico, criando uma atmosfera única e cativante. As personagens são habilmente desenvolvidas, cada uma contribuindo para a complexidade da trama e para a atmosfera enigmática da narrativa.

E o que é espantoso é a quantidade de camadas de interpretação que Miguelanxo Prado consegue colocar no enredo. A primeira linha de história – a procura pela história do avô por parte da protagonista – até pode ser uma premissa simples, mas, à medida que vamos avançando na leitura, percebemos o alcance longo e pleno de maturidade da obra que, delicadamente, Prado constrói. Em certa medida, a história de Ardalén lembra-me a do filme Big Fish, de Tim Burton, um dos meus filmes preferidos de sempre!

E essa densidade da história também é facilmente visível nos inúmeros artigos científicos, em prosa, que aparecem entre capítulos e que permitem que olhemos com maior perspetiva e preparação para a forma como a história vai sendo desenvolvida.

Ardalén, de Miguelanxo Prado - ASA - Leya
A história também tem vários elementos de fantasia que nos são dados. E se, por vezes, sou algo crítico em certas obras com histórias mais “fantasiosas”, em Ardalén a fantasia é mais do que bem-vinda, se tivermos em conta o tema central da memória humana. E é essa fantasia que resulta em lindíssimas pinceladas de poesia que tornam o relato ainda melhor. Estou a lembrar-me especialmente da ligação que Fidel tem com o mar e com as suas criaturas. Essas imagens são belas, poéticas e inspiradas (e inspiradoras!), mas não representam uma rutura abrupta com o que nos é dado porque estamos, exatamente, no campo das memórias e nas partidas que a mesma nos pega. Maravilhoso!

Quanto ao desenho, também temos Miguelanxo Prado especialmente inspirado. As suas ilustrações neste Ardalén são verdadeiras obras de arte, capturando a beleza da paisagem galega e transmitindo emoções e atmosferas de forma visualmente impactante.

O seu “signature style” é, pois, prontamente reconhecível e, portanto, para todos os que, como eu, apreciam o estilo de desenho do autor, é esperado que fiquem muito satisfeitos com este seu trabalho. O traço é detalhado e semi-realista, havendo espaço para belíssimas expressões faciais das personagens, por vezes um pouco mais caricaturais, que sublinham o cunho humano de toda a história.

Ardalén, de Miguelanxo Prado - ASA - Leya
Se os desenhos são belos, o que dizer das cores? São belíssimas e causam verdadeiro impacto visual. É sempre curioso verificar que as técnicas utilizadas pelo autor para colorir as suas ilustrações são vastas e originais, face àquilo que é mais habitual de ver noutros grandes artistas da banda desenhada europeia. Prado utiliza lápis de cor, lápis de cera e giz para dar uma tónica muito especial, em tons pastel, à parte visual da sua obra.

Em termos de edição, devo dizer que esta é das melhores edições (de sempre!) feitas pela ASA. Há um cuidado muito especial na edição deste livro que apresenta capa dura baça, com papel brilhante e excelente encadernação e impressão. Já para não falar que até tem uma belae requintada fita marcadora de páginas e que, no cômputo do design gráfico, está muito belo. Por isso, também na edição este é um livro muito especial. E já que falo na bela edição que este livro é, tendo em conta que é uma obra lançada há mais de 10 e que é cada vez mais difícil de encontrar à venda, parece-me que não seria mal pensado se a ASA voltasse a reeditá-la, de forma a que a obra pudesse estar disponível para todos os que ainda não a conhecem. Bem, se calhar nem seria necessária uma reedição… tendo em conta a qualidade desta primeira edição, penso que uma reimpressão já seria o suficiente. Há obras especiais que merecem estar sempre disponíveis em loja. E esta é uma delas.

Em resumo, Ardalén é uma obra-prima que combina narrativa envolvente, elementos de fantasia e ilustrações deslumbrantes para criar uma experiência de leitura única e memorável. É uma história que fascina e cativa o leitor, ao mesmo tempo que tem o condão de o transportar para um mundo de mistério e magia. Para mim, é mesmo o melhor livro que já li de Miguelanxo Prado! Sou fã de todo o seu trabalho, mas Ardalén ousa mais em termos de história e a sua mensagem e profundidade conseguem tornar a obra em algo que não mais esquecemos. Lindo e obrigatório!


