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quarta-feira, 20 de maio de 2026

Análise: Batman - Cavaleiro Branco

Batman - Cavaleiro Branco, de Sean Murphy - Devir

Batman - Cavaleiro Branco, de Sean Murphy - Devir
Batman - Cavaleiro Branco, de Sean Murphy

Quando li pela primeira vez este Batman - Cavaleiro Branco, de Sean Murphy, em 2019, por alturas em que a Levoir publicou o livro pela primeira vez em Portugal, fiquei verdadeiramente impressionado com o que tinha em mãos: quer a história, quer a ilustração me deixaram rendido. Aliás, num dos primeiros artigos do Vinheta 2020, quando dei conta das minhas leituras de 2019, fiz menção a este livro. 

Portanto, quando soube que a Devir - numa nova aposta editorial intitulada DC Pocket  que nos traz alguns clássicos da DC Comics em pequeno formato - iria editar este Batman - Cavaleiro Branco, fiquei feliz. Certamente esperaria - e espero - que os outros livros desta mesma série de Sean Murphy, nomeadamente The Curse of White Knight e Beyond The White Knight, fossem/sejam por cá editados. No entanto, fiquei satisfeito por este Batman - Cavaleiro Branco receber novo destaque e poder chegar a um novo público.

Isto porque considero que há o grupo de livros de banda desenhada que deixam a sua marca e depois há o grupo de livros, mais raros, que, para além de deixarem a sua marca, chegam mesmo a mudar algo. Ou a fazer-nos reconsiderar tudo aquilo que achávamos saber sobre personagens que julgávamos conhecer de cor e salteado. Batman - Cavaleiro Branco insere-se nesta última categoria, pois é uma obra que não se limita a contar uma história, mas que questiona, desmonta e reconstrói o mito do Cavaleiro das Trevas com uma ousadia rara e uma inspiração profundamente fascinante.

A premissa é, desde logo, irresistível, diga-se! Após mais um confronto explosivo com Batman, Joker é capturado e, numa reviravolta surpreendente, acaba sujeito a um tratamento médico, baseado nuns comprimidos especiais, que aparentemente o curam da sua insanidade. Surge então Jack Napier, uma pessoa lúcida, serena e muito carismática. Um homem novo, portanto. Jack Napier é alguém que não só renega o seu passado, como decide virar-se contra o próprio Batman, expondo as falhas do Cavaleiro das Trevas.

Batman - Cavaleiro Branco, de Sean Murphy - Devir
Basicamente, o vilão transforma-se no herói e o herói transforma-se no vilão. E o que se segue é um jogo político e mediático de proporções épicas. Jack Napier torna-se numa figura pública que consegue conquistar a confiança dos cidadãos e das instituições de Gotham. Com inteligência, bom planeamento e com um discurso afiado e populista, Jack Napier/Joker consegue colocar Batman no banco dos réus da opinião pública, obrigando-nos a questionar: quem é, afinal, o verdadeiro herói desta história? E quem é o vilão?

Sean Murphy constrói esta narrativa com uma mestria notável. Há aqui uma clara segurança do autor na forma como a história se desenrola, contagiando o leitor desde as primeiras páginas. Tudo parece possível dentro deste universo e, pelo menos para mim, mais importante ainda: tudo parece credível. Mesmo quando estamos perante uma inversão tão radical como a redenção do Joker, nunca sentimos que o autor nos está a dar algo forçado e pouco credível. Pelo contrário, sentimos que estamos a descobrir uma verdade incómoda que sempre esteve ali, latente. E isso é absolutamente incrível e quase nos faz perguntar: "porque é que nenhum autor se lembrou disto antes de Sean Murphy?"

Mais do que uma história de super-heróis, este é um livro profundamente político. Há aqui uma intensa reflexão sobre ser-se vigilante e os problemas que isso pode acarretar para a sociedade. É um tema que já vimos debatido em vários livros de super-heróis, de Watchmen ao português Macho-Alfa, mas neste Batman - Cavaleiro Branco, essa reflexão é-nos dada com um cariz político muito adulto e pertinente, juntando à equação os subtemas da violência policial, das desigualdades sociais em Gotham e da manipulação da opinião pública através de discursos populistas. Afinal de contas, será que quando Batman persegue um vilão pelos telhados, destruindo bens públicos e privados, e pondo em risco de vida os cidadãos, não está ele próprio a ser uma ameaça e um malfeitor?

