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sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Análise: Thorgal - Wendigo

Thorgal - Wendigo, de Fred Duval e Corentin Rouge - A Seita

Thorgal - Wendigo, de Fred Duval e Corentin Rouge - A Seita
Thorgal - Wendigo, de Fred Duval e Corentin Rouge

Foi há poucas semanas que chegou às livrarias portuguesas o mais recente livro dedicado à série de fantasia Thorgal, uma saga originalmente criada por Jean Van Hamme e Grzegorz Rosinski. Este livro está inserido em Thorgal Saga, uma série que procura convidar autores a darem o seu cunho pessoal à série, através de um álbum autocontido e, portanto, fora da história da série canónica. O primeiro álbum desta iniciativa que já conta com 6 volumes em França foi o muito belo Adeus Aaricia, de Robin Recht, já por cá editado também pel' A Seita.

Wendigo chega-nos pelas mãos de Fred Duval e Corentin Rouge e a ideia com que fiquei, no final da leitura, é que estamos perante uma aventura sólida que nos entretém, e que é visualmente muito apelativa, mas que acaba por ficar um pouco aquém das expectativas. Pelo menos, das minhas expectativas. Especialmente, se tivermos em conta o anterior Adeus Aaricia

Thorgal - Wendigo, de Fred Duval e Corentin Rouge - A Seita
A história de Wendigo leva-nos até ao território americano e decorre durante a viagem de regresso de Thorgal e da sua família do país de Qa. Pelo caminho, a família vê-se envolvida num conflito entre dois povos indígenas, numa região selvagem onde a violência se intensifica após a invocação da figura mitológica de Wendigo. Com Aaricia grávida e gravemente ferida, Thorgal vê-se obrigado a agir, entrando novamente numa guerra que não é a sua, mas da qual não consegue fugir. 

Até porque para salvar Aaricia, Thorgal terá que embarcar numa missão que faz recordar algumas das aventuras mais clássicas da série. A solução para a saúde da sua amada passa pela obtenção de uma flor rara que cresce no topo de uma gigantesca árvore-mundo. E para alcançar esse objetivo, Thorgal une forças com um dos indígenas da tribo e com uma guerreira viking quem, entretanto, aparece no seu caminho. 

É uma abordagem bastante clássica das histórias da personagem, o que pode agradar aos leitores mais clássicos da série. A ação desenrola-se entre florestas densas e os impressionantes ramos da árvore-mundo, proporcionando vários momentos de tensão e de espetáculo visual.

No entanto, apesar da premissa interessante e do recurso a elementos do folclore ameríndio que são bem-vindos, a verdade é que a história acaba por seguir caminhos demasiado previsíveis. Quase tudo decorre da forma esperada, sem verdadeiras surpresas ou reviravoltas marcantes. 

Thorgal - Wendigo, de Fred Duval e Corentin Rouge - A Seita
E esse acaba por ser, quanto a mim, a principal fragilidade do álbum. É que sendo uma obra integrada na linha de "livros de autor", esperava-se uma abordagem mais ousada, capaz de explorar aspetos menos conhecidos das personagens ou apresentar uma leitura diferente deste universo. Algo como Robin Recht fez - e bem - no já anteriormente mencionado Adeus Aaricia. Fred Duval opta, pelo contrário, por construir uma aventura muito convencional, que poderia facilmente integrar a série principal sem causar qualquer estranheza. Parece-me até que Fred Duval não entendeu bem a razão de ser desta "coleção de autor" preferindo fazer uma história que funciona mais como hommage, sem recriar algo de verdadeiramente novo.

Isto não significa que a leitura seja desinteressante, atenção. Pelo contrário, a narrativa mantém um ritmo eficaz e consegue prender a atenção ao longo das suas páginas. O "problema" não está na qualidade da execução, mas sim na falta de ambição em relação às possibilidades oferecidas por este formato mais livre e experimental.

Se o argumento deixa algumas reservas, o mesmo não pode ser dito do trabalho gráfico de Corentin Rouge. O desenhador confirma mais uma vez o enorme talento que tem demonstrado em trabalhos anteriores. As personagens são extremamente expressivas, transmitindo emoções de forma imediata e convincente. E também os momentos de ação constituem outro dos grandes destaques da obra. As cenas de combate, perseguição e sobrevivência apresentam uma excelente dinâmica visual. Rouge consegue criar movimento dentro de cada prancha, envolvendo o leitor nos acontecimentos e aumentando a intensidade das sequências mais espetaculares. E há várias delas. Sou um grande admirador do trabalho deste autor, reconheço!

Thorgal - Wendigo, de Fred Duval e Corentin Rouge - A Seita
Ainda assim, fiquei com a sensação de que o estilo gráfico de Corentin Rouge funciona melhor em universos mais contemporâneos. Obras como Sangoma  - Os Condenados da Cidade do Cabo, Islander ou Rio parecem, quanto a mim, adequar-se de forma mais natural às características do seu traço, que é muito direto, energético e centrado na ação. Em contextos históricos ou de fantasia, como acontece em Thorgal, o resultado continua a ser bastante bom, mas talvez menos surpreendente. Não se trata de uma questão de qualidade de desenho, porque essa está presente em abundância ao longo de todo o álbum. Simplesmente, a vertente mais poética, contemplativa e mítica que se associa ao universo de Thorgal parece não beneficiar tanto deste estilo mais moderno, desnudo e cinematográfico de Rouge. Ainda assim, reitero que Corentin Rouge é um ilustrador fenomenal, do qual sou um totalmente fã. 

Nota ainda, muito positiva, para a fantástica ilustração da capa que é impactante, elegante e imediatamente apelativa. É uma daquelas capas que, quer parecer-me, capta o olhar de qualquer transeunte de uma livraria, ao transmitir na perfeição o ambiente de aventura e mistério presente na obra. 