NOTA FINAL (1/10):
10.0



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Ardalén, de Miguelanxo Prado - ASA - Leya

Ficha técnica
Ardalén
Autor: Miguelanxo Prado
Editora: ASA
Páginas: 256, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 195 x 265 mm
Lançamento: Dezembro de 2013

quinta-feira, 2 de junho de 2022

Análise: Amani

Amani, de Miguelanxo Prado - Ala dos Livros

Amani, de Miguelanxo Prado - Ala dos Livros
Amani, de Miguelanxo Prado

Ontem foi o Dia Mundial da Criança e dediquei-me a ler alguns livros com as minhas filhas. Não foram livros de banda desenhada, mas sim, livros ilustrados. E aproveito para vos falar em algumas dessas experiências durante os próximos dias.

E começo com este Amani, de Miguelanxo Prado. Não será, portanto, uma análise a um livro de banda desenhada, mas sim uma análise a um livro ilustrado. E, acreditem, a experiência não anda, pelo menos em algumas vezes, muito diferente da banda desenhada. Continuamos a ter nos desenhos uma componente obrigatória para a definição imagética da história que nos é dada. Muito embora, claro está, não se percecione neste tipo de livros uma sequência entre imagens. Ou seja, nos livros ilustrados normalmente temos apenas um desenho a acompanhar uma parte de um texto. Em banda desenhada, isso também pode existir, mas acontece de um modo diferente pois é natural que uma vinheta tenha continuidade na vinheta posterior.

Amani, de Miguelanxo Prado - Ala dos Livros
E este primeiro livro, da autoria do consagrado autor de banda desenhada Miguelanxo Prado, bem que podia ser um livro de banda desenhada. Amani foi originalmente lançado em 2019 e é o livro que inaugura a Ala-Infantil, uma sub-chancela da editora portuguesa Ala dos Livros, que procura disponibilizar no mercado livros direcionados para os mais novos. E não sendo um livro de banda desenhada, é um livro de um autor indispensável da bd internacional.

Aqui, Prado conta-nos a história do hipopótamo Amani que destoa dos demais hipopótamos que o rodeiam. Estes são naturalmente agressivos e rudes, sendo até considerados como os animais mais perigosos de África. Mas Amani é totalmente o oposto disso. É tranquilo, simpático e prefere ter amigos em vez de rivais. Foge, assim, de todos os potenciais conflitos que possam existir. Expetavelmente, os outros hipopótamos da sua manada não parecem compreender esta atitude que consideram demasiado equivocada e “contranatura”. Mas isso não impede Amani de ser igual a si mesmo e de viver a vida da forma com que se sente mais confortável e feliz. 

Amani, de Miguelanxo Prado - Ala dos Livros
A história é simples, mas traz consigo uma bela e importante mensagem: devemos procurar em nós mesmos o caminho para a nossa felicidade, aceitando-nos da forma que realmente somos. Não devemos tentar seguir os que nos rodeiam só porque sim. Devemos, isso sim, aceitarmo-nos a nós mesmos. E, com o passar do tempo, a aceitação dos outros também acaba por chegar. Ora, que bela moral para dar às crianças.

Falando das ilustrações, propriamente ditas, devo dizer que Miguelanxo Prado não desilude em nada. Os desenhos são verdadeiramente adoráveis e têm o condão duplo de, por um lado, estabelecer uma forte empatia com os mais novos que lêem o livro e, por outro lado, funcionar como uma viagem até ao tempo da infância por parte dos mais velhos que lerem este livro. Portanto, é para miúdos, mas também pode – e deve – ser para adultos.

Outra coisa que merece destaque nos belíssimos desenhos são as belas cores aplicadas através de aguarelas nos mesmos, que dão uma certa sensação de bonança ao leitor. Se a história até se lê depressa, as ilustrações parecem convidar-nos a observá-las com atenção e cuidado. Um deleite visual.

Por vezes há livros infantis ilustrados que são muito “fraquinhos” quer na mensagem que passam, quer nos desenhos que envergam. Mas não é o caso deste Amani, de Miguelanxo Prado. A história é bonita e as ilustrações são lindíssimas. Uma excelente proposta para miúdos e graúdos que a Ala dos Livros teve a boa ideia de lançar.


NOTA FINAL (1/10):
7.0



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Amani, de Miguelanxo Prado - Ala dos Livros

Ficha técnica
Amani
Autor: Miguelanxo Prado
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 40, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Fevereiro de 2022

quarta-feira, 6 de abril de 2022

A Ala dos Livros inicia a sua aposta nos livros para os mais novos!



Tal como já havia sido prometido pelo editor Ricardo M. Pereira, na entrevista dada ao Vinheta 2020, logo no início do ano, a editora portuguesa Ala dos Livros inaugura a Ala-Infantil, com um livro ilustrado para os mais novos, por Miguelanxo Prado, que aparenta ser uma delícia!

