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quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Ala dos Livros encerra (por agora) a espetacular série "Shi"!




A Ala dos Livros prepara-se para publicar, a partir do próximo dia 8 de Setembro, o terceiro e último livro da série Shi, de Zidrou e Homs.

Faço aqui uma ressalva: supostamente, a série não está totalmente "fechada". É esperado que os autores venham a fazer mais um ciclo, dividido por dois tomos. 

Mas, pelo menos ao dia de hoje, podemos dizer que a série fica integralmente publicada em Portugal, pois apenas existem 6 volumes de Shi, divididos em dois ciclos: o primeiro ciclo, que inclui 4 tomos e que a Ala dos Livros editou em dois volumes duplos; e este segundo ciclo, composto por 2 tomos, respetivamente, Black Friday e O Grande Fedor, que a editora portuguesa se prepara agora para editar, novamente num álbum duplo.

Esta é uma série verdadeiramente espetacular, a todos os níveis, que recomendo vivamente a qualquer leitor. Tanto o primeiro como o segundo volume me deixaram abismalmente fascinado perante uma história tão densa e desenhos tão incríveis.

Por todos estes motivos, quero muito ler este volume que, por agora, encerra a série Shi.


Shi - Livro 3, de Zidrou e Homs

Após os acontecimentos em Londres, Jay e Kita săo, mais do que nunca, consideradas terroristas pela burguesia hipócrita.
No entanto, graças ao grupo "Măes Furiosas", a sua luta espalhou-se como fogo em palha seca. Tanto que a marca SHI nunca esteve tăo visível em Londres. No túmulo de Jay, Apolline começa a compreender a vida que a sua măe biológica levou até entăo. Uma vida de lutas e de batalhas, dedicada a uma causa. Mas será Apolline suficientemente forte para suportar o peso do seu legado? Estará preparada para assumir o lugar dessa măe falecida sobre quem nada sabe, excepto através de boatos populares e pedidos de resgate?

Londres, 1858. Enquanto Jay aguarda o seu julgamento na prisăo, após os trágicos eventos de Trafalgar Square, e tanto Kita como Sensei, com os seus demónios, lutam para recuperar dos seus ferimentos, uma nova calamidade assola a Inglaterra e a capital do Império Vitoriano. Uma onda de calor intensa seca o Tamisa, poluindo Londres e ameaçando reacender uma epidemia de cólera.

Mas isso năo impede as fundadoras das "Măes Furiosas" de planearem novos ataques, de lutarem pelo fim do trabalho infantil e de procurarem a filha de Jay. Só falta a encarnaçăo do quarto demónio para finalmente se vingarem do Império, porque, como diz a cantiga infantil: "4 é o seu número, o seu número maligno"... Desta vez, Zidrou mergulha as suas heroínas, sedentas por vingança e justiça social, no coraçăo de um evento histórico que ressoa com particular força nos dias de hoje: "O Grande Fedor", uma catástrofe climática que desencadeou uma verdadeira revoluçăo na saúde pública de Inglaterra. Um ambiente crepuscular onde a arte evocativa de Homs mais uma vez opera maravilhas.

“Shi” é uma das mais aclamadas séries da BD franco-belga da actualidade, uma obra fascinante que a Ala dos Livros publica em Portugal.

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Ficha técnica
Shi - Livro 3
Autores: Zidrou e Homs
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 128, a cores
Encadernação: Capa dura, com lombada em tecido
Formato: 235 x 320 mm
PVP: 32,00€

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Vem aí o segundo e último volume de "Blast"!



"What a blast!"

A editora Ala dos Livros prepara-se para fazer chegar às livrarias portuguesas, já a partir do próximo dia 8 de setembro, o segundo e último volume de Blast, de Manu Larcenet!

Recordo que a série original contém 4 tomos e que a edição portuguesa desta obra marcante está dividida em dois volumes duplos. O que quer dizer que, daqui a alguns dias, já poderemos reunir nas nossas estantes a obra inteira em português! 

Coisa que, há cerca de um ano, poucos achariam possível, tendo em conta a dimensão da obra. Lembro-me que muita gente achava que nenhuma editora teria a coragem ou a força para editar esta obra. Mas a Ala dos Livros lá provou o contrário.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse e algumas promocionais deste livro que quero muito ler.


Blast - Integral (2/2), de Manu Larcenet

Polza Mancini, ainda sob custódia policial após a morte de uma jovem, relata as suas memórias na busca desesperada pelo Blast, "a explosão" — aqueles momentos mágicos que o transportam para outro lugar —, bem como as suas estadias em hospitais psiquiátricos, os seus terrores e pesadelos...
O segundo e último volume integral daquela que é por muitos considerada como a obra-prima de Manu Larcenet, uma obra artística exemplar, Blast, não deixará ninguém indiferente. Primeiro, pela sua forma: quatro álbuns publicados em Portugal em dois volumes integrais densos, sombrios e trágicos, repletos de humanidade transbordante e selvajaria fascinante. Depois, pelas suas qualidades gráficas e narrativas excepcionais que o tornam uma rara preciosidade editorial. Este segundo integral encerra, com rara mestria no argumento, a viagem de um homem cativante. Uma conclusão contundente que deixa o leitor sem palavras.

BLAST, a obra mais pessoal e que muitos consideram a obra maior de Manu Larcenet - (“O Relatório de Brodeck”, “A Estrada”…) – é uma história grandiosa, sombria e dura, carregada de um humanismo comovente.
Depois da publicação de O Relatório de Brodeck, e A Estrada, também da autoria de Manu Larcenet, BLAST, é uma obra marcante e imprescindível, que a ALA DOS LIVROS se orgulha de publicar em Portugal.

