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segunda-feira, 18 de agosto de 2025

Análise: Ditirambos #4 - Noite

Análise: Ditirambos #4 - Noite, de Joana Afonso, Ricardo Baptista, André Caetano, Nuno F. Cancelinha, Diogo Carvalho, Raquel Costa, Francisco Ferreira

Análise: Ditirambos #4 - Noite, de Joana Afonso, Ricardo Baptista, André Caetano, Nuno F. Cancelinha, Diogo Carvalho, Raquel Costa, Francisco Ferreira
Ditirambos #4 - Noite, de Vários Autores

Foi recentemente que chegou às livrarias o quarto volume da antologia Ditirambos! Desta vez, passou-se um pouco de mais tempo entre o lançamento do último volume e o atual, cerca de 3 anos, mas posso dizer-vos que a espera foi compensada com mais um belo lançamento.

Para quem ainda não sabe, Ditirambos é uma antologia de banda desenhada que junta autores já com provas dadas em termos qualitativos. Uns são mais conhecidos ou ativos do que outros, mas todos eles já nos ofereceram obras de BD relevantes.

A antologia volta a manter a sua matriz: um mote único - que, neste caso, é o da Noite - e um constrangimento formal rigoroso de quatro páginas por história, o que, naturalmente, força cada um dos autores participantes a uma certa "ginástica" de síntese narrativa e de soluções visuais inventivas. 

Análise: Ditirambos #4 - Noite, de Joana Afonso, Ricardo Baptista, André Caetano, Nuno F. Cancelinha, Diogo Carvalho, Raquel Costa, Francisco Ferreira
A coesão que depois a obra consegue adquirir não é, pois, conquistada pela continuidade visual ou narrativa, mas antes por esse tema comum que, sendo neste caso algo tão abrangente como a "Noite", permite variadíssimas interpretações narrativas. O estilo visual, claro está, revela-se ricamente heterogéneo, sendo facilmente inidentificáveis os estilos dos autores Joana Afonso, Ricardo Baptista, Diogo Carvalho, Raquel Costa, Francisco Ferreira, Sofia Neto e Carla Rodrigues. E todos eles se apresentam em boa forma.

Já quanto às histórias, cada autor escolhe uma inflexão distinta sobre o tema, indo desde o onírico ao social, da fantasia ao slice of life, passando até pelo humor ou pelo horror. Como tal, é justo dizer que este quarto volume da antologia apresenta um andamento que, quer em termos de argumento, quer em termos de desenho, consegue ser pertinente e evitar qualquer tipo de monotonia. São histórias que não têm problema em captar a atenção do leitor.

Análise: Ditirambos #4 - Noite, de Joana Afonso, Ricardo Baptista, André Caetano, Nuno F. Cancelinha, Diogo Carvalho, Raquel Costa, Francisco Ferreira
É claro que, naturalmente, há histórias que ressoam mais do que outras em nós, consoante as nossas preferências, que serão sempre pessoais. No meu caso, devo dizer que, mesmo tendo gostado de todas as histórias, gostei especialmente das histórias A Esfinge, de Ricardo Baptista; Caçadores, de Raquel Costa e Nuno Cancelinha; Presas, de Francisco Ferreira e Sónia Mota; e Pesadelo, de Carla Rodrigues.

Não obstante as boas sensações que a leitura deste quarto Ditirambos me ofereceu, devo dizer que, desta vez, senti que algumas histórias careciam de maior desenvolvimento para se tornarem mais relevantes. Estou ciente, claro, da regra das quatro páginas por história, mas mesmo assim pareceu-me que alguns destes mini-contos precisariam de mais páginas para que os seus temas fossem melhor explanados. É, pois, interessante notar que, em volumes anteriores, certas histórias pareceram mais bem resolvidas dentro da mesma restrição, atingindo um equilíbrio mais feliz entre concisão e clareza narrativa.

Análise: Ditirambos #4 - Noite, de Joana Afonso, Ricardo Baptista, André Caetano, Nuno F. Cancelinha, Diogo Carvalho, Raquel Costa, Francisco Ferreira
Mesmo assim, não tenho dúvidas de que Ditirambos se mantém como uma das melhores antologias de banda desenhada em Portugal, com todos os autores a apresentarem-se num bom nível. 

Também em termos de edição, o livro volta a apresentar as mesmas características das edições passadas, envergando capa mole com badanas, bom papel baço no interior e boa encadernação e impressão. Volto a dizer: para um projeto independente, Ditirambos tem tudo de profissional e nada de amador.

Em suma, este quarto volume de Ditirambos confirma a iniciativa como uma das melhores antologias de banda desenhada em Portugal. Todos os autores apresentam trabalhos num bom nível, e o resultado global transmite uma rara sensação de profissionalismo, quer na escrita, quer na ilustração. O projeto contribui, inclusive, para desarmar um preconceito recorrente em certos espaços de discussão sobre BD: a ideia de que as antologias falham em consistência ou qualidade. Pelo contrário, Ditirambos mostra que um trabalho rigoroso e cuidado pode produzir uma antologia sólida e exemplar. Que o projeto continue a sua caminhada!


NOTA FINAL (1/10):
7.8


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Análise: Ditirambos #4 - Noite, de Joana Afonso, Ricardo Baptista, André Caetano, Nuno F. Cancelinha, Diogo Carvalho, Raquel Costa, Francisco Ferreira

Ficha técnica
Ditirambos #4 - Noite
Autores: Joana Afonso, Ricardo Baptista, André Caetano, Nuno F. Cancelinha, Diogo Carvalho, Raquel Costa, Francisco Ferreira, Sónia Mota, Sofia Neto e Carla Rodrigues
Editora: Edição Independente
Páginas: 52, a cores
Encadernação: Capa mole
Formato: 168 x 258 mm
Lançamento: Maio de 2025

quinta-feira, 29 de maio de 2025

Antologia "Ditirambos" está de volta!




