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sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

Análise: O Punhal


O Punhal, de Nuno Duarte, João Lemos, Osvaldo Medina, Rita Alfaiate e André Caetano

O único lançamento que este ano a Kingpin Books fez no Amadora BD foi este O Punhal, um álbum que marca o regresso de Nuno Duarte ao lançamento de banda desenhada. E, desta feita, o reverenciado autor faz-se acompanhar por um pequeno "exército" de confirmados talentos nacionais nas ilustrações: João Lemos, Osvaldo Medina, Rita Alfaiate e André Caetano.

Na prática, o livro é dividido por quatro histórias, cada uma delas ilustrada pelos autores supramencionados, que têm em comum o facto de orbitarem em torno de um objeto físico: o punhal que dá nome à obra.

Cada uma das histórias ocorre em tempos diferentes: em 1916, período em que o mundo estava (mais uma vez) dividido ao meio devido à Primeira Guerra Mundial; em 1974, em vésperas do 25 de Abril num Portugal ainda controlado pela PIDE; em 2001, no exato momento em que as Torres Gémeas, em Manhattan, foram alvo de um ataque terrorista; e em 2222, num futuro relativamente longínquo onde as (des)humanas relações entre os intervenientes são assunto principal. 

Em cada uma destas histórias, constituídas escrupulosamente por 14 pranchas, o mesmo punhal marca presença. Gosto desta ideia de unir várias histórias, no tempo e no espaço, através de um artefacto e lembro-me de ter sido algo que, recentemente, pude especialmente apreciar no livro Go West - Young Man, de Tiburce Oger e vários outros autores, que a Gradiva publicou por cá há pouco mais de um ano, e que também tinha em comum a todas as suas histórias o facto de todas elas serem atravessadas por um objeto físico. Nesse caso, era um relógio de bolso.

Neste O Punhal, devo dizer que, infelizmente, não me parece que Nuno Duarte tenha conseguido explanar todo o potencial que este interessante conector narrativo tinha à partida. Na verdade, a presença do artefacto punhal acaba por parecer mais um engodo, uma interligação forçada entre histórias, do que um real elemento fulcral para o desenvolvimento da obra no seu todo. E é apenas por isso que, de algum modo, este livro fica um pouco aquém de outros trabalhos de Nuno Duarte, como O Baile e, especialmente, A Fórmula da Felicidade, dos quais sou confesso admirador.

Mas não me entendam mal. As histórias e temas trazidos por Nuno Duarte parecem-me interessantes e dignos de nota. A "cola" que os une é que me parece menos espessa, menos credível. E se o livro fosse apresentado como uma simples antologia, um livro de contos de Nuno Duarte, provavelmente não só eu não apontaria esta fraqueza à obra, como ainda enalteceria o facto da quarta história fazer uma ponte direta aos eventos vividos na primeira história. Sim, aí sim, há uma ligação direta entre histórias. Na primeira e na quarta. 

Lá pelo meio, há duas histórias que me parecem avulsas e desconectadas do suposto tema central mas que, ainda assim, são as mais interessantes do álbum. Falo da história ilustrada por Osvaldo Medina, que nos remete para o ambiente pesado e assustador de uma sala de interrogatório da PIDE, tema sempre atual e que Nuno Duarte resgata muito bem; e da história ilustrada por Rita Alfaiate - de longe, a melhor das quatro - onde, através de um estilo slice of life, o argumentista nos pinta um belo retrato de uma época mais contemporânea - embora ocorrida há mais de 20 anos(!) -  quando, em 2001, o mundo se chocou perante o ataque ao centro nevrálgico financeiro dos Estados Unidos - e do mundo ocidental - que levou à queda das Torres Gémeas de Nova Iorque e à morte de alguns milhares de pessoas. E tal como as torres foram abaixo, também a relação das duas protagonistas desta história parece estar a sucumbir. O paralelismo encetado por Nuno Duarte é muito bem conseguido.

A primeira história assume uma aura mais fantástica e a última, a que é ambientada no futuro, é de ficção científica que, à boa maneira do género, levanta boas questões sob a forma de uma distopia. A escrita de Nuno Duarte é, como habitual, bastante boa e inspirada.

