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terça-feira, 1 de setembro de 2026

Análise: Airborne 44 - Black Boys | Wild Men

Airborne 44 - Black Boys | Wild Men, de Philippe Jarbinet - ASA - LeYa

Airborne 44 - Black Boys | Wild Men, de Philippe Jarbinet - ASA - LeYa
Airborne 44 - Black Boys | Wild Men, de Philippe Jarbinet

Se há série que tem passado um pouco pelos pingos da chuva em Portugal, no que à constatação da sua qualidade diz respeito, Airborne 44 é um belo exemplo.

Esta série que em França já vai no seu 11º volume e cujos primeiros seis tomos foram originalmente editados por cá numa parceria entre a ASA e o jornal Público, tem revelado ser uma das séries de banda desenhada sobre a Segunda Guerra Mundial que mais prazer me tem dado acompanhar. Isto porque Philippe Jarbinet encontrou uma fórmula muito eficaz para a mesma: abordar o conflito com um impressionante rigor histórico, sim, mas sem nunca cair na armadilha de transformar a narrativa numa simples e enfadonha lição de História. Pelo contrário, cada ciclo procura apresentar-nos novas perspetivas sobre a guerra, explorando diferentes protagonistas e pontos de vista. E isso faz toda a diferença.

Airborne 44 - Black Boys | Wild Men, de Philippe Jarbinet - ASA - LeYa
Assim, e embora os acontecimentos históricos sirvam de alicerce, Jarbinet nunca se limita a reproduzir factos e operações militares. Existe sempre uma forte componente ficcional que nos aproxima das vidas das personagens, dos seus medos, das suas esperanças, dos seus amores e das suas contradições. A guerra surge, por isso, não apenas como um confronto entre exércitos ou nações, mas como uma experiência profundamente humana. E, logicamente, isto aproxima o leitor da obra e das suas personagens.

Estes Black Boys e Wild Men, que hoje vos trago, correspondentes, respetivamente, aos tomos 9 e 10 da série e ao seu quinto ciclo narrativo, mantêm essa abordagem de forma fiel. Desta vez, o autor coloca no centro da narrativa dois soldados americanos cujas diferenças parecem, à partida, impossíveis de reconciliar: Virgil é negro, Jay é branco... e não apenas branco: é também o típico redneck racista, moldado por preconceitos profundamente enraizados.

Jarbinet constrói a relação entre ambos so soldados americanos de forma gradual e credível. O facto de combaterem do mesmo lado não significa automaticamente que se compreendam ou respeitem. Pelo contrário, as primeiras interações são marcadas pelo conflito, pela desconfiança e pelas tensões raciais que atravessavam a sociedade norte-americana da época. Bem... e da época atual.

Airborne 44 - Black Boys | Wild Men, de Philippe Jarbinet - ASA - LeYa
Mas as contingências da guerra e a luta pela sobrevivência obrigam Virgil e Jay a dependerem um do outro para que consigam subsistir. Convém não esquecermos que quando a guerra reduz tudo ao essencial, muitas das certezas e preconceitos que temos começam a ser postos em causa. Embora não se trate, claro, de uma transformação instantânea ou, sequer, de uma reconciliação simplista entre as duas partes. 

Naturalmente, há alguns momentos em que é fácil antecipar a direção da narrativa. Desde cedo percebemos que a convivência forçada acabará por aproximar as duas personagens. Nesse sentido, a história não é propriamente surpreendente, admito. Contudo, o facto de alguns desenvolvimentos serem expectáveis não diminui a eficácia da sua execução.

E o interesse parece estar menos no destino final das personagens e mais na forma como esse destino é alcançado. "O que interessa não é o destino, mas a caminhada". Jarbinet consegue criar diálogos convincentes e situações suficientemente tensas para manter o envolvimento do leitor ao longo dos dois tomos. 

Airborne 44 - Black Boys | Wild Men, de Philippe Jarbinet - ASA - LeYa
Além disso, estes dois álbuns abordam uma temática particularmente relevante: a discriminação racial no seio das próprias forças aliadas. Muitas obras sobre a Segunda Guerra Mundial tendem a apresentar os exércitos aliados de forma homogénea e quase idealizada. Mas aqui, o autor recorda-nos que a luta contra o nazismo coexistia com profundas injustiças sociais e raciais mesmo dentro dos Estados Unidos. O que nos obriga a fazer, automaticamente, uma ponte com os mais recentes movimentos segregacionistas nos próprios Estados Unidos do tempo presente. É, pois, interessante ler estes dois livros à luz do tempo presente.

Em termos de desenho, Jarbinet continua a demonstrar ser um dos melhores autores europeus quando o tema é a Segunda Guerra Mundial. Os cenários são minuciosos, os veículos militares surgem representados com grande atenção ao detalhe e os ambientes conseguem transmitir uma sensação constante de realismo. Também os momentos de ação ou de calmaria, com espaço para conhecermos o lado mais humano das personagens, aparecem bem representados.

Airborne 44 - Black Boys | Wild Men, de Philippe Jarbinet - ASA - LeYa
Quer em termos de desenho realista, quer em termos de tratamento cromático, parece existir uma forte inspiração clássica, com tonalidades suaves e algo envelhecidas, o que confere às páginas um aspeto quase "vintage". Essa opção estética pode não agradar a toda a gente e a parecer algo datada, mas, por outro lado, pode ser exatamente aquilo que muitos leitores procuram.

Em termos de edição, os livros apresentam capa dura brilhante, bom papel brilhante e boa encadernação e impressão. No final de cada um dos tomos, há um texto em forma de posfácio em que o autor nos revela importantes e curiosas informações acerca da feitura dos livros e, até, daquilo em que se inspirou. Valem bem a pena por tudo o que acrescentam, a jusante, à nossa leitura. 

