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quarta-feira, 15 de outubro de 2025

Análise: O Meu Amigo Kim Jong-Un

O Meu Amigo Kim Jong-un, de Keum Suk Gendry-Kim - Iguana - Penguin Random House

O Meu Amigo Kim Jong-un, de Keum Suk Gendry-Kim - Iguana - Penguin Random House
O Meu Amigo Kim Jong-Un, de Keum Suk Gendry-Kim

A Iguana editou há algumas semanas o mais recente trabalho da autora coreana Keum Suk Gendry-Kim, intitulado O Meu Amigo Kim Jong-Un, que se apresenta como uma incursão documental e gráfica sobre a figura controversa do líder norte-coreano Kim Jong-Un. A autora - cujas obras Erva, A Espera, A Árvore Despida, e Alexandra Kim, Filha da Sibéria já por cá foram editadas (e aqui analisadas) - volta a explorar as feridas da península coreana, mas agora com um enfoque mais direto na biografia e no simbolismo político de Kim Jong-Un. 

O ponto de partida é ambicioso: compreender que tipo de homem se esconde por detrás do ditador, e, através dessa compreensão, lançar uma reflexão mais ampla sobre o poder, a manipulação e o destino dividido das Coreias. Algo que, de um ponto de vista diferente, embora igualmente interessante, também podemos analisar na obra O Ditador e o Dragão de Musgo, de Fabien Tillon e Fréwé, editado recentemente pela ASA. 

O Meu Amigo Kim Jong-un, de Keum Suk Gendry-Kim - Iguana - Penguin Random House
A narrativa deste O Meu Amigo Kim Jong-Un combina entrevistas, testemunhos e reflexões pessoais da autora, num formato que oscila entre o jornalismo gráfico e a memória subjetiva de algumas personalidades com que a autora se cruzou. Keum Suk Gendry-Kim entrevistou figuras muito distintas, desde jornalistas e amigos de infância de Kim Jong-Un, até desertores e o próprio ex-presidente sul-coreano Moon Jae-In. Essa variedade de vozes confere amplitude ao relato, permitindo perceber as múltiplas camadas que compõem a perceção do regime norte-coreano e de uma forma que procura não ser demasiadamente panfletária, mostrando - ou tentando mostrar - os dois lados da questão. 

No entanto, essa multiplicidade narrativa também é a origem de uma das maiores fragilidades do livro: a ausência de um fio narrativo unificador. De facto, O Meu Amigo Kim Jong-Un dá frequentemente a sensação de ser um livro de fragmentos. Cada capítulo apresenta um tema ou testemunho interessante, mas a ligação entre eles é, por vezes, ténue ou mesmo inexistente. A autora opta por uma estrutura quase episódica, que resulta numa leitura desigual: ora fascinante, ora dispersa. Por exemplo, a incrível história de Pepino, a criança levada clandestinamente para a Colômbia na mochila de um soldado - que, quanto a mim, merecia, por si só, um livro sobre o assunto - é um dos momentos mais cativantes da obra, carregado de emoção e simbolismo. Contudo, surge e desaparece sem grande continuidade, meio perdido neste livro fragmentado.

O Meu Amigo Kim Jong-un, de Keum Suk Gendry-Kim - Iguana - Penguin Random House
Em contraste, a longa entrevista com Moon Jae-In quebra o ritmo e o interesse narrativo. A conversa, ainda que politicamente relevante, é apresentada de forma excessivamente literal e sem a densidade emocional que caracteriza os melhores trabalhos de Keum Suk Gendry-Kim. Falta-lhe dinamismo e a leitura torna-se, em certos momentos, monótona, parecendo mais próxima de uma transcrição jornalística do que de uma obra literária ou artística. Esse contraste entre capítulos vibrantes e outros mais áridos reforça a sensação de irregularidade nesta obra.

Além disso, a autora introduz também reflexões sobre a sua própria vida conjugal e a experiência de viver entre a Coreia e a Europa. E embora estas passagens tragam alguma humanidade e proximidade ao relato, acabam por parecer algo forçadas, levando, novamente, a uma quebra com o foco principal da obra. O leitor é constantemente deslocado entre o retrato do ditador, as recordações pessoais e as entrevistas, sem que exista uma linha emocional ou conceptual forte que una tudo.

Outro aspeto que distingue O Meu Amigo Kim Jong-Un das obras anteriores da autora é a sua componente visual. Mas, neste caso, pelas melhores razões. Aqui, Keum Suk Gendry-Kim revela um domínio gráfico mais leve e equilibrado. O uso da cor é uma clara evolução face ao negro dominante e pesado das já supramencionadas obras da autora editadas previamente em Portugal. Neste caso, as páginas respiram melhor, as figuras ganham expressividade e a leitura torna-se visualmente mais acessível. É um livro mais luminoso, mesmo tratando temas sombrios, o que demonstra um amadurecimento estético evidente da autora.

O Meu Amigo Kim Jong-un, de Keum Suk Gendry-Kim - Iguana - Penguin Random House
Visualmente, portanto, este é talvez o trabalho mais apelativo da autora. A cor é usada não apenas como elemento decorativo, mas também como ferramenta narrativa: distingue tempos, espaços e emoções com subtileza. As composições de página são mais abertas, o traço mais livre e a disposição gráfica convida o leitor a permanecer em cada vinheta. Continua fiel àquilo que já conhecemos da autora, claro, mas aqui o desenho ganha mais protagonismo, tornando-se a principal força de coesão num livro que, narrativamente, e conforme já referi, nem sempre encontra o seu equilíbrio.

Mas, claro, apesar das fragilidades narrativas, o livro mantém o valor de ser um testemunho gráfico de um tema de relevância mundial. A tentativa de compreender Kim Jong-Un não através do sensacionalismo, mas de uma abordagem humana e contextual, é louvável. Keum Suk Gendry-Kim não procura justificar o ditador, mas entender as condições que o moldaram, e, ao fazê-lo, recorda-nos que a história da Coreia continua a ser uma história de feridas abertas e de divisões que persistem no imaginário coletivo.

