Mostrar mensagens com a etiqueta Matthieu Pereira. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Matthieu Pereira. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 15 de março de 2024

Análise: II Raide de Macau - Lisboa

II Raide de Macau – Lisboa – Da China a Portugal pela Rota Proibida, de Vários Autores - Associação Tentáculo

II Raide de Macau – Lisboa – Da China a Portugal pela Rota Proibida, de Vários Autores - Associação Tentáculo
II Raide de Macau - Lisboa, de Vários Autores

Eis um projeto que não se vê assim tantas vezes e que, só por isso, merece que o notemos e celebremos: II Raide de Macau - Lisboa - Da China a Portugal pela Rota Proibida resulta de um esforço conjunto que une um conjunto alargado de argumentistas e ilustradores portugueses, bem como várias entidades que patrocinaram a feitura da obra, e que serve, acima de tudo, como um registo e um testemunho em banda desenhada da ligação terrestre de Macau a Lisboa, feita em veículos todo o terreno, no ano de 1990, quando a República Popular da China e a União Soviética (antiga URSS) se abriram ao mundo.

Por essa altura, uma pequena comitiva portuguesa prontificou-se a ligar Macau a Portugal por terra, atravessando zonas do globo até então interditas a viaturas estrangeiras. A iniciativa obteve eco nos media e, anos mais tarde, em 2016, este trajeto terrestre até ganhou o nome de “Nova Rota da Seda”. A última vez que tal acontecera, fora em 1907, data do célebre Raid Pékin-Paris, quando a Rússia Czarista havia autorizado que uma expedição automobilística percorresse o seu território. Até hoje, mesmo com o desmembramento da URSS em diversos países, nenhuma outra expedição repetiu o trajeto da sagaz comitiva portuguesa.

II Raide de Macau – Lisboa – Da China a Portugal pela Rota Proibida, de Vários Autores - Associação Tentáculo
O livro está dividido em cinco histórias curtas em BD que procuram contar como foi feita esta ambiciosa viagem, passando, quer pela sua preparação, quer pelo relato dos eventos vividos neste longo percurso terrestre. Para além das histórias curtas em BD, o livro também contempla vários textos de apoio que permitem que o leitor se inteire com mais precisão sobre esta aventura intercontinental em quatro rodas.

Cada um dos cinco contos vai contando partes do percurso efetuado pela comitiva que participou na viagem. Na prática, e embora o livro tenha 84 páginas, por pouco havia mais páginas de não-BD (40) do que de BD. O que me leva a dizer que, em vez de "um livro de BD com algum texto", este trabalho pode dar a ideia de que é "um livro de viagem (em texto) com alguma BD". E não é que isso tenha algo de errado, atenção! Mas julgo que pode tornar o livro menos apelativo para os que esperavam um livro de BD “mais puro”.

II Raide de Macau – Lisboa – Da China a Portugal pela Rota Proibida, de Vários Autores - Associação Tentáculo
Em termos de autores, são vários aqueles que participam na criação da obra. Todos os argumentos são da autoria de Joaquim Correia que, conforme referido nos créditos do livro, contou com o apoio de António Calado, Fernando Silva, Mário Sin, James Jacinto e Igor Lomakin, protagonistas da própria viagem. A transposição do argumento para o guião de BD ficou a cargo, nas cinco histórias, de Marco Fraga da Silva.

Quanto às ilustrações, cada curta história conta com um autor diferente. Na primeira, A Longa Preparação, os desenhos e as cores ficaram a cargo de Sofia Pereira. A segunda, A Viagem, conta com desenhos de Fil, enquanto que a terceira, Finalmente na China, tem desenhos de Matthieu Pereira. A quarta história, Recarregando Baterias nas Margens do Lago Sayram, é ilustrada por Rui Alex que, infelizmente, apresenta algumas dificuldades na representação anatómica das personagens. Finalmente, a última história, Atribulações na URSS, é ilustrada por Rafael Antunes. As ilustrações de Fil e de Matthieu Pereira são as que considerei mais apelativas. De um modo geral, os desenhos das cinco histórias não são grandiosamente espetaculares em termos visuais, mas acho que cumprem bem a sua tarefa.