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Ficha técnica
Blast - Integral (2/2)
Autor: Manu Larcenet
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 408, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 225 x 280 mm
PVP: 49,90€

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Análise: O Gato do Rabino #7 - A Torre de Bab-El-Oued

O Gato do Rabino #7 - A Torre de Bab-El-Oued, de Joann Sfar - Ala dos Livros

O Gato do Rabino #7 - A Torre de Bab-El-Oued, de Joann Sfar - Ala dos Livros
O Gato do Rabino #7 - A Torre de Bab-El-Oued, de Joann Sfar

Foi há poucas semanas que a Ala dos Livros lançou o livro O Gato do Rabino #7 - A Torre de Bab-El-Oued, de Joann Sfar, dando assim continuidade a esta série retomada pela editora no tomo 6, Não Terás Outro Deus Além de Mim, há cerca de 5 anos - os primeiros cinco volumes já haviam sido lançados por cá, relembro, pela editora ASA. De facto, foi bastante grande o interregno entre os volumes 6 e 7, coisa rara nas coleções editadas pela Ala dos Livros.

Estamos, pois, de regresso a este universo muito particular criado por Joann Sfar, onde a reflexão filosófica, a sátira religiosa e um certo absurdo convivem de forma natural.

Este novo episódio leva-nos de volta a Argel e centra-se nas discussões relativamente pacíficas entre o rabino Sfar e o seu primo, o imã Sfar, que acabam analisar as diferenças das suas religiões. E mesmo quando a mesquita sofre uma inundação e o rabino e o imã se veem forçados a concordar que os muçulmanos terão que rezar na sinagoga enquanto as reparações da mesquita são feitas, as diferenças entre ambos parecem ser mais que muitas, mesmo que até haja uma natural e positiva boa vontade de parte a parte.

A história desenvolve-se, depois, em torno deste acontecimento maior, permitindo a Sfar revisitar muitos dos temas que se tornaram centrais na série: a identidade, a fé e a convivência entre culturas. Como é habitual em O Gato do Rabino, o enredo parece menos interessado em chegar a um destino específico do que em apreciar as reflexões, os desvios e os encontros que surgem às personagens pelo caminho.

O Gato do Rabino #7 - A Torre de Bab-El-Oued, de Joann Sfar - Ala dos Livros
E, claro, para isso muito contribui as tiradas e monólogos do Gato que são verdadeiramente apetecíveis e divertidas, sempre com um humor muito próprio. A personagem protagonista parece ser o próprio catalisador do pensamento de Joann Sfar, permitindo depositar no animal os comentários divertidos, mas sempre lógicos, que pairam na sua própria mente. E na mente de tantos outros, diria.

Há também uma analogia sempre presente, que neste caso se apoia no microcosmos das inundações na mesquita e na própria vinda dos novos gatos "estrangeiros" para a casa da dona do protagonista, que lhe roubam o leite da sua tigela. Esta analogia reflete-se naquilo que vivemos nos tempos atuais, em que as religiões continuam de costas voltadas e em que, cada vez mais, surgem movimentos contra os imigrantes que - dizem os iletrados em economia demográfica - nos vêm tirar o nosso sustento. É curiosa e inteligente a forma como Sfar faz crítica social, sem parecer, à primeira vista, que este é um livro satírico.

E contrariamente ao volume anterior, Não Terás Outro Deus Além de Mim, que me tinha deixado com sentimentos bastante mistos, confesso, este A Torre de Bab-El-Oued conseguiu conquistar-me de forma mais evidente. Continua a ser uma obra profundamente excêntrica e muito própria, é certo, mas desta vez senti que a história, sendo por ventura mais linear e menos poética, conseguiu atar melhor as pontas entre os acontecimentos a envolver as personagens e aquilo que o autor procura passar em termos de mensagem. Saí da leitura mais satisfeito e mais envolvido com aquilo que Sfar procurava transmitir.

E gosto especialmente da forma como o autor continua a abordar a religião sem qualquer tipo de reverência excessiva. Judaísmo, cristianismo ou islamismo surgem constantemente sujeitas ao olhar crítico, irónico e provocador do autor. Sfar não parece interessado em atacar especificamente uma religião, mas sim em encontrar as contradições, os paradoxos e os absurdos que existem em todas elas.

O humor ácido presente ao longo da obra revela-se, por isso, uma das suas maiores virtudes. Muitas das melhores passagens resultam precisamente da capacidade que o autor tem para desmontar dogmas, questionar certezas e expor a fragilidade de muitas convicções humanas através de situações absurdas e diálogos mordazes. 

O Gato do Rabino #7 - A Torre de Bab-El-Oued, de Joann Sfar - Ala dos Livros
Ainda assim, permanece uma reserva que já tinha identificado no tomo anterior: a sensação de que a narrativa avança frequentemente ao "sabor da maré". Nem sempre existe uma progressão dramática muito definida e há momentos em que a história parece construída a partir de associações livres de ideias, mais próximas do devaneio do que de uma estrutura narrativa tradicional. 

Contudo, desta vez senti que essa abordagem me incomodou bastante menos. Talvez porque as reflexões me pareceram mais inspiradas, talvez porque o humor funciona melhor, ou talvez porque a própria leveza do tom acaba por justificar essa estrutura mais errática. 

No campo gráfico, Joann Sfar continua a apresentar uma identidade visual absolutamente singular. O seu traço permanece expressivo, ondulado, espontâneo e quase improvisado. Há momentos em que essa aparente espontaneidade pode ser confundida com alguma falta de rigor, mas a verdade é que o conjunto continua a possuir uma personalidade artística inconfundível. As figuras são deformadas e as perspetivas irregulares, contribuindo para criar um mundo onde o absurdo e a reflexão coexistem sem qualquer atrito. É uma estética que pode não agradar a todos os leitores, imagino, mas que dificilmente deixará alguém indiferente, tendo em conta a sua singularidade.

A edição da Ala dos Livros é em capa dura brilhante, com bom papel brilhante no interior e um bom trabalho de encadernação e impressão.