Batman - Cavaleiro Branco, de Sean Murphy - Devir
Batman passa então a deixar de ser um símbolo incontestável de justiça para ser uma figura ambígua, um vigilante que atua fora da lei. Há algo de profundamente perturbador nesta visão e, ao mesmo tempo, algo de incrivelmente honesto. E no centro de tudo isto está o Joker - ou melhor, Jack Napier. Sempre considerei o Joker o vilão mais fascinante da galeria de Batman - e de todos os comics já agora - e aqui ele atinge um novo patamar. A sua versão de homem curado é simultaneamente sedutora e inquietante. Napier é um estratega nato, um manipulador brilhante, capaz de moldar a opinião pública com um discurso populista que ressoa perigosamente com o nosso mundo real. Ele não convence pela força, mas pela narrativa. E isso torna-o, de certo modo, ainda mais perigoso. Onde é que já vimos isto no tempo atual, caros leitores?

A forma como Napier mobiliza Gotham contra Batman é um dos pontos altos do livro. Há uma tensão constante, uma sensação de que estamos a assistir a uma inversão de papéis em tempo real. E mesmo sabendo quem é o Joker, há momentos em que quase queremos acreditar nele. Quase.

Outro elemento que também merece destaque é a presença de duas Harley Quinn. Uma que afirma que o seu grande amor sempre foi pelo homem por detrás de Joker, Jack Napier, e outra que não tem problemas em admitir que o seu verdadeiro amor é pelo palhaço do crime. Essa versão mais retorcida de Joker. Esta escolha permite explorar uma dimensão mais emocional da relação das duas mulheres com o vilão. 

Os diálogos são também um dos grandes trunfos de Cavaleiro Branco. São afiados, inteligentes e carregados de subtexto. Há frases que ficam connosco, que ecoam muito depois de fecharmos o livro. Vê-se que há um respeito enorme pela obra de Batman, como um todo, unindo certas pontas narrativas e explorando oportunidades latentes.

É verdade que, já lá mais para o final do livro, há certos acontecimentos na trama que poderão ser um pouco mais forçados e exagerados, perdendo-se algum do realismo inicial da história. Se bem que, convenhamos, isso também é algo bastante típico em histórias de super-heróis em que há uma tentativa de resolver todas as side plots, o que pode soar a algo mais forçado. Apesar disso, e mesmo no final do livro, Sean Murphy consegue "resolver" bem a história.

Batman - Cavaleiro Branco, de Sean Murphy - Devir
Em termos de desenho, o trabalho apresentado por Sean Murphy é um verdadeiro deleite para os olhos! Um autêntico festim. Confesso-vos que, sendo já eu um grande fã do estilo de desenho do autor, me senti totalmente encantado com estas personagens, com este ambiente soturno de Gotham, com as cenas de ação, com as belas mulheres e com os sempre relevantes veículos de Batman que, especialmente nesta história, assumem particular relevância. É um livro que não se cansa de nos deixar de boca aberta perante tão belas ilustrações.

E depois ainda há a cor, em que o trabalho de Matt Hollingsworth é absolutamente exemplar. As tonalidades, os contrastes, a forma como a luz e a sombra são utilizadas para reforçar o tom da narrativa... tudo isso contribui para criar uma atmosfera imersiva e coerente. Tudo extremamente bem feito.

Quanto à edição, o livro apresenta capa mole baça, com badanas, e bom papel baço no miolo. A impressão e a encadernação são boas. 

O que tem causado algum repúdio junto de alguns leitores portugueses é o formato de apenas 14,8 x 21 cm. É um formato bastante pequeno, sim, igual ao formato maior dos típicos mangás da mesma editora como Monster, Sunny e outros. Naturalmente, é um formato mais pequeno do que aquilo a que estamos habituados. E tendo na minha coleção a edição da Levoir e da Devir, admito que prefiro a edição da Levoir em capa dura e num formato maior. 

No entanto, é importante perceber que a proposta da Devir é outra: com um preço de apenas 10€ - algo que já soa absurdo nos dias de hoje para um livro a cores com mais de 200 páginas e lançado de forma independente, sem ser em parceria com um jornal - esta coleção procura chegar a um outro público: àquele público, eventualmente mais jovem, que preza preço e portabilidade e que, por ventura, até não está muito familiarizado com alguns dos clássicos da DC Comics. É para esses que esta obra se destina. O que, claro está, não invalida que todos os outros possam e devam comprar esta obra, caso não a tenham ainda. Como tal, e ao contrário de muita gente, parece-me uma coleção bem urdida e que até pode vir a ter bastante êxito comercial. A ver vamos. 

No final de contas, Batman: Cavaleiro Branco vai muito além de ser apenas mais uma história do Batman. É um dos meus Batman preferidos de sempre e, mesmo quando há uns anos o li pela primeira vez, senti logo que estava perante um clássico que pode ombrear com algumas das histórias do Cavaleiro das Trevas mais aclamadas de sempre. É uma obra que desafia convenções, que nos obriga a pensar e que nos faz apaixonar novamente por algumas personagens que julgávamos estar esgotadas. Verdadeiramente imprescindível.


