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quinta-feira, 16 de outubro de 2025

Análise: O Homem de Negro

O Homem de Negro, de Panaccione e Di Gregorio - ASA - Grupo LeYa

O Homem de Negro, de Panaccione e Di Gregorio - ASA - Grupo LeYa
O Homem de Negro, de Panaccione e Di Gregorio

Com uma aposta séria nas obras de Grégory Panaccione, que este ano já nos deu três belíssimos livros (Um Oceano de Amor, Alguém Com Quem Falar e este novo livro que hoje vos trago), a ASA editou mais recentemente O Homem de Negro, que conta com argumento de Giovanni Di Gregorio e que foi originalmente lançado no seu mercado de origem em 2024. Há pouco tempo, portanto.

Esta é uma história bastante marcante, que ressoa em nós já depois de finalizarmos a sua leitura e que reafirma a qualidade de Panaccione enquanto autor de banda desenhada. "Cada tiro, cada melro" e, pela terceira vez, estamos perante um emocionante livro que, neste caso, se preocupa em falar-nos do abuso a menores.

A história centra-se na vida do pequeno Mattéo, um rapaz que, aparentemente, tem uma vida absolutamente normal. Tem dois pais que o amam, tem um cão, Tommy, de quem é inseparável, e ainda tem um amigo que o acompanha nas atividades na escola, seja na sala de aula, seja a jogar futebol no recreio. O contexto socio-económico em que está inserido também tem tudo de normal.

Porém, Mattéo é uma criança atormentada e, quando a noite cai e é hora de ir para a cama, tem pesadelos com um homem de negro que o faz urinar na cama e procurar abrigo no quarto dos pais. E o que poderia parecer um "excesso de mimo" ou uma simples incapacidade motora é, na verdade, consequência direta do abuso perpetrado por um(a) adulto(a) que assume essa posição que a nós, adultos, nos repugna, mas que, para as crianças, mais frágeis e inseguras, pode representar um autêntico pesadelo que as impede de prosseguir com a sua vida e saudável crescimento. Um autêntico trauma.

O Homem de Negro, de Panaccione e Di Gregorio - ASA - Grupo LeYa
E como em todos os traumas, por mais difíceis que possam ser, a atitude certa a fazer é enfrentá-los de frente, com coragem. Assim, também Mattéo percebe que a única forma de se libertar das garras do(a) "homem de negro" é enfrentá-lo(a) de frente. Este confronto não é apenas físico ou literal; trata-se, isso sim, de uma batalha emocional e psicológica que marca a transição do medo à coragem. A narrativa desenvolve-se, pois, de forma a que o leitor acompanhe o crescimento interno do protagonista, tornando a experiência empática e envolvente. É impossível, com o nosso olhar de adultos sãos, não sentirmos pena desta personagem frágil face ao abuso de que é vítima.

Esta é uma história que nos mantém sempre colados à mesma, querendo saber o seu desfecho. Desfecho esse que, devo dizer, naturalmente não será aqui relevado embora fique bastante claro logo a meio da leitura. O que acaba por ser, quanto a mim, uma fraqueza.

O tema central da obra, que é o abuso a crianças por parte de gente adulta, é tratado de forma subtil, mas eficaz. E embora o abuso em questão seja bastante implícito, nunca nos é revelado de forma direta ou gráfica. Isso não invalida que seja, porém, menos chocante ou que o nó na barriga não se nos instale. Esta abordagem subtil permite que o livro seja adequado para leitores mais jovens, enquanto consegue manter, ao mesmo tempo, profundidade suficiente para adultos, mostrando a capacidade dos autores em abordar temas perversos sem um choque visual gratuito.

Tenho lido por essa internet fora muita a gente a dizer que este livro deve ser mantido fora do alcance das crianças. Ora, eu não poderia discordar mais disso. Pelo contrário, considero ser perfeitamente ajustado para crianças. Não digo que seja apenas direcionado a um público infantil, digo que as crianças também o devem ler. É claro que leitores adultos também irão beneficiar da leitura - e se calhar a um nível mais intenso -, mas a forma como a história é construída permite que crianças percebam o caráter errado do abuso e a necessidade de denunciar comportamentos abusivos. E tudo isto devido a esta tal abordagem subtil já mencionada. A narrativa consegue, assim, cumprir uma função educativa e preventiva, sem recorrer a cenas explícitas.