Em conclusão, O Gato do Rabino #7 - A Torre de Bab-El-Oued deixou-me mais convencido do que o volume anterior. Continua a apresentar uma narrativa algo fragmentada e errática que, por vezes, parece avançar sem rumo definido, mas compensa essa fragilidade com reflexões inteligentes, um humor extremamente ácido e uma sátira religiosa tão irreverente quanto perspicaz. 


NOTA FINAL (1/10):
8.1


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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O Gato do Rabino #7 - A Torre de Bab-El-Oued, de Joann Sfar - Ala dos Livros

Ficha técnica
O Gato do Rabino #7 - A Torre de Bab-El-Oued
Autor: Joann Sfar
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 84, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Julho de 2026



Ala dos Livros prepara-se para lançar "O Acidente de Caça"!



Eis uma bela surpresa e (mais) um dos lançamentos de BD do ano!

A Ala dos Livros já fez saber que vai lançar, brevemente, a obra O Acidente de Caça, da autoria dos americanos David L. Carlson e Landis Blair!

Esta é uma obra que abalou o mercado da banda desenhada, aquando do seu lançamento original em 2017, tendo sido vencedora nos prémios de Angoulême e dos Eisners!

Além disso, é uma obra gigante, com mais de 400 páginas, o que faz desta uma aposta de peso - a todos os níveis - por parte da Ala dos Livros, que não cessa de nos apresentar grandes obras de banda desenhada. Estou particularmente feliz com esta novidade.
Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais das edições inglesa e francesa.


O Acidente de Caça, de David L. Carlson e Landis Blair

Foi um acidente de caça - disso Charlie tem a certeza. Foi assim que o seu pai, Matt Rizzo - um intelectual gentil que escreve poemas épicos em Braille - perdeu a visão. Charlie só descobre a verdade durante a conturbada adolescência, quando enfrenta uma pena por pequenos delitos.

Matt Rizzo ficou cego depois de ter levado um tiro de caçadeira na cara - mas isso aconteceu enquanto participava num assalto à mão armada.

Recém-cego e sem esperança, Matt começou a sua nova e sombria vida na prisão de Stateville. Mas, neste lugar improvável, a vida e a própria alma de Matt foram salvas por um dos mais notórios assassinos da América: Nathan Leopold Jr., da infame dupla Leopold e Loeb.

De David L. Carlson e Landis Blair, surge a inacreditável história verídica de um pai, um filho e uma extraordinária viagem do desespero à iluminação.


quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Análise: Blacksad #5 - Amarillo

Blacksad #5 - Amarillo, de Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido - Ala dos Livros

Blacksad #5 - Amarillo, de Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido - Ala dos Livros
Blacksad #5 - Amarillo, de Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido

Foi há poucas semanas que a editora Ala dos Livros lançou o quinto volume da série Blacksad, assegurando deste modo que tem toda a série disponível no seu catálogo. Trata-se de uma edição super especial dos primeiros cinco tomos que reúne a A História das Aguarelas em que nela nos é dado um rigoroso conteúdo extra em que o ilustrador Juanjo Guarnido nos explica as opções tomadas em relação às cores utilizadas em cada álbum. Além disso, a lombada em tecido agrupada dos cinco volumes forma o logótipo "Blacksad". É uma edição espetacular! 

Para que não se percam, relembro que estes primeiros cinco tomos da série já haviam sido lançados em Portugal há vários anos pela ASA e pela Arcádia. Os quatro primeiros pela ASA e o quinto pela Arcádia. Entretanto, a série recebeu mais uma história dividida em dois volumes, Então, tudo cai, que a Ala dos Livros também tem no seu catálogo. Há a possibilidade - mas ainda sem confirmação - desse díptico vir a ser incluído nesta coleção, reunindo os dois tomos num só volume com lombada a condizer e a inclusão da História das Aguarelas. Mas, claro, isso ainda é algo em estudo, não havendo para já nenhuma confirmação da Ala dos Livros.

Centrando-me neste quinto tomo, Amarillo, que tive a oportunidade de reler há uns dias, devo dizer que este é, quanto a mim, o menos impressionante de todos os álbuns da série. No entanto, essa perceção resulta menos das fragilidades da obra e mais da extraordinária qualidade daquilo que a precede e sucede.

Blacksad #5 - Amarillo, de Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido - Ala dos Livros
Aqueles que me leem já o devem saber - pelo menos, faço referência a isso muitas vezes que Blacksad - juntamente com Armazém Central, por motivos diferentes - é a minha série favorita de banda desenhada. Esta é uma daquelas raras séries que, para mim, parece ter tudo. Adoro as histórias, adoro o ambiente noir, adoro o carisma das personagens e adoro, acima de tudo, a arte absolutamente extraordinária de Juanjo Guarnido. Talvez por adorar tanto a série é que considero que Amarillo acabe por ficar uns furos abaixo dos restantes álbuns.

Quero deixar uma coisa clara desde o início: considero Amarillo um belo álbum. O problema, se é que lhe podemos chamar "problema", é que pertence a uma série que me habituou à excelência absoluta. E quando comparo este quinto volume com os anteriores, sinto que é o menos forte da coleção. Mas, lá está, essa observação diz mais sobre o nível extraordinário de Blacksad do que sobre qualquer falha grave deste livro.

Desta vez, Canales leva-nos por um caminho diferente. Em vez de uma investigação policial clássica, temos uma espécie de viagem pelas estradas americanas, numa narrativa mais próxima de um road movie. A mudança de registo é interessante e permite explorar novos cenários e novas personagens, mas ao mesmo tempo senti falta daquela intensidade narrativa e daquele suspense que marcaram profundamente os restantes álbuns.