NOTA FINAL (1/10):
9.8


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020

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Batman - Cavaleiro Branco, de Sean Murphy - Devir

Ficha técnica
Batman - Cavaleiro Branco
Autor: Sean Murphy
Editora: Devir
Páginas: 232 páginas, a cores
Encadernação: Capa mole
Formato: 14,8 x 21 cm
Lançamento: Maio de 2026


quinta-feira, 30 de abril de 2026

Bomba! Devir lança coleção "DC Pocket"!



A Devir acaba de anunciar que já no próximo mês de Maio nos vai trazer a sua nova coleçºao de banda desenhada que se intitula DC Pocket e traz-nos alguns clássicos da DC em formato reduzido! E também, já agora, em preço reduzido, visto que cada um destes livros custará apenas 10,00€. 

A abrir esta coleção estão os títulos Joker, de Brian Azzarello e Lee Bermejo, e Batman - Cavaleiro Branco, de Sean Murphy, ambos já por cá publicados pela Levoir.

Acredito que esta coleção faz sentido, pois tem um caráter quase pedagógico de apresentar aos novos leitores alguns clássicos da DC e em preço reduzido. É claro que já estou a imaginar algum "choro" por serem obras já anteriormente publicadas em Portugal. No entanto, há que ter visão periférica e perceber a quem se destina a esta série, diria.

E, claro, se for possível a publicação futura de algum livro ainda não editado cá, melhor.

Mais abaixo, deixo-vos com a nota de imprensa da editora.


DC POCKET

A Devir lança em Portugal, em maio de 2026, os primeiros títulos da coleção de enorme sucesso internacional DC Pocket, uma linha editorial que reúne algumas das histórias mais emblemáticas da DC Comics num formato compacto, integralmente a cores, portátil e acessível, pensada para responder a novos hábitos de leitura.

JOKER de Brian Azzarello e Lee Bermejo, é um romance gráfico intenso e sombrio que apresenta o Joker numa abordagem crua e realista. Com uma narrativa direta e uma arte marcante, é um clássico contemporâneo da DC, pensado para leitores que procuram histórias mais adultas e psicológicas.
132 páginas • 10,00€


BATMAN: CAVALEIRO BRANCO de Sean Murphy é uma reinterpretação moderna e aclamada do universo Batman. Numa história completa e independente, os papéis invertem-se quando o Joker recupera a sanidade e questiona publicamente os métodos do herói, levantando um debate atual sobre justiça, responsabilidade e poder em Gotham.
232 páginas • 10,00€

sexta-feira, 18 de julho de 2025

Análise: Zorro - O Regresso de Entre os Mortos

Zorro - O Regresso de Entre os Mortos, de Sean Murphy - ASA - LeYa

Zorro - O Regresso de Entre os Mortos, de Sean Murphy - ASA - LeYa
Zorro - O Regresso de Entre os Mortos, de Sean Murphy

Quando soube que a editora ASA iria apostar no lançamento de uma obra de Sean Murphy, do qual sou bastante admirador, fiquei muito contente com esta notícia. Relembro que, por cá, já três obras do autor foram lançadas, nomeadamente: Jesus Punk Rock e Batman: Cavaleiro Branco (pela editora Levoir) e Off Road (pela editora Kingpin). Foram todos livros bastante diferentes entre si, mas que tinham em comum a capacidade de ilustração do autor que é muito personalizada e, a meu ver, impressionante. Além de histórias que me agradaram, claro. Portanto, as minhas expectativas para este Zorro - O Regresso de Entre os Mortos, estavam em altas! E, mais uma vez, o trabalho do autor encheu-me as medidas!

Este livro é uma reinvenção ousada, moderna e estilisticamente exuberante da lendária figura do Zorro, com Sean Murphy a conseguir fundir a tradição do herói mascarado com uma estética de ação contemporânea e o subtema do narcotráfico, criando uma narrativa tão intensa quanto visualmente impressionante. É um Zorro reinterpretado e reintroduzido ao tempo presente em que vivemos. Há cavalos, mas também há automóveis. Há espadas, mas também há armas automáticas.