A edição da editora A Seita é muito bem conseguida. O livro apresenta capa dura baça, com detalhes a verniz e com uma textura aveludada, suave ao toque, que tanto aprecio, e um excelente papel brilhante no miolo. A impressão, a encadernação e os acabamentos também têm uma qualidade que impressiona. Por fim, o caderno de extras também está fantástico, reunindo oito ilustrações verdadeiramente espetaculares e ainda um texto de cada um dos autores.

Em suma, Thorgal - Wendigo revela-se uma leitura competente, bem desenhada e agradável, que tem o potencial para aguardar aos fãs mais antigos da série, mesmo que, a meu ver, dificilmente possa figurar entre os livros mais memoráveis do universo de Thorgal, sobretudo por optar por uma fórmula demasiado segura quando poderia ter arriscado muito mais. É, acima de tudo, para isso que servem - ou deveriam servir - "os álbuns de autor"... para que se possa arriscar mais a todos os níveis.


NOTA FINAL (1/10):
8.5


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020

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Thorgal - Wendigo, de Fred Duval e Corentin Rouge - A Seita

Ficha técnica
Thorgal - Wendigo
Autores: Fred Duval e Corentin Rouge
Editora: A Seita
Páginas: 136, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 235 x 325 mm
Lançamento: Maio de 2026

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Análise: Trilogia Shakespeariana

Trilogia Shakespeariana, de Gianni De Luca - Levoir e A Seita

Trilogia Shakespeariana, de Gianni De Luca - Levoir e A Seita
Trilogia Shakespeariana, de Gianni De Luca

Foi no passado mês de Março que as editoras Levoir e A Seita se juntaram para o lançamento de uma obra clássica da banda desenhada italiana, originalmente editada a partir de 1975, que, inexplicavelmente, ainda não se encontrava publicada em Portugal: falo de Trilogia Shakespeariana, de Gianni De Luca, que adapta para banda desenhada três das mais celebradas peças de William Shakespeare: Romeu e Julieta, Hamlet e A Tempestade.

E uma das coisas que tenho que começar por referir é que adaptar para banda desenhada as peças de Shakespeare, que foram originalmente escritas para o teatro e que, portanto, são mais assentes em diálogos/monólogos do que em narrações de eventos, não me parece uma tarefa nada fácil. Mas Gianni De Luca, que conta com a colaboração de Sigma, pseudónimo de Raoul Traverso na adaptação do argumento, é bem sucedido a dar a volta à questão com um estilo muito próprio que consegue, de forma incrível e inovadora, dar ação visual a cenas em que, supostamente, teríamos uma personagem estática a conversar. Mas já lá irei.

Trilogia Shakespeariana, de Gianni De Luca - Levoir e A Seita

Dando uma tão breve quanto possível nota sobre cada uma das histórias aqui presentes, posso dizer-vos que Hamlet me parece a história mais sombria e introspectiva do volume. Aqui a tragédia do príncipe da Dinamarca mantém intactos os seus grandes temas: a dúvida, a culpa, a corrupção do poder e o desejo de vingança. E o famoso dilema existencial de Hamlet - "ser ou não ser, eis a questão" - encontra em De Luca um intérprete visual particularmente inspirado, pois em vez de depender apenas do texto, o autor utiliza a movimentação das figuras, a composição dos espaços e a encenação das cenas para expressar os estados de espírito da personagem. 

Em Romeu e Julieta, embora essa utilização da movimentação das personagens se mantenha -e atinja até mesmo um cume, face às restantes histórias -, o tom muda radicalmente. Aqui, a narrativa privilegia o romance, a paixão e a tragédia inevitável dos jovens amantes de Verona. Gianni De Luca representa com grande elegância tanto os momentos de intimidade como as cenas de conflito entre as famílias rivais, criando um equilíbrio eficaz entre lirismo e dramatismo.

Trilogia Shakespeariana, de Gianni De Luca - Levoir e A Seita
A Tempestade
, por sua vez, introduz uma atmosfera mais fantástica e alegórica. A peça acompanha Próspero, legítimo duque de Milão, exilado numa ilha em que há forças mágicas, espíritos, ilusões e naufrágios. É aqui que encontramos a história mais clássica de banda desenhada, em termos de planificação, embora, não obstante, já se sinta um domínio da ação e da planificação da história.

Assim sendo, a verdadeira grandeza deste Trilogia Shakespeariana não reside apenas nas adaptações literárias em si. O elemento mais revolucionário do livro é mesmo o seu aspecto visual. Gianni De Luca rompe deliberadamente com a estrutura tradicional da banda desenhada baseada em vinhetas sucessivas. Em vez disso, desenvolve páginas organizadas como grandes espaços cénicos contínuos, onde as personagens aparecem várias vezes ao longo do mesmo cenário. 

Esta solução gráfica transforma a página num palco teatral. E acaba por tornar as peças de teatro originais menos aborrecidas - ou mais facilmente apreendidas - pois permite à narrativa ter uma fluidez e uma dinâmica que mantém os leitores atentos ao desenrolar da história. A passagem do tempo deixa de ser representada pela fragmentação da ação em vinhetas separadas e passa a ser sugerida pelo deslocamento das figuras no espaço. Assim, o leitor observa simultaneamente diferentes momentos da narrativa, acompanhando os trajetos das personagens quase como se estivesse perante uma representação ao vivo.

Trilogia Shakespeariana, de Gianni De Luca - Levoir e A Seita
Esta inovação foi tão marcante que acabou por ficar associada ao chamado "Efeito De Luca", uma abordagem que influenciou numerosos autores posteriores. É algo que, de vez em quando, ainda conseguimos ver em algumas bandas desenhadas da atualidade, mas em 1975, quando esta obra começou a ser publicada, era algo verdadeiramente inovador.