II Raide de Macau – Lisboa – Da China a Portugal pela Rota Proibida, de Vários Autores - Associação Tentáculo
Conforme mencionado mais acima, Joaquim Pereira parece ter sido o elemento que reuniu as informações necessárias a contar em cada uma das histórias para, posteriormente, Marco Fraga da Silva as ter transformado em guião de banda desenhada. As informações dos relatos são, pois, contidas e claras, fazendo com que o livro se leia bastante bem, malgrado a duplicação de legendas em duas línguas - mas já lá irei.

A edição é em capa mole baça, com badanas, e apresenta bom papel brilhante no miolo. A impressão e encadernação também são boas.

Nota para o facto de este ser um livro bilíngue, em português e chinês, unindo também, dessa forma, o povo português ao povo macaense/chinês. Se o propósito dessa opção é válido, nobre e legítimo, importa dizer que, especialmente em relação às pranchas de banda desenhada, é uma opção que acaba por condicionar a fluidez da leitura, tal não é excesso de balões em cada uma das vinhetas. Por outras palavras, o livro acaba por ter o dobro das legendas que deveria ter. Repito: o objetivo é nobre, mas não funciona bem em termos de leitura. Nem para quem ler o livro em português, nem para quem ler o livro em chinês.

Em suma, II Raide de Macau – Lisboa vale pelo relato em banda desenhada que nos dá a conhecer – ou a relembrar – o feito significativo e simbólico que foi a ligação terrestre de Macau a Lisboa feita por portugueses, mesmo sendo um livro que, em termos de BD, tem alguns problemas que o afastam de ser um livro obrigatório, apesar de ser uma leitura interessante sobre um tema que importa conhecer.


NOTA FINAL (1/10):
5.8



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



-/-

II Raide de Macau – Lisboa – Da China a Portugal pela Rota Proibida, de Vários Autores - Associação Tentáculo
Ficha técnica
II Raide de Macau – Lisboa – Da China a Portugal pela Rota Proibida
Autores: Joaquim Correia (com o apoio de António Calado, Fernando Silva, Mário Sin, James Jacinto e Igor Lomakin), Marco Fraga da Silva, Fil, Matthieu Pereira, Rafael Antunes, Rui Alex e Sofia Pereira
Editora: Associação Tentáculo
Páginas: 84, a cores
Encadernação: Capa mole
Formato: 23 x 24 cm
Lançamento: Novembro de 2022

terça-feira, 29 de novembro de 2022

Análise: Crónicas do Tempo e do Espaço – Uluru

Crónicas do Tempo e do Espaço – Uluru, de Marco Fraga da Silva, Matthieu Pereira e Sofia Pereira

Crónicas do Tempo e do Espaço – Uluru, de Marco Fraga da Silva, Matthieu Pereira e Sofia Pereira
Crónicas do Tempo e do Espaço – Uluru, de Marco Fraga da Silva, Matthieu Pereira e Sofia Pereira

Crónicas do Tempo e do Espaço – Uluru é uma banda desenhada, de origem nacional, que chegou a álbum físico – numa audaz edição, diga-se – através de uma campanha de crowdfunding bem sucedida. O autor responsável deste grande livro, com 176 páginas, é Marco Fraga da Silva. Faz-se acompanhar pelos autores Matthieu Pereira, nos desenhos, e por Sofia Pereira, nas cores.

Este livro resultou da tese de doutoramento de Marco Fraga da Silva, que acabou por proporcionar que a obra Uluru chegasse primeiramente aos canais digitais, surgindo como webcomic em quatro línguas: (inglês, francês, mandarim e português). Mas, claro, é com a edição em papel que esta obra chegará, estou certo, a um mais alargado conjunto de leitores. Incluindo a minha pessoa.

Crónicas do Tempo e do Espaço – Uluru, de Marco Fraga da Silva, Matthieu Pereira e Sofia Pereira
A história deste primeiro livro de uma trilogia, coloca-nos num universo futurista de ficção científica, que nos convida a conhecer a jornada do jovem Uluru, que deve o seu nome ao monólito da Austrália com o mesmo nome.A jornada do protagonista vai desenrolando-se, pois, pela floresta do território australiano, enquanto, ao mesmo tempo, nos apresenta o passado da personagem. Nomeadamente, a sua convivência com as suas duas irmãs. O que há de especial nesta história de aventura, carregada de elementos de ficção científica, é que as três crianças têm dois pais artificiais: o robot Talus e uma entidade cibernética.

É um tema que acho muito interessante – esta em que a convivência do homem com a máquina molda a vida do primeiro de forma tão marcante – e que, de certo modo, também marcou presença numa das minhas recentes leituras, que foi Senciente, de Jeff Lemire e Gabriel H. Walta. Embora, claro está, cada autor aborde o tema da sua própria forma.