Zorro - O Regresso de Entre os Mortos, de Sean Murphy - ASA - LeYa
A história centra-se em Diego, um que, juntamente com a sua irmã, testemunha em criança o assassinato brutal do seu pai pelas mãos de um barão da droga da cidade. O seu pai era o ator que fazia de Zorro, sendo um grande fã do herói. Já órfão, Diego é salvo e educado por Alejandro, o velho amigo do seu pai que também era um fanático pela lenda de Zorro. Para lidar com o trauma vivido, Diego refugia-se na figura do Zorro, convencendo-se de que o seu objetivo é ressuscitar o herói lendário para combater os males modernos e, claro, para vingar o seu pai. Por sua vez, a sua irmã Rosa acaba a ter que trabalhar para o próprio homem que assassinou o seu pai.

Ora bem, sejamos sinceros, o argumento que nos é dado não tem propriamente grande originalidade. Já vimos, ouvimos e lemos histórias semelhantes, sim. Aliás, é impossível não lermos este livro sem recordarmos Antonio Banderas, não só no próprio filme A Lenda de Zorro, em que protagonizou o herói de mascarilha, mas também noutros filmes de Robert Rodriguez ambientados no México como Era uma Vez no México ou Desperado. Com as devidas diferenças, obviamente. 

Mas cedo se percebe que o intuito da proposta de Sean Murphy neste livro não é a de ser um trabalho existencial ou filosófico, mas - apenas e só - algo que, mesmo sem que o admitamos muitas vezes - quiçá por uma tentativa de nos acharmos mais intelectuais do que aquilo que realmente somos -,  muitos de nós adoram: uma boa história de ação e aventura, onde o entretenimento é servido em bandeja de prata. É isso que este Zorro - O Regresso de Entre os Mortos é... um livro que nos diverte, que nos entretém, que nos maravilha. 

Zorro - O Regresso de Entre os Mortos, de Sean Murphy - ASA - LeYa
Murphy consegue equilibrar muito bem o tom da narrativa, criando uma aventura de vingança clássica que, embora não pretenda reinventar a roda, acerta em cheio na execução. A história é ritmada, cheia de ação e momentos de tensão, mas também pontuada por episódios mais ligeiros e cómicos, graças à personalidade peculiar de Diego. Com o seu comportamento antiquado, os seus gestos teatrais e o seu vocabulário florido, Diego acaba por ser uma personagem carismática e divertida, com um carisma muito próprio, que vive num tempo que não é o seu, tanto mental como culturalmente, e isso gera situações de fricção e humor que dão um toque especial à narrativa. É um herói deslocado, mas determinado, que combate com uma espada contra armas automáticas... e fá-lo com convicção. E é aqui que se nota a inspiração clara em figuras como Dom Quixote, pela sua visão idealista e anacrónica do mundo, ou Jack Sparrow, pela forma algo tresloucada e imprevisível de agir. O facto de Diego pensar de uma forma que não está em conformidade com o tempo presente, faz com que diga e faça muitas coisas desadequadas à realidade... e isso é um ponto bastante divertido na história.

Mesmo assim, num campo mais profundo, talvez possamos igualmente afirmar que a premissa de termos um jovem traumatizado que se convence ser o Zorro, para além de ser cómica, também tem um lado mais trágico, fazendo com que o leitor sinta empatia pelo protagonista, mesmo quando os seus métodos e convicções roçam o insano ou o caricato.

As outras personagens secundárias, especialmente Rosa, também são um ponto alto da obra, revelando carisma e servindo bem a história. E mesmo as personagens mais protótipo na história, também as há, ganham vida no traço expressivo de Murphy e nos diálogos bem escritos, que nunca resvalam para o banal. 

Zorro - O Regresso de Entre os Mortos, de Sean Murphy - ASA - LeYa
Apesar de tocar em temas duros e de ter boas doses de ação e violência, o livro nunca se torna excessivamente pesado. Isso deve-se em grande parte ao tom aventureiro da narrativa, que opta pelo entretenimento puro e duro, sem nunca perder o foco na diversão do leitor. E é aí que reside um dos grandes méritos desta obra: não se propõe a ser profunda ou filosófica, mas sim um prato cheio de emoção, ritmo e espetáculo. E consegue-o com brilhantismo.

Como reinterpretação moderna de uma lenda clássica, Zorro - O Regresso de Entre os Mortos é uma obra notável. Respeita a essência da figura original, mas traz-lhe uma nova vida, um novo contexto e uma roupagem artística verdadeiramente deslumbrante. 

Em termos visuais, o livro é absolutamente arrebatador! O traço de Sean Murphy é inconfundível: enérgico, expressivo, cheio de textura e movimento. Cada página é uma composição visual rica, com uma planificação criativa e dinâmica que torna a leitura num verdadeiro espetáculo visual. As cenas de ação são coreografadas com maestria, transmitindo impacto e emoção de forma cinematográfica. Há vinhetas que, sem exagero, dariam excelentes quadros para emoldurar.

