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quarta-feira, 9 de junho de 2021

Análise: Orwell

Orwell, de Pierre Christin e Sébastien Verdier - Ala dos Livros

Orwell, de Pierre Christin e Sébastien Verdier - Ala dos Livros
Orwell, de Pierre Christin e Sébastien Verdier

A Ala dos Livros lançou recentemente a obra Orwell, uma biografia desenhada do escritor incontornável George Orwell, que se tornou célebre com as obras O Triunfo dos Porcos e 1984. Os autores desta adaptação para banda desenhada são Pierre Christin, no argumento, e Sébastien Verdier, na arte.

Mas não estão sozinhos na conceção desta obra. Aparecem como artistas convidados, nomes importantes da 9ª arte como André Juilard, Butch, Enki Bilal, Juanjo Guarnido, Manu Larcenet ou Olivier Balez.

Depois da obra de Orwell ter entrado em domínio público, têm sido muitas as adaptações dos seus trabalhos para banda desenhada. Só em Portugal, num curto espaço de tempo, já foi lançado 1984, pela editora Alfaguara, e a editora Relógio D' Água, depois de lançar A Quinta dos Animais (também conhecido como O Triunfo dos Porcos), prepara-se para lançar uma outra adaptação para bd da obra 1984 que será, desta vez, assinada por Xavier Coste. Não esquecendo ainda a brilhante série da Arte de Autor, O Castelo dos Animais, que, não sendo uma adaptação direta de O Triunfo dos Porcos é, claramente, uma homenagem e uma reinterpretação dessa obra de Orwell.

Orwell, de Pierre Christin e Sébastien Verdier - Ala dos Livros
No caso da Ala dos Livros temos algo que, tocando nos mesmos pontos, é deveras diferente. Em vez de uma adaptação de um livro do autor britânico temos uma biografia que se preocupa em traçar com consistência aquilo que foi a vida de Orwell, cujo nome real era Eric Blair, e que acabou por se tornar um escritor emblemático da literatura moderna.

Se muitos poderiam achar que esta é uma biografia filosófica sobre os pressupostos, ideias e inspirações que levaram o autor a produzir obras como O Triunfo dos Porcos ou 1984, a verdade é que esta é uma biografia clássica na sua forma, tentando contar-nos a história do autor, desde a sua infância até à sua morte, cobrindo muitos episódios da vida pessoal de Orwell. Se há alguma interpretação sobre o estudo, influência e repercurssão da obra do autor é no epílogo deste livro, no capítulo intitulado Depois de Orwell. Porque, todo o resto do livro é muito mais factual do que interpretativo.

E esta não é uma vida qualquer! Mesmo que a obra do autor não fosse suficientemente relevante – e não hajam dúvidas que os seus dois livros mais famosos são absolutamente obrigatórios e obras-primas inequívocas da literatura mundial – a vida de Orwell já seria uma história muito interessante para contar. É que este foi um homem que nasceu em Bengala, estudou em Eton, que foi polícia na Birmânia, jornalista, cronista, naturalista, anti-estalinista e chegou mesmo a partir de malas e bagagens para combater na Guerra Civil Espanhola, pelo lado das forças milicianas do POUM.

Orwell, de Pierre Christin e Sébastien Verdier - Ala dos Livros
Todos estes eventos são alinhados e montados pelo argumentista Pierre Christin, de quem há uns dias analisei o álbum integral Lena, publicado em Portugal pela Arte de Autor. São claros o respeito e a devoção que Christin nutre por Orwell querendo, acima de tudo, apresentar-nos a vida de Orwell sem grandes interpretações e com um óbvio assento no que é factual. Nos eventos passados. Para se fazer valer de um texto mais interpretativo da pessoa que foi Orwell – e das suas considerações e convicções – Christin utiliza texto escrito por Orwell na primeira pessoa em que o mesmo opina, basicamente, sobre imensas e variadas coisas. Este texto aparece numa font diferente, num estilo de máquina de escrever, para que nós, leitores, possamos compreender facilmente quando é Orwell a falar na primeira pessoa. Parece-me uma excelente iniciativa por parte dos autores que, desta forma, complementam com ainda mais verossimilhança aquilo que nos é contado nesta biografia.

