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sexta-feira, 18 de junho de 2021

Análise: Kingsman – Serviço Secreto

Kingsman – Serviço Secreto, de Mark Millar, Dave Gibbons e Matthew Vaughn - G. Floy Studio

Kingsman – Serviço Secreto, de Mark Millar, Dave Gibbons e Matthew Vaughn - G. Floy Studio
Kingsman – Serviço Secreto, de Mark Millar, Dave Gibbons e Matthew Vaughn

Kingsman – Serviço Secreto é um livro recheado de ação, num ambiente de espionagem governamental e que até recebeu duas adaptações para cinema. A esse propósito, apareceu, até, no honroso 15º lugar do meu TOP 20 – Os Melhores Filmes baseados em Banda Desenhada que fiz há uns dias. E embora os filmes não sigam à risca as narrativas da banda desenhada, podemos concordar que esta bd assinada por Mark Millar, Dave Gibbons e Matthew Vaughn, é uma obra que procura, acima de tudo, entreter sem grandes pretensões de conter em si mesma uma reflexão profunda. Tal como há o estilo de “filme pipoca”, esta é uma “bd estilo pipoca”. Fácil, rápida, simples, linear, mas que sabe entreter e fazer-nos passar um bom bocado.

E, naturalmente, a história que nos oferece é simples: um agente secreto britânico de alta patente, Jack, decide dar uma hipótese ao seu sobrinho que, tal como a irmã de Jack, é um verdadeiro parasita da sociedade. Aquilo a que se chama, muitas vezes, white trash. Não trabalha, não estuda, está sempre envolvido em problemas com a justiça e com a autoridade. Para tentar remediar a situação e dar uma hipótese para que o seu sobrinho, Gary, possa escapar das malhas do crime e ter uma vida digna, o tio treina-o de forma a fazer dele um autêntico James Bond dos nossos tempos, dando-lhe um treino evoluído de espionagem e noções básicas sobre ser um cavalheiro e saber como se vestir e comportar. Gary acaba por demonstrar ter muito potencial para chegar longe.

Kingsman – Serviço Secreto, de Mark Millar, Dave Gibbons e Matthew Vaughn - G. Floy Studio
Entretanto, existe um milionário que, tentando corrigir o problema do sobrepovoamento do planeta, prepara um ataque massivo mundial, enquanto protege e resguarda alguns dos seus ídolos como realizadores e atores de cinema e outro tipo de criadores. A missão de Gary será, pois, a de impedir que 90% da raça humana seja erradicada. O argumento escrito por Mark Millar em parceria com Matthew Vaughn é mais ou menos isto. Como já mencionei, não há grande espaço para reflexões ou para desenvolver segundas leituras.

As personagens, principalmente as principais, estão suficientemente bem desenvolvidas pelos autores. E a forma como a trama nos vai sendo mostrada faz com que estejamos sempre investidos em desvendar o próximo acontecimento até ao final do livro. Se a forma como o background de Gary e a própria introdução do mesmo à rede de espionagem é interessante, pareceu-me que a ameaça do milionário, que quer matar quase todo o planeta, é um tanto ou quanto forçada e clichet, mesmo admitindo que, ao menos neste caso, a razão para tal empreitada maquiavélica seja diferente das demais histórias em que o vilão quer matar todos os outros só para ter mais poder ou por pura maldade. Aqui acaba por haver uma razão quase ambiental. Embora completamente errada do ponto de vista ético ou dos direitos humanos, diga-se.

Kingsman – Serviço Secreto, de Mark Millar, Dave Gibbons e Matthew Vaughn - G. Floy Studio
A arte de Dave Gibbons – o célebre autor da obra incontornável Watchmen – faz um trabalho que, a meu ver, revela variados problemas. Folheando por alto o livro, fica-se com a ideia de que é um livro bem conseguido, com uma arte ilustrativa agradável. E, de facto, a arte é agradável, admito. No entanto, e especialmente nas cenas de ação, o traço de Gibbons já parece algo obsoleto para uma história de ação dos dias de hoje. Há uma certa rigidez nos movimentos das personagens que não conseguem atribuir às cenas imaginadas por Millar a dinâmica que as mesmas mereciam. Claro que não se pode dizer que seja uma má arte. Mas fica aquém do desejável.

