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terça-feira, 14 de outubro de 2025

Análise: Wendigo

Wendigo, de Nunsky - Chili com Carne

Wendigo, de Nunsky - Chili com Carne
Wendigo, de Nunsky

Depois do fantástico Companheiros da Penumbra, uma das minhas bandas desenhadas portuguesas preferidas dos últimos anos, eis que Nunsky, o autor, regressou recentemente ao lançamento de nova banda desenhada.

Desta vez, decidiu adaptar para BD o conto clássico The Wendigo, da autoria de Algernon Blackwood, publicado originalmente há bem mais do que 100 anos, em 1910, no volume The Lost Valley and Other Stories

A narrativa desta curta história situa-se nas remotas florestas do norte do Ontário, no Canadá, num cenário severo, gelado e solitário, onde a natureza é selvagem e indiferente à presença do Homem e em que o sobrenatural vai(?), pouco a pouco, erodindo a sanidade das personagens que aí procuram fazer uma expedição para caça aos alces.

Os protagonistas são Simpson, um jovem estudante de teologia, o seu tio, o Dr. Cathcart, chefe da expedição, os guias Hank Davis e Joseph Défago e o cozinheiro índio, Punk, que permanece no acampamento principal enquanto os restantes quatro homens se dividem para prosseguir a caça ao alce.

Wendigo, de Nunsky - Chili com Carne
O ambiente é taciturno, sombrio e os silêncios são entrecortados pelo barulho de alguns animais não tão distantes assim, o que convida ao medo e à insegurança, especialmente do protagonista Simpson. A viagem torna-se, pois, cada vez mais inquietante, quando os quatro homens se separam em dois grupos: Simpson e Défago por um lado, e Hank Davis e o Dr. Cathcart por outro.

A escuridão que persegue os homens é meio convite andado para que eles se percam, claro. E a meio duma noite, assombrado pelas sensações de algo estranho, como odores e estranhos sons no vento, bem como vislumbres ou pressentimentos, Défago levanta-se e sai da tenda onde dormia para tentar confrontar esses chamamentos que parece estar a receber. Uma abordagem clássica de conto de horror, diria. Mas importa dizer também que todas estas coisas estranhas, pródigas em histórias de terror, são-nos dadas de um modo pouco definido e nunca totalmente explicado. São apenas meras sugestões. O que aumenta o clima de suspense que impregna toda a história e que me agradou especialmente.

Wendigo, de Nunsky - Chili com Carne
Défago acaba por desaparecer misteriosamente durante algum tempo, o que leva ao aumento da sensação de sufoco vivida pelo protagonista. Contudo, é quando Défago regressa que as coisas ficam ainda mais estranhas, já que o homem parece estar mentalmente abalado, quase sem memória e profundamente modificado (física e psicologicamente) pelo que viu ou experienciou. Terá encontrado a criatura de Wendigo ou não passará isso de uma mera "história da carochinha"? Um mito sem fundamento? Mais não digo, para não estragar surpresas a eventuais interessados que se iniciem na leitura da obra depois de lerem o meu texto.

Mas posso reforçar que aquilo que mais aprecio nesta obra é que a mesma funcione mais em em torno da atmosfera do que duma história mais do foro da fantasia. Acaba por ser mais madura e ter mais capacidade de "aterrorizar" o leitor - pelo menos, na minha opinião - esta forma de deixar o temor por algo a pairar no ar, atrasando ou anulando tudo o que é explícito. É um horror “sussurrado” que perturba mais pela sugestão do que pelo visível.

Wendigo, de Nunsky - Chili com Carne
Através de uma adaptação com uma centena de páginas, Nunsky consegue captar muito bem essa ideia de terror ambiental e sugerido da obra original, o que será um dos maiores feitos desta obra. Era fácil adaptar esta obra em, por exemplo, 40 páginas de banda desenhada. Menos de metade da proposta de Nunsky. Mas não tenho dúvidas que os sentimentos experenciados pelo leitor dessa opção não seriam tão impactantes como nesta boa solução de Nunsky que, utilizando todas estas páginas, permite que ação seja pausada e que o clime de insegurança sentido pelas personagens e pelo leitor, aumentem uma boa leitura envolvente.