A edição da Iguana é, tal como em Erva ou A Espera, em capa mole, brilhante, com badanas. No interior, encontramos bom papel baço e uma boa impressão e encadernação. A edição inclui ainda um posfácio da autora.

Em suma, O Meu Amigo Kim Jong-Un é uma obra ambiciosa, visualmente refinada, mas narrativamente irregular. Falta-lhe a coesão e o impacto emocional de outras obras da autora. Ainda assim, é um livro importante dentro da trajetória de Keum Suk Gendry-Kim. É uma leitura que, mais do que esclarecer quem é Kim Jong-Un, nos confronta com as complexidades da Coreia contemporânea e com o desafio permanente de compreender o outro lado. E, no fim, o que permanece é a “mensagem de urgência pela paz” que a autora explicitamente reivindica.


NOTA FINAL (1/10):
6.9



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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O Meu Amigo Kim Jong-un, de Keum Suk Gendry-Kim - Iguana - Penguin Random House

Ficha técnica
O Meu Amigo Kim Jong-un
Autora: Keum Suk Gendry-Kim
Editora: Iguana
Páginas: 288, a cores
Encadernação: Capa mole com badanas
Formato: 170 x 240 mm
Lançamento: Setembro de 2025

quarta-feira, 10 de setembro de 2025

Acaba de sair BD sobre Kim Jong-un!



A Iguana, uma chancela do grupo Penguin, prepara um regresso em grande nesta nova rentrée literária, com bastantes novas obras de BD que estão próximas de nos chegar. 

Por agora, já chegou às livrarias no início desta semana, o novo livro da autora Keum Suk Gendry-Kim que, desta vez, versa sobre a figura de Kim Jong-un, líder autocrata da Coreia do Norte.

A publicação da obra da autora Keum Suk Gendry-Kim em Portugal sai, pois, mais reforçada, aumentando para cinco as obras que estão disponíveis em edições nacionais. Pela parte da Iguana, temos, além deste O Meu Amigo Kim Jong-un, os livros Erva e A Espera, enquanto que da parte da Levoir, temos os livros A Árvore Despida e Alexandra Kim, Filha da Sibéria.

Mais abaixo, deixo-vos a sinopse da obra e algumas imagens promocionais.

O Meu Amigo Kim Jong-un, de Keum Suk Gendry-Kim

O que sabemos realmente sobre o líder da República Popular Democrática da Coreia?

Se quisermos saber que tipo de homem pode ser um ditador, temos de analisar atentamente os seus antecedentes, desde a infância até à sua ascensão ao poder, passando pela educação, os seus gostos e passatempos, as relações com professores e colegas, os seus traços de personalidade e os seus pensamentos.

Para este novo livro documental, a multipremiada autora Keum Suk Gendry-Kim entrevistou diversas personalidades, incluindo jornalistas, amigos estrangeiros do período em que Kim Jong-un viveu na Europa, desertores norte-coreanos e até o ex-presidente sul-coreano Moon Jae-in, que conheceu Kim Jong-un pessoalmente.

Da autora das multipremiadas novelas gráficas A Espera e Erva chega-nos agora um relato na primeira pessoa de um país dividido ao meio.

Combinando registos factuais com reflexões pessoais, este impressionante relato ilustrado oferece uma visão aprofundada sobre momentos cruciais da vida de Kim Jong-un e conta a história de um país dividido, transmitindo, nas palavras da autora, «uma mensagem de urgência pela paz».

«A genialidade do traço de Keum Suk Gendry-Kim e a força da sua narrativa dão-nos a conhecer histórias coreanas com extrema sensibilidade e brilhantismo.» 
Diário de Notícias


«A poderosa arte de Gendry-Kim, com os seus traços selvagens e o seu negro denso, consegue fazer-nos mergulhar num reino de pesadelo.»
The New York Times



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Ficha técnica
O Meu Amigo Kim Jong-un
Autora: Keum Suk Gendry-Kim
Editora: Iguana
Páginas: 288, a cores
Encadernação: Capa mole com badanas
Formato: 170 x 240 mm
PVP: 20,95€

quarta-feira, 20 de agosto de 2025

TOP 10 - A Melhor BD lançada pela Penguin nos últimos 5 anos!


Hoje trago-vos um TOP 10 relativo à melhor banda desenhada editada pela Penguin nos últimos 5 anos, a propósito do 5º aniversário aqui do Vinheta 2020.

Muita gente não sabe disto, mas a Penguin Random House é uma empresa multinacional, apontada como a maior editora de livros do mundo, sendo que a sua sucursal portuguesa engloba várias chancelas que editam banda desenhada: a Iguana, a Distrito Manga, a Companhia das Letras, a Topseller, a Cavalo de Ferro, a Fábula... entre outras.

Recentemente, a Penguin preocupou-se em criar duas chancelas dedicadas à banda desenhada: a Iguana e a Distrito Manga.

De qualquer maneira, para este TOP, e para que a qualidade das obras propostas fosse a melhor possível, eu olhei para a Penguin como um todo - que é isso que ela é, na verdade - e trago-vos os 10 melhores livros de BD desta editora que li.

Convém relembrar que este conceito de "melhor" é meramente pessoal e diz respeito aos livros que, quanto a mim, obviamente, são mais especiais ou me marcaram mais. Ou, naquela metáfora que já referi várias vezes, "se a minha estante de BD estivesse em chamas e eu só pudesse salvar 10 obras, seriam estas as que eu salvava".

