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segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Análise: Dostoiévski: O Sol Negro

Dostoiévski: O Sol Negro, de Chantal Van den Heuvel e Henrik Rehr - Levoir - Público

Dostoiévski: O Sol Negro, de Chantal Van den Heuvel e Henrik Rehr - Levoir - Público
Dostoiévski: O Sol Negro, de Chantal Van den Heuvel e Henrik Rehr

A segunda obra a ser lançada na mais recente Coleção de Novelas Gráficas da Levoir e do jornal Público foi este Dostoiévski: O Sol Negro, de Chantal Van den Heuvel e Henrik Rehr. Obra que procura traçar-nos uma biografia em banda desenhada sobre um dos mais célebres escritores de todos os tempos: Fiódor Dostoiévski. Escritor esse que, já agora, parece merecer especial atenção pela Levoir, já que a editora já nos fez chegar duas adaptações do autor para banda desenhada: Crime e Castigo, de Bastien Loukia, e O Idiota, de André Diniz.

De facto, Fiódor Dostoiévski é um dos mais importantes escritores da literatura mundial, autor de várias obras fundamentais e mais do que um "simples" romancista, pois conseguiu ser um dos grandes exploradores da alma humana, sendo igualmente capaz de mergulhar nas zonas mais sombrias da consciência, de forma a transformar as suas próprias angústias - e as da população, de um modo geral - em literatura.

Dostoiévski: O Sol Negro, de Chantal Van den Heuvel e Henrik Rehr - Levoir - Público
Este Dostoiévski: O Sol Negro começa com um dos episódios mais extraordinários da sua vida que eu, sinceramente, desconhecia. Em dezembro de 1849, Dostoiévski é conduzido para um pelotão de fuzilamento após ter sido condenado por atividades consideradas subversivas pelo regime czarista. No momento em que a execução parece inevitável, chega a ordem que suspende a sentença e a converte em trabalhos forçados na Sibéria. É a partir desse instante decisivo que os autores constroem uma viagem ao passado do autor em que revisitam alguns dos principais acontecimentos da sua vida.

E que vida foi essa! Ainda antes de se transformar no autor que todos conhecemos, Dostoiévski teve uma existência bastante conturbada e não particularmente fácil. Era jogador compulsivo, o que o deixou na penúria financeira e amorosa, já que a sua companheira - e compreensivelmente - foi perdendo a paciência para com o incessante vício ao jogo de Fiódor Epiléptico. Além da "vida vivida", o autor também tinha um demarcada "vida pensada", já que era constantemente assombrado por dúvidas espirituais, o que o fez viver em conflito consigo próprio e com o mundo que o rodeava. Consequentemente, a sua relação com a religião, com a política, com o amor e com a própria ideia de liberdade alimentaria grande parte da sua obra literária.

Dostoiévski: O Sol Negro, de Chantal Van den Heuvel e Henrik Rehr - Levoir - Público
Nota-se que a argumentista belga Chantal Van den Heuvel procurou realizar um trabalho sério e bem documentado. O livro percorre as várias fases da vida de Dostoiévski, desde a juventude até aos seus últimos anos, cruzando acontecimentos biográficos com o contexto político, social e cultural da Rússia do século XIX. Há um esforço evidente para mostrar a complexidade da personagem e a forma como as suas vivências influenciaram a sua produção literária.

Contudo, é precisamente aqui que surge, a meu ver, a principal limitação da obra. Ao tentar abarcar praticamente toda a vida do escritor, o livro acaba por se tornar um pouco difuso. Há tantos acontecimentos, tantas relações, tantas crises pessoais e tantos contextos históricos para abordar que a narrativa perde, por vezes, alguma concentração. Não é que fique desinteressante, mas sim confusa.

Acredito que teria sido (muito mais) preferível selecionar apenas os episódios mais relevantes e desenvolvê-los com maior profundidade. Em vez disso, a obra opta frequentemente por uma abordagem "panorâmica" que nos apresenta uma enorme quantidade de informação, mas sem dar a determinadas situações o espaço que mereciam para adquirir verdadeiro peso dramático. A questão do vício do jogo do autor é um ótimo exemplo disto. Embora seja uma faceta importante da personalidade de Dostoiévski, existem várias sequências que acabam por repetir essencialmente a mesma ideia: o descontrolo financeiro de Fiódor, a sua compulsão e as expectáveis consequências. Ficamos com situações que acabam por ser recorrentes, sem que isso mude muito a narrativa. É um desperdício de vinhetas. 

Dostoiévski: O Sol Negro, de Chantal Van den Heuvel e Henrik Rehr - Levoir - Público
Curiosamente, noutros momentos acontece exatamente o contrário. Certos períodos da vida do autor ou determinadas reflexões filosóficas surgem condensados em poucas páginas ou vinhetas, obrigando o leitor a absorver grandes quantidades de informação num curto espaço de tempo. O equilíbrio entre síntese e aprofundamento nem sempre é o mais eficaz, portanto.

Em termos visuais, o autor dinamarquês Henrik Rehr apresenta um trabalho competente e frequentemente interessante. Mais importante que isso, é um trabalho eficiente que consegue transmitir a atmosfera opressiva de São Petersburgo, o sofrimento físico do escritor e as várias situações que nos são relatadas. Não diria que o resultado gráfico seja verdadeiramente deslumbrante, mas é um desenho que cumpre bem os seus propósitos. 

Algo que considero menos positivo é a a planificação que se revela bastante densa, com muitas vinhetas por página. E tendo em conta o formato relativamente contido do livro, este tipo de planificação não ajuda a que os desenhos respirem. Em diversos momentos, a leitura adquire uma sensação algo claustrofóbica, não tanto por opção artística, mas pela quantidade de informação visual concentrada em cada página.