O que também teria valido a pena era se estes ciclos passassem a ser editados em volumes duplos. Bem sei que tendo a série começado a ser editada por cá em tomos separados, talvez já não fizesse sentido editar os tomos seguintes em álbuns duplos. Mas, enfim, acho que faz mais sentido ter cinco volumes duplos com histórias autocontidas neles, do que ter 10 volumes separados com cinco histórias autocontidas neles.

Em suma, Black Boys e Wild Men talvez constituam o melhor ciclo de Airborne 44, uma série que considero obrigatória para todos aqueles que gostam de banda desenhada histórica ou de cariz bélico. O prato de rigor histórico, personagens humanas, reflexões sobre temas complexos e belos desenhos de Jarbinet é-nos dado numa dose muito lisonjeira. E, por tudo isso, é uma obra que se recomenda! 


NOTA FINAL (1/10):
9.2



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Airborne 44 - Black Boys | Wild Men, de Philippe Jarbinet - ASA - LeYa

Fichas técnicas 
Airborne 44 - Black Boys - Vol. 9 
Autor: Philippe Jarbinet 
Editora: ASA 
Páginas: 64, a cores 
Encadernação: Capa dura 
Lançamento: Julho de 2024 

Airborne 44 - Black Boys | Wild Men, de Philippe Jarbinet - ASA - LeYa

Airborne 44 - Wild Men - Vol. 10
 
Autor: Philippe Jarbinet 
Editora: ASA 
Páginas: 64, a cores 
Encadernação: Capa dura 
Lançamento: Abril de 2025

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Vem aí um novo livro de Blueberry!




A ASA prepara-se para editar, a partir do próximo dia 22 de Setembro, um novo livro dedicado a Blueberry, um dos cowboys mais famosos de sempre do universo da banda desenhada!

Trata-se de uma edição especial, pois este é um livro comemorativo dos 60 anos de Fort Navajo, o primeiro álbum da série originalmente criada por Jean-Michel Charlier e Jean Giraud (AKA Moebius).

O livro, que já se encontra em pré-venda no site da editora, conta com várias histórias curtas e ilustrações da autoria de nomes famosos da banda desenhada como Milo Manara, Mathieu Lauffray, Blutch, Jérôme Félix, Enrico Marini, Ralph Meyer, Corentin Rouge, entre muitos outros.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais da edição original.


No Rasto de Blueberry, de Vários Autores

Por ocasião do 60.º aniversário de Blueberry (lançamento do primeiro álbum, Fort Navajo, 1965), série de culto criada por Jean-Michel Charlier e Jean Giraud, grandes autores prestam homenagem a Mike Steve Blueberry. 

Assim, os autores Anlor, Alberto Belmonte, Dominique Bertail, Michel Blanc-Dumont, Blutch, Olivier Bocquet, Vincent Brugeas, Stefano Carloni, Alexandre Coutelis, Fred Duval, Jérôme Félix, Paul Gastine, Goossens, Mathieu Lauffray, Lu Ming, Jean Mallard, Milo Manara, Enrico Marini,
Mathieu Mariolle, Thierry Martin, Matz, Ralph Meyer, Félix Meynet, Vincent Perriot, Corentin Rouge, Olivier Taduc, Ronan Toulhoat, Jean- François Vivier e Philippe Xavier criaram, cada um, uma história curta ou uma ilustração para homenagear esta grande personagem da BD franco-belga.
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Ficha técnica
No Rasto de Blueberry
Autores: Vários
Editora: ASA
Páginas: 128, a cores
Encadernação: Capa dura
PVP: 24,90€

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Análise: As Águias de Roma – Livro VIII

As Águias de Roma – Livro VIII, de Enrico Marini - ASA - LeYa

As Águias de Roma – Livro VIII, de Enrico Marini - ASA - LeYa
As Águias de Roma – Livro VIII, de Enrico Marini

Foi há poucos meses que a ASA editou o oitavo volume da série As Águias de Roma, de Enrico Marini. Esta série, relembro, esteve algo esquecida pela editora durante alguns anos, mas desde o sexto volume que tem vindo a ser publicada assiduamente, encontrando-se agora a par da edição original francesa, que conta com os mesmos oito tomos. Espera-se um novo volume, em França, já para o próximo mês de Outubro e espero que a ASA acompanhe esse lançamento internacional.

Sendo As Águias de Roma uma série da qual eu gosto muito, admito que os últimos tomos têm ficado um pouco aquém dos primeiros números da série. É que depois de um arranque absolutamente brilhante e de vários volumes que colocaram esta obra entre as mais marcantes séries históricas da banda desenhada europeia contemporânea - e esta é uma opinião partilhada por muitos -, a sensação que se vai instalando progressivamente é a de que Marini procura prolongar uma história que, embora continue interessante, já não possui o fulgor narrativo dos primeiros tomos. 

Ainda assim, seria injusto afirmar que este oitavo volume representa uma queda abrupta de qualidade. O que encontramos é antes uma continuação de uma tendência que já se fazia sentir nos volumes VI e VII: uma narrativa mais lenta, mais fragmentada e menos impactante do que outrora. Existe qualidade suficiente para manter o interesse do leitor, mas não necessariamente para provocar aquele entusiasmo imediato que outrora fazia cada novo volume parecer indispensável.

As Águias de Roma – Livro VIII, de Enrico Marini - ASA - LeYa
O enredo prossegue o complexo conflito entre Roma e as tribos germânicas, mantendo como eixo central a relação entre Marco e Armínio. Os dois irmãos de criação continuam presos a lealdades opostas e a visões irreconciliáveis do mundo. O confronto militar e político aproxima-se cada vez mais, ao mesmo tempo que o autor continua a explorar as consequências pessoais e emocionais das escolhas feitas por ambos ao longo dos anos.