De resto, e no que respeita à fidelidade ao conto original, Nunsky respeita muito bem as principais linhas de Blackwood, tais como o cenário remoto, a natureza como protagonista indireta, a relevância das personagens dos guias, o progresso gradual do horror, a ambiguidade do sobrenatural. Acaba por ser uma tradução visual da narrativa, sem a transformar ou reinterpretar de modo radical, deixando que o leitor conheça a história de Blackwood através de imagens e ritmo gráfico, mas mantendo o mesmo tom sombrio e introspectivo.

Visualmente, o preto e branco utilizado por Nunsky volta a ser um dos pontos mais fortes da obra. O uso de contrastes fortes, sombras densas, silhuetas, neve, árvores, penumbra, e o ambiente gelado da floresta são bem captados pelo seu virtuoso traço. A ambientação visual dos seus desenhos reforça deste modo o suspense, a estranheza e a sensação de que algo está além do visível. O estilo de Nunsky continua a mostrar uma grande maturidade visual e uma dosagem certa entre detalhe e economia gráfica.

Wendigo, de Nunsky - Chili com Carne
Se me posso queixar de algo nesta bela adaptação foi que, como é uma história muito sombria, os desenhos também são logicamente escuros e isso leva a que pareça que toda a ação se desenrola de noite quando, na verdade, isso não acontece, já que a passagem do dia para a noite tem relevância do ponto de vista narrativo. Talvez o autor devesse ter conseguido, através da luminosidade das cenas, ter trabalhado melhor esta questão que, mesmo assim, não é algo que possamos considerar como gritante.

E seja como for, Wendigo, como obra gráfica, é mais um exemplo do bom trabalho que Nunsky tem feito. Neste caso em concreto, não só nos oferece o seu domínio da ilustração em banda desenhada, como tem o mérito de nos trazer uma obra clássica com qualidade estética e literária para o público português. 

A edição da Chili com Carne é cuidada e bonita, tendo o livro capa mole, em estilo flexicover, o que dá um certo requinte à edição. No interior, o livro apresenta bom papel baço e uma boa encadernação e impressão.

Sendo o trabalho do Nunsky de tanta qualidade, a única coisa que lamento é que a distribuição dos seus livros seja curta em qualidade e quantidade, tornando as suas obras difíceis de encontrar e apenas disponíveis para uma pequena franja de público que poderia ser bem maior... caso o livro chegasse a mais pessoas, claro está. 

Em suma, Wendigo de Nunsky é uma adaptação sólida e fiel do clássico de Blackwood, que consegue transpor a tensão e o suspense da narrativa original para a linguagem da banda desenhada sem perder a sua essência. O traço a preto e branco é cuidado, apelativo e eficaz na criação da atmosfera, reforçando o horror psicológico e o isolamento da floresta canadiana, confirmando o autor português como um criador consistente e confiável no panorama da BD portuguesa, merecendo sem dúvida maior visibilidade.


NOTA FINAL (1/10):
8.4


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Wendigo, de Nunsky - Chili com Carne

Ficha técnica
Wendigo
Autor: Nunsky
Editora: Chili com Carne
Páginas: 104, a preto e branco
Encadernação: Capa mole (flexicover)
Formato: 16,5 x 23 cm
Lançamento: Maio de 2025

sexta-feira, 29 de setembro de 2023

Sendai Editora lança livro em parceria com a Chili com Carne!



De tempos a tempos, vamos assistindo por cá a co-edições de banda desenhada e, desta feita, é a vez da Sendai Editora unir esforços com a Chili com Carne para o lançamento conjunto de um mangá.

A obra em questão é Tóquio Zombie, do autor Yusaku Hanakuma.

Ainda não é conhecida uma data de lançamento em loja mas o livro já pode ser adquirido nos sites, quer da Sendai Editora, quer da Chili com Carne.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.


Tóquio Zombie, de Yusaku Hanakuma
A Sendai Editora e a Associação Chili com Carne têm o prazer de divulgar o seu novo lançamento: “Tóquio Zombie”, de Yusaku Hanakuma, a ser lançado brevemente.

Publicar um livro de zombies depois da primeira década deste milénio pode parecer um ato anacrónico, mas eis que "Tóquio Zombie", de Yusaku Hanakuma, é muito mais do que uma cómica história de terror, pois vive da grande tradição das narrativas de zombies em que se critica o status quo.

Tudo começa nos aterros do Fuji Negro, onde lixo e cadáveres são enterrados sem qualquer pudor, e que acaba por dar origem a uma praga zombie que mudará o mundo.