É verdade que, por um lado, gostaria que houvesse, a espaços, uma interpretação das pretenções e sugestões da obra de Orwell. Daquilo que ele queria dizer, daquilo que o levou a escrever determinada coisa em detrimento de outra. Parece-me, pois, que o texto acaba por ser, por vezes, demasiado factual, não dando espaço a uma reflexão mais profunda. Todavia, isso também revela um grande respeito e seriedade de Christin perante Orwell, nesta biografia. Mais do que argumentista, Christin é aqui um historiador.

Orwell, de Pierre Christin e Sébastien Verdier - Ala dos Livros
Porque o verdadeiro “poeta” neste livro é mesmo Sébastien Verdier que nos oferece um trabalho fabuloso no pelouro da ilustração. Este é um livro com desenhos verdadeiramente lindos e detalhados, que roçam a perfeição, dando-nos um trabalho fantástico que sabe explorar o preto e branco da melhor forma possível. Verdier apresenta um traço virtuoso, que dá atenção aos mais ínfimos detalhes de cada vinheta e que contribui para uma experiência sublime de leitura. A representação de Orwell e das restantes persoangens, a ilustração de ambientes, a linguagem corporal das personagens, a ilustração dos veículos, do espaço urbano, do espaço rural, do campo de batalha... enfim, qualquer coisa é representada por Verdier de uma forma absolutamente impressionante. E a utilização com graciosidade do espaço negativo é outra das mais valias aqui presentes. Admito que fiquei rendido à arte de Verdier!

Mas não ficamos por aqui! Se uma arte a preto e branco, com um estilo de ilustração realista, poderia parecer demasiado clássica e old school a alguns leitores mais céticos, devo dizer que os autores foram inteligentes e audazes o suficiente para saberem dar o “passo seguinte” e dotar este livro de elementos mais diruptivos do que aquilo que muitos poderiam antever. Assim, ao longo da leitura da obra, vamos sendo presenteados com vários elementos a cores. Seja uma vinheta totalmente a cores, que nos remete para as leituras que Orwell fazia na infância; seja numa moldura que aparece colorida num cenário a preto e branco; num incêndio na escola que o autor frequentou; na bandeira do Reino Unido; num pássaro a esvoaçar; ou num bonito roseiral... de forma cirúrgica vão sendo colocadas cores na arte de Verdier que conseguem dar à experiência final de leitura uma beleza ímpar, assente num enorme charme e carisma que roçam a poesia. Este Orwell em termos de ilustrações consegue ser clássico e moderno ao mesmo tempo.

Orwell, de Pierre Christin e Sébastien Verdier - Ala dos Livros
E, para além destas cores, também há espaço para a introdução de fotografias históricas ou as splash pages que procuram dar ao conjunto final uma sensação de diversidade e interpretação das obras do autor e de alguns momentos marcantes na sua vida. Que ideia fabulosa! Estas ilustrações avulsas são feitas pelos ilustres convidados que já referi acima e que funcionam como uma autêntica cereja em cima do bolo. Na verdade, e por muito que gostemos destes autores, não é o contributo deles que “salva” esta obra porque, sinceramente, este livro nem sequer precisava de ser “salvo”, tendo em conta a sua enorme qualidade. Não obstante, estes contributos acrescentam (ainda) mais relevância à obra, funcionando como a tal cereja em cima do bolo. O que cada um destes autores faz é uma ou várias ilustrações que ocupam duas páginas e que ilustram determinada obra ou momento da vida de Orwell. Uma ideia simples mas que funcionou muito bem.