Este é um dos projetos da BD nacional independente que mais acarinho e que acaba de lançar o seu 4º volume!

Já aqui escrevi sobre os volumes dois e três desta antologia. Aquilo que aprecio no projeto Ditirambos é que, embora independente, a qualidade das histórias ao nível do aprumo narrativo-visual é, quanto a mim, superior às restantes antologias portuguesas de banda desenhada. E refiro isto, claro, sem desprimor para todas as antologias de banda desenhada que, naturalmente, também são importantes.

Ditirambos é, quanto a mim, uma antologia que, embora independente, parece feita por uma editora profissional. A este nível, coloco também o projeto Umbra, de qual também sou muito admirador.
Este quarto volume, intitulado Noite, já foi apresentado no passado fim de semana, no Maia BD, e terá nova apresentação no Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja, que arranca já nesta sexta-feira.

Por agora, deixo-vos, mais abaixo, com a nota de imprensa deste Ditirambos #4 - Noite.


Ditirambos #4 - Noite, de Joana Afonso, Ricardo Baptista, André Caetano, Nuno F. Cancelinha, Diogo Carvalho, Raquel Costa, Francisco Ferreira, Sónia Mota, Sofia Neto e Carla Rodrigues


Um ditirambo é um canto coral exortativo que nos chega da antiguidade clássica grega. Nele, uma multitude de vozes une-se em homenagem ao deus Dioniso.

É também uma multipremiada antologia de banda desenhada de autores portugueses, cujas distintas técnicas e vozes narrativas obedecem, para além do mote, a um único requisito: 4 páginas.
O primeiro volume explorou o conceito de “Êxtase”, com as contribuições de Ricardo Baptista, Nuno Filipe Cancelinha, Diogo Carvalho, Raquel Costa, Francisco Ferreira e Sofia Neto.

Para o segundo volume – “Abismo”, juntaram-se-lhes as vozes dos autores e ilustradores Joana Afonso, André Caetano e Carlos Drave e da autora Sónia Mota.

No terceiro volume – “Fauna” a colaboração de Carlos Drave dá lugar à da autora e ilustradora Carla Rodrigues.


O Volume 4 – Noite, repete, em 2025, a dose, com Joana Afonso, Ricardo Baptista, André Caetano, Nuno F. Cancelinha, Diogo Carvalho, Raquel Costa, Francisco Ferreira, Sónia Mota, Sofia Neto e Carla Rodrigues.


Histórias incluídas:

“Ciclo”, Joana Afonso
“A Esfinge”, Ricardo Baptista
“Que o Sol Volte a Brilhar”, André Caetano
“Caçadores”, Raquel Costa (arte) / Nuno F. Cancelinha (argumento)
“Prima Nocte”, Diogo Carvalho
“Presas”, Francisco Ferreira (arte) / Sónia Mota (argumento)
“Perseidas”, Sofia Neto
“Pesadelo”, Carla Rodrigues

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Ficha técnica
Ditirambos #4 - Noite
Autores: Joana Afonso, Ricardo Baptista, André Caetano, Nuno F. Cancelinha, Diogo Carvalho, Raquel Costa, Francisco Ferreira, Sónia Mota, Sofia Neto e Carla Rodrigues
Editora: Edição Independente
Páginas: 52, a cores
Encadernação: Capa mole
Formato: 168 x 258 mm
PVP: 14,00€ (Edição limitada a 200 exemplares)

terça-feira, 23 de maio de 2023

Ricardo Baptista vence o Prémio Geraldes Lino!




Ricardo Baptista é o vencedor do Prémio Geraldes Lino de 2023! 

Esta é uma iniciativa que, como o nome indica, homenageia a figura incontornável da banda desenhada nacional que foi Geraldes Lino enquanto que promove e premeia a obra de um autor português de banda desenhada com obra publicada em fanzine.


Dou os parabéns ao Ricardo Baptista, pelo merecido reconhecimento do seu trabalho, e à Câmara Municipal de Beja/Bedeteca de Beja e à Tertúlia de BD de Lisboa por manter esta bela iniciativa.


Abaixo, deixo-nos a nota publicada pela organização.


Ricardo Baptista – Prémio Geraldes Lino 2023

Ricardo Baptista venceu o Prémio Geraldes Lino 2023. O Prémio, criado pela Câmara Municipal de Beja/Bedeteca de Beja, é atribuído desde 2013.

Ricardo Baptista nasceu na ilha da Madeira, em 1984. É o autor e editor do “Planeta Satélite” e tem realizado bandas desenhadas para vários fanzines e revistas. Em junho, no Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja, lançará o fanzine “Epígono”, editado pela Bedeteca. Em 2021 foi um dos bolseiros da bolsa de criação literária da DGLAB na área de banda desenhada com o projeto "Inspector Fagundes em Macau" que espera ver publicado em 2024.

O Prémio

Nos primeiros anos era o próprio Geraldes Lino - considerado o maior especialista em fanzines no nosso país - que escolhia o vencedor e entregava o Prémio.

Depois da sua morte, em 2019, essa tarefa passou a ser desempenhada pela Bedeteca de Beja e pela Tertúlia BD de Lisboa, que Geraldes criou nos anos 80.

O prémio consiste na realização de uma exposição individual, na publicação de uma obra pela Bedeteca de Beja, na atribuição de uma estatueta e na oferta de uma quantia em dinheiro (desde 2022).

Ricardo Baptista receberá o prémio no dia 3 de junho, na Bedeteca de Beja, às 21h00. O seu trabalho pode ser seguido em https://www.instagram.com/planetasatelite/

Já receberam o Prémio André Ferreira (2013), José Smith Vargas (2014), André Pacheco (2015), Tiago Baptista (2016), Sofia Neto (2017), Luís Guerreiro (2018), Patrícia Guimarães (2019), Bárbara Lopes (2021) e Rodolfo Mariano (2022).

quinta-feira, 23 de junho de 2022

Análise: Ditirambos #3: Fauna


Ditirambos #3: Fauna, de vários autores

Mais um ano se passou e mais uma edição da antologia de banda desenhada Ditirambos foi lançada no Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja. Este é o terceiro volume e continua o bom trabalho que tem sido feito por este talentoso conjunto de autores nacionais.