Faço aqui uma pequena nota sobre o procedimento: considerei séries como um todo e obras one-shot. Tudo junto. Pode ser um bocado injusto para as obras autocontidas, reconheço, e até ponderei fazer um TOP exclusivamente para séries e outro para livros one-shot, mas depois achei que isso seria escolher demasiadas obras. Deixaria de ser um TOP 10 para ser um TOP 20. Até me facilitaria o processo, honestamente, mas acabaria por retirar destaque a este meu trabalho que procura ser de curadoria. Acabou por ser um exercício mais difícil, pois tive que deixar de fora obras que também adoro, mas acho que quem beneficia são os meus leitores que, deste modo, ficam com a BD que considero ser a "crème de la crème" de cada editora. 

Aqui ficam, então, as 10 melhores BDs editadas pela Penguin nos últimos 5 anos:

quinta-feira, 24 de abril de 2025

Análise: Alexandra Kim, Filha da Sibéria

Alexandra Kim, Filha da Sibéria, de Keum Suk Gendry-Kim - Levoir e Público

Alexandra Kim, Filha da Sibéria, de Keum Suk Gendry-Kim - Levoir e Público
Alexandra Kim, Filha da Sibéria, de Keum Suk Gendry-Kim

Em pouco tempo, em cerca de um ano, a autora coreana Keum Suk Gendry-Kim passou de uma autora com nenhuma obra publicada em Portugal para uma autora com quatro livros editados por duas editoras portuguesas diferentes que, no seu todo, lançaram Erva, A Árvore Despida e A Espera, para além do livro a que este artigo se dedica. E será lançada ainda, brevemente, uma nova obra da autora, intitulada O meu amigo Kim Jong-Un, que nos há de chegar no próximo mês de Maio, pelas mãos da editora Iguana.

Hoje trago-vos aquele que foi o primeiro livro por cá editado, que dá pelo nome de Alexandra Kim, Filha da Sibéria, e que a editora Levoir publicou na sétima Coleção de Novelas Gráficas, lançada em parceira com o jornal Público.

Alexandra Kim, Filha da Sibéria, de Keum Suk Gendry-Kim - Levoir e Público
Este é um trabalho de cunho biográfico que nos mergulha na vida de Alexandra Kim, uma figura histórica pouco conhecida, mas de grande relevância. A obra retrata a trajetória de Kim como a primeira coreana a aderir ao movimento bolchevique, destacando o seu papel na luta pelos direitos dos trabalhadores, no início do século XX. A narrativa é baseada no romance biográfico de Jung Cheol-Hoon.​

A história arranca com a infância de Alexandra passada na China, onde o seu pai trabalhava como intérprete na construção dos Caminhos-de-Ferro do Leste da China. Talvez por isso, desde cedo Alexandra Kim se viu sensibilizada para as condições precárias dos trabalhadores. Daí a ter-se envolvido na luta pela emancipação dos trabalhadores russos face à repressão do regime czarista, quando, após a morte do seu pai, regressou à Rússia, foi um mero passo expectável. Para além das barreiras linguísticas, foi a situação dos trabalhadores - e o seu sofrimento - aquilo que motivou o empenho de Alexandra Kim, numa altura em que o direito do trabalho era praticamente inexistente na Rússia. Durante a Primeira Guerra Mundial, Kim passou a trabalhar como intérprete nas fábricas dos Urais, aproximando-se ainda mais do Partido Comunista de Lenine.​

Alexandra Kim, Filha da Sibéria, de Keum Suk Gendry-Kim - Levoir e Público
Keum Suk Gendry-Kim volta a dar-nos uma história carregada de humanismo para que possamos compreender o passado precário do proletariado russo - e não só - que teve que enfrentar múltiplas adversidades, demonstrando resiliência e coragem. A vida atribulada de Alexandra Kim, que se desenrolou por vários territórios, é particularmente rica devido ao seu percurso pessoal se ter cruzado com momentos importantes da história da luta das classes.

A narrativa de Gendry-Kim é marcada por uma abordagem sensível e respeitosa das experiências retratadas, evitando o sensacionalismo desenfreado e, em sentido oposto, optando por representar a violência e o sofrimento de forma subtil, utilizando sombras e cenários escuros para transmitir o impacto emocional dos eventos. Essa escolha estilística permite que o leitor se conecte profundamente com a história sem ser confrontado com imagens demasiado explícitas. Com efeito, Alexandra Kim, Filha da Sibéria não consegue ser tão impactante e chocante como o livro Erva, por exemplo, mas, mesmo assim, a obra consegue ser​ informativa e relevante.

Alexandra Kim, Filha da Sibéria, de Keum Suk Gendry-Kim - Levoir e Público
O traço delicado e expressivo da autora, que se mantém fiel ao seu estilo, contrasta, pois, com a dureza dos eventos retratados, criando uma narrativa visualmente impactante. A escolha do preto e branco reforça a atmosfera sombria da época, enquanto os detalhes nas expressões faciais e nos cenários transportam o leitor para o contexto histórico da narrativa.​ Devo dizer que neste livro a autora me pareceu especialmente inspirada nos desenhos, apresentando ilustrações mais aprimoradas e de traço mais limpo do que noutras ilustrações contidas em livros já por cá publicados.

A meio do livro, é verdade que a narrativa se torna mais densa e fragmentada, o que pode dificultar o acompanhamento do percurso da protagonista. Esta mudança coincide com o aprofundamento do contexto político da Revolução Russa e das movimentações comunistas internacionais, o que exige do leitor uma maior familiaridade com os acontecimentos históricos e com as suas figuras-chave. Os saltos temporais e geográficos sucedem-se com mais rapidez, e a inclusão de personagens secundárias menos desenvolvidas também pode contribuir para um certo desencontro na leitura, exigindo maior atenção para não se perder o fio condutor da vida de Alexandra Kim.

A edição da Levoir é em capa dura baça, com bom papel baço no miolo e boa encadernação e impressão. Esta edição conta com um prefácio da autoria de Rui Cartaxo e, no final, com três páginas com informações biográficas sobre Alexandra Kim.