A edição da Levoir é na habitual capa dura baça, com bom papel baço no miolo e um bom trabalho ao nível da impressão e encadernação. No final do livro há cinco páginas com ilustrações e estudos de personagem, que sendo tão belos, também nos mostram que quiçá o trabalho final de Rehr nas ilustrações pudesse ter sido melhor. Pelo menos, havia potencial para tal.

Em suma, Dostoiévski: O Sol Negro não é uma obra-prima da banda desenhada biográfica nem uma leitura particularmente inovadora do ponto de vista formal, mas cumpre bem os seus propósitos. Não é um livro fantástico, mas é um livro útil, interessante e suficientemente competente para justificar a sua leitura, sobretudo junto daqueles que desejem conhecer melhor a vida atribulada de um dos maiores escritores de sempre.


NOTA FINAL (1/10):
7.8


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Dostoiévski: O Sol Negro, de Chantal Van den Heuvel e Henrik Rehr - Levoir - Público

Ficha técnica
Dostoiévski: O Sol Negro
Autores: Chantal Van den Heuvel e Henrik Rehr
Editora: Levoir
Páginas: 136, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 195 x 270 mm
Lançamento: Junho de 2026

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Análise: Adèle Blanc-Sec - Série Completa

Adèle Blanc-Sec - Série Completa, de Jacques Tardi - Levoir

Adèle Blanc-Sec - Série Completa, de Jacques Tardi - Levoir
Adèle Blanc-Sec - Série Completa, de Jacques Tardi

Hoje falo-vos de Adèle Blanc-Sec, de Jacques Tardi, uma série que já conheço há muitos anos e que, embora já tivesse sido editada, em parte, pelas editoras Bertand e ASA, só foi integralmente editada, no final do ano passado, pelas mãos da editora Levoir. Coisa que merece as minhas vénias, pois a série tinha estado décadas - sim, décadas! - incompleta. Demorou 47 anos(!) entre a publicação do primeiro tomo, pela Bertrand, em 1978, e o último, em 2025, e não sei se isto é algo que nos devamos orgulhar ou envergonhar. Mas adiante!

Esta é uma série especial e profundamente original, que marcou bastante as minhas leituras durante os anos 90, quando a li pela primeira vez. E esta releitura que fiz de alguns clássicos - bem como, a primeira leitura de alguns dos tomos que eu ainda não conhecia - levou-me a mergulhar neste universo especial que, naturalmente, ocupa um lugar muito particular na história da banda desenhada europeia. 

Adèle Blanc-Sec - Série Completa, de Jacques Tardi - Levoir
Publicada originalmente a partir de 1976, Adèle Blanc-Sec é uma série que parece diferente de todas as outras e que rapidamente se destacou pela sua combinação improvável de fantasia, terror, mistério, ficção científica, policial e sátira social. Sim, Adèle Blanc-Sec é tudo isso!

A protagonista, Adèle Blanc-Sec, é uma das grandes heroínas da banda desenhada europeia. Ela é escritora, aventureira, investigadora e uma mulher com uma independência pouco comum para a época em que as histórias decorrem. Adèle move-se por um mundo repleto de fenómenos inexplicáveis, cientistas loucos, sociedades secretas, múmias, monstros pré-históricos e conspirações de toda a espécie. E o mais curioso é que, apesar da extravagância dos acontecimentos, a personagem mantém quase sempre uma atitude pragmática perante o absurdo que a rodeia.

Considero que um dos maiores méritos da série é precisamente a forma como Tardi mistura géneros. As aventuras de Adèle começam muitas vezes como histórias policiais ou de mistério, mas rapidamente derivam para territórios fantásticos e surrealistas. Dinossauros que sobrevoam Paris, experiências científicas impossíveis ou figuras saídas do ocultismo - "you name it" - convivem naturalmente com uma recriação histórica meticulosa da capital francesa do início do século XX.

Adèle Blanc-Sec - Série Completa, de Jacques Tardi - Levoir
Paris é, aliás, uma verdadeira protagonista da série. As ruas, os cafés, as avenidas, os monumentos e os bairros são recriados com um rigor impressionante por parte de Jacques Tardi. Como tal, essa é outra das coisas que me agrada nesta série: a de ser transportado para uma cidade que tanto admiro. As próprias guardas dos livros não só são lindas, como representam um autêntico postal ilustrado de Paris!

Outra das coisas que aprecio na série é o seu humor. É verdade que há uma presença frequente da morte, do crime, do sobrenatural e de acontecimentos perturbadores, mas a série é constantemente atravessada por uma ironia subtil. Tardi ridiculariza autoridades, cientistas, militares, burocratas e figuras do poder com uma elegância mordaz. Mas atenção que não é um tipo de humor que se apoie em gags ou trocadilhos... é um estilo de humor que nasce mais do contraste entre a seriedade das personagens e o absurdo das situações em que elas se veem metidas.

Adèle Blanc-Sec - Série Completa, de Jacques Tardi - Levoir
Mas nem tudo é leveza na série porque, contrariamente a algumas bandas desenhadas mais clássicas de aventura, há frequentemente uma atmosfera melancólica e desencantada. E isso, parece-me, acontece porque existe uma certa dureza no olhar de Tardi sobre a sociedade, sobre o exercício do poder e sobre a natureza humana. 