A lealdade, a traição, a ambição política, o peso do destino e o choque entre civilizações continuam a dominar as páginas deste Livro VIII. Marini sempre foi particularmente eficaz a trabalhar estes conflitos morais e culturais, e continua a demonstrar uma enorme facilidade em retratar personagens que vivem permanentemente divididas entre os seus afetos e as suas obrigações.

Contudo, também se torna cada vez mais evidente que a narrativa perdeu alguma da urgência que caracterizava os primeiros tomos. Há momentos em que o leitor sente que a história avança apenas alguns passos, apesar do número significativo de páginas. Bem sei que muitas cenas funcionam como uma preparação para acontecimentos futuros, mas também é verdade que essa sensação de expectativa já se arrasta há vários (demasiados?) volumes. 

Não se trata necessariamente de um problema grave. Existem séries que sabem transformar esta acumulação de tensão numa poderosa recompensa final. Talvez isso possa vir acontecer em As Águias de Roma. No entanto, neste momento da obra, já não consigo evitar a sensação de que Marini está a esticar deliberadamente determinadas situações, retardando desenvolvimentos que talvez devessem ocorrer de forma mais célere.

As Águias de Roma – Livro VIII, de Enrico Marini - ASA - LeYa
Ainda assim, o autor continua a revelar uma invejável capacidade para construir ambientes e relações humanas. A ambiguidade moral mantém-se como uma das maiores virtudes da série. Aqui não há verdadeiros heróis nem verdadeiros vilões. As personagens movem-se numa "zona cinzenta" onde as motivações pessoais, os interesses políticos e as convicções ideológicas se misturam de forma extremamente convincente. E essa complexidade continua a ser um dos grandes fatores de atração da série. Tão depressa compreendemos as razões de Armínio como acabamos por nos encontrar do lado de Marco. Marini evita constantemente julgamentos simplistas, apresentando indivíduos profundamente humanos, cheios de contradições e fragilidades.

Se o argumento revela algum desgaste, o trabalho gráfico continua a ser um dos grandes trunfos da série. Marini permanece um desenhador extraordinário. Poucos autores conseguem representar a Roma Antiga com tamanho sentido de monumentalidade e elegância visual. Os cenários continuam ricos, os enquadramentos cinematográficos e a composição de página exemplar.

As personagens mantêm uma presença impressionante. Os rostos, os gestos e as expressões comunicam emoções com enorme eficácia. As cenas de intimidade continuam a surgir desenhadas com a sensualidade característica do autor, enquanto os momentos de violência são retratados com uma intensidade física muito convincente.

As Águias de Roma – Livro VIII, de Enrico Marini - ASA - LeYa
No entanto, também aqui começam a surgir algumas limitações que já eram visíveis nos volumes VI e VII. Existem vinhetas que parecem menos trabalhadas do que aquelas que encontrávamos nos primeiros tomos da série. O traço continua bonito, reconhecível e extremamente agradável de observar, mas por vezes transmite a sensação de ter sido executado de forma mais apressada. E isso nota-se particularmente nos cenários e nas personagens mais secundárias - ou que aparecem em segundo plano. 

Por outro lado, a cor permanece um dos elementos mais fortes da obra. As tonalidades quentes dos ambientes mediterrânicos, os contrastes entre os espaços urbanos romanos e os cenários mais agrestes da Germânia e o cuidado atmosférico de cada sequência continuam a conferir uma enorme riqueza visual ao conjunto. E esta questão das cores é especialmente importante, pois mesmo quando algumas ilustrações parecem menos refinadas, a coloração ajuda a preservar a beleza global da obra.

Em termos de edição, o livro apresenta as mesmas características dos anteriores volumes: capa dura brilhante, bom papel brilhante, boa encadernação e boa impressão. A edição francesa da obra tinha duas opções de capa: uma com Armínio e outra com Marco, deixando os leitores escolherem a sua capa preferida - ou desafiando alguns indecisos ou colecionadores a comprarem as duas. No caso português, a ASA optou por editar a obra apenas com a capa em que aparece Armínio.

Em jeito de conclusão, As Águias de Roma - Livro VIII confirma uma impressão que se vem consolidando nos últimos anos: a série continua muito boa, mas já não tão extraordinária como foi. O encanto permanece, as personagens continuam envolventes e o grafismo mantém-se claramente acima da média. Contudo, o ritmo narrativo perdeu alguma força e o desenho, embora ainda magnífico, parece por vezes menos aprimorado do que outrora. É um álbum que continua a proporcionar uma leitura bastante satisfatória, mas que reforça a ideia de que a série atravessa uma fase ligeiramente descendente. Felizmente, mesmo um Marini abaixo da sua melhor forma continua a ser melhor do que a esmagadora maioria da produção contemporânea de banda desenhada histórica.


NOTA FINAL (1/10):
8.6



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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As Águias de Roma – Livro VIII, de Enrico Marini - ASA - LeYa

Ficha técnica
As Águias de Roma - Livro VIII
Autor: Enrico Marini
Editora: ASA
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 31,6 x 23,8 cms
Lançamento: Abril de 2026

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Análise: Michel Vaillant (Nova Temporada, Corridas Lendárias e Histórias Curtas)

Michel Vaillant (Nova Temporada, Corridas Lendárias e Histórias Curtas) - Jean Graton, Lapière, Bourgne, Eillam e Dutreuil) - ASA - LeYa

Michel Vaillant (Nova Temporada, Corridas Lendárias e Histórias Curtas) - Jean Graton, Lapière, Bourgne, Eillam e Dutreuil) - ASA - LeYa
Michel Vaillant (Nova Temporada, Corridas Lendárias e Histórias Curtas) - Jean Graton, Lapière, Bourgne, Eillam e Dutreuil)

Recentemente aproveitei a oportunidade para mergulhar no universo de Michel Vaillant, lendo alguns dos livros que mais recentemente foram por cá editados pela editora ASA. É por isso que hoje vos trago um artigo sobre seis(!) dos últimos livros de Michel Vaillant. E a minha conclusão perante estas obras não é propriamente animadora, tenho que confessar. Mas já la irei.

