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quinta-feira, 9 de julho de 2026

Análise: Joker

Joker, de Brian Azzarello e Lee Bermejo - Devir - DC Pocket


Joker, de Brian Azzarello e Lee Bermejo - Devir - DC Pocket
Joker, de Brian Azzarello e Lee Bermejo

Inserido no arranque da nova Coleção DC Pocket, da Devir, estava - além do fantástico Batman - Cavaleiro Branco, de Sean Murphy - este Joker, de Brian Azzarello e Lee Bermejo. Tal como o livro de Sean Murphy que refiro, também este já havia sido previamente publicado em Portugal pela editora Levoir... duas vezes.

Originalmente publicado em 2008, este Joker propõe-nos uma visão sombria e realista do mais famoso inimigo de Batman. A história decorre fora da continuidade principal do universo DC e acompanha o regresso do Joker às ruas de Gotham após uma misteriosa libertação do Asilo Arkham. Em vez de apresentar o vilão como uma figura quase caricatural, a obra procura retratá-lo como um criminoso brutal e imprevisível. E credível. E aqui, o verdadeiro protagonista é mesmo Joker. Batman aparece, sim, mas tem um papel menor nesta narrativa.

Quem nos conta a história é Jonny Frost, um pequeno criminoso que se torna motorista e acompanhante de Joker. E acho que isso é um grande trunfo utilizado pelo argumentista Brian Azzarello. É que, ao olhar para os acontecimentos pelos olhos de alguém fascinado pelo poder e pelo carisma do vilão, o leitor é conduzido para o interior do submundo de Gotham, sendo colocado próximo do caos que Joker representa. E isto tudo dá um sentido de tensão latente que se vai experienciando ao longo de todo o livro. 

À medida que a narrativa avança, Joker tenta recuperar a influência que perdeu durante o tempo em que esteve internado, com a história a transformar-se numa guerra pelo controlo da cidade, culminando numa reflexão amarga sobre a natureza destrutiva do próprio Joker e sobre aqueles que se deixam seduzir pela sua personalidade. 

Joker, de Brian Azzarello e Lee Bermejo - Devir - DC Pocket
Um dos aspetos menos conseguidos da obra, quanto a mim, sente-se na construção da narrativa em determinados momentos. É que, apesar de a história assentar numa premissa relativamente simples - o regresso de Joker ao topo da hierarquia criminosa de Gotham -, Azzarello introduz por vezes algumas dinâmicas entre as várias figuras do submundo que tornam o enredo desnecessariamente complexo. Certas alianças, conflitos e movimentações entre personagens secundárias acabam por não acrescentar grande coisa ao tema central, criando momentos em que a leitura perde alguma fluidez ou que aparente não saber para onde ir. Já tinha lido o livro há uns anos - e tinha gostado muito - mas agora que o voltei a ler, senti esta fraqueza da obra mais presente.

Não obstante, um dos grandes méritos deste Joker é a forma como Brian Azzarello desconstrói a "romantização" da personagem, respondendo diretamente à tendência de muitos fãs - eu incluído - para admirarem o Joker como um rebelde carismático. Aqui, Joker apresenta essa rebeldia, mas de um modo demasiado extremo, mostrando-se profundamente perturbado, cruel e incapaz de sentir empatia por quem quer que seja.

Azzarello também demonstra um excelente domínio do subgénero criminal. Gotham é apresentada menos como uma cidade de super-heróis e mais como um território controlado por gangues, corrupção e interesses criminosos. Lembra-me, com as devidas diferenças, a abordagem noir de Ed Brubkaer nos seus Criminal ou Reckless, que tanto admiro.

Recordo que este livro foi publicado pouco tempo depois da atuação brilhante do ator Heath Ledger, enquanto Joker, no filme Batman - O Cavaleiro das Trevas, de Christopher Nolan. Pode-se, por isso, sentir que houve uma certa tentativa de cavalgar essa onda e esse hype da personagem, mas também não deixa de ser verdade que se procura criar uma narrativa tensa e memorável, por si só.