É também justo reconhecer que Adèle Blanc-Sec nem sempre é uma leitura fácil ou entusiasmante. A liberdade criativa de Tardi, que constitui uma das grandes forças da série, reconheço, pode igualmente transformar-se numa das suas maiores limitações. Isto porque a sucessão constante de acontecimentos absurdos ou delirantes tende, nalguns casos, a enfraquecer a credibilidade do enredo e a reduzir o envolvimento emocional do leitor. Pelo menos, foi isso que senti nesta nova leitura que fiz de alguns álbuns mais clássicos. Certos elementos do fantástico deixaram-me muito impressionados quando li a série enquanto adolescente, mas, no tempo presente, senti que alguns acontecimentos nas histórias eram algo forçados em demasia.

Adèle Blanc-Sec - Série Completa, de Jacques Tardi - Levoir
Visualmente, os desenhos de Jacques Tardi, essa celebridade da banda desenhada francesa - e não só - apresentam um traço verdadeiramente reconhecível. Tardi é mais um daqueles autores em que nos basta olhar durante segundos para um desenho seu para percebermos logo quem é o autor. Não se trata de um desenho exuberante ou excessivamente espetacular, mas de um estilo profundamente eficaz e expressivo. Considero que, por vezes, existe algum caos visual, com balões com bastante texto e encavalitados junto às personagens, mas diria que isso também faz parte do charme singular das obras do autor.

Pessoalmente, considero que os primeiros volumes continuam a representar o auge criativo da série. Existe neles uma frescura, uma imprevisibilidade e um sentido de descoberta que dificilmente se repetem mais tarde. Ou melhor, até se repetem, mas sem a mesma frescura. Isso não significa que os álbuns posteriores sejam fracos. Apenas que os primeiros tomos possuem, a meu ver, uma maior energia criativa e um encanto difícil de replicar.

Em termos de edição, a Levoir apresentou-nos um bom trabalho. Cada um dos volumes apresenta capa dura brilhante - exceto os dois últimos volumes, O Labirinto Infernal e O Bebé de Buttes-Chaumont, o que merece a minha única chamada negativa à edição. Tratando-se de uma coleção integral, este lapso foi uma pena. De resto, os livros apresentam bom papel brilhante no interior e um bom trabalho ao nível da impressão e encadernação.

No final, Adèle Blanc-Sec permanece uma das grandes criações da banda desenhada europeia, e recomenda-se a públicos de todas as idades. Original, inventiva e elegante, a série demonstra que é muito mais do que uma simples sucessão de aventuras fantásticas. É uma obra que continua a surpreender pela inteligência, pela imaginação e pela capacidade de transformar o passado histórico num território sem limites para a fantasia. Um clássico da banda desenhada, portanto.


NOTA FINAL (1/10):
9.0


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Adèle Blanc-Sec - Série Completa, de Jacques Tardi - Levoir

Fichas técnicas
Adèle Blanc-Sec #1 - Adèle e o Monstro
Autor: Jacques Tardi
Editora: Levoir
Páginas: 48, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 224 x 297 mm
Lançamento: Junho de 2024

Adèle Blanc-Sec - Série Completa, de Jacques Tardi - Levoir

Adèle Blanc-Sec #2 - O Demónio da Torre Eiffel
Autor: Jacques Tardi
Editora: Levoir
Páginas: 48, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 224 x 297 mm
Lançamento: Julho de 2024

Adèle Blanc-Sec - Série Completa, de Jacques Tardi - Levoir

Adèle Blanc-Sec #3 - O Cientista Louco
Autor: Jacques Tardi
Editora: Levoir
Páginas: 48, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 224 x 297 mm
Lançamento: Setembro de 2024

Adèle Blanc-Sec - Série Completa, de Jacques Tardi - Levoir

Adèle Blanc-Sec #4 - Múmias à Solta
Autor: Jacques Tardi
Editora: Levoir
Páginas: 48, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 224 x 297 mm
Lançamento: Fevereiro de 2025

Adèle Blanc-Sec - Série Completa, de Jacques Tardi - Levoir

Adèle Blanc-Sec #5 - O Segredo de Salamandra
Autor: Jacques Tardi
Editora: Levoir
Páginas: 48, a cores  
Encadernação: Capa dura
Formato: 224 x 297 mm
Lançamento: Junho de 2024

Adèle Blanc-Sec - Série Completa, de Jacques Tardi - Levoir

Adèle Blanc-Sec #6 - O Afogado com as Duas Cabeças
Autor: Jacques Tardi
Editora: Levoir
Páginas: 48, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 224 x 297 mm
Lançamento: Julho de 2024

Adèle Blanc-Sec - Série Completa, de Jacques Tardi - Levoir

Adèle Blanc-Sec #7 - Todos os Monstros
Autor: Jacques Tardi
Editora: Levoir
Páginas: 48, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 224 x 297 mm
Lançamento: Setembro de 2024

Adèle Blanc-Sec - Série Completa, de Jacques Tardi - Levoir

Adèle Blanc-Sec #8 - O Mistério das Profundezas
Autor: Jacques Tardi
Editora: Levoir
Páginas: 48, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 224 x 297 mm
Lançamento: Fevereiro de 2025

Adèle Blanc-Sec - Série Completa, de Jacques Tardi - Levoir

Adèle Blanc-Sec #9 - O Labirinto Infernal
Autor: Jacques Tardi
Editora: Levoir
Páginas: 56, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 224 x 297 mm
Lançamento: Outubro de 2025

Adèle Blanc-Sec - Série Completa, de Jacques Tardi - Levoir

Adèle Blanc-Sec #10 - O Bebé de Buttes-Chaumont
Autor: Jacques Tardi
Editora: Levoir
Páginas: 72, a cores 
Encadernação: Capa dura
Formato: 224 x 297 mm
Lançamento: Outubro de 2025

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Análise: Estamos Todas Bem

Estamos Todas Bem, de Ana Penyas - Levoir - Público

Estamos Todas Bem, de Ana Penyas - Levoir - Público
Estamos Todas Bem, de Ana Penyas

O oitavo lançamento da atual Coleção de Novelas Gráficas, da Levoir e do jornal Público, trouxe-nos este Estamos Todas Bem, de Ana Penyas, obra bastante aclamada em Espanha, aquando do seu lançamento original em 2017, tendo conquistado vários prémios, entre os quais o Premio Nacional del Cómic.