Ao longo da leitura nunca perdi o interesse, é certo, mas também nunca senti aquele fascínio quase hipnótico que experimentei em álbuns como Arctic-Nation ou Algures Entre as Sombras. A história de Amarillo flui bem, é envolvente e está cheia de bons momentos, mas nem sempre atinge os mesmos picos emocionais e dramáticos a que a série me habituou.

Blacksad #5 - Amarillo, de Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido - Ala dos Livros
Ainda assim, há algo neste livro que é muito do meu agrado: a forma como Canales retrata a América dos anos 50. As estradas intermináveis, os motéis esquecidos, os pequenos negócios à beira da estrada e os sonhos de liberdade criam uma atmosfera irresistível. Mesmo quando a narrativa parece menos ambiciosa, o mundo de Blacksad continua a ser um lugar onde adoro passar o meu tempo.

As personagens secundárias, especialmente Chad Lowell, voltam a ser um dos grandes trunfos da obra. Uma das coisas que mais admiro nesta série é a capacidade de apresentar figuras que surgem durante poucas páginas e, mesmo assim, conseguem deixar marca. 

Quanto ao protagonista, John Blacksad, continua simplesmente incrível. O seu humor, a sua inteligência, o seu sentido moral e o seu charme fazem dele uma personagem realmente impactante.

Já visualmente, Amarillo continua a estar muito acima da esmagadora maioria da banda desenhada que podemos ler. No entanto, confesso que mesmo neste ponto senti que Guarnido talvez não tenha sido tão meticuloso como costuma ser. E isso nota-se claramente no desenho mais em esboço de personagens em segundo plano ou em alguns cenários. É claro que, em contraponto, há imensos desenhos que são lindos de morrer e que nos deixam verdadeiramente deslumbrados. 

Blacksad #5 - Amarillo, de Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido - Ala dos Livros
As aguarelas, por seu turno, continuam a ser de uma beleza impressionante. Guarnido mantém uma capacidade quase mágica para trabalhar a luz, as cores e as atmosferas. As paisagens quentes e poeirentas do sudoeste americano estão cheias de vida e ajudam a criar uma identidade visual muito própria para este volume.

Também continuo completamente rendido ao design das personagens antropomórficas. Cada animal parece escolhido ao detalhe para refletir a personalidade de quem representa. É um dos (muitos) aspetos geniais da série e algo que nunca deixa de me impressionar, mesmo ao fim de tantas leituras.

Em termos de edição, já pouco posso dizer, além de dar nota de que é uma das minhas edições preferidas de banda desenhada. A lombada em tecido, a inclusão de a História das Aguarelas, o cuidado editorial, os acabamentos de qualidade... tudo está feito na perfeição.

Em conclusão, reitero que Blacksad - Amarillo é o volume menos forte da saga, tanto a nível narrativo como, em certa medida, a nível artístico. Mas essa avaliação só faz sentido quando comparada com os restantes livros da coleção, que considero verdadeiras obras-primas. A fasquia está tão absurdamente alta que um álbum "simplesmente muito bom" acaba por parecer uma pequena desilusão. E talvez isso seja o maior elogio que se pode fazer a Canales e Guarnido com o seu Blacksad: mesmo quando os autores não atingem o seu melhor, continuam a criar banda desenhada de altíssimo nível.


NOTA FINAL (1/10):
8.9



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Blacksad #5 - Amarillo, de Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido - Ala dos Livros

Ficha técnica
Blacksad #5 - Amarillo
Autores: Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 88, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 235 x 310 mm
Lançamento: Julho de 2026

terça-feira, 28 de julho de 2026

Análise: Wild West - Volumes 4 e 5


Wild West - Volumes 4 e 5 - A Lama e o Sangue | Redenção, de Thierry Gloris e Jacques Lamontagne

Com o volume 4, intitulado A Lama e o Sangue, da série Wild West publicado no mês passado de abril, a editora Ala dos Livros não esperou muito tempo até lançar o álbum mais recente desta série da autoria de Thierry Gloris e Jacques Lamontagne  que, deste modo, fica a par com a edição original da obra em termos de lançamentos. Este quinto e novo volume chama-se Redenção e acaba de chegar às livrarias.

Como tal, foi razão para que eu pudesse ler estes dois volumes de forma seguida. E, mais uma vez, posso dizer-vos que esta é uma série do estilo western que me deixa especialmente agradado, mesmo admitindo que os últimos volumes, em especial o volume 4, caíram ligeiramente em qualidade.

Depois do excelente Escalpes em Série, aquele que considerei o melhor da série até agora, as minhas expectativas eram naturalmente elevadas, até porque esta coleção se tem afirmado como uma das mais consistentes abordagens ao western na banda desenhada franco-belga contemporânea. Se o quarto volume encerra o segundo ciclo narrativo da série, o quinto tomo inaugura uma nova etapa para estas personagens, com resultados distintos, mas igualmente interessantes.

Mas falemos de cada volume em particular.

Em A Lama e o Sangue, continuamos a acompanhar Wild Bill Hickok, Calamity Jane e Charlie Utter na perseguição ao assassino que marcou os acontecimentos de Escalpes em Série. Desta feita, e relembrando que em cada um dos tomos há sempre uma nova personagem que é inspirada em figuras históricas reais, a nova personagem é Bass Reeves, uma personagem absolutamente fascinante da história americana, por ser um dos primeiros U.S. Marshals negros. 

Paralelamente, a narrativa alarga o seu foco para os conflitos em torno da expansão ferroviária, do tratamento reservado aos povos indígenas e da utilização dos Soldados Búfalo (soldados afro-americanos), acrescentando uma importante dimensão histórica e social ao enredo.

O álbum começa de forma particularmente promissora. As primeiras páginas conseguem articular muito bem o mistério em torno dos assassinatos com questões históricas reais, explorando as tensões raciais e culturais da América do século XIX. A inclusão dos Soldados Búfalo revela-se especialmente interessante, não só pelo valor histórico da sua presença, mas também pelas ambiguidades morais que a sua utilização levanta dentro da narrativa, claro está.