Neste sentido, o livro possui um caráter didático muito relevante. Ensina que qualquer forma de abuso não é normal e deve ser confrontada. Este tipo de mensagem é extremamente pertinente no contexto escolar e familiar, oferecendo aos mais jovens ferramentas cognitivas e emocionais para reconhecer situações de perigo e compreender a importância da denúncia e da proteção pessoal.

Assim, se querem que vos diga, considero que este livro deveria ser comentado e debatido nas escolas portuguesas. Primárias e preparatórias. A forma como aborda o medo, o abuso e o empoderamento pessoal oferece múltiplos pontos de discussão: compreensão de emoções, mecanismos de defesa, confiança em adultos de referência e a importância de enfrentar situações adversas. Um debate estruturado pode, portanto, potenciar ainda mais o valor educativo deste livro. 

O Homem de Negro, de Panaccione e Di Gregorio - ASA - Grupo LeYa
O trabalho de Panaccione em O Homem de Negro é absolutamente soberbo. A sua arte consegue equilibrar, com uma mestria rara, uma estética bela e delicada, empática ao universo infantil que envolve a vida de Mattéo, com momentos de grande densidade emocional e tensão visual. As cores garridas e o traço rápido e nervoso do autor conferem ao quotidiano do protagonista uma aura de inocência e serenidade, que contrasta de forma magistral com a opressão das cenas em que surge o(a) famigerado(a) "homem de negro". Nesses momentos, o artista não recorre a qualquer excesso gráfico; o horror é sugerido, nunca mostrado, mas sente-se de forma plena através da extraordinária expressividade das personagens, em especial de Mattéo, cujo olhar e postura denunciam medo, impotência e, mais tarde, coragem.

A planificação de Panaccione também é igualmente notável. As ilustrações de dupla página amplificam o dramatismo das cenas mais intensas, criando pausas visuais que mergulham o leitor na dimensão emocional do protagonista. Não é um livro fácil de ilustrar, parece-me, pois exige o domínio do tom e da sugestão, mas o autor supera as dificuldades com nota máxima, demonstrando um controlo absoluto da narrativa visual. E tudo começa, desde logo, com a capa, uma peça gráfica de enorme impacto: elegante no uso do espaço negativo, visualmente harmoniosa e, ao mesmo tempo, cheia de simbolismo, pois antecipa o tom da obra.

Um ponto que talvez pudesse ter sido mais bem orquestrado é, conforme já referi, o desfecho da história do livro que é perceptível bastante cedo, o que diminui o impacto do suspense. É um daqueles casos em que o plot twist so o é para quem estivesse muito distraído mesmo. Talvez os autores pudessem ter explorado este final de forma mais inesperada, reforçando o efeito psicológico da história sobre o leitor. 

Outro ponto menos bom é que o final é demasiadamente explicativo. Os adultos percebem facilmente o que ocorreu com Mattéo sem necessidade de tantos detalhes em voz off. Julgo que isso até acaba por quebrar a emoção que passa para o leitor. As explicações extensas são, portanto, mais direcionadas a leitores infantis, para que compreendam a história sem ambiguidades, o que reforça a minha ideia de que o livro (também) é adequado para públicos infantis. Que tenham uma maturidade mínima e uma idade a partir dos 9/10 anos, claro. 

Seja como for, não são estas duas questões que impedem este livro de ser mais uma excelente aposta por parte da ASA. Fica, quanto a mim, alguns furos abaixo das outras duas obras do autor por cá editadas até à data, mas continua a ser um livro que recomendo fortemente.

Em termos de edição, e contrariamente a Um Oceano de Amor e Alguém Com Quem Falar, este O Homem de Negro apresenta capa dura. No miolo, o livro tem papel brilhante, de boa qualidade, e uma boa impressão e encadernação.