Atualmente, Ditirambos é atualmente a minha antologia portuguesa de banda desenhada preferida. Acho que é uma "coisa" com cabeça, tronco e membros. Bem pensada, com um tema comum e com a regra das “quatro páginas por história”, parece-me uma coisa estruturalmente bem feita. Ora, adicionando a esta coleção vários autores com provas dadas na banda desenhada nacional, e que trazem consigo talento e personalidade, temos uma antologia que não me canso de recomendar.

O tema deste terceiro volume é a Fauna, um título que à semelhança do que foi feito nas duas edições anteriores, em que os temas foram o Êxtase e o Abismo, é suficientemente lato para que as abordagens – não só visuais, mas também ao nível do argumento – acabem por ser muito variadas. Lá por termos um estilo "cartoonesco" numa história, não quer dizer que, na história seguinte, não tenhamos um estilo realista no traço. Lá por termos uma história imensamente colorida com cores vivas, não quer dizer que a história posterior não seja a preto e branco. Ou seja, o resultado será sempre eclético. E isso é uma coisa de que eu gosto particularmente, pois acabamos sempre por ser surpreendidos à medida que vamos progredindo na leitura destas oito histórias.

De um modo geral, estas histórias estão bem conseguidas, permitindo-nos um vislumbre ténue ao trabalho e engenho de cada autor.

Os autores da segunda edição da Ditirambos transitaram todos para esta terceira edição, com a exceção de Carlos Drave, que saiu, e de Carla Rodrigues, que entrou. Portanto, para além desta última autora, participam nesta terceira edição Joana Afonso, Ricardo Baptista, André Caetano, Raquel Costa, Nuno F. Cancelinha, Diogo Carvalho, Francisco Ferreira, Sónia Mota e Sofia Neto. Cinco autores e cinco autoras. Viva a igualdade!

Como são histórias de apenas 4 páginas, vou tentar falar delas de forma genérica, tentando revelar o menos possível para não estragar a leitura a alguém que, perspicazmente, compre o livro após a leitura desta minha análise.

Joana Afonso é para mim, um sinónimo de qualidade. E, portanto, não foi surpresa que a sua história, Ninhos, me tenha agradado. O seu estilo de desenho, tão próprio, mantém-se em boa forma e também gostei do conceito que a autora introduziu na sua história. O sentimento com que fico sempre, quando acabo uma história da autora, é o seguinte: "quero mais!".

Já André Caetano, outro autor que considero com um potencial enorme, dá-nos, em A Caçada, uma bela e serena história que nos remete para a labuta de uma raposa, que procura um cacho de uvas inalcançável, e a (melhor) forma para chegar ao fruto do seu desejo. Simples, mas muito eficiente. E destaco as belas ilustrações e cores com que o autor nos brinda.

Raquel Costa e Nuno F. Cancelinha assinam, em conjunto, a história Oração. Mais uma vez, temos umas belas ilustrações e universo visual magnífico, por parte de Raquel Costa. Adoro, verdadeiramente, os belíssimos desenhos da autora que considero serem “fora da caixa” e de uma beleza ímpar que me fazem viajar para longe do expetável. Já tinha ficado maravilhado com a história da edição anterior, Mise en Abyme, que considerei a melhor dessa antologia. Neste caso, com Oração, também me senti maravilhado embora ache que, do ponto de vista do argumento, é uma história que precisaria de mais páginas para melhor ser compreendida e desenvolvida. Acho que havia aqui potencial para um livro de 40 ou mais páginas, vejam lá! Portanto, se a sensação é boa… também causa um certo "sentimento de oportunidade perdida". Bem, não diria “perdida” porque isso não seria justo, mas sim "oportunidade mal aproveitada", vá.

Avançando para Mãe Gaia, de Diogo Carvalho, posso dizer que esta história traz uma mensagem biológica bastante relevante. Diogo Carvalho é um daqueles autores que sabe fechar muito bem as suas histórias e volta a demonstrá-lo neste pequeno conto. Além de que, tendo a tal mensagem biológica, também não achei que se tornasse demasiado paternalista. O que é uma coisa que marca pontos, quanto a mim.

Destinos
, de Francisco Ferreira na ilustração, e Sónia Mota no argumento, traz consigo uma curiosa divagação. Confesso que não achei a história muito lógica ou escorreita numa primeira leitura. Mas depois de a ler uma segunda vez, julgo ter captado bem a mensagem, o que me fez gostar da história. Embora tenha gostado da frescura desta história ser a preto e branco, e do próprio sentimento clean que essa opção dava às pranchas, senti que algumas das ilustrações precisariam de um maior cuidado, por parte do ilustrador.

Recreio, de Sofia Neto, é uma reflexão tensa e de um foro muito psicológico, quase a tocar o terror, que resulta muito bem do ponto de vista de planificação. Os desenhos são meio abstratos o que torna mais difícil a total compreensão das intenções narrativas da autora. Ao contrário da história anterior, julgo que, mesmo após uma segunda leitura, fiquei ainda à deriva em relação à mensagem ou reflexão que a autora queria passar. Claro que o problema, por vezes, também é do leitor e não do autor. Pode ser o caso.

Fauna Terrestre, de Carla Rodrigues, a tal autora estreante em Ditirambos, foi uma das histórias que mais gostei. Apreciei muito o seu carácter "cartoonesco", com cores bem vivas e um monólogo presente – sem diálogos, portanto – em que é feita uma boa analogia entre o homem contemporâneo e um qualquer animal selvagem. Simples, bem executado e com algum humor. Gostei muito.