E estamos perante um livro deveras interessante, de facto. Não diria que seja um livro perfeito, até porque fica um pouco aquém do próprio potencial que apresenta, como veremos adiante, mas é um belo e singular livro.

A obra nasce das memórias familiares da autora, mas rapidamente se transforma em algo maior. Através das recordações das suas avós, Maruja e Herminia, Ana Penyas traça o retrato de uma geração de mulheres que viveu sob o peso do franquismo e que atravessou, já em idade adulta, a transição para a democracia espanhola. E mais do que contar uma história linear, a autora recupera fragmentos de vidas, momentos aparentemente banais, mas que juntos formam um mosaico profundamente humano sobre aquilo que é ser mulher... e idosa... e avó no mundo moderno.

Estamos Todas Bem, de Ana Penyas - Levoir - Público

Talvez por isso seja uma obra que facilmente nos toca a todos, fazendo-nos pensar no peso da velhice e da solidão da sensação de se estar no último capítulo da vida. E não é que estes sejam temas analisados de forma profunda pela autora, mas, mesmo assim, é quase impossível que não reflitamos sobre os mesmos quando lemos este Estamos Todas Bem que, também pelo título, me remeteu para o fabuloso filme Estão Todos Bem, com Robert de Niro.

Desde as primeiras páginas, somos apresentados a Maruja já na velhice, enfrentando uma cidade que parece ter deixado de ser feita para ela. Caminhar torna-se um desafio, os percursos mais simples transformam-se em pequenas odisseias e a solidão espalha-se pelos dias. Já Herminia, a outra avó, sente-se igualmente só, mesmo que tenha tantos filhos. Mas os filhos têm as suas próprias vidas ocupadas e não visitam a mãe tantas vezes como esta gostaria. E é neste presente silencioso que as memórias começam a emergir, misturando tempos, vozes e emoções.

A narrativa alterna constantemente entre passado e presente. As recordações da juventude, do trabalho, da família e das limitações impostas às mulheres daquela época surgem sem avisar, quase como acontece com as próprias memórias. Há algo de muito verdadeiro nesta forma de contar, porque a vida raramente se organiza em capítulos perfeitos. O passado aparece-nos aos pedaços, ligado por sentimentos mais do que por datas. É verdade que, em termos de fluência narrativa, acaba por não ser perfeito, como abordarei mais à frente.

Estamos Todas Bem, de Ana Penyas - Levoir - Público


Gostei particularmente da forma como a obra presta homenagem às mulheres comuns. Não às heroínas dos livros de História, mas àquelas que cozinharam, limparam, criaram filhos, trabalharam sem reconhecimento e carregaram sobre os ombros o peso de uma sociedade profundamente desigual. Ana Penyas devolve-lhes uma voz que durante demasiado tempo permaneceu ausente. 

O tom da narrativa revela uma sensibilidade admirável. É um relato emotivo, mas sem nunca se tornar lamechas ou excessivamente sentimental. A autora Ana Penyas mostra-nos que a emoção mais forte muitas vezes até pode habitar nos mais pequenos gestos, como uma fotografia guardada numa gaveta, uma conversa interrompida, um silêncio à mesa. O livro encontra essa beleza subtil nessas coisas aparentemente insignificantes.

E, claro, à semelhança de um Rugas, de Paco Roca, de um O Mergulho, de Séverine Vidal e Víctor Pinel, de um Não Me Esqueças, de Alix Garin, ou mesmo de um O Corvo #VII - O Despertar dos Esquecidos, de Luís Louro, este Estamos Todas Bem oferece-nos uma reflexão muito subtil sobre o envelhecimento. O corpo que já não responde como antes, os amigos que desapareceram, a sensação de que o mundo continua a avançar sem esperar pelos mais velhos. Ana Penyas aborda estes temas com delicadeza, sem dramatismos desnecessários, permitindo que seja o leitor a descobrir a tristeza e a dignidade escondidas em cada página.

Estamos Todas Bem, de Ana Penyas - Levoir - Público


Ainda assim, em termos narrativos, a obra não é totalmente irrepreensível, como já referi. Por vezes, falta um certo fio condutor que una melhor os acontecimentos, havendo alguma desconexação entre momentos, o que nos pode dar a ideia que a história é algo remendada. Bem sei que referi acima que o passado nos aparece aos pedaços. É verdade. Mas, mesmo assim, a obra tem algumas fragilidades na própria passagem entre momentos que, em alguns casos, parece que "caíram de paraquedas" em determinada prancha, como se fosse obra do acaso.

E esta opção acaba por gerar uma certa sensação de infinitude, pois parece que a obra não fica particularmente fechada. E quando digo isto não me refiro ao final propriamente dito, que até gostei, mas à própria resolução narrativa. Talvez seja isso aquilo que não permite que a obra se torne tão inolvidável, ainda que seja um bom livro, com boas ideias. Fica quase a ideia de que havia potencial para mais. Ainda assim, aquilo que nos é oferecido é suficientemente rico e interessante para justificar plenamente a viagem.