Um dos aspetos mais marcantes do estilo de Murphy é a sensação constante de movimento e urgência. As cenas de ação, por exemplo, são verdadeiras coreografias visuais, com enquadramentos ousados e perspetivas dramáticas que nos colocam no meio do combate, como se estivéssemos a assistir a uma sequência cinematográfica em câmara lenta e rápida ao mesmo tempo.

Zorro - O Regresso de Entre os Mortos, de Sean Murphy - ASA - LeYa
Outro ponto forte está na planificação das páginas. Murphy não se limita a uma grelha convencional de vinhetas; pelo contrário, brinca com a estrutura narrativa visual, quebrando molduras, sobrepondo imagens e construindo composições que surpreendem e desafiam o olhar do leitor. Esta abordagem confere à obra um ritmo único e envolvente, que faz com que cada página tenha impacto narrativo e estético. 

Vale ainda destacar que Murphy, enquanto ilustrador, tem uma capacidade rara de fundir o detalhe com a legibilidade. Apesar da complexidade dos desenhos e do grande número de elementos visuais por página, nunca se perde o fio narrativo. Há sempre uma orientação clara do olhar, o que demonstra um domínio notável sobre a linguagem da banda desenhada. Por todos estes motivos, considero Sean Murphy um verdadeiro mestre!

E se o desenho de Sean Murphy é fantástico, as cores de Simon Gouch também contribuem para dar um belo aspeto à obra. Em termos visuais, é, quanto a mim, um livro que se aproxima da perfeição.

Quanto à edição da obra por parte da ASA, também vos posso dizer que estamos perante um belo trabalho. O livro apresenta capa dura baça e bom papel brilhante no interior. O trabalho de encadernação e impressão também é bem executado. No final, há ainda um generoso caderno de extras, que inclui um texto do autor Mathieu Lauffray sobre a obra, vários esboços e capas alternativas e biografias de autor. É, pois, uma bela edição também na vertente do material extra incluído.

Em suma, Zorro - O Regresso de Entre os Mortos é uma das mais excitantes e visualmente arrebatadoras bandas desenhadas do ano. Pode não ser uma história para refletir profundamente sobre a existência humana, mas é um exemplo perfeito de como a narrativa gráfica pode ser envolvente, bem construída e esteticamente arrebatadora. Às vezes, tudo o que precisamos é de um herói mascarado, uma espada afiada e uma boa dose de ação. E Sean Murphy oferece-nos isso como ninguém! Adorei!


NOTA FINAL (1/10):
9.6



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Zorro - O Regresso de Entre os Mortos, de Sean Murphy - ASA - LeYa

Ficha técnica
Zorro - O Regresso de Entre os Mortos
Autor: Sean Murphy
Editora: ASA
Páginas: 128, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 326 x 212 mm
Lançamento: Junho de 2025

quarta-feira, 28 de maio de 2025

ASA prepara-se para publicar livro de Sean Murphy!



É uma excelente notícia para aqueles que, como eu, são grandes fãs do autor americano!

A editora ASA vai editar o livro Zorro - O Regresso de Entre os Mortos, de Sean Murphy. A obra foi originalmente lançada em 2024, enquanto minissérie, em números de 24 páginas, e foi depois reunida em álbum.

Esta é uma história que reimagina a personagem de Zorro, ou Diego de la Vega, uma figura mítica, numa banda desenhada que promete agradar a muita gente.

Pessoalmente, considero-me um grande admirador de Sean Murphy. Por cá, já três obras foram lançadas deste autor: Jesus Punk Rock Batman: Cavaleiro Branco (pela editora Levoir) e Off Road (pela editora Kingpin). E sendo todas obras bastante diferentes entre si, todas elas me agradaram muito - em especial Jesus Punk Rock Batman: Cavaleiro Branco -portanto estou muito, muito curioso para este Zorro!

O livro já se encontra em pré-venda no site da editora e deverá chegar às livrarias na segunda metade de junho.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.


Zorro - O Regresso de Entre os Mortos, de Sean Murphy

Diego é um jovem que está convencido que é o Zorro. 

Em criança, Diego sofre uma crise psicótica depois de assistir ao cruel assassinato do seu pai pelo Barão do cartel de droga da sua cidade – De la Vega.

Para lidar e recuperar do trauma, encarna na lenda com mais de 200 anos do ZORRO colocando uma máscara, treinando a arte da esgrima, e declarando guerra aos “Narcos” como forma de salvar o povo da sua cidade.