Hoje falo-vos um pouco de Redenção e Remparts (Lapière, Bourgne e Eillam); de No Inferno de Indianápolis e Alma dos Pilotos (Lapière e Dutreuil); e de Origens e Seventies (Jean Graton).

Michel Vaillant (Nova Temporada, Corridas Lendárias e Histórias Curtas) - Jean Graton, Lapière, Bourgne, Eillam e Dutreuil) - ASA - LeYa
Há que admitir que todos estes livros demonstram bem que a marca Michel Vaillant, originalmente criada por Jean Graton, continua viva e editorialmente ativa. Contudo, essa vitalidade quantitativa está longe de se refletir numa verdadeira relevância criativa. Entre os álbuns da série Nova Temporada, os títulos da nova coleção Corridas Lendárias e os volumes de Histórias Curtas, recuperadas do passado, fica a sensação de que a franquia atravessa uma crise de identidade profunda, dividida entre a tentativa de modernização, por um lado, e a incapacidade de encontrar uma voz verdadeiramente contemporânea, por outro. Se quiserem ler um bom livro deste universo, leiam Henri Vaillant. Esse, sim, não sendo perfeito, foi dos melhores livros deste universo que li em anos. O único que, sinceramente, vale mesmo a pena. A não ser que sejam fãs incondicionais da série, está claro.

Começando pelos dois volumes mais recentes da série moderna, posso dizer-vos que Redenção e Remparts, assinados por Philippe Lapière, Marc Bourgne e Eillam, ilustram bem essa dificuldade criativa que se regista nesta série. Isto porque apesar destes dois livros - e dos seus antecessores - procurarem inserir Michel Vaillant no contexto atual do desporto automóvel, com temas contemporâneos e uma maior preocupação com o realismo das competições, os resultados dificilmente ultrapassam a mediania.

Michel Vaillant (Nova Temporada, Corridas Lendárias e Histórias Curtas) - Jean Graton, Lapière, Bourgne, Eillam e Dutreuil) - ASA - LeYa
Não são trabalhos intragáveis, mas são "fraquinhos", com as histórias a carecerem de impacto, audácia e, ironicamente, contemporaneidade. Os enredos desenvolvem-se de forma funcional, previsível e pouco memorável ou inspirada. Existe ainda uma certa dificuldade em criar personagens verdadeiramente cativantes. Michel Vaillant continua a ocupar o centro da narrativa, claro, mas é uma personagem bastante unidimensional, que raramente demonstra a profundidade ou complexidade necessárias para sustentar sozinho o (pouco) peso dramático das histórias. E muitas das figuras secundárias surgem como instrumentos narrativos, sem espaço para evoluírem ou se tornarem realmente interessantes.

Os desenhos são competentes e reconhecíveis, mas raramente impressionam - muito embora, considere as capas desta Nova Temporada muito bonitas. Há dinamismo suficiente para ilustrar as corridas, mas falta alguma personalidade artística. Tudo parece funcional, mas pouco inspirado, mostrando que, mais do que tudo, estes álbuns estão a ser produzidos para cumprir uma determinada fórmula editorial previamente estabelecida. E o resultado é uma série que, de tempos a tempos, ainda consegue apresentar um volume relativamente interessante, mas que raramente deixa qualquer marca duradoura no leitor. 

Michel Vaillant (Nova Temporada, Corridas Lendárias e Histórias Curtas) - Jean Graton, Lapière, Bourgne, Eillam e Dutreuil) - ASA - LeYa
E quando terminamos a leitura, a sensação predominante não é a de termos acompanhado uma história marcante, mas apenas mais um episódio de uma série que continua a avançar por capricho editorial ou para continuar a alimentar um público envelhecido e nostálgico que talvez esteja mais preocupado em continuar a comprar a série, por colecionismo, do que por qualidade.

Essa sensação torna-se ainda mais evidente quando chegamos à coleção Michel Vaillant - Corridas Lendárias. Em teoria, a iniciativa tinha potencial: recuperar o espírito clássico da obra de Jean Graton, apostar em histórias mais autocontidas e celebrar momentos históricos do automobilismo. Na prática, porém, o resultado revela-se profundamente decepcionante.

Tanto No Inferno de Indianápolis como A Alma dos Pilotos parecem existir num território desconfortável entre a homenagem e, com todo o respeito, a imitação barata. As histórias tentam recriar o ambiente dos álbuns clássicos sem, contudo, compreender aquilo que os tornava especiais. O resultado são narrativas pouco inspiradas, previsíveis e incapazes de gerar verdadeiro entusiasmo.

Michel Vaillant (Nova Temporada, Corridas Lendárias e Histórias Curtas) - Jean Graton, Lapière, Bourgne, Eillam e Dutreuil) - ASA - LeYa
E o problema agrava-se ao nível gráfico. Se a série moderna é competente sem maravilhar, esta coleção dá frequentemente a sensação de regressão. As personagens apresentam expressões faciais rígidas e pouco naturais e muitas sequências transmitem uma estranha falta de energia. Em vez de homenagear Graton, acabam por destacar a distância - abismo! - que separa estes novos autores da qualidade do criador original.

