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quarta-feira, 20 de maio de 2026

Análise: Os Filhos do Império #2

Os Filhos do Império #2, de Yudori - ASA - LeYa

Os Filhos do Império #2, de Yudori - ASA - LeYa
Os Filhos do Império #2, de Yudori

A ASA editou recentemente o segundo volume da série Os Filhos do Império, de Yudori, dando continuidade à narrativa iniciada no primeiro volume da obra, editado no ano passado. Lembro-me que, quando analisei esse primeiro volume, referi que havia coisas bastante interessantes e outras não tão fantásticas, sendo que seria no segundo volume que teríamos uma noção mais clara do valor da série.

Ora, depois de finda a leitura deste volume 2, devo dizer que, sim, de facto, esta é uma daquelas obras que nos vai prendendo às personagens e ao enredo, mesmo admitindo que continua a apresentar algumas das fraquezas que já apontei ao volume 1.

Regressamos à Coreia de finais da década de 1920, durante a ocupação japonesa, com Gyeongseong ainda a afirmar-se como um espaço de tensão latente entre o Japão e a Coreia, entre o moderno e o clássico, mas agora com um maior enfoque nas personagens de Arisa Jo e Jun Seomoon. É a sua relação que sustenta a obra. E mais do que protagonistas, Arisa e Jun continuam a funcionar como arquétipos do tempo em que vivem. Enquanto a rapariga se reafirma como expressão de modernidade, autonomia e mudança, o rapaz mantém-se - quase exageradamente, diria - enraizado a valores mais rígidos do mundo. 

Neste segundo volume, essa dinâmica entre as personagens ganha alguma maturidade. Se no primeiro livro, a surpresa vinha do confronto inicial entre os dois, aqui há um maior aprofundamento emocional da relação de ambos. E embora Jun seja alguém incrivelmente inseguro, Arisa Jo vai-se aproximando dele, com algumas boas ações que o fazem sentir-se cada vez mais envolvido com a sua amiga de um estrato social superior ao seu. É notória a tensão amorosa que existe entre eles, especialmente nos sentimentos do rapaz em relação à rapariga. 

Os Filhos do Império #2, de Yudori - ASA - LeYa
Ainda assim, o comportamento de Jun continua a roçar o exagero, o que faz com que a obra pareça, não raras vezes, algo juvenil na abordagem. Por outro lado, há outros assuntos mais adultos e sérios, que também podemos aqui encontrar. É talvez por isso que, tal como no volume anterior, a série continue com uma certa crise de identidade. O lado bom é que pode apelar tanto a um público menos maduro como a um público mais adulto. O lado mau é que pode ser demasiado séria ou aborrecida para um público mais jovem e demasiado infantil para um público mais maduro.
 
Quanto a Arisa, a personagem parece-me bem mais interessante que Jun. É que sem abdicar da sua personalidade ousada e independente, Arisa volta a afirmar-se como figura disruptiva num contexto profundamente conservador. Se no primeiro volume já desafiava normas, neste segundo livro começa a demonstrar, com maior clareza, as consequências dessa atitude, especialmente em relação ao seu pai, com quem parece ter uma disputa constante.

Este livro desenvolve também os relacionamentos dos jovens com outros colegas de escola, o que leva Jun a ser muito protetor em relação a Arisa e permite ao enredo respirar um pouco, não ficando apenas dependente da relação entre os protagonistas. Essas personagens secundárias que aqui aparecem são, pois, um bom contributo para que a história fique mais interessante e menos repetitiva.

Apesar disso, a obra mantém um ritmo deliberadamente lento. Tal como no volume inicial, não há uma abundância de acontecimentos marcantes. A progressão faz-se mais pela construção dos laços entre personagens e pelo aprofundamento do contexto, do que pela ação propriamente dita. 

Consequentemente, este segundo volume, embora avance ligeiramente mais na narrativa, continua a funcionar como peça de um puzzle maior. Há pistas, há desenvolvimentos, mas não há ainda um verdadeiro clímax ou um sentido claro para onde a história pode caminhar. O que, convenhamos, até é um ponto a favor. Mas, se continuar nesta situação algo híbrida durante muitos mais volumes, também pode "secar" o potencial interesse da obra. Para uns pode parecer que se passa pouco nesta série, enquanto outros podem gostar deste desenvolvimento lento, quase de novela juvenil, em que acompanhamos o dia-a-dia das personagens.

Os Filhos do Império #2, de Yudori - ASA - LeYa
Do ponto de vista visual, o trabalho da autora parece até ter melhorado face ao primeiro volume, que já era muito interessante. Especialmente no que diz respeito ao tratamento das personagens, que é verdadeiramente excelente. As suas expressões e gestos, bem como o cuidado com o vestuário, continuam a destacar-se pela sua elegância e detalhe. Há uma sensibilidade no traço que confere vida às personagens, tornando-as credíveis e emocionalmente expressivas. Juntando essa expressividade e belas cores que acompanham a obra - tanto que eu gostaria que todos, sim TODOS, os mangás fossem integralmente coloridos, mas isso é tema para outra conversa - poderemos ser remetidos para vários filmes anime do mestre Miyazaki.

Admito que os cenários poderiam ser mais detalhados, pois são algo simplórios. Mesmo assim, a minha principal irritação com a componente visual da obra são os balões de diálogo com transparência que ficam muito estranhos nas páginas. Sei que é uma questão de gosto - e nada tem a ver com a edição portuguesa, que apenas obedece à edição original da obra -, mas faz-me mesmo alguma "comichão". Já assim o tinha sido no primeiro volume e volta a ser agora.

