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terça-feira, 10 de setembro de 2024

Análise: A Companheira

A Companheira, de Agustina Guerrero - Dom Quixote

A Companheira, de Agustina Guerrero - Dom Quixote

A Companheira, de Agustina Guerrero

Adoro a seguinte sensação que, volta e meia, me acontece quando leio banda desenhada: ser surpreendido - pela positiva! - por um(a) autor(a) que já conhecia e sobre o(a) qual havia formado opinião. Também é verdade que, por vezes, acontece o inverso: somos surpreendidos pela negativa e determinado autor brinda-nos com um novo livro que fica aquém das nossas expetativas. Felizmente, no caso deste A Companheira, o novo livro da autora argentina Agustina Guerrero, que a editora Dom Quixote publicou há algumas semanas, a sensação não poderia ser mais positiva.

A Companheira, de Agustina Guerrero - Dom Quixote
Sim, eu já tinha gostado do outro livro - também por cá editado pela mesma editora, A Viagem - mas não tinha ficado tão maravilhado assim, por vários motivos que, na altura, quando escrevi a minha análise à obra, apontei. E tendo uma perceção positiva - mas não apaixonada - pelo estilo da autora, mergulhei para este A Companheira com uma curiosidade mediana.

E posso dizer que - agora, sim! - fiquei rendido! Tudo o que já era bom em A Viagem é igualmente bom aqui e as coisas que, nesse anterior livro, considero mais fracas - como o relato mais imberbe, os dramas mais superficiais e a própria bipolaridade entre uma crónica de viagem e um livro de cariz mais dramático - deixam de existir neste A Companheira. Aliás, o próprio conceito da obra, a sua honestidade e a sua relevância e sensibilidade são, quanto a mim, muito mais grandiosos do que no álbum anterior. Portanto, digo-vos de forma quase histérica: se estiverem indecisos entre A Viagem e A Companheira, não hesitem duas vezes: comecem por ler este A Companheira.

Enquanto que A Viagem, tal como o nome indica, se trata de um diário de viagem ao Japão, com a autora a ser acompanhada por uma amiga - e sendo, também uma viagem ao próprio âmago interno de Agustina Guerrero - este A Companheira é um relato muito mais profundo, em que a autora mergulha no seu passado. Nas suas memórias. As boas e as más. As que marcam uma vida. O conceito é tão simples que até me chega a irritar! Como é que eu não me lembrei disto antes? É daquelas ideias demasiado simples e, ao mesmo tempo, boas, que qualquer argumentista espera ter.

A Companheira, de Agustina Guerrero - Dom Quixote
Com efeito, todos nós temos memórias que fizeram de nós aquilo que somos hoje. Os traumas de infância, juventude e idade adulta; as coisas tristes; as incapacidades; os falhanços; os medos; as glórias; os dias inesquecíveis; os sítios onde passámos férias; os momentos em que rimos até mais não e os momentos em que nos sentimos miseráveis perante tamanha tristeza. Portanto, é justo dizer que todos nós teríamos conteúdo para fazer um livro igual - na premissa e não no conteúdo, pois todos temos as nossas próprias vivências - a este A Companheira. No entanto, foi Agustina Guerrero que se lembrou de tal empreitada. E ainda bem que o fez.

Acaba por ser um livro altamente pessoal e onde a autora volta a abrir as portas da sua intimidade. Os seus medos, as suas inseguranças, os seus traumas, as suas alegrias, os seus feitos... são muitos os momentos que nos são revelados. Os cheiros da infância, os verões que nunca pareciam terminar, os primeiros romances, os dias em que experimentámos algo novo, as comidas das mães e das avós, os dias em que deixámos os nossos pais cheios de orgulho, os dias em que tivemos tardes fantásticas com os amigos... reparem que, neste momento, até deixei de falar sobre Agustina e passei a falar sobre mim mesmo. Porque, de facto, é esse o grande feito desta obra e da autora. É que, falando sobre si própria, Agustina Guerrero consegue apelar a todos nós. Achamos que somos todos diferentes e originais - e também somos, é certo - mas temos todos muito em comum uns com os outros. Ou, como canta Rui Veloso, "muito mais é o que nos une que aquilo que nos separa". Só é pena que às vezes nos esqueçamos disso. De certa forma, a banda desenhada A Companheira consegue fazê-lo por nós.

E embora este livro se sedimente, em termos de argumento, num conjunto de memórias que a autora experienciou e que, corajosamente, partilha com os seus leitores, a verdade é que não estamos perante um livro de histórias curtas e avulsas, dividido por subcapítulos. Ao invés, a autora montou um engodo narrativo que é vivido no presente e que lhe permite, juntamente com a sua "companheira", viajar para dentro de si mesma, como se fosse uma viagem espiritual e iniciática. Esta bengala narrativa assume um tom algo onírico, que me fez temer pela consistência do relato, mas que acaba por funcionar bem e que até remete, com as devidas distâncias, para a forma como as sensações são explanadas no filme de animação da Disney Inside Out.

