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quarta-feira, 17 de julho de 2024

Análise: O Árabe do Futuro 6

O Árabe do Futuro 6, de Riad Sattouf - Teorema - LeYa

O Árabe do Futuro 6, de Riad Sattouf - Teorema - LeYa
O Árabe do Futuro 6, de Riad Sattouf

Foi com satisfação que acolhi este sexto e último volume da série O Árabe do Futuro, de Riad Sattouf, que, por cá, foi publicado há umas semanas pela Teorema, uma chancela editorial do Grupo LeYa. 

Esta é uma publicação que demorou alguns anos a ser publicada em Portugal - nove, para ser mais exato - em comparação com os oito anos que a série demorou a ser originalmente publicada. Ora, posto isto, eis mais um "mito urbano" da nossa praça bedéfila que cai por terra. Farto-me de ver, por essa internet fora, comentários acerca da "demora enorme" na publicação desta série por cá, mas a verdade é que demorou praticamente o mesmo tempo do que a publicação para o mercado francês. É verdade que houve um interregno de três anos entre a publicação do quarto e quinto volumes da série que era escusado, mas, repito, a série não demorou assim tanto mais tempo a ser publicada em Portugal do que em França. Demorou apenas mais um ano. É importante que as pessoas se informem bem antes de começarem a maldizer.  

É claro que, face ao interregno entre a publicação do quarto e quinto volume da série, também compreendo que tenha havido leitores portugueses que desesperaram pelo final da série e que, por esse motivo, tenham adquirido a edição francesa da obra. O que também é legítimo, claro. Contudo, o que é certo e factual é que a editora portuguesa honrou os seus compromissos terminando mais uma série.

O Árabe do Futuro 6, de Riad Sattouf - Teorema - LeYa
São, pois, no tempo atual, tantos os exemplos de séries que, não obstante a sua dimensão e número de volumes, são integralmente editadas em Portugal, que é cada vez mais justo afirmar, com segurança, que "o normal", em Portugal, é que as séries sejam publicadas na íntegra. Parece algo básico e óbvio de afirmar, eu sei, mas, tendo em conta que durante muitos anos não era isso que acontecia, (ainda) é algo que merece o nosso contentamento. E, claro, creio que, por outro lado, também é justo que nós, leitores portugueses, façamos a nossa parte e compramos as séries que são iniciadas em Portugal sem medo que as mesmas sejam posteriormente descontinuadas. A confiança está conquistada, diria.

Este último volume da série volta a trazer-nos à história autobiográfica de Riad Sattouf. Aqui são narrados os principais eventos da sua vida, durante os anos de 1994 e 2011, o que faz com que este seja o maior período temporal da história. Riad já é adulto e procura agora dar os primeiros passos enquanto autor de banda desenhada. Como tal, vai-nos contando diversas peripécias da sua vida que o levaram aos primeiros trabalhos, bem como todo o processo que teve que percorrer para alcançar a almejada formação profissional que lhe fosse útil para se afirmar como autor de banda desenhada. A par disso, os dramas pessoais mantêm-se presentes, com o seu irmão mais novo retido pelo seu pai na Síria, sem que possa viver em França, junto de Riad, do seu irmão do meio, da sua mãe e dos seus avós. O périplo infindável que a mãe de Sattouf enfrenta para tentar chegar ao contacto com o seu filho mais novo, chega a ser traumatizante, esgotante e profundamente triste para o leitor.

O relato continua, pois, a ser bastante agridoce, ora dando-nos barrigadas de riso perante a maneira como o autor descreve pequenas situações do dia-a-dia, ora brindando-nos com vários murros no estômago com a seriedade do drama familiar que assola esta família. É um retrato sociológico absolutamente fantástico que tem o dom de servir como um objeto de estudo para que possamos compreender a dicotomia e complexidade que é ter-se dupla-nacionalidade em qualquer país e, em particular em França, onde são tantos os problemas advindos da não convenientemente bem feita integração dos imigrantes.

Sattouf é certeiro na forma como narra a sua vida entre o Médio Oriente e França, oferecendo uma visão perspicaz e muitas vezes crítica das culturas e dos eventos que moldaram sua juventude. O autor lida com questões de identidade ao crescer entre a Síria e França, tentando encontrar o seu lugar no mundo. Mas esses dois universos acabam por ser, muitas vezes, antagónicos.