O mais frustrante, pois por isso, é que Corridas Lendárias falha em ambas as direções possíveis. Não consegue ser uma continuação digna do legado clássico e também não tem a coragem de propor algo verdadeiramente novo. É uma série que parece ficar presa numa espécie de nostalgia sem ambição, limitando-se a reproduzir - de forma superficial - alguns elementos familiares, mas sem encontrar uma razão convincente para existir.

Curiosamente, - ou deverei dizer, expectavelmente? - a iniciativa mais interessante entre estes seis livros acaba por ser a mais simples: a publicação dos volumes Michel Vaillant - Histórias Curtas 1: Origens e Michel Vaillant - Histórias Curtas 2: Seventies. Não porque estas histórias sejam irrepreensíveis, mas porque oferecem algo que as restantes obras dificilmente conseguem reproduzir: autenticidade.

Michel Vaillant (Nova Temporada, Corridas Lendárias e Histórias Curtas) - Jean Graton, Lapière, Bourgne, Eillam e Dutreuil) - ASA - LeYa
Ao ler estas narrativas assinadas por Jean Graton, o criador original da série, percebemos imediatamente que estamos perante um autor que possuía uma visão clara da sua criação. Existem limitações evidentes, naturalmente associadas à época em que muitas destas histórias foram produzidas, mas também existe uma energia criativa e uma personalidade que se tornaram raras nas produções mais recentes.

É verdade que várias destas histórias não envelheceram particularmente bem. A narrativa sobrecarregada de texto pode parecer ingénua, bem como algumas soluções dramáticas são datadas, pertencendo claramente a outro tempo. No entanto, existe nestes livros uma honestidade criativa que acaba por compensar muitas dessas fragilidades.

Além disso, estes dois volumes funcionam como uma espécie de "auto-homenagem" ao percurso de Jean Graton, pois permitem ao leitor acompanhar a evolução do autor, revisitar momentos importantes da personagem e compreender melhor as raízes de uma série mítica como esta. 

Em termos de edição, todos os livros apresentam um aspeto agradável. No miolo, os seis livros têm bom papel brilhante, com a encadernação e impressão a estarem igualmente bem executadas. Todas as capas são duras, embora as dos livros da Nova Temporada apresentem acabamento brilhante, enquanto as outras são baças. O formato dos livros de Corridas Lendárias e de Histórias Curtas é ligeiramente superior aos de Nova Temporada. Finalmente, os dois livros de Histórias Curtas incluem textos de apoio. E o primeiro dos dois, Michel Vaillant - Histórias Curtas 1: Origens tem ainda, no final, um texto particularmente interessante, o que beneficia em muito a edição.

No final, a conclusão não é particularmente animadora. Michel Vaillant continua a ser uma marca ativa, mas dificilmente se pode dizer que esteja a atravessar um período criativamente relevante. Talvez ainda exista um público fiel e envelhecido que continue a acompanhar estas publicações por afeto e nostalgia. É perfeitamente legítimo. O problema é que, olhando apenas para a qualidade das obras, é difícil evitar a sensação de que Michel Vaillant vive cada vez mais da memória do que da capacidade de continuar a produzir banda desenhada verdadeiramente memorável.


NOTAS FINAIS (1/10):
Redenção: 7.0
Remparts: 6.8
No Inferno de Indianápolis: 6.0
Alma dos Pilotos: 5.5
Histórias Curtas 1: Origens: 8.0
Histórias Curtas 2: Seventies: 7.0


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Michel Vaillant (Nova Temporada, Corridas Lendárias e Histórias Curtas) - Jean Graton, Lapière, Bourgne, Eillam e Dutreuil) - ASA - LeYa

Fichas técnicas
Michel Vaillant - Redenção
Autores: Lapière, Bourgne e Eillam
Editora: ASA
Páginas: 56, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 294 x 221 mm
Lançamento: Novembro de 2024

Michel Vaillant (Nova Temporada, Corridas Lendárias e Histórias Curtas) - Jean Graton, Lapière, Bourgne, Eillam e Dutreuil) - ASA - LeYa

Michel Vaillant - Remparts
Autores: Lapière, Bourgne e Eillam
Editora: ASA
Páginas: 56, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 294 x 221 mm
Lançamento: Março de 2026

Michel Vaillant (Nova Temporada, Corridas Lendárias e Histórias Curtas) - Jean Graton, Lapière, Bourgne, Eillam e Dutreuil) - ASA - LeYa

Michel Vaillant - Corridas Lendárias 1 - No Inferno de Indianápolis
Autores: Lapière e Dutreuil
Editora: ASA
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 320 x 240 mm
Lançamento: Março de 2025

Michel Vaillant (Nova Temporada, Corridas Lendárias e Histórias Curtas) - Jean Graton, Lapière, Bourgne, Eillam e Dutreuil) - ASA - LeYa

Michel Vaillant - Corridas Lendárias 2 - A Alma dos Pilotos
Autores: Lapière e Dutreuil
Editora: ASA
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 320 x 240 mm
Lançamento: Maio de 2026

Michel Vaillant (Nova Temporada, Corridas Lendárias e Histórias Curtas) - Jean Graton, Lapière, Bourgne, Eillam e Dutreuil) - ASA - LeYa

Michel Vaillant - Histórias Curtas 1 - Origens
Autor: Jean Graton
Editora: ASA
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 320 x 240 mm
Lançamento: Junho de 2023

Michel Vaillant (Nova Temporada, Corridas Lendárias e Histórias Curtas) - Jean Graton, Lapière, Bourgne, Eillam e Dutreuil) - ASA - LeYa

Michel Vaillant - Histórias Curtas 2 - Seventies
Autor: Jean Graton
Editora: ASA
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 320 x 240 mm
Lançamento: Março de 2024

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Análise: Murena #13 - As Neronia

Murena #13 - As Neronia, de Jean Dufaux e Jérémy - ASA - LeYa

Murena #13 - As Neronia, de Jean Dufaux e Jérémy - ASA - LeYa
Murena #13 - As Neronia, de Jean Dufaux e Jérémy

Foi no passado mês de março que a editora ASA nos fez chegar o mais recente volume da muito celebrada série Murena. Ambientada na antiga Roma, esta é uma obra rica no argumento, sendo carregada de conspirações, traições, tramas políticas, erotismo e personagens impactantes. E tem sido brilhantemente desenhada.

