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terça-feira, 9 de setembro de 2025

TOP 10 - A Melhor BD lançada pela parceria A Seita/Arte de Autor nos últimos 5 anos!


Depois de um período de férias, regresso ao tema que fui desenvolvendo ao longo do mês de agosto: qual a melhor banda desenhada que cada editora lançou nos últimos 5 anos? O período dos 5 anos é apenas escolhido devido a ser o período de atividade aqui do Vinheta 2020. E porque é um número redondo, claro.

Hoje trago-vos algo um pouco diferente: em vez de me focar na banda desenhada editada por uma editora apenas, trago-vos o conjunto de melhores obras editadas pelo esforço conjunto de duas editoras: a Arte de Autor e A Seita. Sei que já publiquei um TOP 10 sobre cada uma destas editoras, mas tendo em conta a muito prolífera parceria editorial entre A Seita e a Arte de Autor, apresento-vos o meu TOP 10 das duas editoras.

Convém relembrar que este conceito de "melhor" é meramente pessoal e diz respeito aos livros que, quanto a mim, obviamente, são mais especiais ou me marcaram mais. Ou, naquela metáfora que já referi várias vezes, "se a minha estante de BD estivesse em chamas e eu só pudesse salvar 10 obras, seriam estas as que eu salvava".

Faço aqui uma pequena nota sobre o procedimento: considerei séries como um todo e obras one-shot. Tudo junto. Pode ser um bocado injusto para as obras autocontidas, reconheço, e até ponderei fazer um TOP exclusivamente para séries e outro para livros one-shot, mas depois achei que isso seria escolher demasiadas obras. Deixaria de ser um TOP 10 para ser um TOP 20. Até me facilitaria o processo, honestamente, mas acabaria por retirar destaque a este meu trabalho que procura ser de curadoria. Acabou por ser um exercício mais difícil, pois tive que deixar de fora obras que também adoro, mas acho que quem beneficia são os meus leitores que, deste modo, ficam com a BD que considero ser a "crème de la crème" de cada editora.

Eis então, as melhores obras que, quanto a mim, a Arte de Autor e A Seita já editaram em conjunto:

quinta-feira, 21 de dezembro de 2023

Análise: Bouncer #12 - Hecatombe

Bouncer #12 - Hecatombe, de Alejandro Jodorowsky e François Boucq - Arte de Autor

Bouncer #12 - Hecatombe, de Alejandro Jodorowsky e François Boucq - Arte de Autor
Bouncer #12 - Hecatombe, de Alejandro Jodorowsky e François Boucq

Em sentido contrário a diversos heróis do faroeste que a banda desenhada nos deu, com as séries de Blueberry ou Tex a serem as que mais me veem à memória neste ponto, Bouncer sempre primou por tentar ser, com sucesso, o oposto a esse western limpinho, onde os bons são sempre muito perfeitos e onde vence sempre o bem. Não tenho nada contra esse tipo de história mais clássica, atenção, mas a verdade é que a exigência de uma história mais adulta, com vários níveis de interpretação e onde a ação é mais crua e menos "hollywoodesca", vai muito mais ao encontro do que, pelo menos na atualidade, procuro numa história. E não falo apenas de histórias do faroeste. Falo de qualquer tipo de história.

Bouncer mostra-nos o lado mais negro, mais sujo, mais velhaco, mais ingrato, mais chocante do antigo faroeste. E mesmo sendo verdade que o protagonista da série, Bouncer, se reja por um quadro de princípios éticos que até podemos considerar – pelo menos grande parte – como corretos à luz da justiça e da retidão, tudo o que acontece em Barro City, a cidade onde se desenrola a ação, põe em causa qualquer tipo de moralidade e bem que poderíamos esperar. Bouncer não nos dá uma visão positiva das coisas, opta por nos dar uma verdade gutural e amarga. E, por tudo isso, quer-me parecer, talvez seja mais verossímil do que a maioria de todos os outros westerns – e não são tão poucos assim – que há em banda desenhada.

Bouncer #12 - Hecatombe, de Alejandro Jodorowsky e François Boucq - Arte de Autor
Este Bouncer, que a Arte de Autor publicou por cá há algumas semanas, já é o 12º volume tomo da série e assinala o regresso de Jodorowsky à escrita do argumento. Com muita satisfação vos digo que há muitos anos que não lia um argumento do autor franco-chileno que considerasse tão bem equilibrado e que me enchesse tanto as medidas. Este é, afinal de contas, pelo menos para os meus gostos, um autor algo "bipolar", pois consegue o melhor e o pior. Como tal, sempre que me aproximo de um livro do autor, engulo em seco, desejando o melhor, mas preparando-me para o pior. Aquela tendência que o autor foi sedimentando de colocar as suas personagens em situações extremas, mais para chocar o leitor do que em prol de uma boa construção narrativa, aliada à vertente metafísica das suas histórias, que sempre me pareceu algo gratuita e vaga em demasia, deixa-me por vezes desapontando.

No entanto, e é por isso que toco no assunto, em Hecatombe, Jodorowsky aparenta estar no pleno das suas capacidades. Esta é uma história verdadeiramente down to earth, sem que haja espaço para desvarios narrativos. Bem, em boa verdade, bem próximo do final da história, Jodorowsky parece não ter resistido a uma certa divagação metafísica que, quanto a mim, até acaba por ser o lado menos bom deste livro. Mas, tirando esse pequeno (grande) detalhe, que não aprofundarei para não estragar a surpresa a ninguém, Jodorowsky revela-se bastante contido, com uma trama bem montada, terra-a-terra, que vai crescendo em interesse e impacto para o leitor.