Contudo, à medida que a história progride, fica a sensação de que parte desse potencial inicial não é totalmente aproveitado. O enredo encaminha-se para soluções mais convencionais e para uma sucessão de confrontos que, embora visualmente impressionantes, nem sempre parecem surgir de forma totalmente orgânica. Existe ação em abundância, sim, mas por vezes ela surge quase como um fim em si mesma, ocupando espaço que poderia ter sido dedicado a aprofundar algumas personagens ou conflitos.

Isto não significa que o álbum seja fraco. Longe disso. Simplesmente, depois da densidade dramática e da excelente gestão de ritmo que encontrámos em Escalpes em Série, este quarto volume parece um pouco mais apressado e menos refinado no desenvolvimento de algumas das suas ideias mais interessantes. É o tomo mais fraco - ou menos forte, como preferirem - da série, quanto a mim.

Redenção, segue uma abordagem bastante diferente. Após os acontecimentos traumáticos do ciclo anterior, encontramos agora Wild Bill, Calamity Jane e Charlie Utter estabelecidos em Dolores City. Bill desempenha funções de xerife, Charlie tornou-se carteiro e Jane continua a travar uma batalha contra os seus próprios vícios, cedendo ao alcoolismo. Parece que, exceptuando Calamity Jane, Wild Bill e Charlie Utter alcançaram uma vida de amena normalidade. Isto até à chegada da família Ballou, que promete pôr a tranquilidade da pequena cidade em causa.

Desde cedo se percebe que este quinto volume tem objetivos bastante diferentes, pois, ao contrário do tomo antecessor, não procura impressionar-nos através de uma sucessão constante de confrontos ou revelações. Como tal, o ritmo é mais pausado, mais contemplativo e claramente orientado para a construção das personagens e das relações entre elas. É uma opção que poderá surpreender alguns leitores - especialmente tendo em conta o tomo anterior -, mas que, na minha opinião, beneficia bastante a narrativa.

A presença dos Ballou e da lendária Belle Starr funciona sobretudo como catalisador para explorar as fragilidades e os conflitos das personagens principais, com a história a "respirar" de forma mais natural. Existe uma clara sensação de construção, como se este álbum estivesse deliberadamente a posicionar as peças para acontecimentos mais relevantes futuros. O resultado é um álbum que talvez tenha menos momentos de ação memoráveis, mas que oferece maior consistência dramática. Como se fosse a preparação de algo maior que há de chegar no tomo seguinte, Dolores City.

De uma forma geral, continuo a apreciar muito esta série. Wild West consegue encontrar um equilíbrio raro entre rigor histórico e liberdade ficcional. Embora as aventuras sejam obviamente romanceadas, existe sempre um pé bem assente em factos, personagens e contextos reais, o que contribui para uma maior credibilidade e riqueza da narrativa. Como se, à boa maneira de Lucky Luke, que procurou sempre falar-nos de uma figura ou de um tema real do faroeste, a história se tornasse mais verossímil. E, claro, quando comparada com a série do "cowboy que dispara mais depressa do que a própria sombra", Wild West consegue ser mais madura e realista no conteúdo e forma.

No plano gráfico, o trabalho de Jacques Lamontagne continua a ser verdadeiramente espetacular. O seu traço permanece impressionante, quer na representação das personagens históricas, quer na recriação dos ambientes do Oeste americano. Existe um cuidado constante com os enquadramentos, as expressões faciais e os cenários, fazendo com que cada página seja visualmente apelativa. Por vezes, pode aparecer uma ou outra expressão mais "cartoonizada" do que aquilo que seria expectável, mas de um modo geral, tudo funciona muito bem no plano visual da obra.

E são especialmente memoráveis algumas das ilustrações de página dupla que surgem ao longo destes dois volumes, e que acabam por constituir verdadeiros momentos de espetáculo visual que demonstram todo o talento de Lamontagne. Também em termos de cores, o trabalho do autor é impressionante, especialmente em termos de luz, em cenas com iluminação interior.

Quanto à edição destes livros, a mesma está em linha com os restantes volumes da série, como seria expectável. Os livros têm capa dura baça, com detalhes a verniz, e o papel no interior é brilhante e de boa qualidade. A impressão e a encadernação também são boas.

Em suma, Wild West continua a ser uma série obrigatória para todos os fãs do western em BD e um persuasivo convite aos leitores menos experientes em obras do género, mesmo ficando no ar a sensação de que o quarto volume ficou uns furos abaixo dos restantes. A boa notícia é que Redenção recupera uma abordagem mais ponderada e centrada nas personagens, inaugurando de forma bastante promissora um novo ciclo da série. Que venha o próximo volume!


NOTA FINAL (1/10):
Wild West #4 - A Lama e o Sangue: 8.4
Wild West #5 - Redenção: 9.0


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Fichas técnicas
Wild West #4 - A Lama e o Sangue
Autores: Thierry Gloris e Jacques Lamontagne
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 48, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 235 x 310 mm
Lançamento: Abril de 2026


Wild West #5 - Redenção
Autores: Thierry Gloris e Jacques Lamontagne
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 48, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 235 x 310 mm
Lançamento: Julho de 2026


quinta-feira, 23 de julho de 2026

Análise: CoBrA - Porto

CoBrA - Porto, de Marco Calhorda e Paulo Montes - Ala dos Livros

CoBrA - Porto, de Marco Calhorda e Paulo Montes - Ala dos Livros
CoBrA - Porto, de Marco Calhorda e Paulo Montes

Foi há algumas semanas que chegou ao fim a série CoBrA, editada pela Ala dos Livros, e extraída da mente de Marco Calhorda que, para tamanha empreitada, contou com quatro autores - três deles portugueses - para as ilustrações desta ambiciosa e historicamente (muito) relevante banda desenhada nacional. 