Em suma, estamos perante uma obra que consegue abordar temas complexos como o abuso e o medo de forma sensível e educativa. A narrativa é suficientemente subtil para crianças, mas suficientemente profunda para adultos, sendo muito mais do que uma história sobre medos infantis ou pesadelos recorrentes: é uma metáfora poderosa sobre o trauma e o silêncio, transformando o terror íntimo de Mattéo num espelho do sofrimento de muitas crianças que vivem situações de abuso e não sabem como pedir ajuda. Assim, esta obra é, sobretudo, um grito por ajuda dirigido à sociedade, lembrando-nos da urgência de reconhecer, ouvir e proteger as vozes mais frágeis.


NOTA FINAL (1/10):
9.2

Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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O Homem de Negro, de Panaccione e Di Gregorio - ASA - Grupo LeYa

Ficha técnica
O Homem de Negro
Autores: Panaccione e Di Gregorio
Editora: ASA
Páginas: 112, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 275 x 205 mm
Lançamento: Setembro de 2025



terça-feira, 15 de abril de 2025

Análise: Alguém Com Quem Falar

Alguém Com Quem Falar, de Grégory Panaccione - ASA

Alguém Com Quem Falar, de Grégory Panaccione - ASA
Alguém Com Quem Falar, de Grégory Panaccione

Ainda não chegou às livrarias portuguesas - embora já se encontre em pré-venda no site da editora ASA há alguns dias -, mas já tive a oportunidade de lê-lo! Falo de Alguém com Quem Falar, do autor francês Grégory Panaccione, o mesmo ilustrador do indispensável Um Oceano de Amor, também publicado este ano pela editora ASA.

Desta feita, temos uma obra que adapta para banda desenhada o romance original homónimo de Cyril Massarotto e que tem como protagonista a personagem de Samuel, um homem de meia idade que vive a sua vida de forma solitária, tendo um emprego de que não gosta, um patrão que não suporta e apenas um casal de idosos vizinhos como os seus únicos amigos.

Alguém Com Quem Falar, de Grégory Panaccione - ASA
Por alturas de mais um aniversário passado em solidão, Samuel embebeda-se de forma a encarar o tédio e a carência afetiva que o habita, e decide ligar para o único número de telefone que ainda retém na sua memória: o da casa onde passou a sua infância. Para seu espanto, quem lhe atende a chamada é um jovem rapaz de 10 anos, com o mesmo nome. A conversa vai fluindo até que Samuel se dá conta que o rapaz com quem está a falar é, na verdade, ele mesmo quando tinha 10 anos. Primeiramente, o protagonista revela-se perplexo mas, paulatinamente, vai sentindo uma necessidade constante de falar consigo mesmo, numa versão mais jovem.

Dito assim, pode parecer um artifício narrativo algo rebuscado e dado à fantasia, mas na verdade, é uma forma de, em sentido figurado, claro, colocar a personagem a falar com o seu eu jovem, o seu eu propenso a sonhos, a vontades e a positividade. O exato oposto do que se tornou a vida de Samuel. E o que é mais interessante é que o "Samuel criança" revela-se profundamente desiludido com o "Samuel adulto", pois, com a passagem dos anos, este tornou-se num homem solitário, sem ninguém com quem partilhar a vida, que mal tentou seguir os seus sonhos, como jogar futebol ou escrever um livro, e, por oposição, se arrasta num emprego que o deixa infeliz e sem qualquer autoestima.

Alguém Com Quem Falar, de Grégory Panaccione - ASA
Será que todos nós, pelo menos em algum momento das nossas vidas, não desejámos falar com o nosso eu criança? Perguntar-lhe se ele estava satisfeito com a pessoa em que nos havíamos tornado? Será que nunca achámos que a nossa vida derivou muito dos sonhos ingénuos e imberbes que tínhamos durante os tempos da nossa infância?

Esta é uma obra que surpreende pelo equilíbrio delicado entre a profundidade emocional dos temas que aborda e a leveza narrativa. Desde as primeiras páginas, sentimos que estamos diante de algo especial: uma história simples à primeira vista, mas que ressoa com uma força inesperada. 