Eventualmente, Uluru acaba a receber um braço e uma perna cibernéticas que lhe conferem habilidades adicionais que o ajudarão na sua caminhada que surge, pois, como uma viagem iniciática para o protagonista que, viajando pelos confins florestais da Austrália, num mundo que parece carecer de vida humana, à exceção do próprio Uluru, tentará alcançar autoconhecimento. 

Pelo caminho, vai encontrando alguns animais, que assumem dimensões muito grandes, o que aumenta o perigo de confrontos físicos que, ainda por cima, se tornam inevitáveis. Nesta versão futurista do planeta Terra, são os animais e as máquinas(?) que parecem estar a tomar o controlo do planeta e Uluru terá que defrontar inúmeros animais maiores do que ele para poder manter-se vivo.

Crónicas do Tempo e do Espaço – Uluru, de Marco Fraga da Silva, Matthieu Pereira e Sofia Pereira
Em paralelo à viagem, o autor permite-nos vários vislumbres, através de flashbacks, à infância de Uluru, juntamente com as suas duas irmãs. Algo que, quanto a mim, funciona muito bem e permite duas coisas: por um lado, permite-nos aprofundar a personagem principal, bem como o seu background e motivações que agora sustenta; por outro lado, estes flashbacks também funcionam enquanto forma de tornar a leitura mais aprazível e mais diversificada, contribuindo para uma narrativa bem esgrimida pelo autor.

Nota ainda para a presença de um canguru, Pernas, que acompanha Uluru na sua jornada e que serve mais como ferramenta narrativa, para que Uluru possa falar para ele. Mesmo sem receber resposta por parte do canguru, isso permite ao leitor saber o que vai na cabeça do protagonista. Temos, portanto, mais um bom recurso narrativo por parte de Marco Fraga da Silva.

Crónicas do Tempo e do Espaço – Uluru, de Marco Fraga da Silva, Matthieu Pereira e Sofia Pereira
Relativamente à história, posso dizer que a achei bem arquitetada pelo autor e que apenas não fiquei muito convencido quando a mesma, lá mais para o meio, assume um cariz mais de fantasia isotérica. Mas, como a história não acaba aqui, devo dizer que teremos que esperar para ver, para saber como o autor irá solucionar a história. Por agora, estou bastante bem impressionado.

Relativamente aos desenhos, o trabalho do ilustrador de origem francesa, Matthieu Pereira, dá-nos muitos e belos desenhos. Sendo dono de um traço moderno e bastante eficiente, o autor mostra-se bastante inspirado, especialmente no início da história, e vai-nos criando um belo ambiente gráfico para que a história imaginada por Marco Fraga da Silva possa florescer convenientemente.

Por vezes, os desenhos apresentam algumas insuficiências ao nível da ação, dando-nos sensações de movimento algo estáticas, mas tenho que destacar algumas ilustrações de maior dimensão, onde o trabalho do autor se nos apresenta como bastante impressionante.

Infelizmente, Matthieu Pereira não é constante na sua qualidade e, à medida que o livro se aproxima do fim, começam a aparecer alguns desenhos que carecem de detalhe e de aprimoramento, quando comparados com as primeiras páginas do livro. Talvez a justificação para isto seja uma certa falta de tempo que, possivelmente, o autor teve e que o levou a apressar as suas ilustrações. Não é nada que estrague a leitura ou que revele incapacidades do autor. Pelo contrário, revela que o mesmo seria capaz de fazer melhor.

Crónicas do Tempo e do Espaço – Uluru, de Marco Fraga da Silva, Matthieu Pereira e Sofia Pereira
Quanto à edição, e tendo em conta que estamos perante uma edição de autor, acho que o livro está muito bem conseguido. Com capa mole, com badanas, o livro apresenta um belo papel brilhante com uma generosa espessura. Tão generosa que talvez nem fosse preciso, digo eu, um papel tão bom. É que um papel pesado numa lombada em capa mole, até a deixa mais facilmente vulnerável, o que acaba por acontecer nesta edição. Mesmo assim, é positivo verificar que, mesmo em edições de autor, é possível fazer um trabalho de edição bastante bem conseguido. O livro inclui ainda, no seu final, uma galeria com 12 ilustrações elaboradas por vários autores. Um acrescento que dignifica, ainda mais, esta edição.