Quanto à edição da Ala dos Livros, este é mais um livro soberbo! A capa é dura, revestida a tecido e o livro apresenta um fio marcador de página (que classe que este pequeno elemento atribui a qualquer livro, na minha opinião!) e papel de boa qualidade. O grafismo da edição também está em linha com todo o charme e classe que a obra também emana. Acredito que seja um forte candidato ao VINHETA D’OURO 2021 para melhor edição.

Em conclusão, devo dizer que aqueles que procuravam (mais) um livro sobre 1984 ou O Triunfo dos Porcos poderão ter aqui as suas expetativas defraudadas. E apenas por um motivo: é que esta biografia desenhada de George Orwell até é bem mais do que isso. Centra-se mais na figura que foi o autor e nos principais momentos da sua vida, homenageando e relembrando, ainda assim, as principais obras de Orwell. Não se precisa gostar do autor - ou de algum dos seus livros - para se poder apreciar esta fantástica obra que, em boa hora, a Ala dos Livros decidiu lançar.

Estou certo que, mesmo tendo em conta que 2021 está a ser um ano espetacular no que ao lançamento de boa banda desenhada em Portugal diz respeito, haverá espaço para abarcar este Orwell como um dos melhores livros deste ano em Portugal. Parabéns por mais uma excelente aposta, Ala dos Livros!


NOTA FINAL (1/10):
9.4


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Orwell, de Pierre Christin e Sébastien Verdier - Ala dos Livros

Ficha técnica
Orwell
Autores: Pierre Christin e Sébastien Verdier
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 160, a cores
Encadernação: Capa dura em tecido
Lançamento: Maio de 2021

quarta-feira, 2 de junho de 2021

Lançamento: Orwell




A Ala dos Livros acaba de lançar a obra Orwell, uma biografia deste escritor incontornável - autor dos célebres O Triunfo dos Porcos e 1984 - que é assinada por Pierre Christin e Sébastien Verdier. 

Mas além destes, também participam na obra outros autores de referência como André Juilard, Butch, Enki Bilal, Juanjo Guarnido, Manu Larcenet ou Olivier Balez.

Acaba de me chegar um exemplar às mãos e posso dizer que a qualidade da edição, com uma fantástica capa dura em tecido, me deixou entusiasmado com o magnífico trabalho de edição da Ala dos Livros, que não pára de me surpreender. Não conheço a obra mas estou muito curioso em relação à mesma.

Brevemente haverá uma análise a Orwell, a biografia de George Well, aqui no Vinheta 2020.
Mas, para já, deixo abaixo a nota de imprensa e algumas imagens promocionais.


Orwell, de Pierre Christin e Sébastien Verdier

George Orwell foi um dos escritores mais célebres do século XX. Tornou-se famoso graças a obras como O Triunfo dos Porcos ou 1984 (que escreveu em 1948) onde antecipa, há mais de 70 anos com o seu profético Big Brother, o controlo dos media, a Internet e a manipulação dos dados pessoais. 

Mas a vida de George Orwell é tão apaixonante quanto os seus livros: é a vida de um homem sempre à frente do seu tempo, que estudou em Etron, que foi polícia na Birmânia, jornalista, anti estalinista e que combateu na Guerra Civil Espanhola ao lado das milícias do POUM. 

É esta vida fora do comum que Pierre Christin (argumentista, entre outras, da mítica série Valérian), e Sébastien Verdier revisitam, dando-nos a conhecer os aspectos mais relevantes da vida do escritor e a forma como estes influenciaram a sua obra literária.

Inicialmente publicada em 2019, Orwell, a biografia desenhada que a Ala dos Livros agora apresenta, é uma obra prodigiosa que conta com autores convidados como Guarnido, Butch, Manu Larcenet ou Enki Bilal.