O livro foi originalmente lançado em 2019 e a versão portuguesa já se encontra disponível nas livrarias.

Não sendo um livro de banda desenhada, é um livro de um autor indispensável da banda desenhada internacional e, portanto, merece destaque aqui no Vinheta 2020.

Já dá para ver que as ilustrações são lindas!

Abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.

Amani, de Miguelanxo Prado

Os hipopótamos são considerados os animais mais perigosos de África. Apesar disso, o Amani é um hipopótamo tranquilo e simpático, que prefere ter amigos a ter rivais, procurando nas margens do rio a melhor forma de ser feliz sem incomodar os outros.

Embora a manada de que faz parte não perceba esta sua atitude, e contrariando as expectativas da família, Amani prefere ser fiel a si mesmo e viver a vida como deseja.

Amani é um livro que nos fala sobre a importância de nos aceitarmos a nós próprios e é o primeiro título da Ala Infantil, a chancela da Ala dos Livros dedicada aos mais novos.
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Ficha técnica
Amani
Autor: Miguelanxo Prado
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 40, a cores
Encadernação: Capa dura
PVP: 18,00€

terça-feira, 25 de maio de 2021

Análise: O Pacto da Letargia

O Pacto da Letargia, de Miguelanxo Prado - Ala dos Livros

O Pacto da Letargia, de Miguelanxo Prado - Ala dos Livros
O Pacto da Letargia, de Miguelanxo Prado

O ano de 2020 abriu com uma forte aposta editorial da Ala dos Livros. O Pacto da Letargia marcou o regresso do autor galego multipremiado Miguelanxo Prado ao lançamento de livros, depois de um interregno de quatro anos. A sua última obra havia sido Presas Fáceis, que a Levoir editou em Portugal numa das suas coleções de Novelas Gráficas. Com O Pacto da Letargia, a Ala dos Livros assegurou um lançamento conjunto com a editora francesa Casterman. O que é algo que merece sempre as minhas vénias.

Posso dizer que já andava para ler este livro há muito tempo mas que só agora tive oportunidade para o fazer. Mas por aquilo que me foi dado a ver – ou pelas conversas que tive com alguns leitores de BD – esta é uma obra que ainda não foi lida por muitos, tendo passado ao lado de muita gente, mesmo sendo verdade que Prado é um autor muito querido e aclamado em Portugal. É que, relembremos, com apenas 2 meses de presença no mercado, com a vinda da Pandemia de Covid-19 para Portugal a meio de Março de 2020 e consequente confinamento e fecho das lojas, O Pacto da Letargia – e outras obras de bd lançadas na mesma altura – poderão ter sofrido com esta situação, em termos de vendas.

O Pacto da Letargia foi anunciado enquanto primeira parte de uma trilogia – a Trilogia do Tríscelo. Neste primeiro tomo, a história navega à volta do tal tríscelo, um objeto milenar e envolto num grande mistério mitológico que, aparentemente, pode acordar dois tipos de seres, os Demónios (ou Xámans) e os Anjos (ou os Puros), que se encontravam num longo sono hibernante há muitos, muitos anos. Porém, algo ou alguém se apoderou desse tríscelo e agora, estes seres dividem-se na maneira como devem atuar sobre a humanidade que, comportamento errático após comportamento errático, parece caminhar para a destruição do planeta. Isto se não se auto-destruir primeiro.

O Pacto da Letargia, de Miguelanxo Prado - Ala dos Livros
Acompanhamos então um jovem assistente universitário que encontra as notas de um antigo professor reformado, que pareciam indicar a presença desta tal ordem de anjos e demónios. Estamos perante um universo de cariz mágico e esotérico, que se inspira na cultura celta e seus símbolos e crenças. Algo pouco habitual nas obras de Prado. O seu trabalho é, aliás, muito mais caracterizado por uma sátira mordaz e irónica do mundo e das suas gentes. Mas aqui, em O Pacto da Letargia, o autor assume uma postura bastante mais séria, com um argumento muito mais complexo do que o atual. Claro que continuam as críticas à sociedade – com especial ênfase na sua avidez pelo enriquecimento pessoal em detrimento de tudo e todos (incluindo da preservação do planeta) – mas a componente humorística está quase totalmente retirada da obra. Embora, já em Presas Fáceis, o humor também não tinha aparecido.