Para o fim, deixo a minha história favorita deste Ditirambos: Ausência, de Ricardo Baptista. Tenho acompanhado as várias histórias que o autor já nos deu nos últimos tempos e devo dizer que, mesmo apreciando e gostando de todas essas séries, me parecia que o autor ainda andava à procura do seu próprio estilo de ilustração. E não digo isso como uma coisa boa, nem má. É o que é. Ou o que me parecia, vá.  Não obstante, e depois de finda a leitura deste Ausência, acho que posso afirmar que me parece que Ricardo Baptista encontrou o seu estilo próprio ou, pelo menos, conseguiu oferecer-nos o seu mais bem conseguido trabalho. Sem desprimor dos outros, entenda-se. Em Ausência, as cores, o desenho, a planificação, as expressões das personagens, os enquadramentos… está tudo feito de uma forma verdadeiramente impressionante. E já para não falar do argumento que é belíssimo e carregado de uma humanidade e de uma maturidade que é raro encontrarmos. A resolução e fim da história é magnífica, mostrando um autor que sabe dosear o enredo, que sabe guardar a emoção para a altura certa. E tudo isto numa história de 4 páginas! Li uma vez. Arrepiei-me com o final. Li uma segunda vez, acenei com a cabeça de forma aprovadora. Li uma terceira vez e senti o cabelo arrepiado. Maravilhoso trabalho. Apreciava e respeitava o trabalho de Ricardo Baptista mas com esta história, fiquei fã do autor.

Olhando agora para a edição, mantenho o que disse sobre o volume 2 da série: “tendo em conta que estamos perante uma edição de autor – limitada a 200 exemplares numerados - acho que o resultado é bastante agradável (...) Tudo muito clean e bem arrumado. A qualidade do papel é bastante aceitável e a capa mole tem a robustez necessária.”. Destaque ainda para a belíssima capa de André Caetano.

Devo confessar que gostaria que, em vez de 4 páginas por história, fossem 6 ou 8 páginas. Dessa forma, os autores teriam mais espaço para melhor desenvolver as suas histórias e nós, leitores, teríamos mais espaço para melhor mergulhar nos seus contos. Mesmo assim, também compreendo que isto seria, quiçá, desvirtuar o próprio conceito base original da antologia Ditirambos. Portanto, aceita-se.

Finalizando as minhas considerações, admiro muito estes jovens autores da antologia Ditirambos. Vê-se que há ali um gosto, uma personalidade própria e uma vontade em fazer algo refrescante, que todos devemos aplaudir e apoiar. É um grupo que muito aprecio. Não só pelas pessoas acessíveis, simpáticas e “sem tretas” que são como, natural e principalmente, pelo enorme talento e potencial que têm.


NOTA FINAL (1/10):
8.0



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Ficha técnica
Ditirambos #3 - Fauna
Autores: Joana Afonso, Ricardo Baptista, André Caetano, Raquel Costa, Nuno F. Cancelinha, Diogo Carvalho, Francisco Ferreira, Sónia Mota, Sofia Neto e Carla Rodrigues
Edição de Autor
Páginas: 52, a cores e a preto e branco
Encadernação: Capa mole
Formato: 168 x 258 mm
Lançamento: Maio de 2022

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Mais abaixo, deixo o convite para a leitura das análise ao álbum anterior da série:




quarta-feira, 25 de maio de 2022

A Antologia DITIRAMBOS está de volta!


O terceiro volume da Antologia de Banda Desenhada Portuguesa Ditirambos prepara-se para ser lançado no próximo fim de semana, no Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja.

Esta é uma antologia que resulta do esforço conjunto de autores portugueses. Uns são emergentes e outros são premiados. E em cada volume há um tema comum a todas as histórias. Se no primeiro e segundo número os temas foram, respetivamente, o Êxtase e o Abismo, nesta terceira empreitada o tema é a Fauna.

Devo dizer que só no número dois pude conhecer esta antologia e fiquei muito bem impressionado com este colectivo de autores. Não só com as pessoas acessíveis e simpáticas que são como, também, pelo enorme talento que têm.

E se a qualidade estiver ao nível do volume dois (o volume um não consegui ler, infelizmente), e certamente estará, devo dizer que recomendo totalmente a compra deste terceiro volume. Aproveitem porque a edição é (bastante) limitada.

Posso dizer ainda que a ilustração deste novo livro três, da autoria de André Caetano, está verdadeiramente espetacular!

A apresentação do Ditirambos #3 ocorrerá no Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja no sábado, dia 28 de Maio, pelas 17h15, seguida de uma sessão de autógrafos às 20h30.

Abaixo, deixo-vos com a nota oficial sobre este lançamento e mais algumas imagens promocionais.

Ditirambos #3 Fauna, de vários autores

Um ditirambo é um canto coral exortativo que nos chega da antiguidade grega. Nele, uma multitude de vozes une-se em homenagem ao deus Dioniso.
É também uma antologia de banda desenhada de autores portugueses, cujas distintas técnicas e vozes narrativas obedecem, para além do mote, a um único requisito: 4 páginas.

O primeiro volume explorou o conceito de “Êxtase”, com as contribuições de Ricardo Baptista, Nuno Filipe Cancelinha, Diogo Carvalho, Raquel Costa, Francisco Ferreira e Sofia Neto.

No segundo volume - "Abismo", juntaram-se as as novas vozes dos autores e ilustradores Joana Afonso, André Caetano e Carlos Drave e a autora Sónia Mota. Esta edição foi agraciada com dois prémios nos XIX Troféus Central Comics: Melhor Publicação Independente e Melhor Obra Curta para a história "Fissuras" de Diogo Carvalho. Está também nomeado aos Prémios Bandas Desenhadas 2021 nas categorias de Melhor Antologia e Melhor BD Curta editada em Antologia, com a história "Mise en Abyme" de Nuno Filipe Cancelinha e Raquel Costa.
O terceiro volume apresenta-nos 8 histórias de 10 autores nacionais, subordinadas ao tema “FAUNA”.

