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terça-feira, 26 de maio de 2026

Análise: Rare Flavours - Uma Viagem aos Sabores de Rubin Baksh

Rare Flavours - Uma Viagem aos Sabores de Rubin Baksh, de Ram V e Filipe Andrade - Kingpin Books

Rare Flavours - Uma Viagem aos Sabores de Rubin Baksh, de Ram V e Filipe Andrade - Kingpin Books
Rare Flavours - Uma Viagem aos Sabores de Rubin Baksh, de Ram V e Filipe Andrade

Este era um dos livros que eu mais queria ler, confesso-vos. Depois do espetacular As Muitas Mortes de Laila Starr, em que ficou claro como a obra tinha uma muito criativa premissa narrativa e um fantástico texto a acompanhá-la, de Ram V, bem como uma bela ilustração por parte do português Filipe Andrade, estava desejoso de ler este Rare Flavours - Uma Viagem aos Sabores de Rubin Baksh, que a editora Kingpin Books acaba de publicar.

Tinha lido muitas coisas positivas sobre esta obra, sabia que era algo completamente diferente de As Muitas Mortes de Laila Starr e que tinha como temas centrais a gastronomia indiana e alguns elementos fantasiosos. Mas pouco mais eu sabia sobre a obra.

Estava à espera, portanto, de algo que fosse bom, sim, mas devo confessar-vos que as minhas expectativas foram redondamente superadas! Confesso-vos: fiquei maravilhado com esta obra.

Eis uma banda desenhada única, bela, poética, madura e inesquecível, que nos faz parar um pouco da azáfama dos nossos dias em excesso de velocidade para que possamos refletir - realmente - sobre o sentido da vida e como melhor vivê-la. Ou apreciá-la.

Rare Flavours - Uma Viagem aos Sabores de Rubin Baksh, de Ram V e Filipe Andrade - Kingpin Books
Rare Flavours
acompanha a viagem improvável de dois protagonistas: por um lado, temos um demónio antigo, curioso e contemplativo, que deseja tornar-se numa espécie de novo Anthony Bourdain; por outro lado, temos um jovem cineasta humano que decide - um pouco a contragosto - documentar a jornada gastronómica do demónio. Juntos, encetam uma viagem em que percorrem diferentes regiões da Índia em busca de experiências culinárias únicas, experimentando pratos preparados por pessoas comuns, tais como cozinheiros de rua ou cozinheiros domésticos. Mas todos eles são autênticos guardiões de tradições locais, da comida tradicional e da forma como a mesma é confeccionada desde sempre.

Mas não pensem que esta é uma viagem meramente gastronómica e quase turística, porque não o é. Ao invés, é muito mais uma exploração do que significa viver, lembrar e deixar um rasto no mundo.

À medida que as personagens avançam pelo seu périplo, cada refeição transforma-se numa porta para histórias mais profundas, enquanto vamos percebendo que este Demónio encerra em si verdades ocultas que tardam a ser reveladas. E tudo isto enquanto são perseguidos por dois homens que querem matar o Demónio.

Rare Flavours - Uma Viagem aos Sabores de Rubin Baksh, de Ram V e Filipe Andrade - Kingpin Books
Enquanto o protagonista desta história parece mais interessado em compreender aquilo que torna os humanos tão ligados ao efémero, o cineasta procura capturar algo que, por natureza, não pode ser totalmente preservado. A história desenvolve-se assim como uma meditação poética sobre o tempo, a mortalidade e a beleza dos pequenos gestos, das pequenas coisas da vida, onde a comida serve de elo entre o corpo, a cultura e a alma.
 
O próprio título da obra não poderia ser mais acertado, já que este é um livro que mais do que se ler... degusta-se. Saboreia-se. Até vou mais longe e confirmo que estamos perante um banquete sensorial, uma peregrinação pela memória, pelo sabor e pelo invisível que habita entre os dois.

E a escrita de Ram V, meus caros, parece melhor e mais inspirada do que nunca! Solta, leve, densa, ritmada, com frases passíveis de serem citadas a cada duas páginas. A história é menos sobre aquilo que é visto e mais sobre aquilo que é sentido: o peso da história, a permanência dos gestos, a eternidade que se esconde no quotidiano.

Rare Flavours - Uma Viagem aos Sabores de Rubin Baksh, de Ram V e Filipe Andrade - Kingpin Books
E, claro, o tema da comida, e da gastronomia indiana em concreto, não nos é dado apenas como alimento, mas como memória física. Seja essa memória pessoal ou coletiva. Seja o sabor que marcou a existência de todo um povo e que foi sendo recapturado cada vez que alguém cozinhava cada prato como deve ser, cumprindo todas as pequenas regras e caprichos gastronómicos; seja o sabor de uma comida caseira, cozinhada de determinada forma, que parece permanecer mais no nosso coração do que nas nossas papilas gustativas. Já vos aconteceu? Certamente que sim.

Cada prato descrito torna‑se uma cápsula de tempo, um fragmento de existência preservado na especiaria certa, no método antigo, no calor humano de quem cozinha. Ram V constrói uma espécie de filosofia do paladar: comer é recordar, é honrar, é atravessar gerações.