E é lá que encontramos os nossos heróis Fujio e Mitsuo, operários fabris praticantes de jiu-jitsu. Mas será que esta arte marcial que dá-lhes vantagem de sobrevivência na maldição zombie, também os ajudará a resistir a uma nova sociedade distópica entre muralhas?

Entre burgueses, porcos e escravos, eles devem lutar para sobreviver numa Tóquio Zombie!

Esta obra foi produzida entre 1998 e 1999 para a revista AX, insere-se no estilo "heta-uma" (mau, mas bom) e apesar do seu grafismo destabilizador, teve uma adaptação para cinema em 2005, pelo realizador Sakichi Sato, com participações dos atores Tadanobu Asano (Ichi, o Assassino) e Show Aikawa (Dead or Alive).

Exclusivo da edição nacional, um posfácio a contextualizar o heta-uma pela artista e pesquisadora portuguesa Hetamoé.

Da presente edição foram feitos 200 exemplares com uma capa e sobrecapa diferentes, inseridos na coleção RUBI da Associação Chili Com Carne.

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Ficha técnica
Tóquio Zombie
Autor: Yusaku Hanakuma
Editoras: Sendai Editora e Associação Chili com Carne
Páginas: 160, a preto e branco
Encadernação: Capa mole
PVP: 15,00€


segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

10 Livros de BD Portuguesa para oferecer no Natal 2022!


Bem sei que, há poucos dias, vos dei um Guia de Compras de Natal em que escolhi 3 livros para cada uma das principais editoras de banda desenhada em Portugal. 

Mesmo assim, e porque me parece óbvia a melhoria de qualidade que se tem registado na banda desenhada nacional durante os últimos anos, bem como é visível - convém não esquecer! - o reforço da aposta nos autores portugueses por parte de cada vez mais editoras portuguesas, acho que é merecido que vos apresente 10 livros que considero que são ótimas prendas para oferecer no Natal! Ou, se não para oferecer, para que os leitores do Vinheta 2020 comprem para si próprios.

Devo dizer que, se me foi fácil chegar a 5 ou 6 posições deste TOP 10, foi-me bastante difícil deixar algumas boas obras de fora. Mas, lá está, falar de todos os bons livros seria mais fácil. Como sei que o dinheiro não dá para tudo, deixo-vos com as minhas 10 recomendações de livros de BD nacional, lançados em 2022.

terça-feira, 6 de dezembro de 2022

Análise: Companheiros da Penumbra

Companheiros da Penumbra, de Nunsky - Chili com Carne

Companheiros da Penumbra, de Nunsky - Chili com Carne
Companheiros da Penumbra, de Nunsky

Quem pôde visitar o Amadora BD deste ano, certamente não ficou indiferente a uma das exposições do evento, que era dedicada a Companheiros da Penumbra, o mais recente trabalho do autor português Nunsky. Por um lado, pela qualidade da exposição, que nos remetia para um ambiente urbano, negro, sujo e punk, que acabava por ser bastante impactante. Por outro lado, porque não eram precisos muitos segundos para que nos saltasse à vista a qualidade das pranchas ali expostas.

Foi uma obra parcamente anunciada pela editora, Chili com Carne, e, talvez também por isso, apanhou muita gente desprevenida até ao dia do seu lançamento, no Amadora BD. Mas agora, depois de lido este grande livro, com mais de 300 páginas, posso dizer-vos que este é um dos livros do ano, em termos do lançamento de banda desenhada nacional.

O que Nunsky, autor de Erzsébet, nos traz neste Companheiros da Penumbra é simples em termos de história, mas verdadeiramente complexo e admirável em termos da dimensão e detalhe visual com que essa mesma história simples nos é dada. 

Companheiros da Penumbra, de Nunsky - Chili com Carne
A síntese é linear: esta obra procura ser um quase livro de memórias, em que o autor nos convida a (re)viver os anos 90 portuenses, com especial destaque para o aparecimento da cena gótica. Lembram-se da malta do secundário que se vestia de preto, com enormes botas Doc Martens, crucifixos e pentagramas pendurados ao pescoço? É sobre esta tribo urbana e toda a cultura que lhe é tida como adjacente que se baseia este livro. Ler Companheiros da Penumbra é uma viagem a um passado relativamente recente em que a música, o cinema, as festas e os convívios entre góticos ganhavam expressão nos centros urbanos. Particularmente em Lisboa e no Porto. Mas o livro centra-se no Porto, e em toda a cena gótica da cidade, em particular.