Este é um livro onde o Dom Quixote se encontra com Narcos (cartel da droga sul-americano) no livro de Sean Gordon Murphy “Zorro: O regresso de entre os mortos”



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Ficha técnica
Zorro - O Regresso de Entre os Mortos
Autor: Sean Murphy
Editora: ASA
Páginas: 128, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 326 x 212 mm
PVP: 24,90€

segunda-feira, 28 de junho de 2021

Análise: Off Road

Off Road, de Sean Murphy - Kingpin Books


Off Road, de Sean Murphy - Kingpin Books
Off Road, de Sean Murphy

Off Road é a primeira obra a solo de Sean Murphy e foi publicada originalmente em 2005, pela editora Oni Press. Em Portugal, este livro, limitado a uma pequena tiragem de 200(!) exemplares, foi publicado pela Kingpin Books. E, em boa hora o fez, já que este é um livro muito interessante.

Aviso, desde já, que sou um confesso admirador da arte visual de Sean Murphy. Poderia nomear mais alguns livros, mas, focando-me em dois livros publicados em Portugal, ambos pela Levoir, nomeadamente Jesus Punk Rock ou Batman: Cavaleiro Branco, posso dizer que é-me difícil ficar indiferente aos trabalhos deste autor.

O que me leva a falar do seu estilo de arte, que acho verdadeiramente formidável. Os seus desenhos parecem estar envoltos naquela camada de coolness que apenas alguns ilustradores conseguem doar às suas ilustrações. Estão a ver aquele colega que, na escola preparatória, fazia desenhos que todos os outros colegas adoravam e queriam copiar? Estou certo que Sean Murphy também há-de ter sido um desses desenhadores populares durante os seus tempos de escola. E não é que os seus personagens sejam demasiado realistas ou impossíveis de reproduzir. De copiar. Não o são. Mas têm um certo tipo de feições e expressões que, mesmo sendo semi-caricaturais, nos fazem construir fáceis relações com as personagens de Murphy. Batman: Cavaleiro Branco é, na minha opinião, dos melhores livros de Batman que já li, com a arte do autor a encaixar maravilhosamente no ambiente noir e pesado de Gotham City e as suas personagens, com especial destaque para Batman/Bruce Wayne e Joker são fantásticas pela forma como são representadas visualmente. Por sua vez, em Jesus Punk Rock, a arte salta à vista da primeira à última página, tornando este livro absolutamente magnífico do ponto de vista visual.

Off Road, de Sean Murphy - Kingpin Books

E também aqui, neste Off Road, temos uma arte fantástica e bem ao estilo de Jesus Punk Rock por também ser a preto e branco. Denota-se, possivelmente, que em Off Road os desenhos não estarão ainda tão evoluídos e detalhados como em Jesus Punk Rock, mas, ainda assim, já lá está bem presente a marca e estilo inconfundível do autor, que nos oferece uma arte muito expressiva, de traço semi-caricatural, e com personagens que nos ficam na retina. O seu estilo parece recolher influências dos mangás e dos comics. O resultado é uma mistura muito bem conseguida, personalizada e original. Diria que em Off Road, certas expressões das personagens serão, por ventura, algo exageradas, mas isso também é algo bastante frequente nos mangás, de onde o autor recolhe inspiração. Junte-se ainda que o uso de planos cinematográficos e uma boa escolha de poses das personagens fazem com que o livro adquiria parecenças com um filme. O que é (quase) sempre bom na banda desenhada. Não é a história - que é simples como mais abaixo dou conta - mas sim a arte a grande estrela deste livro.

O argumento é tão simples e linear que poderia ser resumido numa mera frase: três jovens juntam-se para um passeio em todo-o-terreno que acaba por correr mal. E quando digo “correr mal” não me refiro a uma trama pesada e complexa que pressuponha crimes ou mortes ou eventos muito marcantes. Na verdade, o dia corre mal porque acontecem certas atribulações entre as personagens, que as fazem ter um dia difícil - do ponto de vista de um adolescente, refira-se - quando inicialmente tudo parecia crer que seria um dia excelente para os três jovens.

Off Road, de Sean Murphy - Kingpin Books

Devo dizer que provavelmente eu consideraria a história deste Off Road demasiado básica e oca, sem momentos verdadeiramente impactantes, se esta não fosse, afinal de contas, uma história baseada em factos reais. E que, ainda por cima, foram vividos pelo próprio Sean Murphy durante os seus tempos de jovem. Ora, isto muda tudo. Assim sendo, já me parece que a história não é tão insignificante assim. E se a considerarmos mundana é porque, de facto, estes eventos se passaram realmente - com algumas mudanças e partes mais romanceadas, claro - da forma como nos são relatados.