E há algo de muito melancólico nesta abordagem. A cada nova refeição, sentimos a urgência da preservação, como se as receitas que nos são dadas - e as histórias que as acompanham em paralelo - estivessem prestes a desaparecer. E talvez estejam. Rare Flavours é, nesse sentido, uma ode ao que resiste… mas também ao que inevitavelmente se perde.

Rare Flavours - Uma Viagem aos Sabores de Rubin Baksh, de Ram V e Filipe Andrade - Kingpin Books
O que torna esta obra ainda mais fascinante é, quanto a mim, a forma como Ram V mistura o sobrenatural com o profundamente humano. O demónio acaba por não ser uma figura de horror, mas de curiosidade, pois quer apenas compreender aquilo que torna a vida humana tão extraordinariamente significativa. 

Outra coisa que também apreciei bastante, é a forma como o autor brinca com a narrativa, deixando-nos um pouco à deriva mais no início da obra, até que, lá mais para o meio, nos puxe para dentro do seu "barco" e nos leve a navegar ao sabor do seu texto.

Confesso que a introdução das receitas ao longo do livro me chateou um bocado, pois tinha sempre o condão de me distrair da bela narração e diálogos verosímeis de Ram V. E fê-lo de todas as vezes em que isso aconteceu. Percebo a ideia, claro, mas parece-me que faz menos pela história do que aquilo que, eventualmente, os autores poderão ter achado que faria. Mesmo assim, é um detalhe apenas. Não é isso que corrói esta experiência fantástica de leitura. 

Rare Flavours - Uma Viagem aos Sabores de Rubin Baksh, de Ram V e Filipe Andrade - Kingpin Books
E se o texto de Ram V é poético e evocativo, deixem-me dizer-vos ainda que as ilustrações do "nosso" Filipe Andrade são quase translúcidas, na medida em que nos oferecem páginas que mais do que ilustrar a história, parecem dissolver as fronteiras entre o que é contado por palavras e o que é ilustrado por desenhos. O que faz com que toda a experiência, mais uma vez, seja poética, com os corpos a alongarem-se e os rostos das personagens a desvanecerem-se. Como se tudo fosse um sonho. Em vez de desenhar cenas, o autor parece desenhar sensações. 

E há uma fluidez impressionante no traço de Filipe Andrade, que aqui se mostra ainda mais livre e, diria, confiante, do que em As Muitas Mortes de Laila Starr. Parece que cada página está em movimento contínuo. Para isso, também importa não esquecer que a cor desempenha um papel fundamental: as cores são bastante quentes, vibrantes, quase táteis, com os tons a evocar o calor das cozinhas, o fervor das ruas e a quentura das paisagens indianas. 

A edição da obra, por parte da Kingpin Books - e bem da forma a que o seu editor, Mário Freitas, nos tem habituado - é muito cuidada. A capa é dura e baça, com detalhes a verniz. No miolo, o papel é brilhante e de boa gramagem. A impressão, encadernação e acabamentos também são de primeira linha. No final, temos ainda uma galeria de extras, que inclui as seis capas da obra quando foi lançada em números, estudos de capa e de personagem, e ainda belos posfácios de ambos os autores.

Em suma, Rare Flavours deixa-nos com uma rara sensação de termos saboreado um prato inesquecível. Daqueles que não conseguimos descrever totalmente, mas cujo aftertaste (desculpem o anglicismo) é belo e permanece por longos momentos. E num mundo apressado, onde tudo é consumo imediato, Ram V e Filipe Andrade oferecem-nos uma experiência que exige presença. Que nos pede para parar, para sentir e para lembrar que talvez ainda devamos acreditar na beleza, na memória e no poder transformador de uma boa história… servida à temperatura certa e com o tempero ideal, claro.


NOTA FINAL (1/10):
10.0




Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Rare Flavours - Uma Viagem aos Sabores de Rubin Baksh, de Ram V e Filipe Andrade - Kingpin Books

Ficha técnica
Rare Flavours - Uma Viagem aos Sabores de Rubin Baksh
Autores: Ram V e Filipe Andrade
Editora: Kingpin Books
Tradução, legendagem, design e edição: Mário Freitas
Páginas: 160, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 19,5 x 28 cm
PVP: 29,95€

segunda-feira, 4 de maio de 2026

Kingpin prepara-se para editar o celebrado "Rare Flavours"!


Depois do fantástico As Muitas Mortes de Laila Starr, a dupla de autores formada pelo autor Ram V e pelo português Filipe Andrade, está de volta com a sua mais recente obra intitulada Rare Flavours - Uma Viagem aos Sabores de Rubin Baksh, um trabalho muito celebrado no mercado americano, que recebeu várias nomeações aos Prémios Eisners.

O livro terá lançamento oficial no Maia BD (no Fórum Maia), no próximo dia 23 de Maio, e contará com a presença dos dois autores. Haverá ainda uma exposição de originais do livro no Maia BD, com curadoria de Mário Freitas.

Esta é a primeira edição da Kingpin Books neste ano de 2026, o que é sempre algo de louvar.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.