E depois ainda há um problema maior que, honestamente, não sei como ninguém da equipa criativa envolvida neste livro não apontou. É que as personagens de Gary e do seu tio Jack, embora sejam de faixas etárias muito diferentes, parecem praticamente iguais, sendo até, por vezes, difíceis de distinguir para o leitor. Como é possível um amadorismo destes por parte de Gibbons? Foi propositado? Ou foi algo que lhe escapou? Se a diferença de idades destas duas personagens é tão grande, porque é que elas parecem tão iguais? Gary, o jovem adulto parece-se mais velho do que é. E Jack, um autêntico veterano, parece mais novo do que é. Fica-se quase com a ideia de que Gibbons só consegue ilustrar personagens de 35-45 anos.

Kingsman – Serviço Secreto, de Mark Millar, Dave Gibbons e Matthew Vaughn - G. Floy Studio
Há que dizer, como ponto positivo, que as cores aplicadas por Angus Mckie são uma boa mais-valia da obra em assegurar que a mesma funciona do ponto de vista ilustrativo. Sem estas cores, a obra pareceria ainda mais retirada dos anos 80 e menos dinâmica do que aquilo que, mesmo assim, é.

A edição da G. Floy Studio é em capa dura, com bom papel brilhante e uma encadernação e impressão de qualidade. Tudo bem feito. Nada a objetar.

Em conclusão, Kingsman – Serviço Secreto é uma obra fácil e que se lê bem. Ideal para ler algo simples, sem ter que se pensar muito, e daí retirar uns bons momentos de leitura prazerosa. Mesmo assim, falha em ser um livro inesquecível e com a personalidade que merecia. É giro mas não é fantástico.


NOTA FINAL (1/10):
7.8


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Ficha técnica
Kingsman – Serviço Secreto
Autores: Mark Millar, Matthew Vaughn e Dave Gibbons
Editora: G. Floy Studio
Páginas: 160, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Outubro de 2017

segunda-feira, 30 de março de 2020

Análise: Watchmen




Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons

Inspirado pelo lançamento da ColeçãoWatchmen, ainda em curso, da editora Levoir, que resgata a obra original de Alan Moore e Dave Gibbons e adiciona os volumes Dc Universe, The Button e Doomsday Clock, que nos revelam a entrada das personagens Watchmen no universo DC, voltei a ler a obra original Watchmen, publicada há cerca de 4 anos pela mesma editora.

E para fazer uma análise de Watchmen, das duas, uma: ou faria a análise mais extensa, complexa e difícil de ler do Vinheta 2020; ou fazia uma análise mais sintética, que conseguisse apenas tocar nos pontos fulcrais da série.

E é isso que tentarei fazer.

Watchmen é daquelas obras mais do que incontornáveis da banda desenhada. Diria que para um adepto de banda desenhada é tão indispensável ler esta série (a obra original, de Alan Moore e Dave Gibbons, sublinho), como é indispensável para um amante de literatura portuguesa ler Os Maias, de Eça de Queiroz. É quase como se fosse um baptismo ao comic para adulto.

De facto, parece que foi mesmo esse o ponto de partida - ou, pelo menos, o ponto de chegada - de Alan Moore: fazer algo, baseado em super-heróis mas que fosse mais para adultos do que para jovens. É disruptivo na medida em que acaba por repensar toda a maneira, todas as temáticas, todas as subnarrativas que geralmente eram aplicadas nas histórias de super-heróis americanas. E mesmo hoje em dia, a forma como esta obra está construída, ainda a coloca entre as novelas gráficas mais relevantes da história da banda desenhada. E não está minimamente datada. Continua a estar mais do que atual.

Mas que se desengane quem achar que Watchmen é um livro leve ou de fácil leitura. É dos livros mais pesados e mais exigentes para com o leitor, de toda a banda desenhada. Na verdade, estou aqui a puxar pela cabeça e não me recordo de um livro de bd que considere mais complexo na leitura.

E sim, diria que o grande alicerce de Watchmen e, talvez mesmo, a razão pela qual esta obra é tão aclamada no mundo da banda desenhada – e até mesmo no mundo da literatura, tendo Watchmen sido incluído na lista das 100 obras mais importantes da literatura em inglês, pela revista Time – é que Watchmen é um punhado de subnarrativas que se complementam entre si, que se questionam entre si e que, no final, contam uma história maior.