De resto, em termos de edição o livro apresenta capa dura baça, bom papel baço no interior e boa encadernação e impressão. Cada capítulo vem acompanhado de algumas notas adicionais que continuam a enriquecer a experiência, oferecendo contexto histórico e cultural de forma leve, divertida e acessível. É um complemento particularmente bem conseguido pela autora.

Em suma, Os Filhos do Império #2 confirma as qualidades e fragilidades do volume inaugural, mantendo-se como uma leitura consistente dentro do universo que Yudori tem vindo a construir. Continua a ser uma obra interessante, envolvente na sua atmosfera e nas tensões entre personagens que explora, ainda que não isenta de imperfeições - nomeadamente no ritmo e em certos excessos nas reações das personagens que retiram maturidade à obra. 


NOTA FINAL (1/10):
8.2



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Os Filhos do Império #2, de Yudori - ASA - LeYa

Ficha técnica
Os Filhos do Império #2
Autora: Yudori
Editora: ASA
Páginas: 224, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 24,1 x 17 cms
Lançamento: Abril de 2026

terça-feira, 19 de maio de 2026

Análise: Vizinhos


Vizinhos, de Ana Bárbara Pedrosa e Nuno Saraiva

Tendo este Vizinhos sido lançado oficialmente na passada sexta-feira, dia 15 de Maio, não consegui perder muito tempo até mergulhar na leitura do mesmo, num álbum que marca o regresso à banda desenhada de Nuno Saraiva, que desta vez se faz acompanhar por Ana Bárbara Pedrosa, que assina o argumento da obra.

Vizinhos é, na verdade, uma antologia composta por quatro histórias curtas, cada uma com mais de 10 páginas, que, apesar de independentes entre si, procuram passar uma ideia global - daí que o livro funcione especialmente bem como um todo.

Eis-nos perante uma obra profundamente contemporânea que explora o quotidiano urbano e as tensões que nascem da proximidade entre pessoas. É essa ideia de "vizinhança", isto é, de vivermos próximos uns dos outros, que a obra capta, oferecendo-nos uma abrangente panóplia de conflitos, quase todos eles assentes em preconceitos infundados. Aliás, qualquer preconceito é, por definição, infundado. 

Este eixo estrutural do livro permite que Ana Bárbara Pedrosa, que aqui se estreia como autora de banda desenhada, nos insira em variadas situações experenciadas por vizinhos que, quase sempre, se transformam em numerosos conflitos, tendo eco nos preconceitos que habitam o mundo atual em que vivemos. As histórias evidenciam a forma como o julgamento do outro surge com facilidade. É fácil olharmos para o outro e julgá-lo. É mais difícil, porém, que esse julgamento seja assente numa argumentação válida. 

Em Todos os Dias era o Mesmo tomamos contacto com um ex-presidiário, acusado por matar a própria mulher, que agora se incomoda com o barulho que vem da casa dos vizinhos onde é praticada violência doméstica. Em vez de se preocupar com a violência que vem da casa anexa à sua, o protagonista desta história incomoda-se mais com o barulho causado pela violência e chega mesmo a compadecer-se pelo agressor.

Em Coisas Ilegais, um homem protesta contra o barulho causado pelas obras na casa ao lado, mas depressa vamos percebendo que o seu problema não é bem com o barulho em si, mas com o facto dos trabalhadores dessa mesma obra serem imigrantes. 

Em A Velhota Lá de Baixo, uma história algo diferente das demais, com menos sátira e com uma certa dose de poesia, encontramos duas mulheres idosas cujas vidas se desenvolveram de forma muito díspar. Uma tem filhos e netos e gosta de ter a casa cheia com as suas visitas, especialmente em dias festivos. A outra vive sozinha e isolada de todos, não tolerando o barulho que vem da casa da vizinha. Confesso que achei esta história tão cativante que até considero que merecia um maior desenvolvimento. Talvez desse mesmo para explorar a ideia da história num álbum de grande fôlego que lhe fosse apenas dedicado. Se bem que, não obstante, é uma história que, mesmo sendo diferente, encaixa bem no livro em questão.

Finalmente, em Reunião de Condomínio, rapidamente as preocupações mundanas dos condóminos parecem resvalar para uma queixa que, na verdade, é mais advinda de um preconceito etnocêntrico face a vizinhos oriundos de outro país do que, propriamente, de um real problema.

Todas as narrativas convergem, está bom de ver, num retrato coletivo de uma sociedade que vive lado a lado sem verdadeiramente se compreender. Esta estrutura tem o condão de multiplicar os pontos de vista e impedir uma leitura simplista da realidade. Pelo menos, acredito que seja esse o grande objetivo dos autores. É que num mundo - e até num país - cada vez mais polarizado, onde as duas fações de qualquer desacordo parecem colocar-se em pontos opostos na forma de estar, ser e pensar, é importante que surjam obras como este Vizinhos, que nos faz parar um pouco para pensar e perceber que talvez devêssemos dar mais espaço ao outro - especialmente àquele que é completamente diferente de nós - para que ele possa ser ele próprio. Da maneira que o quiser ser. Não tenho dúvidas de que não só essa heterogeneidade torna o mundo melhor, como evita guerras e conflitos mesquinhos que são a prova comprovada que talvez a humanidade não seja tão sofisticada e inteligente como julga ser, faltando-lhe a própria "humanidade" que lhe caracteriza o nome.  

Um dos aspetos mais relevantes da obra é, pois, o modo como trabalha o conceito de "vizinhança". O vizinho não é apenas aquele que vive ao lado: é o outro, o diferente, o desconhecido que se torna próximo por força das circunstâncias. Assim, o título Vizinhos revela-se particularmente feliz, pela sua simplicidade e pela sua potência simbólica. Afinal, todos somos, de alguma forma, vizinhos uns dos outros.