As três personagens que protagonizam esta aventura são Trent, que acaba de voltar da faculdade e que está em baixo devido à sua infeliz vida amorosa; Greg, a quem o pai ofereceu o jipe amarelo descapotável; e Brad que, por sua vez, tem uma relação tóxica com o seu pai. Embora a ideia base de Greg e de Brad fosse a ida a uma festa de amigos, Trent, aproveitando o facto de Greg ser agora o dono de um jipe, sugere que partam numa aventura em todo-o-terreno. Depois disto, acontecem problemas com o jipe e terão que socorrer-se da melhor forma que conseguem. Não desvendo mais para não contar demasiadas informações da história.

Off Road, de Sean Murphy - Kingpin Books

Sean Murphy explora de forma conveniente as personagens, seja nas relações de amizade (com muitas discussões à mistura) entre Trent, Greg e Brad, seja na dificuldade em estabelecer relações de Trent com raparigas. Considero que a relação de Brad com o seu pai, com quem trava cenas de agressões físicas, dá uma tónica mais pesada à história – que até é bem leve, diga-se – e que talvez pudesse ter sido mais bem explorada pelo autor. Gostaria também que a história fosse um pouco menos juvenil para que pudesse ser mais profunda e inolvidável. Mas dizer isto também não é dizer que este Off Road é um livro para "miúdos". Acho que adultos também terão certamente uma experiência agradável ao ler esta obra.

Quando acabamos o livro, a sensação com que ficamos é que passámos uns momentos agradáveis e que a história se leu muito bem e de forma bastante fluída. Talvez não seja o livro mais marcante de sempre. Mas não deixa de ser uma boa experiência de leitura.

A edição da Kingpin é em capa mole e papel baço, num formato mais pequeno do que o mais habitual em comics. Não está ao nível qualitativo de certas edições da Kingpin mas reconheço que é, ainda assim, uma edição com uma qualidade bastante aceitável.

Em conclusão, este é um livro muito bem conseguido, especialmente se tivermos em conta que é a primeira incursão a solo de Sean Murphy. O seu estilo ainda não estava tão bem refinado como noutras obras que sucederam a este Off Road, mas já permitia que oferecesse aos leitores muitos desenhos com uma arte dinâmica e enérgica, habitada por personagens carismáticos. A história em si é básica e linear e os diálogos poderiam ser mais realistas. Mesmo assim, traz consigo uma leitura fácil e agradável, que considero bastante recomendável.


NOTA FINAL (1/10):
8.4


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Off Road, de Sean Murphy - Kingpin Books

Ficha técnica
Off Road
Autor: Sean Murphy
Editora: Kingpin Books
Páginas: 128, a preto e branco
Encadernação: Capa mole
Lançamento: Outubro de 2010

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Top 10 de leituras de BD em 2019


Top10 de leituras de BD em 2019

O meu Top 10 de leituras de BD em 2019

Agora que ainda estamos no primeiro mês de 2020 é altura de olharmos para trás, para o ano anterior, e verificarmos como foi um excelente ano para a Banda Desenhada em Portugal. E isso deve-se às Editoras – que são, cada vez, mais e melhores – e aos leitores. Se os leitores não comprarem livros, os esforços das Editoras caem em saco roto.
Abaixo, deixo-vos o meu top 10 de leituras que fiz em 2019. Naturalmente, não consegui ler todos os livros que queria. Já chegámos a uma fase em que me é impossível comprar todos os livros que gostaria de ler. O que não deixa de ser uma coisa boa. Significa que a oferta é vasta e tem qualidade. Não será de estranhar que no meu Top 10 de leituras que farei em 2020 possam existir livros que foram lançados em 2019. E é por isso que no meu top 10 de leituras de 2019 há um livro que ainda foi lançado em 2018.
Antes de avançar para o top gostaria de fazer algumas menções honrosas que, a meu ver, tanto contribuíram para fazer do ano 2019, um excelente ano para o lançamento de banda desenhada em Portugal.



Menção Honrosa #1 - Novelas Gráficas da Levoir/Público
A Coleção Novelas Gráficas da Levoir/Público continua, ao fim de 5 anos, a ser o grande momento editorial anual em Portugal. Isto de levar obras de qualidade à generalidade dos interessados e com um preço mais que acessível, chega-me a parecer serviço público! Espero que durante os próximos anos continue a disponibilizar obras de qualidade sem alterar o preço. Sou fã da iniciativa e enquanto leitor de BD, fico agradecido por esta coleção já me ter dado a ler, obras que desejava ler em português ou outras, que embora sejam excelentes trabalhos, eu nem os conhecesse se não fosse esta coleção. Este ano não foi exceção. Embora os livros “clássicos” escolhidos não tenham sido muito do meu agrado – refiro-me a Febre de Urbicanda, de Peeters e Schuiten, a Flex Mentallo: Herói do Mistério, de Grant Morrison e Frank Quitely ou a Como uma luva de veludo moldada em ferro, de Daniel Clowes – as restantes obras agradaram-me muito. De forma global, este até foi dos anos onde a qualidade global mais me pareceu equilibrada. Gostos aparte, a qualidade e importância da coleção mantém-se. Se, por acaso, num dia sombrio da banda desenhada em Portugal, esta coleção deixar de ser lançada, abrir-se-á um enorme buraco na bd no nosso país.