O domínio do espaço, da composição e do ritmo visual de Gianni de Luca é verdadeiramente incrível. Se querem que vos seja sincero, e olhando para a obra à luz dos dias atuais, talvez o autor abuse um pouco desta forma de contar a história. Admito que consideraria a leitura mais equilibrada se esta técnica não fosse constantemente utilizada, prancha após prancha. Pois ao querer tornar-se a história menos aborrecida com uma planificação mais dinâmica, acaba por, ironicamente, se tornar também a história aborrecida pela presença sempre constante dessa planificação mais dinâmica. Parece-me que se esta técnica fosse utilizada com maior gestão, toda a história ganharia. Mas imagino que assim que o autor chegou a este nível, não mais quis parar. E reitero, claro, que é impossível não ficar abismado com a forma incrível, detalhada e original como Gianni de Luca nos mergulha nas suas histórias. E só por isso, considero este como um dos grandes lançamentos de banda desenhada clássica do ano em Portugal. Ler esta obra acaba por ser semelhante a ter-se uma masterclass sobre banda desenhada e sobre sequencialidade.

Trilogia Shakespeariana, de Gianni De Luca - Levoir e A Seita
Além da inovação narrativa, devo ainda mencionar a bela qualidade do desenho. A linha de De Luca é elegante, precisa, limpa e expressiva. Os cenários são detalhados sem se tornarem excessivamente pesados, enquanto as figuras humanas comunicam emoções com grande naturalidade. 

A edição da obra é em tudo semelhante aos livros presentes na Coleção de Novelas Gráficas da Levoir. O livro tem capa dura baça, bom papel baço no interior, boa encadernação e boa impressão. Até tem, junto à lombada, a referência a "Novela Gráfica", numa tira de cor preta, o que é a imagem de marca da emblemática coleção da Levoir. De resto, há ainda um interessante texto introdutório de Pedro Moura e, no final, encontramos estudos e versões finais das capas originais dos álbuns e uma ilustração dedicada a Dante Alighieri.

Em conclusão, Trilogia Shakespeariana é uma obra fundamental para compreender a evolução da banda desenhada europeia. As adaptações de Hamlet, Romeu e Julieta e A Tempestade demonstram um profundo respeito pelo legado de Shakespeare, enquanto a extraordinária experimentação gráfica de Gianni De Luca é verdadeiramente impressionante, tendo redefinido os limites da narrativa visual. O resultado é um clássico intemporal que continua a impressionar leitores, estudiosos e autores, afirmando-se como uma obra que cada amante de banda desenhada deve conhecer.


NOTA FINAL (1/10):
8.8


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Trilogia Shakespeariana, de Gianni De Luca - Levoir e A Seita

Ficha técnica
Trilogia Shakespeariana
Autor: Gianni De Luca
Adaptado a partir da obra original de: William Shakespeare
Editoras: Levoir e A Seita
Páginas: 144, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 195 x 270 mm
Lançamento: Março de 2026

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Análise: A Solidão do Ser

A Solidão do Ser, de Helena Sá - A Seita e Turbina

A Solidão do Ser, de Helena Sá - A Seita e Turbina
A Solidão do Ser, de Helena Sá

Foi de um modo algo surpreendente que tomei conhecimento que, em primeiro lugar, havia o Prémio Revelação Maia BD - iniciativa que, pela sua relevância e potencial, aplaudo - e que, em segundo lugar, a edição de 2026 tinha sido ganha pela autora Helena Sá, que se estreou no universo da banda desenhada com este A Solidão do Ser, que hoje vos trago.

Esta é uma obra pequena na extensão, com menos de 40 páginas de BD, mas surpreendentemente vasta pela quantidade de coisas em que nos deixa a pensar. Não existe aqui uma história complexa, nem grandes acontecimentos, nem sequer uma preocupação em construir uma progressão dramática convencional, mas o que encontramos é, por sua vez, uma reflexão ilustrada sobre a condição humana, sobre o modo como (co)existimos e sobre a forma como, tantas vezes, atravessamos os dias sem verdadeiramente os habitar.

Helena Sá apresenta-se aos leitores de uma forma algo silenciosa e tímida, mas ao mesmo tempo demonstrando segurança. Quer no texto, quer nas ilustrações. Há aqui uma delicadeza evidente, mas também uma convicção muito clara acerca daquilo que se pretende comunicar, sem que seja necessário à autora levantar a sua "voz para se fazer ouvir". Ao invés, a autora aparenta preferir sussurrar com os leitores. E é precisamente por isso que a sua mensagem acaba por permanecer connosco durante mais tempo.

A Solidão do Ser, de Helena Sá - A Seita e Turbina
A Solidão do Ser
 traz-nos alguns avisos, algumas chamadas de atenção. Numa vida em que somos corpos fechados dentro de ilhas que pouco ou nada interagem com os outros - com as outras "ilhas" - este é um livro que traz consigo um alerta sobre o significado do ser, do querer e do estar. Ao longo das páginas, Helena Sá convida-nos a observar os espaços que ocupamos, as rotinas que repetimos e os vazios que muitas vezes transportamos sem deles termos plena consciência. É uma obra que fala da vida contemporânea sem nunca precisar de nomear diretamente os seus males. E é natural que todos nós, sejamos um(a) jovem de 16 anos ou um(a) idoso(a) de 86 anos, consigamos encontrar no protagonista deste livro mais pontos de contacto do que aquilo que gostaríamos de admitir.

Existe aqui uma reflexão muito pertinente sobre a forma como vivemos os nossos dias. Sobre a velocidade com que atravessamos o quotidiano, sobre a tendência para habitar mais os pensamentos do que os lugares físicos e sobre a dificuldade crescente em estarmos verdadeiramente presentes e conectados. É um livro que nos recorda que a existência não se resume ao simples ato de passar pelo tempo.