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Ficha técnica
Orwell
Autores: Pierre Christin e Sébastien Verdier
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 160, a cores
Encadernação: Capa dura em tecido
PVP: 24€

terça-feira, 18 de maio de 2021

Análise: Lena (Edição Integral)

Lena (Edição Integral), de Pierre Christin e André Juillard - Arte de Autor


Lena (Edição Integral), de Pierre Christin e André Juillard - Arte de Autor
Lena (Edição Integral), de Pierre Christin e André Juillard

A Arte de Autor engrossou o seu catálogo de banda desenhada com Lena, o seu lançamento mais recente. Esta é uma obra com argumento de Pierre Christin, autor da célebre série Valérian, e com ilustrações de André Juillard, que tem colaborado em alguns álbuns da série Blake e Mortimer.

Este Lena tem como característica distintiva o facto de ser um álbum triplo, uma edição integral que reúne, num só volume, os três tomos de Lena. O primeiro, A Longa Viagem de Lena, foi originalmente lançado em 2006, o seguinte, Lena e as Três Mulheres, em 2009 e o último, Lena em Pleno Braseiro chegou às livrarias francesas em 2020.

Embora existam alguns pontos de contacto entre as histórias deste livro, as mesmas são independentes entre si. Portanto, lidos de forma isolada, estes 3 tomos até funcionam bem. Mas também é claro que, lidos de forma seguida, a sensação de leitura fluída sai mais beneficiada. Mesmo assim, acho curioso como, mesmo tendo uma linguagem comum nas três obras, existam diferenças claras entre as três narrativas. Mas já lá irei.

Lena (Edição Integral), de Pierre Christin e André Juillard - Arte de Autor
Olhando na globalidade para esta obra, acho que interessa apontar que estamos perante um romance de cariz político, que tem como pano de fundo a atividade de espionagem e serviços secretos na luta contra (e a favor) do terrorismo internacional. Algo bastante atual e que procura ser o mais realista possível. Talvez (também) por isso, Lena apresente uma linha narrativa bastante lenta, pontuada pela presença de muito texto. Acho que essa é logo a primeira sensação que a obra nos dá.

Tem um ritmo muito lento que, por vezes, até pode tornar-se entediante para muitos leitores. Não obstante, também é verdade que mesmo sem nos dar cenas de ação, propriamente dita, Pierre Christin sabe dar-nos, praticamente ao longo de todo o livro, uma sensação ominipresente de tensão. Estamos sempre à espera de algo que possa correr mal, de sermos surpreendidos. E isso é, sem dúvida, um ponto a favor deste Lena. Algo que assegura a atenção daqueles que até poderiam lamentar a ausência de cenas de ação.

A protagonista é Lena, que dá nome à série. Uma mulher serena, algo masculina – mas elegante - e admiradora de nadar sempre que as suas viagens o permitem. É uma personagem misteriosa que prende a nossa atenção desde o início. No primeiro volume, A Longa Viagem de Lena, a sensação de leitura para mim foi diferente dos tomos seguintes. Como desconhecia a série e como resisti a ir procurar informações antes de iniciar a minha leitura, não sabia com o que contar. E, devo dizer, que já não me lembrava de um livro de bd que me deixasse tanto na escuridão, durante tanto tempo, como o primeiro tomo deste Lena. É que, mesmo sendo o primeiro volume da série, este A Longa Viagem de Lena, não se preocupa em traçar um perfil da protagonista ou da história. As coisas vão-nos sendo dadas aos poucos. A conta-gotas. Não sabemos de onde vem nem para onde vai Lena. E tudo o que nos é dado a testemunhar, são as diferentes paragens que a protagonista vai fazendo durante a sua viagem.