Estamos Todas Bem, de Ana Penyas - Levoir - Público


Em termos de desenho, Ana Penyas apresenta um trabalho muito particular. Os desenhos possuem um traço caricatural, por vezes grotesco e até algo sorumbático. Pessoalmente, não foi um estilo que me conquistasse por completo, e imagino que possa afastar alguns leitores. Contudo, é impossível negar que confere à obra uma identidade visual muito própria e que, naturalmente, são desenhos com a sua própria beleza.

Além disso, uma nota positiva deve ser dada à forma como a autora procura não se repetir em termos visuais, dando-nos uma planificação dinâmica - e que sabe beneficiar do formato italiano da obra - utilizando colagens e vinhetas de diversos tamanhos, para não se tornar repetitiva.

Estamos Todas Bem, de Ana Penyas - Levoir - Público

 

A edição é em capa dura, com papel baço no interior e um bom trabalho ao nível da impressão e encadernação.

Tenho que referir que, novamente, não faz sentido que a edição portuguesa da obra tenha o subtítulo "Homenagem a Uma Geração de Mulheres Sem Voz". Percebo o apelativo comercial que a editora quer atribuir à sua obra, mas considero que há formas e formas de o fazer e aquela que foi escolhida, não é particularmente feliz. Já fiz referência a esta opção da editora em Albert Londres tem de Desaparecer e tenho que o fazer novamente. E, por esse motivo, até cito as minhas próprias palavras: "mais do que ser um subtítulo que não era necessário, nunca poderia ter sido colocado daquela forma, com aquela dimensão, naquele local da página. Acho que foi um ato falhado que até acaba por estragar a bela ilustração da capa." Talvez no caso deste Estamos Todas Bem o crime de grafismo não seja tão grande como em Albert Londres tem de Desaparecer, mas ainda assim, não devia ter ocorrido.

Em suma, Estamos Todas Bem é daqueles livros que não impressionam tanto pelo que contam, mas pela forma como permanecem connosco depois de fechados. As memórias destas mulheres acabam por se confundir com as memórias das nossas próprias avós, das nossas mães, ou de tantas outras mulheres que viveram vidas discretas e, por isso mesmo, tantas vezes esquecidas. Apesar de algumas fragilidades narrativas e de um estilo gráfico que dificilmente reunirá consenso, Ana Penyas consegue construir uma obra cheia de humanidade e de ternura. 


NOTA FINAL (1/10):
8.7


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Estamos Todas Bem, de Ana Penyas - Levoir - Público
Ficha técnica
Estamos Todas Bem
Autora: Ana Penyas
Editora: Levoir
Páginas: 120, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 240 x 170 mm
Lançamento: Agosto de 2026

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Nova Novela Gráfica da Levoir e do Público já está nas bancas!


Sai com hoje com o jornal Público, a obra Estamos Todas Bem, de Ana Penyas! E este é um dos livros que mais está a despertar a minha curiosidade, por toda a relevância e destaque que ganhou no país vizinho quando, em 2018, foi o livro vencedor do Premio Nacional del Cómic, em Espanha.

Relembro que esta é também a 8ª obra - de um total de 12 - já publicada da Coleção de Novelas Gráficas da Levoir e do jornal Público.

Mais abaixo, deixo-vos com a nota de imprensa da editora e com algumas imagens promocionais da obra.

Estamos Todas Bem, de Ana Penyas

O Público e a Levoir apresentam a obra biográfica da primeira Mulher galardoada com o Prémio Nacional do Comic em Espanha. 

A 28 de Agosto será editado Estamos todas bem, a premiada obra da espanhola Ana Penyas.

Através das memórias das suas avós, a autora, oferece um olhar íntimo sobre as vidas de duas mulheres sob o franquismo e nas primeiras décadas da democracia espanhola, e explora a experiência de toda uma geração de mulheres cujas vidas quase não foram contadas.

Misturando passado e presente, Estamos todas bem ilustra, através de fotografias, colagens e ilustrações gráficas, o quotidiano daquela época com uma visão decididamente feminista.

Ana Penyas contrasta o passado com o presente da rotina diária de Maruja: a solidão, o envelhecimento e a consequente dificuldade de se deslocar num ambiente pouco favorável aos peões como o retrata nas primeiras páginas. A longa caminhada de regresso a casa a partir do parque, que antes demorava apenas alguns segundos, leva-lhe agora vários minutos. As memórias misturam-se com os acontecimentos actuais através de imagens e vozes.

Um livro simplesmente espantoso em que Penyas mostra ser uma narradora muito subtil, permitindo que os seus desenhos revelem ao leitor exactamente o que este deseja descobrir.

Depois de uma história verdadeira passada no Irão dos ayatollahs (A Aranha de Mashaad), da vida do grande escritor russo (Dostoiévski o sol negro), da história da colonização espanhola na Guiné Equatorial (Dez Mil Elefantes),
de uma viagem ao Alasca que foi sem ser (Partir, ficando), da história de Taiwan (Formosa) ou de um thriller inspirado em acontecimentos reais (Albert Londres tem de desaparecer) surge ainda no âmbito do 80.º aniversário da publicação de O Principezinho em França, (Saint-Exupéry e a origem do Principezinho).

Penyas nasceu em Valência (Espanha), em 1987. É licenciada em Design Industrial e em Belas-Artes pela Universidade Politécnica de Valência.