Da autoria de Jean Dufaux, a série foi originalmente ilustrada por Philippe Delaby. Depois do falecimento deste, foi Theo quem ocupou o seu lugar. Mas, neste 13º volume, intitulado As Neronia, que abre o quarto e último ciclo da série, é Jérémy quem assegura os desenhos. Recordo que este autor até já havia trabalhado na série, tendo feito o trabalho de colorização de vários tomos, ainda no tempo de Delaby.

Dando, por isso, continuidade a uma das mais ambiciosas recriações da Roma Antiga alguma vez produzidas em banda desenhada, este novo livro não perde o fôlego, apesar do encerramento de importantes linhas narrativas no álbum anterior. Pelo contrário, sente-se que Dufaux aproveita este novo ponto de partida para um "fresh restart", reposicionando as suas personagens e preparando o terreno para novos conflitos. Apreciei especialmente esta faceta deste livro, pois sinto sempre que nestas séries longas, com muitas personagens e tramas complexas, é sempre bem-vindo um álbum que procure unir algumas das pontas que vão ficando soltas.

Murena #13 - As Neronia, de Jean Dufaux e Jérémy - ASA - LeYa
Regressamos à Roma de Nero, o imperador que está cada vez mais absorvido pela sua própria imagem e pelo desejo quase doentio de ser admirado pelos demais. Após os eventos decorridos nos tomos anteriores, Nero procura agora reconquistar o povo através da organização dos Neronia, os grandiosos jogos artísticos e atléticos inspirados nos festivais gregos. Uma espécie de jogos olímpicos. Algo que possa entreter as gentes do povo. À superfície, estes jogos surgem, pois, como uma celebração cultural, mas, naturalmente, não passam de um mero exercício propagandístico destinado a glorificar o imperador e a reforçar o seu poder.

Aprecio bastante a forma como Nero é retratado, com Dufaux a não caracterizá-lo como um simples tirano unidimensional. Ao invés, existe nele uma mistura curiosa de charme, fragilidade, vaidade e crueldade que o torna simultaneamente imprevisível e assustador. Por vezes parece mau, noutras vezes parece um bom homem. 

Além disso, a morte de Séneca, ocorrida no volume anterior, continua a fazer-se sentir ao longo de toda a narrativa, pois é algo que deixou Roma mergulhada num ambiente de medo, suspeita e vigilância constante. Esta atmosfera sufocante, onde ninguém parece verdadeiramente seguro e onde cada palavra pode ser interpretada como um ato de traição, está muito bem trabalhada e sente-se ao longo de todo o livro. 

Entretanto, Lúcio Murena continua a estar cercado por intrigas, manipulações e traições, sendo constantemente obrigado a movimentar-se num território onde as certezas são escassas e onde a lealdade tem um preço cada vez mais elevado. Por sua vez, Tigelino continua a consolidar a sua posição como uma das figuras mais perigosas da narrativa. A sua influência sobre Nero permanece grande, mas Dufaux introduz novos equilíbrios de forças dentro da corte imperial. A presença da misteriosa Hidra acrescenta novas camadas de complexidade ao jogo político, criando uma interessante competição pela proximidade ao imperador. Um autêntico jogo de cadeiras.

Não é que haja, porém, grandes cenas de violência. Na verdade, parece haver uma preocupação em privilegiar-se uma construção pausada da intriga, como se fosse uma forma de preparar o que pode vir no futuro. É verdade que isto pode fazer com que sintamos que acontecem poucas coisas neste tomo. No entanto, parece-me que essa opção é deliberada. Como já disse mais acima, Dufaux parece estar mais interessado em reorganizar o tabuleiro das peças humanas, dando um passo atrás para, depois, poder dar dois em frente. Ou assim espero.

Ainda assim, continuo a sentir que uma das fragilidades recorrentes da série permanece presente. Por vezes, Dufaux introduz personagens, ideias ou subtramas muito interessantes que nem sempre recebem o desenvolvimento que aparentam prometer inicialmente. Não se trata de um problema grave, mas há momentos em que a narrativa parece dispersar-se ligeiramente, desviando a atenção para elementos cujo impacto acaba por revelar-se mais reduzido do que seria expectável. Do ponto de vista global, se os nós forem bem atados no futuro, até pode não ser um problema. Contudo, pensando o livro de forma isolada, acaba por ser algo mais comprometedor, parece-me.

Murena #13 - As Neronia, de Jean Dufaux e Jérémy - ASA - LeYa

Do ponto de vista visual, este é também um álbum importante por, tal como já mencionei, marcar a chegada de Jérémy ao lugar de desenhador da série. E a verdade é que o autor não demonstra qualquer necessidade de adaptação. Desde as primeiras páginas percebe-se que compreendeu perfeitamente os códigos gráficos de Murena e que sabe respeitar a identidade visual construída por Philippe Delaby ao longo de tantos anos.

