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sexta-feira, 24 de janeiro de 2025

Análise: Aqui

Aqui, de Richard McGuire - Cavalo de Ferro - Penguin Random House

Aqui, de Richard McGuire - Cavalo de Ferro - Penguin Random House
Aqui, de Richard McGuire

Foi ainda no final do ano 2024 que o Grupo Penguin, desta vez através da sua chancela Cavalo de Ferro, publicou a banda desenhada multipremiada Aqui, de Richard McGuire, aproveitando o facto de ter chegado aos cinemas a adaptação da obra pelas mãos do realizador Robert Zemeckis e com Tom Hanks como protagonista. Ora, mesmo que tenha sido esse o engodo que fez a editora apostar no lançamento da obra original, considero positivo que a Cavalo de Ferro tenha apostado nesta obra. Quem ganha somos nós, fãs de banda desenhada.

O livro Aqui, de Richard McGuire, é uma obra notável que desafia as convenções narrativas tradicionais, não só da banda desenhada, como também de qualquer meio para contar uma história - como, aliás, também fica bem patente no filme de Zemeckis. Publicado originalmente em 2014, Aqui explora a passagem do tempo de maneira única, situando toda a narrativa num único ponto geográfico: a sala de uma casa. E sempre através do mesmo plano, como se houvesse uma câmara a filmar daquele mesmo ângulo desde o tempo dos indígenas - em que ainda nem sequer tinha ali sido erigida uma casa - até ao tempo atual. Para tal, o autor utiliza uma montagem temporal que vai saltando entre milhares de anos no passado e no futuro.

Aqui, de Richard McGuire - Cavalo de Ferro - Penguin Random House
Como consequência, a estrutura do livro é inovadora, utilizando uma abordagem onde os diálogos são parcos e onde a narrativa não tem nada de convencional, nem tampouco de linear. Cada página contém fragmentos de diferentes momentos no tempo sobrepostos, através de vinhetas, que representam tempos diferentes. Exemplificando: encontro-me com o livro na secretária onde escrevo este texto e abri-o aleatoriamente. O que obtive foi o mesmo plano da sala constante nas mais de 300 páginas do livro, mas com duas cenas/vinhetas. Uma de 1989 em que numa reunião familiar um dos membros cai da poltrona e outra de 1960 em que uma mulher pergunta: "perdeu alguma coisa?".

Esta premissa livre da obra oferece-nos em cada duas páginas um conjunto de camadas temporais que  coexistem, permitindo ao leitor observar simultaneamente um momento no ano de 1600, por exemplo, uma cena doméstica no século XX e vislumbres de um futuro distante. Essa multiplicidade de tempos sobrepostos reforça a ideia de que o espaço é testemunha de incontáveis histórias e eventos, muitas vezes desconectados, mas interligados pela geografia comum. 

Se pensarmos bem, que histórias poderiam contar as nossas casas? Se são casas antigas, certamente já lá tiveram muitas outras histórias. Mas mesmo sendo casas novas, que estreámos quando para lá fomos viver, que histórias testemunhou aquele preciso lugar onde foram construídas as fundações da nossa casa? O pensamento é curioso e dá que pensar sendo nele que assenta toda a reflexão da obra. É claro que é um livro que, por isso mesmo, não deixa ninguém indiferente. E se o podemos amar, também o podemos detestar, já que o próprio livro se finda nas barreiras que ele mesmo se auto impõe. Se as milhentas subnarrativas que nos são dadas podem parecer aleatórias e, em muitos casos, desconexas entre si, ou se a leitura se torna um pouco repetitiva, isso são consequências diretas - e claramente assumidas - do autor ao apostar-se fazer um livro tão original. Mas, enfim, goste-se ou não, é inegável a maneira inteligente como a obra rompe padrões e estruturas, conseguindo ser singular.

Aqui, de Richard McGuire - Cavalo de Ferro - Penguin Random House
Outro aspecto fascinante de Aqui é como a obra aborda a questão da memória e da conexão humana com o tempo e o espaço. Ao apresentar momentos do quotidiano lado a lado com eventos históricos ou naturais, McGuire questiona a importância relativa de cada um. Uma conversa trivial entre familiares pode compartilhar a mesma página com a paisagem devastada de um futuro pós-apocalíptico, desafiando o leitor a reconsiderar o significado e o impacto de eventos aparentemente pequenos. Esse contraste constante reforça uma sensação de humildade diante da vastidão do tempo.

A ausência de personagens centrais - ao contrário da recente adaptação para cinema da obra em que a história de Tom Hanks é a história principal de Aqui - é outra escolha ousada e significativa de Richard McGuire. Em vez de se focar numa narrativa baseada em indivíduos, o autor torna o espaço o verdadeiro protagonista. É como se a sala – e, por extensão, o mundo – fosse um arquivo que guarda as marcas de cada momento que testemunha. Essa abordagem universal torna o livro acessível a diferentes interpretações, permitindo que cada leitor projete as suas próprias experiências e reflexões sobre o fluxo do tempo.

Aqui, de Richard McGuire - Cavalo de Ferro - Penguin Random House
Mesmo assim, a premissa é tão fértil que não consigo deixar de achar que poderia ter sido mais bem aproveitada e que as pontas soltas narrativas deixadas pelo autor poderiam ter sido mais bem atadas entre si. Mas como o tempo, que nem sempre ata os nós dos seus capítulos, há uma sensação de efemeridade. De inconstância.