Recebeu uma menção especial no Ibero-America Ilustra 2015 e venceu o VII Catálogo Ibero Catálogo Ibero-Americano de Ilustração, em 2016. Em 2017, recebeu o Prémio Internacional de Banda Desenhada Fnac-Salamandra, graças ao qual publicou a sua primeira banda desenhada, Estamos todas bem. Em 2018, foi galardoada com o Prémio de Revelação de Autor Nacional da Feira da Banda Desenhada de Barcelona e com o Prémio Nacional de Banda Desenhada pela mesma obra.

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Ficha técnica
Estamos Todas Bem
Autora: Ana Penyas
Editora: Levoir
Páginas: 120, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 240 x 170 mm
PVP: 16,90€

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Análise: Trilogia Shakespeariana

Trilogia Shakespeariana, de Gianni De Luca - Levoir e A Seita

Trilogia Shakespeariana, de Gianni De Luca - Levoir e A Seita
Trilogia Shakespeariana, de Gianni De Luca

Foi no passado mês de Março que as editoras Levoir e A Seita se juntaram para o lançamento de uma obra clássica da banda desenhada italiana, originalmente editada a partir de 1975, que, inexplicavelmente, ainda não se encontrava publicada em Portugal: falo de Trilogia Shakespeariana, de Gianni De Luca, que adapta para banda desenhada três das mais celebradas peças de William Shakespeare: Romeu e Julieta, Hamlet e A Tempestade.

E uma das coisas que tenho que começar por referir é que adaptar para banda desenhada as peças de Shakespeare, que foram originalmente escritas para o teatro e que, portanto, são mais assentes em diálogos/monólogos do que em narrações de eventos, não me parece uma tarefa nada fácil. Mas Gianni De Luca, que conta com a colaboração de Sigma, pseudónimo de Raoul Traverso na adaptação do argumento, é bem sucedido a dar a volta à questão com um estilo muito próprio que consegue, de forma incrível e inovadora, dar ação visual a cenas em que, supostamente, teríamos uma personagem estática a conversar. Mas já lá irei.

Trilogia Shakespeariana, de Gianni De Luca - Levoir e A Seita

Dando uma tão breve quanto possível nota sobre cada uma das histórias aqui presentes, posso dizer-vos que Hamlet me parece a história mais sombria e introspectiva do volume. Aqui a tragédia do príncipe da Dinamarca mantém intactos os seus grandes temas: a dúvida, a culpa, a corrupção do poder e o desejo de vingança. E o famoso dilema existencial de Hamlet - "ser ou não ser, eis a questão" - encontra em De Luca um intérprete visual particularmente inspirado, pois em vez de depender apenas do texto, o autor utiliza a movimentação das figuras, a composição dos espaços e a encenação das cenas para expressar os estados de espírito da personagem. 

Em Romeu e Julieta, embora essa utilização da movimentação das personagens se mantenha -e atinja até mesmo um cume, face às restantes histórias -, o tom muda radicalmente. Aqui, a narrativa privilegia o romance, a paixão e a tragédia inevitável dos jovens amantes de Verona. Gianni De Luca representa com grande elegância tanto os momentos de intimidade como as cenas de conflito entre as famílias rivais, criando um equilíbrio eficaz entre lirismo e dramatismo.

Trilogia Shakespeariana, de Gianni De Luca - Levoir e A Seita
A Tempestade
, por sua vez, introduz uma atmosfera mais fantástica e alegórica. A peça acompanha Próspero, legítimo duque de Milão, exilado numa ilha em que há forças mágicas, espíritos, ilusões e naufrágios. É aqui que encontramos a história mais clássica de banda desenhada, em termos de planificação, embora, não obstante, já se sinta um domínio da ação e da planificação da história.

Assim sendo, a verdadeira grandeza deste Trilogia Shakespeariana não reside apenas nas adaptações literárias em si. O elemento mais revolucionário do livro é mesmo o seu aspecto visual. Gianni De Luca rompe deliberadamente com a estrutura tradicional da banda desenhada baseada em vinhetas sucessivas. Em vez disso, desenvolve páginas organizadas como grandes espaços cénicos contínuos, onde as personagens aparecem várias vezes ao longo do mesmo cenário. 

Esta solução gráfica transforma a página num palco teatral. E acaba por tornar as peças de teatro originais menos aborrecidas - ou mais facilmente apreendidas - pois permite à narrativa ter uma fluidez e uma dinâmica que mantém os leitores atentos ao desenrolar da história. A passagem do tempo deixa de ser representada pela fragmentação da ação em vinhetas separadas e passa a ser sugerida pelo deslocamento das figuras no espaço. Assim, o leitor observa simultaneamente diferentes momentos da narrativa, acompanhando os trajetos das personagens quase como se estivesse perante uma representação ao vivo.

Trilogia Shakespeariana, de Gianni De Luca - Levoir e A Seita
Esta inovação foi tão marcante que acabou por ficar associada ao chamado "Efeito De Luca", uma abordagem que influenciou numerosos autores posteriores. É algo que, de vez em quando, ainda conseguimos ver em algumas bandas desenhadas da atualidade, mas em 1975, quando esta obra começou a ser publicada, era algo verdadeiramente inovador.