A Companheira, de Agustina Guerrero - Dom Quixote
Quanto às ilustrações, Agustina Guerrero oferece-nos algo bastante identificável com aquilo que a autora nos deu na sua A Viagem. Daí que possa recuperar algumas das palavras que escrevi a esse propósito: "o estilo de desenho da autora é bastante “cartoonesco”, com uma planificação bastante livre e anárquica que raramente apresenta limites nas suas vinhetas. (...) Não são desenhos particularmente complexos, especialmente na caracterização das personagens, que apresentam expressões abonecadas, mas são ilustrações agradáveis à vista. (...) Por vezes, a autora dá-nos desenhos de página inteira que são marcados por uma bela e sedutora poesia visual e esses são os melhores momentos do livro. Mesmo não saindo do género “cartoonesco”, a autora consegue imprimir uma beleza visual ímpar (...) São belos momentos que conseguem tocar o autor."

Também neste cômputo, e desculpem-me se estou a ser repetitivo, A Companheira consegue superar A Viagem, não tendo os problemas de ter duas personagens demasiado parecidas, embora, ainda assim, continue a haver algum claustrofobismo visual nas páginas em que o texto é em maior quantidade e dimensão do que o desejável. 

Mesmo assim, tenho que realçar que muito admiro a forma como, sendo simples, os desenhos de Guerrero conseguem transmitir tantas emoções.

A edição da Dom Quixote, por seu turno, volta a ser fantástica! O livro é em capa dura, em tecido, com detalhes a verniz que muito embelezam a capa. O resultado é extremamente apetecível e impactante. No interior, o papel é baço e de boa qualidade, e a impressão e encadernação são excelentes, também. Acaba por ser um objeto-livro lindíssimo só à conta da sua capa tão especial.

Em suma, A Companheira é uma excelente surpresa! Quem já tinha gostado de embarcar n'A Viagem da mesma autora, vai ficar maravilhado com este livro e aqueles que, como eu, não ficaram logo rendidos ao estilo da autora nesse primeiro livro por cá lançado, certamente darão a mão à palmatória: Agustina Guerrero é uma autora a seguir e este A Companheira entra para o lote - já denso - de melhores bandas desenhadas do ano. A não perder!


NOTA FINAL (1/10):
9.3


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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A Companheira, de Agustina Guerrero - Dom Quixote

Ficha técnica
A Companheira
Autora: Agustina Guerrero
Editora: Dom Quixote
Páginas: 232, a cores
Encadernação: Capa dura em tecido
Formato: 205 x 247 mm
Lançamento: Junho de 2024

terça-feira, 26 de março de 2024

Análise: A Viagem

A Viagem, de Agustina Guerrero - Dom Quixote - LeYa

A Viagem, de Agustina Guerrero - Dom Quixote - LeYa
A Viagem, de Agustina Guerrero

A Viagem é uma obra da autora argentina Agustina Guerrero que foi lançada em Setembro de 2023 pela editora Dom Quixote, uma chancela do grupo LeYa.

Trata-se de um livro de viagem, em banda desenhada, com uma tónica forte na viagem interior que a personagem principal faz sobre si mesma.

A viagem, propriamente dita, tem como destino o Japão e leva Agustina e a sua melhor amiga, Loly, a percorrer longos quilómetros para esse destino que ambas desejavam conhecer. Sendo muito diferentes entre si, uma muito nervosa com tudo e todos, e em constante estado de ansiedade, e a outra muito positiva e entusiasmada com tudo, Agustina e Loly acabam por encontrar um bom equilíbrio na relação de amizade que têm. Se o destino é longínquo, a viagem que a protagonista acaba por empreender ao âmago do seu ser, é ainda mais longa e profunda.

A Viagem, de Agustina Guerrero - Dom Quixote - LeYa
Agustina é extremamente ansiosa, sofre de profundas insónias, está sempre em constante risco de meltdown, quer controlar, agendar e combinar qualquer pequeno detalhe do seu dia a dia, não abrindo espaço ao improviso e, claro, tenta superar a difícil fase de um aborto que fez recentemente. Analisando assim, de repente, Agustina está longe de ser uma pessoa perfeita ou cuja vida seja um exemplo para os demais. Mas, pergunto eu, quem de nós é perfeito e um exemplo para os demais?

Nesse ponto, bem como na sinceridade com que a autora nos abre a sua própria existência, este A Viagem é um relato que vale bem a pena conhecer.

Por outro lado, e também com sinceridade, devo dizer que não fiquei tão encantado assim, como alguns dos meus conhecidos que me tinham dito maravilhas deste livro. Foram mais de cinco as pessoas que me recomendaram o livro. Que me diziam que o tinha de ler. E as análises estrangeiras da obra também são bastante positivas. Concordo que o tema é interessante e as ilustrações são bonitas, mas o argumento em si, parece-me algo pobre, rebuscado e cheio de lugares comuns. E, por isso, senti que o relato acaba por ser algo imberbe, com uma reflexão algo simplista e pueril. Mas pode isto também ser resultado das altas expetativas que eu tinha para este A Viagem.