Joker, de Brian Azzarello e Lee Bermejo - Devir - DC Pocket
Se a escrita é poderosa, a arte de Lee Bermejo eleva a obra para outro nível. O artista adota um estilo hiper-realista impressionante, cheio de detalhes e texturas. Cada rosto, cicatriz ou expressão transmite uma sensação de autenticidade que torna os acontecimentos ainda mais perturbadores. E a representação visual de Joker é particularmente memorável, com Bermejo a apresentá-lo como um homem marcado física e psicologicamente, com um sorriso que parece uma ferida permanente e retorcida. A figura apresenta-se-nos simultaneamente repulsiva e fascinante, captando na perfeição a essência contraditória da personagem. 

Em termos de cores, a paleta é dominada por tons escuros, acastanhados e esverdeados, criando uma atmosfera decadente e sufocante. Além disso, a própria cidade de Gotham surge-nos como uma cidade suja e doente, refletindo o estado moral das personagens que a habitam.

A edição da Devir é em capa mole, com badanas, e num formato reduzido. No miolo, o papel é de boa qualidade. O livro apresenta o preço incrível de 10€, pelo que me parece uma bela forma de chegar a outros públicos, assegurando uma qualidade física bastante aceitável. No final, há ainda 4 páginas com estudos preliminares e ilustrações não utilizadas por Bermejo.

Em suma, Joker é uma das mais marcantes interpretações modernas do vilão mais vil de sempre. Brian Azzarello constrói um thriller criminal intenso e perturbador, enquanto Lee Bermejo oferece algumas das ilustrações mais impressionantes alguma vez associadas a esta personagem. O resultado é uma obra adulta, violenta e provocadora, que não procura tornar Joker em alguém mais simpático, mas sim mostrar, sem filtros, porque é que este continua a ser um dos vilões mais assustadores da banda desenhada.


NOTA FINAL (1/10):
8.8

Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Joker, de Brian Azzarello e Lee Bermejo - Devir - DC Pocket

Ficha técnica
Joker
Autores: Brian Azzarello e Lee Bermejo
Editora: Devir
Páginas: 132, a cores
Encadernação: Capa mole, com badanas
Formato: 14,8 x 21 cm
Lançamento: Maio de 2026


quinta-feira, 30 de abril de 2026

Bomba! Devir lança coleção "DC Pocket"!



A Devir acaba de anunciar que já no próximo mês de Maio nos vai trazer a sua nova coleçºao de banda desenhada que se intitula DC Pocket e traz-nos alguns clássicos da DC em formato reduzido! E também, já agora, em preço reduzido, visto que cada um destes livros custará apenas 10,00€. 

A abrir esta coleção estão os títulos Joker, de Brian Azzarello e Lee Bermejo, e Batman - Cavaleiro Branco, de Sean Murphy, ambos já por cá publicados pela Levoir.

Acredito que esta coleção faz sentido, pois tem um caráter quase pedagógico de apresentar aos novos leitores alguns clássicos da DC e em preço reduzido. É claro que já estou a imaginar algum "choro" por serem obras já anteriormente publicadas em Portugal. No entanto, há que ter visão periférica e perceber a quem se destina a esta série, diria.

E, claro, se for possível a publicação futura de algum livro ainda não editado cá, melhor.

Mais abaixo, deixo-vos com a nota de imprensa da editora.


DC POCKET

A Devir lança em Portugal, em maio de 2026, os primeiros títulos da coleção de enorme sucesso internacional DC Pocket, uma linha editorial que reúne algumas das histórias mais emblemáticas da DC Comics num formato compacto, integralmente a cores, portátil e acessível, pensada para responder a novos hábitos de leitura.

JOKER de Brian Azzarello e Lee Bermejo, é um romance gráfico intenso e sombrio que apresenta o Joker numa abordagem crua e realista. Com uma narrativa direta e uma arte marcante, é um clássico contemporâneo da DC, pensado para leitores que procuram histórias mais adultas e psicológicas.
132 páginas • 10,00€


BATMAN: CAVALEIRO BRANCO de Sean Murphy é uma reinterpretação moderna e aclamada do universo Batman. Numa história completa e independente, os papéis invertem-se quando o Joker recupera a sanidade e questiona publicamente os métodos do herói, levantando um debate atual sobre justiça, responsabilidade e poder em Gotham.
232 páginas • 10,00€

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Análise: Batman Maldito







Análise: Batman Maldito, de Brian Azzarello e Lee Bermejo

Falar deste Batman Maldito é-me difícil. Penso que este livro tinha tudo para ser uma daquelas histórias obrigatórias de Batman. Mas, infelizmente, não o consegue ser.