Visualmente, McGuire utiliza um desenho limpo, com quadros que variam de tamanhos e formas, criando uma sensação de fluidez e desordem controlada. As ilustrações são minimalistas, mas bastante poéticas, transmitindo emoções e ideias complexas sem a necessidade de textos extensos. A paleta de cores também desempenha um papel fundamental, ajudando a distinguir os diferentes períodos temporais e a evocar sensações específicas, como a nostalgia, o progresso ou a decadência. Esta utilização imagética não captura apenas a atenção do leitor, mas também exige uma leitura ativa e contemplativa. É possível que fiquemos perdidos ao longo da leitura, muito embora cada vinheta tenha uma menção ao ano que representa. 

A edição da Cavalo de Ferro é bem conseguida, com o livro a apresentar capa dura baça, bom papel e bom trabalho ao nível de impressão e encadernação. Mais do que isso, é bom ver que a Penguin - embora de uma forma  demasiado(?) parcelada nas suas variadas chancelas, o que acaba por gerar uma certa confusão nos leitores - tem vindo a engordar o seu conjunto de bandas desenhadas de qualidade superior. Aqui é apenas mais uma dessas obras.

Em resumo, Aqui é uma obra que transcende rótulos e desafia o leitor a expandir a sua percepção de tempo, espaço e narrativa. A sua abordagem única, tanto visual quanto conceptual, faz do livro uma obra que continua a inspirar debates sobre os limites da literatura e da arte sequencial. McGuire oferece mais do que uma leitura; proporciona uma experiência sensorial sobre a efemeridade da vida e a permanência do espaço. É um livro que não apenas lemos, mas também sentimos e vivemos em cada página.


NOTA FINAL (1/10):
8.5



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Aqui, de Richard McGuire - Cavalo de Ferro - Penguin Random House

Ficha técnica
Aqui
Autor: Richard McGuire
Editora: Cavalo de Ferro (Penguin Random House)
Páginas: 304, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 170 x 240 mm
Lançamento: Novembro de 2024

segunda-feira, 18 de novembro de 2024

Penguin publica BD inovadora de Richard McGuire!



A Penguin Random House, através da sua chancela Cavalo de Ferro, surpreende e publica uma novela gráfica de culto.

Falo de Aqui, de Richard McGuire, que, desde o seu lançamento original há cerca de 10 anos, se tornou numa obra emblemática e aclamada em todo o mundo, por ser uma novela gráfica verdadeiramente inovadora.

A Cavalo de Ferro publica agora este livro que chega hoje às livrarias e que promete não deixar indiferentes aqueles que nele apostarem.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.
Aqui, de Richard McGuire

Esta é a história de um espaço – o interior de uma casa, um dos cantos da sala – e dos acontecimentos que aí tiveram lugar ao longo de milhares de anos, no passado e no futuro.

Considerada uma obra de arte e publicada em mais de vinte países, Aqui, de Richard McGuire, revolucionou a novela gráfica enquanto género literário e continua ainda hoje a influenciar novas gerações de artistas. A crítica é unânime: este é um dos melhores livros de literatura e de arte do século.

Os elogios da crítica:
«Um trabalho de literatura e arte diferente de qualquer outro visto ou lido antes. Um livro como este aparece uma vez por década, se não por século.»
The Guardian
«Brilhante e revolucionário.»
The New York Times Book Review

Prémio de Melhor Livro do Ano (Festival de Angoulême)

Melhor Livro da Década (Les Inrocks)

Um dos 100 Melhores Livros do Séc.XXI (El País)

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Ficha técnica
Aqui
Autor: Richard McGuire
Editora: Cavalo de Ferro (Penguin Random House)
Páginas: 304, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 170 x 240 mm
PVP: 35,45€

quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

Análise: Tamanhas Eram as Alegrias

Tamanhas Eram as Alegrias, de Sean Michael Wilson e Jaime Huxtable - Cavalo de Ferro - Penguin Random House

Tamanhas Eram as Alegrias, de Sean Michael Wilson e Jaime Huxtable - Cavalo de Ferro - Penguin Random House
Tamanhas Eram as Alegrias, de Sean Michael Wilson e Jaime Huxtable

Se há livros que marcaram, marcam e continuarão a marcar a minha vida, os livros 1984 e A Quinta dos Animais (AKA O Triunfo dos Porcos), de George Orwell, são bons exemplos disso. Toda a maneira, absolutamente inteligente e audaz, como o autor desconstrói as questões sociais, com todas as ramificações político-económicas adjacentes das sociedades modernas, conseguindo antever até certas coisas que acabariam por existir vários anos mais tarde em relação à vida do autor é, quanto a mim, resultado da obra de um verdadeiro visionário. Mesmo assim, e condeno-me por isso, nunca li outra obra do autor sem que fosse 1984 ou A Quinta dos Animais.

E agora, que a chancela Cavalo de Ferro, do grupo Penguin Random House, editou a adaptação para banda desenhada de Tamanhas Eram as Alegrias, fiquei com uma imensa vontade de ir descobrir o texto original de George Orwell. Ora, só por isso, diria que esta adaptação da autoria do escocês Sean Michael Wilson e do galês Jaime Huxtable já é um caso de sucesso. Sempre que uma qualquer adaptação, seja ela uma banda desenhada, um filme ou um livro ilustrado, nos deixam com a vontade de ir conhecer o trabalho original que inspirou a adaptação, essa mesma adaptação já é um caso de sucesso.