Lena (Edição Integral), de Pierre Christin e André Juillard - Arte de Autor
Começa em Berlim-Leste, onde um homem lhe entrega uma lista com nomes e números de telefone que Lena tem que decorar antes de destruir. Mesmo à Missão Impossível! Depois disto, a protagonista viaja para as cidades de Budapeste, Kiev e Odessa, antes de passar também pela Turquia e pela Síria. Em todas essas paragens Lena dá um objeto a cada uma das pessoas com quem se encontra. Até que, no final, todos esses objetos pessoais – e as pessoas que os transportam - contribuem entre si para criar algo maior e mais importante, com consequências políticas. Nada mais devo comentar sobre a história. Mas digo apenas que achei o ritmo demasiado lento e, por vezes, a roçar o entediante. Mesmo assim, dou crédito ao autor por conseguir prender a minha atenção até ao culminar da história. Se o final vale a pena? Gostei mas não sei se esteve à altura de tanta “espera narrativa”, chamemos-lhe assim. O background pessoal de Lena também nos é revelado já na parte final da obra. E isso dá força à personagem de Lena, sem dúvida.

Quanto à segunda história, Lena e as Três Mulheres, o autor já não podia brincar ao “jogo do rato e do gato” com o leitor, uma vez que já conhecíamos a personagem de Lena e as suas pretensões. Optou, portanto, por uma abordagem narrativa mais clássica. Creio que resultou muito bem. Este segundo conto é, aliás, e na minha opinião, o mais bem conseguido dos três, em termos globais. Lena e as Três Mulheres arranca com Lena refugiada na Austrália – devido aos eventos do primeiro tomo – onde agora tenta levar uma vida dita normal. Mas os Serviços Secretos voltam a conseguir chamá-la para mais uma missão. A partir da Geórgia e de um campo de treino subsariano, Lena tem como objetivo apoiar e instruir três mulheres que farão um atentado suicida ao serviço da Jihad, em pleno coração parisiense. Todas essas mulheres são bastante diferentes entre si, o que nos permite um breve vislumbre a essas pessoas (reais) que o mundo oriental tem utilizado nas suas missões geo-políticas. Acaba por ser interessante a ironia de vermos Lena a infiltrar-se num grupo que procura, também ele, infiltrar-se na sociedade ocidental para a destruir a partir de dentro. Como se o autor estivesse, com esta história, a oferecer aos membros da Jihad um pouco do seu próprio veneno. Acho que funcionou muito bem e que é a história mais completa e bem conseguida entre as três.

Lena (Edição Integral), de Pierre Christin e André Juillard - Arte de Autor
Finalmente, no último tomo, Lena em Pleno Braseiro, encontramos Lena num hotel situado numa região distante e montanhosa dos Estados Unidos, onde decorre em segredo uma conferência com membros de países tão antagónicos entre si como o Irão, a Turquia, os Estados Unidos, a Rússia, a França, a Alemanha, entre outros, cujo objetivo é discutir a crise que abala a Síria. O papel de Lena é organizar a conferência e deixar todos estes diplomatas felizes. Claro que, à semelhança de um conto de Agatha Christie, cada um dos diplomatas parece guardar segredos inconvenientes e ter segundas intenções. Devo dizer que, dos três tomos, este foi o menos bem conseguido, na minha opinião. A história torna-se demasiado teórica, quase burocrática, sem que a atenção do leitor seja agarrada por parte do autor. Na verdade, até admito que tive que fazer um certo esforço para conseguir terminar a história. Ao contrário do Tomo 1 em que, mesmo estando “às escuras”, o nosso interesse estava desperto, aqui pareceu-me uma narrativa onde há imensos balões de fala e de narração mas onde, na verdade, pouco ou nada se passa. E mesmo o final, também me pareceu que carece de alguma inspiração. Está muito tempo sem acontecer nada e quando acontece, é tudo feito um bocado “a martelo”, de forma algo forçada.

Lena (Edição Integral), de Pierre Christin e André Juillard - Arte de Autor
De facto, e olhando para o argumento de todos os tomos, Christin dá-nos demasiado texto para digerir. Ou, por outras palavras, acho que poderia ser contado o mesmo com o recurso a (muito) menos texto. Temos a narração da protagonista – que nos vai contando os seus pensamentos na primeira pessoa – e que funciona bastante bem, a meu ver. Mas, depois, temos os balões de diálogo onde há demasiado texto envolvido que acaba por se tornar redundante em várias vezes.