Bouncer #12 - Hecatombe, de Alejandro Jodorowsky e François Boucq - Arte de Autor
Aprofundando a história de Hecatombe, a mesma segue a linha narrativa dos tomos anteriores, intitulados O Ouro Maldito e O Espinhaço de Dragão – embora não seja obrigatório que tenhamos lido esses tomos para bem compreender este 12º volume – em que Bouncer se viu a braços com um enorme tesouro em lingotes de ouro. Com efeito, Bouncer e a sua trupe depositaram o ouro de origem mexicana no banco de Barro City. Mas, expetavelmente, todo aquele tesouro, embora guardado por um forte e moderno cofre, desperta a cobiça alheia. E não é, portanto, de admirar que comecem a chegar à cidade muitas pessoas – algumas da pior espécie – com intenções algo dúbias, embora ocultas.

Um dia, o ouro desaparece do cofre sem deixar qualquer rastro, sem que se oiça um único tiro e sem que tenha havido, sequer, arrombamento do cofre. Como terá isto acontecido? Jodorowsky brinca muito bem com o leitor, sugerindo-lhe um caminho de interpretação para, logo a seguir, mostrar-lhe que as coisas não são o que parecem.

E como resultado do roubo do dinheiro, a cidade torna-se ainda mais violenta, com a multidão à procura de um bode expiatório para tão enigmático roubo.

Apetecia-me falar das interessantíssimas e bem desenvolvidas personagens que entram neste Hecatombe, mas opto por não o fazer, para não desvendar mais do que pretendo em relação à história. Posso, no entanto, dizer que são personagens cheias de carisma e que sabem ser más e astutas, elevando o enredo em termos de qualidade. E, claro, há um grande número de momentos trágicos, com várias baixas importantes. O que seria de prever se pensarmos em como hostil e violenta esta história consegue ser. Uma autêntica “hecatombe”, portanto.

Bouncer #12 - Hecatombe, de Alejandro Jodorowsky e François Boucq - Arte de Autor
Falando das ilustrações, acho que, se tenho que dar mérito à crueza com que Jodorowsky arquiteta esta história, também tenho que prestar louvores à forma como François Boucq dá vida, forma e cor a este faroeste sujo, agreste, inóspito e tantas vezes desumano. É algo que já vimos nos tomos anteriores, sim, e talvez por esse motivo, não surpreende particularmente (nem desilude) os que já conhecerem a série. Ainda assim, diga-se que o início da história, marcado pela chuva torrencial que jorra nas ruas de Barro City, é verdadeiramente genial. O autor consegue transportar-nos para aquele ambiente vívido e carregado de lama. Sem prados belos ou montanhas floridas porque o "verdadeiro faroeste" era assim mesmo: vazio, badalhoco e cheio de pó e lama.

E, claro, o desenho das personagens – algumas delas com uma fealdade que encaixa perfeitamente na personalidade das mesmas – é verdadeiramente soberbo. E também a nível de cores este é um belo álbum, com as mesmas a darem a cada uma das cenas o ambiente cromático que era necessário.

Quanto à edição da Arte de Autor, estamos perante mais um bom trabalho de edição, sem algo de negativo a apontar. O livro apresenta capa dura brilhante, bom papel brilhante e uma boa impressão e encadernação. Nota positiva para o facto deste volume ter sido lançado em simultâneo com a edição francesa. É sempre bom quando estamos alinhados com a atualidade de lançamentos em mercados estrangeiros.

Em suma, este Bouncer #12 é o regresso em grande de um dos melhores westerns em banda desenhada! Sendo a série que é, já estava à espera de algo bom, mas não esperava que fosse tão bom! História e ilustrações caminham de mãos dadas para nos dar um dos mais maduros e bem concebidos tomos de toda a série. E, por conseguinte, de todos os westerns em BD, uma vez que coloco esta série bem lá em cima, entre as melhores das melhores bandas desenhadas com o tema do faroeste como pano de fundo. Numa palavra: fantástico!


NOTA FINAL (1/10):
9.6



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Bouncer #12 - Hecatombe, de Alejandro Jodorowsky e François Boucq - Arte de Autor

Ficha técnica
Bouncer #12 - Hecatombe
Autor: Alejandro Jodorowsky e François Boucq
Editora: Arte de Autor
Páginas: 144, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 23,2 x 31 cm
Lançamento: Novembro de 2023

segunda-feira, 16 de outubro de 2023

Arte de Autor prepara-se para lançar o novo Bouncer!


A Arte de Autor prepara-se para lançar o novo livro da aclamada série Bouncer! E, desta vez, temos o autor Alejandro Jodorowsky a regressar à série para assumir o argumento deste 12º volume, intitulado Hecatombe.

Como não podia deixar de ser, as ilustrações estão a cargo de François Boucq.

Estou muito contente, pois esta é das minhas séries western preferidas! 

O livro deverá chegar às livrarias a partir do próximo dia 3 de Novembro. Note-se que o álbum é lançado em simultâneo com a edição francesa, coisa que merece sempre os meus louvores.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.
Bouncer #12 - Hecatombe, de Alejandro Jodorowsky e François Boucq

QUANDO A FEBRE DO OURO SE APODERA DE BARRO CITY!

Há dias que chove torrencialmente em Barro-City. Os caminhos que levam ao banco são apenas lamaçais. Foi lá que Bouncer e os seus amigos depositaram o ouro mexicano que trouxeram dos confins do Deserto de Sonora. 

Mas os lingotes armazenados ali despertam a cobiça. Não só a cidade está inundada, como todo o tipo de bandidos e de canalhas da pior espécie chegam de toda a parte, prontos para fazer qualquer coisa para se apropriar desse ouro.
Entre eles, um grupo de ladrões tão espertos quanto implacáveis criaram um engenhoso projecto de roubo para se apoderar do saque. Quando o coronel Carter chega com os seus homens para garantir a segurança do ouro, o prefeito espera um retorno à calma, mas a situação piora quando os lingotes desaparecem como por um passe de mágica.