O texto de Ana Bárbara Pedrosa destaca-se pela sua verossimilhança. As personagens parecem extraídas diretamente da realidade, não sendo figuras distantes, mas pessoas comuns que poderíamos reconhecer do nosso prédio ou bairro. Essa proximidade é um dos pontos fortes da obra, pois permite ao leitor identificar-se facilmente com o universo apresentado.

E em vez de tratar os temas com um tom excessivamente dramático, os autores optam por uma abordagem crítica e satírica. Essa escolha evidencia o absurdo de certas atitudes e comportamentos sociais. Até podemos rir de algumas situações por parecerem tão absurdas, mas será sempre - assim espero! - um riso incómodo que nos confronta com nós mesmos.


Já do trabalho de Nuno Saraiva, poderemos dizer que o mesmo complementa de forma exemplar o texto. O seu traço, inconfundível mesmo à distância, ebastante colorido, encaixa perfeitamente neste tipo de narrativas. Com uma estética que já se evidenciou em cartoons e ilustrações anteriores, Saraiva traz uma energia visual que amplifica o impacto das histórias, oscilando entre o humor e a crítica social com grande eficácia. De resto, o seu estilo é tão singular que é daqueles casos em que quem gosta continuará a gostar, e quem não gosta continuará a não gostar. No meu caso, não só gosto do trabalho do autor como acho que há uma portugalidade - e até um certo lisboetismo - na sua obra, que é difícil de encontrar noutro autor.

Se me posso queixar de algo neste livro - embora não seja uma real "queixa", confesso - é que o mesmo poderia ser (ainda) mais marcante se tivesse mais umas três ou quatro histórias, aumentando ainda mais a sua esfera de contacto e reflexão. É um pouco "curtinho" em demasia.

A edição da ASA é em capa dura baça, com bom papel brilhante no interior e um bom trabalho ao nível da impressão e da encadernação. No final, há ainda duas páginas com esboços de Nuno Saraiva. Mas mais do que falar na edição da obra, que é boa, apraz-me falar da boa iniciativa da editora portuguesa que, embora de forma ainda tímida, tem vindo a incrementar a sua aposta em edições nacionais. Algo que aplaudo sempre, claro está.

Em suma, Vizinhos é uma obra sólida, inteligente e profundamente atual. É uma leitura que oferece um olhar crítico sobre a sociedade contemporânea portuguesa (e não só) incomodando, desafiando e, ao mesmo tempo, convidando à reflexão, através de um retrato duro, mas realista, de uma sociedade que continua a excluir ou a rotular tudo o que foge à norma. Ousemos ser melhor do que isso.


NOTA FINAL (1/10):
8.6


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Ficha técnica
Vizinhos
Autores: Ana Bárbara Pedrosa e Nuno Saraiva
Editora: ASA
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 222 x 296 mm
Lançamento: Maio de 2026

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Análise: Ginseng Roots

Ginseng Roots, de Craig Thompson - ASA - LeYa

Ginseng Roots, de Craig Thompson - ASA - LeYa
Ginseng Roots, de Craig Thompson

Tendo já lido muitos, muitos livros de banda desenhada - afinal, são Muitos Anos a Virar Páginas... - há algo que digo muitas vezes: em termos de BD, existem três tipos de livros: aqueles que nos conquistam pela história; aqueles que nos conquistam pela forma/desenho; e aqueles, mais raros, que nos conquistam por inteiro, em todas as vertentes. Ginseng Roots, de Craig Thompson, publicado há dias pela ASA, pertence inequivocamente a esta última categoria. Trata-se de uma obra profundamente pessoal, extremamente ambiciosa e generosa ao mesmo tempo, convidando o leitor a mergulhar não apenas na vida do autor, mas também num universo cultural vasto e inesperado.

Este é um livro em que o autor revisita a sua infância e juventude no interior dos Estados Unidos, especialmente no Wisconsin, onde cresceu numa família rural de origem humilde. A obra mistura memórias pessoais com investigação jornalística, diria, tendo como eixo central o cultivo do ginseng, essa planta medicinal valiosa que marcou profundamente a economia local e a vida da família de Craig Thompson. Craig e os seus dois irmãos, Phil e a sua irmã (cujo nome não é mencionado e que, curiosamente, nem sequer apareceu no longuíssimo livro autobiográfico Blankets), passavam o verão a trabalhar nos campos de cultivo de ginseng, arrancando ervas daninhas, apanhando pedras, enfim... fazendo um trabalho que era difícil, mas que permita a Craig e a Phil amealharem algum dinheiro, que depois passaram a investir na aquisição de revistas de banda desenhada. Naturalmente, ao longo do livro, Thompson explora como o trabalho árduo nos campos moldou a sua visão de mundo e a sua própria identidade.

Ginseng Roots, de Craig Thompson - ASA - LeYa
O autor vai depois alternando entre o passado e o presente, refletindo sobre a sua relação com a família, bem como sobre os valores religiosos e culturais que o influenciaram. A narrativa revela tensões entre a infância de trabalho físico exigente e o desejo de seguir uma vida artística. Ao revisitar essas memórias, Thompson tenta reconciliar o jovem que foi com o adulto que se tornou, explorando sentimentos de culpa, gratidão e distanciamento.

Paralelamente, o livro expande-se para uma análise global do comércio do ginseng, mostrando como essa raiz conecta diferentes países, sobretudo os Estados Unidos e a China. Thompson investiga as cadeias de produção, os impactos económicos e sociais e até as histórias de exploração de trabalhadores. Assim, o relato pessoal ganha uma dimensão mais ampla, associando a experiência individual a questões de globalização, trabalho e intercâmbio cultural.

E é difícil dissociar Ginseng Roots da obra mais conceituada do autor, Blankets. Enquanto Habibi é uma obra completamente diferente de Blankets, Ginseng Roots, com todo o seu cariz autobiográfico, acaba quase por ser um "Blankets - Parte 2", mesmo tendo a questão do ginseng como tema de fundo. E essa parte de ser uma obra autobiográfica chega quase a ser ensaísta, já que Craig Thompson parece refletir sobre Blankets, mostrando a forma como os seus pais e os seus irmãos reagiram a esse livro, o sucesso que o mesmo lhe granjeou e como isso o deixou, consequentemente, num buraco criativo para outras obras, com menor sucesso, que veio a publicar posteriormente. Há aqui um diálogo íntimo com o passado, mas também uma tentativa honesta de compreender o impacto da criação artística no seio familiar. Esta auto-análise é aqui feita sem pudores, de forma corajosa. E isso, meus caros, não é algo que encontremos todos os dias em banda desenhada.

Ginseng Roots, de Craig Thompson - ASA - LeYa
Se tantas temáticas juntas num só livro poderiam torná-lo numa “caldeirada” algo desconexa, Craig Thompson tem o condão de unir muito bem os pontos e, tal como as cerejas, muitas vezes damos connosco a ver um tema a ser trocado por outro de um modo espontâneo, sem que isso perca interesse. Pelo contrário, ganha mais interesse. Esta fluidez narrativa é uma das grandes forças da obra, permitindo uma leitura envolvente e naturalmente ritmada.

Este é um projeto enorme e impressionante nos seus intentos, que exigiu anos de muito trabalho por parte do autor, incluindo uma documentação muito grande, através de muitas entrevistas, estudos e até viagens à China ou à Coreia para melhor aprofundar o tema do ginseng. E esse esforço sente-se em cada página, tornando a leitura não só enriquecedora, como também profundamente informada.

O próprio título do livro é muito bem conseguido, pois tendo o assunto das raízes de ginseng como temática central, o verdadeiro feito do livro é a capacidade transparente do autor em mergulhar nas suas próprias raízes, recuando até à sua infância e às experiências vividas nesse tempo, para conseguir traçar um retrato, com um “porquê” e um “como”, da forma como se tornou no homem que é hoje. 

Tendo essas duas vertentes - autobiográfica e da história do ginseng - como pontos centrais, o livro não se fica por aí, abordando outros assuntos interconexos como a história dos nativos americanos, as técnicas agrícolas, o marketing adjacente aos produtos agroalimentares, a geopolítica económica que daí chega e o próprio impacto cultural de tudo isto. Craig Thompson leva esta missão a cabo de um modo quase frenético, o que até pode ser extremo para alguns leitores, mas que reforça a densidade e a riqueza do conjunto.

Ginseng Roots, de Craig Thompson - ASA - LeYa
Em termos visuais, esta é uma obra absolutamente fantástica! Com um estilo de desenho próximo daquilo que o autor nos deu nas suas obras mais conceituadas, aqui a variação, que funciona muito bem, acontece com o recurso às tonalidades vermelhas em cima do preto e branco. O resultado é simultaneamente elegante e expressivo, criando uma identidade visual muito própria.

O que sempre achei incrivelmente fantástico no desenho do autor é o detalhe que ele coloca em cada vinheta, por mais pequena que a mesma possa ser. Cada cenário, cada ambiente, cada cena, está repleta de pequenos pormenores que, juntos, contribuem para uma arte maior. Talvez seja (também) por isto que Craig Thompson tenha tantos admiradores - grupo no qual me incluo sem qualquer hesitação.

Qualquer que seja a cena retratada, um lamacento campo de cultivo, uma viagem de carro, uma cidade repleta de gente, uma paisagem árida, um templo chinês... o detalhe é impressionante. 

Tal como impressionante também é o uso inteligente e muito original da planificação que o autor faz. Várias vezes, partes do cenário de uma vinheta fundem-se com outras vinhetas, fazendo com que cada página seja única e surpreendente. Parece nunca faltar inspiração à forma elegante, bela e singular como o autor pensa cada uma das páginas dos seus livros. E em Ginseng Roots isso é particularmente notável. É daqueles livros em que podemos (devemos?) perfeitamente utilizar vários minutos a observar cada uma das ilustrações e páginas, absorvendo cada traço e cada composição.

Ginseng Roots, de Craig Thompson - ASA - LeYa
Se este tipo de trabalho fosse feito num livro de 48 páginas já seria algo impressionante. Agora, num livro com mais de 400 páginas, chega a revelar uma dedicação extrema do autor à sua arte. Cabe-nos a nós, leitores, desfrutar e aplaudir tal abnegação. É, sem dúvida, um livro lindo e profundamente marcante.

Se há algo de que me posso queixar - embora não seja uma queixa muito intensa - é que, por vezes, talvez o tema do ginseng seja um pouco explorado de forma intensiva pelo autor. Percebo o cuidado de Craig Thompson em nos dar um retrato tão fiel quanto possível - e isso é sempre bem-vindo - mas, a certa altura, achei que algumas coisas eram um pouco redundantes. Talvez o livro pudesse ser ainda melhor se tivesse algumas dezenas de páginas a menos ou caso uma ou outra entrevista tivesse sido deixada de fora. Ainda assim, nada disto belisca a grandiosidade da obra. Só a afasta, quanto a mim, de ser perfeita - mesmo que ande lá perto. Bem perto.

Em termos de edição, o livro apresenta capa dura baça, com lombada arredondada, bom papel baço no interior, e um bom trabalho a nível de impressão, encadernação e acabamentos. Originalmente, a obra foi editada em 12 fascículos, sendo depois editada como um todo, num só volume. E é essa a opção editorial assumida pela ASA. A correta, claro. No final, o livro apresenta 10 páginas onde estão inseridas muitas notas do autor sobre diversas ilustrações ou factos que nos deu ao longo do livro, o que ainda aumenta o cariz enciclopédico da obra. Há ainda um curioso e raro agradecimento especial à ASA, e à equipa portuguesa, por parte de Craig Thompson. Devo dizer que esta não é uma obra fácil para editar, pois tem inúmeras legendas, inúmeras informações, tipos de letra diferentes, notas de rodapé e até algum texto a fazer parte da própria arte, pois é ilustrado pelo autor. Apesar dessa aparente dificuldade, há que dizer que o trabalho de edição da ASA neste livro está muito bem conseguido. Posso dizer-vos que, em mais de 400 páginas repletas de informação, não encontrei nenhum erro de sintaxe ou ortografia. Coisa que, infelizmente, vejo acontecer em obras mais "fáceis" de editar.

Em suma, tal como as raízes do ginseng crescem lentamente, escondidas sob a terra, alimentando-se do tempo e da paciência, também nós carregamos dentro de nós raízes invisíveis, como memórias, afetos, e experiências, que nos definem de forma silenciosa. Ginseng Roots é, acima de tudo, uma escavação dessas camadas profundas da identidade, um gesto de coragem e de pertença. Mais do que nos oferecer um bom livro - certamente um dos melhores do ano editorial português - Craig Thompson, oferece-nos um espelho onde podemos reconhecer as nossas próprias origens e, quem sabe, encontrar um sentido mais claro para o caminho que ainda temos pela frente. Porque, no fundo, todos procuramos compreender de onde vimos na esperança de melhor perceber para onde vamos.


NOTA FINAL (1/10):
9.9


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Ginseng Roots, de Craig Thompson - ASA - LeYa

Ficha técnica
Ginseng Roots
Autor: Craig Thompson
Editora: ASA
Páginas: 448, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 24,2 x 18 cm
Lançamento: Maio de 2026


Vem aí o segundo volume de "Slava"!



A ASA prepara-se para editar, a partir do próximo dia 2 de Junho, o segundo volume do tríptico Slava, de Pierre-Henry Gomont.

Sobre o primeiro volume, que me deixou boas impressões, já aqui falei, relembro.

Ainda que o livro só nos chegue já nos primeiros dias de Junho, já pode ser encontrado em pré-venda no site da editora.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais da edição original francesa.


Slava #2 - Os Novos Russos, de Pierre-Henry Gomont

Anos 90, no coração da Rússia. 

Desde a sua violenta discussão com Slava, Lavrine não deu sinal de vida. 

Se este último não é encontrado, é porque foi abandonado por Troubetskoï numa aldeia isolada, amputado de dois dedos e sem um tostão. Atolado na sua solidão, Lavrine é uma sombra do que era. Embora consiga, para sobreviver, enganar as almas caridosas que lhe oferecem ajuda, o seu coração já não está nisso. Perdeu o apetite pelo lucro e pela fraude que sempre lhe serviram de razão de viver... 

Será que encontrará, nestes erros e nas águas turvas da dúvida, o fôlego que lhe falta para finalmente se revelar a si mesmo?
Quanto a Slava, ele mantém com mais zelo e assiduidade a sua paixão clandestina por Nina do que a conclusão das transações que iniciou com Troubetskoï para salvar a mina. É que ele precisa redobrar a sua engenhosidade para evitar que Arkady, o noivo da sua impetuosa amante, descubra o romance deles...


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Ficha técnica
Slava #2 - Os Novos Russos
Autor: Pierre-Henry Gomont
Editora: ASA
Páginas: 112, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 29,7 x 24,4 cm
PVP: 20,90€

terça-feira, 28 de abril de 2026

Vai sair BD sobre Steven Spielberg!



A ASA prepara-se para publicar uma banda desenhada sobre a vida do cineasta Steven Spielberg, da autoria de Amazing Améziane!

Depois de, em 2024, a editora portuguesa nos ter trazido o muito bem conseguido Quentin por Tarantino, do mesmo autor, chega a vez da história da vida de um dos realizadores com mais sucesso comercial na história do cinema: Steven Spielberg, cuja obra nos ofereceu clássicos como Indiana Jones, Tubarão, E.T. - O Extraterreste, Jurassik Park, A Lista de Schindler ou As Aventuras de Tintin, entre muitos, muitos outros.

Relembro que, desta mesma coleção, e do mesmo autor, já foram editados em França os livros dedicados aos realizadores Francis Ford Copolla (Don Copolla, 2023), Martin Scorsese (2021) e Sergio Leone (2024). Livros que, naturalmente, espero que também venham a ser editados por cá.

O livro já se encontra em pré-venda no site da editora e deverá chegar às livrarias a partir do próximo dia 26 de Maio.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais de edições estrangeiras.


Steven Spielberg, de Amazing Améziane

192 páginas de banda desenhada que o levarão a descobrir como um jovem ambicioso e apaixonado pelo cinema se tornou um dos maiores realizadores da nossa época. 

Steven Spielberg fascina, diverte e emociona o mundo inteiro.

Com Tubarão, E.T. ou Indiana Jones, ele, sozinho, mudou a face do cinema moderno. Sem nunca se esquecer de nos fazer refletir com filmes sérios e profundos, como A Lista de Schindler ou O Resgate do Soldado Ryan. 

Deixe-o contar-lhe a sua vida.

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Ficha técnica
Steven Spielberg
Autor: Amazing Améziane
Editora: ASA
Páginas: 200, a cores
Encadernação: Capa mole (flexicover)
Formato: 29,3 x 22 cm
PVP: 29,90€

segunda-feira, 27 de abril de 2026

ASA lança BD de Craig Thompson, autor de "Blankets"!



Já havia sido anunciado, mas agora está mesmo confirmado: a partir do próximo dia 12 de Maio, deverá chegar às livrarias, pelas mãos da editora ASA, o livro Ginseng Roots, do autor americano Craig Thompson!

Deste autor, relembro, já por cá foram editados, pela Devir, os fantásticos Blankets e Habibi. Adorei-os aos dois, pelo que estou muito entusiasmado com este lançamento!

É mais uma prova do recente enfoque da editora ASA que tem feito apostas muito bem-vindas e em obras de qualidade.

Que esta nova aposta renda frutos à empresa para que o mercado nacional continue a receber este tipo de obras, é o meu mais sincero desejo.
Por agora, o livro já se encontra em pré-venda no site da editora portuguesa.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas páginas promocionais da edição americana.


Ginseng Roots, de Craig Thompson


Ginseng Roots acompanha Craig e os seus irmãos, que passaram os verões da sua juventude a remover ervas daninhas e a colher fileiras do cobiçado ginseng americano em quintas rurais de Wisconsin por um dólar por hora.

No seu característico trabalho de caneta e tinta de tirar o fôlego, Craig entrelaça essa juventude perdida com a história de 300 anos do comércio global de ginseng e as muitas vidas que ele uniu - desde caçadores de ginseng na China antiga, passando por agricultores industriais e colhedores migrantes no meio-oeste americano, até a sua própria família, que ainda luta com as consequências de um passado amargo. 


Indo de Marathon, Wisconsin, ao nordeste da China, Ginseng Roots traça a ascensão da agricultura industrial, o declínio da mão de obra americana e a busca por um sentimento de lar num mundo em rápida mudança.

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Ficha técnica
Ginseng Roots
Autor: Craig Thompson
Editora: ASA
Páginas: 448, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 24,2 x 18 cm
PVP: 33,90€

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Análise: O Príncipe dos Pássaros de Alto Voo

O Príncipe dos Pássaros de Alto Voo, de Philippe Girard - ASA - LeYa

O Príncipe dos Pássaros de Alto Voo, de Philippe Girard - ASA - LeYa
O Príncipe dos Pássaros de Alto Voo, de Philippe Girard

Editado ainda no presente mês de Abril, chegou-nos pelas mãos da editora ASA este O Príncipe dos Pássaros de Alto Voo, de Philippe Girard. Originalmente, o livro foi lançado em 2024 e chega a Portugal no exato ano em que se assinalamos o 80º aniversário da obra O Principezinho, de Antoine de Saint‑Exupéry, um dos meus livros preferidos (de sempre!).

Este O Príncipe dos Pássaros de Alto não se trata de uma adaptação de O Principezinho para banda desenhada, convém dizer, mas antes de uma obra de cariz biográfico baseada num período concreto da vida de Antoine de Saint‑Exupéry, o autor dessa obra-prima da literatura.

Mais concretamente, este livro acompanha Saint‑Exupéry durante a sua estadia no Quebeque, Canadá, na primavera de 1942, no exato momento em que o escritor e aviador se encontrava exilado na América do Norte. Enquanto a guerra devastava a Europa - e a França especialmente - Saint‑Exupéry percorria o Canadá francófono para dar palestras, reunir‑se com intelectuais e conviver com a elite cultural local, assumindo publicamente o papel de escritor consagrado e figura moral da resistência francesa.

Mas nesta fase da sua vida, já bem longe do combate e dos céus de guerra que marcaram a sua vida, Saint‑Exupéry sente‑se dividido entre o privilégio do exílio e a culpa de não estar a lutar. A narrativa acompanha essa dicotomia que lhe gera mal‑estar interior, mostrando um homem cansado, inquieto e por vezes irascível, que tenta dar sentido à sua presença num território seguro, enquanto milhões vivem sob a violência do conflito. Paralelamente, a relação conturbada com Consuelo, a sua mulher, revela‑se complexa e instável, marcada tanto pelo apoio mútuo como por tensões emocionais profundas.

O Príncipe dos Pássaros de Alto Voo, de Philippe Girard - ASA - LeYa
O autor canadiano Philippe Girard opta por uma abordagem que não é puramente biográfica nem estritamente histórica. Mais do que relatar factos que comprovadamente aconteceram na vida de Saint-Exupéry, como palestras, encontros com a elite franco‑canadiana e outros compromissos públicos, o autor procura insinuar o estado interior de um homem suspenso entre a culpa do exílio e a impossibilidade física de intervir na guerra. 

Essa escolha, porém, tem um custo: o livro apresenta‑se como o retrato de uma fase curta e algo circunscrita da vida de Saint‑Exupéry, o que lhe confere um carácter fragmentário. A sensação é a de que Philippe Girard se baseia sobretudo em entrevistas, textos públicos e episódios documentados, e que os articula numa narrativa que, embora coerente, nem sempre parece totalmente orgânica ou profunda.

Essa fragilidade estrutural revela-se também em alguns saltos temporais que se revelam algo abruptos, causando alguns momentos de descontinuidade e uma ligeira perda de intensidade dramática.

E sou-vos sincero: a minha profunda paixão (ou será mesmo amor?) pela obra O Principezinho até pode ter jogado contra mim nesta leitura, reconheço. É que O Principezinho acaba por ter uma presença relativamente reduzida neste O Príncipe dos Pássaros de Alto Voo. Obviamente, a "culpa" disso não é do autor, nem da obra... é minha, por ter, por ventura, acalentado esse desejo.