Assim os desenhos, de traço realista, continuam a apresentar uma qualidade visual muito elevada. O enquadramento das cenas é bastante cinematográfico, enquanto a expressividade das personagens continua a ser uma das grandes forças da série. Além disso, as decorações, as indumentárias, os cenários e os elementos arquitetónicos revelam um cuidado impressionante com o detalhe, contribuindo para uma recriação histórica particularmente convincente.

E, já agora, as cores também desempenham um papel fundamental. Há uma riqueza cromática constante que valoriza cada página e ajuda a reforçar tanto a grandiosidade dos espaços imperiais como os momentos mais intimistas. O resultado final é um álbum visualmente muito sólido, que consegue simultaneamente preservar o legado dos seus antecessores e afirmar a identidade própria do novo ilustrador.

E não posso deixar de referir que a ilustração desta capa é verdadeiramente sublime. Todas as capas de Murena, ou quase todas, são belas, mas esta, em particular, é a mais bonita de todas, quanto a mim.

Quanto à edição da obra, o livro apresenta capa dura brilhante, com bom papel brilhante no miolo. A encadernação e a impressão também são boas. Há ainda um importante prefácio de Jean Dufaux. 

Não posso, no entanto, deixar de referir algo que me deixou bastante desapontado: o texto constante na contracapa do livro não está em português de Portugal, mas em português do Brasil(!), o que me leva a crer que talvez se tenha utilizado um google translator, ou semelhante, para traduzir este texto. E saber que numa editora como a ASA isso acontece, é algo que acho lastimoso. Devo dizer que no interior do livro, não detetei que o texto não estivesse bem feito... mas o mal - do texto da contracapa - já estava feito. E espero que tenha sido apenas um lapso que passou e que não venha a ser repetido no futuro, pois isto é algo que não dignifica a obra, nem a editora, nem a edição, nem a tradução.

Em suma, este recente Murena #13 - As Neronia funciona sobretudo como um volume de transição, em que Jean Dufaux aproveita este novo ciclo para aprofundar as tensões políticas e psicológicas do enredo, enquanto o ilustrador Jérémy assegura a continuidade gráfica da obra com enorme competência. Está longe de ser o álbum mais explosivo da série, mas é, ainda assim, um capítulo sólido, elegante e promissor que deixa grande expectativa para o que virá a seguir.


NOTA FINAL (1/10):
8.8


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Murena #13 - As Neronia, de Jean Dufaux e Jérémy - ASA - LeYa

Ficha técnica
Murena #13 - As Neronia
Autores: Jean Dufaux e Jérémy
Editora: ASA
Páginas: 46, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 298 x 226 mm
Lançamento: Março de 2026


quarta-feira, 8 de julho de 2026

30 Bandas desenhadas para crianças e jovens (e adultos)


Se é verdade que é comummente aceite que, em Portugal, vivemos na atualidade uma das melhores fases - em termos de variedade, quantidade e qualidade - na edição de banda desenhada, o mesmo não é dito relativamente ao lançamento de banda desenhada destinada às crianças e aos jovens.

Com efeito, é frequente que oiçamos gente do meio da BD a dizer que "não são lançadas obras para um público infanto-juvenil em Portugal". Poderia ser verdade há uns anos, mas de há uns tempos (largos) para cá, com especial incidência nos últimos três ou quatro anos, é cada vez mais frequente e robusta a aposta em banda desenhada para as crianças e jovens. E isto já sem falar de mangás ou das bandas desenhadas mais clássicas como Astérix ou Lucky Luke. Portanto, achar-se que é pouca a BD infanto-juvenil editada por cá, no tempo presente, revela apenas uma coisa: desconhecimento sobre o meio.

E a prova cabal do que acabo de dizer é que me foi bastante fácil chegar à listagem de 30(!) obras de BD infanto-juvenil, editadas nos últimos dois/três anos, que vos trago hoje. Tive até que deixar outras obras relevantes de fora. É claro que poderemos sempre objetar que ainda há espaço para que se publiquem mais obras para este público. Sim, claro que há. Mas isso também é válido para qualquer mercado. Até o franco-belga.

Assim, este artigo tem a função de vos fazer conhecer boas obras de banda desenhada que poderão comprar para oferecer aos vossos filhos, aos vossos netos, aos vossas afilhados, aos vossos sobrinhos. A qualquer criança que vos rodeie, portanto. Pois, se queremos que a 9ª Arte prospere, também importa formar leitores. E cabe-nos a nós, leitores e amantes de banda desenhada, fazê-lo. Não contemos com grandes iniciativas do Ministério da Educação ou da Cultura...

E mesmo que não estejam rodeados de crianças, posso até dizer-vos que há nesta listagem de 30 obras, vários livros que, sendo para crianças ou jovens, também são leituras ricas para adultos.

Portanto, sem mais demoras, eis a minha lista de 30 Bandas desenhadas para crianças e jovens (e adultos):

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Análise: Slava #2 - Os Novos Russos

Slava #2 - Os Novos Russos, de Pierre-Henry Gomont - ASA - LeYa

Slava #2 - Os Novos Russos, de Pierre-Henry Gomont - ASA - LeYa
Slava #2 - Os Novos Russos, de Pierre-Henry Gomont

A editora ASA lançou há poucas semanas o segundo volume do tríptico Slava, do autor Pierre-Henry Gomont. Intitulado Os Novos Russos, este novo álbum aumentou ainda mais o meu interesse nesta história, confirmando a sua qualidade e unindo algumas pontas soltas que tinha encontrado no primeiro volume, Depois da Queda. Na verdade, se o primeiro volume já deixava antever uma obra com ambição e identidade, este segundo tomo não só cumpre essas promessas como, em muitos aspectos, as ultrapassa com notável convicção.

