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quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Análise: Ascender - Volumes 2, 3 e 4

Ascender - Volumes 2, 3 e 4, de Jeff Lemire e Dustin Nguyen - G. Floy Studio Portugal

Ascender - Volumes 2, 3 e 4, de Jeff Lemire e Dustin Nguyen - G. Floy Studio Portugal
Ascender - Volumes 2, 3 e 4, de Jeff Lemire e Dustin Nguyen

Hoje falo-vos de Ascender, uma minisérie composta por 4 volumes, da autoria de Jeff Lemire e de Dustin Nguyen. Esta é uma obra que funciona como sequela da série maior Descender, da qual já aqui falei. Aliás, o próprio primeiro volume de Ascender - A Galáxia Assombrada, também já aqui foi analisado.

Agora que voltei a pegar nesta obra, a minha sensação não difere muito daquela com que tinha ficado quando li esse primeiro volume da série. É que Ascender nasceu com uma tarefa algo ingrata: a de dar continuidade a Descender, que é em tudo superior a este segundo trabalho. Depois de um universo dominado por máquinas, inteligência artificial e conflitos galácticos, o argumentista Jeff Lemire, do qual sou confesso fã, optou por uma mudança radical de paradigma, substituindo a tecnologia pela magia e transformando uma space opera futurista numa fantasia mais cósmica. 

Ascender - Volumes 2, 3 e 4, de Jeff Lemire e Dustin Nguyen - G. Floy Studio Portugal
Nestes volumes 2, 3 e 4, intitulados, respetivamente, O Mar dos Mortos, O Mago Digital e Semente Estelar, a jovem Mila continua a assumir o centro da ação. À medida que os segredos da sua origem e do seu papel neste novo universo vão sendo revelados, aos poucos, a protagonista vê-se envolvida num conflito cada vez maior, onde magia, destino e sobrevivência se cruzam constantemente. Paralelamente, algumas personagens oriundas de Descender, como Andy, Effie ou o carismático TIM-21, aparecem nesta nova narrativa, permitindo a Jeff Lemire criar uma ponte mais sólida entre as duas séries.

Aquilo que inicialmente parecia ser apenas uma luta de sobrevivência transforma-se gradualmente numa história acerca da natureza do poder, da herança e do equilíbrio entre forças opostas. Ascender é quase o oposto simétrico de Descender. E procura ser um final para ambas as sagas. Sem entrar em detalhes que estraguem a experiência de quem ainda não leu a obra, diria apenas que os vários fios narrativos são reunidos para um desfecho que procura fazer justiça às personagens e ao universo criado pelos autores ao longo de dez volumes, somando Descender e Ascender.

Ascender - Volumes 2, 3 e 4, de Jeff Lemire e Dustin Nguyen - G. Floy Studio Portugal
Tal como já tinha sentido ao ler o primeiro tomo desta nova série, continuo a considerar que Ascender não alcança o mesmo fulgor da série que a precedeu. A saga original apresentava uma premissa particularmente forte e abordava temas fascinantes relacionados com a inteligência artificial, a consciência das máquinas e a relação entre criador e criatura. Eram ideias muito estimulantes e que davam à obra um peso conceptual significativo. Em Ascender, a aposta na fantasia e na magia trouxe novidade ao universo criado pelos autores, é certo, mas também retirou alguma da identidade que tornava Descender tão especial. Pelo menos, quanto a mim.

Além de que um dos problemas que já tinha identificado em Descender continua igualmente presente aqui. Jeff Lemire tem uma enorme imaginação e uma grande capacidade para criar universos ricos e complexos. No entanto, também demonstra alguma tendência para introduzir demasiadas personagens, demasiadas ramificações e demasiados subplots. Por vezes, a história parece mais preocupada em expandir o seu universo do que em aprofundar a narrativa principal. Apesar disso, importa reconhecer que Ascender continua a ser uma leitura cativante. 

Ascender - Volumes 2, 3 e 4, de Jeff Lemire e Dustin Nguyen - G. Floy Studio Portugal

Onde não existe quebra de qualidade é na componente gráfica ao nível da originalidade. Dustin Nguyen continua absolutamente extraordinário. O seu estilo permanece inconfundível e imediatamente reconhecível. As linhas soltas, os esboços assumidos e a utilização das aguarelas criam uma estética visual que considero única no panorama da banda desenhada atual.

E is cenários naturais, os ambientes mágicos e as criaturas fantásticas que aparecem nesta história parecem feitos à medida do seu talento. Muitas páginas assemelham-se mais a ilustrações de um livro de arte do que a vinhetas de uma série de banda desenhada convencional, havendo uma beleza muito própria na forma como as cores se espalham pelas páginas e ajudam a criar uma atmosfera simultaneamente delicada e fantástica.

Mesmo assim, nem neste ponto as coisas são perfeitas. Há alguns desenhos, especialmente no quarto e último volume da série, que revelam claramente terem sido feitos um pouco "à pressa". Bem sei que o estilo do autor é este mesmo, assumindo o esboço do desenho, mas ainda assim, torna-se mais evidente no último volume que houve um desenho menos aprimorado, talvez pela necessidade do cumprimento de um prazo mais apertado. Digo eu.