Em suma, pode dizer-se que Alexandra Kim, Filha da Sibéria é uma leitura interessante e especialmente relevante para quem se interessa por histórias de resistência e luta por justiça social. A obra destaca a importância de uma figura histórica de que se fala pouco, trazendo à luz o seu contributo para os movimentos sociais e políticos que ocorreram no início do século XX e mostrando como as fronteiras nacionais podem (e devem) ser facilmente transpostas quando se trata de combater a opressão e promover a igualdade.​


NOTA FINAL (1/10):
8.5



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020




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Alexandra Kim, Filha da Sibéria, de Keum Suk Gendry-Kim - Levoir e Público

Ficha técnica
Alexandra Kim,Filha da Sibéria
Autora: Keum Suk Gendry-Kim
Editora: Levoir
Páginas: 236, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 170 x 240 mm
Lançamento: Outubro de 2023





quinta-feira, 1 de agosto de 2024

Análise: Erva

Erva, de Keum Suk Gendry-Kim - Iguana - Penguin Random House

Erva, de Keum Suk Gendry-Kim - Iguana - Penguin Random House
Erva, de Keum Suk Gendry-Kim

Uau! À terceira foi mesmo de vez! Depois de ter lido dois livros da autora Keum Suk Gendry-Kim, nomeadamente A Árvore Despida e A Espera que, mesmo deixando bons apontamentos, não me conseguiram deixar totalmente rendido, tal feito foi verdadeiramente alcançado por este Erva! Eis um livro fantástico e assustadoramente pesado que marca qualquer leitor civilizado e que é, sem qualquer margem para dúvidas, o melhor livro da autora publicado em Portugal!

Se aqueles que me leem já tinham curiosidade em conhecer a autora, mas ainda não o tinham feito, não pensem duas vezes: é por este Erva que deverão começar a conhecer o trabalho da coreana Keum Suk Gendry-Kim!

Recentemente publicado pela editora Iguana (que também já havia publicado o A Espera), Erva é uma magnífica obra que aborda de maneira profunda e comovente o tema das "mulheres de conforto" durante a Segunda Guerra Mundial. Para quem não sabe, estas "mulheres de conforto" tinham o propósito de servir como escravas sexuais para o exército japonês. Nem estamos aqui a falar de mulheres a serem obrigadas a prostituir-se... não, é algo ainda mais grave e hediondo do que isso. Estas mulheres nem sequer eram prostitutas, pois não tinham rendimentos monetários com aquilo que faziam. "Escravas sexuais" será, portanto, o melhor termo a utilizar como sinónimo de "mulher de conforto". E muitas destas mulheres eram coreanas, como é o caso de Ok-Sun Lee, em quem se baseia esta história biográfica.

Erva, de Keum Suk Gendry-Kim - Iguana - Penguin Random House
E que história de vida a de Ok-Sun Lee! Se fosse uma história de ficção, se calhar diríamos: "Ui... que exagero de drama". Porém, tratando-se de uma história verídica, é chocante e lamentável que nos apercebamos com este Erva como certas vidas são um verdadeiro suplício.

Quando ainda era criança, o único desejo de Ok-Sun Lee era poder frequentar uma escola. Mas sendo menina e, ainda por cima, a filha do meio, tal desejo não era sequer tido em conta pelos seus pais. A escola era para os irmãos - rapazes! - mais velhos e cabia a Ok-Sun Lee as tarefas domésticas e o apoio aos irmãos mais novos. Mesmo assim, as condições de pobreza eram muitas e a família decidiu vender (!) Ok-Sun Lee a uma outra família. 

Mas a sua nova vida junto de outra família estava apenas a preparar-se para ficar ainda pior. Esta nova família acabou por fazer uso de Ok-Sun Lee, levando-a para a China. Aí, e ainda em tenra idade, sem ter sequer tido a primeira menstruação, Ok-Sun Lee acaba numa casa de "mulheres de conforto", com o objetivo de atender aos desejos dos solados japoneses. Daí até à primeira abordagem sexual, que não é mais do que uma violação, a vida de Ok-Sun Lee transforma-se num filme de terror. Mas um terror vívido e mundano, com que tem que conviver diariamente. O terror que deixar marcas em toda uma vida.

Erva, de Keum Suk Gendry-Kim - Iguana - Penguin Random House
Todavia, por muitas vezes que a vida pisasse Ok-Sun Lee, esta parecia que, qual erva daninha - e daí o título da obra Erva - conseguia sempre reerguer-se e continuar, da melhor forma possível, a sua jornada de sobrevivência e resiliência. 

Como o relato dos acontecimentos é interrompido por breves momentos, no tempo presente, em que a autora Keum Suk Gendry-Kim conheceu pessoalmente Ok-Sun Lee, fica claro que há uma tentativa de expor os crimes e traumas do passado e a forma como os mesmos continuam a influenciar a vida das sobreviventes. A memória é, pois, um tema central, mostrando como a recordação dos eventos traumáticos pode ser tanto dolorosa quanto necessária para a cura.

Este é um belo livro que, ancorado a um período histórico e sombrio - de que se fala menos vezes do que o necessário - é crucial para que compreendamos as relações entre a Coreia e o Japão, por um lado, e permite, por outro, dar voz a tantas essas mulheres que foram instrumentalizadas como "mulheres de conforto" e que acabaram por ser silenciadas pela vergonha e pelo trauma.

Erva, de Keum Suk Gendry-Kim - Iguana - Penguin Random House
Não só o relato é marcante e a vida da protagonista nos deixa "colados" a cada uma das quase 500 páginas que compõem este livro, como a própria representação gráfica da história parece especialmente inspirada. Não é que o estilo da autora mude face àquilo que já pudemos ver noutros livros, mas senti que, em Erva, a autora foi mais certeira na representação dos momentos mais intensos do que noutras obras. Mesmo assim, e claro está, o estilo de traço simples, com ilustrações a preto e branco, que representam as personagens de forma "abonecada", mantém-se. Depois, há outros bons momentos onde a autora nos oferece alguns desenhos mais impactantes e belos. Nem sempre isso acontece, mas quando, à medida que avançamos na leitura, somos presenteados com esses desenhos mais detalhados, a experiência é mais gratificante.