Este mais recente livro chama-se CoBrA - Porto e conta com as ilustrações de Paulo Montes. Depois de Operação Goa e dos dois tomos de Operação Conacri, a ação da série leva-nos finalmente para o território de Portugal, durante o período dos anos 80, numa altura em que o país procurava encontrar estabilidade após o turbilhão político, militar e social desencadeado pelo 25 de Abril. 

Passaram-se mais de dez anos desde os acontecimentos de Conacri e nesse período de tempo, tudo tinha mudado em Portugal. O império colonial tinha desaparecido, o regime ditatorial tinha caído, a Guerra Colonial tinha terminado e atores importantes de todo esse universo, como Jorge Jardim, o fundador da agência CoBrA, deixaram de estar presentes. Contudo, algumas das feridas desse tempo permaneceram abertas... até mesmo ao tempo atual,  diria eu, já que ainda vivemos num tempo em que o 25 de Abril está bem fresco, muito embora já se tenham passado mais de 50 anos. 

CoBrA - Porto, de Marco Calhorda e Paulo Montes - Ala dos Livros
Mas voltando à história, é quando uma vaga de atentados terroristas perpetrada pelas FP-25 começa a atingir Portugal, que Afonso Costa e Ivone Reis, antigos agentes do CoBrA, se voltam a encontrar no centro dos acontecimentos, colaborando nas investigações conduzidas pela Polícia Judiciária para desmontar uma das mais violentas organizações clandestinas da nossa história recente. De facto, as Forças Populares 25 de Abril (FP-25) foram uma organização armada clandestina de extrema-esquerda que atuou em Portugal entre 1980 e 1987, levando a cabo atentados, assaltos e ações terroristas que provocaram mais de duas dezenas de mortos, alegadamente em defesa dos ideais revolucionários que consideravam traídos após o 25 de Abril.

A partir deste tema, não tantas vezes comentado, narrado ou discutido, Marco Calhorda volta a construir uma narrativa que cruza ficção e realidade histórica, utilizando este contexto para desenvolver um conto de espionagem. Tal como nos volumes anteriores, os factos históricos servem, pois, de alicerce a uma narrativa de entretenimento, mas até diria que desta vez existe, quiçá, uma dimensão mais pessoal e emocional na narrativa, pois as personagens de Afonso Costa e Ivone Reis não estão apenas a enfrentar inimigos, mas mostrando-se confrontadas com as consequências das escolhas feitas ao longo das décadas antecedentes. Isso confere ao álbum um tom mais melancólico e reflexivo, que acaba por ser bastante adequado, tendo em conta que estamos perante um capítulo final.

Ao longo da história presente neste CoBrA - Porto, encontramos vários momentos de ação e tiroteios, que quase nos parecem transportar para um filme policial de ação americano, o que é especialmente impactante para o leitor que sente, por um lado, uma certa proximidade histórica a estes eventos, mas, por outro, e ao mesmo tempo, um certo distanciamento por poder custar a acreditar que, de facto, houve tanta violência a ser feita à custa da ação das FP-25. É claro que, repito, há aqui uma forte componente ficcional, não deixando de ser verdade que o enredo se apoia em eventos e lugares que, efetivamente aconteceram mesmo. Apreciei também o facto da introdução das mulheres strippers que acabou por emprestar a este volume um tom mais noir e uma certa sensualidade.

CoBrA - Porto, de Marco Calhorda e Paulo Montes - Ala dos Livros
A história torna-se, portanto, interessante para acompanhar da primeira à última página, fazendo com que esta seja uma leitura que se faz de um só trago. Mesmo que, tal como aconteceu comigo, possamos regressar à obra para uma segunda e mais atenta leitura. 

Também é justo dizer que Marco Calhorda é hoje um argumentista mais sólido do que era quando iniciou esta aventura com Operação Goa. A evolução ao longo dos vários volumes é, pois, evidente, já que o autor foi refinando a sua forma de construir cenas, de gerir o ritmo narrativo e de organizar a informação histórica dentro da própria narrativa. Aquilo que no primeiro livro, por vezes, parecia excessivamente apressado ou fragmentado surge agora mais amadurecido e controlado.

Ainda assim, algumas das fragilidades que fui apontando aos volumes anteriores continuam presentes, embora de forma menos acentuada. Também neste CoBrA - Porto, em determinados momentos, voltei a sentir alguma dificuldade em acompanhar com total clareza certas ligações entre personagens, acontecimentos e localizações. Não se trata de um "problema" grave, até porque a história continua perfeitamente legível, mas parece-me existir, ocasionalmente, uma certa dificuldade em encontrar o equilíbrio ideal entre uma narrativa demasiado explicativa e outra que deixa algumas peças importantes por preencher. 

Olhando agora, para a globalidade da série, penso ser justo dizer que se há algo que a série CoBrA conseguiu fazer de forma particularmente eficaz ao longo dos seus quatro volumes, foi pegar em episódios frequentemente negligenciados da história portuguesa recente e transformá-los em matéria-prima para uma narrativa acessível e cativante. Desde Goa até Conacri, passando agora pelo período das FP-25, Marco Calhorda demonstrou uma capacidade rara para identificar acontecimentos históricos pouco explorados, transportando-os para o universo da BD sem perder o equilíbrio entre o rigor e o entretenimento.

Aliás, até creio que nem sempre é suficientemente referido o valor documental deste projeto. Num país onde muitas vezes se lamenta o desconhecimento das gerações mais novas sobre o Estado Novo, sobre a Guerra Colonial ou sobre os complexos anos do pós-25 de Abril, CoBrA desempenha quase uma função de serviço público. Através de um meio tão apelativo e acessível como a BD, Marco Calhorda convida leitores de diferentes idades a descobrir episódios marcantes da nossa história contemporânea. E fá-lo sem transformar os livros em manuais escolares, privilegiando sempre a aventura, a ação e o suspense.