Ao mesmo tempo, a autora parece sugerir que precisamos desesperadamente de cor nas nossas vidas cinzentas. E não apenas enquanto elemento visual - embora o mesmo seja elaborado de forma bem sucedida -, mas como metáfora para tudo aquilo que confere significado à vida: a emoção, a ligação aos outros, a criatividade, a capacidade de sonhar e de encontrar beleza nos pequenos momentos.

Uma das características que importa mencionar é a rara economia no texto que existe neste A Solidão do Ser, em que as frases surgem simples, diretas e despojadas de grandes artifícios. Contudo, por detrás dessa simplicidade existe uma notável inteligência emocional. São frases que parecem leves no momento da leitura, mas que regressam mais tarde à memória, obrigando-nos a revisitá-las.

A Solidão do Ser, de Helena Sá - A Seita e Turbina
É verdade que, por vezes, senti que o texto, mesmo sendo inspirado e, como diriam os ingleses spot on, me pareceu algo curto, ou que as ideias nele presentes poderiam ser mais (bem) desenvolvidas. Mas isso não belisca em nada a ideia e conceito presente na narrativa. Além disso, Helena Sá demonstra que não são necessárias muitas palavras para transmitir pensamentos profundos.

Aliás, para uma autora na fase inicial do seu percurso na banda desenhada, a maturidade revelada neste livro é assinalável. Existe uma consciência muito clara do impacto que cada palavra pode ter e uma capacidade invulgar para condensar emoções complexas em poucas linhas. 

Visualmente, o livro é igualmente muito interessante. O traço da autora revela elegância, sensibilidade e personalidade própria. Existe uma fluidez muito agradável no desenho, acompanhada por uma simplicidade gráfica que nunca resvala para a pobreza visual. Pelo contrário, tudo parece cuidadosamente pensado para servir a mensagem da obra.

O jogo cromático entre os tons de cinzento, preto e branco e a presença pontual do amarelo constitui mais um dos elementos bem conseguidos do livro. Essa utilização seletiva da cor funciona quase como uma linguagem paralela à do texto, ajudando, tal como já referi, a reforçar emoções, ideias e o estado de espírito do protagonista. O amarelo surge como uma espécie de brecha luminosa no interior de um mundo frequentemente dominado pela monotonia e pela introspeção.

A Solidão do Ser, de Helena Sá - A Seita e Turbina
Também as soluções de planificação demonstram criatividade e confiança. Helena Sá não se limita a repetir a mesma estrutura de página ao longo do livro. Na verdade, até experimenta diferentes composições visuais e diferentes formas de organizar a informação gráfica. Como resultado, encontramos várias pranchas muito bem conseguidas e memoráveis.

Também em termos de edição, o trabalho conjunto das editoras A Seita e Turbina revela-se singular. O livro apresenta uma espessa capa dura (mesmo em sólido cartão) e a lombada está nua, revelando as próprias costuras entre os vários cadernos que compõem o livro. Não é uma opção muito frequente em banda desenhada editada em Portugal - assim, de cabeça, apenas me lembro da editora Levoir ter apostado nesta opção com o seu livro A Ilha - e, só por isso, revela-se uma escolha bem-vinda. Mesmo sem me considerar um "fanático das lombadas" confesso que me faz confusão que não haja qualquer informação na lombada. Não por uma questão de "ficar bem na estante", mas por uma questão de informação. Para aqueles que, como eu, têm muita banda desenhada, um livro sem texto na lombada pode ser menos relembrado se não se fizer notar pelo título na lombada. Mas, enfim, isto é uma opinião muito pessoal que não põe em causa minimamente o trabalho diferenciado e bem conseguido da edição deste A Solidão do Ser.

Além disto, no miolo, o livro apresenta bom papel baço, boa encadernação, boa impressão e um breve caderno de extras onde podemos ter acesso a estudos de personagem, estudos de página e uma breve biografia da autora.

Em suma, e depois de se ler A Solidão do Ser, torna-se fácil compreender o porquê de Helena Sá já ter recebido um prémio de banda desenhada com este livro. Eis uma obra que impressiona especialmente pela honestidade, pela sensibilidade e pela inteligência com que aborda temas universais. É um livro pequeno, discreto e profundamente humano. Daqueles que não procuram impressionar o leitor à força, mas que acabam por permanecer na memória precisamente pela serenidade com que nos convidam a olhar para nós próprios. Aliás, é bem possível que, pelo menos dentro da categoria de Prémio Revelação, sejam vários os prémios que a obra venha a arrecadar durante este e o próximo ano.


NOTA FINAL (1/10):
8.5



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A Solidão do Ser, de Helena Sá - A Seita e Turbina

Ficha técnica
A Solidão do Ser
Autora: Helena Sá
Editoras: A Seita e Turbina
Páginas: 56, a preto e branco (com algumas cores)
Encadernação: Capa dura em cartão com lombada cozida
Formato: 171 x 240 mm
Lançamento: Maio de 2026

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Análise: Dylan Dog - Morte em 16 por 9

Dylan Dog - Morte em 16 por 9, de Roberto Recchioni e Corrado Roi - A Seita

Dylan Dog - Morte em 16 por 9, de Roberto Recchioni e Corrado Roi - A Seita
Dylan Dog - Morte em 16 por 9, de Roberto Recchioni e Corrado Roi

Por ocasião do 40º aniversário de Dylan Dog, uma das mais famosas e idolatradas séries dos fumetti da Bonelli, A Seita editou recentemente, numa edição especial, a obra Dylan Dog - Morte em 16 por 9, de Roberto Recchioni e Corrado Roi! E que bela obra é esta que entra diretamente para os meus livros favoritos da popular personagem italiana!