O Árabe do Futuro 6, de Riad Sattouf - Teorema - LeYa
O estilo de desenho do autor mantém-se igual ao longo de toda a série, com um traço "cartoonesco" em linhas claras e com uma utilização eficaz de cores para transmitir diferentes ambientes e emoções. A paleta de cores é limitada, mas expressiva, o que ajuda a distinguir entre os diferentes cenários geográficos e culturais. E mesmo estando o pai de Riad na Síria - e portanto geograficamente distante do protagonista que está em França - a sua presença acaba por ser constante no espírito de Riad. E para o demonstrar visualmente, o pai aparece sempre em pequenos balões de pensamento de cor vermelha.

Tanto quanto sei, esta é uma série que não vende especialmente bem em Portugal. E isso deixa-me bastante descontente, pois é uma obra que considero verdadeiramente obrigatória e extremamente bem feita. No entanto, também me parece que compreendo parte do que leva a um não interesse dos leitores portugueses: um certo preconceito. Do qual, aliás, eu padeci e do qual já falei na minha análise ao quarto volume da série. A isso se deve especialmente duas coisas: o título - que acho penoso e extremamente desinspirado - e as próprias capas dos livros que, a meu ver, não são nada apelativas. Mas, ultrapassado o preconceito, garanto-vos que O Árabe do Futuro é uma belíssima série! Por vezes, para sermos agradavelmente surpreendidos, só temos mesmo que desafiar os nossos próprios preconceitos. Fica a dica!

A edição da Teorema é em capa mole baça, com badanas. No miolo, encontramos bom papel baço e um bom trabalho no cômputo da impressão e da encadernação. Uma pequena nota negativa para a não introdução da referência ao volume 6 na lombada do livro. Já no anterior volume 5 isso tinha acontecido. Não é nada de dramático, bem sei, mas é um detalhe que tira continuidade aos restantes 4 volumes que tinham menção ao número do volume na lombada.

Concluindo, se até aqui a série merece rasgados elogios pela sua capacidade de misturar humor e crítica social de maneira acessível e cativante, este sexto e último volume não é exceção, continuando a oferecer-nos uma honestidade brutal e uma perspectiva única de Riad Sattouf sobre eventos históricos e pessoais. É uma das minhas séries favoritas de banda desenhada e merece ser lida por todos!


NOTA FINAL (1/10):
9.4



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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O Árabe do Futuro 6, de Riad Sattouf - Teorema - LeYa

Ficha técnica
O Árabe do Futuro 6
Autor: Riad Sattouf
Editora: Teorema (LeYa)
Páginas: 184, a cores
Encadernação: Capa mole
Formato: 172 x 240 mm
Lançamento: Maio de 2024


sexta-feira, 17 de maio de 2024

Árabe do Futuro chega ao fim!



Eis mais uma série de banda desenhada de qualidade superior que fica integralmente publicada em Portugal!

A Teorema (chancela do grupo LeYa) publica hoje o sexto e último volume da série O Árabe do Futuro, de Riad Sattouf, da qual já aqui falei, quando analisei os anteriores volumes 4 e 5 da série!

Esta é uma obra em seis volumes onde Riad Sattouf nos relata toda a sua infância e juventude enquanto sendo portador de uma dualidade que vai condicionar toda a sua vida: por um lado é filho de mãe francesa, e, por outro lado, é filho de pai sírio.

Esta é claramente uma série a não perder!

Mais abaixo deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.

O Árabe do Futuro 6, de Riad Sattouf

Esta semana nas livrarias o sexto e último volume da série O Árabe do Futuro, escrita e desenhada por Riad Sattouf.

O Árabe do Futuro, conta a vida de um jovem no Oriente Médio (1978-2011) numa série em BD dividida em seis volumes, escrita e desenhada por Riad Sattouf. 

Vendeu mais de 3 milhões de exemplares e foi traduzido para 23 idiomas, conta a infância e a adolescência do autor, filho mais velho de mãe francesa e pai sírio. A história leva-nos da Líbia do Coronel Gaddafi à Síria de Hafez Al Assad, passando pela Bretanha, de Rennes ao Cabo Fréhel. Este sexto volume cobre os anos 1994-2011 e é o último da série.
Autor de origem franco-síria, Riad Sattouf nasceu em Paris em 1978. 

Passa a sua infância na Argélia, na Líbia e na Síria, onde recebe uma educação muçulmana. 