No entanto, o cofre vazio está intacto! A tensão está no auge. Numa cidade em que a multidão se deleita com julgamentos sumários e linchamentos, as vítimas colaterais serão numerosas e as aparências são muitas vezes enganadoras. O êxtase do ouro gera a pior das violências e a cidade poderia desaparecer rapidamente num dilúvio de fogo e sangue.

Pode ser que esse ouro amaldiçoado leve Bouncer para muito mais longe do que ele gostaria, por um caminho funesto e selvagem de coragem e morte.

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Ficha técnica
Bouncer #12 - Hecatombe
Autor: Alejandro Jodorowsky e François Boucq
Editora: Arte de Autor
Páginas: 144, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 23,2 x 31 cm
PVP:31,00€

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023

Análise: Os Filhos de El Topo #3 - Abelcaim

Os Filhos de El Topo #3 - Abelcaim, de Jodorowsky e Ladrönn - Arte de Autor

Os Filhos de El Topo #3 - Abelcaim, de Jodorowsky e Ladrönn - Arte de Autor
Os Filhos de El Topo #3 - Abelcaim, de Jodorowsky e Ladrönn

Par além de Armazém Central ou de Corto Maltese (a preto e branco) outra das séries que a editora Arte de Autor terminou no ano passado, foi Os Filhos de El Topo. Aqui estamos perante uma mini-série, com três volumes, da autoria do consagrado Alejandro Jodorowsky, que se faz acompanhar por José Ladrönn no trabalho da ilustração.

Julgo ter tecido uma apreciação suficientemente completa desta série aquando a publicação da análise ao segundo tomo. Por esse motivo, convido todos os leitores deste texto a acederem a esse texto. Até porque neste artigo dedicado ao terceiro e último tomo da série, Os Filhos de El Topo #3 – Abelcaim, ver-me-ei forçado a citar esse texto várias vezes.

Primeiro que tudo, a série Os Filhos de El Topo é a história que Jodorowsky criou para ser um filme mas que, por circunstâncias várias, acabou por nunca chegar a sê-lo. Mas, não contente com esse fim para a sua história, Jodorowsky decidiu fazer dela uma banda desenhada. Como tal, para recriar a sua visão original, recorreu ao ilustrador Ladrönn.

Os Filhos de El Topo #3 - Abelcaim, de Jodorowsky e Ladrönn - Arte de Autor
A relevância de Jodorowsky para a banda desenhada é de uma força abrupta se pensarmos não só na quantidade, mas, também, na qualidade de alguns dos trabalhos com que o autor já brindou os adeptos da 9ª arte. Mas, se isso é verdade e, praticamente, inquestionável, diria, também não deixa de ser verdade que nem tudo o que o autor lança atinge a qualidade expetável.

Os Filhos de El Topo talvez não seja disso exemplo – porque há aqui qualidade a vários níveis – mas também está longe de ser uma das obras mais relevantes ou recomendáveis do autor. Por ventura, será uma questão de gosto, subjetiva, portanto, mas o que é certo é que Os Filhos de El Topo representa uma viagem onírica, bizarra a muitos níveis, em que o autor tece várias alegorias envoltas nos mitos da religião cristã – ou não estivéssemos a falar de Abel e Caim, os filhos de Adão e Eva, segundo a Bíblia Sagrada –, transportando-os para o seu próprio universo e imaginação.

Assim, à partida, diria que parece logo ser uma ideia vencedora. E, com efeito, esta série tem uma personalidade tão própria que estou certo que será uma obra de culto para muitos entusiastas seguidores do autor. Porém, não deixa de trazer algumas lacunas e de deixar no ar que interessa mais a forma do que o conteúdo.

Os Filhos de El Topo #3 - Abelcaim, de Jodorowsky e Ladrönn - Arte de Autor
Especialmente porque, acima de tudo, Os Filhos de El Topo é bem mais um misto de ideias avulsas e caprichos fetichistas do autor, do que uma narrativa coesa. Como referi, relativamente ao álbum anterior, “há uma consistente inconsistência nesta obra. Ou seja, o autor parece fiel ao seu estilo louco de inventar uma história e há até um bom paralelismo, muito coerente, com o filme El Topo. Esta é a parte em que Os Filhos de El Topo é consistente. Todavia, e goste-se ou não, por vezes a história poderá aparecer algo absurda, levantando algumas pontas que acabam por não ficar bem resolvidas – ou bem exploradas - e introduzindo elementos que, mais do que dotar a história de consistência narrativa, apenas parecem ser introduzidos para chocar e surpreender – gratuitamente – o leitor. Esta será a parte em que considero haver alguma inconsistência na obra, que acaba por ser uma das bandas desenhadas mais niilistas que já li. Neste western, carregado de surrealismo e constantes alegorias religiosas, contem com doses gratuitas de violência, como mortes, violações ou tortura, e com bastante sexo e nudez. Mas todos estes elementos estão envoltos numa aura metafísica e filosófica, que toca nos dogmas religiosos.

Os Filhos de El Topo #3 - Abelcaim, de Jodorowsky e Ladrönn - Arte de Autor
Em termos de história, este terceiro volume conclui a saga. Abel continua a sua viagem, acompanhado de Lillith, satisfazendo os seus caprichos mais curiosos, até que ambos caem nas mãos do Coronel e do seu pequeno exército. A partir daqui, segue-se uma das cenas mais violentas (gráfica e mentalmente) que vi nos últimos tempos em banda desenhada. A situação é tensa e a forma como Jodorowsky a concebe e como Ladrönn a ilustra, está muito bem executada. Talvez não fosse necessária tanta violência? Talvez. Mas não restam dúvidas que a cena é daquelas que nos ficam na memória. O ponto alto do livro, diria.