A diversidade técnica, narrativa e estilística faz deste volume um verdadeiro tesouro a descobrir, juntando nomes já consagrados da banda desenhada nacional a talentos emergentes. Neste terceiro volume – “Fauna” a colaboração de Carlos Drave dá lugar à da autora e ilustradora Carla Rodrigues.

A tiragem é limitada a 200 exemplares numerados.

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Ficha técnica
Ditirambos #3 - Fauna
Autores: Joana Afonso, Ricardo Baptista, André Caetano, Raquel Costa, Nuno F. Cancelinha, Diogo Carvalho, Francisco Ferreira, Sónia Mota, Sofia Neto e Carla Rodrigues

Edição de Autor
Páginas: 52, a cores e a preto e branco
Encadernação: Capa mole
Formato: 168 mm x 258 mm
PVP: 12,00€

NOTA: Venda directa por encomenda para o email ditirambosbd@gmail.com

Venda em eventos de apresentação e festivais de banda desenhada

Venda em livraria: Tinta nos Nervos (Lisboa), Mundo Fantasma (Porto), Dr.Kartoon (Coimbra), Convergência (online e eventos), MES (online)

sexta-feira, 11 de março de 2022

Análise: Umbra #3

Umbra #3 – Antologia de Banda Desenhada, de Filipe Abranches, David Soares, Pedro Moura, Ricardo Baptista, Bárbara Lopes e Simon Roy

Umbra #3 – Antologia de Banda Desenhada, de Filipe Abranches, David Soares, Pedro Moura, Ricardo Baptista, Bárbara Lopes e Simon Roy
Umbra #3 – Antologia de Banda Desenhada, de Filipe Abranches e vários autores

A Umbra é um projeto independente de banda desenhada nacional – embora aqui seja contemplada uma participação estrangeira - que reúne algumas histórias curtas – mas que, felizmente, não são assim tão curtas – e que já vai na terceira edição. Nota para o facto de ser uma antologia em que o tema central das histórias assenta, praticamente sempre, na ficção científica ou no universo da fantasia distópica.

Tenho que começar por dizer que é uma iniciativa fantástica e que é impregnada por qualidade do princípio ao fim. Desde sempre que considero as antologias de banda desenhada como aquela parte das apresentações de filmes – os chamados trailers – que vemos no cinema, antes de um filme começar. Isto porque, sendo histórias mais pequenas, têm o especial condão de nos apresentarem exercícios criativos, narrativos e visuais. Como se fossem o trailer para um qualquer filme. Claro que, dito assim, pode parecer que estou a menosprezar as curtas de banda desenhada. Mas, meus caros, o meu intuito é exatamente o oposto. Pois acho verdadeiramente importante que estas antologias com curtas de bd vão sendo lançadas para que nós, leitores, possamos destrinçar autores e estilos, bem como conhecer novas e especiais abordagens.

Umbra #3 – Antologia de Banda Desenhada, de Filipe Abranches, David Soares, Pedro Moura, Ricardo Baptista, Bárbara Lopes e Simon Roy
Ora, olhando para este Umbra #3, não diria que o parágrafo anterior se aplique assim tanto. Isto porque, nem as histórias deste número são assim tão curtas - como, aliás, já referi mais acima -, nem os autores que aqui aparecem são desconhecidos. Todos eles são já bastante “batidos” e experientes autores de banda desenhada. Falo de Filipe Abranches – o autor que também é o editor da publicação e que, portanto, vai ao leme da Umbra –, de David Soares, de Pedro Moura, de Ricardo Baptista e de Bárbara Lopes. Sendo totalmente honesto, o único autor que me era mais desconhecido era mesmo o do artista canadiano convidado, Simon Roy, que assina a última história do livro, intitulada Naufragado com Dan, o Gorila.

Portanto, se é verdade que as antologias têm a mais-valia de apresentar novos artistas – ou novas e/ou diferentes abordagens artísticas -, também é verdade que a Umbra trilha o seu próprio caminho, procurando ser uma seleção de bons artistas, que nos dão boas histórias que circundam os temas da “ficção científica, das teorias da conspiração, dos cenários pós-apocalípticos”, como nos revela o site oficial do projeto.

São histórias pesadas e negras que nos convidam a uma breve reflexão. Todas elas são interessantes e apresentam abordagens visuais muito díspares entre si como é, bem sabemos, uma das características inerentes às antologias de banda desenhada.

Umbra #3 – Antologia de Banda Desenhada, de Filipe Abranches, David Soares, Pedro Moura, Ricardo Baptista, Bárbara Lopes e Simon Roy
Fazendo uma breve menção a cada uma das quatro histórias que compõem este Umbra #3, começo com a história de abertura: Intenções Comestíveis: Ou Nova Tábua de Cebes, com argumento de David Soares e ilustrações de Filipe Abranches. É, sem dúvida, a história mais densa e pesada e, quanto a mim, em termos de alinhamento, deveria ser a história que fechava o livro. Assim, obriga-nos logo a mergulhar no denso e profundo, ainda mal chegámos à segunda página do livro. Após um cataclismo ter feito desaparecer as montanhas, à boa maneira de David Soares, é-nos dado um universo negro, medonho e pesado, com inúmeras referências mitológicas que se consubstanciam no mundo real em que vivemos. Como se tudo não passasse de uma metáfora surreal da nossa existência mundana. A arte de Filipe Abranches apresenta-se suja, rabiscada, complexa e em total linha de harmonia com a história (desarmoniosa) que nos é dada por Soares. Tudo junto funciona bastante bem. Abranches domina muito bem o preto e o branco, brincando com as luzes e as sombras contrastantes de forma agradável. No entanto, também é verdade que, por vezes, os seus desenhos, de tão carregados e “sujos” que estão, podem tornar-se um pouco ilegíveis.