Em termos de edição, o trabalho da G. Floy Studio volta a demonstrar-se bastante bem executado. Os livros apresentam capa dura baça, bom papel brilhante no miolo e uma boa encadernação e impressão. Apenas o livro 3 apresenta conteúdo adicional. Neste caso, trata-se de um excerto de um guião.

Em suma, os livros 2, 3 e 4 de Ascender confirmam aquilo que já me parecia evidente após a leitura do primeiro volume: estamos perante uma continuação interessante para o universo criado por Jeff Lemire e Dustin Nguyen, ainda que sem atingir o mesmo nível de qualidade da série original. A história mantém interesse, as personagens continuam cativantes e a arte permanece deveras deslumbrante. Pode não possuir o impacto emocional e conceptual de Descender, mas continua a ser uma leitura recomendável para quem deseja regressar a este fascinante universo de máquinas, magia, família e destino.


NOTA FINAL (1/10):
8.2



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Ascender - Volumes 2, 3 e 4, de Jeff Lemire e Dustin Nguyen - G. Floy Studio Portugal

Fichas técnicas
Ascender #2 – O Mar dos Mortos
Autores: Jeff Lemire e Dustin Nguyen
Editora: G. Floy Studio
Páginas: 128, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Fevereiro de 2022

Ascender - Volumes 2, 3 e 4, de Jeff Lemire e Dustin Nguyen - G. Floy Studio Portugal

Ascender #3 – O Mago Digital
Autores: Jeff Lemire e Dustin Nguyen
Editora: G. Floy Studio Portugal
Páginas: 104, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 18 x 27,5 cm
Lançamento: Setembro de 2022

Ascender - Volumes 2, 3 e 4, de Jeff Lemire e Dustin Nguyen - G. Floy Studio Portugal

Ascender #4 - Semente Estelar
Autores: Jeff Lemire e Dustin Nguyen
Editora: G. Floy Studio Portugal
Páginas: 112, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 18 x 27,5 cm
Lançamento: Fevereiro de 2023

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Análise: Venom - Preto, Branco & Sangue

Venom - Preto, Branco & Sangue, de Vários Autores - G. Floy Studio

Venom - Preto, Branco & Sangue, de Vários Autores - G. Floy Studio
Venom - Preto, Branco & Sangue, de Vários Autores

Foi no mês passado que a editora G. Floy Studio lançou o seu primeiro(!) e único livro neste ano de 2026, o que é clara prova da cada vez maior inatividade da editora em Portugal. Isso deixa-me especialmente triste, pois a editora tem um conjunto extremamente relevante de belas obras que foi lançando por cá, tornando-se uma referência editorial. Como tal, a sua inatividade não pode ser uma boa notícia para os amantes de BD. Faço, por isso, votos para que esta seja apenas uma fase da editora e que a mesma possa regressar em grande. A ver vamos...

A obra em questão é o novo volume da série Preto, Branco & Sangue que desta vez é dedicado à personagem de Venom. Esta é, aliás, uma série que, aquando do seu aparecimento, parecia trazer uma lufada de ar fresco ao universo dos super-heróis. A ideia era simples, mas eficaz: reunir vários autores em histórias curtas, restritas a uma paleta cromática assente no preto, branco e vermelho, e permitindo abordagens mais livres, experimentais e visualmente marcantes. Numa fase inicial, especialmente com os dois primeiros livros dedicados a Wolverine e a Carnificina, esta fórmula revelou-se, quanto a mim, bastante apelativa. Contudo, à medida que os volumes se vão multiplicando - e já são oito, no total - começa também a tornar-se evidente que a novidade e a frescura do conceito já não detém o mesmo impacto. Parece uma premissa bastante "reciclada".

Venom - Preto, Branco & Sangue, de Vários Autores - G. Floy Studio
Neste volume dedicado a Venom, encontramos um conjunto de histórias independentes protagonizadas pelo simbionte mais popular da Marvel. Tal como acontece nos restantes títulos da coleção, o livro aposta numa estrutura antológica, reunindo diferentes equipas criativas que exploram facetas distintas da personagem em 12 histórias curtas. O resultado é inevitavelmente desigual - como é habitual em antologias - mas também suficientemente diversificado entre si.

Um dos principais méritos do livro reside precisamente nessa liberdade criativa, pois permite que, aqui e ali, possamos ser surpreendidos. Quer em termos narrativos, quer em termos visuais. Ao não estarem condicionados pela continuidade regular das séries mensais, os autores podem experimentar conceitos mais invulgares, explorarando cenários alternativos ou simplesmente contando pequenas histórias autocontidas sem grandes consequências para o universo Marvel. Essa liberdade narrativa acaba por favorecer algumas das melhores histórias do volume, como Doce Será a Flor, de Ryan North, Creees Lee e Andres Mossa; Relação Tóxica, de Carl Pott e Damian Couceiro; ou Luzinha, de Chris Bachalo e Jaime Mendoza. O conjunto de autores que participam nesta antologia volta a ser constituído por alguns autores menos conhecidos e outros de maior renome, como, por exemplo, J.M. DeMatteis, Al Ewing ou Erik Larsen.

