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quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Análise: Terrea

Terrea, de Ricardo Cabral - A Seita e Comic Heart

Terrea, de Ricardo Cabral - A Seita e Comic Heart
Terrea, de Ricardo Cabral

Foi durante o último Amadora BD que as editoras A Seita e Comic Heart editaram Terrea, de Ricardo Cabral, um dos livros mais bonitos da banda desenhada nacional do ano 2025. Pelo menos, relativamente às ilustrações. Quanto à história, a conversa já será outra, mas já lá irei.

Contextualizando a obra Terrea, importa não esquecer que o projeto começou há 10 anos de forma bastante fragmentada e experimental, quando, em 2015, Ricardo Cabral auto-editou um pequeno livro composto por desenhos sequenciais que, inicialmente, nem sequer constituíam banda desenhada no seu sentido mais tradicional, mas exercícios de desenho automático com um ambiente muito próprio, advindo do universo da fantasia, que sugeriam uma narrativa. A partir daí, foram publicados ao longo dos anos vários capítulos deste universo de forma dispersa, com destaque para aquele contido na antologia TLS - The Lisbon Studio Series.

Agora, com esta recente bela edição d' A Seita e da Comic Heart, podemos mergulhar neste universo de Terrea como um todo. 

Terrea, de Ricardo Cabral - A Seita e Comic Heart
A história apresenta-se-nos algo complexa e difusa, onde fica claro que foi feita por camadas, ou acrescentos, à medida que ia tomando forma. Desenrola-se num universo fascinante e misterioso, onde a cidade de Terrea assume um papel central, quase mítico, como domínio da Deusa, uma figura mitológica. A narrativa constrói-se depois a partir da rivalidade entre Terrea e as enigmáticas Três Sombras, num conflito que molda o destino deste mundo fantástico, abrindo espaço para múltiplos acontecimentos simultâneos que envolvem exércitos, viajantes e dimensões paralelas.

Não é uma leitura fácil, tenho que o dizer, pois por vezes a história parece um pouco over the top no modo como é abstrata, sentindo-se a falta de um fio condutor que possa unir melhor os pontos. Consequentemente, alguns leitores poderão sentir-se perdidos. Mesmo assim, e tendo em conta a forma como esta obra nasceu, também não posso dizer que a história não seja interessante o suficiente para que a possamos acompanhar com agrado, mesmo que por vezes tropecemos em alguns eventos que parecem algo aleatórios.

Mas o que mais importa destacar nesta história(s) imaginada(s) por Ricardo Cabral é o seu fantástico worldbuilding, onde o autor português se revela muito criativo, dando-nos um mundo credível e belo de admirar, com personagens impactantes. Talvez por isso, pela conceção destes mundos e atmosferas, considero que Terrea representa, até à data, o auge da criatividade de Ricardo Cabral. A obra transmite uma sensação de vastidão e complexidade que não é comum na BD portuguesa, e isso dá-lhe uma força própria, quase épica. 

Terrea, de Ricardo Cabral - A Seita e Comic Heart
Mas é claro que aquilo que mais sobressai neste livro é mesmo a plena e maravilhosa capacidade de Ricardo Cabral para ilustrações que são lindíssimas e cheias de detalhes, convidando-nos a que nelas nos percamos durante longos momentos para melhor as absorver, bem como ao virtuosismo técnico do autor. Posso até dizer que a narrativa de Terrea me parece mesmo um mero pretexto para a exploração gráfica. É impressionante como Cabral consegue transformar cada vinheta num espaço de descoberta, onde os pormenores visuais carregam significados tão ou mais relevantes que o texto. Cheguei mesmo a achar se a obra não teria funcionado enquanto BD muda. Talvez fosse difícil compreendermos a história sem qualquer texto, reconheço, mas não deixa de ser menos verdade que, mesmo com texto, a história não se torna muito fácil de acompanhar. Por vezes senti mesmo que certas legendas ou balões estavam ali a mais, criando ruído na vinheta que eu queria absorver com tempo e calma.

A maior parte do livro é em preto e branco. Através desta abordagem podemos ver como o desenho do autor é meticuloso e sempre muito inspirado e singular. O uso de um preto e branco puro, sem escalas de cinzentos, atribui às ilustrações de Ricardo Cabral um cariz muito artístico, a fazer lembrar, com as devidas distâncias, alguns mestres da banda desenhada clássica europeia, como Moebius, Schuiten ou Rosinski.