A segunda história, Weep me Not Dead, faz uma boa ponte distópica para aquilo que poderia – poderá? – ser um futuro possível para a civilização humana. Numa sociedade moderna, que premeia a meritocracia, o capitalismo e o liberalismo ideológico, teremos nós uma vida mais feliz e humana ou, em contraste com isso, teremos uma existência mais maquinal, mais fria e mais politicamente correta? Uma reflexão muito contemporânea e inteligente de Pedro Moura que muito me agradou. A história é servida com as ilustrações de Ricardo Baptista que são verdadeiramente a antítese das ilustrações da história anterior. Os desenhos de Baptista assumem-se como limpos, simplistas, com muita legibilidade e com uma aura totalmente digital. Também em linha com a história que nos é dada, diria. Gostei bastante.

Umbra #3 – Antologia de Banda Desenhada, de Filipe Abranches, David Soares, Pedro Moura, Ricardo Baptista, Bárbara Lopes e Simon Roy
A terceira história, Tens a Certeza?, é da autoria de Bárbara Lopes, que assume o argumento e as ilustrações e, devo dizer, foi a história que mais me impressionou. Isto porque é um conto onde quase não existem diálogos e onde a autora nos mostra uma longa viagem do seu protagonista, recorrendo a opções gráfico-narrativas muito interessantes e onde o seu traço moderno - e que vai parecendo melhorar de história para história - nos dá desenhos muito ricos. Seja no desenho das personagens, dos ambientes, das expressões faciais, das cenas de ação. Também na planificação e enquadramentos, Bárbara Lopes se revela muito talentosa. Além de que a história, que nos mostra um protagonista a levar a cabo uma longa viagem à procura de respostas, assume uma audácia narrativa ao nos deixar com respostas incertas entre o que é real e o que não é. Muito bem feito e o ponto alto deste Umbra #3, quanto a mim.

Finalmente, terminamos com Naufragado com Dan, o Gorila, a história do artista estrangeiro convidado, Simon Roy, que nos oferece a experiência de um homem naufragado numa ilha que tem como companhia um gorila falante, com quem vai mantendo diálogos, até ao dia em que descobrem um barco naufragado na ilha, com várias provisões, incluindo dez garrafas de whisky, que deixarão o homem e o gorila igualmente embriagados e a fazerem-nos refletir através do seu diálogo. O desenho de Roy é elegante e bonito. Com traço relativamente simples, as ilustrações ganham mais força através da forma como são utilizados os cinzentos, que conferem dinâmica e beleza ao conjunto. Não conhecia o autor e fiquei agradado.

Umbra #3 – Antologia de Banda Desenhada, de Filipe Abranches, David Soares, Pedro Moura, Ricardo Baptista, Bárbara Lopes e Simon Roy
Em termos de edição, o livro apresenta uma boa qualidade de impressão e encadernação, tem capa mole brilhante e papel baço de boa qualidade. Nota ainda para a fantástica ilustração da capa que é assinada por João Maio Pinto. Devo dizer que gostaria que a lombada do livro tivesse o nome da publicação em vez de só ter o número. Do ponto de vista de arrumação/catalogação, seria mais fácil de encontrar, quer nas nossas estantes, quer nas livrarias.

Tratando-se de um projeto que evoluiu a partir de uma campanha de crowdfunding bem-sucedida, tem ainda mais o meu respeito, pois, sendo eu uma pessoa que, na música, conhece bem o que é e quão relevante para trabalhar um público pode ser uma campanha de crowdfunding, fico feliz pela iniciativa se ter revelado um sucesso.

Em suma, Umbra #3 é uma antologia de banda desenhada que vale muito a pena conhecer pois consegue reunir um bom número de artistas consagrados da bd nacional, enquanto nos oferece histórias densamente povoadas por elementos de uma ficção científica distópica. Recomenda-se.


NOTA FINAL (1/10):
8.0


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Umbra #3 – Antologia de Banda Desenhada, de Filipe Abranches, David Soares, Pedro Moura, Ricardo Baptista, Bárbara Lopes e Simon Roy

Ficha técnica
Umbra #3 – Antologia de Banda Desenhada
Autores: Filipe Abranches, David Soares, Pedro Moura, Ricardo Baptista, Bárbara Lopes e Simon Roy
Editora: Umbra Edições
Páginas: 112, a preto e branco
Encadernação: Capa mole
Lançamento: Dezembro de 2021

segunda-feira, 20 de setembro de 2021

Análise: Os Ditirambos Vol. 2 - Abismo

Os Ditirambos Vol. 2 - Abismo, de vários autores portugueses

Os Ditirambos Vol. 2 - Abismo, de vários autores portugueses

Os Ditirambos Vol. 2 - Abismo, de vários autores portugueses 

Foi lançado há poucos dias o segundo volume da antologia de banda desenhada Ditirambos, que reúne um conjunto eclético de autores nacionais em 8 histórias, e cujo tema subjacente é o "Abismo". Nesse sentido, convém dizer que há, desde logo, um elemento que diferencia esta de outras antologias de banda desenhada que é o tal requisito único de que cada história não deverá exceder as 4 páginas por autor.

Isso traz consigo uma certa dinâmica interessante pois permite-nos, por cada história, um brevíssimo vislumbre a um novo e diferente universo extraído diretamente da criatividade do autor. O tema é comum, mas as abordagens ao nível do argumento e de arte visual diferem muito entre si. Neste segundo livro deste projeto, a âncora narrativa é, como já disse, o "Abismo", mas, e tendo em conta que é um conceito que é – ou pode ser- lato, as liberdades criativas são mais que muitas e, portanto, acima de tudo, julgo ser justo dizer que este livro resulta como que uma pequena amostra do quão bons são os autores portugueses. Quanto potencial há disponível para explorar.