Venom - Preto, Branco & Sangue, de Vários Autores - G. Floy Studio
Ainda assim, também é verdade que essa estrutura mais livres gera inevitavelmente oscilações de qualidade. É verdade que algumas histórias revelam ideias interessantes e conseguem explorar eficazmente o lado monstruoso, violento e até trágico de Venom, mas outras, pelo contrário, parecem exercícios relativamente superficiais, baseados mais numa premissa visual forte do que numa verdadeira substância narrativa.

Sim, porque em termos visuais, este volta a ser um livro muito bem executado, tal como os outros da série. Vê-se que cada ilustrador se aplicou bastante na feitura da sua história. Talvez por esse motivo, já por mim mencionado, do formato curto lhes permitir arriscar em soluções que dificilmente encontrariam espaço numa série regular de longa duração.

Mesmo assim, a fragilidade deste livro, tal como dos mais recentes desta série, é que nem mesmo a excelência gráfica consegue esconder totalmente a sensação de repetição que começa a afetar esta linha editorial. E aquilo que inicialmente parecia um laboratório criativo cheio de potencial tem-se transformado, em certa medida, numa fórmula reconhecível e até algo previsível.

Quanto à edição da G. Floy Studio, a mesma mantém-se irrepreensível. O livro apresenta capa dura baça, bom papel brilhante no interior, boa encadernação e boa impressão. No final, há ainda um conjunto de 14 capas alternativas, todas elas muito impressionantes do ponto de vista do desenho e do conceito gráfico.

Em suma, Venom - Preto, Branco e Sangue permanece uma leitura competente e globalmente satisfatória. Tem algumas histórias interessantes, alguns momentos visuais impressionantes e demonstrações cativantes da versatilidade da personagem. Contudo, este livro também reforça a ideia de que esta coleção começa a evidenciar um certo desgaste conceptual. Continua a ser uma boa plataforma para experimentações narrativas e gráficas, sim, mas o efeito de novidade dissipou-se há alguns volumes atrás. 


NOTA FINAL (1/10):
7.0



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Venom - Preto, Branco & Sangue, de Vários Autores - G. Floy Studio

Ficha técnica
Venom - Preto, Branco & Sangue
Autores: Vários
Editora: G. Floy Studio
Páginas: 152, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 18 x 27,5 cm
Lançamento: Julho de 2026

terça-feira, 7 de julho de 2026

G. Floy Studio lança novo livro dedicado a Venom!



À semelhança do que aconteceu no ano passado, a G. Floy Studio regressa ao lançamento de banda desenhada, com o seu primeiro livro do ano a chegar até nós apenas no segundo semestre.

Falo de Venom - Preto, Branco & Sangue. Este volume continua a série Preto, Branco & Sangue, que consiste em antologias dedicadas a uma personagem Marvel. A característica especial em termos visuais dos álbuns constantes nesta coleção, é que as histórias são-nos dadas a preto e branco, com a cor vermelha a ter, depois, destaque. São vários os autores - uns mais veteranos, outros mais emergentes - que participam.

Desta vez, as histórias são dedicadas a Venom, um dos vilões - ou anti-heróis - do universo Homem-Aranha.

O livro deverá chegar às bancas a partir de amanhã e às livrarias na semana seguinte, a partir do dia 15 de julho.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.


Venom – Preto, Branco & Sangue, de vários autores

A sobrevivência exige sacrifícios — e cada gota de sangue tem uma história para contar.

Venom: Preto, Branco & Sangue é uma arrepiante colecção de contos intensos a preto e branco com toques de vermelho, nos quais o simbionte é desencadeado na sua forma mais primal e intransigente.

Cada capítulo permite ao leitor embrenhar-se no elo volátil entre hospedeiro e parasita, revelando Venom não só como um anti-herói dividido, mas também como uma imparável força da natureza.

Leitura obrigatória para fãs de narrativas sombrias e arte impactante, pela mão de lendas dos comics como J.M. DeMatteis, Al Ewing, Erik Larsen e Chris Bachalo.

Este álbum reúne as histórias publicadas originalmente em Venom: Black, White & Blood #1–4.



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Ficha técnica
Venom - Preto, Branco & Sangue
Autores: Vários
Editora: G. Floy Studio
Páginas: 152, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 18 x 27,5 cm
PVP: 23,00€

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Análise: Saga - Volumes 11 e 12

Saga - Volumes 11 e 12, de Brian K. Vaughan e Fiona Staples - G. Floy Studio Portugal

Saga - Volumes 11 e 12, de Brian K. Vaughan e Fiona Staples - G. Floy Studio Portugal
Saga - Volumes 11 e 12, de Brian K. Vaughan e Fiona Staples

Hoje falo-vos dos mais recentes volumes da série Saga, de Brian K. Vaughan e Fiona Staples, que a editora G. Floy Studio continua a editar por cá.

A série deverá ter, no seu total, 18 volumes, pelo que, não estando para já próximo o seu fim, a verdade é que já faltou mais. 