Dos mesmos autores, a editora portuguesa já por cá editou, relembro, Dylan Dog - Batman: A Sombra do Morcego e Dylan Dog / Dampyr - O Detective e o Caçador, ambos com argumento de Roberto Recchioni; e Dylan Dog - Trevas Profundas e Apocalipse: O Livro da Revelação de São João, estes dois últimos com ilustrações de Corrado Roi.

Dylan Dog - Morte em 16 por 9, de Roberto Recchioni e Corrado Roi - A Seita
Se Dylan Dog já é uma série que eu muito aprecio, tenho que vos dizer que este Morte em 16 por 9 me encheu as medidas, pois mais do que ser uma simples aventura do Investigador do Pesadelo, aqui estamos perante uma experiência profundamente sensorial, construída a partir de imagens, silêncios, olhares e emoções contraditórias e sensuais que se vão infiltrando lentamente no leitor. É uma banda desenhada que parece respirar cinema em cada vinheta e que nos envolve numa atmosfera simultaneamente sedutora, inquietante e melancólica.

A história começa com o desaparecimento de um restaurador de arte, namorado de Mina, que leva esta a pedir ajuda a Dylan Dog para investigar o caso. A partir desse ponto, a investigação conduz o detetive até à bela Lucille e ao misterioso quadro que domina toda a narrativa. E rapidamente somos transportados para uma viagem carregada de obsessões, desejos proibidos e muito sexo. Sim, de todos os livros que me lembro de ter ligo de Dylan Dog - e já foram alguns - não me lembro de uma história em que os momentos de sensualidade - por vezes, extrema, no bom sentido da palavra - fossem tantos. Das várias cenas de sexo com três e quatro pessoas, bissexualidade, bondage e dominação, Dylan Dog passa para um estado de êxtase tal, que permite à história arrastar-nos para o seu lado mais obscuro e retorcido. Um lado mais onírico e mais do âmbito do fantástico.

Mas mesmo havendo uma generosa e intensa sensualidade neste livro, também há um certo requinte na forma como a mesma nos é dada, fazendo com que, mesmo sendo uma obra para um público adulto, nunca se ultrapasse a linha da vulgaridade. Pelo menos, claro, para os meus standards que são bastante tolerantes neste tipo de questões. Não há gratuitidade nem provocação barata. Pelo contrário, tudo é enquadrado numa atmosfera de fascínio e de mistério que transforma o erotismo num elemento essencial da narrativa. Diria até mesmo que, neste caso, o desejo se torna uma força narrativa tão poderosa quanto o próprio terror contido na obra.

Dylan Dog - Morte em 16 por 9, de Roberto Recchioni e Corrado Roi - A Seita
E nesse contexto, tenho que mencionar que a personagem de Lucille assume um papel absolutamente central na narrativa, pois poucas vezes encontrei numa banda desenhada uma figura tão magneticamente perigosa e sexy, ao mesmo tempo. Talvez por isso, a sua presença me tenha remetido inevitavelmente para Catherine Tramell, a inesquecível personagem interpretada por Sharon Stone em Instinto Fatal. Lucille possui essa mesma combinação devastadora de beleza, inteligência, mistério e ameaça latente, com cada aparição sua a parecer anunciar simultaneamente prazer e catástrofe. Quer para Dylan Dog, quer para nós, meros leitores voyeuristas.

Durante boa parte da leitura, desejamos que o protagonista se entregue a essa atração inevitável, mesmo sabendo que as consequências poderão ser devastadoras. Trata-se de uma dinâmica construída com enorme subtileza por parte do argumentista e que confere à obra uma intensidade emocional rara. 

Além disso, convém ainda referir que uma das características mais marcantes de Morte em 16 por 9 é a forma como Roberto Recchioni constrói a narrativa. Há vários momentos praticamente mudos, privilegiando o impacto visual em detrimento do diálogo. O silêncio torna-se uma linguagem própria, permitindo que as imagens falem por si mesmas.

À medida que a narrativa avança, o lado fantástico vai assumindo maior protagonismo, o que é habitual nas histórias de Dylan Dog, casando, portanto, bem com a série. Mas, ao contrário de algumas histórias do foro fantástico que, por vezes, se podem tornar menos plausíveis, este Morte em 16 por 9 apresenta-se muito mais credível por veicular todo esse lado fantástico e onírico através da doçura da euforia sexual. Se Dylan Dog não se envolvesse com Lucille, não visitaríamos certamente esse lado mais obscuro e fantástico da obra.

Dylan Dog - Morte em 16 por 9, de Roberto Recchioni e Corrado Roi - A Seita
Naturalmente, Dylan não atravessa sozinho este pesadelo. Groucho, o seu assistente, faz a sua aparição em vários momentos da história. Confesso que, ao contrário daquilo que acontece noutros livros da série, achei que, neste caso, as tiradas de Groucho me pareceram mais forçadas e menos bem-vindas do que o desejável. Groucho é uma personagem que já me deixou muito bem humorado com os seus comentários noutros livros da franquia, mas neste Morte em 16 por 9 achei-o algo cansativo e até dispensável, deixando no ar a ideia de que aparece na história mais para "picar o ponto". Há ainda outras aparições de algumas personagens míticas da série como a da bela Lillie Connolly, a do Inspector Bloch ou a do memorável Johnny Freak.

Mas se existe um verdadeiro protagonista desta obra para além do próprio Dylan, esse protagonista chama-se Corrado Roi. O seu trabalho gráfico é absolutamente extraordinário! Poucos artistas dominam o preto e branco com tamanha elegância e sensibilidade, a meu ver. Cada página parece ter sido cuidadosamente construída para evocar emoções específicas, explorando magistralmente luzes, sombras e contrastes.