Rare Flavours - Uma Viagem aos Sabores de Rubin Baksh, de Ram V e Filipe Andrade

A história fascinante de Rubin, um rakshasa demoníaco com o desejo terreno de tornar-se o novo Anthony Bourdain. Para alcançar a sua visão, Rubin recruta Mo - um aspirante a cineasta que já viu melhores dias - para documentar a mundialmente famosa cozinha indiana e as gentes por detrás de tal gloriosa comida. 

Mas Mo não sonha que Rubin é bem mais do que aparenta, e que os mortais desempenham um papel muito mais sombrio do que aquele para o que estão preparados.

Depois de “As muitas mortes de Laila Starr”, Ram V e Filipe Andrade estimulam o palato dos leitores com uma história que mistura o sobrenatural, a cozinha indiana e o mundo impiedoso dos chefes de cozinha que se tornam celebridades. 

Uma jornada épica da vida e dos seus significados mais profundos através da comida, e uma reflexão inteligente sobre a importância de abrandar e saborear essa vida.

Nomeado para as principais categorias dos Prémios Eisner norte-americanos.


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Ficha técnica
Rare Flavours - Uma Viagem aos Sabores de Rubin Baksh
Autores: Ram V e Filipe Andrade
Editora: Kingpin Books
Tradução, legendagem, design e edição: Mário Freitas
Páginas: 160, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 19,5 x 28 cm
PVP: 29,95€

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Super Estrela da Marvel vem a Portugal amanhã!




É já amanhã, dia 14 de Fevereiro, a partir das 16h, que a loja Kingpin Books, em Lisboa, recebe a visita de Bob Layton, o célebre autor de banda desenhada que tem feito maioritariamente a sua carreira na gigante Marvel, com um trabalho especialmente assinalável no Iron Man.

Aí está uma boa oportunidade para privarem com o autor, comprarem alguns prints e ainda levarem os trabalhos do autor assinados pelo mesmo.

No entanto, deixo a nota que o autor não fará desenhos, apenas assinará os livros e prints.

Mais abaixo, deixo-vos com a nota de imprensa da Kingpin Books.




BOB LAYTON na Kingpin Books, dia 14 de Fevereiro às 16h!

Dia 14 de Fevereiro, a partir das 16h, o ilustrador e argumentista norte-americano BOB LAYTON estará aqui, na Kingpin Books! Foi uma honra termos sido uma das lojas escolhidas pelo autor para a sua digressão europeia, e é um enorme privilégio recebermos um nome grande dos comics dos anos 80 e 90. Quem não se lembra da fase marcante de Iron Man em que o alcoolismo de Tony Stark é revelado? Ou da Secret Wars original, a primeira grande saga a envolver todas as personagens de uma grande editora?

Informações relevantes: o Bob Layton NÃO fará desenhos nem sketches durante a sessão, mas assinará os livros que forem precisos, dentro do limite por pessoa que a Kingpin Books irá depois comunicar. De resto, poderão conversar e tirar as fotos que quiserem com ele. Nas palavras do próprio: "“I will NOT be doing sketches or remarks during the signing appearance. I find that it takes up way too much time and does not allow me to have one-on-one conversations or photo ops with my fans. I would rather spend quality time with your attendees than just sit there drawing.”

Estarão também disponíveis PRINTS do autor à venda na Kingpin Books, mais uma razão para não desperdiçarem esta rara oportunidade! Contamos com a vossa presença.

Kingpin Books: Av. Almirantes Reis, 82-A, Lisboa.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Análise: Atrahasis

Atrahasis, de David Soares e Sónia Oliveira - Kingpin Books

Atrahasis, de David Soares e Sónia Oliveira - Kingpin Books
Atrahasis, de David Soares e Sónia Oliveira

Atrahasis é o livro de banda desenhada mais recente de David Soares e Sónia Oliveira, e foi o único lançamento de BD que a editora Kingpin Books, de Mário Freitas, nos fez chegar durante o ano 2025.

Depois de Sepulturas dos Pais, com desenhos de André Coelho, O Pequeno Deus Cego e Palmas para o Esquilo, ambos com ilustrações de Pedro Serpa, e do mais recente - embora não tão recente assim - O Poema Morre, este último, também com os desenhos de Sónia Oliveira, David Soares está de regresso à feitura de banda desenhada o que, tendo em conta a singularidade da sua abordagem ao género, é boa notícia para a banda desenhada nacional.

De facto, o autor é sempre único na forma como escreve as suas densas e (talvez não tanto assim) complexas histórias. Utilizando uma linguagem erudita, que o afasta de um público mais generalista, David Soares tem, no entanto, uma franja de leitores ávidos das suas obras.

Atrahasis, de David Soares e Sónia Oliveira - Kingpin Books
Neste Atrahasis, volta a dar-nos uma história que, mais do que tudo, assenta numa alegoria e que vai beber ao poema Epopeia de Atrahasis, um dos textos mais antigos da humanidade, datado de 1700 a.C. Com efeito, ainda antes de termos a Bíblia Sagrada cujo último livro, Apocalipse, nos adverte para um conjunto de calamidades que fazem a humanidade caminhar para o seu fim, já este Epopeia de Atrahasis nos dava a provar esse sabor da destruição da humanidade, neste caso, causada por um dilúvio abismal.