Um dos grandes méritos da obra é a forma como trata um tema tão denso - o vazio existencial, a solidão, a perda dos sonhos de juventude - com um tom que nunca se torna pesado. Pelo contrário, há sempre uma ponta de humor, de ironia leve, que torna a leitura fluída e até prazerosa, mesmo nos momentos mais melancólicos. Isso contribui para tornar o livro uma excelente porta de entrada para quem quer começar a ler banda desenhada, sem se sentir sobrecarregado.

Alguém Com Quem Falar, de Grégory Panaccione - ASA
O humor subtil que permeia a narrativa é, portanto, outro dos trunfos de Alguém com Quem Falar. Surge nos momentos certos, como uma válvula de escape, como um lembrete de que a vida, apesar de tudo, continua a ter graça. Esse equilíbrio entre drama e leveza é difícil de alcançar, mas Panaccione fá-lo com uma naturalidade impressionante.

Ao longo da leitura, é natural sentirmos empatia pelas personagens. Não apenas por Samuel na sua versão adulta, mas também pelos amigos idosos do protagonista, pelo Samuel jovem e, claro, pela bela Li-Na, a rapariga nova do escritório que vai mudar a vida de Samuel. 

A forma como a história é contada permite ao leitor refletir sobre si mesmo. Não há aqui grandes reviravoltas - bem, talvez haja uma reviravolta que poderá surpreender alguns leitores mais incautos - nem eventos extraordinários. O que há é "a vida", com as suas rotinas, desilusões e pequenos gestos de reconciliação com o próprio e com os outros. É uma história que nos obriga a parar e a pensar no que deixámos para trás, nos sonhos que enterrámos com o tempo. Será altura de os resgatarmos enquanto é tempo?

Alguém Com Quem Falar, de Grégory Panaccione - ASA
Admito que havia um vasto potencial de opções narrativas com a possibilidade de colocar em contacto direto o "Samuel adulto" com o "Samuel criança" e que o autor - possivelmente em consonância com a obra original - optou por não aproveitar. Especialmente ao nível de como poderia o "Samuel adulto" ajudar o "Samuel criança" a lidar com os problemas inerentes à sua idade e ao seu crescimento, tendo em conta que já os tinha superado. Não obstante, é válido e bem conseguido o caminho narrativo escolhido pelo autor e estas questões que levanto talvez tornassem a obra densa de mais ou menos focada na ideia principal.

Em termos de desenho, Panaccione oferece-nos mais uma obra bastante bela. Não me conquistou tanto como em Um Oceano de Amor, mas, ainda assim, conquistou-me. O seu traço é simples, mas notavelmente expressivo. As expressões faciais exageradas, quase "cartoonescas" por vezes, ajudam a amplificar os sentimentos das personagens de maneira imediata. Esta abordagem especialmente expressiva, por vezes exacerbada num tom quase caricatural, não é um mero capricho estético - é um recurso narrativo inteligente, que dá voz às emoções das personagens de forma imediata e acessível. Cada rosto, cada gesto carrega uma intenção clara, uma emoção palpável. O que é impressionante!

Alguém Com Quem Falar, de Grégory Panaccione - ASA
Os desenhos brilham especialmente nos momentos em que os dois "Samuéis" se cruzam em diálogos que ocorrem em verdejantes paisagens. Há um ritmo visual muito bem conseguido, com o uso eficaz de silêncios, planos largos e enquadramentos que contam mais do que aquilo que as palavras poderiam dizer. É (mais) um exemplo de como a linguagem da banda desenhada pode ser tão ou mais rica do que a prosa tradicional!

A edição da ASA é em capa mole com badanas e com o miolo a apresentar bom papel baço e um bom trabalho a nível de impressão e encadernação. Mais uma vez, refiro que, tal como em Um Oceano de Amor, considero que se justificava uma edição em capa dura. Mesmo assim, tenho que admitir que é uma opinião muito pessoal - também há argumentos válidos para a opção pela capa mole - e que, apesar de tudo, estamos perante uma edição decente que não faz desmerecer a obra pela opção tomada.