O traço de Roi é simultaneamente realista e onírico. As personagens possuem uma presença física convincente, mas os cenários e as atmosferas parecem emergir de um sonho sombrio. As sombras invadem frequentemente as páginas quase como "entidades vivas", transformando o espaço visual numa extensão dos estados emocionais das personagens. É um trabalho gráfico de enorme maturidade e requinte que eu assumidamente adoro!

Dylan Dog - Morte em 16 por 9, de Roberto Recchioni e Corrado Roi - A Seita
E também a opção formal de utilizar exclusivamente três vinhetas horizontais por página merece aplauso. A referência, no título, ao formato cinematográfico 16:9 não é meramente decorativa, moldando, pelo contrário, toda a experiência de leitura. O resultado aproxima-se mais de um filme do que de uma banda desenhada convencional, com cada vinheta a funcionar como um enquadramento cuidadosamente composto, conferindo ritmo, tensão e uma impressionante fluidez narrativa.

A edição d' A Seita é integral, pois reúne num só volume os dois tomos que constituem a obra original e é feita num formato superior ao que a editora habitualmente utiliza para os restantes livros de Dylan Dog, exceptuando o já referido Dylan Dog - Batman: A Sombra do Morcego, com quem partilha o mesmo formato de 20 x 26,5 cm. De resto, a edição é em capa dura, com detalhes a verniz, com excelente papel baço no interior e um bom trabalho a nível da encadernação e impressão. Há ainda um prefácio de João Miguel Lameiras e, no final do livro, um caderno adicional de extras, com 12 páginas, que nos oferece um texto de Gianmaria Contro sobre a obra e que é acompanhado por vários esboços e ilustrações.

Em suma, Dylan Dog - Morte em 16 por 9 revelou-se para mim uma experiência extraordinária. É uma obra despudoramente sensual, sombria, poética e profundamente cinematográfica, capaz de combinar erotismo, horror, romance e introspeção numa narrativa coerente e emocionalmente poderosa. Roberto Recchioni oferece um dos argumentos mais envolventes que li recentemente na série, enquanto Corrado Roi assina um verdadeiro recital gráfico. Daquelas leituras que não se limitam a ocupar algumas horas do nosso tempo, mas que permanecem connosco muito depois de fecharmos o livro!


NOTA FINAL (1/10):
9.3



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Dylan Dog - Morte em 16 por 9, de Roberto Recchioni e Corrado Roi - A Seita

Ficha técnica
Dylan Dog - Morte em 16 por 9
Autores: Roberto Recchioni e Corrado Roi
Editora: A Seita
Páginas: 208, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 20 x 26,5 cm
Lançamento: Junho de 2026

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Análise: Lunáticos

Lunáticos, de Adam Fyda e Marek Ospalski - A Seita

Lunáticos, de Adam Fyda e Marek Ospalski - A Seita
Lunáticos, de Adam Fyda e Marek Ospalski

O terceiro livro de origem polaca que a editora A Seita lançou em pouco tempo foi este Lunáticos, de Adam Fyda e Marek Ospalski. Esta obra surge como mais um fruto da recente iniciativa da editora portuguesa de editar por cá algumas bandas desenhadas polacas, ao mesmo tempo que também tem lançado algumas obras nacionais na Polónia. Trata-se de um intercâmbio cultural que me parece bastante bem-vindo.

E comparando este Lunáticos com os anteriormente publicados Heksa - A Bruxa, de Katarzyna Witerscheim, e Três Irmãs, de Anna Poszepczyńska - se é que este tipo de comparações é justa -, parece-me que é legítimo verificar que esta será a obra mais interessante e mais bem equilibrada das três. Ainda que todas elas mereçam atenção.

Lunáticos é inspirado na obra clássica No Orbe de Prata, um trabalho de ficção científica publicado pelo polaco Jerzy Żuławski, em 1903. Considera-se até mesmo uma das obras fundadoras da ficção científica polaca.

Lunáticos, de Adam Fyda e Marek Ospalski - A Seita
Pelo que pude investigar, esta adaptação da obra para banda desenhada é bastante livre, procurando ser um trabalho de abordagem e teor mais contemporâneos, mesmo que, a obra original, com mais de 100 anos, ainda se mantenha atual nos tempos em que vivemos.

A ação decorre no ano de 1913, quando cinco exploradores partem da Terra rumo à Lua, iniciando a primeira expedição lunar e acreditando que poderão encontrar uma atmosfera habitável no lado oculto da lua. O chamado The Dark Side of The Moon, vá, o mesmo nome de um dos álbuns mais respeitados da música que nos foi dado pelos britânicos Pink Floyd. Mas cedo se perde a comunicação com a tripulação, fazendo com que ninguém na Terra saiba se os astronautas estão vivos ou não. E nós, leitores, acompanhamos aquilo que acontece com eles.

Confesso-vos que, não sendo o maior fã de histórias que se passam no espaço, devo dizer que fiquei bastante agradado e, até, em alguns casos, surpreendido com este livro. Um dos aspetos mais interessantes de Lunáticos reside precisamente na forma como evita transformar-se numa narrativa convencional de sobrevivência. Daquelas que já todos vimos, vezes sem conta. Embora existam momentos de tensão e adversidade com que a tripulação terá que lidar, claro, diria que a verdadeira preocupação dos autores parece estar na evolução das personagens, das suas ideias e das suas crenças. Há, pois, toda uma dimensão filosófica que me surpreendeu pela positiva. A necessidade humana de encontrar significado mesmo nos ambientes mais hostis continua a ser algo do qual, aparentemente, não conseguimos fugir enquanto espécie. E isso torna o exercício narrativo da obra em algo interessante.