Muitas vezes começo por abordar a história de um livro e só depois faço referência à sua arte, em termos de desenho. Mas, neste caso, farei o oposto.

Pois, de facto, é-me quase impossível não começar por aquilo que é o melhor neste Batman Maldito: o seu soberbo desenho. Nem preciso de escrever muito sobre isto. Basta fazer scroll down e olhar para algumas das páginas que compõem este livro e perceber-se-á, facilmente, que Bermejo é um dos melhores ilustradores da atualidade. Especialmente ao nível dos comics. A capacidade de ilustrar na perfeição os corpos, as expressões faciais, as cenas de ação e os cenários roça a perfeição. A abordagem dada a certas vinhetas da sua obra, parece transpor-nos para os enquadramentos minuciosos dos filmes de Batman, numa mistura a fazer lembrar o melhor da estética que um casamento dos filmes de Chris Nolan com os de Tim Burton poderiam, quiçá, criar. O nível de detalhe chega a ser assustador, de tão bom e minucioso que é. Em cima disso, ainda há um trabalho de cor exemplar, que capta na perfeição aquela tónica noir e intensa de Gotham City. Se Batman, Joker e Companhia são personagens magistrais do ponto de vista estético e cuja ilustração pede uma atenção especial, também Gotham City é, por si mesma, uma "personagem" fulcral nos ambientes que servem as narrativas. O trabalho de luz e contraste de Lee Bermejo merece ainda nota máxima.

Se tudo estava a correr tão bem neste livro, o que é que falha?

Bem, a história começa com a premissa de que Joker morreu. Mas sem se saber se foi Batman quem o assassinou ou se foi uma outra força mais sinistra que o fez. E Batman parece não se lembrar do acontecimento em si e vai procurar respostas. Ora bem, este até me parece um bom começo. A própria possibilidade de colocar em análise as razões e os métodos de Batman, parece-me um ponto de partida interessante. Infelizmente, à medida que ia lendo este livro, o meu entusiasmo foi diminuindo.

Não sei pois se será uma falha em si ou se será um mero gosto pessoal mas, a verdade é que a narrativa deste Batman Maldito parece querer misturar muitas fórmulas e géneros mas que, acaba por se perder a si mesma e, por conseguinte, perder o leitor. Embora sejam levantadas muitas questões, parece-me que acabam por não ser dadas as devidas perguntas o que, no final, nos deixa uma sensação de história vazia. 
Fica a ideia de que foram disparadas perguntas meio aleatórias para as quais, não foram dadas ou devidamente procuradas, respostas aceitáveis. E não me digam que: "Ah, mas a ideia foi deixar o leitor a pensar". Porque se, de facto, foi isso, são perguntas que também não acarretam um grande grau de reflexão, pois acabam por ser superficiais. Não tenho nada contra histórias que navegam mais dentro de si mas aqui, parece-me que não havia necessidade de tornar a história tão confusa. Há elementos que me parecem estar na mesma só para a tornar mais complexa – leia-se confusa - mas que acabam por não contribuir para a criação de bons elementos. E a personagem de Constantine, é (mais) um exemplo disso.

Há também um cariz sobrenatural que é dado à história, que não me parece que funcione tão bem. Batman pode ser uma personagem distorcida, com traumas internos por resolver mas não é, nunca, uma personagem que assente em filosofias ou estados de espírito do cômputo sobrenatural. O facto da história avançar para universos paralelos e metafísicos acaba por ser uma má escolha.

Concluo dizendo que este está longe de ser um mau livro.
Considero-o bom. Contudo, parece-me uma oportunidade perdida pois sinto que com uma arte sublime como esta, merecia uma história menos enrolada em si mesma e, por ventura, mais compacta ou linear. Acredito que se Lee Bermejo tivesse ilustrado a obra O Regresso do Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller, teríamos certamente o melhor livro de sempre do Batman. Se na obra de Frank Miller, a arte poderia ser melhor (mas isso são outros "quinhentos"), em Batman Maldito, a história poderia ser melhor.

Há bastante de bom, mas também há muito que poderia ser melhor.

NOTA FINAL (1/10):
6.8


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Ficha Técnica
Batman Maldito
Autores: Brian Azzarello e Lee Bermejo
Editora: Levoir
Páginas: 152, a cores
Encadernação: Capa dura