Em suma, Crónicas do Tempo e do Espaço – Uluru traz-nos uma bela e relevante trama, onde Marco Fraga da Silva convence enquanto argumentista e onde Matthieu Pereira revela ter potencial para a ilustração em banda desenhada. Não é um livro isento de alguns erros ou imperfeições, mas é uma obra que, em termos da banda desenhada nacional, se assume como uma das revelações do ano.


NOTA FINAL (1/10):
7.0


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


-/-

Crónicas do Tempo e do Espaço – Uluru, de Marco Fraga da Silva, Matthieu Pereira e Sofia Pereira

Ficha técnica
Crónicas do Tempo e do Espaço – Uluru
Autores: Marco Fraga da Silva, Matthieu Pereira e Sofia Pereira
Editora: Independente
Páginas: 176, a cores
Encadernação: Capa mole
Lançamento: Agosto de 2022
Contacto para compra: marcoffs@sapo.pt

segunda-feira, 5 de setembro de 2022

Webcomic português "Uluru" é editado em formato físico!




Isto é sempre uma boa notícia para os amantes de banda desenhada e, também, para os próprios criadores, estou certo! A banda desenhada, de origem portuguesa, Crónicas do Tempo e do Espaço – Uluru que começou como webcomic, recebe agora uma edição em formato físico.

Tenho para mim que, por muito que o formato digital permita aos autores de banda desenhada um acesso facilitado entre a obra e os leitores, o lançamento em formato físico traz consigo outras valências à obra que a valorizam muito mais. Portanto, olho para esta notícia com bastante entusiasmo! Especialmente porque a publicação desta obra em formato físico resulta de uma campanha de crowdfunding bem sucedida!

Abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra.
Crónicas do Tempo e do Espaço – Uluru, de Marco Fraga da Silva, Matthieu Pereira e Sofia Pereira

Um jovem chamado Uluru embarca numa viagem de exploração e autodescoberta pelo interior da Austrália, tentando emancipar-se do controlo dos seus pais artificiais: o robô Talus e a entidade cibernética UCIA.

O livro Crónicas do Tempo e do Espaço – Uluru, uma banda desenhada a cores de ficção científica, faz parte da tese de doutoramento de Marco Fraga da Silva, com a orientação dos professores Manuel José Damásio e Célia Quico. A tese procura desenvolver um modelo para a criação e implementação de franchises transmedia em Portugal a partir da publicação de bandas desenhadas que integram um universo ficcional expandido.

MARCO FRAGA DA SILVA

Argumento, legendagem e composição gráfica

Natural da ilha do Faial, estudou, mais tarde, design gráfico (licenciatura) e cinema (mestrado). Em Beja, desenvolveu o gosto pela arte sequencial da banda desenhada e criou um concurso internacional de BD para os países de língua portuguesa. É vice-presidente da Associação Tentáculo e tem vindo a desenvolver projetos na área da banda desenhada. Atualmente, é aluno de doutoramento em Arte dos Media na Universidade Lusófona.


MATTHIEU PEREIRA

Ilustrador do livro e da capa
Nasceu em França e é um ilustrador de banda desenhada que quer contar histórias através do desenho. Passou por vários ramos da expressão artística em Paris, desde cinema, design gráfico, ilustração e, por fim, banda desenhada. Está atualmente a viver em Portugal e participou em vários concursos e fanzines nacionais. Ficou em segundo lugar no Amadora BD 2018 e venceu o concurso de Odemira em 2019. Desde então tem prosseguido a sua jornada no ramo da BD, criando diversos projetos para autores portugueses e estrangeiros, nomeadamente o livro Crónicas do Tempo e do Espaço – Uluru, da autoria de Marco Fraga Da Silva.



SOFIA PEREIRA

Colorista

Nascida em Lisboa, Sofia Pereira é designer gráfica e ilustradora, entusiasta de esboços e contadora de histórias. Estudou Design de Comunicação, mas passou a maior parte do tempo a desenhar desde então. Participou em publicações e fanzines nacionais, produziu bandas desenhadas curtas e autopublicou três livros de ilustração.


-/-

Ficha técnica
Crónicas do Tempo e do Espaço – Uluru
Autores: Marco Fraga da Silva, Matthieu Pereira e Sofia Pereira
Editora: Independente
Páginas: 176, a cores
Encadernação: Capa mole
Contacto para compra: marcoffs@sapo.pt