Em termos de ilustração, cada um dos autores nos oferece um bom trabalho. Osvaldo Medina dificilmente entrega um trabalho mal concebido em termos de desenho; João Lemos dá-nos belas e familiares personagens, cuja expressividade cria empatia com o leitor; e André Caetano, num registo de traço "mais cartoonesco" premeia-nos com pranchas muito dinâmicas na planificação e com um desenho que muito me agrada. 

Se os três autores que refiro são bons e competentes, é Rita Alfaiate, com o seu traço fino e inspirado, que utiliza muitas e belas tramas, quem, na minha opinião, mais brilha neste O Punhal. Acho que o leitor português de banda desenhada já não tem dúvidas quanto a isto mas, de facto, Rita Alfaiate é um autêntico tesouro da 9ª Arte em Portugal. Quando penso que a autora já não me pode impressionar mais pela positiva, sou confrontado com algo novo que me surpreende e me faz ser um verdadeiro fã do seu trabalho. E acho até que, depois de outras duas curtas feitas por Nuno Duarte e Rita Alfaiate, igualmente muito boas, a pergunta sacramental que se impõe é apenas esta: quando é que teremos uma história longa da autoria de Nuno Duarte e Rita Alfaiate cuja criação conjunta em banda desenhada é tão boa e tem tanto potencial?

Todas as histórias são a preto e branco, com os autores a explanarem as potencialidades que essa opção dá. Neste tema, considero que a primeira história, aquela que é ilustrada por João Lemos, não funciona tão bem como as demais, já que a sensação que dá é que a mesma foi feita a cores e depois impressa a preto e branco, com demasiados tons a cinza que retiram algumas potencialidades dos bons desenhos do autor, tornando-os escuros em demasia. Tirando isso, Osvaldo Medina, André Caetano e Rita Alfaiate revelam-se muito à vontade com o preto e branco.

A edição da Kingpin é bastante boa, com o livro a apresentar capa dura baça e bom papel baço no miolo. A impressão, encadernação e design do livro também são igualmente bons, bem ao jeito das edições de Mário Freitas que, para além do design, também assegura a boa legendagem da obra.

Em suma, O Punhal prima especialmente por marcar o regresso de Nuno Duarte ao lançamento de nova banda desenhada e por este trazer consigo uma quase mão cheia de ilustradores. Fica um pouco aquém do enorme potencial que a premissa de usar um punhal como elemento agregador das quatro histórias teria, mas é, ainda assim, um interessante livro de BD que vale a pena conhecer.


NOTA FINAL (1/10):
7.4



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Ficha técnica
O Punhal
Autores: Nuno Duarte, João Lemos, Osvaldo Medina, Rita Alfaiate e André Caetano
Legendagem e design: Mário Freitas
Editora: Kingpin Books
Páginas: 64, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 19,5 x 27 cm
Lançamento: Outubro de 2024

quinta-feira, 24 de outubro de 2024

Levoir lança "Os Lusíadas" em Banda Desenhada!


A Levoir acaba de lançar uma adaptação para banda desenhada da célebre Os Lusíadas, de Camões!

Este é mais um dos livros da coleção Clássicos da Literatura Portuguesa em BD que a editora tem vindo a lançar em parceria com a RTP.

Ao leme desta adaptação estão os autores Pedro Moura (que, da mesma coleção, também adaptou Mensagem, com Susa Monteiro), Daniel Silvestre, João Lemos e Miguel Rocha. E uma das coisas que me está a deixar bastante curioso com este livro em particular é que é desenhado a seis mãos, por três autores distintos. Algo que, convenhamos, é pouco comum na banda desenhada portuguesa.

Posso dizer que fiquei bastante agradado com as pranchas que já vi deste livro. Esta é a primeira de duas partes e espera-se que o segundo livro seja editado no primeiro trimestre de 2025.
Mais abaixo, deixo-vos com a nota de imprensa da editora e com algumas imagens promocionais.


Os Lusíadas - Primeira Parte, de Pedro Moura, Daniel Silvestre, João Lemos e Miguel Rocha

A Levoir e a RTP editaram no passado fim-de-semana na abertura do Festival Amadora BD, Os Lusíadas, uma das obras mais importantes da literatura de língua portuguesa. A obra está integrada numa exposição em conjunto com Mensagem de Fernando Pessoa. 