A história passa-se nos Estados Unidos da América, em 1985, e remete-nos para uma realidade carregada de super-heróis fantasiados. Nesta altura, a América vivia ainda o período da Guerra Fria na iminência, sempre constante, de iniciar uma guerra nuclear contra a União Soviética e assim propiciar a Terceira Guerra Mundial. Mas a história não se centra apenas neste grupo de super-heróis dos anos 80. Frequentemente somos remetidos para os acontecimentos que marcaram um primeiro grupo de super-heróis do passado, no período pós-Segunda Guerra Mundial. 

Entretanto, um dos super-heróis, o Comediante, é assassinado e é isso que acende o rastilho para a investigação por parte dos heróis atuais, embora os flashbacks até ao passado sejam recorrentes para que o autor nos desvende algumas pistas (ou por vezes, nos deixe ainda com mais dúvidas).

Watchmen retrata os super-heróis como indivíduos verossímeis, que enfrentam problemas éticos e psicológicos, lutando contra dúvidas internas e contra os seus próprios defeitos. A obra está carregada de simbolismo e toca em temas tão variados como filosofia, política, ética, moral, história, artes e ciência.

O resultado é uma grande teia de narrativas, inteligentemente interligadas por Alan Moore. No final de cada capítulo, há ainda espaço para textos em prosa que complementam a história dando (muita) mais informação ao leitor, acerca das personagens e dos vários eventos que se vão sucedendo.

E, por fim, no meio desta história que, temporalmente, anda para a frente e para trás, temos ainda uma "sub-sub-narrativa" que se baseia nuns livros de banda desenhada, denominados Contos do Cargueiro Negro, que um jovem vai lendo. O genial Alan Moore e a enorme legião de fãs de Watchmen que me perdoem mas tenho que afirmar que, na minha humilde opinião, Contos do Cargueiro Negro é apenas um filler que não acrescenta nada de verdadeiramente relevante a Watchmen. A meu ver, é uma tentativa de mergulhar ainda mais fundo, nas premissas da banda desenhada, qual exercicío estético, mas que, no final de contas, não é mais do que uma iniciativa pobre, um pouco sem lógica e quase presunçosa, que acaba por sair “ao lado”. Alguns poder-me-ão dizer: “ah mas o texto de os Contos do Cargueiro Negro encaixa que nem uma luva no que, fora dessa banda desenhada, está a acontecer na narrativa de Watchmen”. Discordo. É um texto demasiado abstracto, pouco inspirado até, que poderia ser “enfiado à força” em tantas outras bandas desenhadas, que encaixaria tão bem como em Watchmen. Faz-me lembrar os textos de horóscopo. É um tipo de texto feito para encaixar. Mas é tão artificialmente feito para tal, que acaba por ser vazio. E é por isso que quando leio o meu horóscopo, aquilo até pode fazer algum sentido. Mas se ler o horóscopo de qualquer outro dos restantes 11 signos, também fará sentido à minha pessoa. E a qualquer outra pessoa, claro.

Mas tirando esta irritação que Os Contos do Cargueiro Negro geram em mim, posso dizer que o que é fantástico em Watchmen é a sua natureza original, de uma profundidade muito bem tecida por Alan Moore. Impressionante na narrativa, merece mil vénias. Quanto à arte de Gibbons, diria que cumpre bem (sem ser inesquecível) e que não me merece qualquer tipo de comentário negativo. Mas lá está, a genialidade de Watchmen está no texto, e na teia intricada de tantas narrativas e tantas personagens marcantes, cada uma com a sua própria vivência, valências e fraquezas. Não dira que qualquer ilustrador poderia ter desenhado Watchmen (isso seria desrespeitar o bom legado de Dave Gibbons) mas diria que muitos ilustradores poderiam ter-se sentado nessa cadeira. Já quanto ao texto e história desta obra, já me parece mais claro que, se não houvesse Alan Moore, não haveria Watchmen.

Obrigatório de ler. Pelo menos, uma vez na vida.

NOTA FINAL (1/10):
9.0

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Ficha Técnica
Watchmen
Autores: Alan Moore e Dave Gibbons
Editora: Levoir
Páginas: 432, a cores
Encadernação: Capa dura