Já o irmão de Abel, Caim, está desesperadamente a tentar salvar a sua amada. Todos os caminhos arrastam as personagens para a Ilha Sagrada que promete redenção a todas elas, das mais diversas formas.

O que é mais interessante na história de toda esta trilogia – e que está bem patente neste último volume – é a forma tão díspar e, até mesmo, oposta como atuam os dois irmãos. Um move-se pelo amor, outro move-se pelo ódio. Até as próprias mulheres de cada um são o oposto uma da outra. É interessante esta relação de yin-yang, de branco-preto, de bem-mal que as personagens trazem. No entanto, e no final, também fica no ar uma ideia de que talvez cada uma das personagens tenha mais elementos da outra do que aquilo que, inicialmente, seria de antever.

Os Filhos de El Topo #3 - Abelcaim, de Jodorowsky e Ladrönn - Arte de Autor
Se essa foi a moral que Jodorowsky preparou para este Os Filhos de El Topo, até foi uma bela moral. Mas, também não é claro que tenha sido esse o seu objetivo, já que estamos perante uma história que é muito aleatória em diversos pontos. Como se as ideias fossem lançadas para o ar mais pela sua componente estética e respetivo potencial de choque do que, propriamente, pela sua componente narrativa.

Olhando para as ilustrações de Ladrönn, mantém-se neste terceiro livro, o belo trabalho feito até aqui. “Com cores genericamente esbatidas, que por vezes chegam a parecer estar mal pintadas, mas que são alternadas por alguns vermelhos vivos, o resultado estético final é muito interessante e parece remeter-nos automaticamente para o ambiente dos filmes de série b dos anos 70, em especial, e claro está, o de El Topo. Também aqui, na componente gráfica, há uma personalidade muito própria desta obra. É igual a si mesma. Por vezes, as personagens apresentam expressões faciais que me parecem algo mecânicas e pouco expressivas. No entanto, na aridez dos ambientes e cenários, que nos remetem para os clássicos do cinema de Sergio Leone, nas fantásticas ilustrações dos cavalos ou do corpo feminino, Ladrönn faz um excelente trabalho.

A capa volta a ser muito bela. E para isso também contribui a bela edição da Arte de Autor que, mais uma vez, apresenta capa dura com textura aveludada, com belos detalhes a verniz. De resto, a impressão e a encadernação são boas, e o papel é brilhante, com boa qualidade.

Em conclusão, posso dizer que certamente eu teria apreciado mais Os Filhos de El Topo se a minha leitura fosse feita durante o consumo de álcool e substâncias estupefacientes ou psicotrópicas. Como não foi o caso, devo dizer que a experiência deste volume – e desta série – mais não foi do que assistir a um freak show. Por vezes, com bons momentos, noutros casos, sem grande critério e em que se tenta causar uma impacto no leitor através de algo chocante. Mas o autor é Jodorowsky e, talvez por isso, tudo isto acaba por não surpreender tanto assim.


NOTA FINAL (1/10):
7.0


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Os Filhos de El Topo #3 - Abelcaim, de Jodorowsky e Ladrönn - Arte de Autor

Ficha técnica
Os Filhos de El Topo #3 - Abelcaim
Autores: Jodorowsky e Ladrönn
Editora: Arte de Autor
Páginas: 96, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 232 x 310 mm
Lançamento: Outubro de 2022

terça-feira, 18 de outubro de 2022

Mais uma série de Jodorowsky integralmente publicada em Portugal!




A Arte de Autor acaba de publicar a conclusão da história de Jodorowsky que não chegou a ser um filme, mas que se transformou numa bela banda desenhada!

Falo-vos de El Topo que, para além de Alejandro Jodorowsky, conta com o ilustrador Ladrönn para nos transportar nesta viagem onírica.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.


Os Filhos de El Topo #3 - Abelcaim, de Jodorowsky e Ladrönn

A conclusão de um filme de culto em banda desenhada!

Enquanto Abel viaja pelo árido Oeste com Lilith e satisfaz os seus desejos extravagantes, eles caem nas mãos dos terríveis homens do Coronel. Este último quer aplacar a sua raiva e infligir-lhes um castigo impiedoso antes de partir de novo para a Ilha Sagrada e os seus menires dourados... 

Entretanto, Caim, que embarcou numa busca desesperada para curar uma jovem rapariga de uma doença estranha, percebe que a única esperança de a salvar também está na Ilha Sagrada! O destino reunirá os dois filhos de El Topo para uma viagem final, um movido pelo ódio, o outro pelo amor...

Com este último álbum, Alejandro Jodorowsky encerra a sua sumptuosa saga mística, concebida como sequência de banda desenhada do seu filme El Topo (1970).
Este trabalho deu origem à corrente dos filmes da meia-noite e gerou um culto de seguidores entre os cinéfilos de todo o mundo que continua até aos dias de hoje.

Graças à linha virtuosa de José Ladronn, este tríptico mergulha-nos num western surreal e alucinante onde, como é frequentemente o caso do brilhante criador chileno, o género serve considerações filosóficas e espirituais mais profundas.

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Ficha técnica
Os Filhos de El Topo #3 - Abelcaim
Autores: Jodorowsky e Ladrönn
Editora: Arte de Autor
Páginas: 96, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 232 x 310 mm
PVP: 22,50€

sexta-feira, 10 de setembro de 2021

Análise: Os Olhos do Gato

Os Olhos do Gato, de Jodorowsky e Moebius - A Seita e Arte de Autor

Os Olhos do Gato, de Jodorowsky e Moebius - A Seita e Arte de Autor

Os Olhos do Gato, de Jodorowsky e Moebius

Da parceria editorial entre A Seita e a Arte de Autor foi lançado em Portugal, pela primeira vez (!) Os Olhos do Gato, este clássico da banda desenhada internacional que, lamentavelmente, e mesmo tendo passado mais de 40 anos desde a sua publicação original, permanecia inédito no nosso país. Refira-se que esta obra tem, também, o condão de ter sido a primeira colaboração em bd entre Jodorowsky e Moebius - ainda nos tempos idos da revista Métal Hurlant – e de ter a capacidade (ou objetivo?) de nos oferecer uma proposta diferente em termos de experiência de banda desenhada. E quando digo "diferente", refiro-me a todos os níveis. Quer em termos de narrativa textual quer, também, e certamente de forma mais demarcada, a nível visual.