Se as histórias dos três tomos que constituem esta edição integral são diferentes quanto ao argumento, em termos de ilustração, pode-se dizer que há uma total harmonia gráfica. O estilo clássico, em linha clara, de André Juillard, remeteu-me para outras séries clássicas da banda desenhada franco-belga como IRS, Largo Winch ou XIII. Um estilo de ilustração muito sóbrio, quase vintage, que não arrisca muito em termos de dinâmica, de planificação ou até na conceção das personagens, focando-se em proporcionar uma linguagem gráfica madura e eficaz, sem grandes divagações artísticas.

Creio que as ilustrações de Juillard se coadunam muito bem nas histórias de cariz político que Christin nos dá neste Lena. Diria que, por vezes, gostaria de ter sentido mais dinâmica e coragem do autor em termos gráficos. E também as emoções das personagens poderiam ser mais vincadas e a escolha de planos mais chamativa. E digo isto com a ideia de poder transformar a narrativa, talvez serena demais, em algo mais dinâmico e que prendesse mais a nossa atenção. Porém, também é verdade que os desenhos são maioritariamente bonitos. Para os amantes das séries que mencionei acima ou de outras bds franco-belgas mais clássicas, acho que a arte ilustrativa que Juillard nos oferece neste Lena, será de grande valor. Quanto a mim, considero que não é um desenho magnífico mas que é agradável, de forma genérica. Há pois uma sensação de revivalismo nesta banda desenhada. Embora o primeiro tomo “só” seja de 2006 (e o terceiro até seja de 2020), este parece ser um livro saído diretamente dos anos 80, em termos de história e de arte visual.

Lena (Edição Integral), de Pierre Christin e André Juillard - Arte de Autor
Quanto à edição, e repetindo aquilo que tenho vindo a escrever sobre as edições da Arte de Autor, este Lena apresenta uma qualidade fantástica. Boa encadernação, com capa dura de textura aveludada, bom papel e, claro, o plus de ser uma edição integral.

Aplaudo esta iniciativa da editora em avançar para uma edição integral pois considero que conter uma história inteira num só livro, num só objeto, é sempre uma mais valia para o leitor. E, nesse sentido, isto que a Arte de Autor fez com Lena é pensar nos seus leitores. Se olharmos para o preço total da obra (31€) até o podemos considerar algo avultado. Porém, se tivermos em conta que é um livro que contém no seu interior 3 livros, então estamos a pagar pouco mais do que 10€ por livro. O que é fantástico! Além disso, pelo menos na minha opinião, é muito mais preferível ler tudo de enfiada, num só livro, do que estar a ler as obras as poucos.

Em conclusão, diria que Lena é uma aposta interessante e com qualidade por parte da Arte de Autor. Não estará, a meu ver, entre as suas melhores obras, mas é uma boa banda desenhada, que vale a pena conhecer. Especialmente para todos aqueles que têm interesse em espionagem, serviços secretos e relações internacionais. E claro, tudo isto embrulhado numa fantástica edição integral que contém 3 tomos num só volume. Não será fácil para muitos resistir a esta oferta tão apetecível.


NOTA FINAL (1/10):
8.2



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Lena (Edição Integral), de Pierre Christin e André Juillard - Arte de Autor

Ficha técnica
Lena (Edição Integral)
Autores: Pierre Christin e André Juillard
Editora: Arte de Autor
Páginas: 176, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Maio de 2021

segunda-feira, 10 de maio de 2021

Lançamento: Lena (Edição Integral)





A Arte de Autor acaba de anunciar mais um lançamento de banda desenhada! E desta vez trata-se de um volume integral que reúne 3 tomos numa só edição.

Falo de Lena, um romance de cariz político, da autoria de Pierre Christin e André Juillard, que compila os três tomos que constituem esta mini-série, nomeadamente A Longa Viagem de Lena, Lena e as Três Mulheres e Lena em Pleno Braseiro.