Pedro Moura fez a adaptação do argumento e Daniel Silvestre, João Lemos e Miguel Rocha a ilustração deste primeiro volume.

Os Lusíadas foram escritos pelo poeta português Luís Vaz de Camões e publicados em 1572. Trata-se de um poema épico, que glorifica o povo português. Narra a descoberta do caminho marítimo para a Índia pelo navegador Vasco da Gama.

Camões nasceu em Lisboa, por volta de 1524. Em 1527, durante uma epidemia de Peste, em Lisboa, D. João III e a corte transferiram-se para Coimbra, os pais e Camões com apenas três anos, acompanharam o rei.

Luís de Camões viveu a sua infância na época das grandes descobertas marítimas e também no início do Classicismo em Portugal. Foi aluno do colégio do convento de Santa Maria e tornou-se um profundo conhecedor de história, geografia e literatura.

Em 1537, D. João III transferiu a Universidade de Lisboa para Coimbra. Camões iniciou o curso de Teologia, mas levava uma vida irrequieta, desordeira, além da fama de conquistador, mostrando pouca vocação para a Igreja.

Em 1544, com 20 anos, deixou as aulas de teologia e ingressou no curso de filosofia. Já era conhecido como poeta. 

Nessa época, compôs uma elegia à Paixão de Cristo, que ofereceu ao seu tio. 

Os seus versos revelam que estudou os clássicos da Antiguidade e os humanistas italianos.

Leitura obrigatória para o 9º ano.

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Ficha técnica
Os Lusíadas - Primeira Parte
Autores: Pedro Moura, Daniel Silvestre, João Lemos e Miguel Rocha
Adaptado a partir da obra original de: Luís de Camões
Editora: Levoir
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 210 x 285 mm
PVP: 15,90€

sexta-feira, 11 de outubro de 2024

Kingpin volta aos lançamentos de BD!


A Kingpin Books volta a trazer-nos uma nova edição de banda desenhada nacional! E desta vez, é um álbum que reúne uma mão cheia de autores portugueses!

Com argumento de Nuno Duarte (autor de A Fórmula da Felicidade ou de O Baile), este novo livro intitula-se O Punhal e conta com ilustrações de João Lemos, Osvaldo Medina, Rita Alfaiate e André Caetano. Um belo conjunto de autores, diga-se.

Estive na apresentação deste livro no Maia BD, com a presença de Nuno Duarte e do editor Mário Freitas, e posso dizer-vos que fiquei bastante entusiasmado com esta obra, já que o conceito de ter um artefacto - neste caso um punhal - que atravessa as quatro mini histórias, separadas no tempo e no espaço, me parece uma premissa muito interessante. 




O livro terá lançamento no Amadora BD, no próximo sábado, dia 19 de Outubro, às 17h.

Por agora, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.

O Punhal, de Nuno Duarte, João Lemos, Osvaldo Medina, Rita Alfaiate e André Caetano

Pode um punhal ser mais que um punhal? Ao longo de quatro épocas diferentes, um único objecto misterioso entrelaça destinos e revela segredos profundos. Um amor fatídico e uma mente fragmentada, em 1916; a tensão opressiva de uma cela da PIDE, em 1974; um casal à beira do colapso emocional, durante o caos de 2001; um futuro onde a humanidade e a identidade são questionadas, em 2222.

Cada história tece fios de dor, desespero e desejo, orbitando em torno do mesmo punhal, cujos ecos atravessam o tempo. Mas será o punhal símbolo de destruição? De libertação? Ou algo muito mais profundo, ligado à essência humana e aos nossos destinos mais sombrios? À medida que a sua lâmina corta gerações, cada protagonista é confrontado com decisões que mudam não só as suas vidas, mas o próprio tecido do tempo.

Uma viagem ao âmago das escolhas e mentiras que contamos a nós próprios, e dos sacrifícios que fazemos em nome do amor, da lealdade e da sobrevivência, num épico que atravessa séculos, que conecta o passado ao futuro — e o que nos une a todos, além do tempo.

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Ficha técnica
O Punhal
Autores: Nuno Duarte, João Lemos, Osvaldo Medina, Rita Alfaiate e André Caetano
Legendagem e design: Mário Freitas
Editora: Kingpin Books
Páginas: 64, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 19,5 x 27 cm
PVP: 16,99€