Falando-vos, então, dos volumes 11 e 12 da série, posso afirmar que a saga de Alana e Marko continua a surpreender, mesmo depois de mais de uma década de histórias. Brian K. Vaughan mantém a habilidade de levantar questões morais e existenciais, explorando temas como a família, o amor, a guerra e a lealdade, sem nunca se tornar pesado ou pretensioso. É um autêntico "guisado" de vários temas, como já pude dar conta na análise conjunta que fiz aos primeiros dez volumes da série.

Saga - Volumes 11 e 12, de Brian K. Vaughan e Fiona Staples - G. Floy Studio Portugal
Como escrevi na altura, "aquilo que é realmente magnífico em Saga, não é a ficção, não é a fantasia, não é a ação, não é a guerra… O que é fantástico é a história e as personagens e, especialmente, a narrativa em que a série se apoia".

E nestes volumes 11 e 12 vemos que a série continua a conseguir equilibrar momentos de ação e drama com pausas mais intimistas. O leitor sente que cada capítulo serve para aprofundar personagens, ao mesmo tempo que move a história em frente de forma consistente.

Apesar de já não ter o fulgor inicial que os primeiros volumes tinham, Saga mantém-se cativante e coerente. Não há tropeços narrativos graves, apenas a sensação de que alguns acontecimentos já não têm o mesmo impacto de surpresa que tiveram em volumes anteriores. Ainda assim, a leitura continua agradável e fluida.

O argumentista Brian K. Vaughan continua a explorar dilemas morais, desta vez de forma mais madura e reflexiva, com as personagens a serem confrontadas com escolhas difíceis, que as testam como família, como guerreiras e como indivíduos. O resultado é um equilíbrio entre ação, reflexão e emoção que mantém o interesse do leitor.

Saga - Volumes 11 e 12, de Brian K. Vaughan e Fiona Staples - G. Floy Studio Portugal
E até mesmo as personagens secundárias, um dos outros pontos fortes da série, continuam a brilhar. Cada figura que cruza o caminho de Alana e Hazel tem motivações claras e distintas, e muitas vezes oferecem momentos de humor, ternura ou tensão que equilibram a narrativa e a tornam verosímil.

Já em termos de ritmo, estes volumes mostram uma série que se acomoda na sua própria narrativa. Não parece haver pressa para resolver certas tramas secundárias ou para lançar novos elementos. Por um lado, isso funciona a favor da profundidade emocional e da construção do universo que Vaughan e Staples criaram, mas por outro lado, pode dar uma certa sensação de "arrastamento" do enredo. Não é que isso aconteça de forma exagerada, como noutras séries, mas confesso ter sentido um pouco nestes dois últimos livros.

No volume 11, a narrativa foca-se na vida de Alana e Hazel após o desaparecimento de Marko. Alana tenta proteger Hazel enquanto lida com os desafios de criar a filha sozinha numa galáxia em guerra, navegando entre alianças frágeis, inimigos persistentes e as consequências emocionais da perda de Marko. 

Saga - Volumes 11 e 12, de Brian K. Vaughan e Fiona Staples - G. Floy Studio Portugal
No volume 12, a história continua a acompanhar Alana e Hazel enquanto estas enfrentam novas ameaças e dilemas na galáxia em guerra, agora totalmente sem Marko. Alana precisa tomar decisões difíceis para proteger Hazel - que está a crescer a olhos vistos - lidando com inimigos que reaparecem e com os desafios de criar a filha num mundo hostil. Este livro explora ainda mais as tensões familiares, a coragem e a resiliência, alternando momentos de ação, suspense e humor característicos da série. Vaughan mantém a profundidade emocional, mostrando como a perda de Marko molda cada decisão, especialmente o desejo reprimido de Hazel por, de algum modo, ressuscitar o seu pai. Se é que isso é possível. Aguardemos.

Quanto às ilustrações, Fiona Staples segue a mesma toada visualmente. A sua arte continua fiel a si própria, apresentando um traço moderno, singular e verdadeiramente eficiente, sendo rico na caracterização da expressividade das personagens. Mesmo com o tempo, Fiona Staples não parece ter perdido aquilo que, também nesse vetor, tornou célebre esta saga denominada Saga: frescura nas cores, elegância e modernidade no traço e capacidade de transmitir emoções complexas com uma simples expressão facial. Isto já para não falar na originalidade gráfica de algumas das personagens mais alienígenas. 

Em termos de edição, a G. Floy Studio mantém os livros com capa dura baça, bom papel baço no interior, e boa encadernação e impressão. No final do Volume 11, há uma página com esboços de personagens e estudos de capa, enquanto no Volume 12, há duas páginas onde vemos o processo de storyboard de Staples para um dos capítulos da história. Uma pequena nota negativa: algum do texto que é narrado aparece na cor preta em sobreposição a fundos escuros e sem qualquer caixa branca, o que torna difícil a leitura. Não tive oportunidade de ver se isto também acontece na edição original da obra, mas não deixa de ser uma coisa negativa para a edição.

Em resumo, os volumes 11 e 12 de Saga não revolucionam a série, mas mantêm-na firme e interessante. Vaughan e Staples mostram que, mesmo depois de tantos números, o universo por si imaginado continua rico e as personagens continuam cativantes. Para os leitores fiéis, é mais um lembrança de que esta história, com todos os seus altos e baixos, vale a pena continuar a acompanhar.