Tamanhas Eram as Alegrias, de Sean Michael Wilson e Jaime Huxtable - Cavalo de Ferro - Penguin Random House
É o que se passa neste caso.

Inspirado num ensaio escrito em 1947 – que só haveria de ser publicado já depois da morte de George Orwell – Tamanhas Eram as Alegrias remete-nos para os anos de escola do autor, entre os seus oito e os seus treze anos. Sendo aluno do colégio interno de St Cyprian’s, Orwell revela-nos as suas memórias mais negras do tempo passado nesta austera instituição de ensino que, certamente, lhe deixou traumas recalcados.

Nesta escola de elite, Orwell foi - juntamente com vários outros colegas - vítima de uma enorme prepotência, materializada em violência física e psicológica, por parte dos dirigentes da instituição e de alguns colegas. Chega a ser chocante – pelo menos à luz dos dias atuais – as privações, discriminações e injustiças que o autor nos relata. Desde a ser espancado pelo diretor da escola por urinar na cama, até ver os seus colegas a serem castigados por terem uma simples ereção, qualquer comportamento considerado desviante em relação ao quadro de valores preconizado pela escola, era severamente reprimido.

Tamanhas Eram as Alegrias, de Sean Michael Wilson e Jaime Huxtable - Cavalo de Ferro - Penguin Random House
E, claro, havia também um forte preconceito em relação à origem social dos alunos, fazendo com que aqueles que eram oriundos de nobres famílias beneficiassem de privilégios que eram dramaticamente vedados aos de origens mais humildes. E quando falo em origens mais humildes, nem me refiro a classes sociais pobres, mas sim a classes mais trabalhadoras que, ainda assim, não viviam propriamente mal. Portanto, o preconceito era, parece-me, ainda mais cirúrgico e castrador de qualquer pretensão de subida de classe social. Orwell conseguiu entrar na escola através de bolsa de estudos, o que, por ventura, aumentava ainda mais raivas alheias. Quer dos alunos mais ricos, que ostracizavam George, quer dos próprios professores e diretores.

O relato conta-nos situações cruéis que, lamentavelmente, têm o poder de condicionar toda a vida de uma criança. É que, sendo as crianças completamente permeáveis àquilo que lhes é dito pelos mais velhos, com poder de autoridade, as mesmas acabavam por sentir-se inferiores às outras crianças mais nobres e ricas. Ora, num mundo que, entretanto, deu os seus passos a favor da cada vez mais presente inclusão social, a leitura deste livro consegue deixar-nos com um amargo sabor na boca e torna-se ainda mais relevante para podermos ver o que já evoluímos. De resto, lembro-me que já em Orwell, publicado por cá pela Ala dos Livros, tinha ficado com a ideia do desagrado de George Orwell perante o sistema de educação inglês. Porém, é com este Tamanhas Eram as Alegrias que é mais clara essa posição anti-establishment do autor.

Tamanhas Eram as Alegrias, de Sean Michael Wilson e Jaime Huxtable - Cavalo de Ferro - Penguin Random House
O relato vai-nos sendo dado na primeira pessoa, preferindo o argumentista Sean Michael Wilson utilizar legendas em voz off do que, propriamente, balões de diálogo que, aqui, não são tão frequentes. O autor faz um bom trabalho na maneira como nos veicula, de forma escorreita, os pensamentos e sensações experienciados por George Orwell.

Já quanto às ilustrações, que são asseguradas por Jaime Huxtable, devo dizer que também fiquei bastante agradado. Com um traço a preto e branco, que aparenta ser rápido, o autor oferece-nos o ambiente taciturno que o relato pedia. Apreciei bastante que, no meio de um livro sério como este, Huxtable tenha dotado as suas ilustrações com alguns momentos mais caricaturais na conceção das personagens que servem para incrementar determinadas situações vividas por Orwell. Este tipo de ilustrações funciona muito bem pois, além de reiterar os sentimentos que importam destacar, também dá alguma frescura e dinâmica à parte gráfica da obra.

Admito que, por vezes, teria apreciado um maior nível de detalhe nas ilustrações ou uma maior definição em certas expressões faciais das personagens, mas tenho que ressalvar que, no seu todo, o trabalho de Huxtable é bastante eficiente e meritório. A própria caracterização de George Orwell na idade adulta, também está bem conseguida.

Quanto à edição da obra, o livro apresenta capa dura baça, com detalhes a verniz que fazem com que a apresentação seja bastante bem conseguida. No miolo, o livro tem bom papel baço e a encadernação e impressão são boas. No início do livro, há ainda uma introdução à obra que é feita pelo próprio autor Sean Michael Wilson.

Em suma, Tamanhas Eram as Alegrias é um livro que, mesmo resultando da adaptação para BD de um texto escrito por George Orwell em 1947, continua a apresentar uma mensagem e uma reflexão completamente atuais. Ou não fosse George Orwell um dos mais geniais escritores (pensadores?) de sempre! E esta adaptação de Sean Michael Wilson e Jaime Huxtable é bastante eficiente em tornar acessível e disponível uma obra menos conhecida de Orwell. Mais uma agradável surpresa por parte do grupo Penguin.