Assim sendo, mantenho, mais uma vez, o que escrevi sobre os desenhos da autora a propósito dos outros dois livros já aqui analisados: "São desenhos inspirados, com uma aura expressionista, onde delicados e belíssimos cenários nos são dados. O que, sendo algo bom, causa um certo desequilíbrio ao todo, tenho que admitir. É verdade que muitas expressões faciais parecem “cartoonizadas” de uma forma quase infantil e apresentam um traço algo arcaico, mas noutros casos, o desenho apresenta uma qualidade ao nível da pintura, tal não é a beleza estética do mesmo! Fico com a ideia de que a autora desenha normalmente de forma rápida e direta e que, noutros casos, despende mais tempo e devoção, dando-nos ilustrações lindas (…) E são esses os melhores momentos da obra, em termos de ilustração.”

De resto, a edição da Iguana é em capa mole, com badanas, com bom papel baço no miolo. A impressão e a encadernação também são boas.

Em suma, Erva não é apenas uma obra de ficção gráfica, mas um testemunho histórico que educa os leitores sobre uma parte importante e dolorosa da história asiática que, embora muitas vezes "chutada para canto", ainda ressoa nos dias atuais. A obra é, portanto, projetada para provocar uma reflexão profunda sobre os horrores da guerra e as suas vítimas invisíveis, assumindo-se como uma leitura essencial para quem procura compreender a profundidade dos traumas de guerra e a luta contínua por justiça das mulheres afetadas pela mesma. Keum Suk Gendry-Kim criou uma obra que é ao mesmo tempo devastadora e bela, revelando as camadas de dor e resiliência que caracterizam a desconfortável e traumática experiência das mulheres que se viram forçadas a ser "mulheres de conforto".


NOTA FINAL (1/10)
9.5




Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020




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Erva, de Keum Suk Gendry-Kim - Iguana - Penguin Random House

Ficha técnica
Erva
Autora: Keum Suk Gendry-Kim
Editora: Iguana (Penguin Random House)
Páginas: 488, a preto e branco
Capa: Mole
Formato: 170 x 240 mm
Lançamento: Junho de 2024

sexta-feira, 14 de junho de 2024

Iguana lança novo livro de Keum Suk Gendry-Kim!



A editora Iguana acaba de publicar Erva, de Keum Suk Gendry-Kim!

Em poucos meses, foram publicados quatro livros da autora que, há um ano, permanecia inédita em Portugal!

A primeira obra foi Alexandra Kim, Filha da Sibéria, publicada pela Levoir na sua coleção de Novelas Gráficas do ano passado. Seguiu-se A Espera, publicada pela Iguana, e, depois disso, a Levoir publicou A Árvore Despida.

Desta feita, a Iguana traz-nos Erva que volta a colocar-nos na realidade da Coreia.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.

Erva, de Keum Suk Gendry-Kim

Depois do sucesso de A Espera, chega Erva, a novela gráfica multipremiada de Keum Suk Gendry-Kim que põe a nú uma das realidades mais negras da história da Coreia.

Uma história real que ilustra como a atrocidade da guerra devastou a vida de inúmeras mulheres.

Erva é uma poderosa novela gráfica que conta a história verídica de Ok-Sun Lee, uma criança sul-coreana que, durante a Segunda Guerra Mundial, foi vendida pela família e explorada como «mulher de conforto», o eufemismo utilizado pelos militares japoneses para se referirem às suas escravas sexuais. Até hoje, este continua a ser um dos capítulos mais negros e chocantes da História.

Ok-Sun Lee sobreviveu a décadas de desespero e, no fim da sua longa vida, tornou-se ativista pelos direitos das mulheres, dando a conhecer as suas dolorosas memórias. Com base nos seus relatos, Keum Suk Gendry-Kim ilustra o período que antecedeu a guerra a partir da perspetiva vulnerável de uma criança forçada a enfrentar as mais cruéis adversidades, valendo-se apenas da sua força e determinação para sobreviver. Com recurso a pinceladas a negro tão delicadas quanto duras, a autora descreve em pormenor a forma desumana como muitas raparigas de famílias humildes viveram a ocupação japonesa e a vida de sofrimento generalizado que herdaram.

O livro traz-nos as dolorosas memórias de Ok-Sun Lee, vendida em criança para ser escrava sexual durante a ocupação japonesa. Uma realidade vivida por muitas raparigas de famílias mais humildes e que costitui um trauma geracional.

Considerada BD do ano pelo The New York Times, The Guardian, Los Angeles Times, Library Journal.

Vencedor dos prémios YALSA Book Award, Cartoonist Studio Prize Harvey Award, Krause Essay Award, Prix Bulles d’Humanité.

«Uma obra compulsiva e devastadora, de partir o coração»
THE GUARDIAN

«Uma obra-prima da banda desenhada biográfica e histórica, da mesma magnitude de Maus ou Persépolis.»
LA REPUBBLICA

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Ficha técnica
Erva
Autora: Keum Suk Gendry-Kim
Editora: Iguana (Penguin Random House)
Páginas: 488, a preto e branco
Capa: Mole
Formato: 170 x 240 mm
PVP: 23,95€

 

sexta-feira, 3 de maio de 2024

Análise: A Árvore Despida

A Árvore Despida, de Keum Suk Gendry-Kim - Levoir

A Árvore Despida, de Keum Suk Gendry-Kim - Levoir
A Árvore Despida, de Keum Suk Gendry-Kim

Foi com expectativas bastante elevadas que parti para a leitura deste A Árvore Despida, tendo em conta que se trata da obra de uma autora que, de um momento para o outro, recebeu uma assinalável aposta por parte das editoras portuguesas, nomeadamente com o lançamento, quase simultâneo, de Alexandra Kim, Filha da Sibéria (também pela Levoir) e de A Espera, pela editora Iguana (que também já anunciou que irá lançar, neste ano de 2024, o livro A Erva.) Esse A Espera foi o primeiro livro que li da autora, do qual já aqui falei, e, realmente, agradou-me bastante.