NOTA FINAL (1/10):
8.9



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Saga - Volumes 11 e 12, de Brian K. Vaughan e Fiona Staples - G. Floy Studio Portugal

Fichas técnicas
Saga #11
Autores: Brian K. Vaughan e Fiona Staples
Editora: G. Floy Studio
Páginas: 148, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Janeiro de 2024

Saga - Volumes 11 e 12, de Brian K. Vaughan e Fiona Staples - G. Floy Studio Portugal

Saga #12
Autores: Brian K. Vaughan e Fiona Staples
Editora: G. Floy Studio
Páginas: 152, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Setembro de 2025


terça-feira, 14 de outubro de 2025

"Saga" está de regresso!



A G. Floy Studio prepara-se para lançar o mais recente volume - o 12º - da saga Saga, passo a redundância, série da autoria de Brian K. Vaughan e Fiona Staples!

O livro deverá chegar às livrarias e às bancas a partir do próximo dia 22 de Outubro, quarta-feira.

Recordo que os 10 primeiros volumes desta bela série já mereceram uma análise conjunta que pode ser (re)lida aqui.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.


Saga - Volume 12, Brian K. Vaughan e Fiona Staples

FIONA STAPLES e BRIAN K. VAUGHAN, a equipa vencedora de vários prémios Hugo e Eisner, trazem-nos SAGA, a história de uma jovem chamada Hazel e da sua malfadada família. 

Neste épico décimo segundo volume, Alana assume um cargo novo e perigoso, os seus dois filhos tomam decisões importantes, e a balança de poder da galáxia começa a pender mais para um dos lados.

Reúne os números #67-72 de Saga.

“Aristocratas robot com TV em vez de cabeças, uma gata careca que sente mentiras, e uma adorável jovem no centro de um conflito galáctico ricamente concebido. Que mais poderia alguém desejar, além de mais capítulos desta já longeva série?”
-Scientific American

“Um dos mais icónicos livros de ficção científica/fantasia do séc. XXI.”
-Reactor

“Adoro este mundo... uma das histórias que mais vezes releio.”
-Lupita Nyong’o na Vanity Fair

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Ficha técnica
Saga - Volume 12
Autores: Brian K. Vaughan e Fiona Staples
Editora: G. Floy Studio
Páginas: 152, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato:
PVP: 23,00€

quinta-feira, 2 de outubro de 2025

Análise: Jessica Jones - Série Completa

Jessica Jones - Série Completa, de Brian Michael Bendis e Michael Gaydos - G. Floy Studio Portugal

Jessica Jones - Série Completa, de Brian Michael Bendis e Michael Gaydos - G. Floy Studio Portugal
Jessica Jones - Série Completa, de Brian Michael Bendis e Michael Gaydos

Bem, não será a série completa, pois parte importante da mesma está contida na obra Pulsar, já analisada aqui no Vinheta 2020, mas será sobre a restante parte desta saga extraída da mente de Brian Michael Bendis de que hoje vos falo. Esta era uma série que eu já tinha lido "aos bocados", à medida em que os volumes iam sendo publicados por cá pela G. Floy Studio, mas que recentemente recebeu uma leitura completa da minha parte. Li, portanto, os dois grandes arcos da história: o primeiro, em quatro volumes, denominado Alias, e o segundo, composto pelos três volumes: Sem Limites, Os Segredos de Maria Hill e O Regresso do Homem Púrpura.

O primeiro arco, Alias, surgiu como uma espécie de "manifesto" da linha MAX da Marvel que procurava oferecer aos seus leitores histórias mais adultas, violentas, cruas e desprovidas da moral típica que costumamos encontrar nas histórias clássicas de super-heróis. Refrescante, portanto! Jessica Jones, uma ex-heroína fracassada, tenta sobreviver como investigadora privada, metendo-se em casos que a arrastam para os meandros do universo Marvel. Não é uma narrativa linear de ascensão heroica, mas sim de sobrevivência psicológica. Assim sendo, o leitor depara-se mais com o resultado negativo de se ser super-herói, do que com as coisas boas do que daí poderiam chegar, lembrando, por isso, algumas das reflexões que nos foram dadas em Watchmen, de Alan Moore, por exemplo.

Jessica Jones - Série Completa, de Brian Michael Bendis e Michael Gaydos - G. Floy Studio Portugal
Jessica Jones é uma personagem que tenta lidar com o peso do passado, com traumas irreparáveis e com uma sensação de alienação constante. As investigações de Jessica entrecruzam-se com conspirações e com figuras maiores da Marvel, mas a essência da série está sempre centrada nela: uma mulher a tentar encontrar algum equilíbrio numa vida dominada por erros, vícios e memórias insuportáveis.