É precisamente essa combinação entre entretenimento e divulgação histórica que me parece ser a principal força da série. Os livros de CoBrA conseguem despertar curiosidade sobre os temas que abordam. Muitas vezes, terminada a leitura, o impulso natural é procurar saber mais sobre os acontecimentos reais que inspiraram a narrativa. Poucas obras nacionais conseguem gerar esse efeito de forma tão consistente e isso é um mérito que deve ser reconhecido.

CoBrA - Porto, de Marco Calhorda e Paulo Montes - Ala dos Livros
Falando em méritos, no campo visual, Paulo Montes revela-se uma escolha bastante feliz para encerrar a saga. Depois do estilo mais "cartoonesco" de Osvaldo Medina em Operação Conacri - Tomo 2, este novo livro recupera uma abordagem mais realista, aproximando-se visualmente da linha definida por Daniel Maia e posteriormente continuada por Zoran Jovicic. Essa maior proximidade estética ajuda inclusivamente a reforçar a sensação de unidade da série. Considero apenas que, devido ao traço de Osvaldo Medina ser o mais diferente dos quatro autores, talvez pudesse ter sido Osvaldo a assinar esta tomo, que é independente, em detrimento de ter ilustrado a segunda parte de uma história já começada por outro autor.

De resto, Paulo Montes é especialmente bem sucedido na caracterização, em grande plano, das personagens e das suas expressões faciais, e na ilustração dos veículos de época que são um mimo para os olhos - especialmente se, como eu, apreciarem os carros do tempo em que decorre a ação desta obra. 

É verdade que surgem ocasionalmente algumas posturas corporais menos naturais ou menos elegantes, mas são casos pontuais. Também dei conta de, em várias situações, as personagens segurarem as armas com mãos diferentes, coisa que pode ser vista como um erro de continuidade visual. Mas, no essencial, Paulo Montes entrega um trabalho sólido, competente e visualmente apelativo, contribuindo para que este volume mantenha o bom nível artístico que sempre caracterizou a série.

A edição do livro segue aquilo que já havia sido feito nos anteriores volumes da série. O livro tem capa dura, em tecido, que é ainda coberta por uma sobrecapa. No interior, o livro tem bom papel brilhante e um bom trabalho ao nível da encadernação e impressão, se bem que, entre as páginas 73 e 78, verifiquei que os tons a preto estavam menos carregados e contrastados do que o expectável. Pode estar relacionado com o meu exemplar apenas, sendo um pequeno erro da gráfica que imprimiu o livro. Mas deixo a nota. Para além disso, temos ainda vários textos adicionais: uma introdução de Marco Calhorda, um prefácio de Manuel Castelo Branco e um posfácio de Ana Gomes. Há, por fim, ainda quatro páginas em que nos são dados estudos e esboços de páginas.

Em suma, CoBrA – Porto encerra de forma digna uma série que conquistou um lugar muito próprio na banda desenhada portuguesa. Marco Calhorda conclui aqui um percurso marcado por uma evidente evolução enquanto argumentista e por uma permanente preocupação em recuperar episódios esquecidos da nossa história recente. Já Paulo Montes oferece um trabalho gráfico consistente e alinhado com a identidade visual que ajudou a definir o universo CoBrA. Mais do que um simples álbum de ação ou espionagem, este livro - tal como a série no seu conjunto - afirma-se como uma obra de enorme relevância cultural, histórica e editorial. E só por isso, independentemente das pequenas imperfeições que possam ser apontadas, CoBrA merece ser lida, discutida e valorizada por todos aqueles que acompanham a banda desenhada portuguesa.


NOTA FINAL (1/10):
8.9


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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CoBrA - Porto, de Marco Calhorda e Paulo Montes - Ala dos Livros

Ficha técnica
CoBrA - Porto
Autores: Marco Calhorda e Paulo Montes
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 88, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 210 x 270 mm
Lançamento: Junho de 2026

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Análise: O Diabo e a Coral


O Diabo e a Coral, de Homs

A Ala dos Livros prepara-se para editar, a partir do próximo dia 28 de julho, o livro O Diabo e a Coral, que marca a estreia do autor José Homs, enquanto autor completo, assegurando argumento e ilustração de uma banda desenhada. Eu já tive o privilégio de ler esta obra, duas vezes, e trago-vos agora a minha análise à mesma.

Esta é uma história que decorre em Praga, capital da atual República Checa, em 1938, num período histórico em que a Europa se encontrava cada vez mais dominada pelo ódio, pela intolerância e pela ameaça iminente da Segunda Guerra Mundial. Acompanhamos a personagem de Coral Loew, uma jovem adulta, de 19 anos, num contexto de vida difícil e complexo, já que se viu forçada, por incompatibilidades irreconciliáveis, a afastar-se emocionalmente do seu pai que, no presente momento, é um homem cuja existência é quase senil. No entanto, o seu pai foi verdadeiramente importante noutro tempo. Coral pertence a uma trupe de circo e é uma jovem mulher carregada de traumas e demónios. Sendo que, no seu caso, mantém uma existência próxima do Diabo, que nos surge enquanto personagem quase omnipresente ao longo da narrativa, permitindo que nós, leitores, possamos acompanhar os diálogos entre Coral e o Diabo. Ninguém além de Coral - e, por extensão, do leitor - consegue ver ou falar com o Diabo.

As duas personagens centrais desenvolvem, então, uma relação complexa, feita de desconfiança, confrontos e cooperação. O Diabo, sendo astuto, provocador e maldoso, parece procurar sempre uma forma de tirar a pouca harmonia que Coral ainda tem na sua vida. É uma história que se vai desvendando às camadas e, por esse motivo, não queria falar muito mais da mesma, além de dizer que esta estranha parceria entre Coral e o Diabo vai levar-nos até aos confins do inferno, enquanto a protagonista procura perceber melhor quem era o seu pai e qual a relevância que o mesmo teve na vida de tantas pessoas, enquanto assumia as funções de rabino. 