NOTA FINAL (1/10):
8.6



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Tamanhas Eram as Alegrias, de Sean Michael Wilson e Jaime Huxtable - Cavalo de Ferro - Penguin Random House

Ficha técnica
Tamanhas Eram as Alegrias
Autores: Sean Michael Wilson e Jaime Huxtable
Editora: Cavalo de Ferro (Penguin Random House)
Páginas: 112, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 23 x 16 cm
Lançamento: Novembro de 2023

quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

À Conversa Com: Penguin Random House - Novidades para 2024!



Hoje trago-vos as novidades de banda desenhada que a Penguin Random House prepara para o próximo ano!

Para tal, partilho mais abaixo a entrevista que fiz à editora para vos dar conta dessas mesmas novidades de BD que esta gigante editorial (com múltiplas chancelas que publicam banda desenhada como a Iguana, a Topseller, a Fábula, a Cavalo de Ferro, a Companhia das Letras, a Elsinore, a Nuvem de Letras, a Booksmile, e outras) está a preparar para 2024.

Falei com a simpática Rebeca Bonjour, responsável pelo Marketing e Comunicação da Penguin, que, não abrindo muito o jogo quanto às novas obras que a editora prepara para o próximo ano, deu, ainda assim, respostas muito interessantes às minhas perguntas que merecem ser lidas mais abaixo.

Como notícias positivas, destaca-se o aumento de autores nacionais a publicar pela editora!

Não deixem de ler, mais abaixo, a entrevista.

terça-feira, 10 de outubro de 2023

Nova adaptação da obra de Orwell em BD!



A chancela Cavalo de Ferro, do grupo Penguin Random House, prepara-se para lançar uma adaptação para BD de mais uma obra original de George Orwell.

Desta vez, estamos perante o clássico Tais Eram as Alegrias. A adaptação para banda desenhada tem o mesmo nome e é da autoria do escocês Seán Michael Wilson e do galês Jaime Huxtable.

O livro deverá chegar-nos no próximo mês de Novembro.

De resto, relembro que, recentemente, a obra de George Orwell tem recebido muitas adaptações para banda desenhada. Só adaptações da obra-prima 1984, foram três as versões a serem publicadas por cá: a versão de Xavier Coste, a versão de Sybille Titeux de la Croix e Amazing Améziane e a "versão oficial" de Fido Nesti. A Ala dos Livros também publicou a biografia de George Orwell.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais da versão original da obra.


Tais Eram as Alegrias, de Sean Michael Wilson e Jaime Huxtable

A história da vida de George Orwell, um dos mais famosos escritores de todos os tempos, contribuiu imensamente para sua compreensão do mundo. 

Crítico constante do poder e da autoridade, as raízes de suas obras A Quinta dos Animais (também conhecido como O Triunfo dos Porcos) e 1984 começaram a brotar nos seus anos de formação, como aluno da rigorosa escola particular em Eastbourne. 

O ensaio Tais Eram as Alegrias reconta a dura realidade do regime que sujeitava os alunos em nome do preconceito de classe, da hierarquia e do destino imperial. 

A banda desenhada dá vida às experiências de Orwell na escola que, tendo garantido a sua vaga através de bolsa de estudos e não pela origem abastada, sofria nas mãos tanto dos funcionários quanto dos colegas mais ricos. 

A violência dos professores e o constrangimento a que era diariamente submetido saltam das páginas, evocando a imagem desse mundo cruel visto pelos olhos inocentes de uma criança, ao que justapõem-se as reflexões de um Orwell maduro sobre o que esse tipo de escolarização diz sobre a sociedade.

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Ficha técnica
Tais Eram as Alegrias
Autores: Sean Michael Wilson e Jaime Huxtable
Editora: Cavalo de Ferro (Penguin Random House)
Páginas: 112, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 23 x 16 cm

terça-feira, 29 de março de 2022

Qual das três adaptações para bd de "1984", de George Orwell, comprar?


TOP 3 - Há 3 adaptações para BD de 1984, de George Orwell. Que livro comprar?

Chamei TOP 3 a este artigo, mas bem que lhe podia ter chamado, apenas, as "3 adaptações para BD de 1984, publicadas em Portugal, enumeradas da melhor para a pior".

Bem, mas esse título também não me deixou muito satisfeito. Até porque, como veremos mais abaixo, não me parece justo que, no caso concreto, haja uma obra que se demarca muito, pela positiva ou pela negativa, em relação às demais.

Mas já lá irei.

Por agora, relembro que a grande causa que originou que, em cerca de um ano, surgissem no nosso pequeno mercado de banda desenhada, não uma, nem duas, mas três (!) adaptações da icónica obra 1984, de George Orwell, foi o facto da obra do escritor inglês ter entrado em domínio público recentemente.

Quer isto dizer que as editoras são agora livres de publicar a obra sem as habituais condicionantes e regras dos direitos de autor. A obra passou a ser do público, portanto.

E que obra ela é! Já o disse aqui, creio eu, que coloco 1984 numa restrita lista dos melhores livros que li na minha vida. Pela sua audácia, pelo facto de ser uma obra visionária e porque, em jeito de distopia futurista, nos permite ver tanto do que está errado nas sociedades contemporâneas e que riscos daí poderão advir no futuro. De quantas obras podemos nós dizer isto, não é?