Regressa a França com 12 anos de idade, prosseguindo os seus estudos, primeiro em Cap Fréhel e mais tarde em Rennes, onde cursa a Escola de Belas-Artes. 

É atualmente um autor de BD de grande sucesso. 

É igualmente um (re)conhecido cineasta, tendo realizado Les BeauxGosses, galardoado com um César para o Melhor Primeiro Filme em 2010, e Jacky au Royaume des Filles, que estreou em França nos inícios de 2014.

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Ficha técnica
O Árabe do Futuro 6
Autor: Riad Sattouf
Editora: Teorema (LeYa)
Páginas: 184, a cores
Encadernação: Capa mole
Formato: 172 x 240 mm
PVP: 22,90€

sexta-feira, 28 de julho de 2023

Análise: O Árabe do Futuro 5


O Árabe do Futuro 5 - Ser Jovem no Médio-Oriente (1992-1994), de Riad Sattouf

Depois de mais tempo do que o esperado, a Teorema (Grupo LeYa) retomou o lançamento da série O Árabe do Futuro, publicando o quinto e penúltimo volume desta fantástica série da autoria de Riad Sattouf.

Gosto especialmente de citar esta série como um claro exemplo de que não devemos julgar um livro pela sua capa. Nem pelo seu título, já agora. Contra mim falo já que, desde que apareceu o primeiro volume da série, que não senti qualquer apelo pela mesma. As capas não são minimamente apelativas e o próprio nome “O Árabe do Futuro”, não me parece nada cativante, embora reconheça a piada irónica inerente ao mesmo. Como tal, lembro-me que via os livros nas livrarias, tinha amigos que me recomendavam a série, via que alguns livros arrecadavam prémios, mas, enfim, não lhe dava hipótese. Era um preconceito parvo, sim.

Mas tudo mudou quando, em 2020, dei uma hipótese à série, começando por ler o quarto volume. A experiência foi tão boa que, rapidamente, fui à procura dos volumes anteriores. Fiquei fã de O Árabe do Futuro e com vontade de me autoflagelar devido a ter, durante tanto tempo, negado dar uma hipótese à série. Continuo a achar as capas sofríveis e pouco apelativas, e o título continua a parecer-me desinspirado e pouco cativante, mas como o que mais interessa é – ou devia ser – o que está no interior, devo dizer-vos que esta é uma série que recomendo totalmente.

O Árabe do Futuro
 é uma história biográfica do autor franco-sírio Riad Sattouf e leva-nos à infância do autor, oferecendo-nos uma perspetiva única sobre as vivências e experiências de um rapaz que era filho de pai sírio e de mãe francesa. Naturalmente, este mix numa França que, diga-se o que se disser, nunca superou/aceitou totalmente bem a presença de imigrantes no seio da sua sociedade, levou Riad a ter um conjunto de interações marcantes. Mais do que isso, esta dualidade, revela bem como se pode tornar difícil – embora, por vezes, cómica – a vida de um jovem que advém de origens tão diferentes. Por um lado, o seu pai tem uma mentalidade que não se coaduna com a forma de pensar francesa. Por outro lado, a sua mãe, não pode fugir ao facto de ter uma postura perante a vida e os valores da família muito mais ocidentais no seu âmago. E o resultado acaba por ser que Riad não se sinta um sírio "a sério", nem um francês "a sério".

Embora dê para começar a ler a série a partir de qualquer volume,  há um fio condutor entre os volumes, já que o autor nos vai contando a história da sua vida, desde os anos 70 até aos anos 2010. Portanto, sim, recomendo que leiam a série a partir do princípio. Mas repito que dá para entrar no universo de Riad Sattouf com qualquer livro. Pelo menos para mim, isso não foi problema. O "risco" maior que daí pode advir é que, depois de feita a leitura, queiram desenfreadamente encontrar todos os livros da coleção.

Neste quinto volume, e procurando não revelar nada que possa ser considerado como um spoiler, o jovem Riad já tem idade para andar no ensino secundário. O seu talento para o desenho já é uma constante e, como é natural na adolescência, está a descobrir a música, passando de bandas como os Nirvana para outras mais pesadas, do heavy metal, como os Slayer. Mas não é só isso que Riad está a descobrir. Também está a descobrir as raparigas e as paixões inerentes às mesmas. E Anaick parece ser o grande amor da sua vida. Caso ela olhasse para ele da mesma forma com que ele olha para ela, claro. A juntar a todos estes dramas próprios da juventude, em casa as coisas não estão famosas. O pai deixou a casa, tendo levado o irmão mais novo de Riad, Fadi, consigo para a Síria. O divórcio entre os seus pais parece iminente.