Os Ditirambos Vol. 2 - Abismo, de vários autores portugueses

Isto, claro, se acontecerem duas coisas: por um lado, que as editoras possam dar a ajuda (leia-se "aposta") necessária para que estes autores possam publicar histórias mais longas e com boa distribuição/promoção e, mais importante que isso ainda, que nós, público, saibamos apoiar e glorificar estes autores, fazendo apenas uma coisa muito simples: comprar bd de autores portugueses. Não podemos chorar que em Portugal, em termos de modalidades desportivas, só se aposta no futebol se, em casa, quando vemos televisão, não damos audiência a outros desportos ou se não compramos bilhete para assistir a essas outras modalidades desportivas. Não podemos queixar-nos que em Portugal só se ouve a mesma música comercial sem alma se não compramos discos ou bilhetes para os concertos de bandas alternativas ou emergentes. Da mesma forma, não podemos queixar-nos que a produção nacional de banda desenhada não é boa, se não comprarmos livros de bd de autores portugueses. E podemos começar por fazê-lo, comprando este Ditirambos Vol. 2.

O rol de autores aqui presente é bastante vasto: Joana Afonso, André Caetano, Ricardo Baptista, Raquel Costa, Nuno F. Cancelinha, Diogo Carvalho, Francisco Ferreira, Carlos Drave, Sónia Mota e Sofia Neto. Alguns já acompanho há alguns anos. Outros eram desconhecidos pela minha pessoa. Mas, concluídas duas leituras deste livro, posso dizer que todas as histórias me cativaram. Por uma ou outra razão. Umas mais que outras, naturalmente, mas há em todas elas algum apontamento positivo a retirar.

Os Ditirambos Vol. 2 - Abismo, de vários autores portugueses

Fazendo, então, um pequeno comentário a cada um dos 8 contos que compõem esta antologia, optarei por falar muito pouco sobre cada uma das histórias desses contos, sob pena de tirar o prazer da leitura e da descoberta àqueles que forem ler o livro. Como são histórias muito pequenas em dimensão, parece-me mais avisado falar, de forma genérica, sobre aquilo que cada uma delas me fez sentir e qual a impressão geral da mesma com que fiquei.

Assim, e começando por falar da primeira história Origma, de Joana Afonso, posso, desde já, ser muito claro e muito sintético: sou um confesso fã da autora e acho-a um dos maiores talentos da banda desenhada nacional! Já escrevi aqui no Vinheta 2020 várias vezes isto, mas vou ter que me repetir: o signature style da autora é de uma originalidade e personalidade que são raros de encontrar. E eu sou fã desse estilo próprio da autora, ao desenhar belas histórias. A conceção visual das suas personagens, entre o grotesco caricatural e o que há de mais belo na expressividade humana, é algo que sempre me cativa. E esta história não é exceção. Obviamente a adição desta autora ao projeto Ditirambos foi uma excelente escolha.

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Depois, passamos para a história Abismo Criativo, de Ricardo Baptista, que apresenta um tom divertido e com uma boa dose de metacomunicação, se tivermos em conta que ele, o autor, e André Caetano, o outro autor que se lhe segue, são personagens de uma história onde é feita a ponte entre a dificuldade da criação de uma banda desenhada e, ao mesmo tempo, a forma livre e sem regras que essa mesma banda desenhada pode tomar. Assim queiram os seus autores. Um exercício criativo que tem continuação na história seguinte, onde André Caetano passa a assumir os comandos do argumento e da ilustração, continuando-a exatamente a partir do momento em que a mesma terminou. No fundo, há aqui uma certa “batotice” no conceito Ditirambos porque, basicamente, a história Abismo Criativo acaba por ter 8 páginas, em vez de quatro. No entanto, não é tanta “batotice” assim, já que cada autor ilustra e cria o argumento da sua parte que contém 4 páginas. Não sendo uma história tão memorável assim, é, sem dúvida, um exercício audaz e inteligente que apreciei e onde a paleta de cores garridas de Ricardo Baptista torna a primeira parte da história apelativa, bem como o traço grosso e caricatural, a preto e branco, de André Caetano funciona igualmente muito bem, sabendo ilustrar com humor a segunda parte da história.

Os Ditirambos Vol. 2 - Abismo, de vários autores portugueses

Diogo Carvalho apresenta-nos, no seu conto Fissuras, uma bela história que está entre as minhas preferidas deste livro. Num estilo slice of life, que nos coloca numa conversa mundana entre um casal de namorados, o autor cria, de forma inteligente, um mapeamento social de como começam as divergências entre dois seres. E como essas divergências ou diferenças, tão pequenas no início, quase irrelevantes, fazem nascer uma pequena fissura que cresce, de forma independente e gradual, até se tornar um abismo entre os tais dois seres. Conceito simples mas muito acertado, e que merece destaque ainda pela forma bem conseguida como o autor utilizou, de forma literal, as "fissuras" que vão nascendo e crescendo em cada uma das pranchas da sua história, até culminarem numa última página espetacular, onde a fissura já deu lugar a um abismo. Muito bom e muito inteligente na abordagem.

Depois, temos ainda as histórias de Carlos Drave, Titã; de Francisco Ferreira e Sónia Mota, Abimos; e Espontâneas, de Sofia Neto. Todas elas trazem abordagens interessantes. A primeira, de Carlos Drave, coloca-nos num universo sci-fi, apresentando-nos uma história que levanta algumas questões interessantes, mas que, a meu ver, poderiam ter sido mais bem exploradas, caso existissem mais páginas. Também Abismos nos coloca num ambiente de ficção científica, explorando os temas do sonho, da realidade vivida e sonhada, com um twist final interessante. Espontâneas traz consigo um conceito muito interessante das ervas daninhas e como as mesmas se formam. Não fiquei tão entusiasmado com o tratamento visual desta história (ou dos tons amarelados da mesma) mas devo dizer que a premissa deste conto está muito interessante. Quase ao nível das lendas do universo do folclore. Bem que poderia ser (isto se já não for?) uma lenda antiga.