Mas focando o meu texto nas bandas desenhadas que foram publicadas pela Alfaguara, pela Cavalo de Ferro (20|20 Editora) e pela Relógio d’Água, posso dizer que temos obras para todos os gostos. Ou, por ventura, para todo o tipo de leitores. Acho até que esse será o principal ponto.

É que, sendo uma adaptação da obra de Orwell, todas estas adaptações cumprem os requisitos mínimos de o ser, mas, claro está, com resultados e abordagens bastante diferentes entre si.

Sei também que a escolha de qual será "a melhor" dependerá muito dos gostos de cada um. Mas, não obstante, olhando para as características inerentes das obras, até não é muito difícil percecionar as diferenças.

A mim, enquanto leitor, parece-me que a obra que globalmente é mais bem conseguida é a versão de Fido Nesti. Acredito que não será uma opinião muito consensual, já que este livro sofreu bastantes críticas – não só em Portugal, como lá fora – por ter demasiado texto e de não ter conseguido abreviar bem a obra. Meus caros, permitam-me discordar nesse ponto. 1984 é uma daquelas obras que tem que ser explicada para que possa ser (melhor) percecionada. E é isso que Fido Nesti aqui faz. 

Se é verdade que também eu achei que, por vezes, há demasiado texto – incluindo páginas de texto em prosa! -, não deixa de ser verdade que, para quem conhece bem a obra original, como é o meu caso, esta será a versão das três que melhor – e de forma mais completa – tenta ser uma adaptação completa. Dito por outras palavras, é – das três opções – o livro que me parece mais completo e, portanto, mais recomendável para quem não conhece, ou para quem conhece mal, a obra original de George Orwell. 

No entanto, parece-me claro que, graficamente falando, a obra mais espetacular das três, é a de Xavier Coste.

Esta adaptação tem, aliás, sido alvo de muito mais louvores e aceitação do que a de Fido Nesti. O problema que esta tem, quanto a mim, é que quase nem parece uma adaptação, mas mais uma homenagem à obra. E porquê? Bem, porque tentando não ter tanto texto e deixar mais espaço para que os desenhos e os momentos possam respirar melhor – e isso é, de facto, conseguido – acaba por explicar de uma forma bastante incompleta quem foi Winston e o mundo de 1984

Se a obra de Fido Nesti tinha muito texto, esta tem demasiado pouco texto. E se a adaptação de Nesti é a que considero pertinente para alguém que nunca leu a obra original, e quer fazê-lo através de uma novela gráfica, esta adaptação de Xavier Coste é completamente adequada para quem já conhece a obra original e/ou para aqueles que são leitores mais batidos de bd e procuram um álbum com ilustrações maravilhosas.

Finalmente, a adaptação da dupla de autores Sybille Titeux de la Croix e Amazing Améziane situa-se no meio termo. Nem os desenhos são tão bonitos como os de Xavier Coste, nem a adaptação é tão bem elaborada como a de Fido Nesti. Acaba, por isso, por ser a obra mais superficial das três e a menos memorável. 

Mas isto também não quer dizer que não seja um livro com vários pontos interessantes, quer do ponto de vista narrativo, quer do ponto de vista visual. Para quem aconselharia eu esta versão? Bem, para aqueles vossos amigos que não lêem banda desenhada habitualmente e que também só querem uma leitura mais leve e fácil da obra.

Quanto às edições, todas elas são em boa qualidade, com um bom trabalho de encadernação por parte das respetivas editoras. As da Alfaguara e da Cavalo de Ferro apresentam capa dura, enquanto que a versão da Relógio d’ Água é em capa mole.

Em suma, e abreviando aquilo que escrevi mais acima, esta é a minha consideração sobre as três obras, quando comparadas entre si: 


1984, de Fido Nesti
(Alfaguara) – destina-se aos que não conhecem bem a obra original e querem passar a conhecê-la através da banda desenhada. É a adaptação mais completa da história original.


1984, de Xavier Coste
(Relógio d’Água) – destina-se aos que já são leitores de bd e procuram um álbum muito belo em termos de ilustrações e, também, aos que já conhecem, pelo menos por alto, a obra original.


1984, de Sybille Titeux de la Croix e Amazing Améziane
(Cavalo de Ferro – 20|20 Editora) – destina-se aos leitores que habitualmente não lêem banda desenhada e querem apenas ficar com uma breve ideia da obra original de Orwell.








Como disse, há opções para todo o género de leitores.

A mim, enquanto leitor, diria que as minhas preferências recaem algures entre a edição de Nesti e a de Coste. Nenhuma das duas me deixa totalmente satisfeito, mas ambas são bastante boas. E, eventualmente, tenho uma ligeira preferência pela edição de Nesti, diria. Não tem desenhos tão bonitos, mas é um livro mais completo para uma história tão complexa como 1984.

Para saberem mais sobre cada uma destas obras, convido-vos a visitarem os artigos que escrevi para cada livro, mais abaixo.



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Fichas técnicas

1984 - A Novela Gráfica 
Autor: Fido Nesti
A partir da obra original de: George Orwell
Editora: Alfaguara 
Páginas: 224, a cores 
Encadernação: capa dura 
Lançamento: Outubro de 2020
Análise à obra, aqui.