O desenho é simples e funcional, bem ao jeito do tipo de ilustração que, muitas vezes, vemos em álbuns de tiras humorísticas com cartoons. Se é parecido em termos visuais, não o será tanto em termos de narrativa visual, já que estamos perante uma novela gráfica, no sentido geral do termo. Normalmente, a paleta de cores utilizada por Riad é o azul, o preto e o branco, embora o vermelho seja bastante utilizado para ilustrar os pensamentos do protagonista. O resultado, quase sempre, nos faz sorrir.

Não há dúvidas de que os desenhos de O Árabe do Futuro capturam muito bem a essência das experiências vividas pelo autor, enquanto misturam com mestria humor, inteligência e momentos emocionantes para criar uma narrativa envolvente que explora, de forma eficaz e profunda, temas como a dinâmica familiar, o impacto das ideologias políticas e a luta de um jovem para encontrar o seu próprio lugar no mundo.

A edição da Teorema é em capa mole, com badanas, e apresenta bom papel baço e boa impressão e encadernação. Fiquei bastante feliz pelo facto de a editora não ter deixado cair esta série, já que o interregno entre o lançamento do quarto e do quinto volume foi quase de três anos. Como tal, e tendo em conta que a série já se encontra integralmente publicada em França, faço votos para que a editora portuguesa não perca muito mais tempo até ao lançamento do sexto e último volume.

Em suma, o quinto volume de O Árabe do Futuro dá-nos mais do mesmo e que bom isso é, já que estamos perante uma série absolutamente obrigatória, cujo retrato atual e sincero de tantos franceses imigrantes duplamente apátridas, nos deixa alegres e tristes, enquanto nos faz refletir sobre a questão cultural na afirmação de um indivíduo. Não se deixem enganar pelas capas sofríveis, esta série é mesmo muito boa!


NOTA FINAL (1/10):
9.3


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Ficha técnica
O Árabe do Futuro 5 - Ser Jovem no Médio-Oriente (1992-1994)
Autor: Riad Sattouf
Editora: Teorema (Grupo LeYa)
Páginas: 176, a cores
Encadernação: Capa mole
Formato: 174 x 234 mm
Lançamento: Maio de 2023

quarta-feira, 17 de maio de 2023

O Árabe do Futuro está, finalmente, de volta!



Depois de mais de dois anos à espera, eis que a série O Árabe do Futuro regressa às livrarias portuguesas!

Foi bastante o interregno entre o volume 4 e 5 desta belíssima série publicada pela chancela Teorema (pertencente ao Grupo LeYa) mas, finalmente, os leitores poderão continuar as aventuras autobiográficas de Riad Sattouf nesta que é uma série de BD multi-premiada!

Relembro que a O Árabe do Futuro termina no sexto volume, portanto faço votos para que esse último tomo não tarde muito em ser publicado por cá.

Abaixo, deixo-vos a sinopse da obra e algumas imagens promocionais da versão francesa.

O Árabe do Futuro 5 - Ser Jovem no Médio-Oriente (1992-1994), de Riad Sattouf

O quinto volume da série O Árabe do Futuro ocorre durante o período dos anos de 1992-1994.

Este livro conta a história verdadeira de um adolescente (Riad Sattouf) que já não é loiro, da sua família franco-síria e de um fantasma.

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Ficha técnica
O Árabe do Futuro 5 - Ser Jovem no Médio-Oriente (1992-1994)
Autor: Riad Sattouf
Editora: Teorema (Grupo LeYa)
Páginas: 176, a cores
Encadernação: Capa mole
Formato: 174 x 234 mm
PVP: 22,90€

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Análise: O Árabe do Futuro 4