Lunáticos, de Adam Fyda e Marek Ospalski - A Seita
Narrativamente, Lunáticos desenvolve-se, muitas vezes, de forma contemplativa. Há sequências que privilegiam a observação, a introspeção e a construção atmosférica em detrimento da ação. Esta opção exige alguma disponibilidade por parte do leitor, é certo, mas acaba por contribuir para que o livro seja mais maduro na sua abordagem. Não estamos, pois, perante uma obra que procure oferecer entretenimento rápido, mas antes ser uma experiência que convide à reflexão.

Além disso, parece haver também uma certa sensação de "terror cósmico". Porque embora Lunáticos não seja propriamente uma obra de terror, per se, existe uma constante sensação de desconforto. A vastidão do espaço, a fragilidade humana e a estranheza do ambiente lunar contribuem para uma atmosfera de inquietação que atravessa todo o livro.

Em termos visuais, o livro também consegue ser bastante bom. Se a bela capa já me tinha deixado interessado no livro, devo dizer que quer os desenhos das personagens, quer, principalmente, os desenhos do espaço sideral e de paisagens da lua, me encheram as medidas. Este é um daqueles livros em que é bonito olhar demoradamente para várias ilustrações. Ilustrações essas que nos transportam para ambientes grandiosos com um forte sentido de estranheza e isolamento. A Lua surge representada como um espaço simultaneamente belo e inquietante, reforçando constantemente a sensação de afastamento em relação ao mundo conhecido.

Lunáticos, de Adam Fyda e Marek Ospalski - A Seita
A composição das pranchas demonstra igualmente uma grande maturidade. Adam Fyda sabe quando deve privilegiar grandes panorâmicas e quando deve aproximar-se das personagens. O próprio grafismo da obra nos separadores entre capítulos é bastante apelativo. E também o trabalho de cores é muito belo. Considerei apenas que, em vários momentos, gostaria que o livro fosse maior em formato, pois certas vinhetas ficam demasiadamente pequenas, perpassando para o leitor uma certa sensação de claustrofobia.

De resto, a edição d' A Seita é em capa dura, com detalhes a verniz, e bom papel baço no interior. O trabalho de impressão e encadernação também está bem feito.

Em suma, a capacidade para articular imaginação científica, reflexão filosófica e excelência gráfica transforma este Lunáticos numa obra particularmente interessante para leitores que procuram algo mais do que uma simples aventura espacial. Esta é uma banda desenhada que honra o legado de uma obra de ficção científica com mais de 100 anos e que demonstra que muitos dos grandes temas da ficção científica continuam tão relevantes hoje como há mais de cem anos. Gostei!


NOTA FINAL (1/10):
8.3



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Lunáticos, de Adam Fyda e Marek Ospalski - A Seita

Ficha técnica
Lunáticos
Autores: Adam Fyda e Marek Ospalski
Adaptado a partir da obra original de: Jerzy Zulawski
Editora: A Seita
Páginas: 136, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 195 x 260 mm
Lançamento: Maio de 2026

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Análise: Heksa - A Bruxa

Heksa - A Bruxa, de Katarzyna Witerscheim - A Seita

Heksa - A Bruxa, de Katarzyna Witerscheim - A Seita
Heksa - A Bruxa, de Katarzyna Witerscheim

Se há casos em que uma opção editorial pode condenar uma obra, este Heksa - A Bruxa, de Katarzyna Witerscheim, inserido na recente coleção Âmbar, da editora A Seita, dedicada a obras de autores polacos, é um perfeito exemplo.

Há muito para falar da obra, da sua história, das suas ilustrações, mas não consigo começar este texto sem referir isso mesmo: que uma pequena opção editorial arruinou por completo a minha experiência de leitura.

O que aconteceu em concreto?

Muito sumariamente, este Heksa - A Bruxa utiliza muitas expressões em silésio. Para quem não sabe, o silésio é uma língua variante do polaco, que é tradicional da região da Silésia, no sul da Polónia. É um idioma muito próximo do polaco, mas com vocabulário, pronúncia e características próprias, sendo por alguns considerado um dialeto e por outros uma língua distinta. 

Heksa - A Bruxa, de Katarzyna Witerscheim - A Seita
Face a isto, A Seita optou por preservar em silésio as expressões que também estavam em silésio na obra original, dotando o livro de uma página de glossário no final e de um marcador de página com o mesmo glossário. Assinalo o esforço do gesto, mas não foi suficiente para tornar menos penosa a leitura desta obra. Conhecendo o cuidado editorial dos vários membros d' A Seita, bem sei que esta não foi uma opção leviana ou despreocupada - caso contrário nem sequer teria sido feito o marcador de página - e até acredito que a ideia inicial da editora tenha sido a de ser fiel à obra original e à identidade cultural que a autora pretende transmitir. Imagino que a ideia foi "se a obra original tem expressões em silésio, então que as mantenhamos deste modo na edição portuguesa". 

Mas foi uma má opção. Isto porque aquilo que funciona de forma natural para um leitor polaco, não permite o mesmo efeito junto de um leitor português. A maioria dos polacos, mesmo aqueles que não conhecem verdadeiramente bem o silésio, têm capacidade de o compreender. Nem que seja "por alto". Agora, o português comum não sabe nada de silésio. Nem de polaco, quanto mais de silésio.