Nesta releitura desse poema, David Soares conduz-nos por essa visão da relação tensa entre deuses e humanos, estes marcados pelo sofrimento enquanto parte inaliável da sua condição e, aparentemente, seres contemporâneos da nossa existência.

É uma abordagem abstrata e de leitura não tão fácil assim.

Sendo sincero - como, aliás, sou sempre, não procurando parecer mais ou menos erudito do que aquilo que realmente sou - não tenho problemas em dizer-vos que considero não "ter estudos" para o abstracionismo da maioria das obras de David Soares. Mas como em tudo na vida, e após uma segunda leitura do livro, senti o fulgor de querer ir saber mais sobre Atrahasis, sobre o seu mito, a origem do seu poema e da sua história. E se um objetivo de uma obra pode ser o de criar ensinamentos e reflexão, já posso dizer que esta obra funciona de sobremaneira.

Atrahasis, de David Soares e Sónia Oliveira - Kingpin Books
De facto, a sua leitura é complexa e requere que nós, leitores, sejamos detentores de uma forte cultura, em termos histórico-literários, não tão frequente assim. É por isso que - e muitas vezes injustamente - os argumentos de David Soares possam parecer divagar em demasia. Mas se estivermos preparados ou, lá está, se fizermos o "trabalho de casa", certamente conseguiremos apreciar melhor estas obras.

Além dos temas alegóricos e abstratos, a própria linguagem do autor é de uma riqueza tal que é bem possível que demos por nós mesmos a ter que pesquisar alguma palavra no google. Eu, certamente, o fiz. Não julgo haver nada de mal nisso, aliás, pois se as palavras existem, é mesmo para serem utilizadas. Acho apenas que a opção por se utilizar determinado discurso ou linguagem em detrimento de outro, leva a que possamos estar, desse modo, a balizar o nosso público, seja pela utilização de uma linguagem erudita, seja pela utilização de uma linguagem mais banal ou mesmo corriqueira. Mas dizer isto é apenas um comentário "La Paliciano", pois, naturalmente, tudo o que somos ou fazemos delimita a aproximação dos outros face a nós.

Atrahasis, de David Soares e Sónia Oliveira - Kingpin Books
Mas, voltando a Atrahasis, e não obstante a beleza e coragem do autor para um texto propositadamente polido com palavras rebuscadas e sofisticadas, o próprio discurso deliberadamente erudito também pode esconder algumas debilidades narrativas, levando a que a obra se perca mais na forma do que no conteúdo. De certo modo, senti um pouco isso neste livro, pois já depois de mais bem preparado para melhor sorver os acontecimentos descritos e narrados, dei comigo a achar, em vários casos, o texto demasiado divagante. Como se, a partir de um tema, se limitasse a divagar de forma abstrata sobre o mesmo. É legítimo, como o é qualquer tipo de criação, mas igualmente passível de ser apenas um mero recurso de estilo e de reflexão. 

Todavia, devo dizer que, por outro lado, também aprecio a abordagem singular de David Soares, pois é algo que nos tira das azáfama do dia a dia, servindo como simples (e bem-vindo) escape. Como um livro de poesia. São divagações, sem dúvida, de cariz poético e filosófico mas, quanto a mim, têm - e devem ter - o seu lugar na produção nacional de banda desenhada. É a chamada BD de culto. Boa, mas não para toda a gente.

Daí que, mais uma vez, uma obra de David Soares me faça ficar com sentimentos mistos.

Atrahasis, de David Soares e Sónia Oliveira - Kingpin Books
Já quanto ao trabalho de Sónia Oliveira neste livro, devo dizer que as suas ilustrações a preto e branco impressionam pelo seu estilo a carvão, onde a negritude da obra salta à vista. Há algo de imediatamente evocativo nestes desenhos, como se os mesmos pudessem ter sido extraídos do booklet de um álbum - ou, pelo menos, da imagética - de uma banda de metal mais pesado. É uma presença sombria e intensa que caminha de mãos dadas com o texto de David Soares e que nos oferece uma força visual que capta a atenção do leitor, reforçando o clima da história.

Também aqui há um grande abstracionismo que resulta, nuns casos, muito bem, com imagens de grande fulgor poético e estético. Noutras situações, porém, o abstracionismo é de tal ordem que a perceção de alguns elementos e personagens se torna mais difícil, criando um (maior) desafio interpretativo ao leitor.  

Ora, tendo em conta que o texto já não é muito leve ou linear, o casamento é perfeito. Os desenhos de Sónia Oliveira não parecem procurar tornar mais perceptível o texto de David Soares e vice-versa. Texto e imagens caminham, pois, de mãos dadas, havendo coerência. Quer seja para o bem, quer seja para o mal. No meu caso, mantenho-me um pouco neutro, pois considero uma obra interessante a vários níveis, que me faz querer salvaguardá-la, mas que poderia almejar maiores voos se fizesse algum tipo de cedências. Logicamente, não estou a dizer - ou, sequer, a sugerir - que um autor deva equacionar cedências para a sua própria criação só para fazer a mesma chegar a um público maior. Também eu sou músico independente e é isso - música independente - que me dá gozo fazer. Agora, quando nos perguntarmos o porquê de determinada obra não chegar a um público maior, também temos que ter a honestidade intelectual de perceber os motivos para que essa situação aconteça.