O Árabe do Futuro 4: Ser Jovem no Médio Oriente (1987-1992), de Riad Sattouf

Preconceitos. 
Todos os temos. E quando me refiro a preconceitos, não me refiro apenas à conotação mais negativa que a palavra normalmente acarreta. Porque, se formos à raiz etimológica da palavra, “preconceito” até não tem que ser algo mau. É apenas um “pré-conceito” que temos de algo. Muitas vezes está errado porque podemos ter um “pré-conceito” de alguma coisa, que não corresponde à verdade. Seja positivo ou negativo. Falam-me que abriu uma nova hamburgueria de um famoso chef português e o meu “pré-conceito” pode ser positivo: “Uau, quase de certeza que esses hamburgers são ótimos”. E depois os hamburgers até podem não ser nada de especial, não correspondendo ao meu “pré-conceito”. E pode, paradoxalmente, alguém dizer-me que há uns hamburgers espetaculares numa qualquer roulotte com um aspeto suspeito e eu, automaticamente, achar: “devem ser hamburgers péssimos e carregados de óleo” e depois, ter uma agradável surpresa. Que é como quem diz: quem vê caras não vê corações.

E tudo isto para dizer que eu tinha um “pré-conceito” em relação a O Árabe do Futuro. E não é que fosse algo especificamente negativo da minha parte. Simplesmente parecia que a obra não me apelava. Já tinha tido a obra nas mãos inúmeras vezes, folheando-a enquanto pensava se havia, ou não, de a comprar, mas o meu “pré-conceito” falava sempre mais alto e foi um livro que, sistematicamente, eu acabava por não conhecer. Mas agora que li pela primeira vez esta obra, mais propriamente o Volume 4, que a editora Teorema acaba de editar, só posso lamentar por ter demorado tanto a mergulhar nesta obra espetacular!

Mas primeiro analisemos as razões do meu “pré-conceito”. Do meu preconceito. Nunca achei que as capas de O Árabe do Futuro fossem boas. Parece-me até, sinceramente, que o autor aparenta ter graves problemas na projeção de uma capa. Os elementos parecem desorganizados e não transparecem minimamente a boa capacidade de ilustrador do autor. O próprio nome da obra não me cativava e a edição em capa mole também não ajudava. Quando folheava o livro, percebia o registo, bastante cartoonished e agradável da obra, mas algo não me prendia a ela.

Mas agora que li – e devorei! – este livro posso dizer que, mesmo sendo verdade que a obra mereceria uma melhor capa e uma edição em capa dura, o meu preconceito só me estava a impedir, sem grande razão, de conhecer uma fantástica história em banda desenhada.

Esta é uma saga auto-biográfica que, como já referi, já vai no quarto volume e em que o protagonista, que é também o autor do livro, nos conta os seus primeiros anos de vida. Se nos primeiros três tomos, Riad Sattouf nos conta a sua história até aos seus 9 anos de idade, neste quarto tomo, narra-nos o período de entrada na adolescência, com tudo o que isso pressupõe; quer no melhor entendimento dos adultos; quer no despertar para paixões pelo sexo oposto; quer nos anos conturbados de escola, especialmente quando se é vítima de bullying constante; ou quer no fascínio pelos videojogos – que, no início dos anos 90 estavam a começar em força. E a toda esta equação instável se juntam os confrontos, cada vez mais crescentes, entre o seu pai (de origem líbia) e a sua mãe (de origem francesa). Há, portanto, uma crítica social sempre presente embora o autor não pareça extremar muito as suas posições, limitando-se a narrar os acontecimentos. É o leitor que acaba por tirar as suas conclusões com as “cartas” que são dadas. A oposição Ocidente vs Oriente está constantemente presente.

É impossível não firmar uma relação entre leitores e personagens. Se o pai de Riad nos faz rir muitas vezes, com os seus exageros e com a forma como reage a várias situações, também é verdade que sentimos um misto de emoções por ele, pois parece que, gradualmente, as suas convicções algo perigosas e radicais face ao mundo ocidental, começam a ganhar força e acabamos por não gostar assim tanto desta personagem. Mas, por outro lado, repito, também gostamos dele! Ou seja, é criada uma dicotomia brilhante e verdadeiramente real. Tal como na vida real, as pessoas não são uni-dimensionais e, portanto, estão povoadas de qualidades e defeitos. Assim são os pais de Riad. Especialmente o seu pai. E é maravilhosa a forma como o autor, numa banda desenhada que aparenta ser tão divertida e descomplexada, consegue este feito.

A dicotomia também fica presente na afirmação do protagonista enquanto indivíduo: o jovem protagonista parece eternamente dividido entre a cultura do pai e a cultura da mãe. Quando está junto dos muçulmanos, estes estranham os seus comportamentos, levando-o a não se sentir como parte deles. Por outro lado, quando está junto dos franceses, estes acham-no estranho e ostracizam-no, particularmente na escola.