Em termos de história, acompanhamos as aventuras de várias personagens, mas o principal enfoque é em Alex Nogueira e no próprio Nunsky (Paulo) que, tendo interesses comuns, começam por formar uma banda que procura tocar rock gótico. Não é de admirar que bandas como Siouxsie and the Banshees, Joy Division, The Cure ou, especialmente Bauhaus, sejam referências óbvias para a música que a banda de Paulo e Alex, a quem se juntam Igor e Marco, quer fazer. 

Companheiros da Penumbra, de Nunsky - Chili com Carne
A partir daqui, acompanhamos o início da caminhada da banda que dá pelo nome de "The Ids". Desde a procura pelo nome, aos primeiros ensaios, às entradas e saídas de membros do coletivo, até aos primeiros concertos. Mas este não é apenas um livro sobre a formação de uma banda de rock gótico. Diria que a questão da banda será apenas parte da caminhada destes amigos, já que, ao volante de um Fiat Uno – esse automóvel tão característico dos anos 90 -, vamos conhecendo aquilo que será mais uma história nostálgica de uma amizade entre jovens que nutrem gostos e preferências semelhantes do que, apenas e só, a história de uma banda de garagem. A banda aparece porque é parte dessa amizade e dessa caminhada. Os relacionamentos amorosos com as raparigas, que começam a seguir a banda, também marcam presença, bem como as festas no mítico Heaven’s, a rodagem de filmes ou os grandes feitos ou fracassos nos variados projetos artísticos destes jovens.

Para o bem e para o mal, fica-se com a ideia que nos é oferecido por Nunsky um conjunto de episódios datados nos anos 90. E todo o livro é como se fosse uma manta de retalhos de memórias. Se, por um lado, é verdade que não há um fio condutor claro que possa ligar com mais detalhe alguns episódios que parecem ser avulsos, por outro lado, também não se pode dizer que a história não vá tendo uma ligação, mesmo que ténue, entre si. Porque vai. Simplesmente, senti falta de uma narrativa mais coesa nesse ponto.

Companheiros da Penumbra, de Nunsky - Chili com Carne
Estando a história carregada de referências reais, também parece haver um grande conjunto de elementos ficcionais o que, quanto a mim, até ajuda a criar uma certa aura de misticismo e de interesse aumentado nestas figuras. Se pesquisarmos por várias das coisas que acontecem neste Companheiros da Penumbra, veremos que algumas delas aconteceram mesmo. Já quanto a outras, como o nome da própria banda The Ids, por exemplo, não encontramos qualquer referência na internet. Aprecio essa ficção bem inserida numa história carregada de elementos reais.

Mas se a história traz consigo uma viagem bem aprofundada e detalhada à cena gótica portuense dos anos 90, é nas ilustrações que Nunsky mais consegue impressionar.

Em primeiro lugar, comecemos por abordar a dimensão da obra que temos em mãos. Com mais de 300 páginas, não surpreende que este livro tenha demorado mais de 5 anos a ser feito. Isto porque, e convém não esquecer, não estamos a falar de um estilo de ilustração que seja simples e rápido de fazer. Ao invés, o traço fino e virtuoso de Nunsky é realista e pleno de detalhe. 

Companheiros da Penumbra, de Nunsky - Chili com Carne
Sendo completamente a preto e branco, torna-se claro e impressionante o belo domínio do autor nos mais variados níveis da ilustração: as personagens são verossímeis e as suas expressões e linguagem corporal são representadas de forma muito realista pelo autor. Os cenários também recebem belos detalhes que dão profundidade cénica a toda a experiência visual. Uma nota de espanto e admiração tem que ser dada à forma como, por vezes, o autor nos presenteia com uma ilustração mais dramático-poética que torna a experiência muito gratificante para o leitor. É incrível o virtuosismo de Nunsky nas ilustrações. Um verdadeiro talento.

Se há uma única coisa que, em termos de desenho não me agradou tanto, foi que tive dificuldade em distinguir as personagens demasiadas vezes. Todas elas são muito bem desenhadas, mas difíceis de distinguir em vários momentos. Os penteados podem ajudar um pouco, mas como estamos a falar de uma tribo que se vestia de forma idêntica, o que fazia com que tivesse um aspeto semelhante entre si, acaba por ser algo que impacta a fluidez da leitura. Mas, enfim, é apenas uma queixa num trabalho tão grandioso do autor.