Quanto a este A Árvore Despida, tendo um tema interessante, ficou um pouco aquém das minhas expectativas. Não por ser um mau livro, ou algo que se pareça, mas por não ter, quanto a mim, um foco narrativo, ou uma linha condutora do relato, tão bem engendrados como acontece, por exemplo, em A Espera.

A Árvore Despida, de Keum Suk Gendry-Kim - Levoir
A história mantém-nos na realidade coreana, mais concretamente na Guerra que opôs o norte e o sul do país. Este é um livro que resulta de uma adaptação da obra literária de Park Wan-Seo e que nos conta a história da jovem Kyung que, quando a guerra da Coreia começa, em 1950, vive com a sua mãe. Para encontrar sustento, passa a trabalhar numa loja do exército americano, onde são vendidos aos soldados lenços ilustrados a partir das fotografias que esses mesmos soldados fornecem aos desenhadores que trabalham na loja. Os soldados americanos veem-se na necessidade de pedir este serviço para que os seus entes queridos, dos quais estão longe, possam simbolicamente viajar de perto consigo, em leves e portáteis lenços que cabem nos bolsos das suas fardas.

E é nessa loja que, num dia, Kyung conhece Ok Heedo, um pintor que tivera que fugir do norte da Coreia para poder sobreviver e alimentar a sua família. Ok Heedo era pintor “a sério” e vê-se agora na necessidade de ter que fazer um trabalho menos digno do ponto de vista artístico. Mas o seu talento e os seus modos são tais, que Kyung acaba por se apaixonar por ele. Contudo, Ok Heedo é casado e tem filhos e, portanto, Kyung passa a alimentar dentro de si a ideia de um romance impossível. E não correspondido.

Mas a história deste A Árvore Despida não se ocupa apenas da paixão de Kyung por Ok Heedo. O passado da família da protagonista também nos é revelado. E é um passado marcado por eventos tenebrosos que causaram mágoa e trauma em Kyung e na sua mãe.

A Árvore Despida, de Keum Suk Gendry-Kim - Levoir
A história e a seriedade da obra são mais que relevantes, mas, mesmo assim, o livro acaba por andar meio perdido, em termos narrativos, entre o romance, o facto de ser um livro de guerra e o drama familiar. É claro que pode ser isso tudo – e neste caso até isso que acontece. Não obstante, essas várias valências da obra parecem não alcançar uma simbiose entre si em termos narrativos. A própria parte sobre a família da protagonista que, na minha opinião, acaba por ser a melhor parte do livro, parece cair algo de "pára-quedas" na história que, por isso, se revela algo fragmentada.

Na primeira metade da obra, a autora Keum Suk Gendry-Kim demonstra-nos vários eventos corriqueiros do dia a dia de Kyung que, sendo de contexto para nos situar na realidade vivida pelos coreanos durante a guerra, acabam por ser algo aborrecidos. Todavia, também reconheço que, sensivelmente a partir da segunda metade da obra, em que passamos a conhecer o passado da família de Kyung, a história nos consegue marcar e tocar-nos no âmago. Aliás, estou certo que daqui a uns meses provavelmente não recordar-me-ei da história de Kyung e de Ok Heedo, mas lembrar-me-ei certamente da relação de Kyung com a sua mãe e do papel que a perda dos irmãos da protagonista teve nas duas mulheres. É esse o “néctar” do livro e só lamento que não seja a parte a que a autora deu maior destaque na obra.

Assim sendo, se a parte do “quase-romance” entre Kyung e Ok Heedo me pareceu algo arrastada e carregada de marasmo, a descrição do passado da sua família, e daquilo que aconteceu aos seus irmãos, deixou-me bem mais “abananado”.

Normalmente, até refiro muitas vezes que muitos livros de banda desenhada precisavam de mais páginas para serem mais marcantes, ou melhor amadurecidos pelo autor, mas, no caso concreto deste A Árvore Despida, julgo que mais de 300 páginas para a história que aqui nos é dada, são demasiadas páginas. 120 ou 150 páginas seriam mais que suficientes para (bem) contar a parte mais relevante e, portanto, melhor deste A Árvore Despida.

Além disso, acresce ainda que o ritmo narrativo não é o melhor, já que, mais para o final da obra, tenhamos vários saltos no tempo que parecem algo aleatórios e insuficientemente contextualizados. Mesmo sem que eu tenha lido a obra original, fica no ar a ideia de que a adaptação se centrou apenas em alguns aspetos/capítulos da obra de Park Wan-seo, carecendo, depois, de um fio condutor narrativo mais coeso que pudesse melhor unir as diferentes partes.

Seja como for, é um livro sério, relevante pela realidade da Guerra da Coreia que nos dá, e que merece ser (re)conhecido.