Terrea, de Ricardo Cabral - A Seita e Comic Heart
Cada elemento visual, por mais surreal que pareça, contribui para a construção do universo de Terrea, tornando-o verosímil dentro das suas próprias premissas. Os traços variam entre o delicado e o vigoroso, criando texturas que conferem profundidade e movimento a cada página. A composição visual é muitas vezes complexa, com sobreposições e camadas que exigem atenção detalhada, mas que recompensam o leitor com uma sensação de imersão total no mundo criado. Além disso, a criatividade gráfica de Cabral é evidente na forma como as vinhetas se organizam e se interconectam. Cada desenho parece simultaneamente autónomo e parte de uma grande tapeçaria visual, o que reforça o carácter de saga da obra. 

Mas, se o desenho a preto e branco é impressionante, o desenho a cores no único capítulo da história a cores - aquele que também apareceu em TLS - The Lisbon Studio Series - é, quanto a mim, ainda mais majestoso. É que, para além de ser um fantástico desenhador, Ricardo Cabral também é um exímio colorista e, quando presentes, as cores garridas e fortemente contrastantes, explodem com uma intensidade quase sobrenatural, contribuindo para o efeito de maravilhamento e reforçando o carácter fantástico da obra. 

A edição d' A Seita e Comic Heart está muito bonita, com o livro a apresentar capa dura baça, com detalhes a verniz, e bom papel baço no interior. O próprio grafismo do livro também é muito elegante e apelativo. Nota positiva para o facto de terem sido lançadas duas capas diferentes da mesma obra. A impressão e a encadernação são de boa qualidade e há espaço ainda, no final, para um dossier de extras com 10 páginas, que reúne um conjunto de esboços, estudos de capa, fotografias e um texto em que o autor nos conta, na primeira pessoa, a origem deste trabalho. Gostei especialmente que fosse o autor a falar da sua própria obra, pois considero que isto aumenta o seu envolvimento e, por conseguinte, o seu laço com os leitores.

Em conclusão, Terrea é uma obra que impressiona pelo virtuosismo gráfico que nos deixa sem palavras. Ricardo Cabral constrói um mundo fascinante, profundo e aberto à interpretação, onde a história, embora vaga em alguns momentos, serve como veículo para um espetáculo visual e simbólico extraordinário onde fica clara a relevância do autor para a banda desenhada nacional.


NOTA FINAL (1/10):
8.5



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Terrea, de Ricardo Cabral - A Seita e Comic Heart

Ficha técnica
Terrea
Autor: Ricardo Cabral
Editoras: A Seita e Comic Heart
Páginas: 164, a preto e branco (com um capítulo a cores)
Encadernação: Capa dura
Formato: 200 x 280 mm 
Lançamento: Setembro de 2025

sexta-feira, 16 de junho de 2023

Kingpin lança livro de André Oliveira na língua inglesa!



A Kingpin Books está de volta ao lançamento de banda desenhada com a reedição da obra Milagreiro, de André Oliveira e vários ilustradores nacionais de referência!

Esta nova versão da obra originalmente publicada pela editora Polvo, tem a particularidade de ser na língua inglesa - daí chamar-se Miracle Worker - e apresentar-se num formato maior, com uma belíssima nova capa da autoria de Jorge Coelho, e com nova legendagem e cores melhoradas.

O livro estará já disponível a partir deste fim de semana, no Maia BD, sendo apresentado no próprio certame com a presença dos autores André Oliveira e Filipe Andrade.

Mais abaixo, deixo-vos com algumas imagens promocionais do livro e com a nota de imprensa da editora.

Miracle Worker, de André Oliveira, Jorge Coelho, André Caetano, Filipe Andrade, Nuno Plati, Ricardo Cabral, Ricardo Tércio e Ricardo Drumond

Oito anos depois da edição original da Polvo, “Milagreiro” ganha um novo fôlego, agora numa versão em Inglês, num formato maior, com nova capa de Jorge Coelho, nova legendagem e cores melhoradas. 

Esta edição inclui ainda um novo epílogo, publicado antes apenas na antologia TLS vol.2: Silêncio, e um prefácio original do argumentista polaco Bartosz Sztybor.
Na sequência da misteriosa morte do seu irmão Cyril, Aya desafia a mais poderosa e obscura organização do mundo, para descobrir o que realmente aconteceu. Com a ajuda de Heron, um assassino profissional à beira da reforma, e movida pela força da sua própria coragem, Aya vai descer ao inferno…para perceber se afinal há ou não milagres.