Já no segundo arco, apenas denominado de Jessica Jones, Bendis expande o mundo de Jessica, oferecendo-nos uma personagem ainda mais real e plausível, que, além de investigadora privada desencantada, também é mãe, parceira e alguém com responsabilidades afetivas reais. O peso emocional aumenta, sobretudo porque o passado continua a bater-lhe à porta. A intrusão de figuras como Maria Hill e o regresso inevitável do carismático vilão Homem Púrpura - um belo vilão, deixem-me que vos diga - servem para mostrar que, mesmo tentando construir uma vida normal, Jessica não pode nunca escapar totalmente da sua história e do seu passado. Será que algum de nós o pode fazer?

Particularmente, O regresso do Homem Púrpura, o último dos 7 livros de que vos falo, marca o auge dramático da história de Jessica, levando a que a personagem se confronte com o trauma que moldou a sua vida e, ao mesmo tempo, oferecendo ao leitor uma exploração intensa da natureza do abuso psicológico. O tom é ainda mais denso e mais íntimo e acaba por conseguir causar impacto nos leitores.

Jessica Jones - Série Completa, de Brian Michael Bendis e Michael Gaydos - G. Floy Studio Portugal
É justo dizer que um dos maiores méritos da série é a criação de uma protagonista profundamente humana. Jessica Jones não é apenas uma ex-super-heroína; é uma mulher cheia de falhas, de vícios, de traumas e de momentos de autodestruição. Essa fragilidade aproxima o leitor, que facilmente se identifica com problemas tão mundanos como a solidão, as dificuldades financeiras ou as relações falhadas.

Bendis tem aqui um raro talento: criar uma narrativa de super-heróis onde o “super” quase desaparece. O foco está na personagem, não nos poderes. É nesse sentido que Jessica se torna mais interessante do que muitas figuras clássicas da Marvel, pois a sua humanidade é o que a define. Outro mérito da série é a forma como Bendis insere Jessica no universo Marvel sem nunca a deixar perder individualidade. As suas interações com figuras conhecidas (como Luke Cage ou Maria Hill, entre várias outras) não a reduzem a secundária, mas antes reforçam a sua posição única: alguém que vive nesse universo, mas nunca se confunde com ele.

Porém, essa insistência numa narrativa tão fechada sobre si própria (também) traz alguns problemas. A história por vezes parece circular, como se rodasse em torno do mesmo trauma sem conseguir avançar realmente. Há uma intencionalidade nisso, pois afinal de contas o trauma é algo cíclico, mas narrativamente gera uma sensação de estagnação que pode cansar o leitor. Especialmente se fizerem como eu fiz e (re)lerem os 7 volumes de uma só vez.

Jessica Jones - Série Completa, de Brian Michael Bendis e Michael Gaydos - G. Floy Studio Portugal
Outro ponto problemático está na repetição de certos gimmicks narrativos. Bendis utiliza extensivamente diálogos longos, repartidos em múltiplas vinhetas quase idênticas, com variações mínimas na expressão das personagens ou nos enquadramentos utilizados. Visualmente, esta técnica remete para o cinema independente, criando uma cadência muito natural que nos faz amá-la, pela sua originalidade, nas primeiras vezes. Mas, por ser usada em excesso, perde frescura e torna-se, quanto a mim, enfadonha.

Apesar disso, esses diálogos extensos são também uma das marcas mais fortes da série em termos estilísticos, reconheço, pois aproximam a banda desenhada da oralidade, permitindo que as personagens ganhem voz própria, quase audível. 

A colaboração de Michael Gaydos é essencial para o efeito. O seu traço, que privilegia a sombra, a textura e o realismo das expressões faciais, coloca a narrativa num registo noir. Os ambientes urbanos, sombrios e quase claustrofóbicos reforçam a sensação de isolamento de Jessica.

A comparação com Sean Phillips, ilustrador de séries como Criminal ou Reckless é, pelo menos para mim, inevitável: ambos os artistas trabalham uma estética noir com foco na densidade emocional das personagens. Tal como Phillips, Gaydos não se interessa pelo espetáculo visual, mas pela atmosfera. O olhar cansado das personagens, as rugas, as sombras projetadas... tudo isso acaba por comunicar mais do que qualquer cena de ação.

Jessica Jones - Série Completa, de Brian Michael Bendis e Michael Gaydos - G. Floy Studio Portugal
É precisamente esse minimalismo que sustenta o tom realista da série. Ao abdicar de grandes explosões visuais, Gaydos aproxima a banda desenhada da linguagem do cinema de autor, por um lado, e, por outro, acaba por criar uma estética própria que serve como contraponto à tradição colorida e vistosa da Marvel.

Entre o primeiro e o segundo arco nota-se uma clara evolução: se no primeiro ciclo a narrativa está quase inteiramente centrada no trauma de Jessica e na sua tentativa de sobrevivência pessoal, no segundo há uma expansão para temas de maternidade, intimidade e responsabilidades afetivas, que tornam a personagem mais tridimensional. Bendis amadurece a escrita, explorando menos a origem do trauma e mais as suas consequências no presente, enquanto Gaydos mantém a estética noir, mas com maior fluidez narrativa, conferindo às páginas um ritmo mais coeso. É como se, no primeiro arco, conhecêssemos a ferida e, no segundo, víssemos as cicatrizes a moldar a vida de Jessica.