E avancemos por aí. Pela componente visual.

Os Olhos do Gato, de Jodorowsky e Moebius - A Seita e Arte de Autor

Em termos de forma, de planificação de páginas, estamos perante algo singular e raro na banda desenhada. Em vez de termos as várias ilustrações dentro de vinhetas que, por sua vez, compõem as pranchas, e que é o apanágio habitual da banda desenhada na forma, temos uma abordagem completamente diferente em Os Olhos do Gato.

Existem dois tipos de páginas no livro: as do lado esquerdo e as do lado direito. Parecendo pouco relacionadas no início da história, depressa compreendemos que estão intimamente ligadas e que atuam em parceria para nos darem o relato da história. Assim, do lado esquerdo, vemos sempre a criança que protagoniza a história de costas para nós, leitores, e de frente para uma janela onde vai observando os eventos. Depois, do lado direito, vemos esses tais eventos através de ilustrações que ocupam a página inteira. No fundo, as páginas da direita servem como planos POV (point of view), isto é, imagens na primeira pessoa. Como se nestas tais ilustrações do lado direito do livro, pudéssemos nós mesmos ver o que a criança observa (?). Portanto, o livro é composto por 25 imagens do menino à janela (do lado esquerdo) e outras tantas, à direita, que revelam ao leitor o que se está a passar.

Os Olhos do Gato, de Jodorowsky e Moebius - A Seita e Arte de Autor

Quanto ao texto, é pouco presente, aparecendo, sem o recurso a balonagem, apenas em algumas das páginas onde a criança está à janela e nos revelam o seu discurso para com Meduz, a ave de rapina que é comandada pelo rapaz com o intuito de caçar um gato. Em termos de história, tenho que me ficar por aqui para não estragar o prazer de leitura a todos aqueles que forem (e bem) ler este livro sui generis. Deixo apenas no ar a ideia de que o argumento traz consigo um plot twist, uma revelação, que é marcante e, a meu ver, o grande trunfo narrativo deste livro.

Mas outro dos trunfos da obra assenta claramente nos desenhos de Moebius, que são verdadeiramente maravilhosos, numa técnica rara que utiliza tramas mecânicas, que acabam por oferecer uma enorme força visual a este livro. Os desenhos do autor vão seguindo a ação da história como se fossem uma câmara drone – bastantes décadas antes dos drones se vulgarizarem, diga-se – que segue a ave Meduz. Cada desenho apresenta uma força visual e uma beleza hipnotizante que revelam um Moebius completamente inspirado e em grande forma.

Juntando, pois, a moral desta história, à arte ilustrativa fantástica de Moebius e à forma cinematográfica com poucas – mas preciosas- palavras de Jodorowsky, julgo que podemos estar a falar de "banda desenhada poética", pois parece tratar-se mais de um poema visual do que de outra coisa qualquer. Ao mesmo tempo que, audazmente, os autores se permitem (des)construir os cânones clássicos da banda desenhada a seu belo prazer.

Os Olhos do Gato, de Jodorowsky e Moebius - A Seita e Arte de Autor

Não quero entrar muito na discussão se este livro é de banda desenhada ou não. Como as vinhetas – os quadradinhos – não aprecem presentes, há um certo grupo de puristas que considera este livro como um livro ilustrado e não como uma bd. Mas, em contraponto, também posso dizer que se banda desenhada é, acima de tudo, arte sequencial, em que os desenhos contam uma história com sequência visual, então este Os Olhos do Gato não poderia ser mais banda desenhada porque, de facto, é justamente nessa sequência entre imagens – essa noção de movimento e de continuidade – em que a obra se destaca e transcende. Além de que, mais importante do que a minha opinião ou a do leitor que me lê, devemos não esquecer que para os autores Jodorowsky e Moebius Os Olhos do Gato é um livro de banda desenhada. E acho que isso deveria encerrar esta discussão.

A edição da Arte de Autor e d’A Seita é espetacular! Em formato maior do que o original, com bom papel (em tons de amarelo, a respeitar o original), um prefácio de Jodorowsky e um dossier final, muito bem elaborado, pelo editor João Miguel Lameiras. A (bonita) capa da obra é dura e com detalhes a verniz. Se o texto da contracapa estivesse justificado, era perfeito. Mesmo assim, esta será, possivelmente, a melhor edição do mundo desta obra que já conheceu tantas edições.

Finalizando, reitero que Os Olhos do Gato é uma banda desenhada atípica, que rasga formas e convenções associadas ao universo da 9ª arte, apresentando-nos uma proposta singular, bela e inspirada, que nos convida a vivenciar uma experiência sensorial acima de tudo. Mas não é uma viagem metafísica apenas pois há uma moral implícita à história que nos é dada. Podendo não ser “para todos” é uma obra fantástica que todos deveriam, pelo menos, conhecer.


NOTA FINAL (1/10):
8.5



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Os Olhos do Gato, de Jodorowsky e Moebius - A Seita e Arte de Autor

Ficha técnica
Os Olhos do Gato
Autores: Alexandro Jodorowsky e Moebius
Editoras: A Seita e Arte de Autor
Páginas: 64, a preto e amarelo
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Junho de 2021

quinta-feira, 12 de agosto de 2021

Álbum inédito em Portugal de Jodorowsky e Moebius acaba de ser lançado!