Ficha técnica
Miracle Worker
Autores: André Oliveira, Jorge Coelho, André Caetano, Filipe Andrade, Nuno Plati, Ricardo Cabral, Ricardo Tércio e Ricardo Drumond
Editora: Kingpin Books
Páginas: 72, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 19,50 x 27,50 cm
Língua: Inglês
PVP: 12,99€


domingo, 15 de novembro de 2020

Análise: TLS Series - Cidades, Silêncio, Viagens e Raízes

TLS Series - Cidades, Silêncio, Viagens e Raízes


TLS Series - Cidades, Silêncio, Viagens e Raízes
TLS Series - Cidades, Silêncio, Viagens e Raízes, de Vários Autores 

As TLS Series são antologias de banda desenhada portuguesa, que foram desenvolvidas por autores do célebre The Lisbon Studio, um estúdio que reúne alguns dos nomes mais conceituados da produção nacional de banda desenhada, dos últimos anos. Este grupo de artistas partilhou em Lisboa um espaço físico para desenvolver o seu trabalho. E estes álbuns são antologias que reúnem os seus trabalhos durante esse tempo. Desde 2017, foram editados quatro volumes da coleção TLS Series, intitulados, respetivamente, Cidades, Silêncio, Viagens e Raízes

Cada volume tem, pois, por isso, um tema subjacente, um ponto de partida, do qual todos os autores partem para criar a sua história. Os primeiros 3 volumes foram co-editados pela Comic Heart e pela G. Floy Studio. O quarto e último volume, Raízes, foi editado pela editora A Seita e pela Comic Heart. 

TLS Series - Cidades, Silêncio, Viagens e Raízes
Eventualmente, poderia analisar cada volume ou cada história em separado. Haveria, certamente, legitimidade para o fazer dessa forma. Mas não creio que seja de uma forma isolada que devemos olhar para estas antologias de banda desenhada. Pelo menos, não é assim que olho para elas. Mais do que enaltecer esta ou aquela história, ou apontar este ou aquele defeito, penso que o mais importante é mesmo ter em conta que esta iniciativa foi fantástica do primeiro ao último volume, da primeira à última página. Enquanto catálogo da produção nacional, enquanto prospetor de exercícios narrativos na área da bd e, claro, enquanto iniciativa incubadora da criatividade nacional. Não há como não tirar o chapéu a esta ideia e aos seus resultados concretos. Que boa maneira de mostrar que há muitos autores portugueses com elevada competência na banda desenhada. 

Olhando para estes quatro livros, há algo que rapidamente sobressai e que é raro de encontrar quando se trata de um antologia de banda desenhada que, quase sempre, procura reunir trabalhos seminais de bd independente. Pois, se há uma coisa que é característica à banda desenhada independente – ou a qualquer outra arte independente – é o habitual pouco profissionalismo da edição, por mais bela que seja, no caso da banda desenhada, a arte ou a ideia subjacente à história. Mas isso é uma coisa que não existe nestes TLS Series. Pelo contrário. O produto físico não só é profissional ao mais alto nível, como apresenta um aspeto bonito, tornando estes livros em algo extremamente apetecível do ponto de vista de um colecionador de banda desenhada. 

TLS Series - Cidades, Silêncio, Viagens e Raízes
As capas são duras e grossas, o papel é baço e de boa gramagem e há sempre um ou mais prefácios que introduzem cada um dos volumes. Cada livro é composto por 6 ou 7 histórias, em que apenas uma dessas histórias é impressa a cores, enquanto que as restantes são a preto e branco. O autor da história a cores de cada livro é também o autor responsável pela capa desse mesmo volume. E que magníficas capas (e contracapas) elas são! Eu bem que defendo que a construção de uma capa deverá ser algo que um autor de banda desenhada deve levar muito em conta. Especialmente nos dias de hoje. E estes quatro volumes apresentam capas muito bem concebidas. Atribuo destaque aos volumes Cidades e Viagens, que têm capas verdadeiramente incríveis. Embora Silêncio e Raízes também tenham boas capas, diga-se. 

Há também uma homogeneidade em todos os livros no que diz respeito à edição, ao design dos livros. Tudo isto nos permite verificar que é um trabalho conjunto de amor à 9ª arte. E poder testemunhar isso nestas magníficas antologias que, ainda por cima, têm um preço tão simpático, é uma grande oportunidade que, a meu ver, um fã de bd não deve deixar passar. 