Em termos de edição, todos os livros apresentam capa dura baça, bom papel brilhante no interior e uma boa encadernação e impressão. Alguns livros incluem capas variantes como extras e outros incluem textos introdutórios ou conclusivos de Bendis, bem como alguns esboços de Gaydos.

Em conclusão, os sete livros de Bendis e Gaydos sobre a história de Jessica Jones formam uma das obras mais adultas e consistentes da era moderna da Marvel. O arco inicial em Alias estabelece as bases de uma personagem realista, traumatizada e fascinante e o arco final da série aprofunda ainda mais essa complexidade, sobretudo no confronto com o Homem-Púrpura. Apesar das repetições narrativas e de alguns excessos estilísticos, o resultado é uma obra marcante, que alia introspeção psicológica, estética noir e um olhar profundamente humano sobre o mundo dos super-heróis, sem que seja uma BD especialmente direcionada para os fãs de super-heróis. É bem mais do que isso, acreditem.

NOTA FINAL (1/10):
8.7



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens dos álbuns. www.instagram.com/vinheta_2020



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Jessica Jones - Série Completa, de Brian Michael Bendis e Michael Gaydos - G. Floy Studio Portugal

Fichas técnicas
Jessica Jones - Alias - Vol. 1
Autores: Brian Michael Bendis e Michael Gaydos
Editora: G. Floy
Páginas: 216, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 18 x 27,5 cm
Lançamento: Junho de 2016

Jessica Jones - Série Completa, de Brian Michael Bendis e Michael Gaydos - G. Floy Studio Portugal

Jessica Jones - Alias - Vol. 2
Autores: Brian Michael Bendis e Michael Gaydos
Editora: G. Floy
Páginas: 152, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 18 x 27,5 cm
Lançamento: Novembro de 2016

Jessica Jones - Série Completa, de Brian Michael Bendis e Michael Gaydos - G. Floy Studio Portugal

Jessica Jones - Alias - Vol. 3
Autores: Brian Michael Bendis e Michael Gaydos
Editora: G. Floy
Páginas: 144, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 18 x 27,5 cm
Lançamento: Agosto de 2017

Jessica Jones - Série Completa, de Brian Michael Bendis e Michael Gaydos - G. Floy Studio Portugal

Jessica Jones - Alias - Vol. 4
Autores: Brian Michael Bendis e Michael Gaydos
Editora: G. Floy
Páginas: 176, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 18 x 27,5 cm
Lançamento: Novembro de 2017 

Jessica Jones - Série Completa, de Brian Michael Bendis e Michael Gaydos - G. Floy Studio Portugal

Jessica Jones - Vol. 1: Sem Limites
Autores: Brian Michael Bendis e Michael Gaydos
Editora: G. Floy
Páginas: 144, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 18 x 27,5 cm
Lançamento: Janeiro de 2019 

Jessica Jones - Série Completa, de Brian Michael Bendis e Michael Gaydos - G. Floy Studio Portugal

Jessica Jones - Vol. 2: Os Segredos de Maria Hill
Autores: Brian Michael Bendis e Michael Gaydos
Editora: G. Floy
Páginas: 144, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 18 x 27,5 cm
Lançamento: Agosto de 2019 

Jessica Jones - Série Completa, de Brian Michael Bendis e Michael Gaydos - G. Floy Studio Portugal

Jessica Jones - Vol. 3: O Regresso do Homem-Púrpura
Autores: Brian Michael Bendis e Michael Gaydos
Editora: G. Floy
Páginas: 136, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 18 x 27,5 cm
Lançamento: Novembro de 2019 

quinta-feira, 25 de setembro de 2025

Análise: Homem-Aranha - Fato Preto e Sangue

Homem-Aranha – Fato Preto e Sangue, de Vários Autores - G. Floy Studio Portugal - Marvel

Homem-Aranha – Fato Preto e Sangue, de Vários Autores - G. Floy Studio Portugal - Marvel
Homem-Aranha - Fato Preto e Sangue, de Vários Autores

Da G. Floy Studio, editora que, lamentavelmente, tem andado arredada do lançamento de banda desenhada em Portugal, chegou-nos recentemente este Homem-Aranha – Fato Preto e Sangue, uma antologia de histórias sobre a personagem mais célebre da Marvel, que se integra num projeto editorial recente da gigante editorial americana que procura revisitar personagens icónicas através de uma série de antologias temáticas. A lógica é a mesma: reunir histórias curtas, cada uma com a sua equipa criativa, tendo em comum um estilo gráfico restrito a três cores: preto, branco e vermelho. O resultado é uma proposta estética ousada, que privilegia a experimentação visual e o contraste dramático.

À semelhança do que acontece nos outros títulos da coleção, Fato Preto e Sangue é uma antologia que mistura nomes consagrados e novos talentos, cada um deixando a sua marca em breves narrativas independentes e autocontidas. E essa variedade volta a ser tanto a força como a fraqueza do livro: a multiplicidade de vozes permite frescura, sim, mas isso nem sempre conduz a histórias memoráveis. E como em qualquer antologia, o leitor encontra altos e baixos, momentos de verdadeira inspiração ao lado de episódios mais banais e formulaicos.