Os mais atentos já saberiam desta novidade quando a mesma foi anunciada, em primeira mão, aqui no Vinheta 2020. Na altura em que falei com os editores José Freitas e Vanda Rodrigues, das editoras A Seita e Arte de Autor, respetivamente, foi anunciado que ambas as editoras se iriam juntar para co-editar Os Olhos do Gato, uma obra de autores tão consagrados como Alexandro Jodorowsky e Moebius e que, lamentavelmente, se encontrava inédita em Portugal.

Na altura da entrevista, os editores reveleram ao Vinheta 2020 que iriam "lançar um livro estranhamento esquecido na história da edição da BD no nosso país: Os Olhos do Gato, que foi a primeira colaboração entre Moebius e Jodorowsky, ainda no tempo da revista Métal Hurlant, antes de começarem a trabalhar no Incal. Uma obra inédita no nosso país, que inclui um texto super interessante do Jodorowsky e um dossier nosso, que esperamos que seja interessante para os leitores portugueses.
É um livro incrivelmente original, que desafia um pouco a noção daquilo que entendemos por BD, mas que é também um conjunto absolutamente maravilhoso de desenhos do Moebius."

Agora é chegado o momento dessa obra ímpar chegar às livrarias portuguesas. Por agora, o livro até já se encontra em pré-venda (com desconto) no site da Arte de Autor devendo, depois, chegar às livrarias na próxima semana, a partir do dia 18 de Agosto.

Abaixo, fiquem com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.


Os Olhos do Gato, de Alexandro Jodorowsky e Moebius
Verdadeiro poema visual, de uma simplicidade e crueldade enganadoras, que mostra uma utilização inovadora dos mecanismos narrativos da banda desenhada e do cinema, Os Olhos do Gato é a primeira e a menos convencional das colaborações entre Moebius e Jodorowsky, dupla responsável por obras incontornáveis com a série O Incal, ou A Louca do Sacré Coeur. Uma obra de culto, poética e mística, que, mais de 40 anos após a sua publicação original, mantém intacto todo o seu fascínio.

Obra singular no percurso de dois geniais criadores, Os Olhos do Gato é uma obra única, até na forma como aborda as convenções da BD para as subverter. Uma obra mítica, que, por ter estado indisponível durante muito tempo, foi bastante mais falada do que lida, o que ajudou ao seu estatuto de verdadeiro livro de culto. 

Um livro imprescindível, que finalmente é editado em Portugal, numa edição num formato ligeiramente maior do que o original, de modo a que o fabuloso trabalho gráfico de Moebius possa ser devidamente apreciado, em mais uma colaboração editorial entre A Seita e a Arte de Autor. A edição portuguesa inclui o prefácio original de Jodorowsky e é enriquecida por um dossier final da autoria de João Miguel Lameiras que traça a história desta obra singular, ilustrado com imagens raras.

“Cada vez que via uma página [de Os Olhos do Gato] o prazer espiritual que sentia era de um nível superior ao de um orgasmo. Diante dos meus olhos, tinha a prova inegável de que a banda desenhada é uma grande arte, merecedora de um respeito semelhante ao dispensado aos quadros expostos nos museus.”
– Alejandro Jodorowsky (do prefácio)

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Ficha técnica
Os Olhos do Gato
Autores: Alexandro Jodorowsky e Moebius
Editoras: A Seita e Arte de Autor
Páginas: 64, a preto e amarelo
Encadernação: Capa dura
PVP: 16,50€

quinta-feira, 24 de junho de 2021

À Conversa Com: A Seita e Arte de Autor - Novidades Conjuntas para o 2º Semestre de 2021

Hoje é dia de vos dar a conhecer (mais) novidades fantásticas em relação a novos lançamentos de banda desenhada para o segundo semestre de 2021!!!

Desta vez falei, não com uma, mas com duas editoras. Bem, na verdade, é quase como se os esforços das editoras A Seita e Arte de Autor tivessem formado uma nova editora à parte, desde que se uniram, no ano passado, para lançar o interessantíssimo livro Shanghai Dream, de Philippe Thirault e Jorge Miguel. Esse esforço conjunto correu tão bem que as duas editoras preparam novos lançamentos "a meias". E, se no ano passado foi apenas um livro em parceira, em 2021 serão três livros!

E todo eles, sem exceção, me deixam super empolgado! E há uma obra em concreto que vai marcar, certamente, o ano de 2021 como uma das mais importantes obras!

Ora, vejam lá, mais abaixo, as fantásticas surpresas que nos esperam da parceria entre A Seita e a Arte de Autor!


Entrevista



1. Como foi este primeiro semestre do ano editorial de 2021 para vós? Editaram tudo o que tinham planeado ou houve títulos que foram adiados para o segundo semestre de 2021 (ou mesmo para 2022)?
A parceria entre a Arte de Autor e A Seita começou no ano passado, e o primeiro livro que editámos saiu em Dezembro, o Shanghai Dream de Philippe Thirault e Jorge Miguel. Portanto, e sem mais lançamentos, é difícil apresentar um “balanço” típico. Podemos dizer que o livro foi um dos mais vendidos de ambas as editoras, e que olhando para a “racionalização” da distribuição que fizemos entre as duas editoras para chegar ao máximo de pontos de venda possíveis, o projecto foi muito bem sucedido.


2. Quais são os vossos lançamentos agendados para o segundo semestre de 2021?
Depois do lançamento deste projecto, as duas editoras analisaram o seu “stock” de direitos comprados, bem como o de livros que pretendiam adquirir. Neste momento, decidimos colaborar em dois títulos (ver abaixo), e temos também uma lista de livros que queremos fazer em conjunto. Tentámos já num caso a compra dos direitos de uma série francesa, mas acabámos por perder para outra editora (os fãs portugueses vão ficar muito felizes quando ela for anunciada, diga-se).