O domínio do espaço, da composição e do ritmo visual de Gianni de Luca é verdadeiramente incrível. Se querem que vos seja sincero, e olhando para a obra à luz dos dias atuais, talvez o autor abuse um pouco desta forma de contar a história. Admito que consideraria a leitura mais equilibrada se esta técnica não fosse constantemente utilizada, prancha após prancha. Pois ao querer tornar-se a história menos aborrecida com uma planificação mais dinâmica, acaba por, ironicamente, se tornar também a história aborrecida pela presença sempre constante dessa planificação mais dinâmica. Parece-me que se esta técnica fosse utilizada com maior gestão, toda a história ganharia. Mas imagino que assim que o autor chegou a este nível, não mais quis parar. E reitero, claro, que é impossível não ficar abismado com a forma incrível, detalhada e original como Gianni de Luca nos mergulha nas suas histórias. E só por isso, considero este como um dos grandes lançamentos de banda desenhada clássica do ano em Portugal. Ler esta obra acaba por ser semelhante a ter-se uma masterclass sobre banda desenhada e sobre sequencialidade.

Trilogia Shakespeariana, de Gianni De Luca - Levoir e A Seita
Além da inovação narrativa, devo ainda mencionar a bela qualidade do desenho. A linha de De Luca é elegante, precisa, limpa e expressiva. Os cenários são detalhados sem se tornarem excessivamente pesados, enquanto as figuras humanas comunicam emoções com grande naturalidade. 

A edição da obra é em tudo semelhante aos livros presentes na Coleção de Novelas Gráficas da Levoir. O livro tem capa dura baça, bom papel baço no interior, boa encadernação e boa impressão. Até tem, junto à lombada, a referência a "Novela Gráfica", numa tira de cor preta, o que é a imagem de marca da emblemática coleção da Levoir. De resto, há ainda um interessante texto introdutório de Pedro Moura e, no final, encontramos estudos e versões finais das capas originais dos álbuns e uma ilustração dedicada a Dante Alighieri.

Em conclusão, Trilogia Shakespeariana é uma obra fundamental para compreender a evolução da banda desenhada europeia. As adaptações de Hamlet, Romeu e Julieta e A Tempestade demonstram um profundo respeito pelo legado de Shakespeare, enquanto a extraordinária experimentação gráfica de Gianni De Luca é verdadeiramente impressionante, tendo redefinido os limites da narrativa visual. O resultado é um clássico intemporal que continua a impressionar leitores, estudiosos e autores, afirmando-se como uma obra que cada amante de banda desenhada deve conhecer.


NOTA FINAL (1/10):
8.8


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Trilogia Shakespeariana, de Gianni De Luca - Levoir e A Seita

Ficha técnica
Trilogia Shakespeariana
Autor: Gianni De Luca
Adaptado a partir da obra original de: William Shakespeare
Editoras: Levoir e A Seita
Páginas: 144, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 195 x 270 mm
Lançamento: Março de 2026

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Análise: Albert Londres tem de Desaparecer

Albert Londres tem de Desaparecer - Frédéric Kinder e Borris - Levoir - Público

Albert Londres tem de Desaparecer - Frédéric Kinder e Borris - Levoir - Público
Albert Londres tem de Desaparecer, de Frédéric Kinder e Borris

Este ano, a Coleção de Novelas Gráficas tem vindo a apresentar uma qualidade média bastante interessante. Já li praticamente todos os livros que saíram até ao momento e, pelo menos para já, posso dizer-vos que estou bastante satisfeito com a seleção de obras deste ano. É óbvio que haverá sempre livros para todos os gostos e que uns serão melhores do que outros, mas olhando para o todo, tenho que conceder que a seleção é boa e equilibrada.

Este Albert Londres tem de Desaparecer que hoje vos trago é mais uma das boas obras que fazem parte desta iniciativa editorial levada a cabo pela editora Levoir e pelo jornal Público.

Albert Londres tem de Desaparecer - Frédéric Kinder e Borris - Levoir - Público
Para quem não sabe, Albert Londres foi um célebre jornalista e escritor francês, sendo considerado um dos pioneiros do jornalismo de investigação. Era uma daquelas pessoas que não tinha medo de "pôr o dedo na ferida" e que ficou conhecido pelas suas reportagens corajosas, nas quais denunciava injustiças sociais, condições desumanas em prisões, abusos do colonialismo e outros problemas ignorados pela sociedade da época. Mais do que isso, as suas viagens por vários países deram origem a reportagens marcantes que influenciaram a opinião pública e contribuíram para mudanças sociais. Existe mesmo um prémio de jornalismo, o Prémio Albert Londres, que foi criado em sua homenagem, sendo um dos mais prestigiados galardões do jornalismo francófono. Estamos perante, pois está claro, uma das individualidades mais importantes do jornalismo. Se bem que a sua morte sempre levantou alguma suspeita.

E este Albert Londres tem de Desaparecer, dos autores Frédéric Kinder e Borris, é um livro que se situa algures entre a biografia, o relato histórico e a ficção especulativa. A obra parte dos acontecimentos devidamente comprovados que marcaram os últimos meses da vida do jornalista para construir uma narrativa envolvente em torno do mistério da sua morte. O resultado é uma obra simultaneamente informativa e fascinante, que é capaz de despertar a curiosidade dos leitores tanto pela figura histórica retratada, como pela hipótese apresentada para explicar o seu desaparecimento.

Albert Londres tem de Desaparecer - Frédéric Kinder e Borris - Levoir - Público
Sente-se que os autores procuram prestar homenagem a um homem cuja influência no jornalismo de investigação continua a ser sentida nos dias de hoje. Sendo alguém que procurava expor injustiças, denunciar abusos e revelar realidades, fez, com certeza, bastantes inimigos, já que que muita preferia manter escondidas as verdades incómodas que Albert procurava revelar. E essa dimensão ética da sua atividade profissional revela-se muito bem representada ao longo da narrativa.