Homem-Aranha – Fato Preto e Sangue, de Vários Autores - G. Floy Studio Portugal - Marvel
Infelizmente, neste volume, o pêndulo inclina-se mais para o lado das histórias menos inspiradas. Aliás, essa tem sido a tendência, depois dos dois primeiros volumes dedicados às personagens de Wolverine e Carnificina terem sido, a meu ver, os melhores desta coleção.  Este Fato Preto e Sangue também não estará entre os piores, mas poderia ser melhor, especialmente ao nível dos argumentos. Muitas das histórias não passam de pretextos narrativos para colocar o Homem-Aranha em confrontos urbanos típicos, enfrentando pequenos criminosos ou grandes vilões, mas sem acrescentar qualquer camada de complexidade à personagem ou ao seu mundo. O super-herói aparece, pois, como um símbolo genérico de justiça e responsabilidade, mas sem aquela dimensão emocional que torna Peter Parker uma das figuras mais fascinantes do universo dos comics.

Essa superficialidade narrativa deixa uma sensação de desperdício, sobretudo quando se sabe que este formato permitiria arriscar mais e explorar facetas menos óbvias do herói. O recurso fácil ao combate, ao conflito imediato e à moralidade linear acaba por reduzir algumas das histórias a simples vinhetas de ação, pouco mais do que exercícios de estilo. Em certos momentos, a antologia parece cair na armadilha de confundir intensidade visual com profundidade dramática.

Homem-Aranha – Fato Preto e Sangue, de Vários Autores - G. Floy Studio Portugal - Marvel
No entanto, há uma exceção que merece destaque absoluto: a primeira história, Perder a Face, assinada por J.M. DeMatteis e Elena Casagrande. Aqui, o leitor encontra um Peter Parker humano, vulnerável, mas também compassivo. Em vez de se centrar apenas no combate, a narrativa ilumina a dimensão pessoal e empática do herói, que ajuda um homem perdido a reencontrar um propósito. É uma história curta, mas cheia de ressonância, capaz de relembrar ao leitor porque razão o Homem-Aranha é tão especial.

Se todas as histórias tivessem o mesmo nível de inspiração de Perder a Face, este volume estaria entre os grandes momentos recentes da Marvel. Mas, e infelizmente, o contraste entre esta bela abertura e as restantes histórias só torna mais visível a irregularidade da antologia. 

No campo visual, porém, o livro revela-se consistente e impressionante. Quase todas as histórias são ilustradas com grande cuidado estético, aproveitando ao máximo a limitação cromática para criar atmosferas densas, violentas e, por vezes, poéticas. O preto e branco dá solidez e contraste às cenas, enquanto o vermelho explode como símbolo de sangue, violência ou emoção. Esse jogo cromático é explorado de maneiras muito diferentes por cada artista, garantindo variedade e riqueza visual. Desse ponto de vista, é um belo livro.

Homem-Aranha – Fato Preto e Sangue, de Vários Autores - G. Floy Studio Portugal - Marvel
Nesse sentido, a criatividade gráfica é, de facto, o maior trunfo desta antologia. Os ilustradores encontram soluções surpreendentes para reinterpretar o universo do Homem-Aranha, desde páginas de ação frenética até quadros mais contemplativos, cheios de simbolismo. A paleta reduzida obriga a escolhas ousadas de composição, de luz e sombra, que muitas vezes resultam em páginas de grande impacto. Mesmo nas histórias menos fortes em termos de argumento, há frequentemente pranchas que se destacam pela beleza ou pela inventividade.

Esse equilíbrio desigual entre argumento e desenho leva a uma conclusão clara: neste livro, os verdadeiros protagonistas são os ilustradores. São eles que mantêm o interesse vivo, que elevam o nível das histórias mais banais e que tornam a leitura, no seu conjunto, satisfatória. Ao contrário dos argumentistas, que nem sempre arriscaram ou se mostraram inspirados, os artistas gráficos parecem ter abraçado por completo a proposta do projeto, entregando trabalhos consistentes e cativantes.

Em termos de edição, o livro apresenta capa dura baça, bom papel brilhante no miolo, e um bom trabalho de encadernação e impressão. Bem ao estilo das outras edições da G. Floy Studio. No final, há ainda um caderno de extras com mais de 10 capas alternativas da obra.

Em suma, Homem-Aranha – Fato Preto e Sangue não é uma antologia perfeita e falha em dar ao leitor um conjunto equilibrado de narrativas fortes, mas, ao mesmo tempo, é um livro visualmente estimulante que confirma o talento de muitos dos ilustradores envolvidos. Para quem procura grandes histórias, pode ser um volume irregular; para quem aprecia a ilustração em banda desenhada, é uma experiência visual recompensadora.


NOTA FINAL (1/10):
6.9


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Homem-Aranha – Fato Preto e Sangue, de Vários Autores - G. Floy Studio Portugal - Marvel

Ficha técnica
Homem-Aranha - Fato Preto e Sangue
Autores: Vários Autores
Editora: G. Floy Studio
Páginas: 152, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 18 x 27,5 cm
Lançamento: Junho de 2025