Os três lançamentos que podemos desde já anunciar são já para o segundo semestre, com um deles a entrar no mercado provavelmente já em Julho, se tudo correr bem.

Em primeiro lugar, iremos lançar um livro estranhamento esquecido na história da edição da BD no nosso país: Os Olhos do Gato, que foi a primeira colaboração entre Moebius e Jodorowsky, ainda no tempo da revista Métal Hurlant, antes de começarem a trabalhar no Incal. Uma obra inédita no nosso país, que inclui um texto super interessante do Jodorowsky e um dossier nosso, que esperamos que seja interessante para os leitores portugueses. É um livro incrivelmente original, que desafia um pouco a noção daquilo que entendemos por BD, mas que é também um conjunto absolutamente maravilhoso de desenhos do Moebius (lançamento previsto em finais de Julho).

Os Olhos do Gato
de Jodorowsky e Moebius


O segundo livro que as duas editoras vão co-editar era mais previsível para os nossos fãs: trata-se de mais um livro desenhado pelo Jorge Miguel para o mercado... francês? Franco-americano? Sapiens Imperium, com argumento do americano Sam Timel, acaba de sair em França, e será publicado cá com lançamento na Amadora, onde terá lugar também uma bela exposição retrospectiva da obra de Jorge Miguel. Acreditamos que este seja o seu melhor trabalho de sempre em termos de desenho, uma belíssima space-opera.

Sapiens Imperium
de Sam Timel e Jorge Miguel 

E finalmente: decidimos colaborar na edição de uma das obras-primas da banda desenhada francesa, O Combate Quotidiano, de Manu Larcenet, que planeamos editar em dois volumes de 120 pgs. cada, a começar já em Setembro, com o segundo volume marcado para início de 2022. Vencedor do Prémio de Melhor Álbum, no festival de Angoulême, originalmente publicado em 4 volumes, é uma história magnífica do dia-a-dia, que vendeu mais de meio milhão de livros em França, e que esperamos seja também um sucesso no nosso país.

O Combate Quotidiano
de Manu Larcenet

E, claro, esperamos poder colaborar em mais projectos durante o ano de 2022, sendo que já estamos a fazer propostas a editoras várias para mais títulos.

Vanda Rodrigues (Arte de Autor)
José de Freitas (A Seita)

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

Vencedor do Passatempo "Os Filhos de El Topo: 2"




Já temos o vencedor para o passatempo/giveaway do Vinheta 2020 que tinha o livro Os Filhos de El Topo: 2 para oferecer!

Desta vez, ultrapassámos as 200 participações, feitas através do facebook e do instagram

Foi feito um sorteio através de um site para o efeito (Sorteador.com.br) que, aleatoriamente, escolheu o seguinte participante:


Tiago Silva


Muitos parabéns! Este Os Filhos de El Topo: 2, lançado em Portugal pela Arte de Autor, já é teu!

Quanto a todos os que desta vez não ganharam, resta-me agradecer pelas participações. 

Se concorreste e não ganhaste desta vez, não desanimes porque o Vinheta 2020 terá muitos mais passatempos nos próximos tempos.

Só tens que ir passando no blog e acompanhando as redes sociais do mesmo, para saberes que prémios haverão para oferecer aos leitores deste espaço.

Até já! 




quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Passatempo: Os Filhos de El Topo: 2



GIVEAWAY / PASSATEMPO - Os Filhos de El Topo: 2!!! 

O Vinheta 2020, em conjunto com a Arte de Autor, tem um exemplar de Os Filhos de El Topo: 2 - Abel, de Alejandro Jodorowsky e José Ladrönn, para te oferecer! 

Para te habilitares a ganhar este livro, recentemente publicado em Portugal, e que já mereceu uma análise no Vinheta 2020, só tens de seguir estas condições de participação.


Regras de participação:

1) seguir o Vinheta 2020 (Facebook ou Instagram);

2) colocar LIKE nesta publicação;

3) identificar 3 amigos nesta publicação;


Cada comentário que faças, dá direito a uma participação portanto, podes participar as vezes que quiseres, identificando amigos diferentes. Podes fazê-lo através do Facebook ou do Instagram.

Válido para Portugal Continental e Ilhas.

O vencedor será anunciado no dia 27 de Agosto! 

Boa sorte!

quarta-feira, 8 de julho de 2020

Análise: Os Filhos de El Topo: 2 - Abel



Os Filhos de El Topo: 2 - Abel, de Alejandro Jodorowsky e José Ladrönn

O texto escrito pelo autor Alejandro Jodorowsky, que antecede este segundo tomo de Os Filhos de El Topo: 2 – Abel, é bem claro: a ideia original do autor era que este argumento, que continua os acontecimentos do filme original de 1970, denominado El Topo, fosse transformado num filme. Infelizmente, devido à incapacidade de reunir um orçamento que sustentasse a realização de tal empreitada, o argumento acabou por ser adaptado a uma banda desenhada em 3 volumes.

Este segundo volume, continua os eventos do primeiro tomo, Os Filhos de El Topo: 1 – Caim, que havia deixado os leitores num cliffhanger, quando terminou, meio que abruptamente, com Caim a afundar-se em águas pantanosas. E tal como aquilo que Jodorowsky nos havia dado no filme clássico de 1970, também a história de Os Filhos de El Topo está carregada de elementos bizarros, que nos deixam – não raras vezes - perplexos perante uma história tão "fora da caixa". Originalidade é a palavra de ordem. Mas para muitos, esta será certamente uma originalidade demasiado em "ácidos", dada a loucura narrativa com que Jodorowsky nos premeia.