TLS Series - Cidades, Silêncio, Viagens e Raízes
Quanto às histórias, temos argumentos, ilustrações e linguagens de todo o tipo. Traços mais "cartoonizados", traços mais realistas... há de tudo um pouco. A heterogeneidade de histórias existe mas é-nos dada, conforme já referido, em cuidadas edições que almejam alcançar uma homogeneidade e uma harmonia que são raras encontrar em antologias de banda desenhada. Há diversidade mas  também há harmonia em torno dessa diversidade.

Olhando de forma geral para as histórias que aqui temos, é justo afirmar que há qualidade em todas elas e em todos os géneros adoptados pela fantástica galeria de autores que compõem estes livros. 

Apenas para nomear as minhas favoritas, diria que Quiosque, de Joana Afonso; Muralha de Filipe Andrade; O Rosto do Fantasma, de Marta Teives e Pedro Moura; Deslumbre e One Way, de Bárbara Lopes; Monte Morte, de Jorge Coelho e André Oliveira; Tempo, de Paula Bivar de Sousa; Escolha do Dia, de Nuno Rodrigues e Pedro Ribeiro Ferreira; e Franzi, de Nuno Saraiva, merecem a minha preferência. E isto sem desprimor para todas as restantes histórias a que não faço menção. 

TLS Series - Cidades, Silêncio, Viagens e Raízes

Finalmente, quero ainda destacar que o que acho mais incrível nestas antologias é que se vê que há um óbvio carinho comum entres os autores que fizeram parte do The Lisbon Studio. Uma sensação de pertença e de comunidade que aquece o coração daqueles que lêem estes livros. E se antologias de banda desenhada lançadas com esta qualidade de edição e de design, e com tantos autores consagrados de banda desenhada são raras, o que dizer quando, a isso tudo, se soma o afeto que emana deste projeto? Algo ímpar e que merece ser acarinhado por todos os que amam banda desenhada. Da minha parte, a única coisa que lamento é saber que estas TLS Series chegaram ao fim. Fica uma vazio por preencher. 

Pequeno comentário final: o primeiro volume desta coleção, o Cidades, há muito se encontra esgotado em todo o lado. Portanto, aproveito para agradecer aos meus caríssimos José Hartvig de Freitas e Bruno Caetano por me terem fornecido um dos últimos exemplares que ainda era possível recuperar. 



NOTA FINAL (1/10): 
9.0 


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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TLS Series - Cidades, Silêncio, Viagens e Raízes
Fichas técnicas
 
TLS Series - Cidades 
Autores: Dileydi Florez, Filipe Andrade, Gonçalo Duarte, Joana Afonso, João Tércio, Marta Teives, Pedro Moura, Ricardo Cabral 
Editora: G. Floy / Comic Heart 
Páginas: 120, a preto e branco (inclui uma história a cores) 
Encadernação: Capa dura 
Lançamento: 2017 

TLS Series - Cidades, Silêncio, Viagens e Raízes
TLS Series - Silêncio 
Autores: André Oliveira, Bárbara Lopes, Darsy Fernandes, Filipe Pina, Jorge Coelho, Marta Teives, Nuno Rodrigues, Paula Bivar de Sousa, Pedro Moura, Pedro Ribeiro Ferreira, Ricardo Cabral 
Editora: G. Floy / Comic Heart 
Páginas: 144, a preto e branco (inclui uma história a cores) 
Encadernação: Capa dura 
Lançamento: 2017 

TLS Series - Cidades, Silêncio, Viagens e Raízes
TLS Series - Viagens 
Autores: Dileydi Florez, Filipe Andrade, Nuno Rodrigues, Nuno Saraiva, Pedro Ribeiro Ferreira, Quico Nogueira, Ricardo Cabral 
Editora: G. Floy / Comic Heart 
Páginas: 128, a preto e branco (inclui uma história a cores) 
Encadernação: Capa dura 
Lançamento: Maio de 2018 

TLS Series - Cidades, Silêncio, Viagens e Raízes
TLS Series - Raízes 
Autores: Ana Branco, Bárbara Lopes, Filipe Andrade, Marta Teives, Nuno Saraiva, Pedro Moura, Quico Nogueira, Ricardo Cabral 
Editora: A Seita / Comic Heart 
Páginas: 136, a preto e branco (inclui uma história a cores) 
Encadernação: Capa dura 
Lançamento: Março de 2020