A edição do livro é em capa mole, baça, com detalhes a verniz e badanas. No interior, o papel utilizado é baço e de boa qualidade, tal como o é a impressão, a encadernação e o aprumo gráfico da edição - o que é frequente nas obras editadas pelo selo de Mário Freitas.

No final, posso dizer que gostei de Atrahasis. A obra apresenta boas ideias e um universo visual e literário rico e denso, onde se sente a força da alegoria e a complementaridade entre o texto de David Soares e as ilustrações de Sónia Oliveira. Apesar disso, há momentos em que a narrativa e a própria relação entre imagens e palavras se tornam algo divagantes, tornando a leitura mais caótica e o enredo mais aleatório do que o desejável.


NOTA FINAL (1/10):
8.0


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Atrahasis, de David Soares e Sónia Oliveira - Kingpin Books

Ficha técnica
Atrahasis
Autores: David Soares e Sónia Oliveira
Editora: Kingpin Books
Legendagem e design de Mário Freitas
Páginas: 72, a preto e branco
Encadernação: Capa mole com badanas
Formato: 18 x 27 cms
Lançamento: Novembro de 2025



sexta-feira, 28 de novembro de 2025

Arranca hoje a 2ª edição do Marvila Comics!


É já hoje, sexta-feira, que arranca a segunda edição do Marvila Comics!, em Lisboa, para um evento que se estende por todo o fim de semana e que conta um elenco de luxo em termos de presenças de autores nacionais de banda desenhada.

Este evento é organizado pela Kingpin Books, em parceria com a Dois Corvos, e procura unir a banda desenhada à cerveja. Ou vice-versa. Serão apresentados livros, exposições e haverá um belo conjunto de conversas entre autores e um mercado do livro.

Com muita pena minha, não poderei participar, pois estarei fora durante o fim de semana, mas digo-vos que fico com bastante pena de não poder marcar presença, já que a "ementa" proposta me parece muito interessante.

Se estás por Lisboa neste fim de semana, diria que não podes perder o Marvila Comics 2025.

Mais abaixo, deixo-te com a programação oficial do certame.




MARVILA COMICS! (2ª Edição)

Quando? 
28-30 NOVEMBRO

Onde?
DOIS CORVOS MARVILA
Rua Capitão Leitão, 94, em Lisboa


Um ano depois da edição inaugural, o Marvila Comics regressa à Dois Corvos, num evento intimista e provocador que ousa misturar cerveja e livros de Banda Desenhada.

A Kingpin Books volta a unir-se à Dois Corvos, num fim de semana pleno de animação e repleto de autores, conversas, exposições, mercado do livro e lançamentos exclusivos de cerveja e BD! O Marvila Comics associa-se também à Black Friday na Dois Corvos e continua serão adentro, com uma DJ fantástica na 6ª feira, e um novíssimo Quiz sobre BD e uma arrojada banda ao vivo no sábado!

28, 29 e 30 de Novembro, na Dois Corvos Tap Room de Marvila, Rua Capitão Leitão, 94, em Lisboa.


PROGRAMA


6ª feira, 28 de Novembro

16h 
Abertura do mercado do livro

22h
DJ Set com Jenny Tall



Sábado, 29 de Novembro

16h
LANÇAMENTO - Atrahasis: o apocalipse e a dissolução civilizacional
David Soares e Sónia Oliveira
Cerveja: The Big Issue

16h30
O humor, os porcos e os Velhos do Restelo
Mário Freitas e Dário Duarte
Cerveja: Loko Mad

17h
LANÇAMENTO - O Progresso da Humanidade: que caminho para as adaptações literárias?
João Sequeira e Rui Cardoso Martins
Cerveja: Go Man Go!

17h30
Living Will: o desafio dos formatos e das pequenas tiragens
André Oliveira, Joana Afonso e Pedro Serpa
Cerveja: Weekend

18h
BD policial, caso raro em Portugal
Osvaldo Medina e Fernando Dordio
Cerveja: Villainare

18h30
Visões narrativas fora da caixa
Beatriz Brajal e Joana Mosi
Cerveja: Hello Nasty

19h
A Arte para além da BD: um menu de sabores requintados
Filipe Andrade e Mário Freitas
Cerveja: Magnetic Poles

20h
QUIZ de BD

22h
Concerto dos MOLOCH



Domingo, 30 de Novembro

16h
Umbra: visões editoriais sobre antologias
Filipe Abranches e Rita Alfaiate
Cerveja: Friendos

16h30
Desafios da BD para outsiders
Susana Carvalhinhos e Cláudia Passarinho
Cerveja: Easy Breezy

17h
Terrea: construções narrativas alternativas
Pedro Moura e Ricardo Cabral
Cerveja: Creature

17h30
O último prédio à beira do fim do mundo
Nuno Duarte e Rita Alfaiate
Cerveja: Nince Inch Snails

18h00
Dimensões editoriais: os grandes grupos vs. as pequenas editoras
Diana Garrido e Mário Freitas
Cerveja: Count To Ten

18h30
O impacto política da BD e do cartoon editorial
André Carrilho e Nuno Saraiva
Cerveja: Dark Mode

19h
Que ambições depois do salto para o mercado americano?
Daniel Henriques
Jorge Coelho

19h30
Conversa de Encerramento
Mário Freitas e Pedro Moura
Cerveja Finisterra

20h
Confraternização final

terça-feira, 18 de novembro de 2025

Kingpin Books publica nova BD!...