Menção Honrosa #2 - Batman é tratado como “realeza” em Portugal
A Levoir está também de parabéns pela Coleção Batman 80 anos. Embora possamos argumentar que algumas escolhas para esta coleção de 10 livros tenham sido algo questionáveis, a verdade é que considero um exemplo bom de ver, a forma como a Levoir tem tratado este Herói, com lançamentos constantes, cobrindo de forma exemplar quer obras que estavam em falta no catálogo em português, quer aquelas que são mais recentes. A somar a esta coleção ainda lançou outros livros importantes como Batman Maldito, de Brian Azzarello e Lee Bermejo; a edição integral do Regresso do Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller; Batman Ano Um de Frank Miller; ou o fantástico (e obrigatório) Batman Cavaleiro Branco, de Sean Murphy.


Menção Honrosa #3 - As Séries de BD deixaram “de ficar a meio”
Lembram-se daquela situação deprimente em que os leitores de bd em Portugal viam aparecer no mercado várias coleções de BD que acabavam por ser canceladas passados um ou poucos mais números, deixando a coleção a meio? Os exemplos que aqui poderia nomear são tantos que nem vou perder tempo com isso – vou apenas referir o término da excelente série Y – O Último Homem, por parte da Levoir. E de resto, acho que todos os leitores deverão estar gratos às Editoras por estas estarem a criar uma relação de confiança com aqueles. Se há uns anos, o leitor tinha receio de investir o seu dinheiro numa nova coleção porque havia a forte possibilidade da mesma ficar a meio, hoje em dia, essa tendência parece ter terminado. Claro que me poderão dizer: “Ah, as séries ficavam a meio porque os leitores não compravam os livros”. Mas, a isso, poderemos contra-argumentar: “os leitores não compravam os livros porque temiam que as séries não fossem completadas pelas editoras”. Enfim, é um ciclo vicioso e felizmente, as editoras portuguesas parecem estar a compreender melhor os consumidores e por isso, cometem riscos mais calculados, com tiragens menores. A adesão a uma nova série ou herói de bd será sempre carregada de incertezas mas, não obstante, as editoras parecem estar cada vez mais cientes daquilo que os leitores pretendem.


Menção Honrosa #4 - Editoras Portuguesas – Cada vez mais, cada vez melhores.
Uma menção honrosa tem que ir para as editoras em geral. A Levoir já foi referida mas creio que – sem desprimor daquelas a que não farei referência, há outras 4 editoras que merecem destaque:

1) A Ala dos Livros e a força com que entrou no mercado português durante 2019. Se o seu início em 2018, com o lançamento único de Beowulf, de Santiago Garcia e David Rubin, foi algo tímido, o ano passado foi profícuo em lançamentos, com obras de qualidade superior tais como Undertaker, de Dorison e Meyer; Eu, Louco, de Antonio Altarriba e Keko; A Morte Viva, de Olivier Vatine e Alberto Varandas; Os Escorpiões do Deserto – Obra Completa, de Hugo Pratt; ou Comanche - Obra Completa, de Greg e Hermann, cujos primeiros dois volumes já foram lançados.

2) A G.Floy continua a ser uma referência em Portugal. À semelhança do trabalho feito pela Levoir, custa-me imaginar a Banda Desenhada sem a presença desta excelente editora. Não consumo tudo aquilo que a Editora publica - não teria dinheiro para comprar todos os livros interessantes, mas tenho muito respeito pela forma como a Editora tem apostado em algumas obras.

3) A Gradiva foi talvez a grande surpresa do ano, com lançamentos tão regulares e pertinentes. Diria que encontrou uma franja de mercado, com as suas excelentes coleções "Descobridores", "Sabedoria dos Mitos" ou "Eles fizeram História".

4) Finalmente, a Arte de Autor também merece o meu destaque pois, desde que apareceu, tanto tem brindado os leitores portugueses com livros de qualidade superior. Sou fã do seu trabalho.

Então, feitas as menções honrosas que achei relevante fazer, e sem mais demoras, este é o meu Top10 dos livros que mais prazer me deram ler em 2019. Foi um ano tão bom, que certamente poderia colocar neste Top mais uns 10 ou 15 livros para além dos que se seguem.