Confesso que pouco ou nada conheço sobre esta série mas, naturalmente, há já duas coisas que estão a despertar o meu interesse: 1º as ilustrações da obra, parecem-me muito elegantes e bonitas; e 2º como a Arte de Autor raramente falha nas suas apostas editoriais, acredito que possa ser mais uma série de qualidade por parte da editora.

Outra coisa que aplaudo ainda é a opção por um lançamento integral. Conter uma história inteira num só livro, num só objeto, é sempre uma mais valia, a meu ver.

Abaixo, fiquem com as sinopses da obra e com as imagens promocionais.


Lena (Edição Integral), de Pierre Christin e André Juillard

Lena é uma série de ficção política que conduz o leitor aos bastidores das alterações geopolíticas que marcaram a história do século xx e xxi.


A Longa Viagem de Lena

Ela chama-se Lena. É uma jovem morena, elegante e misteriosa. Ignoramos de onde vem e para onde vai. A sua viagem começa em Berlim-Leste, no bairro onde vivem os antigos dignitários de um regime apagado pelos ventos da História. Lena vai visitar um homem que lhe entrega uma lista de nomes e números de telefone, que ela decora antes de destruir. Depois de Berlim, virá Budapeste e um outro encontro. E depois de Budapeste, Kiev, Odessa, a Turquia e a Síria. De cada vez, um encontro. Poucas palavras são pronunciadas, apenas um objecto estranho é dado por Lena ao seu destinatário: um frasco de perfume, um estojo de emergência para diabéticos. Com A longa viagem de Lena, Pierre Christin e André Juillard conduzem o leitor através de uma Europa onde se entrelaça o presente e o passado. 

Uma Europa onde os sobressaltos de uma História não muito longínqua parecem prolongar-se em estranhos projectos partilhados por aquelas mulheres e homens com quem Lena se cruza. Mas, ela própria, que papel desempenha? Christin e Juillard deixam pairar a dúvida sobre as suas intenções. Como pano de fundo, adivinham-se as sombras do terrorismo internacional alimentado pela frustração de um passado que parecia enterrado, o do ideal comunista. Narração de um percurso que não é como outros, impregnado de nostalgia e melancolia. A longa viagem de Lena permite a Pierre Christin dar livre curso ao seu interesse pela História e pelo destino contrariado dos países do Leste.



Lena e as Três Mulheres

Refugiada na Austrália, Lena tenta reconstruir a sua vida longe da violência cega dos atentados. Os serviços secretos, entretanto, não a esqueceram. Em breve ela volta a mergulhar na loucura humana, passando por uma Geórgia perturbada e um campo de treino subsariano, antes de acabar num esconderijo parisiense na companhia de três mulheres destinadas ao martírio. Pierre Christin e André Juillard voltam a formar a dupla que tanto nos perturbou com A longa viagem de Lena e assinam uma obra rara, ao mesmo tempo política e contemplativa, que nos permite decifrar o nosso torturado mundo.



Lena em Pleno Braseiro

Numa região perdida do norte da América, uma importante conferência desenrola-se no maior segredo, reunindo representantes de diferentes países (Irão, Turquia, Estados Unidos, Rússia, França, etc.) com o objectivo de discutir a crise que sacode o Médio Oriente, incluindo a Síria, que é objecto de considerações geopolíticas. Os diplomatas confrontam os seus pontos de vista, oferecendo por vezes um espectáculo chocante num mundo ameaçado, pronto a explodir... Lena assiste a essa conferência, que tem de supervisionar, não sem dificuldades... Dez anos depois do segundo tomo, Pierre Christin e André Juillard reencontram-se graças a Lena, a personagem que é o centro de uma narrativa de rara inteligência, onde as questões geopolíticas estão mais presentes que nunca.

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Ficha técnica
Lena (Edição Integral)
Autores: Pierre Christin e André Juillard
Editora: Arte de Autor
Páginas: 176, a cores
Encadernação: Capa dura
PVP: 31,00€