Quando foi feita a análise ao fantástico Os Cavaleiros de Heliópolis: Rubedo e Citrinitas aqui no Vinheta 2020, já teci as minhas observações sobre as ideias (demasiado?) selvagens do autor, relativamente à construção de uma narrativa. E mantenho que, por vezes, me parece que o autor "chuta" a história para onde bem lhe apetece, perdendo os próprios fios do novelo que ele mesmo cria. E Os Filhos de El Topo não é exceção à regra. Sim, é um livro interessante, com boas ideias, mas com uma história por vezes difusa, que parece ser artificialmente forçada a ter certos elementos do universo fetichista do autor.  

Portanto, e tal como (quase) tudo o que Jodorowsky faz, é justo dizer que há uma consistente inconsistência nesta obra. Ou seja, o autor parece fiel ao seu estilo louco de inventar uma história e há até um bom paralelismo, muito coerente, com o filme El Topo. Esta é a parte em que Os Filhos de El Topo é consistente. Todavia, e goste-se ou não, por vezes a história poderá aparecer algo absurda, levantando algumas pontas que acabam por não ficar bem resolvidas – ou bem exploradas - e introduzindo elementos que, mais do que dotar a história de consistência narrativa, apenas parecem ser introduzidos para chocar e surpreender – gratuitamente – o leitor. Esta será a parte em que considero haver alguma inconsistência na obra, que acaba por ser uma da bandas desenhadas mais niilistas que já li. 

Neste western, carregado de surrealismo e constantes alegorias religiosas, contem com doses gratuitas de violência, como mortes, violações ou tortura, e com bastante sexo e nudez. Mas todos estes elementos estão envoltos numa aura metafísica e filosófica, que toca nos dogmas religiosos – ou não fossem as próprias personagens protagonistas desta história, Abel e Caim, uma ponte direta para a história de Adão e Eva, contida no livro de Génesis, da Bíblia Sagrada.

Detalhando um pouco mais em relação à história que este segundo volume nos traz, é por esta altura que Caim e o seu irmão, Abel, se reencontram, acabando a transportar os restos mortais da sua mãe, que "cheirando a santidade", atrai companhias indesejadas a ambos. Juntam-se aos dois irmãos duas personagens femininas carismáticas. A primeira é uma jovem virgem que está perdidamente apaixonada por Caim. Este, porém, repudia-a veementemente e acaba por oferecê-la a uma comunidade que quer submeter a jovem a uma violação coletiva. A segunda personagem feminina é uma exuberante mulher de fartos seios que enfeitiça Caim, levando-o a prometer-lhe todo o tipo de tesouros. Ainda há espaço para personagens como freiras com caras (e barba!) de homens e para o líder de um exército que se julga - e comporta como - um cão. Abel e Caim põem-se a caminho da sepultura de El Topo, convencidos de que a inocência dos restos mortais que transportam lhes permitirá entrar na ilha santa. Caim procura igualmente apoderar-se dos menires de ouro protegidos por um poder misterioso.

Quanto à arte, devo dizer que Jodorowsky encontrou no ilustrador Ladrönn, a pessoa certa para esta obra. Não tenho dúvidas de que o estilo de arte de Ladrönn era exatamente aquilo que esta obra pedia. Com cores genericamente esbatidas, que por vezes chegam a parecer estar mal pintadas, mas que são alternadas por alguns vermelhos vivos, o resultado estético final é muito interessante e parece remeter-nos automaticamente para o ambiente dos filmes de série b dos anos 70, em especial, e claro está, o de El Topo. Também aqui, na componente gráfica, há uma personalidade muito própria desta obra. É igual a si mesma. Por vezes, as personagens apresentam expressões faciais que me parecem algo mecânicas e pouco expressivas. No entanto, na aridez dos ambientes e cenários, que nos remetem para os clássicos do cinema de Sergio Leone, nas fantásticas ilustrações dos cavalos ou do corpo feminino, Ladrönn faz um excelente trabalho. 

E há ainda um ponto que merece destaque: a fantástica capa deste Os Filhos de El Topo: 2 – Abel. A meu ver, é uma séria candidata a melhor capa do ano. Toda a concepção dos elementos da capa, como as borboletas, e a ilustração quase fotográfica de Abel, bem como as cores abundantemente iluminadas, fazem desta capa uma verdadeira obra-prima. E se tivermos em conta a própria componente simbólica das borboletas em torno de Abel, o significado subjacente ainda é mais profundo. Magnífica e inesquecível.

Além do mais, e como se não bastasse, a qualidade da edição da Arte de Autor, está, uma vez mais,  para lá de excelente. Com uma capa detentora de uma textura aveludada, tão agradável ao toque, e com verniz aplicado às borboletas e letras, é (mais) um objeto lindíssimo que a Editora traz aos leitores portugueses.

Concluindo, esta é um obra de tudo ou nada. Ou se ama, ou se odeia. Tem demasiada personalidade. E à semelhança do filme El Topo, que por ser proibido nas salas de cinema mainstream, acabou relegado para exibições à meia-noite em cinemas pornográficos, também a saga d'Os Filhos de El Topo tem potencial para atingir um bom número de pessoas que encontra redenção numa história tão pautada por elementos únicos. Ou seja, é uma história de culto. Uns vão considerá-la como algo épico e genial, enquanto que outros vão considerá-la como algo doido e gratuito. Quem está certo? Ninguém. É na diversidade de gostos estéticos que há beleza. Não é um livro para todos. Mas muitos, vão adorar.


NOTA FINAL (1/10):
8.0


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Ficha técnica
Os Filhos de El Topo: 2 - Abel
Autores: Alejandro Jodorowsy e José Ladrönn
Editora: Arte de Autor
Páginas: 72, a cores
Encadernação: capa dura
Lançamento: Julho de 2020