...E traz-nos o regresso dos autores David Soares e Sónia Oliveira!

A Kingpin Books acaba de anunciar que irá lançar o novo livro de banda desenhada da dupla de autores portugueses formada por David Soares e Sónia Oliveira que, em 2015, já havia lançado O Poema Morre.

Este novo livro intitula-se Atrahasis e deverá ter apresentação e lançamento no próximo Marvila Comics, que acontecerá entre os dias 29 e 30 de novembro.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.

Atrahasis, de David Soares e Sónia Oliveira

Sufocante e frenético, Atrahasis é uma observação filosófica e visceral sobre dissolução civilizacional. 

Reunindo os estilos inconfundíveis de David Soares e Sónia Oliveira, dez anos depois de O Poema Morre (Kingpin Books, 2015), esta é a definitiva alegoria do apocalipse.



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Ficha técnica
Atrahasis
Autores: David Soares e Sónia Oliveira
Editora: Kingpin Books
Legendagem e design de Mário Freitas
Páginas: 72, a preto e branco
Encadernação: Capa mole com badanas
Formato: 18 x 27 cms
PVP: 18,99€

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

Novo livro de "Maria do Mar" acaba de ser lançado


A Kingpin Books lançou recentemente um novo livro ilustrado de Sónia Sousa Ell que, desta vez, conta com ilustrações de Osvaldo Medina.

Denomina-se Maria do Mar e o Calendário Que Nunca Mais Chegava a Julho e é já o segundo volume da série Maria do Mar, que é indicada para públicos de todas as idades.

Mais abaixo deixo-vos com a nota de imprensa da editora e com algumas imagens promocionais.

Maria do Mar e o Calendário Que Nunca Mais Chegava a Julho, de Sónia Sousa Ell e Osvaldo Medina

Depois do sucesso do primeiro volume da colecção Maria do Mar, a autora e educadora ambiental Sónia Sousa Ell apresenta o seu segundo livro: “O calendário que nunca mais chegava a Julho”, lançado oficialmente no Amadora BD 2025. 

Maria do Mar adora recortar letras e números das folhas arrancadas do calendário da cozinha, reutilizando-as em seguida para criar as suas próprias histórias. Todos os anos, a sua ansiedade aumenta com o aproximar de Julho, o seu mês favorito. No entanto, este ano, Maria do Mar recusa-se a arrancar a folha de Junho, deixando todos perplexos. Ninguém entende a razão desta birra tão improvável!

Entre mistérios, a ternura das relações familiares e os desafios de quem está a crescer, aos poucos, o verdadeiro motivo da relutância de Maria do Mar será enfim desvendado!

Com ilustrações do conhecido Osvaldo Medina, autor de álbuns de BD como Kong The King ou Fojo, este livro reflecte uma cumplicidade criativa rara. Desta vez, Sónia deu um passo além: pintou com aguarela os desenhos originais do ilustrador, num gesto de confiança, partilha e emoção. Com design e edição de Mário Freitas, o livro reforça o propósito que atravessa toda a coleção Maria do Mar: unir gerações, imaginação e consciência ambiental, mostrando que cada gesto — cada +1 — pode mudar o mundo.

Mais do que um conto infantojuvenil, esta nova obra é uma celebração do tempo, da memória e da herança afectiva; e um lembrete poético de que o passado pode, sim, proteger o futuro e ajudar-nos a crescer. A história, ambientada no universo da curiosa Maria do Mar, convida leitores de todas as idades a revisitar o tempo da infância. O livro transforma o simples acto de marcar os dias numa viagem sensorial, entre o ontem e o amanhã.

“Um calendário pode parecer banal. Mas, sem darmos conta, é ele que orienta as nossas vidas. Este livro nasceu do desejo de resgatar as memórias que nos formam — aquelas que, se não forem contadas, desaparecem.”

— Sónia Sousa Ell

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Ficha técnica
Maria do Mar e o Calendário Que Nunca Mais Chegava a Julho
Autores: Sónia Sousa Ell e Osvaldo Medina
Editora: Kingpin Books
Edição, legendagem e design: Mário Freitas
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 22,5 x 22,5 cm
PVP: 17,99€

segunda-feira, 15 de setembro de 2025

Entrevista a Mário Freitas: "Não duvido que existe uma franja de leitores, os mais conservadores dos conservadores, que considera a BD de autores portugueses como coisa menor."