1984
Autor: Xavier Coste
A partir da obra original de: George Orwell
Editora: Relógio D’Água
Páginas: 248, a cores
Encadernação: Capa mole
Lançamento: Agosto de 2021
Análise à obra, aqui.


1984: Novela Gráfica
Autores: Sybille Titeux de la Croix e Amazing Améziane
A partir da obra original de: George Orwell
Editora: 20|20 (Cavalo de Ferro)
Páginas: 240, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Agosto de 2021
Análise à obra, aqui.

terça-feira, 11 de janeiro de 2022

Análise: Fome: Novela Gráfica

Fome: Novela Gráfica, de Martin Ernstsen - 20|20 Editora - Cavalo de Ferro

Fome: Novela Gráfica, de Martin Ernstsen - 20|20 Editora - Cavalo de Ferro
Fome: Novela Gráfica, de Martin Ernstsen

Com um número reduzido de obras de banda desenhada - quase todas elas adaptações de grandes obras da literatura universal, como 1984: Novela Gráfica, Ana dos Cabelos Ruivos ou este Fome - a 20|20 Editora lá tem construído um bom catálogo de banda desenhada. E a obra que vos trago hoje até acaba por ser um dos melhores livros de bd do catálogo da editora.

Adaptado a partir de Fome, a obra original de Knut Hamsun, este livro, da autoria do norueguês Martin Ernstsen, traz-nos uma história bastante original e, quiçá, diferente daquilo a que estamos mais habituados. A história passa-se em Kristiania (atual Oslo), algures nos finais do século XIX, e situa-se à volta de um narrador sem nome que nos vai contando a sua procura incessante por subsistir através da sua escrita. Mas o sucesso da sua escrita tarda em acontecer e, consequentemente, a personagem acaba por cair numa situação de miséria onde impera a fome. À medida que o jovem escritor não vai conseguindo os trabalhos que lhe são prometidos – ou assim ele o pensa, pelo menos – vai caindo numa espiral de pobreza e fome, enquanto vai ficando também despojado de todas os seus pertences, ao ponto de se tornar um sem abrigo. E sem nada para comer. Mas a sua persistência em tentar ser escritor acaba por ser o real alimento para a sua alma.

Fome: Novela Gráfica, de Martin Ernstsen - 20|20 Editora - Cavalo de Ferro
E, claro, sendo a personagem principal bastante complexa, o seu comportamento errático abre caminho a que seja uma pessoa algo maníaco-depressiva, onde demonstra euforia, delírio, raiva ou mau humor nos momentos errados. E talvez a característica que mais o atinge seja um desmedido orgulho por si mesmo e pela sua arte. Esta é uma obra originalmente considerada como um clássico da literatura mundial. 

Confesso que embora a conhecesse de nome, nunca a tinha lido. E isso pode até, eventualmente, moldar a forma como olho para a obra, do ponto de vista do argumento. Isto porque, se a história e o protagonista aparentam ser interessantes e originais, devo dizer que, em termos de enredo, senti um claro ciclo repetitivo nesta obra. Mas, lá está, como não li o original, posso apenas suspeitar – embora, sem certezas – que essa repetição e esse ciclo narrativo redundante – também estará presente na obra original e que Martin Ernstsen se limitou a respeitá-lo na sua adaptação para banda desenhada.

Seja como for, de uma forma ou de outra, julgo ser justo dizer que essa redundância do protagonista estar constantemente a cair na mesma situação – sem que acontecimentos verdadeiramente relevantes lhe aconteçam – torna a leitura um pouco inglória. Isto porque primeiro cativa o leitor, fá-lo pensar, mas, sensivelmente a meio do livro, parece que a obra se esgota a si mesma em termos de ideias. Claro que há um final e uma pseudo-reflexão inerente ao mesmo, mas, a meu ver, sabe a pouco. Fica mal resolvido. É mais na ideia e na personagem que Fome mais brilha, quanto a mim. Não tanto no enredo e no desenvolvimento, propriamente dito, do argumento. Não obstante, para além da ideia e da personagem verdadeiramente interessantes, convém dizer que o trabalho de Martin Ernstsen me surpreendeu muito, pela positiva.

Fome: Novela Gráfica, de Martin Ernstsen - 20|20 Editora - Cavalo de Ferro
Isto porque este livro apresenta uma identidade gráfica muito própria com o autor a demonstrar ter na manga numerosas e dinâmicas ferramentas visuais para bem ilustrar uma história. Tanto assim é que até acaba por ser difícil dizer qual é bem o estilo gráfico do autor. Isto porque, sendo o livro, quase na sua totalidade, a preto e branco, com predominância de tons a sépia, encontramos ilustrações de página inteira que parecem ser verdadeiros quadros expressionistas, outros que parecem ser verdadeiros quadros realistas. Encontramos vinhetas ovais com o texto em legenda fora do desenho, que remetem para o livro ilustrado e, noutras vezes, encontramos um desenho caricatural, estilo cartoon, onde aparecem cores garridas. Há vinhetas grandes e vinhetas pequenas. Vinhetas de todas as formas e feitios.