A Viagem, de Agustina Guerrero - Dom Quixote - LeYa
Ainda que o drama da perda de um bebé, por opção, refira-se, possa e deva afetar muito uma pessoa – e não apenas uma mulher como é comummente aceite, mas sim uma pessoa -, a verdade é que a personagem principal do livro me pareceu algo imatura e infantil até nesse próprio drama pessoal. Que caminha apenas à superfície. Poderá ser um retrato da Mulher atual e ter o seu valor por isso, mas, do ponto de vista narrativo, em que se procura passar uma mensagem impactante para o autor, não me parece que a autora tenha conseguido "tocar na ferida" devidamente. Ou de forma madura.

Ou seja, sendo um livro simpático e que se lê bastante bem, acaba por ser algo inócuo, quer enquanto livro de viagem ao Japão, quer enquanto viagem pessoal ao centro de si mesmo. Se formos ao âmago do argumento, parece que os dramas pessoais são colocados de forma algo forçada na história de viagem que, por si só, embora nos apresente muitas palavras japonesas e informações avulsas, também não parece ser um real relato de viagem relativamente ao nível da cultura, da vivência e dos profundos costumes japoneses. É tudo muito superficial. A parte da viagem ao Japão e a parte da viagem pessoal.

A Viagem, de Agustina Guerrero - Dom Quixote - LeYa
Em termos visuais, este é um livro bastante bonito e que sobressai. O estilo de desenho da autora é bastante “cartoonesco”, com uma planificação bastante livre e anárquica que raramente apresenta limites nas suas vinhetas. A cor que, para além do preto e do branco, abunda nos desenhos de Agustina Guerrero, é o cor de rosa que não é uma escolha assim tão frequente em banda desenhada. O resultado acaba, pois, por se refrescante, moderno, feminino e bastante gracioso, contribuindo para uma boa experiência visual.

Não são desenhos particularmente complexos, especialmente na caracterização das personagens, que apresentam expressões abonecadas, mas são ilustrações agradáveis à vista. Falando na caracterização das personagens, aponto apenas um “problema” que, infelizmente, decorre ao longo da história: é que Agustina e Loly são exatamente iguais em termos visuais. Têm a mesma altura, o mesmo tipo de corpo, a mesma cor de cabelo, a mesma cara, a mesma postura corporal e vestem o mesmo tipo de roupa. E quase sempre estão juntas ao longo de todo o livro. O único traço que as distingue é o penteado: Agustina usa sempre o cabelo apanhado com “totó” e Loly usa o cabelo apanhado, mas com uma espécie de bandolete em trança (perdoem-me, mas não domino muito bem a nomenclatura para penteados). Ora, em várias vezes dei comigo a tentar perceber qual era a personagem que falava. Imagino que as personagens reais possam ser semelhantes, mas em termos de banda desenhada, a sua demasiada semelhança acaba por ser um problema de fluidez narrativa.

A Viagem, de Agustina Guerrero - Dom Quixote - LeYa
Por vezes, a autora dá-nos desenhos de página inteira que são marcados por uma bela e sedutora poesia visual e esses são os melhores momentos do livro. Mesmo não saindo do género “cartoonesco”, a autora consegue imprimir uma beleza visual ímpar em que os exóticos ambientes do oriente se fundem com o estado de espírito volátil e complexo da personagem principal. São belos momentos que conseguem tocar o autor.

Noutros casos, as páginas aparecem carregadas de texto, o que torna a noção de espaço ao nível da planificação das páginas, algo claustrofóbica. Embora se aceite que isso também encaixa bem na própria mente da autora que parece assoberbada com as suas próprias angústias e dramas pessoais.

A edição da Dom Quixote é muito bela. O livro, com um bom grafismo, apresenta capa dura em tecido, com detalhes dourados. No interior, o papel tem boa qualidade e a impressão e encadernação são boas. É uma daquelas edições que chama à atenção pela positiva.

Em suma, este é um livro agradável, que se lê muito bem, e que mesmo tendo um aspeto bastante refinado e bem conseguido ao nível das ilustrações, não chega a ter a profundidade que eu esperaria. Especialmente ao nível da narrativa que, querendo matar dois coelhos de uma só cajadada, sendo um livro de viagem e um livro de viagem interior, acaba por não ser excelso em nenhum desses vetores. Mesmo assim, é um livro leve e que pode agradar a todos os que procuram uma leitura desse gabarito.


NOTA FINAL (1/10):
7.0


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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A Viagem, de Agustina Guerrero - Dom Quixote - LeYa

Ficha técnica
A Viagem
Autora: Agustina Guerrero
Editora: Dom Quixote
Páginas: 232, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 20,3 x 24,7 cm
Lançamento: Setembro de 2023