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Por último, para o fim, guardei a história que mais me marcou e que considero, sem grandes problemas, como uma das melhores histórias curtas em bd que li nos últimos anos! Trata-se de Mise en Abyme, de Nuno F. Cancelinha e de Raquel Costa. Mas antes, permitam-me confessar algo: eu não conhecia o trabalho destes autores. Já tinha esbarrado nos seus nomes pela internet, já tinha visto várias ilustrações de Raquel Costa, mas não me lembro de ter lido (com atenção) nenhuma das suas histórias. Creio que nunca o fiz. E por isso, e lamentavelmente, a primeira história que li desta dupla criativa foi mesmo esta Mise en Abyme. E posso dizer que fiquei abismado (é esta a palavra certa!) com a profundidade do argumento, o tratamento que é dado ao tema, a planificação das quatro pranchas e a forma majestosa, cheia de personalidade, de emotividade e de impacto, com que a ilustração de Raquel Costa consegue suster toda esta narrativa. Tudo feito de uma forma miraculosa, impressionante e marcante! Argumento fantástico, narração fantástica e arte visual fantástica! E tudo isto em 4 páginas! É tão bom que quase me irrita! Uma história linda! Eu quero um livro – uma história grande, vá! – feita por estes dois autores!!! A bd portuguesa precisa disso!

Os Ditirambos Vol. 2 - Abismo, de vários autores portugueses

Em termos de edição, e tendo em conta que estamos perante uma edição de autor – limitada a 200 exemplares numerados - acho que o resultado é bastante agradável. O livro apresenta uma capa fantástica – da autoria de Joana Afonso – e um bom grafismo. Antecedendo cada uma das oito histórias, há sempre uma página em branco com o(s) nome(s) do(s) autor(es) e, no final de cada história, há uma pequena biografia de cada um deles. Tudo muito clean e bem arrumado. A qualidade do papel é bastante aceitável e a capa mole tem a robustez necessária. Mesmo não sendo má, acredito que a impressão poderia ter uma melhor qualidade.

Portanto, em suma, Ditirambos é um projeto de qualidade indubitável na banda desenhada portuguesa. E este Abismo, especificamente, está repleto de boas ideias narrativas, de bons ilustradores e de duas coisas que lhe são transversais: talento e paixão. Paixão por contar histórias em banda desenhada e talento na forma como as mesmas podem ser concebidas! Cabe agora, a cada um de nós, amantes de banda desenhada, desbravar e apoiar este projeto. Pessoalmente, mal posso esperar pelo próximo número!

A nota que dou é uma nota global em relação ao todo.


NOTA FINAL (1/10):
8.0



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020

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Os Ditirambos Vol. 2 - Abismo, de vários autores portugueses

Ficha técnica
Os Ditirambos Vol. 2 - Abismo
Autores: Joana Afonso, André Caetano, Ricardo Baptista, Raquel Costa, Nuno F. Cancelinha, Diogo Carvalho, Francisco Ferreira, Carlos Drave, Sónica Mota e Sofia Neto
Editora: Edição de Autor
Páginas: 52, a cores e a preto e branco
Encadernação: Capa mole

Disponível para compra no site oficial do projeto.

sexta-feira, 27 de agosto de 2021

Nova Antologia de BD por autores nacionais!




No dia 4 de Setembro, será lançada no Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja - em horário ainda a confirmar - a nova antologia Ditirambos. Este é o segundo volume desta antologia de banda desenhada de autores portugueses e o tema subjacente a esta edição será o Abismo.

Nela entram alguns nomes sonantes da banda desenhada nacional como Joana Afonso, André Caetano, Ricardo Baptista, Raquel Costa, Nuno F. Cancelinha, Diogo Carvalho, Francisco Ferreira, Carlos Drave, Sónia Mota e Sofia Neto, que estarão presentes no Festival de Beja para uma sessão de autógrafos. Uma exposição sobre o livro, limitado a 200 exemplares, também estará patente no evento.

Posso dizer, desde já, que a capa deste livro, da autoria de Joana Afonso, está maravilhosa.
Abaixo fiquem com a nota de imprensa e com algumas imagens promocionais.

Os Ditirambos Vol. 2 - Abismo, de vários autores portugueses
Um ditirambo é um canto coral exortativo que nos chega da antiguidade grega.

Nele, uma multitude de vozes une-se em homenagem ao deus Dioniso.

É também uma antologia de banda desenhada de autores portugueses, cujas distintas técnicas e vozes narrativas obedecem, para além do mote, a um único requisito: 4 páginas.

O primeiro volume explorou o conceito de “Êxtase”, com as contribuições de Ricardo Baptista, Nuno Filipe Cancelinha, Diogo Carvalho, Raquel Costa, Francisco Ferreira e Sofia Neto.

No segundo volume - "Abismo", juntaram-se as as novas vozes dos autores e ilustradores Joana Afonso, André Caetano e Carlos Drave e a autora Sónia Mota

O segundo volume apresenta-nos 8 estórias de 10 autores nacionais, subordinadas ao tema “Abismo”.

A diversidade técnica, narrativa e estilística faz deste volume um verdadeiro tesouro a descobrir, juntando nomes já consagrados da banda desenhada nacional a talentos emergentes.

A tiragem é limitada a 200 exemplares numerados.

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Ficha técnica
Os Ditirambos Vol. 2 - Abismo
Autores: Joana Afonso, André Caetano, Ricardo Baptista, Raquel Costa, Nuno F. Cancelinha, Diogo Carvalho, Francisco Ferreira, Carlos Drave, Sónica Mota e Sofia Neto
Editora: Edição de Autor
Páginas: 52, a cores e a preto e branco
Encadernação: Capa mole