O traço do autor lembrou-me bastante o traço de um outro autor que também gosto bastante e que já tem algumas obras publicadas em Portugal. Falo do espanhol Alfonso Zapico que tem as suas obras Gente de Dublin e Café Budapeste publicadas em português, pela Levoir, na sua Coleção Novelas Gráficas. E, em termos de desenho, também existe uma certa dualidade neste Fome: se, por vezes, o desenho parece bastante simplista e de estilo “abonecado”, noutras vezes, especialmente ao nível dos cenários, parece carregado de um verdadeiro realismo romântico. Já para não falar nos desenhos mais expressionistas, para descrever a loucura do protagonista da história, em que Ernstsen também se revela muito inspirado.

Fome: Novela Gráfica, de Martin Ernstsen - 20|20 Editora - Cavalo de Ferro
Sendo o desenho muito interessante, a planificação é ainda mais impressionante, pois estamos perante uma obra que, em termos de dinâmica na planificação, é fantástica. Ernstsen não é, certamente, um autor "preguiçoso", pois parece que cada página é pensada de forma demorada pelo autor, de modo a oferecer-nos uma boa imersão na história. É uma mistura extremamente bem conseguida entre o melhor que o livro de ilustração e o melhor que o livro de banda desenhada têm para nos oferecer.

Quanto à edição, temos um livro em capa dura, com papel espesso e baço, e uma encadernação e impressão de boa qualidade. Tudo bem feito pela 20|20 Editora e nada a objetar, exceto uma pequena nota para a promoção da obra, por parte da editora: o facto de todas as imagens promocionais praticamente não apresentarem vinhetas, faz com que o público da banda desenhada possa não ficar tão empolgado com o livro, pois olhando para as páginas promocionais que partilho neste artigo, bem que parece ser mais um livro ilustrado do que uma banda desenhada. O que não é o caso. 

Em suma, posso dizer que como a história me cativou desde o início e como as ilustrações me pareciam muito interessantes, até meio do livro eu estava muito admirado e impressionado com a obra. No entanto, e devido a uma certa redundância de história e de um subaproveitamento da trama criada, a experiência final de leitura fez-me ficar com um "sorriso amarelo". Isto porque o livro poderia ser tão mais fantástico se depois a história não ficasse, assim, subaproveitada e esgotada! Ainda assim, é um livro bastante bom e um dos melhores da 20|20 Editora. Mais que não seja pelo trabalho impressionante de Martin Ernstsen, que usa inteligentemente as suas capacidades para nos dar um trabalho ímpar. Boa aposta!


NOTA FINAL (1/10):
8.4


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Fome: Novela Gráfica, de Martin Ernstsen - 20|20 Editora - Cavalo de Ferro

Ficha técnica
Fome: Novela Gráfica
Autor: Martin Ernstsen
Adaptado a partir da obra original de: Knut Hamsun
Editora: 20|20 Editora (Cavalo de Ferro)
Páginas: 232, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Outubro de 2021

segunda-feira, 8 de novembro de 2021

Análise: 1984: Novela Gráfica

1984: Novela Gráfica, de Sybille Titeux de la Croix e Amazing Améziane - Cavalo de Ferro - 20|20 Editora

1984: Novela Gráfica, de Sybille Titeux de la Croix e Amazing Améziane - Cavalo de Ferro - 20|20 Editora
1984: Novela Gráfica, de Sybille Titeux de la Croix e Amazing Améziane

Desde que a obra de George Orwell entrou, recentemente, em domínio público, são cada vez mais as diversas adaptações que vão surgindo no mercado. Só em Portugal, já foram lançadas, no espaço de cerca de um ano, 3 adaptações para banda desenhada da mesma obra 1984. A primeira adaptação, da autoria de Fido Nesti, pela editora Alfaguara, já aqui foi analisada. Brevemente, analisarei também a adaptação de Xavier Coste, publicada pela Relógio d’Água, que também já se encontra na minha pilha de “livros para ler”. Possivelmente, até farei depois um comparativo entre as 3 obras. Saliento, também, a título de curiosidade, que há ainda uma quarta versão, da autoria de Jean-Christophe Derrien e Remi Torregrossa, que também me parece muito interessante, mas que, pelo menos até agora, não foi lançada em Portugal.

Mas centremo-nos na versão de Sybille Titeux de la Croix e Amazing Améziane, que a 20|20 Editora, sob a chancela da Cavalo de Ferro, lançou recentemente.

1984: Novela Gráfica, de Sybille Titeux de la Croix e Amazing Améziane - Cavalo de Ferro - 20|20 Editora
Posso dizer que, no seu todo, esta é uma adaptação que cumpre bem os pressupostos de uma adaptação tão relevante como a de 1984, de George Orwell. Resume os momentos mais importantes da obra, tem clareza narrativa e tem uma ilustração que, não sendo estonteante, sabe reconstruir o universo imaginado por Orwell.

A história, sobejamente conhecida, mas que sintetizo aqui, é ambientada num futuro distópico que se passa no ano de 1984 (mas que foi originalmente escrito no ano de 1948) e conta-nos o percurso de Winston Smith, que trabalha no Ministério da Verdade, onde textos, filmes e livros são oficialmente retificados para provar que o Partido tem sempre razão. Winston começa então a discordar com os valores preconizados por este Estado Autoritário e começa a sentir uma rebelião secreta a crescer dentro de si. E essa rebelião e essa revolta acabam por ser ainda mais despertadas quando começa a travar conhecimento com Julia, por quem se apaixona, e com quem mantém um relacionamento às escondidas dos tele-écrans comandados pela equipa do Grande Irmão. Tal como Winston, também Julia é crítica do sistema que os controla ao mais ínfimo detalhe. E, eventualmente, esse sentimento de revolta e contraordenação de ambos, acaba por ser posto a descoberto pela máquina que sustenta o Grande Irmão, havendo fortes punições para os prevaricadores.