Retomando a narrativa na Rússia dos anos 90, Pierre-Henry Gomont volta a mergulhar-nos nesse período caótico, onde o colapso da União Soviética abriu espaço a uma nova ordem marcada pela ausência de regras e por uma voracidade económica quase predatória, que havia de dar origem à famosa "ordem" dos oligarcas. O conceito de “novos russos”, isto é, aqueles que enriqueceram rapidamente à custa de expedientes duvidosos, torna-se aqui o eixo temático central, abordado com um tom que, apesar da dureza do contexto, conserva uma leveza surpreendente, e por vezes até bem‑humorada.

A história divide-se de forma mais clara do que no primeiro volume, entre os percursos de Slava e Lavrine, agora separados por circunstâncias particularmente duras. Lavrine surge numa situação de absoluta decadência: abandonado, mutilado e reduzido a uma existência quase espectral numa aldeia remota. A sua transformação é um dos pontos mais interessantes deste volume, não tanto pela redenção, mas pela forma como Gomont nos oferece uma personagem tão carismática e que acaba, quase sempre, por se mover apenas com base nos seus impulsos egoístas. Ou de sobrevivência. 

Slava #2 - Os Novos Russos, de Pierre-Henry Gomont - ASA - LeYa
Já Slava permanece ligado à mina - e à bela Nina - tentando negociar com os grandes poderosos algumas das máquinas mais valiosas presentes nessa mina. O seu relacionamento clandestino com Nina ganha protagonismo neste volume, criando uma tensão constante com Arkady, o noivo desta. Há aqui um jogo emocional e moral mais aprofundado, onde Slava oscila entre a paixão, a responsabilidade e a sua própria crise identitária, acentuada pela vontade de regressar à pintura como forma de encontrar equilíbrio.

Se no primeiro volume, a narrativa me pareceu por vezes indecisa, com momentos dispersos e alguma dificuldade em encontrar um rumo coeso, neste segundo tomo Gomont demonstra um controlo muito mais premente do enredo. As pontas soltas são aqui trabalhadas com maior cuidado, e aquilo que antes parecia quase aleatório ganha agora função e peso dentro da estrutura narrativa.

Para isso, também conta que a obra nos ofereça belas personagens: Slava continua a ser um protagonista sólido, com traços de idealismo que contrastam com o mundo que o rodeia, enquanto Nina mantém o seu carisma e complexidade, funcionando não apenas como interesse amoroso, mas também como catalisadora de decisões e conflitos. Ainda assim, é impossível não destacar Lavrine como a verdadeira estrela deste volume. Politicamente incorreto, manipulador, sem escrúpulos e totalmente focado no enriquecimento pessoal, é uma daquelas personagens que fascinam precisamente pelas suas falhas. Mesmo em ruína, Lavrine mantém um magnetismo difícil de ignorar, e o seu percurso neste volume dá-lhe uma profundidade inesperada. A obra chama-se "Slava" mas, quanto a mim, bem que podia chamar-se "Lavrine".

Outro aspecto que merece destaque é a forma como Gomont torna a leitura mais fluida neste volume. O ritmo está melhor calibrado e a articulação entre cenas é mais natural, contribuindo para uma experiência mais coesa e envolvente. Mesmo quando a história abranda, fá-lo com intenção, aprofundando personagens em vez de dispersar a atenção.

E o equilíbrio entre o humor e a crítica social é outro dos grandes méritos da obra. Gomont consegue abordar temas pesados, como a corrupção, o oportunismo e a desagregação social, com um tom que nunca resvala para o moralismo, optando antes por uma ironia subtil que torna tudo mais acessível e, paradoxalmente, mais incisivo. Não é bem daqueles livros que nos faz rir à gargalhada, mas certamente coloca um sorriso mordaz nas nossas faces.

Slava #2 - Os Novos Russos, de Pierre-Henry Gomont - ASA - LeYa
Em termos visuais, as ilustrações presentes neste segundo volume vão ao encontro do bom trabalho que o autor já nos havia dado no primeiro tomo da série. O traço continua dinâmico, expressivo e cheio de movimento, lembrando, com as devidas distâncias, o estilo de Christophe Blain. As figuras parecem constantemente em fluxo, deformando-se ligeiramente para acentuar emoções e criar uma sensação de urgência que casa perfeitamente com o cenário retratado. E as próprias máquinas e ambiente fabril da mina dos trabalhadores, bem como os cenários gélidos russos, são especialmente bem reproduzidos. Gosto muito do desenho do autor e, já agora, acho a ilustração da capa profundamente linda.

E também a cor continua a desempenhar um papel fundamental. As paletas carregadas e algo sujas reforçam a atmosfera de decadência, ao mesmo tempo que sublinham os contrastes emocionais e narrativos. São cores que, mais do que serem meramente ilustrativas, conseguem ser parte integrante da narrativa visual, ajudando a construir o ambiente e a psicologia das personagens. tudo muito bem feito.

Em termos de edição, o livro apresenta capa dura baça, bom papel baço no miolo, e um bom trabalho ao nível da encadernação, impressão e acabamentos.

Em conclusão, Slava #2 – Os Novos Russos revela-se não apenas uma continuação competente, mas um claro passo em frente relativamente ao primeiro volume. Mais focado, mais maduro e com personagens ainda mais bem trabalhadas, este segundo tomo consolida a série como uma fantástica e inspirada abordagem à Rússia pós-soviética, com todos os seus podres. Fica, assim, a expectativa bem elevada para o desfecho desta singular trilogia! Bela aposta da ASA!


NOTA FINAL (1/10):
9.0



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020

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Slava #2 - Os Novos Russos, de Pierre-Henry Gomont - ASA - LeYa

Ficha técnica
Slava #2 - Os Novos Russos
Autor: Pierre-Henry Gomont
Editora: ASA
Páginas: 112, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Maio de 2026