Companheiros da Penumbra, de Nunsky - Chili com Carne
Não costumo falar muito de balonagem e legendas, a menos que seja algo muito positivo ou muito negativo para a minha experiência enquanto leitor.

E, em Companheiros da Penumbra, a legendagem é, por si só, uma outra "personagem" que se impregna nas numerosas cenas musicais. Dito por outras palavras, para nos dar a ideia de que há música a tocar, sempre que as personagens estão no Heaven’s, por exemplo, conseguimos percecionar as músicas de fundo através das legendas com letras garrafais que nos dizem que música é. 

A esse propósito, no final do livro há uma lista com todas as músicas que foram apresentadas ao longo do livro. É um bom complemento embora me pareça que talvez tivesse sido preferível que cada música e banda recebessem uma breve nota no final de cada prancha. Assim tornar-se-ia mais automático para o leitor saber que música era aquela, daquela página, e que banda tornou esse tema célebre, sem ter que saltar até à cábula da última página.

Companheiros da Penumbra, de Nunsky - Chili com Carne
Finalmente, também fiquei admirado com a capacidade do autor em conseguir dar-nos – pelo menos, em termos visuais pois, em termos de argumento talvez isso não aconteça tanto – uma enorme diversidade de momentos. Temos, portanto, uma planificação dinâmica, com planos e enquadramentos vários que fazem com que a leitura visual da obra não se torne repetitiva ao longo de tantas páginas. Já em termos de história, senti alguma redundância em alguns momentos (demasiado?) mundanos na vida destas personagens.

A edição da Chili com Carne é em capa mole, com generosas badanas, e um papel que, embora competente, poderia ser mais robusto e menos frágil. No final da obra temos ainda um texto de Alex Nogueira – uma das pessoas que inspirou a história –; a tal lista de músicas que já referi acima; e quatro páginas em que são traduzidas para português algumas falas que ao longo do livro nos foram dadas em inglês ou em castelhano.

Em suma, esta obra é uma autêntica tour de force de Nunsky. Não descurando tudo aquilo que o autor já nos deu em obras passadas, é com este Companheiros da Penumbra que o autor esculpe com letras gordas o seu nome no panteão da banda desenhada nacional. Imprescindível e uma das melhores BD’s portuguesas do ano.


NOTA FINAL (1/10):
9.1



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Ficha técnica
Companheiros da Penumbra
Autor: Nunsky
Editora: Chili com Carne
Páginas: 318, a preto e branco
Encadernação: Capa mole
Formato: 19 x 26 cm
Lançamento: Outubro de 2022

quinta-feira, 12 de março de 2020

Lançamento: Pentângulo #3



Lançamento: Pentângulo #3

A Editora Chili com Carne acaba de anunciar o lançamento do terceiro volume de Pentângulo, que dá continuidade à parceria entre o Ar.Co e a Chili Com Carne.

Eis a nota de imprensa e imagens disponibilizadas pela editora:

Pentângulo #3 - Construção, Pato Inglês, caralhos tratam-nos como conas, Shoppings, gatinho, Max Aub, + Indie e xenofobia,...

A Pentângulo é uma publicação que confere visibilidade ao trabalho de novos autores cuja formação tenha sido feita no curso de Ilustração e Banda Desenhada do Ar.Co. Sem hierarquias, nomes consagrados e estreantes, alunos, ex-alunos e professores misturam as suas imagens e palavras numa saudável promiscuidade.

Neste primeiro número colaboram Ana Dias, Anna Bouza, Beatriz Alves, Catarina Ramos, Cecília Silveira, Cláudia Pinhão, David Pulido, Diogo Candeias, Francisco Monteiro,  Francisco Sousa Lobo, Inês Cóias, João Ernesto, Luis Sequeira, Marcos Farrajota (com texto sobre a edição independente portuguesa 2019), Mariana Vale, Rebeca Reis, Rodolfo Mariano, Rosa Francisco, Sara Baptista, Sara Boiça, Sara Tanganho, Tiago Albuquerque, Tiago Baptista e Vasco Ruivo.