1984: Novela Gráfica, de Sybille Titeux de la Croix e Amazing Améziane - Cavalo de Ferro - 20|20 Editora
A história deste que é um dos meus livros favoritos de sempre, e que continua tão atual e tão relevante acerca das formas como podemos olhar para um Estado e para o papel que desempenhamos no mundo, já é bem conhecida. Interessa, por isso, olhar mais para a forma como a obra original foi adaptada nesta edição. Acho que, de uma forma global, podemos dizer que a adaptação está bem conseguida, pois consegue transportar-nos para esse universo opressivo, sorumbático e cinzento. Este é um sítio onde nenhum de nós gostaria de estar, mas que nos cativa por ser uma distopia que, em muitos casos, se assemelha àquilo que temos nas sociedades modernas. E isso, passa bem nesta adaptação de Sybille Titeux de la Croix e Amazing Améziane. Quanto aos diálogos, porém, julgo que os mesmos poderiam ter sido mais bem trabalhados.

Em termos visuais, é uma obra que, em muitas ocasiões, parece alicerçar-se mais no livro ilustrado do que na banda desenhada. Porém, tenho cuidado com esta afirmação, pois é claro que estamos perante um livro de banda desenhada na forma, com a presença de vinhetas, balões, etc. No entanto, o que quero sublinhar é que, por vezes, as vinhetas são compostas por uma ilustração com o texto a aparecer fora das mesmas, como se fosse a legenda de uma ilustração apenas. Além disso, não há propriamente uma grande sequência entre desenhos já que, em vários casos, o ilustrador Amazing Améziane se limita a oferecer-nos desenhos que nos remetem para o universo aqui tratado, ou para os valores que são passados por esta distopia, mas que não são, necessariamente, uma sequência visual para o que acontece na linha narrativa da história. Por outras palavras, como as ilustrações não obedecem, necessariamente, ao que é dito e narrado, bem que também poderiam ser utilizadas mais à frente ou mais atrás na história, com outra descrição e/ou texto. É, também por isso, que este livro nos remete para o livro ilustrado.

1984: Novela Gráfica, de Sybille Titeux de la Croix e Amazing Améziane - Cavalo de Ferro - 20|20 Editora

A paleta de cores assenta, depois, em tons azulados, que nos transportam para um universo triste e monocromático que está, também, muito presente na história original. Acho, portanto, que, de um modo geral, o autor é feliz em caracterizar o universo de 1984. As ilustrações acabam por nos dar ambientes sujos, opressivos, lineares e obtusos que nos parecem fazer viajar facilmente para este universo.

Gostei também, e particularmente, da planificação da obra, já que é muito dinâmica e moderna. Temos ilustrações que ocupam uma só página; temos as tradicionais vinhetas; temos ilustrações grandes, que são divididas por vinhetas entre si; temos figuras a rasgar os limites das vinhetas; temos, basicamente, muita variedade.

Talvez, também por isso, esta adaptação sendo, ainda assim, pesada pelo tema que aborda, torna-se uma leitura fácil e simples de ler por toda a gente. Claro que, se isso é bom por um lado, por outro lado, também faz com que esta adaptação, quando comparada, por exemplo, com a de Fido Nesti, se pareça, por ventura, mais superficial e menos fidedigna. Quase como se procurasse ser, por seu turno, mais uma introdução à obra original do que, propriamente, um resumo da obra original. Se me perguntarem: “então, mas quem nunca leu a obra original e lê esta adaptação destes autores fica a conhecer 1984?” Responderia que fica a conhecer, por traços gerais, a obra original, sim. Ganha umas luzes sobre o tema. Mas também é verdade que há muito da obra original que acaba por não ser resgatado para esta adaptação.

1984: Novela Gráfica, de Sybille Titeux de la Croix e Amazing Améziane - Cavalo de Ferro - 20|20 Editora

Em termos de edição, a 20|20 Editora faz aqui mais um bom trabalho. O livro é robusto e em capa dura, com papel baço de boa gramagem. Um objeto-livro bem apetecível, embora a ilustração da capa pudesse ser, a meu ver, bem melhor, a julgar por outras splash pages no interior do livro, que dariam capas bem mais apelativas.

Em conclusão, esta é (mais) uma adaptação para novela gráfica da obra 1984, de George Orwell, que cumpre os pressupostos primordiais de nos transportar, novamente, para esse universo cinzento e opressivo que o autor inglês criou na sua obra-prima. Acaba por ser uma adaptação light – leia-se “superficial” – mas que consegue ser bem conseguida e uma porta de entrada pertinente para o texto original.





NOTA FINAL (1/10):
7.8



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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1984: Novela Gráfica, de Sybille Titeux de la Croix e Amazing Améziane - Cavalo de Ferro - 20|20 Editora

Ficha técnica
1984: Novela Gráfica
Autores: Sybille Titeux de la Croix e Amazing Améziane
Editora: 20|20 (Cavalo de Ferro)
Páginas: 240, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Agosto de 2021