A história apoia-se bastante no folclore eslavo, apresentando-nos uma figura tão emblemática como o Rabino Loew, que se apoia na tradição judaica da cidade de Praga, bem como na figura de Golem. 

À medida que a narrativa avança, o enigma parece conduzir ao passado da família de Coral, em particular ao seu pai, o Rabino Loew, uma figura  histórica real, que foi um dos mais importantes rabinos, filósofos e estudiosos judaicos da Europa Central do século XVI. Com a passagem dos anos, a figura do Rabino Loew foi ficando associada à lenda da figura de Golem. Para quem não sabe, o Golem ainda hoje é uma figura central na cidade de Praga - uma personagem mitológica que, tal como um Galo de Barcelos para Portugal, aparece em qualquer loja de souvenirs em Praga. Reza a lenda que foi o Rabino Loew quem criou esta figura monstruosa, através do barro e da argila, que obedecia às suas ordens. Pensem num Hulk ou num Thing, dos Fantastic Four.

Ora, toda estas menções e alegorias, fazem com que este O Diabo e a Coral consiga misturar ficção histórica, com fantasia e mistério, enquanto se tem como pano de fundo a ascenção do nazismo e a invasão da cidade - e do país - por parte do exército alemão. A própria figura de Adolf Hitler aparece na história, com o Diabo a demonstrar-se, naturalmente, apreciador da sua grande "obra".  

Sendo a primeira vez em que Homs se aventura na concepção de um argumento para banda desenhada, diria que há aqui alguns belos feitos por parte do autor: a história é cativante e prende-nos desde o primeiro momento; as duas personagens principais, tanto Coral como o próprio Diabo, são absolutamente impactantes e carismáticas; e o próprio enredo consegue estar bem construído, com a história a saber piscar o olho a numerosas referências. Belo início enquanto argumentista, diria!

Mesmo assim, também tenho que referir que, por vezes, a história sai um pouco dos eixos e torna-se quiçá menos plausível. Não me refiro ao facto de a história ter elementos fantásticos - que nunca serão plausíveis mas isso faz parte das histórias do subgénero do fantástico, claro está - mas sim de certas nuances narrativas que tornam o todo um pouco confuso. Noutros casos, a ação e certos eventos também nos são dados de um modo um pouco forçado, por ventura carecendo de mais páginas para que tivessem sido mais bem introduzidos na trama.

Não obstante, reitero o feito desta obra nos dar uma boa e original história e belas personagens. 

E, claro, belos desenhos!

Homs enquadra-se no meu ciclo restrito de ilustradores preferidos de banda desenhada. E quando assim é, até pode ser complexo explicar o porquê de se gostar tanto do trabalho de um autor. 

Mas vou tentar:

Os desenhos do autor - que também podem ser apreciados na fantástica série Shi, que o autor assina em parceria com o argumentista Zidrou e que por cá tem edição da mesma Ala dos Livros - conseguem ser simultaneamente elegantes, detalhados e extremamente emotivos. Há uma fluidez no traço do autor que torna cada personagem única e reconhecível, enquanto os rostos e expressões revelam uma riqueza emocional pouco comum na banda desenhada. Mesmo nas cenas mais silenciosas, sente-se sempre a presença e a personalidade das personagens.

Além disso, impressiona-me também a capacidade de Homs em "criar ambientes". Homs utiliza a luz, as sombras e a cor de forma magistral, construindo cenários que não servem apenas de fundo, mas que participam ativamente na narrativa. Em O Diabo e a Coral, essa qualidade é particularmente evidente: a cidade de Praga adquire quase o estatuto de personagem, envolta numa atmosfera melancólica, misteriosa e profundamente evocativa que permanece na memória do leitor muito depois de terminada a leitura. Posso dizer que, por motivos profissionais - e pessoais! - conheço bem a cidade de Praga e fiquei especialmente agradado na forma como o autor reproduziu, por exemplo a belíssima Catedral de Nossa Senhora de Týn, na Praça da Cidade Velha, ou o célebre cemitério judeu, de campas sobrepostas umas nas outras. 

E já que falo em representação visual de algo, não posso deixar de referir a maravilhosa e inspirada representação do próprio inferno, enquanto lugar, que se apresenta verdadeiramente visceral e épica. As cenas de ação, a planificação a escolha pelo melhor enquadramento... tudo é feito de forma sublime por parte de Homs.

Quanto à edição, o trabalho da Ala dos Livros volta a não desiludir. O livro apresenta capa dura baça, com textura aveludada e detalhes a verniz; e, no miolo, o papel brilhante utilizado é de extrema qualidade. De resto, a impressão, a encadernação e os acabamentos são de qualidade superior, também.

Resta-me dizer que muito me agrada que, além de Shi, a editora portuguesa brinde agora os leitores portugueses com mais uma obra de Homs. Faço até votos sinceros para que, futuramente, quer o fantástico L' Angelus, quer a adaptação para BD de Millenium, o sucesso literário de Stieg Larsson, possam igualmente ter uma edição portuguesa.

Concluindo, entre uma história envolvente, uma atmosfera única e um trabalho gráfico absolutamente soberbo, O Diabo e a Coral afirma-se como mais um passo certo na construção do catálogo da Ala dos Livros e como uma leitura altamente recomendável para apreciadores de banda desenhada histórica, fantástica e de autor. Uma estreia muito conseguida de Homs como autor completo e, simultaneamente, mais um belo livro a confirmar a consistência editorial da Ala dos Livros.

NOTA FINAL (1/10):
9.0


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Ficha técnica
O Diabo e a Coral
Autor: Homs
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 110, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 243 x 316 mm
Lançamento: Julho de 2026