Heksa - A Bruxa, de Katarzyna Witerscheim - A Seita
E isso faz com que o problema da obra resida precisamente na experiência de leitura. Embora a inclusão de um glossário permita, em teoria, compreender o significado das expressões utilizadas, a necessidade constante de interromper a leitura para consultar as notas acaba por quebrar o ritmo da narrativa. E em vez de o leitor permanecer imerso na história, vê-se obrigado a alternar repetidamente entre o texto principal e as páginas finais do livro ou o marcador de página. Se fosse algo que acontece esporadicamente, eu não faria alusão alguma a esta situação. Mas é algo constante e recorrente. Dou-vos um exemplo: na página 105 do livro, encontramos os seguintes diálogos: "O que é que estás a fanzolic? É o que te dodom. Não acredito... Oh, Ciul! Vão-nos wyciepnac? E a nós também? E é quase Santa Bárbara! Greve? Estou mesmo a widza isso..." Acham que uma leitura assim é possível e agradável? Pois, eu também não.

E, por essa razão, considero que uma tradução integral das expressões em silésio para português, teria sido a opção mais adequada para a edição portuguesa. Enquanto um leitor polaco consegue geralmente inferir ou compreender o sentido das palavras em silésio devido à proximidade linguística e cultural, o leitor português parte de uma posição completamente diferente. Para se ser fiel à obra original, talvez se pudesse colocar o texto em silésio numa outra cor ou font... mas tudo devia ter sido traduzido para português. Lamentavelmente, isso não aconteceu.

Heksa - A Bruxa, de Katarzyna Witerscheim - A Seita
Até porque, e agora sim, focando-me mais na obra, este Heksa - A Bruxa até é uma leitura interessante. Tendo até recebido um importante prémio de BD em Lódz, a obra conta-nos a história de uma mulher que chega a uma comunidade operária na Silésia, nos anos 1920, e que, de um modo quase automático, causa verdadeiro tumulto nas gentes da terra. Não será um tema novo ou uma história completamente original - lembro-me de ter sido especialmente remetido para o filme Chocolate, com Juliette Binoche e Johnny Depp, que era baseado no livro homónimo de Joanne Harris. De facto, várias obras já exploraram esta ideia de uma mulher - ou um homem, como em Armazém Central, por exemplo - chegarem a uma localidade fechada e, por serem pessoas mais abertas ao mundo, terem chocado a pequena população dessa terra recôndita.

Neste caso, em Heksa - A Bruxa, no centro da narrativa está Pelagia, uma mulher independente, bela, sofisticada e carismática que desperta a atenção e o desejo de muitos habitantes, incluindo do jovem Alojz. Até as mulheres, pelo menos as mais jovens e mais abertas, querem ser como Pelagia. Mas, lá está, é precisamente por não corresponder ao comportamento esperado para uma mulher da época, que Pelagia acaba por se tornar alvo de rumores, suspeitas e acusações, sendo gradualmente associada à figura da bruxa (a tradução de "heksa") pela própria comunidade. Mais do que uma história sobrenatural, esta é uma reflexão sobre o medo da diferença, a intolerância e os mecanismos de exclusão social. 

Heksa - A Bruxa, de Katarzyna Witerscheim - A Seita
Gostei da história, mesmo achando que era clichet em alguns pontos e que alguns elementos da narrativa poderiam ter sido melhor explorados.

Em termos visuais, a obra agradou-me especialmente. Utilizando apenas o preto, o branco e o cor de rosa, a autora Katarzyna Witerscheim (que conta com o contributo de Xulm para o trabalho de colorização) oferece-nos um traço elegante, sensível e muito belo em termos estéticos. Destaco também a sensualidade que emana das ilustrações dos momentos mais íntimos de Pelagia e Alojz. 

O resultado é uma obra visualmente marcante, não diria deslumbrante, mas diria muito elegante e bela, em que a componente gráfica não se limita a ilustrar a história, mas participa ativamente na construção do seu ambiente e da sua carga emocional. Por ventura, até pode ser o que mais ressalta desta obra. Se bem que, volto a frisar, a história e, principalmente, o tema da história, também são interessantes.

Falando ainda da edição da obra, para além do pecado capital - já amplamente explicado por mim - da opção por se manter as muitas expressões da obra em silésio, o livro apresenta capa dura baça, com detalhes a verniz, e bom papel baço no seu interior. A encadernação e a impressão também são de boa qualidade. No final, há ainda duas belíssimas ilustrações adicionais, uma nota da autora e um storyboard de algumas páginas.

Em suma, Heksa - A Bruxa é uma obra que merece ser lida pelas qualidades da sua história, pela pertinência dos temas que aborda e, sobretudo, pela beleza do seu trabalho gráfico. Katarzyna Witerscheim constrói uma narrativa interessante sobre preconceito, exclusão e medo da diferença, apoiada por um universo visual elegante e muito expressivo. É por isso ainda mais frustrante que uma opção editorial bem-intencionada, mas inadequada ao contexto português, acabe por prejudicar de forma tão significativa a experiência de leitura.


NOTA FINAL (1/10):
6.7



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Heksa - A Bruxa, de Katarzyna Witerscheim - A Seita

Ficha técnica
Heksa - A Bruxa
Autora: Katarzyna Witerscheim
Editora: A Seita
Páginas: 120, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Maio de 2026

As novidades d' A Seita para o segundo semestre de 2026!


A Seita já fez saber quais as novidades de banda desenhada que espera editar durante o próximo semestre deste ano!

Entre as obras anunciadas, estão a confirmação da publicação de alguns livros que já aqui tinham sido dados a conhecer há uns meses e a adição de um bom número de obras de autores nacionais.

Há aqui vários títulos (portugueses e estrangeiros) que, confesso, estão a espevitar a minha curiosidade! Diria que é uma oferta bastante eclética, o que tem sido apanágio da editora.

A Seita faz saber que, naturalmente, este plano ainda poderá sofrer alguns ajustes, sobretudo ao nível das datas, aprovações e calendários de produção.

É aberto ainda o véu relativo a três obras que nos chegarão em 2027!

Por agora, são estas as obras que a editora portuguesa espera lançar até final do ano: