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quarta-feira, 20 de maio de 2026

Análise: Batman - Cavaleiro Branco

Batman - Cavaleiro Branco, de Sean Murphy - Devir

Batman - Cavaleiro Branco, de Sean Murphy - Devir
Batman - Cavaleiro Branco, de Sean Murphy

Quando li pela primeira vez este Batman - Cavaleiro Branco, de Sean Murphy, em 2019, por alturas em que a Levoir publicou o livro pela primeira vez em Portugal, fiquei verdadeiramente impressionado com o que tinha em mãos: quer a história, quer a ilustração me deixaram rendido. Aliás, num dos primeiros artigos do Vinheta 2020, quando dei conta das minhas leituras de 2019, fiz menção a este livro. 

Portanto, quando soube que a Devir - numa nova aposta editorial intitulada DC Pocket  que nos traz alguns clássicos da DC Comics em pequeno formato - iria editar este Batman - Cavaleiro Branco, fiquei feliz. Certamente esperaria - e espero - que os outros livros desta mesma série de Sean Murphy, nomeadamente The Curse of White Knight e Beyond The White Knight, fossem/sejam por cá editados. No entanto, fiquei satisfeito por este Batman - Cavaleiro Branco receber novo destaque e poder chegar a um novo público.

Isto porque considero que há o grupo de livros de banda desenhada que deixam a sua marca e depois há o grupo de livros, mais raros, que, para além de deixarem a sua marca, chegam mesmo a mudar algo. Ou a fazer-nos reconsiderar tudo aquilo que achávamos saber sobre personagens que julgávamos conhecer de cor e salteado. Batman - Cavaleiro Branco insere-se nesta última categoria, pois é uma obra que não se limita a contar uma história, mas que questiona, desmonta e reconstrói o mito do Cavaleiro das Trevas com uma ousadia rara e uma inspiração profundamente fascinante.

A premissa é, desde logo, irresistível, diga-se! Após mais um confronto explosivo com Batman, Joker é capturado e, numa reviravolta surpreendente, acaba sujeito a um tratamento médico, baseado nuns comprimidos especiais, que aparentemente o curam da sua insanidade. Surge então Jack Napier, uma pessoa lúcida, serena e muito carismática. Um homem novo, portanto. Jack Napier é alguém que não só renega o seu passado, como decide virar-se contra o próprio Batman, expondo as falhas do Cavaleiro das Trevas.

Batman - Cavaleiro Branco, de Sean Murphy - Devir
Basicamente, o vilão transforma-se no herói e o herói transforma-se no vilão. E o que se segue é um jogo político e mediático de proporções épicas. Jack Napier torna-se numa figura pública que consegue conquistar a confiança dos cidadãos e das instituições de Gotham. Com inteligência, bom planeamento e com um discurso afiado e populista, Jack Napier/Joker consegue colocar Batman no banco dos réus da opinião pública, obrigando-nos a questionar: quem é, afinal, o verdadeiro herói desta história? E quem é o vilão?

Sean Murphy constrói esta narrativa com uma mestria notável. Há aqui uma clara segurança do autor na forma como a história se desenrola, contagiando o leitor desde as primeiras páginas. Tudo parece possível dentro deste universo e, pelo menos para mim, mais importante ainda: tudo parece credível. Mesmo quando estamos perante uma inversão tão radical como a redenção do Joker, nunca sentimos que o autor nos está a dar algo forçado e pouco credível. Pelo contrário, sentimos que estamos a descobrir uma verdade incómoda que sempre esteve ali, latente. E isso é absolutamente incrível e quase nos faz perguntar: "porque é que nenhum autor se lembrou disto antes de Sean Murphy?"

Mais do que uma história de super-heróis, este é um livro profundamente político. Há aqui uma intensa reflexão sobre ser-se vigilante e os problemas que isso pode acarretar para a sociedade. É um tema que já vimos debatido em vários livros de super-heróis, de Watchmen ao português Macho-Alfa, mas neste Batman - Cavaleiro Branco, essa reflexão é-nos dada com um cariz político muito adulto e pertinente, juntando à equação os subtemas da violência policial, das desigualdades sociais em Gotham e da manipulação da opinião pública através de discursos populistas. Afinal de contas, será que quando Batman persegue um vilão pelos telhados, destruindo bens públicos e privados, e pondo em risco de vida os cidadãos, não está ele próprio a ser uma ameaça e um malfeitor?

Batman - Cavaleiro Branco, de Sean Murphy - Devir
Batman passa então a deixar de ser um símbolo incontestável de justiça para ser uma figura ambígua, um vigilante que atua fora da lei. Há algo de profundamente perturbador nesta visão e, ao mesmo tempo, algo de incrivelmente honesto. E no centro de tudo isto está o Joker - ou melhor, Jack Napier. Sempre considerei o Joker o vilão mais fascinante da galeria de Batman - e de todos os comics já agora - e aqui ele atinge um novo patamar. A sua versão de homem curado é simultaneamente sedutora e inquietante. Napier é um estratega nato, um manipulador brilhante, capaz de moldar a opinião pública com um discurso populista que ressoa perigosamente com o nosso mundo real. Ele não convence pela força, mas pela narrativa. E isso torna-o, de certo modo, ainda mais perigoso. Onde é que já vimos isto no tempo atual, caros leitores?

A forma como Napier mobiliza Gotham contra Batman é um dos pontos altos do livro. Há uma tensão constante, uma sensação de que estamos a assistir a uma inversão de papéis em tempo real. E mesmo sabendo quem é o Joker, há momentos em que quase queremos acreditar nele. Quase.

Outro elemento que também merece destaque é a presença de duas Harley Quinn. Uma que afirma que o seu grande amor sempre foi pelo homem por detrás de Joker, Jack Napier, e outra que não tem problemas em admitir que o seu verdadeiro amor é pelo palhaço do crime. Essa versão mais retorcida de Joker. Esta escolha permite explorar uma dimensão mais emocional da relação das duas mulheres com o vilão. 

Os diálogos são também um dos grandes trunfos de Cavaleiro Branco. São afiados, inteligentes e carregados de subtexto. Há frases que ficam connosco, que ecoam muito depois de fecharmos o livro. Vê-se que há um respeito enorme pela obra de Batman, como um todo, unindo certas pontas narrativas e explorando oportunidades latentes.

É verdade que, já lá mais para o final do livro, há certos acontecimentos na trama que poderão ser um pouco mais forçados e exagerados, perdendo-se algum do realismo inicial da história. Se bem que, convenhamos, isso também é algo bastante típico em histórias de super-heróis em que há uma tentativa de resolver todas as side plots, o que pode soar a algo mais forçado. Apesar disso, e mesmo no final do livro, Sean Murphy consegue "resolver" bem a história.

Batman - Cavaleiro Branco, de Sean Murphy - Devir
Em termos de desenho, o trabalho apresentado por Sean Murphy é um verdadeiro deleite para os olhos! Um autêntico festim. Confesso-vos que, sendo já eu um grande fã do estilo de desenho do autor, me senti totalmente encantado com estas personagens, com este ambiente soturno de Gotham, com as cenas de ação, com as belas mulheres e com os sempre relevantes veículos de Batman que, especialmente nesta história, assumem particular relevância. É um livro que não se cansa de nos deixar de boca aberta perante tão belas ilustrações.

E depois ainda há a cor, em que o trabalho de Matt Hollingsworth é absolutamente exemplar. As tonalidades, os contrastes, a forma como a luz e a sombra são utilizadas para reforçar o tom da narrativa... tudo isso contribui para criar uma atmosfera imersiva e coerente. Tudo extremamente bem feito.

Quanto à edição, o livro apresenta capa mole baça, com badanas, e bom papel baço no miolo. A impressão e a encadernação são boas. 

O que tem causado algum repúdio junto de alguns leitores portugueses é o formato de apenas 14,8 x 21 cm. É um formato bastante pequeno, sim, igual ao formato maior dos típicos mangás da mesma editora como Monster, Sunny e outros. Naturalmente, é um formato mais pequeno do que aquilo a que estamos habituados. E tendo na minha coleção a edição da Levoir e da Devir, admito que prefiro a edição da Levoir em capa dura e num formato maior. 

No entanto, é importante perceber que a proposta da Devir é outra: com um preço de apenas 10€ - algo que já soa absurdo nos dias de hoje para um livro a cores com mais de 200 páginas e lançado de forma independente, sem ser em parceria com um jornal - esta coleção procura chegar a um outro público: àquele público, eventualmente mais jovem, que preza preço e portabilidade e que, por ventura, até não está muito familiarizado com alguns dos clássicos da DC Comics. É para esses que esta obra se destina. O que, claro está, não invalida que todos os outros possam e devam comprar esta obra, caso não a tenham ainda. Como tal, e ao contrário de muita gente, parece-me uma coleção bem urdida e que até pode vir a ter bastante êxito comercial. A ver vamos. 

No final de contas, Batman: Cavaleiro Branco vai muito além de ser apenas mais uma história do Batman. É um dos meus Batman preferidos de sempre e, mesmo quando há uns anos o li pela primeira vez, senti logo que estava perante um clássico que pode ombrear com algumas das histórias do Cavaleiro das Trevas mais aclamadas de sempre. É uma obra que desafia convenções, que nos obriga a pensar e que nos faz apaixonar novamente por algumas personagens que julgávamos estar esgotadas. Verdadeiramente imprescindível.


NOTA FINAL (1/10):
9.8


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020

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Batman - Cavaleiro Branco, de Sean Murphy - Devir

Ficha técnica
Batman - Cavaleiro Branco
Autor: Sean Murphy
Editora: Devir
Páginas: 232 páginas, a cores
Encadernação: Capa mole
Formato: 14,8 x 21 cm
Lançamento: Maio de 2026


segunda-feira, 18 de maio de 2026

"Something is Killing the Children" avança para o terceiro volume!



A editora Devir prepara-se para publicar, ainda durante o mês de maio, o terceiro volume da série Something is Killing the Children, da autoria de James Tynion IV e Werther Dell’Edera.

Por agora, o livro já se encontra em pré-venda no site da editora. A publicação desta série de terror, que começou em novembro de 2025, está a avançar a um bom ritmo, coisa que deve ser assinalada.

Recordo que o primeiro volume já aqui foi analisado.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.


Something is Killing the Children #03, de James Tynion IV e Werther Dell’Edera

As coisas em Archer’s Peak estão cada vez pior. Erica Slaughter procura o assassino, mas as crianças continuam a morrer. Irritados e com medo, os habitantes voltam as suas suspeitas para a estranha que está entre eles, a mulher que chegou quando os assassinatos começaram.

Conseguirá Erica salvar a cidade, ou será que as mesmas pessoas que ela está a tentar proteger se voltam contra ela?

Reúne os capítulos #11 a #15 da coleção.


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Ficha técnica
Something is Killing the Children #03
Autores: James Tynion IV e Werther Dell’Edera
Editora: Devir
Páginas: 142, a cores
Encadernação: Capa mole
Formato: 18 x 27,5 cm
PVP: 18,00€

quinta-feira, 30 de abril de 2026

Bomba! Devir lança coleção "DC Pocket"!



A Devir acaba de anunciar que já no próximo mês de Maio nos vai trazer a sua nova coleçºao de banda desenhada que se intitula DC Pocket e traz-nos alguns clássicos da DC em formato reduzido! E também, já agora, em preço reduzido, visto que cada um destes livros custará apenas 10,00€. 

A abrir esta coleção estão os títulos Joker, de Brian Azzarello e Lee Bermejo, e Batman - Cavaleiro Branco, de Sean Murphy, ambos já por cá publicados pela Levoir.

Acredito que esta coleção faz sentido, pois tem um caráter quase pedagógico de apresentar aos novos leitores alguns clássicos da DC e em preço reduzido. É claro que já estou a imaginar algum "choro" por serem obras já anteriormente publicadas em Portugal. No entanto, há que ter visão periférica e perceber a quem se destina a esta série, diria.

E, claro, se for possível a publicação futura de algum livro ainda não editado cá, melhor.

Mais abaixo, deixo-vos com a nota de imprensa da editora.


DC POCKET

A Devir lança em Portugal, em maio de 2026, os primeiros títulos da coleção de enorme sucesso internacional DC Pocket, uma linha editorial que reúne algumas das histórias mais emblemáticas da DC Comics num formato compacto, integralmente a cores, portátil e acessível, pensada para responder a novos hábitos de leitura.

JOKER de Brian Azzarello e Lee Bermejo, é um romance gráfico intenso e sombrio que apresenta o Joker numa abordagem crua e realista. Com uma narrativa direta e uma arte marcante, é um clássico contemporâneo da DC, pensado para leitores que procuram histórias mais adultas e psicológicas.
132 páginas • 10,00€


BATMAN: CAVALEIRO BRANCO de Sean Murphy é uma reinterpretação moderna e aclamada do universo Batman. Numa história completa e independente, os papéis invertem-se quando o Joker recupera a sanidade e questiona publicamente os métodos do herói, levantando um debate atual sobre justiça, responsabilidade e poder em Gotham.
232 páginas • 10,00€

quarta-feira, 11 de março de 2026

Análise: O Guia do Mau Pai

O Guia do Mau Pai, de Guy Delisle - Devir


O Guia do Mau Pai, de Guy Delisle - Devir
O Guia do Mau Pai, de Guy Delisle

Saiu há poucos dias uma das mais recentes novidades da Devir que se intitula O Diário do Meu Pai. Originalmente editado em quatro volumes, entre os anos 2013 e 2018, depois de as suas pranchas até terem começado por ser divulgadas no blog do autor, este trabalho de Guy Delisle - do qual a editora portuguesa já por cá editou as obras Crónicas de Jerusalém, Shenzhen, Crónicas da Birmânia ou Pyongyang - assume-se com uma banda desenhada extremamente divertida, que me fez rir como há muito uma BD não me fazia.

Bem sabemos que, por vezes, lemos determinada obra na altura certa da nossa vida. Pode ter sido isso que aconteceu comigo. Também eu sou pai de duas crianças e também eu experencio, se não todas, muitas das situações que, carregadas de humor, Delisle nos oferece neste álbum.

De cariz autobiográfico, o autor vai narrando, em histórias curtas, as situações e peripécias que vive com os seus dois filhos, Alice e Louis, berm como as múltiplas maneiras como tenta manter-se com a cabeça acima de água enquanto é pai. Muitas vezes, Delisle parece um mau pai... ou um pai que não sabe argumentar bem aos seus filhos, ou que lhes mente ou que é mais distraído do que aquilo que deveria ser... mas a verdade é que qualquer pai - ou mãe - se pode identificar com aquilo que aqui é contado. Digo até mais: há aqui coisas que me aconteceram de um modo quase igual.

O Guia do Mau Pai, de Guy Delisle - Devir
O humor é das coisas mais subjetivas que existe. Aquilo que me faz rir a mim, pode não fazer rir outra pessoa qualquer. E vice-versa. Portanto, tenho sempre alguma reserva em dizer que algo é cómico ou que "faz rir", pois poderá não fazer rir mais ninguém se não a mim mesmo. Mas, lá está, focando-me apenas na minha experiência, pessoal, enquanto leitor, e que aqui vou partilhando convosco, tenho a dizer-vos que este O Guia do Mau Pai não só me fez rir, como muitas vezes me fez gargalhar. Ao ponto da minha mulher e filhas me perguntarem: "mas o que é que estás a ler, que só te está a fazer rir à gargalhada?". Com efeito, a verdade é que nem todas as breves histórias que aqui nos são dadas me arrancaram uma gargalhada, claro está, mas houve algumas que achei verdadeiramente hilariantes.

Aprecio também a forma como Guy Delisle se expõe nesta obra, não tendo qualquer receio de ver a "qualidade" da sua paternidade a poder ser questionada pelos seus leitores. A vida tem-me ensinado que, ainda antes de olharmos para os defeitos e imperfeições dos outros, temos que olhar para bem dentro de nós. Talvez isso até nos ajude na percepção que temos de nós mesmos e, por conseguinte, dos demais. E é isso que o livro nos dá e que é verdadeiramente valioso, sejamos nós pais, mães, avós ou mesmo filhos. 

O Guia do Mau Pai, de Guy Delisle - Devir
Deixem-me também dizer-vos que o motivo do meu entusiasmo com esta obra é que, na verdade, até nem me considero um grande fã deste tipo de humor, baseado em gags do dia a dia, pois muitas vezes me parece algo forçado e seco. Se neste O Guia do Mau Pai há, de facto, uma ou duas mini-histórias mais secas - tenho que o admitir - tenho que dizer-vos também que a grande maioria das restantes ou me fez rir à gargalhada ou, pelo menos, sorrir com verdadeira vontade.

Nota ainda para a última história do livro que o encerra na perfeição com um pouco de ternura e poesia que eu não estava à espera. Maravilhoso e quase nos deixa com a lágrima no olho.

Bem sei que Guy Delisle é bem mais celebrado pelas suas crónicas em países com realidades distantes - como Crónicas de JerusalémShenzhenCrónicas da Birmânia ou Pyongyang - para os quais tem acompanhado a sua esposa, que pertence aos médicos sem fronteiras, mas sou-vos sincero quando digo que talvez este O Guia do Mau Pai me tenha marcado (bem) mais do que qualquer um desses livros, não obstante a sua qualidade e relevância.

O Guia do Mau Pai, de Guy Delisle - Devir
Estando nós perto do Dia do Pai, parece-me uma aposta irrecusável para oferecerem aos vossos pais. E não tenham receio do título do livro por poder parecer negativo para o pai que o receber. Na verdade, assim que o lemos, percebemos logo o tom humorístico e caricatural do mesmo. Na verdade, ou bem que todos somos "maus pais" ou a maioria de nós até é "bom pai".

Os desenhos de Guy Delisle nesta obra assemelham-se, em termos de traço e aspeto, àqueles a que o autor já nos habituou nas outras obras já editadas por cá, com a diferença que, neste caso, os desenhos são ainda mais simples, sendo a preto e branco, e não havendo espaço, sequer, para grandes detalhes. É frequente que não haja cenários a rodear as personagens, além dos elementos estritamente necessários para cada uma das mini-histórias. Seria mais bonito, sem dúvida, se o desenho fosse mais aprimorado, reconheço, mas também me parece que, tendo em conta o estilo de obra humorística baseada em gags que temos nas mãos, a arte de Delisle funciona bem, acabando por ser eficiente na forma como serve as histórias aqui apresentadas.

A edição da Devir é em capa dura baça, com bom papel baço no interior e uma boa impressão e encadernação. A opção por editar a obra de forma integral e não através de quatro volumes soltos, foi uma boa escolha da editora portuguesa.

Em suma, adoraria encontrar uma BD em 2026 que me fizesse gargalhar mais do que este O Guia do Mau Pai, de Guy Delisle. Seria muito bom sinal. Mas não será tarefa fácil isso vir a acontecer, pois este livro deixou-me várias vezes a rir que nem um maluquinho com todas as suas curtas histórias que, de tão honestas que são, nos fazem olhar para nós mesmos e rir dos nossos defeitos e facilitismos à medida que assumimos as nossas funções parentais. Gostei mesmo muito.


NOTA FINAL (1/10):
8.8



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020

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O Guia do Mau Pai, de Guy Delisle - Devir

Ficha técnica
O Guia do Mau Pai
Autor: Guy Delisle
Editora: Devir
Páginas: 204, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Março de 2026

quinta-feira, 5 de março de 2026

Análise: Soichi - As Maldições Inconvenientes | As Angústias Amorosas dos Mortos

Soichi - As Maldições Inconvenientes | As Angústias Amorosas dos Mortos, de Junji Ito - Devir

Soichi - As Maldições Inconvenientes | As Angústias Amorosas dos Mortos, de Junji Ito - Devir
Soichi - As Maldições Inconvenientes | As Angústias Amorosas dos Mortos, de Junji Ito

Hoje trago-vos uma dose dupla de Junji Ito, o mestre do terror em mangá. Para tal, centro-me nas duas obras mais recentes do autor japonês que a Devir nos fez chegar, nomeadamente Soichi - As Maldições Inconvenientes e As Angústias Amorosas dos Mortos.

Relembro que este é um autor com uma assinalável quantidade de obras já editadas em Portugal. Não só pela Devir, como pela Editorial Presença e pela Sendai Editora.

À boa maneira de Junji Ito, quer Soichi - As Maldições Inconvenientes, quer As Angústias Amorosas dos Mortos, são duas obras que, partindo de uma premissa macabra e "assustadora", nos oferecem vários episódios sobre esse mesmo tema. Há um fio condutor entre esses episódios mas, ao mesmo tempo, há uma certa independência entre os demais.

Soichi - As Maldições Inconvenientes | As Angústias Amorosas dos Mortos, de Junji Ito - Devir
O que traz a vantagem ao leitor de ir lendo cada um dos episódios no seu próprio ritmo, podendo intercalar a sua leitura com outros livros, mas que também traz o problema maior que encontro nas obras de Junji Ito: um certo sobreaproveitamento das suas premissas. Ou seja, começo sempre por gostar das ideias e das premissas de cada livro... mas depois, o meu interesse vai diminuindo por achar: "ok, já percebi a ideia". Invariavelmente, isto acontece-me com TODOS os livros do autor. Mesmo que aprecie muito as suas ideias macabras e os seus desenhos.

Falando-vos um pouco de cada um dos livros em concreto, em Soichi - As Maldições Inconvenientes, a história centra-se num rapaz excêntrico e antissocial que acredita possuir poderes sobrenaturais para lançar maldições. Caracterizado pela sua aparência pálida e pelo hábito bizarro de mastigar pregos de ferro (alegadamente para combater a anemia!), Soichi é uma criança narcisista que se sente incompreendida pela sua família e colegas. O livro reúne diversos contos que acompanham as suas tentativas sádicas de atormentar todos ao seu redor, utilizando bonecos de palha e rituais de vodu para causar infortúnios a quem o desagrada. O ponto mais positivo que encontrei nesta obra é a introdução de um humor negro, por vezes muito divertido, que contrasta um pouco com o tom mais sério que o autor utiliza noutras das suas obras. É que muitas vezes os planos maléficos de Soichi acabam por ter resultados inesperados ou cómicos, voltando-se contra ele próprio. 

Soichi - As Maldições Inconvenientes | As Angústias Amorosas dos Mortos, de Junji Ito - Devir
Já As Angústias Amorosas dos Mortos, é uma obra que explora a intersecção entre o amor obsessivo e o sobrenatural. A trama principal decorre na cidade de Nazumi, um lugar perpetuamente envolto em nevoeiro, onde os jovens praticam a "leitura da sorte no cruzamento" que é um ritual em que os habitantes locais tapam o rosto e pedem ao primeiro estranho que passa por si para prever o seu futuro amoroso. O enredo segue Ryusuke, um estudante que regressa à cidade anos após um evento traumático na sua infância. Ao dar uma previsão cruel a uma mulher desesperada num cruzamento, o pequeno Ryusuke levou-a, indiretamente, a cometer suicídio. E, ao voltar à cidade, o protagonista depara-se com uma onda de suicídios entre raparigas, todas influenciadas por um misterioso e "belo rapaz de preto" que vagueia pelo nevoeiro distribuindo leituras da sorte que levam ao desespero e à morte.

O que mais gostei neste livro foi do clima de suspense e mistério que contrasta com o terror mais direto de outras obras do autor. Gostei mesmo muito de toda aquela incerteza do nevoeiro a rodear tudo e todos, de quem seria o "belo rapaz de preto" e como isso estaria, ou não, relacionado com o episódio anterior na vida de Ryusuke. 

Soichi - As Maldições Inconvenientes | As Angústias Amorosas dos Mortos, de Junji Ito - Devir
Posso até dizer-vos que talvez este As Angústias Amorosas dos Mortos tenha sido o livro que mais me impactou de todos os que já li de Junji Ito. Até aprecio o terror macabro e gutural direto que o autor nos dá, mas senti-me mais impelido pela história quando esta se revelou menos direta e mais na base do suspense e do mistério.

Mesmo assim, pecou apenas, tal como Soichi - As Maldições Inconvenientes, na sensação de repetição, estilo "mais do mesmo", que se começa a sentir sensivelmente a meio da obra.

Em termos de desenho, o autor volta a oferecer-nos um belo trabalho nos dois livros. A sua mestria visual reside especialmente na sua capacidade única de fundir o belo com o grotesco, utilizando um traço meticuloso e detalhado que eleva o horror a uma forma de arte hipnótica e singular. É através deste contraste entre a os traços limpos das suas personagens humanas e a densidade caótica do sobrenatural, que Junji Ito consegue evocar uma sensação de desconforto visceral e que é única na abordagem.

Em termos de edição, ambos os livros apresentam capa mole com badanas e papel baço aceitável no miolo da obra. A encadernação e impressão estão boas, também.

Em suma, tanto Soichi - As Maldições Inconvenientes como As Angústias Amorosas dos Mortos, nos trazem mais dois bons livros de Junji Ito, especialmente direcionados aos fãs do autor. Se o primeiro livro prima por ter algum humor negro que se junta ao terror visual, o segundo apresenta um clima de tensão, mistério e suspense que me agradou especialmente. Muito embora, tenho que o admitir, ambos os livros pequem na exata mesma questão de, sensivelmente a meio das obras, esgotarem as suas próprias premissas.


NOTA FINAL (1/10):
Soichi - As Maldições Inconvenientes: 8.3
As Angústias Amorosas dos Mortos: 8.8

Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Soichi - As Maldições Inconvenientes | As Angústias Amorosas dos Mortos, de Junji Ito - Devir

Fichas técnicas
Soichi - As Maldições Inconvenientes
Autor: Junji Ito
Editora: Devir
Páginas: 414, a preto e branco
Encadernação: Capa mole
Formato: 14,8 x 21 cm
Lançamento: Maio de 2025

Soichi - As Maldições Inconvenientes | As Angústias Amorosas dos Mortos, de Junji Ito - Devir

As Angústias Amorosas dos Mortos
Autor: Junji Ito
Editora: Devir
Páginas: 406, a preto e branco
Encadernação: Capa mole
Formato: 14,8 x 21 cm
Lançamento: Outubro de 2025


Vem aí novo volume de "Something is Killing the Children"!


É já a partir do próximo dia 16 de Março que nos chega o segundo volume da série Something is Killing the Children, de James Tynion IV e Werther Dell’Edera!

Relembro, àqueles que não leram, que já aqui falei do primeiro volume da série.

O livro já se encontra, por agora, em pré-venda no site da editora Devir.

Por agora, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.


Something is Killing the Children #2, de James Tynion IV e Werther Dell’Edera

Erica Slaughter matou o monstro que aterrorizava a pequena cidade de Archer’s Peak, em Wisconsin, mas o horror está longe de ter acabado.

Quando o seu misterioso superior chega à cidade para limpar a confusão e colocar os habitantes de quarentena, Erica entra ainda mais na floresta — porque o monstro que ela matou era uma mãe… e agora os seus filhos também têm que morrer.

Reúne os capítulos #6 a #10 da coleção.
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Ficha técnica
Something is Killing the Children #2
Autores: James Tynion IV e Werther Dell’Edera
Editora: Devir
Páginas: 136, a cores
Encadernação: Capa mole
PVP: 18,00

segunda-feira, 2 de março de 2026

Devir termina coleção Angoulême!




A Devir acaba de publicar o último volume da sua Coleção Angoulême, coleção essa que nos trouxe um belo conjunto de obras premiadas no Festival de Angoulême, o maior evento europeu dedicado à banda desenhada.

Embora algumas das obras contidas nesta coleção, como Silêncio ou A Trilogia Nikopol, por exemplo, já tivessem tido edição portuguesa em tempos, outras obras houve que tiveram o seu primeiro lançamento em Portugal através desta coleção.

Fica agora no ar a dúvida se a Devir vai dar seguimento ao lançamento deste tipo de obras de banda desenhada que são diferentes, na abordagem e no público a que se destinam, daquelas que podemos encontrar nos mangás ou comics americanos que a editora tem editado.



A obra que fecha esta coleção é Kiki de Montparnasse, de Catel & Bocquet, uma biografia sobre a célebre artista francesa.

O livro já pode ser encontrado em livraria.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.


Kiki de Montparnasse, de Catel & Bocquet

Kiki de Montparnasse foi uma artista de cabaret e pintora, famosa por frequentar os círculos boémios de Montparnasse no início do séc. XX, onde conheceu artistas como Chaim Soutine, Jean Cocteau, Amedeo Modigliani, Man Ray e Alexander Calder, entre muitos outros.

Uma das primeiras mulheres emancipadas em relação aos constrangimentos culturais e sexuais impostos pela sociedade da altura, tornou-se a musa de muitos artistas e companheira de Man Ray, que a imortalizou numa das suas obras mais icónicas.

Neste livro, José-Louis Bocquet e Catel Muller relatam, de forma inteligente e sensível, a história de uma artista carismática, que contribuiu de forma inegável para uma das épocas mais estimulantes e criativas do século.

Prémio Essencial Angoulême 2008



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Ficha técnica
Kiki de Montparnasse
Autores: Catel & Bocquet
Editora: Devir
Páginas: 406, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 17x24 cm
PVP: 22,00€



sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Devir lança nova BD de Guy Delisle!




É o presente perfeito para o Dia do Pai que se aproxima e, naturalmente, a editora Devir - e bem! - não se deixou dormir, jogando com o seu próprio calendário editorial.

A obra em questão chama-se O Guia do Mau Pai e reúne um conjunto de pranchas humorísticas, sobre ser-se pai, do célebre autor de obras como Crónicas de JerusalémShenzhen, Crónicas da Birmânia ou Pyongyang.

Já se encontra disponível em livraria desde o passado dia 24 de Fevereiro.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.

O Guia do Mau Pai, de Guy Delisle


Inicialmente editadas no blog do autor, as pranchas agora reunidas nesta versão integral ilustram, de forma irónica, com o humor característico de Guy Delisle, situações do seu quotidiano enquanto pai de duas crianças pequenas.


Um relato terno satirizando os mal-entendidos, as incertezas e as aprendizagens próprias de todas as decisões dos pais.


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Ficha técnica
O Guia do Mau Pai
Autor: Guy Delisle
Editora: Devir
Páginas: 204, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
PVP: 25,00€

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Análise: O Gosto do Cloro

O Gosto do Cloro, de Bastien Vivès - Devir

O Gosto do Cloro, de Bastien Vivès - Devir
O Gosto do Cloro, de Bastien Vivès

A Coleção Angoulême da editora Devir aproxima-se do final, ficando apenas a faltar a publicação do livro Kiki de Montparnasse, de Catel & Bocquet. Antes desse derradeiro lançamento, a editora já nos fez chegar, durante este primeiro mês do ano, o livro O Gosto do Cloro, de Bastien Vivès, que, assumindo desde já que pode não agradar a todo o tipo de leitores, confesso ter adorado.

Afinal de contas, estamos perante um livro que se lê quase em apneia, de tão intenso e vazio que é ao mesmo tempo. Bastien Vivès, autor de outras obras já por cá publicadas por outras editoras, como Uma Irmã, Polina ou a mais recente e contemporânea abordagem à série clássica de Corto Maltese, constrói neste O Gosto do Cloro, uma narrativa curta e silenciosa, onde o essencial não está tanto no que acontece, mas naquilo que se sente. E nisso, o autor é um verdadeiro mago. A piscina onde decorre a quase totalidade desta história surge-nos, pois, como mais do que um cenário: é um estado de espírito. Um espaço fechado, azul, repetitivo, onde os corpos se movem e os pensamentos se libertam lentamente, como se cada braçada fosse também um ensaio de aproximação emocional.

Mas já me estou a adiantar. Recuemos um pouco.

O Gosto do Cloro, de Bastien Vivès - Devir
A história é bem simples. Acompanhamos o percurso de um rapaz, que pelo bem das suas costas, precisa nadar. Pelo menos, uma vez por semana. É essa a sua prescrição médica. É então que, na piscina onde decide fazer natação, o seu olhar assenta numa bela rapariga, antiga campeã de natação. Não sabemos muito mais sobre cada uma das personagens e é bem possível que não fiquemos a saber muito mais depois de finalizada a leitura. No entanto, várias emoções e um sentimento de reflexão estão à nossa espera enquanto mergulhamos, literalmente, nesta leitura.

Também não sabemos os nomes das personagens, e isso não é um acaso, pois tratam-se, claro, de figuras quase universais, arquétipos de um encontro que poderia ser de qualquer um de nós, num tempo indefinido, suspenso.

A relação dos dois começa de forma bastante lenta - e, portanto, credível - à medida em que as duas personagens, principalmente o rapaz, vão vencendo os seus medos e a sua timidez para estabelecer contacto um com o outro.

Vivès aposta numa relação que surge através de pequenos gestos, olhares trocados e correções técnicas de natação, que funcionam como pretextos para o toque e para a proximidade entre as personagens. Há uma intimidade que cresce de forma orgânica, sem grandes declarações ou viragens dramáticas. Tudo acontece num registo silencioso, quase sussurrado, como se o próprio livro tivesse medo de quebrar o silêncio húmido da piscina.

O Gosto do Cloro, de Bastien Vivès - Devir
Este é, claramente, um livro que não agradará a todos. Passa-se pouca coisa, no sentido clássico da narrativa. Isso é verdade. E estamos perante um encontro entre duas personagens Apenas isso. A possibilidade do que pode vir, ou não, a ser. O virar da página de um encontro fortuito. Mas é precisamente aí que reside a maturidade da proposta: Vivès imprime significado nos silêncios, na observação pura, naquilo que fica por dizer. O vazio aparente é, afinal, um espaço cheio de tensão e expectativa.

É verdade que o ritmo da narrativa também acaba por ser lento, mas tudo isso é bastante deliberado. Cada página parece flutuar, como os corpos na água. Essa lentidão, que poderia ser um defeito noutro contexto, funciona aqui como uma virtude, porque nos obriga a desacelerar, a ler com atenção, a habitar o tempo da narrativa em vez de o atravessar apressadamente. Este é mesmo um daqueles livros que serve como escape. Se o lermos à pressa - e essa possibilidade até fará com que o livro seja lido em 15 ou 20 minutos - estaremos a não dar à obra aquilo que ela nos pede: tempo. Os livros discretos, sensíveis e profundamente contemplativos normalmente carecem de tempo para serem bem degustados.

O Gosto do Cloro, de Bastien Vivès - Devir
Há também uma dimensão profundamente nostálgica nesta história que me agradou especialmente. O Gosto do Cloro remeteu-me para os tempos da adolescência, da juventude, em que o primeiro contacto - mesmo que breve - com alguém do sexo oposto parecia a abertura de um livro em branco. Quando em jovens, não sabíamos o que podia sair dali, desse primeiro contacto com alguém que desconhecíamos, e talvez por isso, a carga emocional fosse tão intensa. Vivès capta muito bem esse momento frágil de passagem da infância para o mundo adulto.

O final deixa tudo em aberto, o que acaba por fazer ressoar ainda mais a obra no leitor. Posso dizer-vos que tentar perceber como acaba esta história dá pano para mangas e promete conversas longas entre quem tiver lido a obra. Mas mais não digo. Terão mesmo que ler este belo livro e tirar as vossas conclusões.

Do ponto de vista gráfico, os desenhos são simples, minimalistas e bastante despidos. Há um certo charme nessa economia de meios, um requinte visual que contribui para o erotismo latente do conto. Os corpos, desenhados sem excessos, parecem mais vulneráveis, mais reais, e o grafismo ajuda a construir essa atmosfera de intimidade contida. As próprias posições dos corpos na água são muito bem delineadas por parte do autor. Fica a ideia que ou o autor passou muitos anos da sua vida em piscinas de natação, ou fez um estudo demorado e profundo para este álbum, já que a linguagem corporal das personagens está muito bela e verossímil.

O Gosto do Cloro, de Bastien Vivès - Devir
Há momentos belíssimos, quase hipnóticos, que parecem levar-nos para o ambiente de uma piscina. Diria que, enquanto lemos este livro, quase conseguimos sentir o cheiro do cloro. Aliás, o livro poderia perfeitamente chamar-se "O Cheiro do Cloro" em vez de O Gosto do Cloro. Vivès coloca-nos dentro da piscina com uma eficácia rara: o eco das vozes, o reflexo da luz na água, a repetição dos azulejos... Enfim, tudo contribui para uma experiência sensorial que vai além da leitura convencional.

E mesmo na forma como utiliza as cores, com um sentido de estética gráfica muito própria, o autor nos oferece um belo trabalho. Nota ainda para a utilização de planos de câmara e perspetivas mais arriscadas e audazes, mas que acabam sempre por ser muito bem executados. Apreciei também a forma como as linhas desaparecem, dando lugar a borrões de cor, quando somos presenteados com uma vista a partir do interior da piscina. 

A edição da Devir é em capa dura baça, com bom papel baço no miolo. A encadernação e a impressão também são boas. Ainda que o formato da obra não seja muito grande, diria que isso não belisca em nada a nossa imersão na leitura.

Em suma, O Gosto do Cloro é, acima de tudo, um livro de sensações. Não oferece respostas, não fecha a narrativa de forma confortável e não explica excessivamente as personagens. Prefere deixar-nos em suspenso, a pairar na calma das águas azuis, tal como os próprios protagonistas. Esta é uma obra que mantém uma poesia silenciosa que continua a ecoar, muito depois de sairmos da piscina e de nos secarmos. É um livro denso, delicado e imperfeito. Um livro que se lê rápido, mas que permanece na memória. Como um encontro breve que nunca mais é esquecido. 


NOTA FINAL (1/10):
9.2



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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O Gosto do Cloro, de Bastien Vivès - Devir

Ficha técnica
O Gosto do Cloro 
Autor: Bastien Vivès 
Editora: Devir
Páginas: 144, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 17 x 24 cm
Lançamento: Janeiro de 2026


sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

As novidades da Devir para 2026!



Hoje falo-vos das novidades que a Devir tem preparadas para 2026, com especial enfoque neste primeiro trimestre do ano.

E esperem, por parte desta editora, nada mais, nada menos, do que 30(!) novos livros de banda desenhada apenas para os primeiros três meses do ano!

Entre as obras referidas, a editora destaca a aposta numa nova série de mangá que era, há muito, muito solicitada pelo público português, a conclusão de várias séries em andamento e algumas (poucas?) novas apostas na banda desenhada de origem europeia.

Ora vejam.



quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Análise: Something is Killing The Children #1

Something is Killing The Children #1, de James Tynion IV, Werther Dell'Edera e Miquel Muerto - Devir

Something is Killing The Children #1, de James Tynion IV, Werther Dell'Edera e Miquel Muerto - Devir
Something is Killing The Children #1, de James Tynion IV, Werther Dell'Edera e Miquel Muerto

Foi ainda durante 2025, no final do ano, que a editora Devir se lançou numa das séries de banda desenhada de horror mais aclamadas dos últimos tempos: Something is Killing the Children, que conta com argumento de James Tynion IV, desenhos de Werther Dell'Edera e cores Miquel Muerto.

Relembro que, do argumentista James Tynion IV, já a editora nos tinha feito chegar, também no ano passado, A Bela Casa do Lago, dessa feita com ilustrações de Álvaro Martínez Bueno.

Neste primeiro volume de Something is Killing the Children, a história toma lugar numa pequena localidade americana marcada por um trauma coletivo: várias crianças desapareceram ou foram encontradas brutalmente assassinadas, e apenas uma delas, James, sobreviveu para contar a história que, expectavelmente, parece impossível àqueles que a ouvem. Isto porque, segundo James, os responsáveis por tais desaparecimentos são monstros que habitam a floresta próxima da localidade. Estes monstros são criaturas invisíveis aos olhos dos adultos, mas terrivelmente reais para as crianças. A comunidade, mergulhada no luto e na incredulidade, oscila entre o ceticismo perante as confissões do rapaz e o pânico de algo maior, e mais nefasto, que possa estar, efetivamente, a acontecer.

Something is Killing The Children #1, de James Tynion IV, Werther Dell'Edera e Miquel Muerto - Devir
É neste cenário que surge Erica Slaughter, uma figura enigmática, de comportamento frio e métodos pouco ortodoxos. Armada com uma espada e um profundo conhecimento do inimigo, com quem aparenta já ter lutado no passado, Erica acredita no testemunho de James. Mas, sendo adulta, acaba por contrariar a suposta incapacidade dos adultos para verem estas criaturas. Erica sabe que não só os monstros existem, como parecem alimentar-se do medo infantil para se fortalecerem.

Senti, logo desde o início, uma familiaridade entre Something Is Killing the Children e o imaginário da série televisiva de enorme sucesso, Stranger Things: a pequena cidade, a infância ferida e, especialmente, o sobrenatural escondido além da perceção adulta. Estes pontos em comum não se tratam propriamente de um problema, mas mais de um ponto de partida reconhecível, que até facilita a entrada do leitor neste universo de medo e perda, caso, claro está, seja apreciador de Stranger Things e outras franquias semelhantes.

Esta premissa de apenas as crianças - e alguns adultos - conseguirem ver os monstros parece-me muito interessante e com enorme potencial para desbravarmos esse mundo especial - embora potencialmente perigoso - do mundo imaginário das crianças.

Something is Killing The Children #1, de James Tynion IV, Werther Dell'Edera e Miquel Muerto - Devir
Poder-se-ia alimentar esta história com a ideia de que o horror é tanto físico quanto simbólico, utilizando os monstros como metáfora para traumas, medos e violências que os adultos se recusam a reconhecer, mas não se foi tão longe. Pelo menos por agora. Havia aqui pano para mangas, sim, todavia o desenvolvimento do enredo acaba por ser mais básico e linear daquilo que poderia ser. O que, sinceramente, me parece uma oportunidade perdida.

Entretanto, à medida que investiga os ataques na companhia de James, Erica confronta não só as criaturas da floresta, mas também a hostilidade da própria comunidade, que desconfia das suas intenções. Os combates entre Erica e os monstros sucedem-se em violentas cenas de ação.

O rápido ritmo narrativo é um dos aspetos mais evidentes do livro. As 136 páginas que compõem este primeiro volume leem-se com enorme rapidez, quase num só fôlego. Essa cadência veloz é eficaz na criação de tensão imediata e torna a leitura altamente cativante, mas cobra um preço: a ambiência de mistério, essencial a este tipo de narrativa sobrenatural, dissipa-se demasiado depressa.

À medida que os monstros surgem com clareza, o desconhecido perde força. E aquilo que inicialmente se insinua como terror difuso e psicológico da obra, transforma-se rapidamente numa ameaça concreta, visível e explicável. O suposto "medo" que emana da história deixa de se alimentar do mistério do invisível e passa a ser literal, o que empobrece ligeiramente a experiência sensorial e emocional do leitor. Pelo menos, aconteceu comigo.

Something is Killing The Children #1, de James Tynion IV, Werther Dell'Edera e Miquel Muerto - Devir
E surge aqui um "problema" - se é que lhe posso dar esse nome - e que me surpreende que ninguém o tenha referido aos autores: é que se dizemos o que é que está a matar as crianças logo no primeiro volume, destruímos rapidamente a sensação de mistério que o belo nome da série nos fez primeiramente sentir. A partir deste ponto, o título deixa de fazer pleno sentido e, a partir do segundo volume, talvez devêssemos chamar à obra "We Already Know What is Killing The Children" em vez de Something is Killing The Children. Piadolas à parte, é claro que, depois de finalizada a leitura deste primeiro volume da série, ainda é pouco o que sabemos sobre os monstros e a sua origem. Porém, parece-me óbvio que a história teria beneficiado mais se fosse revelada com uma dosagem menor de revelações logo no primeiro volume da série.

É que essa clareza precoce afeta o impacto da obra. O mistério, uma vez resolvido, deixa pouco espaço para especulação ou inquietação duradoura. O horror passa a funcionar mais como mecanismo de ação do que como campo de reflexão, aproximando a história de algo mais processual onde já sabemos o que é que as personagens têm de combater, restando apenas o como.

Ainda assim, Erica Slaughter é uma personagem extremamente carismática, que me agradou bastante. A sua postura fria, o visual marcante e a relação ambígua com as crianças conferem-lhe uma presença forte, capaz de sustentar a narrativa mesmo quando o argumento vacila. É nela que reside grande parte do interesse emocional e simbólico do livro.

Something is Killing The Children #1, de James Tynion IV, Werther Dell'Edera e Miquel Muerto - Devir
No plano visual, Werther Dell’Edera apresenta um trabalho sólido e eficaz. O seu traço, menos polido e mais indie, afasta-se do registo comercial clássico dos comics americanos e encaixa bem na atmosfera sombria da história. Há uma crueza gráfica que reforça o desconforto, sobretudo nas expressões faciais, em especial nos olhares assustados das personagens, e nos corpos fragmentados pelo medo.

O trabalho do autor distingue-se ainda pela forma como ilustra o horror. Os monstros, quando surgem, são tão feitos de sombra quanto de matéria, e os rostos das personagens - especialmente das crianças - carregam uma expressividade crua que comunica medo, trauma e incredulidade sem necessidade de grandes artifícios. É um desenho que não procura seduzir pelo espetáculo, mas antes inquietar pela atmosfera, servindo muito bem a narrativa.

Em termos de edição, a Devir optou por editar este livro em capa mole, com badanas, e um papel algo fino, mas bom, no miolo do livro. De resto, a impressão e a encadernação são de boa qualidade. Nota ainda para a inclusão de uma galeria de capas alternativas, todas elas muito bonitas e impactantes.

Em suma, Something Is Killing the Children é um primeiro volume competente, envolvente e visualmente apelativo, mas longe de ser revolucionário. Funciona bem enquanto entretenimento rápido, mas perde profundidade à medida que o mistério se vai dissolvendo cedo demais. É um bom começo para quem aprecia banda desenhada de horror, ainda que não inesquecível.


NOTA FINAL (1/10):
7.6



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Something is Killing The Children #1, de James Tynion IV, Werther Dell'Edera e Miquel Muerto - Devir

Ficha técnica
Something is Killing the Children #1
Autores: James Tynion IV, Werther Dell'Edera e Miquel Muerto
Editora: Devir
Páginas: 136, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 18 x 27,5 cm
Lançamento: Novembro de 2025