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Ficha Técnica
Pentângulo #3 - Construção, Pato Inglês, caralhos tratam-nos como conas, Shoppings, gatinho, Max Aub, + Indie e xenofobia,...
Autores: Vários
Editora: Chili com Carne e Ar.Co
Páginas: 128 (16 a cores e as restantes a preto e branco)
Encadernação: Capa Mole
PVP: 10,00€

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Lançamento: Renda Barata e outros cartoons de Stuart Carvalhais n’A Batalha

A série Mercantologia, da Chili com Carne, chega ao volume 14, mantendo a sua dedicação relativamente à recuperação de material perdido no mundo dos fanzines e afins. Este 14º volume é editado por António Baião e Marcos Farrajota, com design de Joana Pires e co-editado pela Chili Com Carne e o jornal de expressão anarquista A Batalha - no âmbito do seu centenário.

Apresenta-os a totalidade dos cartoons de Stuart Carvalhais identificados pelos editores n'A Batalha e no seu Suplemento Ilustrado, entre 1923 e 1925.

Fiquem com a capa, algumas páginas e com a nota de imprensa de editora:




Quando o nome de Stuart Carvalhais (1887-1961) é referido pela segunda vez no diário A Batalha, a 22 de Fevereiro de 1921, dificilmente se poderia augurar um futuro radiante para o cartoonista nas publicações periódicas ligadas à Confederação Geral do Trabalho. Nessa data, o jornalista Mário Domingues escrevia as seguintes linhas: “O sr. Stuart de Carvalhais, colega de Jorge Barradas, sujeito como este a ser amanhã vilmente caluniado por aqueles que ora o afagam, não se envergonhou de aceitar apressadamente o cargo de director do ABC a rir, sabendo como foi injustamente tratado o que o antecedeu. O sr. Stuart Carvalhais julga os seus actos como entende, bem sei; procede a seu bel-prazer. É possível que considere correcta a sua acção. Eu, porém, classifico-a simplesmente de traição”. (...) Apenas dois dias depois, Domingues retratar-se-ia deste duro julgamento. Alegadamente, o Barradinhas teria mesmo merecido ser despedido, mas isso não impediu o jornalista de sublinhar que “no lugar do sr. Stuart, não [aceitaria] esse lugar, não porque isso acarretasse para [si] rebaixamento moral, mas porque esse acto poderia fazer crer ao público, desconhecedor dos bastidores da questão, que não tinha sido leal a sua forma de proceder”. 

Por esta altura, o percurso de Stuart estava ainda afastado do periodismo libertário (...) tinha já colaborado proficuamente no Século Cómico, O Zé, Gil Blas, A Lanterna ou na Ilustração Portuguesa. Em 1914, contribui para o monárquico O Papagaio Real, sob a direcção artística de Almada Negreiros. No ano seguinte, regressa ao Século Cómico, onde inicia a série «Aventuras do Quim e Manecas», e em 1920 junta-se a Barradas em O Riso da Vitória. Depois de se tornar director do ABC a rir, colaborará no ABC e no ABCzinho. Até que se chega a 1923, mais precisamente a 30 de Novembro, e logo na primeira página do n.º 1539 de A Batalha pode ler-se: “Inicia hoje a sua colaboração em A Batalha o conhecido caricaturista e nosso prezado amigo Stuart Carvalhais, cujo lápis exímio e irreverente irá dar aos nossos leitores monumentos de incomparável prazer. Stuart Carvalhais, cujo mérito está acima dos nossos elogios, principia a sua colaboração no nosso jornal com uma série de desenhos, plenos de graça, de comentário ao caso da falsificação dos bilhetes de Tesouro, que tanto tem dado que falar”. 

Os diferendos entre Stuart e a redacção do jornal estariam, agora, plenamente sanados, iniciando-se uma colaboração de três anos com a Secção Editorial de A Batalha. Durante este período, não houve periódicos que tenham recebido mais contributos de Stuart do que o diário, o Suplemento Literário e Ilustrado de A Batalha e a Renovação. Significa isto que Stuart se teria convertido à Ideia anarquista? Ou que teria passado por uma fase monárquica, por ter colaborado em O Papagaio Real e na Ideia Nacional, de Homem Cristo Filho? Provavelmente o mais sensato será rejeitar qualquer uma destas conclusões apressadas. Talvez Osvaldo de Sousa não esteja muito longe da verdade quando afirma que “Stuart era um céptico na política, um anarquista na destruição ideológica e um político-desenhador na expressão do sofrimento, miséria e vida do povo”.


Ficha Técnica:
Renda Barata e outros cartoons de Stuart Carvalhais n’A Batalha
Editora: Chili com Carne
Páginas: 192, a preto e branco
Encadernação: Capa mole
PVP: 10€