É claro que existem referências subtis - embora facilmente detectáveis - e piscadelas de olho e alusões simbólicas a O Principezinho, mas Girard recusa fazer dessa obra o eixo central da sua narrativa. E, atenção, está no seu pleno direito! E essa contenção até tem a sua elegância, mas acabou por gerar em mim alguma frustração, pois ainda que não fosse uma biografia completa de Saint-Exupéry ou uma ode a O Principezinho, considero que esperava um mergulho mais profundo na génese literária dessa obra maior.

O Príncipe dos Pássaros de Alto Voo, de Philippe Girard - ASA - LeYa
Além de que essa ausência se traduz também numa menor carga poética do que seria expectável. A história opta por um tom desencantado, quase árido, centrado numa existência marcada pelo tédio, pela melancolia e pelo sentimento de inutilidade. Mesmo aceitando essa opção estética, fica a sensação de que poderia haver mais espaço para a poesia, para a imaginação e para a leveza que tanto caracterizam Saint‑Exupéry como figura literária.

Há, por vezes, alguns momentos mais poéticos, sim, mas, quanto a mim, insuficientes em número e em carga emotiva. Não obstante o que acabo de referir, reconheço que também é justamente esse afastamento do mito que permite que alguns dos momentos mais fortes do livro emerjam noutro plano: o da intimidade conjugal. A relação entre o protagonista e Consuelo, a sua esposa, é um dos pontos fortes da obra, retratando com intensidade a relação do casal e mostrando como, especialmente no meio artístico, é comum que os relacionamentos amorosos sejam mais na base do contrato social e do apoio mútuo quase profissional entre ambos, do que propriamente no amor propriamente dito. 

Em termos de desenho, Girard adopta uma linha clara eficaz e legível, bastante simples, quase linear, com alguns momentos de beleza evidente. A composição é sóbria - talvez em demasia? -, favorecendo a leitura fluida. No entanto, essa mesma contenção acaba por se tornar, a certa altura, previsível, e a repetição de enquadramentos e soluções visuais começa a fazer‑se sentir.

As cores são garridas e de personalidade vincada, o que contribui de forma positiva para a experiência do leitor e, ao mesmo tempo, ajuda a encobrir a presença de um maior número de cenários vazios do que seria recomendável.

É um daqueles livros um pouco "enganadores" em termos visuais que, à primeira vista, impressionam, mas que, ao longo da leitura integral, perdem algum do seu impacto gráfico pela falta de variação. Reafirmo que há alguns bons momentos na vertente visual, mas isso não foi suficiente para que tenha ficado especialmente apaixonado pelo desenho do autor.

Apesar das várias reservas com que o livro me deixou, reconheço-lhe alguns bons feitos, nomeadamente quanto ao desfecho do mesmo, que se revela surpreendentemente eficaz. O final consegue reunir e amplificar os motivos que vinham sendo discretamente preparados ao longo da narrativa, oferecendo uma espécie de síntese emocional e simbólica que recontextualiza tudo o que foi lido antes. Essa apoteose final não apaga todas as fragilidades do percurso, mas eleva significativamente o conjunto.

Em termos de edição, o livro apresenta capa dura baça e um bom papel baço no interior. A encadernação e a impressão também se apresentam bem feitas.

Em suma, este é um livro que ficou um pouco aquém das minhas expectativas - que eram altas, admito. O Príncipe dos Pássaros de Alto Voo é uma obra imperfeita, por vezes aquém do seu potencial, mas honesta na sua ambição: pensar Saint‑Exupéry não como lenda, mas como homem. Alguém cansado, contraditório, e ainda assim criador, mesmo quando tudo à sua volta parecia pedir silêncio. 


NOTA FINAL (1/10):
6.9



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O Príncipe dos Pássaros de Alto Voo, de Philippe Girard - ASA - LeYa

Ficha técnica
O Príncipe dos Pássaros de Alto Voo
Autor: Philippe Girard
Editora: ASA
Páginas: 160, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 32 x 23,8 cms

terça-feira, 21 de abril de 2026

Análise: Os Cabelos de Édith

Os Cabelos de Édith, de Fabienne Blanchut, Catherine Locandro e Dawid - ASA - LeYa

Os Cabelos de Édith, de Fabienne Blanchut, Catherine Locandro e Dawid - ASA - LeYa
Os Cabelos de Édith, de Fabienne Blanchut, Catherine Locandro e Dawid

Engrossando a quantidade de obras de cariz mais maduro que a ASA tem vindo a editar recentemente, está este Os Cabelos de Édith - com argumento de Fabienne Blanchut e Catherine Locandro, e ilustrações de Dawid - que a editora portuguesa lançou há algumas semanas.

Esta é uma obra sensível e poética que nos remete para a memória do Holocausto, reiterando a podridão de valores e o infame ataque aos mais basilares direitos humanos que se viveu na Europa entre os anos 30 e os anos 40.

A história acontece em Paris, em maio de 1945, já depois da Segunda Guerra Mundial ter terminado. O célebre Hotel Lutetia, um marco da cidade, é transformado em centro de repatriamento para sobreviventes do holocausto nazi.

O protagonista é Louis, um estudante de 17 anos, que, contra a vontade do seu pai, acaba por se juntar aos voluntários encarregues de acolher os homens e mulheres que sobreviveram aos campos de concentração. E é nessa altura que conhece Édith, que havia estado em Birkenau.

Embora Louis se aproxime da rapariga, esta parece um concha selada perante qualquer tipo de interação social. Como se estivesse alienada de tudo o que acontece à sua volta. Mesmo assim, vai tolerando a presença de Louis, ainda que aquilo que mais lhe ofereça seja uma boa dose de silêncio.