A Árvore Despida, de Keum Suk Gendry-Kim - Levoir
Quanto aos desenhos, a autora mantém o registo já demonstrado em A Espera e, portanto, reitero o que já havia escrito a propósito dessa obra: a autora “oferece-nos ilustrações a preto e branco puro, sem cinzentos, maioritariamente simples na forma. E utilizo a expressão “maioritariamente simples na forma” porque, de facto é isso que acontece, mas, ainda assim, há vários momentos ao longo do livro onde as ilustrações da autora coreana atingem um nível mais gratificante e evoluído tecnicamente. São desenhos inspirados, com uma aura expressionista, onde delicados e belíssimos cenários nos são dados. O que, sendo algo bom, causa um certo desequilíbrio ao todo, tenho que admitir. É verdade que muitas expressões faciais parecem “cartoonizadas” de uma forma quase infantil e apresentam um traço algo arcaico, mas noutros casos, o desenho apresenta uma qualidade ao nível da pintura, tal não é a beleza estética do mesmo! Fico com a ideia de que a autora desenha normalmente de forma rápida e direta e que, noutros casos, despende mais tempo e devoção, dando-nos ilustrações lindas (…) E são esses os melhores momentos da obra, em termos de ilustração.”

A edição da Levoir apresenta um aspeto idêntico aos outros livros que a editora tem lançado nas suas coleções de novelas gráficas, embora, no caso concreto, este livro tenha sido lançado diretamente para as livrarias e de forma avulsa, não fazendo parte de nenhuma coleção. A capa é dura e, no miolo do livro, o papel é de boa qualidade. Como complemento à obra, há um prefácio escrito por Ho Won-sook, filha de Park Wan-seo; um posfácio de Keum Suk Gendry-Kim; e ainda um dossier de oito páginas que inclui fotos documentais e um texto de Pascal Dayez-Burgeon sobre a Guerra da Coreia. É uma boa edição da Levoir.

Em suma, A Árvore Despida é uma obra que adapta para banda desenhada o romance homónimo de Park Wan-Seo, tendo como pano de fundo a Guerra da Coreia que, lamentavelmente, até parece ficar muitas vezes esquecida quando, do lado ocidente do globo, se pensa nos mais relevantes conflitos bélicos que já assolaram o planeta. Mas a obra de Keum Suk Gendry-Kim tem sido resiliente em mostrar-nos que os efeitos desta guerra, mesmo no mundo atual, ainda não terminaram.


NOTA FINAL (1/10):
8.0



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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A Árvore Despida, de Keum Suk Gendry-Kim - Levoir

Ficha técnica
A Árvore Despida
Autora: Keum Suk Gendry-Kim
Editora: Levoir
Páginas: 328, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 190 mm x 280 mm
Lançamento: Dezembro de 2023

terça-feira, 23 de janeiro de 2024

Levoir lança nova obra de Keum Suk Gendry-Kim!


A Levoir lança hoje a obra A Árvore Despida, da autora Keum Suk Gendry-Kim.

Esta é uma autora que, aliás, em pouco tempo viu os seus livros tornarem-se presença habitual nos lançamentos editoriais de banda desenhada em Portugal. 

Com efeito, se há cerca de 6 meses não havia nenhuma BD da autora coreana Keum Suk Gendry-Kim publicada em Portugal, em pouco tempo a autora prepara-se para ter 4 obras editadas por duas diferentes editoras portuguesas. 

Relembro que a Levoir já havia lançado, na sua última Coleção de Novelas Gráficas, a obra Alexandra Kim, Filha da Sibéria e a editora Iguana (do grupo Penguin Random House) editou A Espera. A mesma editora já anunciou que deverá editar nos próximos meses a obra A Erva.

Mais abaixo, deixo-vos com a nota da imprensa da obra e com algumas imagens promocionais.



A Árvore Despida, de Keum Suk Gendry-Kim

Depois da publicação de Alexandra Kim, na coleção Novela Gráfica, a 23 de Janeiro a Levoir edita A Árvore Despida, obra da autoria de Keum Suk Gendry-Kim. Keum nasceu em Goheung, na província de Jeolla do Sul, é tradutora, argumentista e ilustradora. Escreveu a adaptação do romance de Park Wan-seo, traduziu-o e concebeu os desenhos para esta novela gráfica. Estudou pintura ocidental na Universidade de Sejong e em 1998 licenciou-se em artes, na Escola de Artes Decorativas de Estrasburgo.

Em 1950, quando rebentou a guerra da Coreia, Kyung era uma jovem de vinte anos. Vivia em Seul com a sua mãe. Para sobreviver, trabalhava como vendedora numa loja frequentada por soldados americanos.

Um dia, conhece Ok Heedo, um pintor que tinha fugido do norte do país e que trabalhava em retratos encomendados pelos GI’s para alimentar a família. Kyung apaixona-se imediatamente por este homem tocada pela sua diferença e pelo seu talento. Acima de tudo, este amor ajuda-a a esquecer a terrível tragédia que acaba de atingir a sua família... Infelizmente, Ok Heedo é casado.

Muitos anos mais tarde, visita uma exposição póstuma dedicada a este pintor. O passado obscuro que ela julgava adormecido ressurge de repente. Kyung começa a escrever a sua história para se reconciliar com os fantasmas que a perseguem.

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Ficha técnica
A Árvore Despida
Autora: Keum Suk Gendry-Kim
Editora: Levoir
Páginas: 328, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 190 mm x 280 mm
PVP:  28,90€

quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

Análise: A Espera

A Espera, de Keum Suk Gendry-Kim - Iguana - Penguin Random House

A Espera, de Keum Suk Gendry-Kim - Iguana - Penguin Random House
A Espera, de Keum Suk Gendry-Kim

Depois da editora Levoir ter lançado, na sua última coleção de Novelas Gráficas, a obra Alexandra Kim, Filha da Sibéria, da autora coreana Keum Suk Gendry-Kim, foi a vez da editora Iguana (do grupo Penguin Random House) nos fazer chegar o livro A Espera, da mesma autora, que hoje vos trago. De resto, e tal como já aqui tinha dado conta, parece que a aposta no lançamento de trabalhos de Keum Suk Gendry-Kim para o mercado nacional é séria, uma vez que são esperadas, já para o próximo ano, mais duas obras da autora. A Árvore Despida, pela Levoir, e Erva, pela Iguana.