A propósito da recente publicação para o mercado americano, pela editora Image Comics, de O Homem Que Sonhou o Impossível, de Mário Freitas e Lucas Pereira, com o título The Man Who Dreamt The Impossible, estive à conversa com Mário Freitas, argumentista e editor da obra.

Falámos sobre este enorme feito, as suas possíveis consequências ou ilações, bem como de projetos futuros de Mário Freitas, numa conversa aberta e transparente, bem ao estilo do autor.

Deixo-vos, mais abaixo, com a nossa conversa e aproveito, uma vez mais, para enviar os meus parabéns ao Mário Freitas e ao Lucas Pereira. Que a produção portuguesa seja publicada no estrangeiro é - ou devia ser - sempre motivo de orgulho e regozijo para todos nós!

sexta-feira, 22 de agosto de 2025

TOP 10 - A Melhor BD lançada pela Kingpin Books nos últimos 5 anos!


Hoje apresento-vos os 10 livros mais relevantes que li da editora Kingpin Books e que foram lançados nos últimos 5 anos, período de existência do Vinheta 2020.

A Kingpin Books foi responsável pela produção e lançamento de muita da banda desenhada nacional - e não só - relevante que foi editada em Portugal nos últimos 15 anos. Infelizmente, a cadência editorial da editora portuguesa decaiu um pouco nos últimos anos, embora a qualidade dos livros editados continue a ser muito boa. Dito por outras palavras, são poucos, mas bons os livros que têm saído da fornalha da Kingpin.

Convém relembrar que este conceito de "melhor" é meramente pessoal e diz respeito aos livros que, quanto a mim, obviamente, são mais especiais ou me marcaram mais. Ou, naquela metáfora que já referi várias vezes, "se a minha estante de BD estivesse em chamas e eu só pudesse salvar 10 obras, seriam estas as que eu salvava".

Sem mais demoras, eis aqueles que considero que são os 10 melhores livros de banda desenhada editados pela Kingpin entre 2020 e 2025.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

Análise: Fojo


Fojo, de Osvaldo Medina

Depois de saber que Osvaldo Medina, um dos meus autores portugueses de banda desenhada preferidos, tinha um novo livro a solo, intitulado Fojo, dei pulos de alegria. Foi ainda no Maia BD do ano passado que, na apresentação feita por autor e editor, fiquei logo com um gosto do que poderia ser este novo livro. Sou confesso fã de Osvaldo Medina, especialmente, dos seus trabalhos a solo que, até à data, consistiam apenas em Kong The King, Volume 1 e Volume 2. Portanto, saber que Medina voltaria a lançar uma obra em que assume argumento e ilustração, foi para mim uma bela surpresa, que foi ainda mais aguçada pelo facto de, desta vez, o autor se aventurar na escrita de texto, já que Kong The King, relembro, não possuem diálogos.

Depois de finda a leitura deste Fojo, uma coisa é certa: não só estamos muito provavelmente perante a obra mais madura e conseguida de Osvaldo Medina como, além disso, estamos perante um clássico instantâneo da banda desenhada portuguesa. Daqui a cinco, dez, quinze, vinte, trinta, quarenta, cinquenta, cem anos, Fojo continuará a ser uma obra marcante e emblemática da banda desenhada nacional. E é isso que define um clássico instantâneo.

O ambiente sombrio e opressivo de Fojo é um dos grandes trunfos da obra. Medina transporta o leitor para uma aldeia portuguesa isolada, perdida no tempo e num punhado de crenças e mitos. Se os elementos culturais afastam esta pequena aldeia da suposta modernidade urbana da(s) grande(s) cidade(s), também as condições climatéricas que a pequena localidade enfrenta, com rigorosos e gélidos invernos, onde a neve pinta o solo de brancura, deixam ainda mais isolada esta aldeia do restante Portugal.

E isso é fator determinante para o ambiente que circunda este Fojo, já que toda a inquietação, bem ao jeito de um thriller, e assente em rudes tempestades de neve, em uivos de lobos e na tensão palpável entre os habitantes desta aldeia, cria uma experiência sensorial rica e intensa. Ainda só tinha mergulhado nas primeiras páginas do livro, e já sentia o frio e o suspense a crescer dentro de mim. 

Osvaldo Medina é particularmente feliz na forma como doseia a história, levantando o véu com muito cuidado, de forma a manter viva a curiosidade do leitor. As personagens que vamos encontrando à medida que a leitura avança, são rudes, erodidas pelo peso das condições de vida na aldeia e bem crentes em mitos paranormais e bruxarias de algibeira. Até que o aparecimento de uma jovem assassinada, faz crescer a consternação local. Primeiro, ainda se julga que foram os lobos os responsáveis por aquela violenta morte, mas logo se percebe que a morte tem mão humana. Mas quem será, então, o ou a responsável que se mascara para cometer os crimes, protegendo a sua identidade dos demais? Os ânimos vão-se acalentando apesar do frio que rodeia a aldeia.