Há ainda um complemento relevante para a trama que é o facto de Louis vir a saber que o seu pai tinha sido motorista durante a guerra e, através disso, tenha transportado muitos judeus para os campos de detenção em Drancy. Ora, tudo isto faz com que se abra um fosso de distância entre si e o seu pai.

Os Cabelos de Édith, de Fabienne Blanchut, Catherine Locandro e Dawid - ASA - LeYa
Ler Os Cabelos de Edith é aceitar caminhar devagar, quase em silêncio, por uma história que parece sussurrada ao ouvido. As duas argumentistas Fabienne Blanchut e Catherine Locandro têm uma abordagem bastante serena e séria, que tenta sempre não ser demasiadamente dramática. Como se os silêncios que nos são impostos pelo relato e uma gestão narrativa mais lenta do que o normal, tivessem o objetivo implícito de nos fazer parar para pensar. Há, portanto, um trabalho de contenção na escrita, beneficiando silêncios confrangedores, que tornam a leitura bastante madura e, ao mesmo tempo, arrebatadora.

A narrativa gira em torno da ausência, daquilo que ficou por dizer e do que nunca mais pôde ser vivido plenamente. Edith e os cabelos que o holocausto lhe retirou são meros símbolos de perda e de violência histórica. Algo que, mesmo quando uma barbárie termina, continua a persistir naqueles que por ela são afetados. A história avança depois como uma recordação fragmentada, feita de imagens soltas que se insinuam mais do que se explicam.

O tema do Holocausto é abordado com enorme pudor e respeito por parte das autoras, não havendo propriamente uma tentativa de mostrar todo o mal que aconteceu a Édith, mas antes sugeri-lo. Afinal de contas, para os sobreviventes basta uma silhueta que surge de repente, um choro distante que se escuta repentinamente, uma paisagem observada ao acaso ou a simples recordação de um longo cabelo que já não existe, para que o pesadelo se reinstale. A memória traumática nunca se vai embora, apenas aprende a esconder-se. Essa permanência do horror gera desconfiança, medo difuso e uma sensação de perda irreparável. O livro capta bem esse estado de suspensão emocional, onde o passado invade o presente sem pedir licença, tornando cada gesto simples num campo minado de recordações.

Gostei desta abordagem das autoras em não procurar dramatizar o tema em excesso, nem transformar a dor em espetáculo e, pelo contrário, deixar espaços em branco e silêncios narrativos que dizem tanto quanto as palavras impressas, respeitando a inteligência emocional do leitor.

Os Cabelos de Édith, de Fabienne Blanchut, Catherine Locandro e Dawid - ASA - LeYa
Os desenhos de Dawid - do qual a ASA já havia editado o curioso, mas não tão bom, Senhor Apothéoz - elevam ainda mais os bons apontamentos deixados pela história e narrativa da obra. O traço do autor volta a mostrar-se delicado, quase etéreo, e embora os rostos das personagens não sejam excessivamente detalhados, há neles uma expressividade subtil que se ajusta perfeitamente à serenidade narrativa da obra. O que falta em detalhe, sobra em sensação. Além de que, a tal serenidade da narrativa em texto encontra paralelo na narrativa visual, o que é perfeito para a cadência de ambas.

As ilustrações de Dawid sugerem emoções e acontecimentos através de imagens fortes, mas delicadas, que reforçam o impacto simbólico da história sem chocar o leitor. Ainda assim, gostei particularmente da maneira como o autor desenha as memórias do passado de Édith, com os nazis a serem representados com um traço mais grosso e agressivo que os judeus.

O desenho de vários pontos da cidade de Paris também é particularmente marcante. Reconhecemos ruas, fachadas e atmosferas, mas também uma Paris suspensa no tempo, atravessada por uma melancolia discreta. O Hotel Lutetia, em particular, um lugar carregado de memória histórica, surge com uma sobriedade tocante, como se as suas paredes ainda guardassem vozes.

Algumas dessas imagens da cidade fazem lembrar os postais ilustrados que ainda hoje são vendidos nas margens do rio Sena. Há nestes desenhos da cidade uma certa beleza calma, quase turística, que contrasta com o peso da história que se carrega. Talvez Dawid se tenha inspirado nesses postais ou talvez tenha sido apenas coincidência, mas o que é certo é que o efeito das mesmas é poderoso precisamente por essa ambiguidade.

As cores são em tons pastéis e contribuem para a beleza sóbria do todo, criando uma tensão visual constante entre beleza e horror. É como se a delicadeza do traço tentasse, sem nunca conseguir totalmente, atenuar a brutalidade do que é contado.

A edição da ASA apresenta-se em capa dura baça, com um bom papel braço no miolo. Ao nível da encadernação e da impressão, o livro também está bem produzido.

Em suma, Os Cabelos de Édith é uma muito bela e tocante obra, que procura ser um testemunho decoroso das atrocidades do Holocausto, levando-nos a refletir também na dificuldade das escolhas morais em tempos de terror e procurando trazer-nos igualmente uma sensação de esperança para a humanidade. Com efeito, mesmo que já tenhamos ouvido muitas histórias sobre o Holocausto, é vital que elas regressem, sob novas vozes e novos olhares, pois cada repetição é um gesto de resistência contra o esquecimento. E porque lembrar, ainda que doa, é talvez a única forma de impedir que o horror volte a acontecer. Especialmente nos dias que vivemos no tempo presente...


NOTA FINAL (1/10):
9.2



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Os Cabelos de Édith, de Fabienne Blanchut, Catherine Locandro e Dawid - ASA - LeYa

Ficha técnica
Os Cabelos de Edith
Autores: Fabienne Blanchut, Catherine Locandro e Dawid
Editora: ASA
Páginas: 168, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 275 x 206 mm
Lançamento: Março de 2026