Em suma, Alguém Com Quem Falar é uma celebração da humanidade falível, com todas as suas dúvidas e redescobertas. É uma obra que reúne qualidades narrativas, visuais e emocionais que a tornam acessível, profunda e inesquecível. É o tipo de livro que não se lê apenas, mas que se vive — e que, por isso, recomendo vivamente a quem esteja a começar a explorar o mundo da BD, ou a qualquer leitor que valorize histórias humanas contadas com sensibilidade e inteligência. Talvez porque, no fundo, todos procuramos "alguém com quem falar", alguém que nos ouça sem julgar, que nos ajude a ver com outros olhos aquilo que nos parece ser um caminho sem saída. E essa mensagem é passada neste Alguém Com Quem Falar com uma candura que fica connosco muito depois de fecharmos o livro.


NOTA FINAL (1/10):
9.6




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Alguém Com Quem Falar, de Grégory Panaccione - ASA

Ficha técnica
Alguém Com Quem Falar
Autor: Grégory Panaccione
Editora: ASA
Páginas: 256, a cores
Encadernação: Capa mole
Formato: 268 x 205 mm
Lançamento: Abril de 2025

terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

Análise: Um Oceano de Amor

Um Oceano de Amor, de Lupano e Panaccione - ASA - LeYa

Um Oceano de Amor, de Lupano e Panaccione - ASA - LeYa
Um Oceano de Amor, de Lupano e Panaccione

Ainda o ano 2025 vai tão no seu começo e uma coisa já é óbvia para mim: Um Oceano de Amor figurará entre as minhas melhores leituras de banda desenhada do ano! Este é um livro delicado, belo, poético, original, marcante e que, através de todas as sensações que evoca, nos consegue tocar de tal forma que ora vamos às lágrimas de comoção, ora vamos às lágrimas de riso. Ainda não chegou às livrarias portuguesas - deverá estar disponível a partir de 4 de Março - mas já tive o privilégio de o ler.

E começo por falar da edição. Esta é uma aposta da editora ASA que me parece algo "arriscada". E porquê? Bem, porque estamos a falar de um livro que foi originalmente lançado há mais de 10 anos, em 2014, e que, para além disso, ainda é mudo. Não há qualquer fala ou balão. A aposta da ASA assume-se, pois, como "arriscada", embora extremamente bem-vinda, porque é bem possível que muitos dos leitores portugueses já tenham tomado contacto com uma edição estrangeira deste livro. E, sublinho, tendo em conta que a obra não tem qualquer texto, esses leitores portugueses bem que podem ter comprado a edição húngara ou finlandesa da obra - se existirem - pois, certamente a perceberam do mesmo modo.

Um Oceano de Amor, de Lupano e Panaccione - ASA - LeYa
Portanto, e tendo em conta a recentemente incrementada aposta da ASA em banda desenhada de primeira qualidade, parece-me que a razão da aposta da ASA neste Um Oceano de Amor se prende apenas com isso mesmo: a sua qualidade intrínseca. É a aposta em depositar no mercado nacional uma banda desenhada de qualidade superior a que é difícil ficar indiferente. E isso merece o meu aplauso!

De resto, este era um livro que há muito eu queria ler. Já o tinha folheado várias vezes em loja, mas, por razõe$ várias, não o tinha ainda comprado. E ainda bem que agora temos o livro disponível em Portugal! Porque é um livro maravilhoso! 

A edição da obra é em capa mole sem badanas. No miolo, o papel é baço e de boa qualidade, com uma boa impressão e uma encadernação aceitável. Dada a qualidade da obra, acho que a mesma merecia uma edição em capa dura ou, pelo menos, em capa mole com badanas. No entanto, e pelos motivos apontados mais acima, creio que a editora apostou numa edição mais humilde - ou não tão cara de produzir - devido ao risco de editar a obra. Como se fosse um risco assumido, mas controlado. É uma suposição apenas, atenção. Seja como for, a edição é boa. Não é fantástica, mas é boa. Portanto, não tenham medo de a adquirir. E, sim, este é mesmo um daqueles livros para colocarem na vossa lista de compras.