E é então que Osvaldo Medina vai mais longe, transportando o leitor para um outro tempo e uma outra época, a da Primeira Guerra Mundial, onde procura dar-nos a conhecer as causas que levaram a que esta pessoa mascarada voltasse à aldeia com sede de vingança. Mais não digo, para não estragar o prazer da leitura a ninguém. Digo apenas que a trama arquitetada por Osvaldo Medina está bem montada, caminhando para um final apoteótico que faz uma analogia direta com um "fojo" que, para quem não sabe, é uma armadilha para lobos. 

A narrativa ganha força ao explorar os recantos mais sombrios da condição humana, revelando traumas, segredos e medos que são universais, mas apresentados com uma autenticidade profundamente enraizada na cultura e nas crenças locais. A aldeia assume-se, pois, como um pano de fundo perfeito para o mistério e para a tensão que dominam a história.

A arte ilustrativa é, sem dúvida, um dos pontos altos de Fojo. Medina utiliza um esquema de cores reduzido – preto, branco e vermelho – para criar um efeito visual arrebatador. O vermelho, em particular, é usado de forma simbólica e impactante, destacando-se em momentos cruciais e acentuando a violência, o medo e a intensidade emocional da narrativa. Cada página é meticulosamente desenhada, com atenção aos detalhes que tornam a aldeia e os seus habitantes "vivos" e convincentes, enquanto o uso de sombras e contrastes reforça o tom sombrio e claustrofóbico da história. O trabalho de Medina deixa-me sempre agradado, sim, mas tenho que frisar que nas suas obras a solo, como Kong the King ou neste Fojo, os seus desenhos parecem feitos com mais inspiração e alma. Adoro-os!


A estreia de Medina com diálogos é outro aspeto a destacar. O texto não é apenas funcional, adiciona profundidade às personagens e ao enredo, revelando as suas motivações e os seus medos mais íntimos. A forma como os diálogos são integrados nas ilustrações demonstra um domínio completo da narrativa gráfica, equilibrando perfeitamente imagem e texto para criar uma história coesa e poderosa.

Em termos de edição, temos o esforço tripartido da Kingpin Books, d' A Seita e Comic Heart, que nos dá um belo trabalho, com o livro a apresentar capa dura baça, bom papel baço no miolo e um bom trabalho ao nível da encadernação, impressão e grafismo. Lamento que não tenham sido adicionadas algumas páginas de extras com esboços do autor, por exemplo, mas tirando esse detalhe, é uma boa edição. Nota ainda - mais que positiva! - para a belíssima ilustração de capa.

Em suma, Fojo é muito mais do que uma história de mistério e suspense; é uma exploração crua e brutal da natureza humana, embalada numa narrativa visual de excelência. Osvaldo Medina, que volta a reafirmar-se como um dos maiores nomes da BD portuguesa, entrega-nos uma obra que é ao mesmo tempo perturbadora e fascinante, capaz de capturar a atenção do leitor do início ao fim. Trata-se de um marco significativo na banda desenhada portuguesa e uma leitura indispensável para os amantes do género. Do autor, espero apenas uma coisa: que nos continue a dar mais obras a solo deste gabarito!


NOTA FINAL (1/10):
9.3




Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Ficha técnica
Fojo
Autor: Osvaldo Medina
Editoras: A Seita, Comic Heart e Kingpin Books
Legendagem e design: Mário Freitas
Páginas: 144, a preto e branco e vermelho
Encadernação: Capa dura
Formato: 19,50 x 27 cm
Lançamento: Novembro de 2024

terça-feira, 7 de janeiro de 2025

A análise ao trabalho das editoras portuguesas de BD em 2024

A análise ao trabalho das editoras portuguesas de BD em 2024

2024 foi um ano de muita banda desenhada lançada em Portugal! 

O excelente artigo publicado recentemente por Daniel Maia confirma, aliás, aquilo que tenho vindo a dizer há muito tempo: vivemos numa era dourada da banda desenhada em Portugal! Sei que estas coisas são sempre cíclicas, de certa forma, e que também já tivemos, no passado mais e menos recente, boas épocas de edição de BD que, infelizmente, acabaram por dar lugar a um certo marasmo editorial após iniciais tempos promissores. 

Isso é verdade, mas uma coisa que também é inegável, é que este "período dourado" já se arrasta há alguns anos. E as coisas até vão melhorando de ano para ano. São cada vez mais os autores portugueses a publicarem os seus trabalhos em belas edições, são cada vez mais as editoras a lançarem obras estrangeiras de qualidade superior (também em belas edições), são cada vez mais os eventos dedicados à banda desenhada que pululam por esse país fora, são cada vez mais os livros sobre banda desenhada a serem publicados... Não esquecendo que já há em Portugal, segundo a Constituição Portuguesa, um dia dedicado à banda desenhada, enfim... estamos mesmo a viver o melhor momento de sempre!

A análise ao trabalho das editoras portuguesas de BD em 2024

2024 até pode ter sido o ano mais forte de todos, mas apenas por ter tido em si o natural e orgânico desenvolvimento das sementes plantadas nos últimos cinco ou seis anos, parece-me.

Trago-vos, portanto, mais abaixo, uma breve análise ao ano de 2024, centrando-me nas editoras portuguesas e no trabalho que as mesmas nos apresentaram ao longo do último ano.