Mas se esta pequena sinopse pode querer dizer que em O Pacto da Letargia estamos perante uma história com elementos de fantasia – e, de facto, estamos mesmo – dizer apenas isso será bastante redutor, já que é uma obra em que a narrativa assenta numa clássica investigação, num ambiente conspirativo, onde vamos tentando decifrar as personagens e suas motivações. Os elementos vão sendo dados ao leitor de forma lenta, de modo a que o nosso interesse e curiosidade se mantenham bastante alerta. Como se nós próprios também assumíssemos o papel de investigadores.

O Pacto da Letargia, de Miguelanxo Prado - Ala dos Livros
Não querendo revelar muito mais acerca da história, direi apenas que, no final, há uma sensação de algo que fica incompleto e uma certa tristeza por não se poder continuar a leitura. Fica tudo muito “no ar” e mal resolvido, mesmo que se possa considerar que esta é uma obra auto-conclusiva. Certas personagens têm um papel muito pequeno e julgo que poderiam ter sido mais bem desenvolvidas e exploradas. Como é uma obra que traz consigo um “guisado” com vários temas, como o esoterismo, as reviravoltas clássicas de uma história de investigação, a conspiração, as questões ambientais... pareceu-me que, apenas olhando para o primeiro livro, fica a faltar algo para que o livro seja mais memorável.

De qualquer maneira, há que admitir que Prado levantou de forma interessante as bases para esta história. Estou certo que a leitura dos três volumes de uma só vez será mais impactante para o leitor do que as leituras de forma separada. Claro que, havendo apenas um livro lançado até à data, esta é a forma possível de entrar nesta história de Prado. E até porque, tanto quanto sei, ainda não há sequer uma data anunciada para o segundo tomo.

Quanto à arte ilustrativa de Miguelanxo Prado, estamos perante um trabalho singular, tal não é a qualidade e originalidade das suas ilustrações. Há poucos dias eu falava, a propósito de Living Will, que a autora portuguesa Joana Afonso tem um estilo próprio – um signature style – muito demarcado. E, tal como ela, também Miguelanxo Prado tem um estilo muito característico e inconfundível. Os que já gostam da fantástica arte ilustrativa do autor, terão aqui mais uma prova do seu enorme talento.

Claro que há algumas diferenças na forma como Prado ilustra este O Pacto da Letargia, com especial destaque no estilo mais rectílineo – com muitas linhas que se prolongam pelos rostos das personagens e que permitem uma melhor exploração das suas expressões faciais. A arte de Prado é, sem sombra de dúvidas, diferente, original e especial. Há um código pictórico próprio que o autor continua a utilizar nas suas ilustrações, mesmo que lhes acrescente variações no estilo. Porque, mesmo sendo diferente, continua a ser Prado. E isso é uma sensação fantástica que o coloca no pequeno rol composto por alguns dos melhores autores de BD europeia de sempre.

O Pacto da Letargia, de Miguelanxo Prado - Ala dos Livros
E também em termos de cores, o autor continua a ser exímio na forma como aborda as suas ilustrações. Neste caso, temos cores mais claras e coloridas do que é habitual e que funcionam muito bem. Há uma leveza primaveril que transparece das cores das páginas deste livro, que muito apreciei.

A edição da Ala dos Livros é, mais uma vez, de grande qualidade. A encadernação, a capa dura, o papel de excelente gramagem e a qualidade da impressão transformam o "objeto-livro" em algo apetecível. 

Em termos de tipo de letra escolhido, tenho que dizer que quando os seres fantásticos falam na língua mágica, foi escolhida uma fonte com péssima legibilidade. Sei que também foi esta a fonte escolhida na obra original. Percebo que o autor tenha querido fazer com que esta linguagem mágica se demarcasse da linguagem normal das outras personagens. Ainda assim, haveriam muitas outras opções que conseguiriam esse feito sem que a leitura fosse tão prejudicada.

Concluindo, Prado é sinónimo de qualidade e O Pacto da Letargia não difere dessa ideia-chave que temos do autor. A arte continua a ser singular e extremamente bonita de se observar e a história, sendo desta vez de um cariz mais esotérico do que o habitual, traz algumas questões pertinentes. Não obstante, a resolução do argumento deste primeiro tomo (de um total de três) poderia, na minha opinião, ter sido mais inspirada. Seja como for, creio que os próximos volumes certamente atestarão a qualidade integral desta trilogia. Para já, temos em mãos um terço de uma obra que se perspetiva de qualidade superior. Esperemos pacientemente, então!


NOTA FINAL (1/10):
9.0


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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O Pacto da Letargia, de Miguelanxo Prado - Ala dos Livros

Ficha técnica
O Pacto da Letargia
Autor: Miguelanxo Prado
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 104, a cores
Encadernação: capa dura
Lançamento: Janeiro de 2020