Mas concentremo-nos, para já, neste A Espera.

A história que Keum Suk Gendry-Kim nos oferece, centra-se em Gwijá, uma mulher com noventa anos que, atualmente, vive na Coreia do Sul. Esta mulher passou, nada mais, nada menos, do que sete décadas sem o seu filho! Sim, parece impossível, mas, de facto, o livro até procura aproximar os leitores a uma realidade, quiçá distante para o mundo ocidental, que afetou tantos milhares de refugiados coreanos que, lamentavelmente, se viram afastados dos seus entes queridos para sempre. No caso de Gwijá, esta mulher fugia, como tantos outros, do norte da Coreia com o seu marido, filho e filha, mas, por fatalidades do destino, separou-se do seu filho e marido e acabou sozinha, com a sua filha.

A Espera, de Keum Suk Gendry-Kim - Iguana - Penguin Random House
Entretanto, com maior ou menor mágoa, os anos foram-se sucedendo e a vida lá se foi passando. Gwijá voltou a casar – com um homem que também havia perdido familiares diretos neste fluxo de refugiados – e teve outros filhos. No entanto, a ausência e afastamento do seu primeiro filho continua a atormentá-la.

Entretanto, uma das amigas de Gwijá, reencontra a sua irmã mais nova, num encontro organizado pela Cruz Vermelha, após 68 anos de separação. Depois disto, e compreensivelmente, Gwijá passa a acalentar ainda com mais força o desejo de reencontrar o seu filho.

Este é, afinal de contas, um livro que procura traçar com rigor as vicissitudes e dramas da Guerra da Coreia e como a mesma, para além das eventuais baixas diretas que fez, acabou por ter consequências demográficas e sociais que perduram até mesmo nos dias de hoje, visto que muitas famílias continuam separadas enquanto vos escrevo estas linhas.

A separação entre a Coreia do Norte e a Coreia do Sul teve – e tem – esse lado de, artificialmente, dividir e criar barreiras entre um lado fechado e comprimido sob o jugo da dinastia Kim, a norte, e um lado democrático, capitalista e moderno, a sul. Para melhor se documentar, Keum Suk Gendry-Kim efetuou variadas entrevistas – incluindo à própria mãe - o que, por conseguinte, acaba por tornar o relato em algo muito verossímil, aumentando o teor histórico e de estudo socio-político da obra.

Quanto a nós, leitores, vemo-nos forçados a mergulhar de cabeça neste drama comovente que nos deixa sem palavras perante o desespero das vítimas das guerras e das separações forçadas. E, de forma quase automática, o livro acaba por fazer um paralelismo com tantos outros fluxos migratórios causados por conflitos militares que geram refugiados que tudo procuram fazer para tentar fugir da guerra e obter uma vida melhor. Muitas vezes, o preço a pagar é ficarem longe das suas próprias famílias.

Em termos de desenho, Keum Suk Gendry-Kim oferece-nos ilustrações a preto e branco puro, sem cinzentos, maioritariamente simples na forma. E utilizo a expressão “maioritariamente simples na forma” porque, de facto é isso que acontece, mas, ainda assim, há vários momentos ao longo do livro onde as ilustrações da autora coreana atingem um nível mais gratificante e evoluído tecnicamente.

A Espera, de Keum Suk Gendry-Kim - Iguana - Penguin Random House
São desenhos inspirados, com uma aura expressionista, onde delicados e belíssimos cenários nos são dados. O que, sendo algo bom, causa um certo desequilíbrio ao todo, tenho que admitir. É verdade que muitas expressões faciais parecem “cartoonizadas” de uma forma quase infantil e apresentam um traço algo arcaico, mas noutros casos, o desenho apresenta uma qualidade ao nível da pintura, tal não é a beleza estética do mesmo! Fico com a ideia de que a autora desenha normalmente de forma rápida e direta e que, noutros casos, despende mais tempo e devoção, dando-nos ilustrações lindas como as das páginas 11, 19, 46, 55, 159, 199, 205, por exemplo. E são esses os melhores momentos da obra, em termos de ilustração.

Seja como for, acho que a autora é bem sucedida neste cômputo do desenho, ao conseguir dar-nos um registo muito personalizado e ímpar. Podemos encontrar influências nas ilustrações de Keum Suk Gendry-Kim, mas, ainda assim, parece que o seu estilo é diferente dessas mesmas influências.

A edição da obra é em capa mole, com badanas. A capa é baça, mas apresenta detalhes a verniz. O papel é baço e de boa qualidade. Tal como o trabalho ao nível da encadernação e da impressão é bem feito.

Além da edição, acho que a Iguana (Penguin Random House) merece uma palavra de apreço. Especialmente na segunda metade deste ano de 2023, a editora tem lançado obras de primeira qualidade, entre as quais se destacam O Indispensável da Mafalda, de Quino, Mulher Vida Liberdade, de Marjane Satrapi, e o belíssimo Mau Género, de Chloé Cruchaudet. Só posso esperar que em 2024 a editora ainda se afirme mais enquanto editora de bandas desenhadas de qualidade. Para lá caminha!

Em suma, este A Espera é um excelente livro que deve ser conhecido e celebrado por tudo aquilo que nos traz: por um lado, uma visão clara e objetiva, embora carregada de tristeza e desolação, da Guerra da Coreia e de todos os refugiados que por ela são dramaticamente impactados; por outro lado, a prova da relevância e qualidade do trabalho da autora Keum Suk Gendry-Kim. Uma excelente aposta!


NOTA FINAL (1/10):
8.8



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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A Espera, de Keum Suk Gendry-Kim - Iguana - Penguin Random House

Ficha técnica
A Espera
Autora: Keum Suk Gendry-Kim
Editora: Iguana (Penguin Random House)
Páginas: 248, a preto e branco
Encadernação: Capa mole
Formato: 17 x 24 cm
Lançamento: Novembro de 2023