A escolha do período final da vida do jornalista revela-se particularmente acertada. A viagem à China, realizada em 1931, permanece envolta em inúmeras dúvidas e interrogações. Ao que parece, não se tratou de uma deslocação encomendada por qualquer jornal e os verdadeiros objetivos de Albert Londres com esta viagem nunca ficaram totalmente esclarecidos. E foi especificamente essa incerteza histórica que os autores agarraram, utilizando esse terreno fértil para a construção de uma narrativa que combina factos documentados com elementos ficcionais de forma bastante convincente.

Albert Londres tem de Desaparecer - Frédéric Kinder e Borris - Levoir - Público
E um dos aspetos mais interessantes da obra reside precisamente nessa mistura entre verdade histórica e ficção. Frédéric Kinder, o argumentista, evita transformar o livro numa simples biografia ilustrada e opta antes por explorar as zonas cinzentas que rodeiam os acontecimentos que motivaram a morte do célebre jornalista. O resultado é uma narrativa dinâmica, a fazer lembrar uma história policial, que nos mantém constantemente envolvidos e a questionar aquilo que realmente poderá ter acontecido.

A hipótese central do livro assenta na possibilidade de Albert Londres ter descoberto uma rede de tráfico de armas e de ópio envolvendo interesses poderosos. Sendo que essas informações recolhidas pelo jornalista durante a sua estadia na Ásia seriam suficientemente comprometedoras para ameaçar figuras influentes. A partir desta premissa desenvolve-se um enredo marcado pela tensão e pelo suspense.

É evidente que esta interpretação poderá ser vista por alguns leitores como excessivamente conspirativa. Afinal, a verdade é que ninguém sabe ao certo o que Albert Londres estava a investigar na China durante os últimos meses da sua vida. A escassez de provas definitivas impede qualquer conclusão categórica, é certo. Contudo, a proposta dos autores nunca deixa de parecer plausível, sobretudo quando recordamos o histórico profissional de Londres e a natureza das investigações que já realizara anteriormente, incidindo em temas como a prisão de Cayenne, o tráfico de mulheres ou as condições desumanas dos hospitais psiquiátricos. E é por isso que o livro funciona bem.

Albert Londres tem de Desaparecer - Frédéric Kinder e Borris - Levoir - Público
Além disso, a obra tem ainda o mérito de levar o leitor a refletir sobre uma realidade que permanece atual. Quando alguém revela verdades incómodas sobre práticas ilegítimas ou criminosas, os interesses afetados tendem frequentemente a reagir. Ao longo da História, não têm sido poucos os jornalistas, denunciantes e investigadores que enfrentaram pressões, ameaças ou tentativas de silenciamento. Nesse sentido, a narrativa transcende a figura de Albert Londres e assume uma dimensão mais universal, o que volta a ser bem-vindo.

Em termos de ilustração, gostei particularmente da abordagem visual de Borris. Os seus desenhos são bastante originais e conferem à obra uma identidade muito própria, por vezes a roçar o expressionismo. O estilo gráfico afasta-se, pois, de soluções mais convencionais e, com os traços do esboço a notarem-se propositadamente na composição final, o desenhador consegue cria uma atmosfera que combina perfeitamente com o tom de mistério e investigação da narrativa. A expressividade das personagens - onde reside, por vezes, um certo nível caricatural - consegue funcionar muito bem, também, e as cores também são bem conseguidas.

Albert Londres tem de Desaparecer - Frédéric Kinder e Borris - Levoir - Público
Por vezes, senti que algumas páginas careciam de alguma legibilidade, como se aparentassem estar pixelizadas, o que tornou a experiência menos positiva. Ainda investiguei a edição original da obra, para comparar, mas confesso não ter percebido se este problema da legibilidade que aparece amiúde se devia à propria ilustração original ou se se devia a um defeito de impressão. Mas deixo essa nota.

De resto, a edição da Levoir é em capa dura baça, com bom papel baço no interior e um bom trabalho a nível de encadernação. No final, há ainda um generoso caderno documental, com 12 páginas, que nos oferece textos com mais informações sobre o desaparecimento de Albert Londres, sobre o contexto geopolítico de Xangai em 1932 e que inclui notas biográficas das principais personagens. Há ainda várias ilustrações e esboços, bem como fotografias e estudos de página, que acompanham estes textos.

Devo fazer uma menção negativa ao facto da edição portuguesa trazer o (enorme!) subtítulo "O Segredo da Última Reportagem de um Jornalista Excepcional". Mais do que ser um subtítulo que não era necessário, nunca poderia ter sido colocado daquela forma, com aquela dimensão, naquele local da página. Acho que foi um ato falhado que até acaba por estragar a bela ilustração da capa. Ou a bem que não se colocava esse grande subtítulo ou, colocando, teria que ser no canto inferior da capa, em rodapé. Ou, sendo neste sítio em que acabou por ficar, teria que ser com um círculo/quarado à volta, simulando um autocolante. São noção básicas de design e produção gráfica.

Tirando este detalhe, e em suma, Albert Londres tem de Desaparecer é um livro bastante bem conseguido, que presta uma justa homenagem a um dos mais importantes jornalistas de sempre, ao mesmo tempo que lança luz sobre uma possível explicação para o seu desaparecimento. Mesmo que a teoria apresentada não possa ser comprovada e permaneça no domínio da especulação, os autores conseguem torná-la credível e estimulante. Boa aposta!


NOTA FINAL (1/10):
8.4


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Albert Londres tem de Desaparecer - Frédéric Kinder e Borris - Levoir - Público

Ficha técnica
Albert Londres tem de Desaparecer
Autores: Frédéric Kinder e Borris
Editora: Levoir
Páginas: 104, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 195 X 270 mm
Lançamento: Julho de 2026