Outra coisa que achei brilhante e que, de certa forma, me arrebatou foi que este é um “falso" livro cómico. Sim, é verdade que vamos rir várias vezes, pois o autor sabe ilustrar muito bem as situações e expressões das personagens, de forma a deixarem o leitor com um sorriso na cara. A própria personalidade do protagonista na sua adolescência lembrou-me uma personagem que me é muito querida, das minhas leituras juvenis, que é Adrian Mole, criado por Sue Townsend, que tanto marcou a minha juventude com as suas tiradas cómicas, satíricas e com uma consciência de si mesmo, tão divertida e irónica. Mas, à medida que O Árabe do Futuro 4 vai avançando, as coisas vão deixando de ter tanta piada porque começamos a ver que esta família caminha invariavelmente para uma rutura. E isso é triste. E real. E arrebatador.

Estão a ver aquele vosso amigo que tem sempre piada, mesmo quando conta histórias tristes? Riad Sattouf é uma dessas pessoas. Se olharmos com olhos de ver para O Árabe do Futuro, veremos que é uma obra triste e adulta, contada de uma forma divertida e, aparentemente, descontraída. 

E o final, sem o estragar aos que me lêem, posso dizer que é dos melhores e mais fortes cliffhangers que já li em banda desenhada. Se houve alturas em que eu manifestei preocupação pela história e pelas personagens enquanto exclamava: “Oh meu Deus! E agora?”, esta foi uma dessas ocasiões. Arrebatador!

Em termos de arte, como já referi, o autor oferece-nos um estilo bastante "cartoonizado" e simples, que sabe dosear muito bem as cores, de forma a dramatizar com a quantidade certa, as várias situações que vão sucedendo ao protagonista e os locais por onde o mesmo vai passando. Quando está em França, são os tons azulados que predominam, mas quando a família Sattouf está na Síria ou na Líbia, são os tons avermelhados a serem usados. Gosto também que o autor faça pequenas anotações ao lado das personagens – e fora dos balões de diálogo – que ajudam a incrementar uma ideia ou uma piada. 

A edição da Teorema apresenta um papel de uma excelente gramagem que enaltece a obra. Ainda assim, e como já referi, lamento que a capa seja mole.

No final, a minha conclusão é que esta é uma obra fantástica! História pertinente, bem narrada, bem ilustrada e que nos vai prendendo às personagens. Se estive muitos anos cético quanto a ela, fiz mal por ceder ao meu preconceito! Este 4º livro vai-me obrigar a querer ler toda a saga, desde o início. Super recomendado!


NOTA FINAL (1/10):
9.2


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Ficha técnica
O Árabe do Futuro 4: Ser Jovem no Médio Oriente (1987-1992)
Autor: Riad Sattouf
Editora: Teorema
Páginas: 280, a cores
Encadernação: Capa mole
Lançamento: Maio de 2020

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

Lançamento: O Árabe do Futuro 4





A Teorema, do grupo Leya, anuncia o lançamento da obra O Árabe do Futuro 4, de Riad Sattouf, que cobre os anos 1987-1992, e chega hoje às livrarias.

Assim, esta série fica, à data, integralmente publicada em português. 

Fiquem com a nota de imprensa da editora e imagens promocionais.


O Árabe do Futuro 4, de Riad Sattouf

Este 4º volume da série mundialmente aclamada O Árabe do Futuro cobre os anos 1987-1992. 

Com 9 anos de idade no início da narrativa, neste tomo o pequeno Riad vai tornar-se adolescente. 

Uma adolescência tanto mais complicada quanto ele se sente completamente dividido entre as suas duas culturas – a francesa e a síria – e assiste à progressiva deterioração da relação entre os pais. 

O pai foi trabalhar sozinho para a Arábia Saudita e, após uma peregrinação a Meca, vira-se cada vez mais para a religião… 

A mãe, cansada de o seguir para todo o lado durante anos, não consegue suportar esta inclinação religiosa do marido e regressa a França com os filhos… 

Até que o marido aparece inesperadamente para levar de novo toda a família para a Síria.


Ficha técnica
O Árabe do Futuro 4
Autor: Riad Sattouf
Editora: Teorema
Páginas: 280, a cores
Encadernação: Capa mole
PVP: 23,90€