Um Oceano de Amor, de Lupano e Panaccione - ASA - LeYa
Falando agora sobre a obra em si, permitam-me dizer-vos que Um Oceano de Amor nos conta a história de um pescador da Bretanha. Como tantos outros, todos os dias se levanta ainda de madrugada para se fazer ao mar, como forma de salvaguardar o seu ganha-pão. Mas há um dia em que o seu pequeno barco é acidentalmente pescado por um gigante navio-fábrica, daqueles que em poucos segundos arrastam cardumes inteiros para as suas enormes redes de pesca. Isso obriga a que o pescador não volte para casa onde a sua devota esposa está à sua espera. 

Este é o gatilho para que o leitor embarque nesta aventura que se divide em duas jornadas paralelas: a do próprio pescador, que tenta sobreviver num mar que raramente dá tréguas, e a da sua esposa que, corajosamente, põe mãos à obra de forma pró-ativa e vai tentar encontrar o seu marido onde quer que ele esteja. Sobre a história sinto que não devo dizer mais nada, pois é nesta jornada dupla que a aventura, a ilusão e a beleza deste livro estão contidas. 

E ainda que seja um livro sem qualquer fala, permitam-me dizer-vos que o argumento arquitetado por Wilfrid Lupano (também autor de Branco em Redor, da Arte de Autor, entre muitas relevantes outras obras) é verdadeiramente impressionante. A história está carregada de bons momentos - alguns divertidos, outros tristes e ainda outros que até nos fazem refletir sobre a atual sociedade - e nunca parece forçada, longa ou curta demais. Está na medida certa.

Um Oceano de Amor, de Lupano e Panaccione - ASA - LeYa
Se a história é bela, os desenhos de Grégory Panaccione são um autêntico deleite para a vista! As bandas desenhadas mudas são sempre um grande desafio para os desenhadores, pois importa fazer passar o sentido e significado da história sem a ajuda das palavras. Os desenhos, os eventos, os cenários e as expressões das personagens têm que ser, consequentemente, inequívocos na interpretação. E aqui, são-no certamente. Panaccione consegue mergulhar-nos nas expressões profundas, nos momentos hilariantes e nas situações mais introspetivas de forma magistral.

Os desenhos são bastante "cartoonescos", com Panaccione a oferecer-nos um traço caricatural e incrivelmente expressivo, que facilmente cativa o leitor. São "bonecos" com expressões demarcadas que nos conquistam e nos tocam perante as adversidades com que se deparam ao longo das suas caminhadas. O desenho da imensidão do mar também é especialmente bem conseguido por parte do autor, que parece agarrar em nós, leitores, e largar-nos em plenas vagas do oceano revolto. 

Para que os desenhos sejam tão belos e, em certa medida, tão oníricos, também conta que as ilustrações sejam magnificamente coloridas através de aguarela, o que dá um aspeto requintado e artístico a toda a arte visual. No fundo, é um livro que dá gosto apreciar, perdendo em algum tempo com cada ilustração, seja ela grande ou pequena em dimensão.

Acima de tudo, e em conclusão, Um Oceano de Amor revela-nos a quantidade de coisas que podemos dizer sem emitir qualquer palavra, a quantidade de sons que podemos emitir sem produzir qualquer ruído e a quantidade de amor, emoção e ternura que um conjunto de rabiscos coloridos - vulgo, desenhos - conseguem produzir no leitor. É magia aquilo que Lupano e Panaccione conseguem fazer neste livro, transformando-o numa obra prima da banda desenhada e num livro absolutamente obrigatório!


NOTA FINAL (1/10):
10.0




Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Um Oceano de Amor, de Lupano e Panaccione - ASA - LeYa

Ficha técnica
Um Oceano de Amor
Autores: Lupano e Panaccione
Editora: ASA
Páginas: 224, a cores
Encadernação: Capa mole
Formato: 275 x 206 mm
Lançamento: Fevereiro de 2025